domingo, 28 de abril de 2013

Quem tem medo de Sylvia Plath?


Toda a gente sabe que mulheres que lêem são perigosas. E que mulheres que lêem e escrevem são fatais. Historicamente, as mulheres foram sempre mais vulneráveis à loucura pela identificação romanesca. Sylvia Plath, encontrada morta na sua casa, a 11 de Fevereiro de 1963, com a cabeça dentro do forno e o gás ligado, tornou-se o ícone pop da femme fatale que lê e escreve. Bonita, inteligente e perturbada, o seu nome foi usado para designar o célebre ‘efeito Plath’, uma suposta propensão das poetisas para os distúrbios mentais. Devota das palavras certeiras, Sylvia consagrou a sua vida ao “grande striptease”, confundindo literatura e vida. Em Lady Lazarus, escreveu sobre as suas tentativas de suicídio:
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
O que quase ninguém sabe ou diz é que existem textos que matam. Textos que deixam as mãos, os olhos e os ouvidos ensanguentados. Palavras que incitam à revolta, ganas de sair pelas ruas gritando o que todos calam, que assim, meus senhores, não se pode viver. É preciso inventar uma outra vida que não estes dias chãos, dias de cão roendo os ossos e as vísceras. Inventar um amor novo, louco e forte, para derrotar o medo que corrompe as falanges. A vida inteira revisitada e não se encontra recordação que sirva de mastro, farol ou almofada. Tudo tão violento para depois se morrer no fim. Textos assassinos cujas palavras, dispostas numa determinada sequência, nos amarrotam o peito com uma mão negra e tornam a morte certa e inevitável.
Suspeitei desde cedo que as palavras não são tão inofensivas como a presente cultura da imagem pretende fazer esquecer e que tudo pode ser textualmente produzido, desde o amor à morte. Ou: sobretudo o amor e a morte. E foi nas palavras de Sylvia Plath no poema Three Women que encontrei a minha primeira grande máquina de morte escrita, numa encenação teatral da qual saí lívida e assustada.
When I first saw it, the small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office.  They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,

And the man I work for laughed:  'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.'  And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
Assustada de morte. De repente, era tarde demais. Tarde demais para desejar, tarde demais para descansar. O mistério da vida revelava-se sob a forma de uma pergunta atroz, impedindo qualquer respostas que não fosse violenta. Exposto aos sons destas letras, o corpo perdia a sua capacidade de ser casa e quietude. Expulso da vida, estava entregue à noite e ao silêncio.
Mas nem todos os textos matam de um só golpe. Existem outros que se instalam nos escaninhos da alma e lentamente a corroem até à derrocada. No entanto, esta morte textual não está destinada a todos e é imprevisível. Depende da sequência das leituras e só acontece a quem aceita tomar o tempo e o pensamento com a mesma compulsão voraz de quem toma uma droga. Os dias sucedem graves e mesmerizados como estátuas de gelo, cada minuto sacrificado no altar do demónio internalizado. É assim que se caminha e cai ao mesmo tempo, e da alegria mais fértil nasce o desespero mais daninho.
Sobrevém depois o grande abalo. O chão treme como um dia a cabeça desejou e os pés já não dançam como antes. Dentro do corpo tudo se escoa e converte em detrito e fica-se a sós com um grande medo que não autoriza esquecimento ou sono. É-se tomado por uma tristeza que não nos pertence, um bicho arcaico vindo de tempos remotos para se alojar num organismo estranho e parasitar as suas entranhas.
Mas nem sempre se acaba com a cabeça dentro do forno. Às vezes, um texto assassino é o golpe de misericórdia necessário para uma mulher se parir a si mesma. E é possível regressar das mortes múltiplas sibilando baixinho: a literatura é sobretudo exercício de queda e voo. Nela dificilmente encontrarás amparo ou abrigo, coração excessivo. É preciso que continues caindo para a frente e descubras como pode uma morte convalescer. Felizmente, existe também a música. 

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