terça-feira, 22 de julho de 2008

A Esteticização da Vida Moderna


«Não existem livros morais ou imorais. Os livros são mal ou bem escritos. É tudo.»

O Retrato de Dorian Gray é um livro fascinante, embriagante e alucinatório. Um veneno misterioso perpassa pelos aforismos amorais de Lord Henry, pela estecização da experiência implementada por Dorian Gray e pela cadência musical das palavras reunidas por Óscar Wilde.

Dorian Gray é um jovem, belo e inútil, um Adónis de virtudes e inocência que aceita posar para o pintor Basil Hallward, sem perceber o poder sublime da sua beleza. A consciência desse poder e a semente do vício brotam nele no dia em que conhece Lord Henry e contempla o seu próprio retrato finalizado. Qual jovem Narciso ou Fausto, Dorian Gray formula então o desejo de que a sua imagem jovem e bela se perpetue no seu rosto e que a degradação e a velhice atinjam apenas o seu retrato.

Cumprido misteriosamente o seu desejo, Dorian Gray empenha-se numa vida de prazeres mundanos e vícios, cujo marca perturbadora ele vai observando no seu retrato, cedendo a todas as tentações, de modo a minar todos os códigos do monstruoso, do imoral e do ilegal, sob o altar do seu valor estético. «A consciência e a cobardia são uma e a mesma coisa. A consciência é apenas a marca comercial da firma». Dorian Gray procura saborear ao extremo o sabor de todas as tentações e pecados, com o objectivo de escapar ao sofrimento – avaliando cada acto pelo valor estético da sua sensação – em busca de uma juventude e alegria sem limites. Tudo se pode converter num prazer delicioso, até mesmo a acção mais abjecta, desde que repetida suficientes vezes – esta é a regra do vício que comanda as demandas de Dorian e o transforma em espectador da sua vida como se de uma obra de arte se tratasse.

«A vida não se rege pela vontade ou pelas intenções. A vida é uma questão de nervos, de fibras, de células lentamente edificadas onde se oculta o pensamento e a paixão tem os seus sonhos. Podes julgar-te seguro e achares-te forte. Mas a tonalidade circunstancial de uma sala, ou um céu matinal, ou determinado perfume que em tempos apreciaste e traz consigo subtis memórias, um verso de poema esquecido com que de novo te deparas, a cadência de uma peça musical que deixaste tocar… digo-te, Dorian, que é dessas coisas que depende a vida.»

Ao desafiar todas as leis da afectividade em nome de uma salvação da alma pelos sentidos, Dorian Gray acaba por perder a sua alma, sob o choque perpétuo das experiências intensas, restando-lhe apenas a sua imagem degradada para contemplação: um espectador de si próprio reduzido ao mistério do visível, que ousa ultrapassar num acto de fúria contra o seu duplo e que lhe arrebata a vida. As grandes paixões devem vergar-nos ou partir. Ou nos matam ou acabam por fenecer. As mágoas e os amores superficiais perduram enquanto os grandes amores e dores são eliminados pela sua própria plenitude, como se houvesse no homem um mecanismo de defesa, semelhante á estrutura traumática, que o protege de experiências intensas ou o arruína para toda a vida.



O fim trágico-cómico de Dorian Gray resulta da vontade que o protagonista sente em experimentar uma última sensação, o castigo – a religião e a literatura sempre afirmaram que todo o crime tem um castigo – e na impossibilidade de realização deste último desejo. O único carrasco que resta no púlpito é o olhar dos outros que atravessa o nosso reflexo no espelho e perturba o curso da aventura individual que determinámos para nós. Numa época em que tudo faliu, em que cadafalso nos podemos sacrificar senão no no altar do próprio?



«A verdadeira razão por que todos nós pensamos tão bem dos outros é que todos temos
medo de nós próprios. A base do optimismo é o puro terror.
»

domingo, 13 de julho de 2008

Em Nome da Terra



Depois do êxtase de Na Tua Face, optei por ler mais um livro de Vergílio Ferreira para ver se me curava da obsessão. Escolhi Em Nome da Terra, um conjunto de reflexões de um homem idoso, despejado num lar pela filha, que se dedica a recriar a imagem do corpo e da história da sua mulher, até que a terra o engula com o seu apelo derradeiro.

A descrição da vida no lar é extremamente bem conseguida: um conjunto de seres aposentados de ser gente, à espera da morte enquanto vão ruminando as contas finais com a vida. Foi exactamente o que senti quando entrei pela primeira vez num lar há uns anos atrás para visitar uma vizinha minha com cara, cabelos e mãos de bruxa que alegrou a minha infância com a sua extrema bondade, doces e alguns bibelots, e que o meu coração sentiu sempre como uma avó autêntica. Era uma senhora muito magra e independente até que os filhos a decidiram colocar num lar, após a morte do marido, de modo a poderem apoderar-se com alguma antecipação dos bens da velhota, sem terem que esperar que o destino acertasse as contas com ela.

«Os filhos são uma invenção da nossa fraqueza, o modo mais barato de se ser eterno. Um modo proletário de ser Deus (…). Porque um filho, pois, é um ser sagrado. Mas o sagrado está também neles por acréscimo e quando se tira o acréscimo o que lá fica é quase sempre um estupor» (p. 39).

Após alguns meses, decidi visitá-la porque lhe tinha prometido que, mesmo vivendo em Lisboa, nunca me esqueceria de a visitar sempre que fosse ao Algarve. Ela não sabia que era e será sempre uma das figuras mais encantadoras dos meus tempos de criança tímida. Foi uma das visões mais deprimentes da minha vida: ao entrar na sala de estar, contemplei rapidamente um conjunto de velhos sentados em torno de uma televisão cujo som ensurdecedor não os despertava da espera obstinada da morte. Nos seus olhos a marca cinzenta do abandono e da desistência. Todos juntos mas irremediavelmente só sem paciência nem alento para atentar na desistência alheia.
Com algum esforço, lá reconheci a minha adorada vizinha com cara de bruxinha, com os cabelos brancos, outrora compridos até aos joelhos que usava sempre atados e cobertos por um lenço, curtos e soltos junto ao pescoço. Estava muito bonita, parecia agora uma boneca aristrocrata alva numa quietude partilhada com os anjos. Completamente alheada de tudo o que acontecia em torno de si, olhava-me sem reconhecer e falava com a minha mãe num delírio comovente que, ela julgava ter lugar à 30 anos atrás, quando existia apenas o meu irmão mais velho e ela ainda vivia ao nosso lado, útil, independente e bondosa. Terminada a hora do lanche que consistia num frugal pão com manteiga e copo de leite, despedimo-nos e decidi que nunca mais lá voltaria, para não ver os seus olhos cinzentos líquidos de ruína e recordações a sós com algumas contas ainda por liquidar.

«Gostava de me sentir livre de tudo, a gente carrega imensas coisas às costas, mesmo sem darmos conta, mesmo sem sabermos. As coisas do nosso uso, as pessoas das nossas relações, os hábitos da nossa monotonia, as ideias do nosso sustento mental. Tudo isso ocupa um espaço enorme do nosso ser (…). O homem investe-se nas coisas e no resto porque é carga a mais para si. Deus fez-nos cheios de buracos na alma e o nosso dever é tapá-los a todos para navegar (…). Prepararmo-nos para a morte é irmos morrendo tudo até ficarmos só cheios de nós» (p. 39).

Era qualquer coisa como isto que ouvi o José Saramago dizer recentemente na apresentação do novo romance do Mia Couto: vivemos com a ilusão de que sabemos o que a morte é, mas quando nos deparamos com essa experiência, percebemos que se trata de um mistério que nos ultrapassa. Dizia o Saramago que quando o pai morreu percebeu que não sabia que ele tinha sido, mas que o melhor que podemos fazer com as pessoas velhas é deixá-las em paz pois elas têm tanto a resolver consigo antes de poderem partir.

Temo que o mesmo me aconteça com o meu pai. Gostava de saber a sua história, as suas vitórias e as suas derrotas e falhas, as recordações mais queridas e aventuras mais despropositadas da sua infância e juventude, mas a sua complicada história com a minha mãe, onde eu vim a nascer enquadrada, tornou impossível este diálogo, porque conflituante com a outra versão dominante, fazendo da nossa história de amor entre pai e filha, uma ausência de ternuras ditas em voz alta. Porque estas, as palavras de ternura e partilha, nunca assentaram bem nos campos de batalha.

Mas será que alguma vez os filhos compreendem ou suspeitam do ser gente dos pais? E os pais será que conseguem adivinhar a verdadeira natureza dos filhos? Seremos alguma vez capazes de retirar o acréscimo de sagrado e mágoas que acumulamos ao longo de uma vida?

A morte é talvez o único striptease magistral e eu gostava de o fazer aos 99 anos.

domingo, 29 de junho de 2008

A Verdade de Cada Face


Há muito tempo que um romance não me enchia tanto: depois de ler Na Tua Face de Vergílio Ferreira dei por mim a voltar ao início do livro, como se apenas me apetecesse ler e reler aquela história até deixar de me sentir tão saciada e poder voltar às minhas deambulações de leitora compulsiva. Já tinha lido Aparição quando tinha 15 anos, mas na altura o autor não me tocou tanto, talvez porque não estivesse numa altura de contemplação. Provavelmente, o existencialismo é uma coisa que vem com a idade, só a partir de certa altura encontramos uma certa velocidade lenta para observar, entender e sobretudo aceitar que as coisas são como são, sem as podermos encaixar rigidamente em categorias demasiado estreitas, como o bem e o mal, o belo e o feio, o amor e o ódio. Afinal, somos humanos, demasiado humanos, embora uns o sejam mais que outros.

«O feio. O horrível. Onde é que estão? Porque são uma invenção nossa, a Natureza está-se perfeitamente nas tintas. Ou é imensamente generosa como Deus e na generosidade cabe tudo. Ou é estúpida como o que simplesmente existe e não tem estética nenhuma ou estupidez a acompanhar. A estética do que existe é só existir. Tanto cabe nela a Helena do Menelau como a caca dela, quando é a hora de a aliviar, a ver se penso melhor. A ver se arranjo uma razão para empacotar com uma fita e um laço a razão que não tenho» (p. 29).

O livro fala da memória, de uma capacidade de olhar e recordar a nossa história quando já temos idade para poder ter uma. Uma idade em que todos os contrários da equação da vida se parecem anular, para virem no fim a equivaler a zero.

«Tanta coisa ainda quente na lembrança. Podia agora chamá-las e elas vinham, animais familiares. Talvez venha a chamá-las. Mas não agora. E é sempre preciso despertá-las da sonolência, chamá-las talvez aos berros como às crianças malcriadas e desobedientes. Ou deixar que me apanhem distraído e me saltem à frente como ladrões. Mas tu, não. Tu vens por ti sem te chamar procurar – quem é que te chama? Há quarenta anos, que é já tempo para tudo ser mortal. E sempre nesse rápido instante em que disse o teu nome e ficaste imóvel, a entender» (p.7/).

«São frases assim dispersas, vêm vindo atrás de nós como um cão. E o passado é isso, um instantâneo de imagens, frases avulsas. Devem talvez formar uma constelação, não a sabemos» (p.15).

Isto faz-me pensar que a nossa história é como uma grande casa, com vários compartimentos, uns mais escuros e com odor a humidade, que nos recusamos a visitar, mas que insistem em nos assaltar de vez em quando, perturbando a claridade das divisões onde gostamos de nos demorar, pelo conforto que proporcionam à nossa identidade. Provavelmente, só quando chegamos a uma idade avançada (se tivermos essa sorte), podemos dar-nos ao luxo de ficar a sós connosco e visitar todas as facetas e ramificações do nosso percurso sem razão, tentando decifrar nele o nosso mistério. E reviver certos episódios que sufocámos à pressa, numa idade anterior, em que certas coisas não eram permitidas por causa do inferno da voz dos outros no nosso interior.

Fez-me também pensar em ti e que devíamos ficar juntos para sempre, até nos engolirmos, para que pudéssemos depois partir e separar-nos. Entretanto, tranco-te num quarto onde o dia nunca acaba e permitirei a uma parte de mim visitar-te sempre que lhe aprouver e abandonar-te sempre que lhe apetecer. Talvez imagine outros encontros nossos e tudo não passará de imaginação, até que tudo se esgote. Ou não.

Em certos momentos, serei doce e terna, noutros insistirei em torturar-te, talvez te fale até de outros quartos da minha mente, apenas para te espetar facas na barriga e me deleitar com a tua dor, prisioneira do meu sonhar. Outras vezes, irei apenas ver o que fazes na minha ausência. Se te surpreender a jantar ou a cear, sentirei de imediato uma dor fulminante e aguda na cabeça – como podes sobreviver sem o meu alimento, como podes expulsar-me por outras fomes, como consegues preencher um espaço que devia ficar vazio para sempre?

Talvez um dia escreva a nossa história – a única possibilidade de sobrevivermos num espaço contíguo ao real, porque a minha memória é ainda fraca – a propósito, reservei-te um quarto arejado, com luz e janelas, para que possas escapar a qualquer momento, antes que eu agarre o essencial de nós. Prometes? Leva então contigo toda a contaminação e ternura e deixa o palco vazio e abandonado.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Em Carne Viva




Pergunto-me se algum dia as nossas feridas podem cicatrizar, se existirá recuperação possível de um modo de dor inominável que nos atravessa e corta de lado a lado, deixando-nos indiferentes a tudo, até nos tornarmos incapazes de sentir empatia pelos outros e reconhecer o direito da dor neles. Os românticos responderiam prontamente que sim, que existe salvação e que ela acontecerá pelo amor. Mas entretanto, a humanidade passou por dois séculos de progresso e razão, cada um de nós foi-se encarcerando em prisões confortáveis onde jogamos pelo seguro e nos tornamos fortes incomunicáveis de uma batalha travada contra nós mesmos, e os dias da minha vida vão passando e ninguém aparece para erguer as persianas da minha alma, que escapou sei lá para onde, talvez cansada de viver intensamente e sem ligações.

Nestes dias de angústia, andei a ler de modo desapaixonado (claro está, pois se a minha alma decidiu ir de férias) Em Carne Viva do escritor israelita David Grossman. De modo muito resumido, conta a história de um homem – Yair – que decide iniciar uma troca de correspondência, com uma mulher desconhecida – Miriam -, após observá-la uma noite e reconhecer no seu sorriso magoado algo da sua dor fundadora. Juntos, eles vão apalpando as zonas mais obscuras do outro em busca de um nome para a dor e também para a salvação, construindo uma intimidade original, baseada apenas em palavras e troca de segredos e infâmias, vivendo uma comunhão apaixonada dentro de uma bolha isolada da realidade e do quotidiano de cada um.

Em busca de uma nudez total, de uma sinceridade sem fronteiras que não se paute pela beleza da mentira, mas pela sordidez da verdade – porque a verdade parece ser sempre sórdida e tentamos sempre esconder dos outros todos os nossos pequenos delitos e grandes infâmias, o nosso lixo e fezes, para não perdermos a sua estima. Porque estamos convencidos, no fundo de nós mesmos, que não somos tão puros e estreitos de alma com as pessoas que prezamos, porque insistimos em amar nos outros a força que gostaríamos de ter. E assim, vamos vivendo o quotidiano, contraíndo o esfincter, pagando as contas e fazendo alguns projectos excêntricos nos intervalos de todas as exigências. Ignorando a mancha dos outros e sufocando na dor que não temos a coragem de vomitar. Até que a vida acaba ou explodimos antes dela acabar, restando apenas destroços em carne viva, que ninguém quer tocar, talvez por medo da contaminação.

Yair e Miriam entrelaçam-se através das palavras que trocam, com o compromisso de não se encontrarem fisicamente, para que os corpos não insistam em tocar-se das maneiras que lhes impuseram e depois se separem, porque esse é o nosso impulso natural, separar-mo-nos e, não o contrário. No entanto, todos esperamos o momento em que algo contrarie esse impulso natural, alguém nos toque delicadamente no rosto e deixe nas nossas profundezas uma marca de frescura que se sobreponha ao odor da podridão e da solidão.

Ao princípio, tocámo-nos como dois estranhos.
Depois, como nos ensinaram.
Só depois ousamos tocar-nos como eu e tu.


Embora aprecie bastante a versão portuguesa do título do livro, prefiro sem dúvida a opção inglesa: Be My Knife. Porque o amor pode de facto conter a salvação, mas terá que ser forte, incisivo e agudo como uma faca, para escavar até às feridas mais retraídas.
O Amor é que tu sejas a faca com a qual escavo dentro de mim”, escreve Miriam. Uma faca que nos permita nomear a dor, a ofensa, a humilhação, o abandono, para depois saborear o toque terno de uma mão na face. E a abertura radiante das persianas que insistem em permanecer fechadas até esse encontro. Até lá, parto em busca da minha alma e espero encontrá-la como um homem adulto subitamente desfeito num pranto libertador de lágrimas, para que possamos, por agora, fazer as pazes.

domingo, 25 de maio de 2008

Klaus Klump - A Inquietante Estranheza


"Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é outra forma de exercitar a verdade.



Klaus comandava pela primeira vez os negócios da família. Não tinha medo, nem fome, nem estava apaixonado. Cada dia era, pois, um exercício novo da mentira. Já tinha feito a vida real (tinha-a feito como se faz uma construção, algo material), agora começara o jogo: ganhar mais dinheiro ou menos. Nada de essencial: mas a mentira interessante é aquela que quase parece verdade. Klaus sentia a necessidade de transformar aquele jogo em algo fundamental. E faria isso até ao fim. Como fizera antes na guerra e na prisão. Quase que não via, aliás, diferenças nas três situações: era preciso ganhar ou não perder, e ele estava só. Eis tudo."



Foi o primeiro livro de Gonçalo M. Tavares que li. Se gostei ainda não sei, mas que me atingiu em cheio e com força naquilo que mais me move, isso sim, posso afirmar. Em tempos de guerra e angústia como os que vivemos, ninguém sai incólume: "Ninguém escapa à lógica económica. Os ganhos, as perdas, o lucro. Poderá a tua moeda ser estranha – o teu corpo, por exemplo – mas é moeda: utensílio de troca”.

Acredito profundamente que vivemos numa época de guerra total, de um contra todos e que só os mais astutos se salvarão - os mais sensíveis irão apodrecer lentamente nas suas confortáveis camas, com sonhos intermitentes induzidos por ansiolíticos e álcool, por que não sabem, não conseguem ver de que barricadas os miram. É a pior forma da guerra e do mal: dormir com o inimigo sem o suspeitar. Uma arma apontada e visível acaba por ser mais confortável.


sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sapho - Costumes de Paris



Escolhi este livro porque no seu prefácio António Lobo Antunes diz tratar-se da mais bela história de amor que leu e, como sempre tive um fraquinho muito especial por histórias de amor plenas de magia, arrebatamento e ruína, não pude deixar de comprar a tal obra e empenhar-me na sua leitura.


Terminada a leitura num dia de ressaca inquietante, fiquei com uma sensação estranha. Afinal, a mais bela história de amor não ultrapassa o retrato de uma intimidade quotidiana entre um jovem aspirante a cônsul, Jean Gaussin, e uma mulher voluptuosa mais velha e mestra nas artes amorosas, Fanny, conhecida por todos os homens como Sapho.


É numa festa parisiense de mascarados que Fanny escolhe o jovem Jean para lhe devotar toda a sua vida e paixão. Durante 5 anos, Jean acredita não amar Fanny, vivendo obececado com a ideia de rompimento, que vai adiando, até se ver completamente enredado na intimidade doméstica que entretanto se firma entre os dois. O fim adivinhei-o desde o início, será Fanny, a amante descontrolada, que irá abandonar o hesitante amado: os que dão e os que amam partem sempre mais levemente dos que recebem, e é nestes que a falta do outro se faz sentir de modo mais agudo com o peso das carícias e palavras de outrora - ser amado e não amar, eis a maior cilada.


As ligações amorosas, aquelas que tendemos a julgar as mais livres e as mais íntimas, colocam mais em jogo do que a pura espontaneidade. Nelas projectamos, todos os nossos fantasmas e tendemos a escolher - ou ser escolhido - por um parceiro que nos toca nas questões mais profundas, que não são nunca as melhores. Gaussin cai na armadilha do ciúme e do vício, sem saber que as suas redes são mais poderosas do que as do amor e empatia. Esta é a história de amor mais honesta que alguma vez li; nela podemos ler a transição de um modelo romântico da coisa para algo que ainda não é possível classificar, embora estejamos todos a trabalhar nisso.


"Pudor, reserva, para quê? Os homens são todos iguais, presas de uma raiva de vício e de corrupção, e este garoto não era diferente dos outros. Engodá-los com aquilo de que gostam é ainda o melhor meio de os segurar. E o que ela sabia, essas depravações do prazer que nela tinham inoculado, Jean, por sua vez, aprendia-as, para as passar a outras. Assim corre o veneno e se propaga, queimadura do corpo e da alma, semelhante a esses archotes de que fala o poeta latino, e que passavam no estádio de mão em mão."


domingo, 18 de maio de 2008

Gente Feliz com Lágrimas - A Persistência das Velhas Questões


Recomendado por duas pessoas muito queridas, Gente Feliz com Lágrimas foi talvez uma das leituras mais penosas e viscerais da minha vida. Nele relembrei a minha infância, o meu pai severo e distante, as primeiras desilusões e a formação de um mistério no qual sempre me soube contida mas nunca decifrada.


À sua maneira, o romance de João de Melo, cativa pelas várias vozes narrativas, pelas metáforas e adjectivos multi-sensoriais extremamente inteligentes, pela história de amor e veneração de Nuno e Marta, e repele pelo modo heavy como nos relata a saga de uma família condenada pelos afectos sufocados, que vão condenando gerações através da herança de gestos que não se efectivaram, de palavras que não se cumpriram. Nos espaços que o afecto não preenche, instala-se a falta e uma solidão inescapável que acaba por consumir a possibilidade mais pura de amor, porque a violência original, a cena primitiva da nossa concepção dificilmente é eliminável.


«Acontecia então que o meu pobre cão de pai latia de prazer. Prisioneira daquele corpo, a mãe sufocava ainda, amarrada pela inconcebível e obstinada força dos braços dele. Era quando ele se esvaía todo na sua golfada morna, pastosa e tão orgulhosamente masculina. Se não repetissem - e raramente o faziam - a mãe erguia-se, ia ao bacio, esfregava-se energicamente a um pano para nós desconhecido ou mesmo inexistente. Quando voltava para a cama, ele dormia tão profundamente como a paz das folhas de figueira nas noites de Verão. Dormia com o mesmo sono dos ratos, sem memória alguma e sem qualquer remorso de nos ter feito o mal do barulho, o mal de ser o único, o dono e senhor daquele corpo profanado no seu pudor (...).


Toda a minha vida girou afinal em torno e em função dessa paixão primitiva e anterior (...). Porque quando tive o outro destino de Marta, dei por mim a amá-la à maneira dele, a gostar de dar-lhe palmadinhas nas nádegas e a fazê-la gemer sob a força dos mesmos abraços. Contudo, muitos anos mais tarde, quando naufraguei nas águas revoltas da minha relação com Marta e perdi o pé à vida, apresentei-me ao mais louco psiquiatra de Lisboa. Um dedo categórico espetou-se-me à frente do nariz e deixou-me petrificado:

- O senhor está é inventando a infelicidade e ficcionando o seu triunfo: parece uma noivinha angustiada na noite de núpcias. A gente pega no escafrando, meu caro Pier Paolo Pasolini, e vai é mergulhar no lodo da infanciazinha. Percebido? Venha daí comigo».


Gente feliz com lágrimas poderia ser a melhor expressão para descrever o povo português, e trata afinal disso mesmo, de gente feliz com lágrimas. De gente que conhece a esperança da infância, a empatia dos irmãos, a crueza amarela de uma pai que nunca se senta para cear no nosso coração, os arrebatamentos do primeiro amor, a ternura de alguns encontros rápidos, a dureza da traição, um rabo sentado num domingo em frente à televisão a engordar solitariamente e uma segunda pomba da paixão que pousa distraidamente no nosso ombro adormecido. O resto destes risos que choram e prantos que riem é uma certa ferida no olhar de quem perdeu a inocência cedo demais, é afinal literatura!

domingo, 11 de maio de 2008

Trilogia de Nova Iorque - A vertigem da desrazão


A Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster - autor que conheço de modo leviano, tendo apenas lido o comovente Timbuktu - compõe um mosaico de histórias inquietantes edificadas pelo imaginário de uma cidade sombria e misteriosa. Brincando com as possibilidades do real e dos seus abismos, Auster desafia constantemente e com mestria as expectativas do leitor, sem o nunca o deixar com um sentimento de fraude.

O mais marcante neste livro, composto por três histórias que se entrelaçam como um novelo e nos enredam de tal modo que acabamos por não encontrar o fio do seu feitiço, é o modo como as personagens são arrastadas pela vertigem do irracional e do vazio, sempre comprometidas na sua perdição.

No conto «A Cidade de Vidro», Quinn, um homem devastado pela trágica perda da mulher e do filho, é perturbado a meio da noite por um telefonema de um homem que procura um detective chamado Paul Auster. O acaso despoleta uma série de aventuras e desventuras e Quinn acaba por se empenhar numa identidade que não é sua, até à perda de qualquer identidade, com uma persistência que apenas a solidão e a sua deriva poderão justificar.

As personagens errantes desta cidade ausentam-se do seu quotidiano por um acaso e ficam a viver num tempo marcado apenas pelas suas obsessões, esquecendo rapidamente os meses, os anos e a face do outro, e a escrita de Paul Auster devolve-nos de modo arrepiante o vazio das suas almas estilhaçadas.

Descobrimo-nos no fim que se tratam de seres semelhantes a nós, reveladas de outro modo pela desligação do quotidiano dos mesmos. Humanos apesar de toda a incomunicabilidade e degradação, que tentam sobreviver num mundo em que as velhas respostas já não servem para sossegar as novas inquietações. «Pois as nossas palavras já não correspondem ao mundo. Quando as coisas eram um todo, podíamos confiar nas nossas palavras para nos exprimirem. Mas essas coisas fragmentaram-se aos poucos, rasgaram-se, ruíram num caos. E, no entanto, as nossas palavras permaneceram as mesmas. Não se adaptaram à nova realidade» (p.85).
Das histórias que compõem a trilogia, a que mais me tocou foi a que se intitula «O Quarto Fechado», narrada por um homem que se ocupa da mulher e obra de um amigo de infância enigmaticamente desaparecido. Gostei particularmente da cena de sexo entre o narrador e a mãe do amigo ausente, pela crueza da descrição: «Embora eu estivesse embriagado, não estava assim tão aturdido que não soubesse o que fazer. Mas nem a culpa foi suficiente para me deter. Este momento acabará por passar, dizia-me a mim próprio, e ninguém sairá magoado. Não tem nada a ver com a minha vida, não tem nada a ver com Sophie. Mas nessa altura, enquanto aquilo acontecia, descobri que era mais do que isto. O facto é que eu estava a gostar de foder a mãe de Fanshawe - mas de um modo que não tinha nada a ver com prazer. Eu estava consumido, e pela primeira vez na minha vida não encontrei nenhuma ternura dentro de mim. Estava a foder movido pelo ódio, e estava a transformar aquilo num acto de violência, dilacerando esta mulher como se quissesse pulverizá-la. Eu tinha penetrado na minha própria escuridão, e foi ali que aprendi a coisa mais terrível de todas: que o desejo sexual também pode ser o desejo de matar, que chega uma altura em que é possível escolhermos a morte em detrimento da vida» (p.271).
Mais do que seres de luz e razão como pretendiam os iluministas, somos também seres de sombras movidos por teias irracionais que nos arrastam até à perdição, e é no sexo que podemos vislumbrar a nossa fatal inclinação para a perda, a rendição total numa petit mort, que poderá ser também a única possibilidade de entrega. Somos mais consumidos do que livres consumidores e é geralmente nas acções que julgamos despropositadas que um sentido e nós próprios encontramos uma forma de fuga para outras possibilidades desacorrentadas da obrigação da racionalidade. Trilogia de Nova Iorque fala de tudo isto e muito mais, é uma espécie de policial pós-existencialista que nos arrepia não pelo crime mas pelo castigo que é cumprido pelo próprio carrasco. Os seus personagens colaram-se à minha pele durante várias semanas em que não pude deixar de perceber o apelo do abismo - popularmente chamado de vertigem.