domingo, 21 de setembro de 2008
Desejos
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 20 de setembro de 2008
Na Corda Bamba

Um palco vazio, no centro, uma boneca de trapos abandonada, que não sabe seduzir sem jogar, sem arriscar a sua vida. Toda uma vida na corda bamba a saborear o risco da vertigem. Sabia que algum dia havia de cair, só não sabia para que lado – continuo sem saber. Sei apenas que a minha alma está em queda livre, vai pagar o preço da liberdade, sem laços nem amarras que a amparem. E de repente, um súbito desejo de assentar, de ser estável, de ser doce. Tarde demais.
Ontem olhei uma criança nos olhos e ela começou a chorar. Não sei o que ela viu em mim mas não pude evitar. Talvez tenha visto o colapso da esperança. Comecei a chorar juntamente com ela, num pranto progressivo de desespero. Em redor, os ditos adultos, olhavam a cena com alguma estupefacção. A menina correu para o abrigo das pernas da mãe, que rapidamente a acolheu e tratou com leviandade a sua tristeza. Eu, fiquei ali sozinha, sem ninguém para me consolar, a chorar mais calmamente.
Arrefece. O sono e a indiferença invadem as ruas de cada cidade, atravessam como um vento subtil as divisões de todas as casas, imiscuem-se como uma mulher delambida em todos os recantos da alma humana.
Arrefece e nenhuma fantasia, paixão ou amor resta na paisagem deserta. Deixo-te ir na corrente do esquecimento. Abandono-te antes que me abandones. Foi sempre assim. Deito, com alguma reticência, algumas lágrimas pela tua partida. Porque levas algo meu na tormenta que te arrasta. Algo que não sei se é irrecuperável.
Arrefece. Porque nunca estiveste aqui. Foi tudo imaginação minha. E se nos voltarmos a encontrar, o que é possível, vou devolver-te o gelo que instalaste em mim. Vou devolvê-lo como uma bofetada subtil, para te magoar um pouco. Foi sempre assim.
Arrefece. Lá fora uma manhã de sábado pouco credível. Aqui, neste recanto solitário, apenas uma pergunta: será alguma vez diferente? Não pretendo abdicar da minha potente natureza feminina para suportar as tuas incertezas e inseguranças. Quero um homem a meu lado, sem medo de mim, sem ilusões, que me veja realmente. No entanto, custa-me sacrificar a imagem que criei de ti. Mas afinal os ídolos servem para isso mesmo – para derramar o sangue. O nosso, claro. Foi sempre assim.
domingo, 14 de setembro de 2008
Uma Questão de Beleza

“Até agora, uma coisa era certa: Claire Malcom era viciada em auto-sabotagem. Segundo um padrão tão profundamente mergulhado na sua vida que Byford suspeitava que ele tivesse origem no início da infância, Claire sabotava compulsivamente todas as possibilidades de ter uma felicidade pessoal. Parecia estar convencida de que não era felicidade o que merecia (…) Tinha chegado a um ponto de alegria pessoal. Por fim, aos cinquenta e três. E, portanto, naturalmente que era o momento perfeito para sabotar a sua própria vida. Com esta finalidade, tinha dado início a um caso com Howard Belsey, um dos seus mais antigos amigos. Um homem por quem não sentia desejo sexual de espécie alguma (…) Toda aquela situação era perversa, tanto mais por ela não a poder defender, nem sequer perante si mesma (…). No momento do seu maior compromisso emocional, tinha intervido no casamento mais bem sucedido que conhecia. (…) Tal como explicou o Dr. Byford, ela era realmente a vítima de um transtorno perverso e particularmente feminino: sentia uma coisa e fazia outra. Era uma estranha para si mesma.
E ainda seriam assim, pensou ela – estas novas raparigas, esta nova geração? Ainda sentiriam uma coisa fazendo outra? Ainda quereriam apenas ser queridas? Ainda seriam objectos de desejo em vez de – como Howard diria – objectos desejantes? Se pensasse nas raparigas que estavam sentadas de pernas cruzadas com ela, nesta cave, em Zora, na sua frente, nas raparigas iradas que gritavam a sua poesia no palco – não, não via nenhuma alteração importante. Continuavam famintas, continuavam a ler revistas femininas que odiavam explicitamente as mulheres, ainda se cortavam com pequenas facas em lugares que julgavam não poder ser vistos, ainda fingiam os seus orgasmos com homens de quem não gostavam, ainda mentiam a toda a gente sobre todas as coisas.”
Sim, Claire, penso que pouco mudou desde os anos 60: continuamos mulherzinhas em busca de afecto, encurraladas entre o desejo asfixiante de agradar e a imperatividade da afirmação e independência. Sem submissão. Sem entrega. Os tempos de cólera que correm são mais difíceis para a condição feminina: a revolução femininista dos anos 60 não passou de um acumular de tarefas para a mulher - uma esposa dedicada, uma mãe irrepreensível, uma profissional competitiva e bem-sucedida, uma amante obrigada ao orgasmo - em vez de uma efectiva promoção da mulher. Em suma, estamos bem fodidas, mas não como pretendiam as sufragistas quando decidiraram queimar os soutiens. A mim, os soutiens nunca me incomodaram.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
A NÁUSEA OU A DOR DE EXISTIR

O ser humano está condenado a uma solidão irremediável, contido num paradoxo: a vontade de amar e ser tocado e a impossibilidade de alcançar o outro. Roquentin recorda a sua relação com Anny e a obssessão desta pelos «momentos perfeitos», uma moral que consiste em estar à altura do que nos acontece e aproveitar todos as situações excepcionais para potenciar ao máximo a sua afecção, e a sua incapacidade de corresponder às expectativas dela.
“Era uma vez um rei que tinha perdido uma batalha e sido aprisionado. Vivia a um canto, nos acampamentos do vencedor. Um dia vê passar, agrilhoados, o seu filho e a sua filha. Não chorou, não disse nada. Em seguida, vê passar, agrilhoado também, um servo seu. Então pôs-se a gemer e a arrancar os cabelos. Tu próprio podes inventar os exemplos. Bem vês: há casos em que não se deve chorar – ou então é-se imundo. Mas, se deixarmos cair uma cavaca em cima dum pé podemos fazer o que quisermos, gemer, soluçar, saltar ao pé coxinho. O que seria tolice seria ser estóico constantemente: era esgotarmo-nos sem proveito.”
No encontro final entre ambos, Anny mostra-se destroçada pelo esforço de sobreviver a si própria, tendo deixado de acreditar na possibilidade de acção e dos afectos. No entanto, não procura em Roquentin algum consolo paliativo nem lhe permite a mínima aproximação. A última vez que a vemos é com uns olhos inexpressivos. O outro que não devolve o olhar, como uma superfície oca onde o reflexo deixou de acontecer: bombas explodem em Beirute, Lisboa arde e em Paris dança-se.
Um dos pontos mais arrebatadores deste tratado da melancolia é a descrição que o narrador nos vai fazendo das pessoas que encontra durante as suas deambulações, revelando simultaneamente um conhecimento cirúrgico e um desprezo acutilante da alma humana. Achei particularmente interessante a descrição que o narrador faz da empregada de limpeza do seu hotel, uma negra pequena com quase quarenta anos que casou com um bonito rapaz, que todas as noites chega a casa embriagado:
“A ideia vai-a roendo, tenho a certeza, mas com lentidão, com paciência: ela reage, mas não é capaz de se consolar, nem de se abandonar ao seu mal. Pensa no caso um bocadinho, um bocadinho pequenino, tira partido dele. Sobretudo quando está acompanhada, porque os outros a consolam, e também porque faz bem falar no assunto com um tom presumido, com ar de quem dá conselhos. Quando anda sozinha pelos quartos, ouço-a cantalorar, para afugentar os pensamentos. Mas passa todo o dia cabisbaixa, cansa-se depressa e amua:
«É aqui», diz ela tocando na garganta, «trago aqui um nó.»
Há avareza na sua maneira de sofrer. Nos seus prazeres deve haver também. Admira-me que esta mulher não tenha vontade, às vezes, de se libertar daquela dor monótona, daquele resmonear que volta a moer, assim que ela deixa de cantar; que não deseje sofrer por uma vez, afogar-se no desespero. Mas, ao mesmo tempo que quisesse não poderia: aquele nó veda-lhe a saída ao sofrimento.”
A longa descrição de um típico dia de domingo é um dos capítulos mais deslumbrantes: “Uma mulher nova, com ambas as mãos apoiadas à balustrada, voltou para o céu o seu rosto azul, riscado de sombra pela pintura dos lábios. Houve um instante em que perguntei a mim próprio se ia pôr-me a gostar dessa gente, de toda a gente. Mas afinal o domingo era deles, e não meu.”
“Aconteceu-me qualquer coisa: já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira de uma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência: que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se.” Exacta descrição do que sinto: também a mim me aconteceu qualquer coisa, o pânico parece ter-se instalado faustosamente no rés de chão do meu pensamento. Estou só à espera de o vomitar. Talvez no domingo dos outros.
domingo, 3 de agosto de 2008
Longe de Veracruz
(…)
Lembro-me como se fosse hoje. Soaram as seis em ponto da tarde naquele maravilhoso relógio da parede que a nossa mãe comprara a um antiquário de Berga. As seis badaladas soaram de forma contundente, como a quererem dizer-me que eram os seis golpes secos que em plena fronte acaba de me dar a vida. Li a graciosa legenda que inscrevera no relógio um artesão anónimo: “Quem me olha demasiado perde o seu tempo.” E sorri levemente, mas notava-se que estava triste. Não era fácil ocultar que estava preocupado. Lembro-me muito bem do que sentia. Pensava: “Alguém me fodeu.” Dizia isto, incapaz de pensar noutra coisa diferente, e repetia: “Alguém me fodeu”. Dizia-o insistentemente e a frase ressoava como doze badaladas juntas, enquanto fechava com força o meu único punho e sustinha a respiração e abafava um grito angustiado, chorando em segredo, ligeiramente transtornado.»
«Levanto-me e vou à janela ver como chove, e digo a mim mesmo que, no fundo, as desgraças dos romances são sempre belas porque nelas não corre sangue autêntico (…) Mas Heine já disse que depois das grandes tragédias acabamos sempre por assoar o nariz».
terça-feira, 22 de julho de 2008
A Esteticização da Vida Moderna

O Retrato de Dorian Gray é um livro fascinante, embriagante e alucinatório. Um veneno misterioso perpassa pelos aforismos amorais de Lord Henry, pela estecização da experiência implementada por Dorian Gray e pela cadência musical das palavras reunidas por Óscar Wilde.
Dorian Gray é um jovem, belo e inútil, um Adónis de virtudes e inocência que aceita posar para o pintor Basil Hallward, sem perceber o poder sublime da sua beleza. A consciência desse poder e a semente do vício brotam nele no dia em que conhece Lord Henry e contempla o seu próprio retrato finalizado. Qual jovem Narciso ou Fausto, Dorian Gray formula então o desejo de que a sua imagem jovem e bela se perpetue no seu rosto e que a degradação e a velhice atinjam apenas o seu retrato.
Cumprido misteriosamente o seu desejo, Dorian Gray empenha-se numa vida de prazeres mundanos e vícios, cujo marca perturbadora ele vai observando no seu retrato, cedendo a todas as tentações, de modo a minar todos os códigos do monstruoso, do imoral e do ilegal, sob o altar do seu valor estético. «A consciência e a cobardia são uma e a mesma coisa. A consciência é apenas a marca comercial da firma». Dorian Gray procura saborear ao extremo o sabor de todas as tentações e pecados, com o objectivo de escapar ao sofrimento – avaliando cada acto pelo valor estético da sua sensação – em busca de uma juventude e alegria sem limites. Tudo se pode converter num prazer delicioso, até mesmo a acção mais abjecta, desde que repetida suficientes vezes – esta é a regra do vício que comanda as demandas de Dorian e o transforma em espectador da sua vida como se de uma obra de arte se tratasse.
«A vida não se rege pela vontade ou pelas intenções. A vida é uma questão de nervos, de fibras, de células lentamente edificadas onde se oculta o pensamento e a paixão tem os seus sonhos. Podes julgar-te seguro e achares-te forte. Mas a tonalidade circunstancial de uma sala, ou um céu matinal, ou determinado perfume que em tempos apreciaste e traz consigo subtis memórias, um verso de poema esquecido com que de novo te deparas, a cadência de uma peça musical que deixaste tocar… digo-te, Dorian, que é dessas coisas que depende a vida.»
Ao desafiar todas as leis da afectividade em nome de uma salvação da alma pelos sentidos, Dorian Gray acaba por perder a sua alma, sob o choque perpétuo das experiências intensas, restando-lhe apenas a sua imagem degradada para contemplação: um espectador de si próprio reduzido ao mistério do visível, que ousa ultrapassar num acto de fúria contra o seu duplo e que lhe arrebata a vida. As grandes paixões devem vergar-nos ou partir. Ou nos matam ou acabam por fenecer. As mágoas e os amores superficiais perduram enquanto os grandes amores e dores são eliminados pela sua própria plenitude, como se houvesse no homem um mecanismo de defesa, semelhante á estrutura traumática, que o protege de experiências intensas ou o arruína para toda a vida.
O fim trágico-cómico de Dorian Gray resulta da vontade que o protagonista sente em experimentar uma última sensação, o castigo – a religião e a literatura sempre afirmaram que todo o crime tem um castigo – e na impossibilidade de realização deste último desejo. O único carrasco que resta no púlpito é o olhar dos outros que atravessa o nosso reflexo no espelho e perturba o curso da aventura individual que determinámos para nós. Numa época em que tudo faliu, em que cadafalso nos podemos sacrificar senão no no altar do próprio?
«A verdadeira razão por que todos nós pensamos tão bem dos outros é que todos temos
medo de nós próprios. A base do optimismo é o puro terror.»
domingo, 13 de julho de 2008
Em Nome da Terra

Depois do êxtase de Na Tua Face, optei por ler mais um livro de Vergílio Ferreira para ver se me curava da obsessão. Escolhi Em Nome da Terra, um conjunto de reflexões de um homem idoso, despejado num lar pela filha, que se dedica a recriar a imagem do corpo e da história da sua mulher, até que a terra o engula com o seu apelo derradeiro.
A descrição da vida no lar é extremamente bem conseguida: um conjunto de seres aposentados de ser gente, à espera da morte enquanto vão ruminando as contas finais com a vida. Foi exactamente o que senti quando entrei pela primeira vez num lar há uns anos atrás para visitar uma vizinha minha com cara, cabelos e mãos de bruxa que alegrou a minha infância com a sua extrema bondade, doces e alguns bibelots, e que o meu coração sentiu sempre como uma avó autêntica. Era uma senhora muito magra e independente até que os filhos a decidiram colocar num lar, após a morte do marido, de modo a poderem apoderar-se com alguma antecipação dos bens da velhota, sem terem que esperar que o destino acertasse as contas com ela.
«Os filhos são uma invenção da nossa fraqueza, o modo mais barato de se ser eterno. Um modo proletário de ser Deus (…). Porque um filho, pois, é um ser sagrado. Mas o sagrado está também neles por acréscimo e quando se tira o acréscimo o que lá fica é quase sempre um estupor» (p. 39).
Após alguns meses, decidi visitá-la porque lhe tinha prometido que, mesmo vivendo em Lisboa, nunca me esqueceria de a visitar sempre que fosse ao Algarve. Ela não sabia que era e será sempre uma das figuras mais encantadoras dos meus tempos de criança tímida. Foi uma das visões mais deprimentes da minha vida: ao entrar na sala de estar, contemplei rapidamente um conjunto de velhos sentados em torno de uma televisão cujo som ensurdecedor não os despertava da espera obstinada da morte. Nos seus olhos a marca cinzenta do abandono e da desistência. Todos juntos mas irremediavelmente só sem paciência nem alento para atentar na desistência alheia.
«Gostava de me sentir livre de tudo, a gente carrega imensas coisas às costas, mesmo sem darmos conta, mesmo sem sabermos. As coisas do nosso uso, as pessoas das nossas relações, os hábitos da nossa monotonia, as ideias do nosso sustento mental. Tudo isso ocupa um espaço enorme do nosso ser (…). O homem investe-se nas coisas e no resto porque é carga a mais para si. Deus fez-nos cheios de buracos na alma e o nosso dever é tapá-los a todos para navegar (…). Prepararmo-nos para a morte é irmos morrendo tudo até ficarmos só cheios de nós» (p. 39).
Era qualquer coisa como isto que ouvi o José Saramago dizer recentemente na apresentação do novo romance do Mia Couto: vivemos com a ilusão de que sabemos o que a morte é, mas quando nos deparamos com essa experiência, percebemos que se trata de um mistério que nos ultrapassa. Dizia o Saramago que quando o pai morreu percebeu que não sabia que ele tinha sido, mas que o melhor que podemos fazer com as pessoas velhas é deixá-las em paz pois elas têm tanto a resolver consigo antes de poderem partir.
Temo que o mesmo me aconteça com o meu pai. Gostava de saber a sua história, as suas vitórias e as suas derrotas e falhas, as recordações mais queridas e aventuras mais despropositadas da sua infância e juventude, mas a sua complicada história com a minha mãe, onde eu vim a nascer enquadrada, tornou impossível este diálogo, porque conflituante com a outra versão dominante, fazendo da nossa história de amor entre pai e filha, uma ausência de ternuras ditas em voz alta. Porque estas, as palavras de ternura e partilha, nunca assentaram bem nos campos de batalha.
Mas será que alguma vez os filhos compreendem ou suspeitam do ser gente dos pais? E os pais será que conseguem adivinhar a verdadeira natureza dos filhos? Seremos alguma vez capazes de retirar o acréscimo de sagrado e mágoas que acumulamos ao longo de uma vida?
A morte é talvez o único striptease magistral e eu gostava de o fazer aos 99 anos.
domingo, 29 de junho de 2008
A Verdade de Cada Face

Há muito tempo que um romance não me enchia tanto: depois de ler Na Tua Face de Vergílio Ferreira dei por mim a voltar ao início do livro, como se apenas me apetecesse ler e reler aquela história até deixar de me sentir tão saciada e poder voltar às minhas deambulações de leitora compulsiva.
«O feio. O horrível. Onde é que estão? Porque são uma invenção nossa, a Natureza está-se perfeitamente nas tintas. Ou é imensamente generosa como Deus e na generosidade cabe tudo. Ou é estúpida como o que simplesmente existe e não tem estética nenhuma ou estupidez a acompanhar. A estética do que existe é só existir. Tanto cabe nela a Helena do Menelau como a caca dela, quando é a hora de a aliviar, a ver se penso melhor. A ver se arranjo uma razão para empacotar com uma fita e um laço a razão que não tenho» (p. 29).
O livro fala da memória, de uma capacidade de olhar e recordar a nossa história quando já temos idade para poder ter uma. Uma idade em que todos os contrários da equação da vida se parecem anular, para virem no fim a equivaler a zero.
«Tanta coisa ainda quente na lembrança. Podia agora chamá-las e elas vinham, animais familiares. Talvez venha a chamá-las. Mas não agora. E é sempre preciso despertá-las da sonolência, chamá-las talvez aos berros como às crianças malcriadas e desobedientes. Ou deixar que me apanhem distraído e me saltem à frente como ladrões. Mas tu, não. Tu vens por ti sem te chamar procurar – quem é que te chama? Há quarenta anos, que é já tempo para tudo ser mortal. E sempre nesse rápido instante em que disse o teu nome e ficaste imóvel, a entender» (p.7/).
«São frases assim dispersas, vêm vindo atrás de nós como um cão. E o passado é isso, um instantâneo de imagens, frases avulsas. Devem talvez formar uma constelação, não a sabemos» (p.15).
Isto faz-me pensar que a nossa história é como uma grande casa, com vários compartimentos, uns mais escuros e com odor a humidade, que nos recusamos a visitar, mas que insistem em nos assaltar de vez em quando, perturbando a claridade das divisões onde gostamos de nos demorar, pelo conforto que proporcionam à nossa identidade. Provavelmente, só quando chegamos a uma idade avançada (se tivermos essa sorte), podemos dar-nos ao luxo de ficar a sós connosco e visitar todas as facetas e ramificações do nosso percurso sem razão, tentando decifrar nele o nosso mistério. E reviver certos episódios que sufocámos à pressa, numa idade anterior, em que certas coisas não eram permitidas por causa do inferno da voz dos outros no nosso interior.
Fez-me também pensar em ti e que devíamos ficar juntos para sempre, até nos engolirmos, para que pudéssemos depois partir e separar-nos. Entretanto, tranco-te num quarto onde o dia nunca acaba e permitirei a uma parte de mim visitar-te sempre que lhe aprouver e abandonar-te sempre que lhe apetecer. Talvez imagine outros encontros nossos e tudo não passará de imaginação, até que tudo se esgote. Ou não.
Em certos momentos, serei doce e terna, noutros insistirei em torturar-te, talvez te fale até de outros quartos da minha mente, apenas para te espetar facas na barriga e me deleitar com a tua dor, prisioneira do meu sonhar. Outras vezes, irei apenas ver o que fazes na minha ausência. Se te surpreender a jantar ou a cear, sentirei de imediato uma dor fulminante e aguda na cabeça – como podes sobreviver sem o meu alimento, como podes expulsar-me por outras fomes, como consegues preencher um espaço que devia ficar vazio para sempre?
Talvez um dia escreva a nossa história – a única possibilidade de sobrevivermos num espaço contíguo ao real, porque a minha memória é ainda fraca – a propósito, reservei-te um quarto arejado, com luz e janelas, para que possas escapar a qualquer momento, antes que eu agarre o essencial de nós. Prometes? Leva então contigo toda a contaminação e ternura e deixa o palco vazio e abandonado.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Em Carne Viva

Pergunto-me se algum dia as nossas feridas podem cicatrizar, se existirá recuperação possível de um modo de dor inominável que nos atravessa e corta de lado a lado, deixando-nos indiferentes a tudo, até nos tornarmos incapazes de sentir empatia pelos outros e reconhecer o direito da dor neles. Os românticos responderiam prontamente que sim, que existe salvação e que ela acontecerá pelo amor. Mas entretanto, a humanidade passou por dois séculos de progresso e razão, cada um de nós foi-se encarcerando em prisões confortáveis onde jogamos pelo seguro e nos tornamos fortes incomunicáveis de uma batalha travada contra nós mesmos, e os dias da minha vida vão passando e ninguém aparece para erguer as persianas da minha alma, que escapou sei lá para onde, talvez cansada de viver intensamente e sem ligações.
Nestes dias de angústia, andei a ler de modo desapaixonado (claro está, pois se a minha alma decidiu ir de férias) Em Carne Viva do escritor israelita David Grossman. De modo muito resumido, conta a história de um homem – Yair – que decide iniciar uma troca de correspondência, com uma mulher desconhecida – Miriam -, após observá-la uma noite e reconhecer no seu sorriso magoado algo da sua dor fundadora. Juntos, eles vão apalpando as zonas mais obscuras do outro em busca de um nome para a dor e também para a salvação, construindo uma intimidade original, baseada apenas em palavras e troca de segredos e infâmias, vivendo uma comunhão apaixonada dentro de uma bolha isolada da realidade e do quotidiano de cada um.
Em busca de uma nudez total, de uma sinceridade sem fronteiras que não se paute pela beleza da mentira, mas pela sordidez da verdade – porque a verdade parece ser sempre sórdida e tentamos sempre esconder dos outros todos os nossos pequenos delitos e grandes infâmias, o nosso lixo e fezes, para não perdermos a sua estima. Porque estamos convencidos, no fundo de nós mesmos, que não somos tão puros e estreitos de alma com as pessoas que prezamos, porque insistimos em amar nos outros a força que gostaríamos de ter. E assim, vamos vivendo o quotidiano, contraíndo o esfincter, pagando as contas e fazendo alguns projectos excêntricos nos intervalos de todas as exigências. Ignorando a mancha dos outros e sufocando na dor que não temos a coragem de vomitar. Até que a vida acaba ou explodimos antes dela acabar, restando apenas destroços em carne viva, que ninguém quer tocar, talvez por medo da contaminação.
Yair e Miriam entrelaçam-se através das palavras que trocam, com o compromisso de não se encontrarem fisicamente, para que os corpos não insistam em tocar-se das maneiras que lhes impuseram e depois se separem, porque esse é o nosso impulso natural, separar-mo-nos e, não o contrário. No entanto, todos esperamos o momento em que algo contrarie esse impulso natural, alguém nos toque delicadamente no rosto e deixe nas nossas profundezas uma marca de frescura que se sobreponha ao odor da podridão e da solidão.
“Ao princípio, tocámo-nos como dois estranhos.
Depois, como nos ensinaram.
Só depois ousamos tocar-nos como eu e tu.”
Embora aprecie bastante a versão portuguesa do título do livro, prefiro sem dúvida a opção inglesa: Be My Knife. Porque o amor pode de facto conter a salvação, mas terá que ser forte, incisivo e agudo como uma faca, para escavar até às feridas mais retraídas.
“O Amor é que tu sejas a faca com a qual escavo dentro de mim”, escreve Miriam. Uma faca que nos permita nomear a dor, a ofensa, a humilhação, o abandono, para depois saborear o toque terno de uma mão na face. E a abertura radiante das persianas que insistem em permanecer fechadas até esse encontro. Até lá, parto em busca da minha alma e espero encontrá-la como um homem adulto subitamente desfeito num pranto libertador de lágrimas, para que possamos, por agora, fazer as pazes.
domingo, 25 de maio de 2008
Klaus Klump - A Inquietante Estranheza

"Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é outra forma de exercitar a verdade.
Klaus comandava pela primeira vez os negócios da família. Não tinha medo, nem fome, nem estava apaixonado. Cada dia era, pois, um exercício novo da mentira. Já tinha feito a vida real (tinha-a feito como se faz uma construção, algo material), agora começara o jogo: ganhar mais dinheiro ou menos. Nada de essencial: mas a mentira interessante é aquela que quase parece verdade. Klaus sentia a necessidade de transformar aquele jogo em algo fundamental. E faria isso até ao fim. Como fizera antes na guerra e na prisão. Quase que não via, aliás, diferenças nas três situações: era preciso ganhar ou não perder, e ele estava só. Eis tudo."
Foi o primeiro livro de Gonçalo M. Tavares que li. Se gostei ainda não sei, mas que me atingiu em cheio e com força naquilo que mais me move, isso sim, posso afirmar. Em tempos de guerra e angústia como os que vivemos, ninguém sai incólume: "Ninguém escapa à lógica económica. Os ganhos, as perdas, o lucro. Poderá a tua moeda ser estranha – o teu corpo, por exemplo – mas é moeda: utensílio de troca”.
Acredito profundamente que vivemos numa época de guerra total, de um contra todos e que só os mais astutos se salvarão - os mais sensíveis irão apodrecer lentamente nas suas confortáveis camas, com sonhos intermitentes induzidos por ansiolíticos e álcool, por que não sabem, não conseguem ver de que barricadas os miram. É a pior forma da guerra e do mal: dormir com o inimigo sem o suspeitar. Uma arma apontada e visível acaba por ser mais confortável.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Sapho - Costumes de Paris

domingo, 18 de maio de 2008
Gente Feliz com Lágrimas - A Persistência das Velhas Questões

domingo, 11 de maio de 2008
Trilogia de Nova Iorque - A vertigem da desrazão

