
«Quando estava prestes a entrar na banheira, senti a chegada, sob a forma de uma barata tonta, de um acesso de neura. Logo havia de ser agora, um acesso de neura; não podia chegar em melhor altura. Aí vinha ela a caminhar pelos azulejos, a criatura; tentei apanhar um chinelo, mas sabia bem que, no fundo, tinha poucas hipóteses de a esborrachar. Se assim era, não valia a pena tentar. Mesmo a tailandesa Oôn, mais a sua vagina elástica, também pouco poderia fazer. Estamos todos condenados à partida. Tal como as baratas tontas, também as neuras copulam sem graça nem alegria aparente; mas copulam furiosamente, e as suas mutações genéticas são rápidas; contra elas, somos completamente impotentes» (p. 45).
Desabituado das regras da convivência social, evita o contacto com o outro bem como a consciência de si próprio. «Lentamente, tudo se vai tornando difícil; a vida resume-se a isso» Podemos armar-nos em espertos e fingir que aprendemos alguma coisa com a vida, mas é sempre ela que acaba com tudo. Até lá, à morte, vamos passando o tempo com passatempos, rodeando-nos de ideias, livros e recordações para evitarmos a realidade crua – a solidão – na ponta da faca de uma refeição nua.
Plataforma gira em torno do fenómeno do turismo sexual e explora o tema tabu de uma economia baseada no erotismo, no comércio de corpos e troca de fluidos, também abordada noutro livro-murro no estomâgo de Houellebecq, As Partículas Elementares.
«Passa-se com certeza alguma coisa para que os ocidentais não consigam deitar-se uns com os outros; talvez haja razões de narcissismo, individualismo, culto da perfeição ou outra coisa qualquer. A verdade é que, a partir dos trinta anos, as pessoas passam a ter dificuldades em encontrar novos parceiros sexuais; e no entanto, sentem uma grande necessidade deles, embora se trate de um desejo que se vai dissipando lentamente. Assim, passam trinta anos das suas vidas, a quase totalidade do tempo de adultos, num estado de permanente carência sexual. (…) Neste momento, a única prática com algum significado é o sadomasoquismo. (…)

















