terça-feira, 13 de janeiro de 2009

CAMPO DE SANGUE


O homem não sabe como gastar os dias. E o tempo por gastar é perigoso. Vai inventando verdades para cada um, para ser conforme ao que os outros esperam dele, sem esperar nada dos dias.


Encontra-se com a ex-mulher e portam-se como amantes. A ex-mulher, Eva, insiste que ninguém muda, que somos sempre os mesmos. Com medo que o tempo a torne igual aos que a desagradam. Insiste também que ele é um caso perdido. Enganam-se porque ambos sabem que não lhes resta outra alternativa senão a dos enganos consentidos. Precisam um do outro para se enganarem. Sobreviveram ao bairro e os sobreviventes nunca são boas pessoas porque senão sucumbiam.

«(…) Eva nunca poderia avaliar o trabalho que ele tinha ao inventar uma verdade para cada pessoa, a calma que era necessária, o controlo, a memória, ele tinha sempre que esperar pelo que precisava de ser dito, nunca se podia antecipar, era um jogo, a carta que sai determina a jogada seguinte, tudo dependia do que Eva perguntasse, cumpria as regras apesar de Eva o ouvir sem dar importância aos detalhes, o mais difícil, o que é inventado tem de ser rigorosamente certo até ao fim, um pequeno erro estraga o trabalho todo, só a vida se permite errar (..), é preciso inventar tudo muito bem para que a voz nunca falhe, é um trabalho árduo fazer com que todos os factos coincidam, um trabalho minucioso que não admite erros, um trapezista sem rede, o perigo estava em todo o lado, em qualquer pessoa, a memória dos outros era um perigo sério, a argúcia outro, isto para não falar no acaso que nunca se pode controlar, Eva estava diante de si e olhava-o como dantes, ainda não sabia, continuava a acreditar na verdade que ele lhe tinha oferecido, a mãe acreditava noutra, a senhoria noutra, cada pessoa que se cruzava com ele podia contar com uma verdade feita à sua medida, haverá melhor forma de amar, apesar de tudo sempre a voz de Eva, és um caso perdido, haverá maior manifestação de amor do que a de não confrontar o ser amado com uma verdade que não deseja (…)».


O homem e a mãe portam-se como estranhos, vendo-se duas ou três vezes por ano. Vêem televisão sem disfarçar o silêncio entre eles. Propositadamente distantes sem terem que disfarçar qualquer proximidade.

Procura a rapariga bonita durante dias pela cidade; tantas vezes a confunde com outras raparigas louras que com o tempo resta apenas uma ideia de beleza que ele continua diariamente a perseguir, certo de que ideia e objecto coincidirião quando a vir. Até que encontra o amor e se porta como apaixonado, quase uma doença, e tenta arrancar o coração de uma rapariga bonita para combater o desespero e a solidão. A beleza não se deixa recordar, roubar, pede que se olhe constantemente, um vício. Até que nos devore. Porque a beleza, aliada à solidão, pode ser um pretexto para se enlouquecer.


«A mosca acaba de ser apanhada na teia da aranha. Debate-se violentamente agitando as asas. Ele sabia que se a mosca fosse para aquele canto seria apanhada na teia da aranha. A mosca não sabia porque não tinha visto as outras moscas que nos dias anteriores tinham caído na armadilha da aranha. Ele conhecia as moscas dos outros dias. Não faz mais do que observar as moscas e a aranha e esperar pelo dia que uma mosca se consiga libertar da teia, ganhar à aranha. Talvez aconteça esse dia no meio dos outros todos iguais.»


Ninguém pode ter visto tudo sem ser igualmente culpado.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A CONDIÇÃO FEMININA NA PONTA DO GARFO


Encontrei em Dorothy Parker uma alma gémea e apaixonei-me pela sua visão ácida do mundo e pelos malabarismos de ironia que faz para a manobrar. E surpresa: ri-me pela primeira vez com um livro! Mas não era um riso fácil, era mais como uma espécie de azia a fazer cócegas no cérebro… ou no céu da boca…


Estes contos são um manual de psicologia feminina. Em OS SEXOS encontramos um casal envolvido numa típica birra de ciúmes da rapariga e apercebemo-nos de somos todas iguais e infantis nos momentos de maior fragilidade. E como manipulamos os nossos parceiros a mentir-nos e a esconder a verdade, para que possamos continuar a fingir que está tudo bem. Porque nos martirizamos mas não queremos conhecer a verdade, tememos sair com as mãos a sangrar.

A VALSA é um excelente retrato da psicologia da mente feminina num registo hilariante, de como fomos treinadas para agradar e sentir em silêncio tudo o que é discordante. “Não quero ser do tipo ultra-sensível, mas não me podem dizer que aquele pontapé não foi premeditado. Freud diz que não há acidentes. Não vivi nenhuma vida de clausura, conheci pares na dança que me estragaram os sapatos e rasgaram o vestido; mas, no que toca a pontapés, sou a Feminilidade Ultrajada. Quando me dão um pontapé na canela, sorrio.


Em O TELEFONEMA temos uma mulher como todas à espera do telefonema de um ex-amante, completamente obcecada em encontrar as suas falhas e culpas. “Acho que nem sabe como me faz sentir. Quem me dera que soubesse, sem ser eu a dizer. Eles não gostam quando lhes dizemos que nos fizeram chorar. Não gostam quando lhes dizemos que estamos infelizes por causa deles. Se o dizemos, pensam que somos possessivas e exigentes. E depois odeiam-nos. Odeiam-nos sempre que dizemos qualquer coisa que pensamos realmente. Temos de estar sempre a fazer joguinhos. Oh, pensava que não tínhamos de o fazer; pensava que isto era tão grandioso que podia dizer o que quisesse. Aposto que não podemos, nunca. Aposto que não há nunca uma coisa suficientemente grandiosa para isso. Oh, se ele telefonasse apenas, não lhe diria que tinha estado triste por causa dele. Eles odeiam gente triste. Eu seria tão meiga e tão alegre que ele não poderia senão gostar de mim. Se ele ao menos telefonasse. Se ele ao menos telefonasse.


Em LOLITA, encontramos a esperança de uma mãe na infelicidade da filha, apesar do seu casamento com um homem rico e atraente. Uma mãe que depende de uma filha frustrada e infeliz para poder brilhar e se sentir mais afortunada.
John Marble e Lolita continuavam na mesma, dizia às amigas. John Marble continuava tão arrasador como havia sido quando chegara pela primeira vez à cidade e Lolita continuava sem ter uma palavra a dizer em seu favor. Embora o décimo aniversário do seu casamento estivesse próximo, ela não conseguia ainda dar forma aos seus vestidos (…). Tinham amigos e recebiam muito agradavelmente e, por vezes, saíam. Bem, sim, pareciam, de facto; pareciam realmente ser felizes. «É mesmo como eu digo à Lolita», dizia Mrs. Ewing. «É mesmo como lhe digo quando lhe escrevo: Sê feliz enquanto puderes.»Porque… Bem, sabem como é. Um homem como John Marble casado com uma rapariga como Lolita! Mas ela sabe que pode sempre vir para cá. Esta casa é o seu lar. Ela pode sempre voltar para a sua mãe.»
Pois Mrs, Ewing não era mulher para abandonar facilmente a esperança.


MR. DURANT é um homem que sacrifica os sentimentos dos outros pela ilusão de que tudo está bem e a sua oportunidade para a felicidade ainda não aconteceu nem se desvaneceu. Para prosseguir animado pela certeza de que haverão sempre outras.
«Mas as crianças», disse ela. «Vão ficar simplesmente…»
«Ora, deixa tudo isso comigo», assegurou-lhe ele. «Disse-lhes que o cão podia ficar, e ainda nunca quebrei uma promessa, pois não? Olha o que vou fazer – espero até que estejam a dormir e depois pego simplesmente no cãozinho e ponho-o na rua. Depois, de manhã, podes dizer-lhe que fugiu durante a noite, vês?»
Ela inclinou a cabeça em sinal de assentimento. O marido deu-lhe uma palmadinha no ombro, na sua seda negra cheirando a luto. A sua paz com o mundo estava mais uma vez intacta, restaurada por esta solução simples da pequena dificuldade. De novo a sua mente se embrulhou na consciência de que tudo estava solucionado, tudo estava pronto para um belo e novo começo. O seu braço estava ainda sobre o ombro da mulher quando reentraram na sala para jantar.


E a tradução de Cecília Rego Pinheiro é excelente, soberba.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Aforismo #2


Quando a mente sofre o corpo grita.

Excelente frase que infelizmente não é minha. The Godfather III.

No final das contas, o acerto pertence sempre ao corpo. Mas deixá-lo pagar se ele estiver a gozar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Boneca de Tripas - Parte 2


Um pensamento que não mata nem morre. O medo, o terror, o pânico. Noite adentro, a mastigar, a ruminar, impedindo os olhos de descansarem. As pálpebras carregadas de ansiolíticos. E o pensamento a martelar, a mastigar incessantemente, roldanas de aço até ao delírio. E eu a querer apenas dormir, fechar os olhos, a tentar cavalgar a onda sem sucesso. A ser engolida pelas palavras que se soltaram dentro da minha cabeça, como notas numa composição insana. Acocorada, debruçada sobre o meu ventre, a desejar, a implorar uma pausa. Esmagada contra a almofada, os vincos da roupa impressos na minha carne.



Liberdade. Quantos comprimidos são precisos para matar o pensamento? O pensamento que me rói do avesso. Sim, exactamento quantos, para que esta porra acabe?



A geometria das paredes alonga-se, o tecto deixou de ser o companheiro vítreo da adolescência eufórica, nele não se projectam mais as esperanças de um futuro mais leve, mais brilhante. Desde que o medo se infiltrou, vísceras adentro sem piedade. Começou a roer em silêncio e apoderou-se de tudo. Medo de ter medo. Um intruso indesejado que se tornou imperador impiedoso.



Um pensamento que não mata nem morre. Vai moendo. Lentamente. Sorrateiramente. Minando o que pode. Um líquido corrosivo. Um sabor a ferrugem e crime na boca. O medo de que a boca se volte para dentro e comece a triturar tudo, os dentes, o estômago, a memória e a dignidade. Olhar para o real e não dar fé nele. Olhar para as paisagens urbanas e apenas o paladar de papel de jornal na minha garganta. Olhar os rostos dos outros e não decifrar neles a minha humanidade.



E o medo a galopar, veloz no meu colo, no meu peito, a trepar pelo pescoço, numa tensão de máquina no meu queixo. Olhar uma mãe e a sua filha e tremer. Leveza e cães. Haverá uma falha, uma brecha no real que me possa acolher? Afinal quantos comprimidos, ao certo, são necessários para matar o pensamento? Fórmula desejada...



O cansaço, a insónia, as olheiras, o suor abafado e condenado. Do outro lado, alguém a batalhar contra o sono, contra a morte certa e urgente. Contra o esquecimento. Os fantasmas brancos da madrugada e a certeza de existirmos sós naquela hora desassossegada. A luz amarela e violenta do candeeiro a insinuar que o mundo acabou e que se esqueceu de nós. De nos vomitar na nossa artificialidade. Cinco da manhã. Agitação. Morangos silvestres sem uma história prestes a ser apagada.



Seis. Sete. Até que tudo se imobiliza, a noite abraça o universo que afinal se resume a um pensamento obsessivo de um, que insite nos bastidores da consciência, sem comparecer ao seu encontro. Uma sereia, morangos silvestres de novo e uma melancia. A minha história a fugir para um disparate qualquer. Ou os comprimidos fazem efeito e adormeço, desmaio, desligo ou passo a ser apenas vestígios de ossos e sangue que um pensamento mastigou a seco. E se não houver espuma do mar? Se não vier o dia seguinte? Se não vierem dias melhores para que possam voltar os dias piores, para que tudo acabe bem para depois ficar tudo mal?



Como desligo isto? Quantos comprimidos afinal? Quantos? Para derrotar a raiz tuberculosa do medo.

Corpo Presente


Vencedor do Man Booker 2007, este livro de Anne Enright é possante, irado e implacável. Cada vez me convenço mais que a escrita das mulheres, desde sempre treinadas para a dor e para o silêncio, consegue ser mais impiedosa. Um dedo afiado na ferida; é isso que Veronica Hegarty faz a si própria depois do suicídio do seu irmão mais próximo. Obriga-se a recordar os traumas de infância onde cada um se tornou um caso perdido, as discórdias de jovens adultos que afastaram a fraternidade de ambos.


«A bebida não era o seu problema, mas acabou por se tornar o seu problema, o que foi um alívio para todos os interessados. «Estou um pouco preocupada com Liam, por andar a beber», portanto, após algum tempo, já ninguém conseguia ouvir nada do que ele dizia.
O que era merecido, pois só dizia merda. O álcool deu cabo dele, como sempre faz. Mas estou a tentar perceber quando foi – quando deixei de me preocupar com ele e comecei a preocupar-me por ele beber


Veronica recorda a descoberta de que Liam era molestado pelo senhorio da avó, o homem que esta rejeitou na sua juventude, que possivelmente também terá molestado a sua mãe e a própria Veronica. Escava no sangue em busca do erro, do mal-entendido onde as vidas e o futuro deles se confundiu. Obriga-se a embater desastrosamente na sua vida.


Até que ponto as nossas famílias disfuncionais (porque todas o são, não fossem elas compostas por pessoas) e os pequenos grandes incidentes, segredos e traumas condicionam a nossa vida de adultos? Seremos sempre eternas crianças em busca de paliativos para curar as cicatrizes dos nossos tímidos começos?


«Olho para as pessoas em fila para pagar e pergunto-me se estarão a ir para casa ou a afastar-se das pessoas que amam. Não há outras viagens. E penso que constituímos refugiados peculiares, a fugir do nosso próprio sangue, ou para junto do nosso próprio sangue; a pulsar para trás e para a frente ao longo das veias fantasmagóricas, que envolvem o mundo numa mixórdia de sangue.»

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Do not go gentle into that good night


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas

Memória e Delírio



«Los locos van libres por las salas y pasillos o por las habitaciones de los hombres, sin que ello inspire el menor recelo de evasión o desorden. Incluso algunos de ellos, pertenecientes a familias distinguidas, acompañan a las visitas, hacen los honores de la casa. Guardan las más suaves formas de cortesía y buena educación.»

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura é o primeiro romance de António Lobo Antunes que li. O livro, o 14º escrito pelo autor, é composto por 35 capítulos ordenados em 7 partes que se assumem como os 7 dias da criação do mundo. Neste livro que Lobo Antunes classificou como poema, cabe de facto todo o mundo e toda a sua criação, através da viagem interior ziguezagueante entre a memória e a fantasia, empreendida por Maria Clara, numa polifonia de vozes e delírio.

O pai doente nos Cuidados Intensivos serve de pretexto a Maria Clara para ousar entrar em quartos e sótãos proibidos, onde vai recordar a distância do seu pai e fantasiar uma explicação para a ausência deste, onde se vai defrontar com a beleza da irmã que inveja, com a solidão da mãe na cama fria onde o marido não dorme há muitos anos. Lobo Antunes maneja de modo tão inovador a técnica do fluxo de consciência que nos sentimos como o psiquiatra de Maria Clara, tentando descortinar a verdade do delírio, das fantasias que inventámos para gerir melhor a nossa dor e a dor dos outros.

Não é um livro fácil – demorei-me um mês e meio na sua leitura. Todas as palavras são escolhidas a dedo, deliciosas e amargas consoante a circunstância, mas sempre poderosíssimas. A certa altura, podemos até dizer que a escrita de Lobo Antunes se torna penosa pela repetição obsessiva de certas imagens e frases. Mas a vida também é assim, o nosso tempo é marcado pela batuta das nossas obsessões, pelas frustrações que nos venderam, pelas falhas que nos apontaram, pelos afectos que desejámos, pelos polegares no pescoço que nunca se demoraram docemente e nos quais ficámos a cismar precisamente pela sua pressa.

A quase ausência de enredo também não facilita o trabalho do leitor, obrigado a lidar com os delírios de uma menina metida consigo mesma, a perscrutar goivos e freixos, a boina ridícula da avó todas as tardes a caminho do casino do Estoril para apostar mais algumas jóias ou talheres para reaver a riqueza e dignidade de outrora, o passado com cheiro a pobre do pai, os encontros fortuitos da mãe com o motorista no Guincho, a irmã pretendida por todos os homens de rosto enfiado em revistas femininas e telefonemas suspirados. Lobo Antunes disse numa entrevista «Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros». Ou ainda, citando Clarice Lispector, «As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas» e os acontecimentos do quotidiano podem escassear mas dentro de nós há uma roldana imparável, de aço, que vai roendo e mastigando tudo e que desliza às vezes, por engano ou descuido, para nos triturar.

Chegamos ao fim e sabemos que não podemos fugir aos nossos fantasmas, que eles nos vão espiar por detrás dos nossos ombros erguidos, tímidos e inconvenientes. E que a verdade que nos compõe não é só a dos factos, a do real, mas também dos delírios que nos fazem e desfazem. E que raramente podemos confessar a alguém, excepto aos profissionais da mente, sob pena de sermos excluídos da normalidade da vida de todos os dias, reclamada por todos mas onde ninguém habita.

«se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar».


Uma viagem empreendida para recordar a menina que brincava às fadas junto ao lago, que mais tarde dava pontapés nas pedras e odiava todos e que acabou casada com um homem que não suporta o toque e um filho que não reconhece nem lhe apetece, a habitar às escondidas o refúgio da sua meninice e das suas ilusões. Tentando descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa vida, em que a guinada ocorreu e o fracasso começou a devorar a nossa eternidade. Quando, exactamente quando, foi que nos fodemos?

«Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum
(as chaves estão sempre no prato da entrada)
descer as escadas
(não descer pelo elevador, descer as escadas)
até à garagem da cave, ver o fecho eléctrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta auomática subir devagarinho e logo na rua acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direcção da auto-estrada, sem ligar aos painéis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além da pressa de ir-me embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos (…). Parar num desses restaurantes das bombas de gasolina à beira das portagens e comer sem olhar para ninguém, sem reparar em ninguém nem sequer nas crianças que correm entre as mesas e acelerar de novo segurando o volante com força tal como em pequena segurava o guiador da bicicleta (…).


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite (…).

Hoje estava capaz de me ir embora. Metia todo o dinheiro da gaveta no bolso, deixava aqui a mala, os documentos, os sinais de quem sou. Se me perguntarem o que faço responder que não tenho profissão. Sou apenas uma mulher num restaurante das bombas de gasolina à beira de uma portagem, a mastigar calada (…).


Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Boneca de tripas - Parte 1


Dia de Natal e eu fechada na casa-de-banho a sangrar, o sangue escuro, espesso a sair sem parar, a escorregar pelas pernas, o piso da casa de banho ensopado, pontuado por manchas de postas de carne azuis e violetas, eu a desfazer-me numa dor afiada líquida entre as pernas sem sequer…. Um grito de angústia, de socorro, sufocado na manga da camisola de lã grossa que a minha avó me ofereceu no outro natal. No natal em que eu não era, não fui uma menina feia trancada na casa-de-banho a sangrar silenciosamente.


«Como foste capaz, Solange?», a voz severa da figura seca da minha mãe a despertar-me naquela tarde abafada de Agosto em que retirei um a um os peixes raros do meu pai do aquário esverdeado e os coloquei na carpete da sala, junto aos brinquedos gastos noutras tardes solitárias de Verão.


Uma agonia aquática entre as pernas, submersa nos ladrilhos da casa de banho em postas de carne azuis e violetas. Enquanto a minha família ceia reunida na mesa, partilhando doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal. Noite de natal, peixes demoníacos a devorar as minhas vísceras num rodopio de esferas de vidro no meu ventre. Sabres de metal que me atravessam e rasgam a carne.

O medo cortante de que a minha mãe ou a minha tia ou o meu pai descubram a minha ausência e me surpreendam nesta lama de sangue espalhada pelos ladrilhos e

«Como foste capaz, Solange?».


Minutos a fio a assistir ao duelo de escamas contra o algodão da carpete – uma agonia de guelras e bocas escancaradas num som que nunca mais me esqueci e que voltei a ouvir anos depois à beira da cama da minha avó - o cheiro a peixe da morte, quando ninguém sabia que ela morria - é apenas uma gripe, está de cama a ver se se cura – diziam, enquanto eu pressentia, eu sufocava com o cheiro a peixe no quarto da minha avó e olhar de aquário dela em mim, talvez a adivinhar que anos depois, na noite de natal… eu na casa de banho a sangrar, uma dor afiada entre as pernas.

Até que aquela coisa horrorosa sai de dentro de mim, rasgando a carne para se vir espalhar no meio das postas de sangue azuis violetas, as goelas ainda arriscam um choro mas este desmaia, fracassa no embate contra os ladrilhos frios e vermelhos da casa-de-banho do meu crime. E de novo, o barulho das guelras debatendo-se em golfadas de água impossíveis.

Os peixes novamente no aquário, ondulando levemente, os olhos como redomas viscosas a mirarem o vazio e eu a olhá-los, a cismar, extasiada, debruçada sobre o vidro acastanhado num esgar de limos e crueldade. Fascinada mesmo depois da surpresa da minha mãe

«Como foste capaz, Solange?»


Por a dor dos outros não nos poder doer, não passar apenas de uma agonia de guelras encerrada no silêncio das algas de um aquário. Doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal, isolados do lamaçal de sangue de uma casa-de-banho onde não ousam adivinhar que um cordão umbilical é arrancado com os dentes, que podia escapar à descarga do autoclismo, mas… Lá se vai… lá se foi, o quê?

Uma criança entediada por não ter irmãos nem actividades de verão a brincar a inventar o poder demiurgo da vida e da morte, a criar o universo num Agosto distante encerrado em cortinas de tédio, quentes e inimigas. Desta vez não há tempo, apenas a pressa de limpar a mancha, todas as manchas com a esfregona e depois um saco que hei-de atirar cheio de pedras de calçada para o lago do parque, onde um Natal deixei cair, enquanto brincava com a minha prima, a minha fita de cabelo rosa. A minha fita de cabelo rosa que eu adorava perdida no lago de sangue de uma casa de banho na noite de natal.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

D.Juan, o sedutor vítima do seu desejo


JULIETA: Sabes o que eu vejo D. João… cada corpo que se ergue na tua vida é uma cruz assinalando a morte de um pedaço da tua alma… carne branca talhada em pedra tumular a que te agarravas num desespero de náufrago… Tu trazias em ti a essência de Romeu… e no entanto a forma exterior era a de D. João, às apalpadelas, por caminhos ínvios, numa procura febril do rasto de Julieta. Cada mulher era a esperança duma alvorada… a promessa esquiva do possível caminho do encontro com a tua bem-amada… Detinhas-te e caminhavas mais à frente, cheio de mágoa, frustrado na tua eterna pesquisa. E por isso foram muitas.. porque em cada uma delas tu celebraste a momentânea esperança do encontro final. E assim eras cruel e destruías onde passavas… e os homens chamaram-te cínico, ímpio e dissoluto… Eles só viam as ruínas que tu deixavas pelo caminho e anunciavam que a tua presença era mensageira de desgraça… Mas nenhum deles soube ver a profundidade da tua mágoa, nem os teus pés que sangravam no choque de cada pedra em que tropeçavas julgando que era uma flor.

sábado, 25 de outubro de 2008

A Moeda Viva




Michel é um funcionário público que orçamento eventos culturais e não acredita no poder de redenção da arte nem no progresso civilizacional («A cultura é isto, dizia eu para comigo, um bocado chata, mas é bom assim, cada um de nós é remetido para o nada de si mesmo»). O seu quotidiano é desesperançado e resignado e a sua visão do mundo é altamente corrosiva para as alminhas sem demais inquietações: após o trabalho, Michel vai a um peep-show ver ratas em movimento e em directo, para limpar as ideias e esvaziar os testículos. Encerrado numa solidão sem testemunho nem solidariedade, não se interessa pelos semelhantes nem mesmo pelas mulheres, apenas no seu prazer efémero. O serão é passado em frente ao televisor, sem problemas pois tem cento e vinte e oito canais.



«Quando estava prestes a entrar na banheira, senti a chegada, sob a forma de uma barata tonta, de um acesso de neura. Logo havia de ser agora, um acesso de neura; não podia chegar em melhor altura. Aí vinha ela a caminhar pelos azulejos, a criatura; tentei apanhar um chinelo, mas sabia bem que, no fundo, tinha poucas hipóteses de a esborrachar. Se assim era, não valia a pena tentar. Mesmo a tailandesa Oôn, mais a sua vagina elástica, também pouco poderia fazer. Estamos todos condenados à partida. Tal como as baratas tontas, também as neuras copulam sem graça nem alegria aparente; mas copulam furiosamente, e as suas mutações genéticas são rápidas; contra elas, somos completamente impotentes» (p. 45).



Desabituado das regras da convivência social, evita o contacto com o outro bem como a consciência de si próprio. «Lentamente, tudo se vai tornando difícil; a vida resume-se a isso» Podemos armar-nos em espertos e fingir que aprendemos alguma coisa com a vida, mas é sempre ela que acaba com tudo. Até lá, à morte, vamos passando o tempo com passatempos, rodeando-nos de ideias, livros e recordações para evitarmos a realidade crua – a solidão – na ponta da faca de uma refeição nua.



Plataforma gira em torno do fenómeno do turismo sexual e explora o tema tabu de uma economia baseada no erotismo, no comércio de corpos e troca de fluidos, também abordada noutro livro-murro no estomâgo de Houellebecq, As Partículas Elementares.



«Passa-se com certeza alguma coisa para que os ocidentais não consigam deitar-se uns com os outros; talvez haja razões de narcissismo, individualismo, culto da perfeição ou outra coisa qualquer. A verdade é que, a partir dos trinta anos, as pessoas passam a ter dificuldades em encontrar novos parceiros sexuais; e no entanto, sentem uma grande necessidade deles, embora se trate de um desejo que se vai dissipando lentamente. Assim, passam trinta anos das suas vidas, a quase totalidade do tempo de adultos, num estado de permanente carência sexual. (…) Neste momento, a única prática com algum significado é o sadomasoquismo. (…)




De um lado, centenas de milhões de ocidentais que têm tudo o que querem mas não dispõem de satisfação sexual: procuram-na, procuram-na incessantemente, mas não a encontram – e são profundamente infelizes. Do outro lado, há milhares de milhão de pessoas que não têm nada, que morrem de fome na flor da idade e vivem em condições de total insalubridade, mas que vendem a única coisa de que dispõem – o seu próprio corpo, a sua sexualidade intacta».




Os ocidentais tornaram-se demasiado racionais, abdicaram dos seus instintos e da sua animalidade, e consequentemente são incapazes de dar e receber prazer, com toda a fraqueza e dependência que este implica. Resta apenas uma sexualidade profissional, cerebral até, com regras e acordos pré-estabelecidos, como no caso das práticas sadomasoquistas, a carne na sua experiência dos limites, em busca de uma afectação marcante e permanente como uma tatuagem ou uma cicatriz, para gente culta e inteligente que perdeu o interesse pelo sexo no seu sentido arcaico.


O amor, a única possibilidade de santificação, termina abruptamente com a morte de Valérie, companheira de Michel, num violento ataque terrorista do Oriente contra o Ocidente e o livro termina com um hino solitário ao desencanto da contemporaneidade:


«Até ao final, continuarei a ser um filho da Europa, um filho da inquietação e da vergonha; não sou depositário de qualquer mensagem de esperança. Não sinto ódio pelo Ocidente, quando muito um enorme desprezo. Sei apenas que, sendo como somos, exalamos um imenso fedor a egoísmo, a masoquismo e a morte. Criámos um sistema em que, pura e simplesmente, é impossível viver; um sistema que, ainda para mais, continuamos a exportar». Que gera mais perdas que ganhos.

domingo, 19 de outubro de 2008

A Metamorfose


Passados muitos anos, voltei a reler A Metamorfose de Kafka. Recordei o gume da frase de abertura: «Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto.» O absurdo da história voltou a impressionar-me profundamente, e não me refiro à metamorfose de Gregor Samsa num insecto (ou verme com Valdimir Nabokov defendia ser a tradução correcta da palavra alemã Ungeziefer) – afinal, estas coisas acontecem quotidianamente a muitos de nós – mas à servidão voluntária do protagonista que, acordando numa situação-limite, não consegue quebrar com a formatação que lhe impuseram e que ele assumiu, continuando a insistir na permanência no real, no correcto, no concreto e no útil para a comunidade, para lá de toda a racionalidade.


A razão tem destas coisas quando se apura demasiado, acaba por nos trocar as voltas e enredar no absurdo de termos perdido o nosso tempo a trabalhar desalmadamente num trabalho chato para um patrão filha-da-puta, para pagar uma dívida que nunca existiu e sustentar vícios e parasitas que a sociedade de consumo transformou em necessidades vitais. E um dia acordamos - e que é feito da nossa humanidade, onde estão os outros, a comunidade que sustentava o nosso quotidiano na sua hipocrisia, frustração e monetarização -, mas não conseguimos desligar o programa, e vamos tentando em vão equilibrar-nos nas frágeis patas que substituíram os nossos membros inferiores, para apanharmos o próximo comboio e não chegarmos mais atrasados ao trabalho que detestamos, porque não podemos ficar o dia inteiro na cama a olhar para as paredes ou colados ao tecto do nosso quarto, não foi para isso que nos preparam. Se é certo que a liberdade tem um preço e apenas temos que decidir se o queremos pagar, também o tempo de vida que desperdiçamos, nos será reclamado.

Dos treze para os vinte seis, a passagem do tempo não alterou a minha leitura da obra, mas percebi que me tornou mais crua e ácida para com as vítimas. É triste o que acontece a Gregor Samsa numa certa manhã, mas assim como o seu pai agressivo, a sua mãe ausente e a sua irmã egoísta, também eu me sinto incapaz de compaixão por ele, não comungando do seu espírito de sacrifício. Chego, mais uma vez ao final do romance com um sentimento de angústia e revolta: odeio a sua família e desprezo Gregor, incapaz de odiar e de se revoltar – um verme, no final das contas. Descarto-o porque desde o início ele se torna descartável; violento-o também porque ele assim o pede.


Desde tenra idade que tenho um problema com as vítimas; detesto os agressores mas entendo-me bem com eles, a sua linguagem é básica e a retaliação é fácil. Pelo contrário, não lido muito bem com a vítima que aceita ser espancada e espezinhada, que consente na sua servidão e na violência sobre si. Os cristãos chamam-lhe abnegação, humildade, altruísmo, perdão, uma infinidade de palavras com conotações positivas que nos permitirão o acesso a um reino paradisíaco, além, sempre num futuro próximo, que tarda ou parece não se cumprir. (Neste ponto, surgem-me sempre inúmeras questões – será que dão uma pulseira aos eleitos com livre acesso a todas as festas e banquetes? Será que há animadores nesse local idílico? Haverá sessões de karaoke? E que prazeres se praticam lá, para além dos pecaminosos mortais?).


Essa moral cristã de levar uma bofetada e oferecer a outra face, arrepia-me, tira-me mesmo do sério. Caso haja sessões de karaoke no reino do além, poupem-me ao espectáculo deprimente daquela inglesa rechonchuda com uma saia demasiado curta a revelar as coxas rosa-suíno e o ventre marcado pela menopausa e um divórcio mal resolvido, que costuma aparecer nestas noites a cantar o hit I Will Survive de Gloria Gaynor. Porque eu – e esta é uma das poucas certezas que vou tendo- não sou capaz de sobreviver a isso. Prefiro ficar por cá a beber whiskies e a tomar calmantes para suportar os dias mais pesados. Sofrendo agora e aqui, sem terror de vir a sofrer depois, mesmo que rodeada de querubins assexuados e enlouquecedoramente alvos.

Debaixo do mesmo céu


Conseguia ver-se uma ampla planície do Alentejo, com um sobreiro, glorioso na sua solidão, a suportar o quebrado pôr-do-sol violeta, que inundava a alma de Elisa, de fantasmas antigos e saudade, sentada de olhos fitos no horizonte, num poial de pedra branca e gelada.


Com a mão esquerda ia pescando punhados de terra que levava à boca de modo intermitente, e observava aquele sobreiro, que sabia-se lá há quanto tempo ali estaria, olhava o seu tronco rugoso acastanhado e os seus braços esguios semi-cobertos pela doença da cortiça, o ténue verde da sua copa e angustiava-se no pensamento de que aquela árvore lhe sobreviveria, tentando descortinar o segredo da sua longevidade.

Aquela árvore fora testemunha de várias espécies que por aquelas terras passaram e permanecia sólida na sua certeza altiva de que todos passariam menos ela. Elisa ia comendo compulsivamente terra, procurando a comunhão com aquele ente que ela suspeitava ser Deus, testemunha da progressiva degradação da espécie humana. Provavelmente, remontava ao tempo dos dinossauros, e um dia a última matriarca dessa raça há muito extinta também contemplara a árvore e percebera pelos insanos raios violetas que a atravessavam, que nada era capaz de deter o curso do mundo, que o seu ventre se tornara infértil e que aquela paisagem era um prenúncio de viragem.

Quanto tempo passara? Há quanto tempo estava ela ali, gelada numa presença espectral de estátua? Qual era o seu nome? Donde viera e que história era a sua? Olhou em pânico para as suas mãos secas e pareceu-lhe que também estas eram de madeira, pousadas sobre um regaço húmido com cheiro a terra molhada, devassada pelo labor das charruas e dos bois.


Tinha contemplado por demasiado tempo – quanto tempo, ao certo? – o sobreiro, que acabara por assimilar em si a sua natureza insuspeita de árvore. Tentou levantar-se mas não era possível, os seus pés haviam-se convertido em raízes, como tentáculos teimosos ancorados no centro da terra, tentou gritar mas não soube mais que nome evocar – esquecera aliás todas as palavras. Acabou por se acalmar, afinal toda a história fora apagada e saboreou o último rasgo amarelo violeta daquela tarde.


Preparou-se para uma longa noite de silêncio e imutabilidade e, antes da escuridão abraçar a paisagem, olhou de relance para o seu companheiro solitário, na outra extremidade do horizonte, com um tom de desafio e pensou “Agora somos só tu e eu”. Foi este o seu último pensamento. Houve ainda um breve instante em que se imaginou uma árvore exótica – uma palmeira, por certo! – a destoar numa paisagem frugal e quieta.


De ora em diante, ficou por ali, debaixo de sóis violentos, chuvas miudinhas, orvalhos pesados, acolhendo pássaros ensonados em noites primordiais e abrigando homens cansados na sua sombra de verão. Sem pensamentos, nem sentimentos de saudade. Ali, apenas. Sem ponta de inveja pela outra árvore. Havia bastante espaço para ambas e uma eternidade para apreender a sua distância. Debaixo do mesmo céu.

Oh Brother, where art thou?


POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

domingo, 12 de outubro de 2008

O Amante

«Não havia que atrair o desejo. Ele estava naquela que o provocava ou não existia. Ou estava lá desde o primeiro olhar ou não existia (…). Desde o primeiro instante ela sabe qualquer coisa deste género, ou seja, que ele está à sua mercê. Logo, que outros além dele poderiam ficar também à sua mercê, se a oportunidade surgisse. Sabe também outra coisa, que doravante chegou o tempo em que não pode escapar a certas obrigações que tem para consigo própria (…).

Ele, treme. Olha-a primeiro como se esperasse que ela fale, mas ela não fala. Então ele também não faz qualquer gesto, não se despe, diz que a ama como um louco, di-lo muito baixo. Depois cala-se. Ela não lhe responde. Poderia responder-lhe que não o ama. Não diz nada. De repente sabe, ali, nesse instante, sabe que ele não a conhece, que nunca a conhecerá, que não tem maneira de conhecer tanta perversidade. E ao fazer tantos e tantos desvios para a agarrar, não poderá nunca. Cabe-lhe a ela saber. Sabe. A partir da ignorância dele, ela sabe de repente; já na barcaça ele lhe agradava. Ele agrada-lhe, a coisa só dependia dela (…).

Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paria com a mulher. Telefonara-lhe. Sou. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.
»

O desejo comanda todas as operações, enclausura o ser desejado numa redoma, condenado a desejar, amado convertido em amante. Devemos temer sempre aquele que nos deseja. A raíz etimológica da palavra "desejo" remete para a ideia de rapto, desviar alguém através de astúcias e armadilhas.

Esperança

Habito nesta casa velha de três andares há mais de 40 anos. Conheço cada canto escuro de humidade, o ranger frágil das escadas de madeira que atravessam todos os andares, as zonas que o sol ilumina fortemente de manhã e as curvas por onde passa no seu ocaso. Conheço intimamente as manchas de café nos sofás com motivos florais gastos na sala de estar onde já ninguém está, a poeira instalada de modo persistente nos móveis antiquados, os quadros de todas as estações enquadrados por cada janela desta casa silenciosa.

Nasci no quarto de meus pais, no segundo andar, em 1913, numa tarde pontuada por uma chuva mansa e persistente, apenas perturbada pelos gritos de agonia da minha jovem mãe, que aumentaram de intensidade quando a parteira lhe mostrou o meu corpo prematuro e violeta e minha mãe se apercebeu de que o seu primeiro filho era uma menina de olhos excessivamente grandes, morta à nascença.

Penso que minha mãe nunca recuperou verdadeiramente daquela perda e que uma parte da sua juventude e alegria ficou para sempre encerrada no meu rosto violeta. Recordo o seu empenho e diligência em escolher-me um nome para colocar na lápide de mármore e a sua exigência ao severo padre da aldeia em baptizar-me numa cerimónia em que ninguém compareceu para além de minha mãe, nem sequer o meu pai, que decidira sofrer em silêncio e só, observando de quando em quando minha mãe, para se certificar de que esta não tinha perdido o juízo.

Ao longo dos anos, vivi sempre a seu lado, incapaz de a abandonar, espiando todos os movimentos do seu corpo pequeno e magro, os olhares que longas vezes se perdiam no horizonte, sempre atenta à sua voz rouca e frases quebradas, vigiando a escuridão absoluta das suas noites de insónia, sempre descobrindo no seu colo o espaço da minha ausência, da menina Esperança, «Com amor e eterna saudade dos seus pais».

Fui ficando, conheci os meus irmãos, acompanhei os seus primeiros passos, as aventuras da sua infância, as primeiras desventuras da adolescência, comunguei das suas alegrias e tristezas nos almoços de domingo, onde todos permaneciam silenciosos e encerrados no seu mistério e minha mãe sorria, de quando em quando, como uma estátua enigmática de pedra branca. Até que todos foram partindo, um por sua vez, minha irmã para casar e meu irmão para estudar e perder-se no mundo.
Meu pai, homem trabalhador e sóbrio, de mãos pesadas, grossas e ásperas, sempre instalado nos fins de tarde na doçura da sua presença, a fumar cachimbo e a observar atentamente as nuvens azuladas do fumo, morreu na tarde de verão mais quente que alguma vez vivi. Partiu sem um queixume, sem uma sombra no seu olhar, poucas semanas depois de saber que meu irmão abandonara o curso de Direito em Coimbra para partir pelo mundo como marinheiro. Almoçou calmamente como sempre o fazia, levantou-se e anunciou a minha mãe que iria descansar um pouco, beijou de modo trémulo a testa de minha mãe, que tricotava distraidamente na sala de estar, rodeada pelos motivos florais ainda não tão gastos do sofá, e cambaleou até à rede ancorada na figueira que abraça as traseiras desta casa, seguido pelo seu cão Tejo.
Morreu nessa rede, embalado num sono pesado, na mesma rede onde fui concebida numa manhã branca e ligeira por um casal jovial e risonho que nunca encontrei, a rede onde a minha irmã chorou a perda do seu primeiro amor, onde meu irmão sonhou com paisagens inóspitas e mulheres exóticas de países distantes, a rede onde minha mãe se sentou incontáveis vezes, olhando as estrelas em noites frias com um olhar pesado e vazio, tentando imaginar à força que aspecto teria eu tido aos 3 anos, aos 4, aos 7, aos 20, que linhas de carácter teriam tecido meu destino e que conversas teríamos as duas. Sem imaginar jamais que ali estava eu, a seu lado, sem respirar mas atenta a todas as ondas que dela emanavam. Sempre, como uma sombra a quem ninguém devolve o olhar. Como o cão Tejo que até morrer de cansaço e velhice, permaneceu ainda sete anos junto da rede onde meu pai faleceu, fiel na sua espera inútil e na esperança do dia em que o dono regressaria. Porque os cães e os fantasmas não conseguem compreender a ideia da morte.

Aforismo #1


O sexo por sexo é uma das maneiras mais eficazes de boicotar o contacto com o outro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A Mulher Certa


O amor é, desde Platão, uma questão política. A ligação amorosa coloca tudo o que há de mais límpido e visceral na mesa – é no fundo o significado de intimidade. Implica a perda do controlo total da situação, o arrebatamento pela paixão, a vertigem da entrega – todas as cartas na mesa. Embora todas as pessoas desejem viver um grande amor, nem todas são capazes: há todo um conjunto de factores como o medo, a insegurança, o preconceito, as diferenças sociais, os abismos culturais, que impedem a rendição absoluta. Além disto, há os que preferem continuar a jogar, depois de verem a mão dos outros, porque acham que pode haver uma mão mais alta algures capaz de os satisfazer profundamente.


A Mulher Certa de Sándor Márai fala da pessoa certa, de amor, de mentira, de manipulação, de dor e solidão. É um livro que deve ser lido numa noite de insónia. A moral da história? Para poucas pessoas existe uma pessoa certa e para uma infinidade ainda menor esta pessoa coincide com o ser amado. Para a maioria «existem somente pessoas, e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos. Nenhuma pessoa reúne em si tudo isso, nem existe a certa, a única, a maravilhosa, essa figura singular que nos traz felicidade. Existem somente pessoas, e em todas elas, há escórias e um raio de luz, tudo…»


É sempre mais fácil afastarmo-nos ou deixar que venham até ao nosso hall de entrada apenas, temendo que a nossa sala de reserva onde conservamos a nossa querida solidão contenha mais cadáveres que tesouros. O desencontro tem a seu favor elevadas probabilidades face à união autêntica. O amor acontece muito raramente, o mais das vezes são apenas duas solidões protegendo-se uma à outra, como diria Rilke, ou duas pessoas a verem televisão sentenciadas por uma vida, como cantava Nina Simone.


«Tens aqui lume. Tu como resistes nesta luta contra o cigarro?... Eu não consigo, pelo que já desisti. Não aos cigarros, à luta. Um dia, também terei de ajustar estas contas. Um homem deve perguntar-se se vale a pena, ou não, viver mais cinco ou dez anos sem cigarros, ou se lhe convém abandonar esse vício vergonhoso e mesquinho, que acaba por matá-lo, mas que, enquanto não o mata, lhe enche a vida de uma estranha matéria que, simultaneamente, acalma e estimula o sistema nervoso. Depois dos cinquenta anos, é uma das questões mais sérias da vida. Eu respondo-lhe com espasmos na coronária e a decisão de assim prosseguir, até à morte. Não hei-de renunciar a este veneno amargo, porque não vale a pena. Dizes que não é assim tão difícil desacostumarmos?... Claro, é lá agora difícil. Eu também consegui, e não foi só uma vez, enquanto valeu a pena. O mal é que pensava todo o dia no cigarro. É preciso olhar também para isto, um dia. Temos de nos render, face à nossa própria fraqueza e se precisarmos de uma droga, convirá pagar o preço. Então, tudo se torna mais simples. Dizem-me: “Não és um herói.” E eu respondo: “É bem possível que não seja um herói, mas também não sou um cobarde, porque tenho a coragem de viver as minhas paixões”»


A questão das paixões não pode ser avaliada por valores mercantis, como «valeu a pena», em termos de ganhos e perdas: trata-se apenas se queremos fazer uma coisa e se a fazemos ou somos cobardes e nos deixamos ficar na antecâmara da emoção. No factura final, o corpo está sempre em cheque: vergado à solidão ou recordando o arrebatamento do amor. Portanto arrisquemos uma aposta alta de vez em quando - a sorte favorece os audazes. Dizem...

domingo, 21 de setembro de 2008

Desejos

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 20 de setembro de 2008

Na Corda Bamba


Não sei quando foi que começou ou se aconteceu de súbito. As grandes rupturas penetram na nossa cabeça, em segredo e sem margem para falhas, não se fazem anunciar, acontecem e pronto já está. Sei apenas que algo – uma mola, um elo, um pilar ou, então, outra coisa qualquer cuja natureza desconheço – se partiu dentro de mim, de modo irrecuperável. No lugar dessa perda, desse abandono, dessa quebra fatal, ficou apenas a solidão instalada com toda a pompa e circunstância na sua certeza inquestionável. Faz frio aqui. Arrefeceu tão de repente e todas as dádivas com que podia aquecer a minha alma se retiraram.
Um palco vazio, no centro, uma boneca de trapos abandonada, que não sabe seduzir sem jogar, sem arriscar a sua vida. Toda uma vida na corda bamba a saborear o risco da vertigem. Sabia que algum dia havia de cair, só não sabia para que lado – continuo sem saber. Sei apenas que a minha alma está em queda livre, vai pagar o preço da liberdade, sem laços nem amarras que a amparem. E de repente, um súbito desejo de assentar, de ser estável, de ser doce. Tarde demais.
Ontem olhei uma criança nos olhos e ela começou a chorar. Não sei o que ela viu em mim mas não pude evitar. Talvez tenha visto o colapso da esperança. Comecei a chorar juntamente com ela, num pranto progressivo de desespero. Em redor, os ditos adultos, olhavam a cena com alguma estupefacção. A menina correu para o abrigo das pernas da mãe, que rapidamente a acolheu e tratou com leviandade a sua tristeza. Eu, fiquei ali sozinha, sem ninguém para me consolar, a chorar mais calmamente.
Arrefece. O sono e a indiferença invadem as ruas de cada cidade, atravessam como um vento subtil as divisões de todas as casas, imiscuem-se como uma mulher delambida em todos os recantos da alma humana.
Arrefece e nenhuma fantasia, paixão ou amor resta na paisagem deserta. Deixo-te ir na corrente do esquecimento. Abandono-te antes que me abandones. Foi sempre assim. Deito, com alguma reticência, algumas lágrimas pela tua partida. Porque levas algo meu na tormenta que te arrasta. Algo que não sei se é irrecuperável.
Arrefece. Porque nunca estiveste aqui. Foi tudo imaginação minha. E se nos voltarmos a encontrar, o que é possível, vou devolver-te o gelo que instalaste em mim. Vou devolvê-lo como uma bofetada subtil, para te magoar um pouco. Foi sempre assim.
Arrefece. Lá fora uma manhã de sábado pouco credível. Aqui, neste recanto solitário, apenas uma pergunta: será alguma vez diferente? Não pretendo abdicar da minha potente natureza feminina para suportar as tuas incertezas e inseguranças. Quero um homem a meu lado, sem medo de mim, sem ilusões, que me veja realmente. No entanto, custa-me sacrificar a imagem que criei de ti. Mas afinal os ídolos servem para isso mesmo – para derramar o sangue. O nosso, claro. Foi sempre assim.

domingo, 14 de setembro de 2008

Uma Questão de Beleza






Adorei este livro de Zadie Smith – foi o primeiro que li dela e fiquei encantada com a fluidez dos diálogos hiper-realistas e a inteligente e perspicaz descrição da dinâmica psicótica das famílias. O livro aborda tantas questões que me é impossível escrever tudo o que haveria a dizer sobre este romance, por isso opto pelo silêncio de uma citação, escolhida pela óbvia comunhão.

Até agora, uma coisa era certa: Claire Malcom era viciada em auto-sabotagem. Segundo um padrão tão profundamente mergulhado na sua vida que Byford suspeitava que ele tivesse origem no início da infância, Claire sabotava compulsivamente todas as possibilidades de ter uma felicidade pessoal. Parecia estar convencida de que não era felicidade o que merecia (…) Tinha chegado a um ponto de alegria pessoal. Por fim, aos cinquenta e três. E, portanto, naturalmente que era o momento perfeito para sabotar a sua própria vida. Com esta finalidade, tinha dado início a um caso com Howard Belsey, um dos seus mais antigos amigos. Um homem por quem não sentia desejo sexual de espécie alguma (…) Toda aquela situação era perversa, tanto mais por ela não a poder defender, nem sequer perante si mesma (…). No momento do seu maior compromisso emocional, tinha intervido no casamento mais bem sucedido que conhecia. (…) Tal como explicou o Dr. Byford, ela era realmente a vítima de um transtorno perverso e particularmente feminino: sentia uma coisa e fazia outra. Era uma estranha para si mesma.


E ainda seriam assim, pensou ela – estas novas raparigas, esta nova geração? Ainda sentiriam uma coisa fazendo outra? Ainda quereriam apenas ser queridas? Ainda seriam objectos de desejo em vez de – como Howard diria – objectos desejantes? Se pensasse nas raparigas que estavam sentadas de pernas cruzadas com ela, nesta cave, em Zora, na sua frente, nas raparigas iradas que gritavam a sua poesia no palco – não, não via nenhuma alteração importante. Continuavam famintas, continuavam a ler revistas femininas que odiavam explicitamente as mulheres, ainda se cortavam com pequenas facas em lugares que julgavam não poder ser vistos, ainda fingiam os seus orgasmos com homens de quem não gostavam, ainda mentiam a toda a gente sobre todas as coisas.


Sim, Claire, penso que pouco mudou desde os anos 60: continuamos mulherzinhas em busca de afecto, encurraladas entre o desejo asfixiante de agradar e a imperatividade da afirmação e independência. Sem submissão. Sem entrega. Os tempos de cólera que correm são mais difíceis para a condição feminina: a revolução femininista dos anos 60 não passou de um acumular de tarefas para a mulher - uma esposa dedicada, uma mãe irrepreensível, uma profissional competitiva e bem-sucedida, uma amante obrigada ao orgasmo - em vez de uma efectiva promoção da mulher. Em suma, estamos bem fodidas, mas não como pretendiam as sufragistas quando decidiraram queimar os soutiens. A mim, os soutiens nunca me incomodaram.