segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Quarto do Filho


É fácil estarmos juntos quando tudo corre bem.



Mas é precisamente quando tudo corre mal, que precisamos uns dos outros. Eu, que não sou nada católica, recordo o discurso do padre no casamento do meu primo: o amor é diferente da paixão, envolve uma decisão racional, um compromisso de estar ao lado de alguém, partilhar uma vida, alegrias e desgostos. Compromisso que esquecemos todos na era líquida do amor, em que os afectos são voláteis, descartáveis e com prazo de validade.



«Ama-me quando eu menos merecer, pois será então que eu mais precisarei».



O ócio nem sempre significa passividade; ás vezes é preciso parar para repensar, para nos reencontrarmos e podermos voltar ao mundo. É preciso morrer um pouco para poder ir vivendo.




Luz Silenciosa


A paz é mais forte do que o amor.

Aos nossos amores


A maioria de nós só se sente bem quando amada. Mas são tão poucos os que possuem a capacidade de amor, a maioria têm apenas um coração seco.

É neste desiquilíbrio matemático que começam os nossos problemas e os nossos amores.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Deserto dos Tártaros



O maior dos luxos está em dispor de tempo – um tempo próprio. Mas o tempo, como já foi dito, é um material perigoso nas mãos de quem não o sabe manejar. Termina-se a leitura de O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti e sentimos o tempo a escorrer pelos nossos dedos, a urgir na sua finitude. Com angústia, percebo pela primeira vez que também eu vou morrer – racionalmente sei que todos morrermos, mas tinha a esperança de que seja algo que só acontece aos outros, afinal a nossa experiência da morte é sempre através da morte dos outros. E temo o desperdício, o deserto donde nada virá a tempo. Medo de não conseguir calvagar o tempo. Medo de perder tempo.
«Terá ainda tempo, Drogo, para vê-la, ou partirá antes? A porta do quarto palpita com um leve estalido. Talvez seja um sopro de vento, um simples remoinho destas noites irrequietas de Primavera. Ou então, talvez seja ela que entrou, com passo silencioso, e agora aproxima-se da poltrona de Drogo. Fazendo um esforço, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com a mão o colarinho do uniforme, deita mais um olhar para fora da janela, uma olhadela muito breve para arrecadar o seu derradeiro quinhão de estrelas. Depois, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.»

domingo, 8 de março de 2009

Corpo e Imagem - Bragança de Miranda



Só nos resta viver mal ou viver poeticamente.


Eu já me decidi. E tu?

O Mestre - Ana Hatherly



«Ser Mestre é uma profissão ingrata. Eu sou um honesto funcionário que ensina tudo o que está escrito mas não tenho sorte nenhuma com os meus alunos. Procuro incutir-lhes no ânimo a submissão às regras do programa, procuro fazê-los aprender tudo o que vem nos livros e tudo o que está previsto como tudo o que se deve aprender e aceitar sem reserva, mas a maior parte dos meus alunos não compreende isso.
(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)


O Mestre chega à aula irritadíssimo e grita para os discípulos:
- Vocês são todos uns ignorantes!
- Sim, Mestre!
- Vocês não sabem absolutamente nada nem nunca hão-de saber coisa nenhuma!
- Pois não, Mestre!
(…)
- Aprendam o que está escrito, está tudo escrito!
- Mas Mestre, o que nós queremos é cantar, é ver as plantas crescer, as ondas quebrar, as estrelas acender, as nuvens passar, a gente o que quer é sentir os lábios da pessoa amada poisarem no nosso rosto, a gente o que quer é sentir o calor do sol, o fresco da noite, a voz da pessoa amada tinindo nos nossos ouvidos, a ponta dos seus dedos brincando com os nossos cabelos, a gente o que quer é correr à beira do mar, dançar de alegria, comer fruta das árvores, dormir de cansaço, acordar sorrindo, erguer os olhos para dentro e ter alguém a quem amar, algo a louvar, algo a agradecer, algo a dar, alguém a quem agente se dar!...
(…)

- Você não percebe nada de liberdade!
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)

- Talvez, talvez… mas então o nosso pensamento consegue isso?
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»

In-Consequências


Era bom não existir um dia por semana.

Mas, não é para isso que servem os domingos?


Hoje tomei a decisão: em cada semana, escolherei um dia aleatório (não me agrada que já tenham predestinado o dia do meu descanso) e suspendo a minha existência. Nesse dia não falarei nem verei ninguém, porque nesse dia os outros ficarão suspensos, juntamente comigo.

Uma medida de sanidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boneca de Tripas - Parte 3



Não fui uma criança alegre. Fui uma adolescente fabulosa, entusiasmada e enérgica, mas enquanto criança fui uma menina triste, metida comigo mesma em contas misteriosas. Não sei bem porquê. Gostava de estar sozinha, achava as meninas da minha idade imaturas e não gostava que me despertasse da minha reclusão.


Recordo um Agosto, passado na casa de praia dos meus pais, com a minha tia, o seu marido, os meus primos e o meu irmão mais novo. Os meus pais e o meu irmão mais velho tinham ficado na vida de adultos isenta de longos verões. Eram dias angustiantes e quentes, em que me sentia sufocada por não poder entregar-me aos vícios da solidão, obrigada a conviver em grupo e a encontrar alegria no modo vigente de ser uma criança saudável. Sentia a falta de mim e da minha casa sem os estranhos a mim.


Recordo os dias passados na praia de Odeceixe, como dias de orfandade, de desligamento. Dias inteiros a chapinhar na água de biquíni vermelho. Vermelho órfão. Nem no meu irmão Miguel, o companheiro fiel da minha infância, encontrava o conforto da ligação, o refúgio terno da minha solidão.


Como naquela tarde solarenga em que ambos nos deliciávamos nas travessuras habituais, desafiando a paciência dos deuses com arrogância e eu me magoei ao saltar sobre um ferro. Em cheio no pipi. Uma dor aguda, violenta. E eu a fugir, a escapar-me para um canto para tocar a minha falha. A mão a voltar cheia de sangue. Vermelho vivo. A consciência súbita da natureza violenta, obscena da beleza. Como uma bofetada seca, isolada. A súbita percepção de que era feita de sangue. E a tristeza, breve e marcante, de não poder partilhar com o meu leal companheiro, o meu irmão de sangue, a dor daquela mancha. Vermelho imperfeito.


Uma mão pequena, infantil, manchada de sangue. O tempo apagou a dor, restou apenas essa imagem. Bela, violenta, terna. E uma sensação de condição frágil que me recuso a aceitar até hoje. Mas sei, não esqueci que sou determinada pelo meu sexo e pela minha capacidade de sangrar em silêncio. Anos mais tarde, um amor violento, uma atracção fatal, inebriante, a consumir-me entre lençóis brancos e macios, o sexo a pulsar, a arder no desejo de tocar, de devorar e incorporar o outro no centro da minha falha, um esforço suado para me afogar e naufragar no corpo do outro, os lençóis manchados de vermelho, um vermelho faltante, irreparável, e outra vez, mais uma vez o regresso isolado, com as mãos manchadas de sangue e arrebatamento, os olhos alucinados a tentar entender a perda, o som do coração a rachar,
Quantas vezes pode um coração rachar até se partir?

Uma praça acorda atravessada por um rasto de sangue. A beleza da cor a animar uma manhã branca e gelada. A certeza inquestionável do mal,
Um coração partido não volta a amar, é uma máquina inútil, avariada.

O arrepio perante a violência do crime – rezo a deus, que eu nunca mate alguém, pergunto ao diabo, afinal o que leva um homem a matar outro. Vermelho insano, desvairado. A carne nua, frágil, disposta a ser retalhada. A alma está indefesa, não te pode proteger, fracassou no seu papel de salvação e redenção.

Detesto talhos, o cheiro azedo da carne, a facilidade com que a cortam, manipulam, decepam. Pronta a cozinhar, a ser digerida. Eu, pequena, acocorada a um canto, a perceber que somos apenas sangue, que jamais escaparemos à corrente de sangue que nos liga e separa. A impossibilidade de partilhar a minha dor com o meu irmão, a dor é sempre nossa, não existem palavras para a compreender,
O que eu sei acerca do outro são as palavras da dor dele, a dor, essa é dele e com que ele permanecerá, não há balanças que a pesem.

A vergonha de ser mulher, a obrigação do recato, a minha mãe
Uma menina não mostra o pipi aos meninos.
Mas ele era o meu irmão, irmão leal de sangue, o único que comungou da minha infância e, além disso, agora mostro o pipi a outros, que não sabem a minha infância, que não podem entender a minha dor. Vermelho incomunicável. E talvez que o meu irmão tivesse entendido. Enquanto vivíamos na mesma infância. Enquanto a esperança e a desilusão ainda eram divisíveis. Depois crescemos, impuseram-nos um modo severo de ser adulto e deixámos de nos entender. Não sei bem porquê.

Talvez que o coração tenha começado a rachar antes, mas quando aquele amor louco e gritante começou a colapsar, ia jurar que o ouvi claramente a rachar. Como uma faca de talhante a rasgar o meu peito. Vermelho interior. Pensei que um amor assim não acabava.
Não me disseram que o amor também acaba, não me preparam para deixar de amar. Só para não mostrar o pipi aos rapazes.

Recordo aquela menina triste de cabelo liso-liso, na praia de Odeceixe, a chapinhar na água de uma pequena lagoa, tão pequena como ela. Uma menina que não sabia nadar, que não queria brincar com a prima bruta e estúpida. Queria brincar com o meu irmão, estar em minha casa com os meus pais.
Quantas vezes pode um coração sentir-se só sem se rachar?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Quem me fez, mal?


«Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.

Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.»

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Os gestos que não fizémos e as palavras que não dissémos


«Quando pensava nela, ficava pasmado por ter deixado partir aquela rapariga com o seu violino. Agora, claro, percebia que a proposta abnegada que ela lhe fizera era irrelevante. Tudo o que ela precisava era da certeza do seu amor e de que ele lhe garantisse que não havia pressa, quando tinham a vida inteira pela frente. Amor e paciência – se ao menos ele tivesse possuído os dois ao mesmo tempo – por certo tê-los-iam ajudado aos dois. E então que crianças por nascer teriam tido as suas oportunidades, que menina com uma fita no cabelo se teria tornado a sua filha adorada? É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado. Na praia de Chesil ele poderia ter chamado Florence, poderia ter ido no seu encalço. Não sabia, ou não quis saber que, quando ela fugiu dele, segura na sua angústia de que estava prestes a perdê-lo, ela nunca o amara mais, ou mais desesperadamente, que o som da sua voz teria sido uma libertação, e que ela teria retrocedido. Em vez disso, permaneceu no frio e no silêncio virtuoso do fim daquele dia de Verão, vendo-a caminhar apressada pela praia, com o som do seu avanço penoso abafado pelas pequenas vagas, até se tornar uma mancha indistinta, um ponto a desaparecer contra a imensa estrada de seixos a brilhar na luz pálida do lusco-fusco.»

A MINHA ORAÇÃO


Terei coragem para mudar aquilo que posso mudar,
Serenidade para aceitar o que não posso mudar,
E sabedoria para discernir as duas situações.

CAMPO DE SANGUE


O homem não sabe como gastar os dias. E o tempo por gastar é perigoso. Vai inventando verdades para cada um, para ser conforme ao que os outros esperam dele, sem esperar nada dos dias.


Encontra-se com a ex-mulher e portam-se como amantes. A ex-mulher, Eva, insiste que ninguém muda, que somos sempre os mesmos. Com medo que o tempo a torne igual aos que a desagradam. Insiste também que ele é um caso perdido. Enganam-se porque ambos sabem que não lhes resta outra alternativa senão a dos enganos consentidos. Precisam um do outro para se enganarem. Sobreviveram ao bairro e os sobreviventes nunca são boas pessoas porque senão sucumbiam.

«(…) Eva nunca poderia avaliar o trabalho que ele tinha ao inventar uma verdade para cada pessoa, a calma que era necessária, o controlo, a memória, ele tinha sempre que esperar pelo que precisava de ser dito, nunca se podia antecipar, era um jogo, a carta que sai determina a jogada seguinte, tudo dependia do que Eva perguntasse, cumpria as regras apesar de Eva o ouvir sem dar importância aos detalhes, o mais difícil, o que é inventado tem de ser rigorosamente certo até ao fim, um pequeno erro estraga o trabalho todo, só a vida se permite errar (..), é preciso inventar tudo muito bem para que a voz nunca falhe, é um trabalho árduo fazer com que todos os factos coincidam, um trabalho minucioso que não admite erros, um trapezista sem rede, o perigo estava em todo o lado, em qualquer pessoa, a memória dos outros era um perigo sério, a argúcia outro, isto para não falar no acaso que nunca se pode controlar, Eva estava diante de si e olhava-o como dantes, ainda não sabia, continuava a acreditar na verdade que ele lhe tinha oferecido, a mãe acreditava noutra, a senhoria noutra, cada pessoa que se cruzava com ele podia contar com uma verdade feita à sua medida, haverá melhor forma de amar, apesar de tudo sempre a voz de Eva, és um caso perdido, haverá maior manifestação de amor do que a de não confrontar o ser amado com uma verdade que não deseja (…)».


O homem e a mãe portam-se como estranhos, vendo-se duas ou três vezes por ano. Vêem televisão sem disfarçar o silêncio entre eles. Propositadamente distantes sem terem que disfarçar qualquer proximidade.

Procura a rapariga bonita durante dias pela cidade; tantas vezes a confunde com outras raparigas louras que com o tempo resta apenas uma ideia de beleza que ele continua diariamente a perseguir, certo de que ideia e objecto coincidirião quando a vir. Até que encontra o amor e se porta como apaixonado, quase uma doença, e tenta arrancar o coração de uma rapariga bonita para combater o desespero e a solidão. A beleza não se deixa recordar, roubar, pede que se olhe constantemente, um vício. Até que nos devore. Porque a beleza, aliada à solidão, pode ser um pretexto para se enlouquecer.


«A mosca acaba de ser apanhada na teia da aranha. Debate-se violentamente agitando as asas. Ele sabia que se a mosca fosse para aquele canto seria apanhada na teia da aranha. A mosca não sabia porque não tinha visto as outras moscas que nos dias anteriores tinham caído na armadilha da aranha. Ele conhecia as moscas dos outros dias. Não faz mais do que observar as moscas e a aranha e esperar pelo dia que uma mosca se consiga libertar da teia, ganhar à aranha. Talvez aconteça esse dia no meio dos outros todos iguais.»


Ninguém pode ter visto tudo sem ser igualmente culpado.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A CONDIÇÃO FEMININA NA PONTA DO GARFO


Encontrei em Dorothy Parker uma alma gémea e apaixonei-me pela sua visão ácida do mundo e pelos malabarismos de ironia que faz para a manobrar. E surpresa: ri-me pela primeira vez com um livro! Mas não era um riso fácil, era mais como uma espécie de azia a fazer cócegas no cérebro… ou no céu da boca…


Estes contos são um manual de psicologia feminina. Em OS SEXOS encontramos um casal envolvido numa típica birra de ciúmes da rapariga e apercebemo-nos de somos todas iguais e infantis nos momentos de maior fragilidade. E como manipulamos os nossos parceiros a mentir-nos e a esconder a verdade, para que possamos continuar a fingir que está tudo bem. Porque nos martirizamos mas não queremos conhecer a verdade, tememos sair com as mãos a sangrar.

A VALSA é um excelente retrato da psicologia da mente feminina num registo hilariante, de como fomos treinadas para agradar e sentir em silêncio tudo o que é discordante. “Não quero ser do tipo ultra-sensível, mas não me podem dizer que aquele pontapé não foi premeditado. Freud diz que não há acidentes. Não vivi nenhuma vida de clausura, conheci pares na dança que me estragaram os sapatos e rasgaram o vestido; mas, no que toca a pontapés, sou a Feminilidade Ultrajada. Quando me dão um pontapé na canela, sorrio.


Em O TELEFONEMA temos uma mulher como todas à espera do telefonema de um ex-amante, completamente obcecada em encontrar as suas falhas e culpas. “Acho que nem sabe como me faz sentir. Quem me dera que soubesse, sem ser eu a dizer. Eles não gostam quando lhes dizemos que nos fizeram chorar. Não gostam quando lhes dizemos que estamos infelizes por causa deles. Se o dizemos, pensam que somos possessivas e exigentes. E depois odeiam-nos. Odeiam-nos sempre que dizemos qualquer coisa que pensamos realmente. Temos de estar sempre a fazer joguinhos. Oh, pensava que não tínhamos de o fazer; pensava que isto era tão grandioso que podia dizer o que quisesse. Aposto que não podemos, nunca. Aposto que não há nunca uma coisa suficientemente grandiosa para isso. Oh, se ele telefonasse apenas, não lhe diria que tinha estado triste por causa dele. Eles odeiam gente triste. Eu seria tão meiga e tão alegre que ele não poderia senão gostar de mim. Se ele ao menos telefonasse. Se ele ao menos telefonasse.


Em LOLITA, encontramos a esperança de uma mãe na infelicidade da filha, apesar do seu casamento com um homem rico e atraente. Uma mãe que depende de uma filha frustrada e infeliz para poder brilhar e se sentir mais afortunada.
John Marble e Lolita continuavam na mesma, dizia às amigas. John Marble continuava tão arrasador como havia sido quando chegara pela primeira vez à cidade e Lolita continuava sem ter uma palavra a dizer em seu favor. Embora o décimo aniversário do seu casamento estivesse próximo, ela não conseguia ainda dar forma aos seus vestidos (…). Tinham amigos e recebiam muito agradavelmente e, por vezes, saíam. Bem, sim, pareciam, de facto; pareciam realmente ser felizes. «É mesmo como eu digo à Lolita», dizia Mrs. Ewing. «É mesmo como lhe digo quando lhe escrevo: Sê feliz enquanto puderes.»Porque… Bem, sabem como é. Um homem como John Marble casado com uma rapariga como Lolita! Mas ela sabe que pode sempre vir para cá. Esta casa é o seu lar. Ela pode sempre voltar para a sua mãe.»
Pois Mrs, Ewing não era mulher para abandonar facilmente a esperança.


MR. DURANT é um homem que sacrifica os sentimentos dos outros pela ilusão de que tudo está bem e a sua oportunidade para a felicidade ainda não aconteceu nem se desvaneceu. Para prosseguir animado pela certeza de que haverão sempre outras.
«Mas as crianças», disse ela. «Vão ficar simplesmente…»
«Ora, deixa tudo isso comigo», assegurou-lhe ele. «Disse-lhes que o cão podia ficar, e ainda nunca quebrei uma promessa, pois não? Olha o que vou fazer – espero até que estejam a dormir e depois pego simplesmente no cãozinho e ponho-o na rua. Depois, de manhã, podes dizer-lhe que fugiu durante a noite, vês?»
Ela inclinou a cabeça em sinal de assentimento. O marido deu-lhe uma palmadinha no ombro, na sua seda negra cheirando a luto. A sua paz com o mundo estava mais uma vez intacta, restaurada por esta solução simples da pequena dificuldade. De novo a sua mente se embrulhou na consciência de que tudo estava solucionado, tudo estava pronto para um belo e novo começo. O seu braço estava ainda sobre o ombro da mulher quando reentraram na sala para jantar.


E a tradução de Cecília Rego Pinheiro é excelente, soberba.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Aforismo #2


Quando a mente sofre o corpo grita.

Excelente frase que infelizmente não é minha. The Godfather III.

No final das contas, o acerto pertence sempre ao corpo. Mas deixá-lo pagar se ele estiver a gozar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Boneca de Tripas - Parte 2


Um pensamento que não mata nem morre. O medo, o terror, o pânico. Noite adentro, a mastigar, a ruminar, impedindo os olhos de descansarem. As pálpebras carregadas de ansiolíticos. E o pensamento a martelar, a mastigar incessantemente, roldanas de aço até ao delírio. E eu a querer apenas dormir, fechar os olhos, a tentar cavalgar a onda sem sucesso. A ser engolida pelas palavras que se soltaram dentro da minha cabeça, como notas numa composição insana. Acocorada, debruçada sobre o meu ventre, a desejar, a implorar uma pausa. Esmagada contra a almofada, os vincos da roupa impressos na minha carne.



Liberdade. Quantos comprimidos são precisos para matar o pensamento? O pensamento que me rói do avesso. Sim, exactamento quantos, para que esta porra acabe?



A geometria das paredes alonga-se, o tecto deixou de ser o companheiro vítreo da adolescência eufórica, nele não se projectam mais as esperanças de um futuro mais leve, mais brilhante. Desde que o medo se infiltrou, vísceras adentro sem piedade. Começou a roer em silêncio e apoderou-se de tudo. Medo de ter medo. Um intruso indesejado que se tornou imperador impiedoso.



Um pensamento que não mata nem morre. Vai moendo. Lentamente. Sorrateiramente. Minando o que pode. Um líquido corrosivo. Um sabor a ferrugem e crime na boca. O medo de que a boca se volte para dentro e comece a triturar tudo, os dentes, o estômago, a memória e a dignidade. Olhar para o real e não dar fé nele. Olhar para as paisagens urbanas e apenas o paladar de papel de jornal na minha garganta. Olhar os rostos dos outros e não decifrar neles a minha humanidade.



E o medo a galopar, veloz no meu colo, no meu peito, a trepar pelo pescoço, numa tensão de máquina no meu queixo. Olhar uma mãe e a sua filha e tremer. Leveza e cães. Haverá uma falha, uma brecha no real que me possa acolher? Afinal quantos comprimidos, ao certo, são necessários para matar o pensamento? Fórmula desejada...



O cansaço, a insónia, as olheiras, o suor abafado e condenado. Do outro lado, alguém a batalhar contra o sono, contra a morte certa e urgente. Contra o esquecimento. Os fantasmas brancos da madrugada e a certeza de existirmos sós naquela hora desassossegada. A luz amarela e violenta do candeeiro a insinuar que o mundo acabou e que se esqueceu de nós. De nos vomitar na nossa artificialidade. Cinco da manhã. Agitação. Morangos silvestres sem uma história prestes a ser apagada.



Seis. Sete. Até que tudo se imobiliza, a noite abraça o universo que afinal se resume a um pensamento obsessivo de um, que insite nos bastidores da consciência, sem comparecer ao seu encontro. Uma sereia, morangos silvestres de novo e uma melancia. A minha história a fugir para um disparate qualquer. Ou os comprimidos fazem efeito e adormeço, desmaio, desligo ou passo a ser apenas vestígios de ossos e sangue que um pensamento mastigou a seco. E se não houver espuma do mar? Se não vier o dia seguinte? Se não vierem dias melhores para que possam voltar os dias piores, para que tudo acabe bem para depois ficar tudo mal?



Como desligo isto? Quantos comprimidos afinal? Quantos? Para derrotar a raiz tuberculosa do medo.

Corpo Presente


Vencedor do Man Booker 2007, este livro de Anne Enright é possante, irado e implacável. Cada vez me convenço mais que a escrita das mulheres, desde sempre treinadas para a dor e para o silêncio, consegue ser mais impiedosa. Um dedo afiado na ferida; é isso que Veronica Hegarty faz a si própria depois do suicídio do seu irmão mais próximo. Obriga-se a recordar os traumas de infância onde cada um se tornou um caso perdido, as discórdias de jovens adultos que afastaram a fraternidade de ambos.


«A bebida não era o seu problema, mas acabou por se tornar o seu problema, o que foi um alívio para todos os interessados. «Estou um pouco preocupada com Liam, por andar a beber», portanto, após algum tempo, já ninguém conseguia ouvir nada do que ele dizia.
O que era merecido, pois só dizia merda. O álcool deu cabo dele, como sempre faz. Mas estou a tentar perceber quando foi – quando deixei de me preocupar com ele e comecei a preocupar-me por ele beber


Veronica recorda a descoberta de que Liam era molestado pelo senhorio da avó, o homem que esta rejeitou na sua juventude, que possivelmente também terá molestado a sua mãe e a própria Veronica. Escava no sangue em busca do erro, do mal-entendido onde as vidas e o futuro deles se confundiu. Obriga-se a embater desastrosamente na sua vida.


Até que ponto as nossas famílias disfuncionais (porque todas o são, não fossem elas compostas por pessoas) e os pequenos grandes incidentes, segredos e traumas condicionam a nossa vida de adultos? Seremos sempre eternas crianças em busca de paliativos para curar as cicatrizes dos nossos tímidos começos?


«Olho para as pessoas em fila para pagar e pergunto-me se estarão a ir para casa ou a afastar-se das pessoas que amam. Não há outras viagens. E penso que constituímos refugiados peculiares, a fugir do nosso próprio sangue, ou para junto do nosso próprio sangue; a pulsar para trás e para a frente ao longo das veias fantasmagóricas, que envolvem o mundo numa mixórdia de sangue.»

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Do not go gentle into that good night


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas

Memória e Delírio



«Los locos van libres por las salas y pasillos o por las habitaciones de los hombres, sin que ello inspire el menor recelo de evasión o desorden. Incluso algunos de ellos, pertenecientes a familias distinguidas, acompañan a las visitas, hacen los honores de la casa. Guardan las más suaves formas de cortesía y buena educación.»

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura é o primeiro romance de António Lobo Antunes que li. O livro, o 14º escrito pelo autor, é composto por 35 capítulos ordenados em 7 partes que se assumem como os 7 dias da criação do mundo. Neste livro que Lobo Antunes classificou como poema, cabe de facto todo o mundo e toda a sua criação, através da viagem interior ziguezagueante entre a memória e a fantasia, empreendida por Maria Clara, numa polifonia de vozes e delírio.

O pai doente nos Cuidados Intensivos serve de pretexto a Maria Clara para ousar entrar em quartos e sótãos proibidos, onde vai recordar a distância do seu pai e fantasiar uma explicação para a ausência deste, onde se vai defrontar com a beleza da irmã que inveja, com a solidão da mãe na cama fria onde o marido não dorme há muitos anos. Lobo Antunes maneja de modo tão inovador a técnica do fluxo de consciência que nos sentimos como o psiquiatra de Maria Clara, tentando descortinar a verdade do delírio, das fantasias que inventámos para gerir melhor a nossa dor e a dor dos outros.

Não é um livro fácil – demorei-me um mês e meio na sua leitura. Todas as palavras são escolhidas a dedo, deliciosas e amargas consoante a circunstância, mas sempre poderosíssimas. A certa altura, podemos até dizer que a escrita de Lobo Antunes se torna penosa pela repetição obsessiva de certas imagens e frases. Mas a vida também é assim, o nosso tempo é marcado pela batuta das nossas obsessões, pelas frustrações que nos venderam, pelas falhas que nos apontaram, pelos afectos que desejámos, pelos polegares no pescoço que nunca se demoraram docemente e nos quais ficámos a cismar precisamente pela sua pressa.

A quase ausência de enredo também não facilita o trabalho do leitor, obrigado a lidar com os delírios de uma menina metida consigo mesma, a perscrutar goivos e freixos, a boina ridícula da avó todas as tardes a caminho do casino do Estoril para apostar mais algumas jóias ou talheres para reaver a riqueza e dignidade de outrora, o passado com cheiro a pobre do pai, os encontros fortuitos da mãe com o motorista no Guincho, a irmã pretendida por todos os homens de rosto enfiado em revistas femininas e telefonemas suspirados. Lobo Antunes disse numa entrevista «Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros». Ou ainda, citando Clarice Lispector, «As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas» e os acontecimentos do quotidiano podem escassear mas dentro de nós há uma roldana imparável, de aço, que vai roendo e mastigando tudo e que desliza às vezes, por engano ou descuido, para nos triturar.

Chegamos ao fim e sabemos que não podemos fugir aos nossos fantasmas, que eles nos vão espiar por detrás dos nossos ombros erguidos, tímidos e inconvenientes. E que a verdade que nos compõe não é só a dos factos, a do real, mas também dos delírios que nos fazem e desfazem. E que raramente podemos confessar a alguém, excepto aos profissionais da mente, sob pena de sermos excluídos da normalidade da vida de todos os dias, reclamada por todos mas onde ninguém habita.

«se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar».


Uma viagem empreendida para recordar a menina que brincava às fadas junto ao lago, que mais tarde dava pontapés nas pedras e odiava todos e que acabou casada com um homem que não suporta o toque e um filho que não reconhece nem lhe apetece, a habitar às escondidas o refúgio da sua meninice e das suas ilusões. Tentando descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa vida, em que a guinada ocorreu e o fracasso começou a devorar a nossa eternidade. Quando, exactamente quando, foi que nos fodemos?

«Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum
(as chaves estão sempre no prato da entrada)
descer as escadas
(não descer pelo elevador, descer as escadas)
até à garagem da cave, ver o fecho eléctrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta auomática subir devagarinho e logo na rua acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direcção da auto-estrada, sem ligar aos painéis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além da pressa de ir-me embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos (…). Parar num desses restaurantes das bombas de gasolina à beira das portagens e comer sem olhar para ninguém, sem reparar em ninguém nem sequer nas crianças que correm entre as mesas e acelerar de novo segurando o volante com força tal como em pequena segurava o guiador da bicicleta (…).


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite (…).

Hoje estava capaz de me ir embora. Metia todo o dinheiro da gaveta no bolso, deixava aqui a mala, os documentos, os sinais de quem sou. Se me perguntarem o que faço responder que não tenho profissão. Sou apenas uma mulher num restaurante das bombas de gasolina à beira de uma portagem, a mastigar calada (…).


Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Boneca de tripas - Parte 1


Dia de Natal e eu fechada na casa-de-banho a sangrar, o sangue escuro, espesso a sair sem parar, a escorregar pelas pernas, o piso da casa de banho ensopado, pontuado por manchas de postas de carne azuis e violetas, eu a desfazer-me numa dor afiada líquida entre as pernas sem sequer…. Um grito de angústia, de socorro, sufocado na manga da camisola de lã grossa que a minha avó me ofereceu no outro natal. No natal em que eu não era, não fui uma menina feia trancada na casa-de-banho a sangrar silenciosamente.


«Como foste capaz, Solange?», a voz severa da figura seca da minha mãe a despertar-me naquela tarde abafada de Agosto em que retirei um a um os peixes raros do meu pai do aquário esverdeado e os coloquei na carpete da sala, junto aos brinquedos gastos noutras tardes solitárias de Verão.


Uma agonia aquática entre as pernas, submersa nos ladrilhos da casa de banho em postas de carne azuis e violetas. Enquanto a minha família ceia reunida na mesa, partilhando doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal. Noite de natal, peixes demoníacos a devorar as minhas vísceras num rodopio de esferas de vidro no meu ventre. Sabres de metal que me atravessam e rasgam a carne.

O medo cortante de que a minha mãe ou a minha tia ou o meu pai descubram a minha ausência e me surpreendam nesta lama de sangue espalhada pelos ladrilhos e

«Como foste capaz, Solange?».


Minutos a fio a assistir ao duelo de escamas contra o algodão da carpete – uma agonia de guelras e bocas escancaradas num som que nunca mais me esqueci e que voltei a ouvir anos depois à beira da cama da minha avó - o cheiro a peixe da morte, quando ninguém sabia que ela morria - é apenas uma gripe, está de cama a ver se se cura – diziam, enquanto eu pressentia, eu sufocava com o cheiro a peixe no quarto da minha avó e olhar de aquário dela em mim, talvez a adivinhar que anos depois, na noite de natal… eu na casa de banho a sangrar, uma dor afiada entre as pernas.

Até que aquela coisa horrorosa sai de dentro de mim, rasgando a carne para se vir espalhar no meio das postas de sangue azuis violetas, as goelas ainda arriscam um choro mas este desmaia, fracassa no embate contra os ladrilhos frios e vermelhos da casa-de-banho do meu crime. E de novo, o barulho das guelras debatendo-se em golfadas de água impossíveis.

Os peixes novamente no aquário, ondulando levemente, os olhos como redomas viscosas a mirarem o vazio e eu a olhá-los, a cismar, extasiada, debruçada sobre o vidro acastanhado num esgar de limos e crueldade. Fascinada mesmo depois da surpresa da minha mãe

«Como foste capaz, Solange?»


Por a dor dos outros não nos poder doer, não passar apenas de uma agonia de guelras encerrada no silêncio das algas de um aquário. Doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal, isolados do lamaçal de sangue de uma casa-de-banho onde não ousam adivinhar que um cordão umbilical é arrancado com os dentes, que podia escapar à descarga do autoclismo, mas… Lá se vai… lá se foi, o quê?

Uma criança entediada por não ter irmãos nem actividades de verão a brincar a inventar o poder demiurgo da vida e da morte, a criar o universo num Agosto distante encerrado em cortinas de tédio, quentes e inimigas. Desta vez não há tempo, apenas a pressa de limpar a mancha, todas as manchas com a esfregona e depois um saco que hei-de atirar cheio de pedras de calçada para o lago do parque, onde um Natal deixei cair, enquanto brincava com a minha prima, a minha fita de cabelo rosa. A minha fita de cabelo rosa que eu adorava perdida no lago de sangue de uma casa de banho na noite de natal.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

D.Juan, o sedutor vítima do seu desejo


JULIETA: Sabes o que eu vejo D. João… cada corpo que se ergue na tua vida é uma cruz assinalando a morte de um pedaço da tua alma… carne branca talhada em pedra tumular a que te agarravas num desespero de náufrago… Tu trazias em ti a essência de Romeu… e no entanto a forma exterior era a de D. João, às apalpadelas, por caminhos ínvios, numa procura febril do rasto de Julieta. Cada mulher era a esperança duma alvorada… a promessa esquiva do possível caminho do encontro com a tua bem-amada… Detinhas-te e caminhavas mais à frente, cheio de mágoa, frustrado na tua eterna pesquisa. E por isso foram muitas.. porque em cada uma delas tu celebraste a momentânea esperança do encontro final. E assim eras cruel e destruías onde passavas… e os homens chamaram-te cínico, ímpio e dissoluto… Eles só viam as ruínas que tu deixavas pelo caminho e anunciavam que a tua presença era mensageira de desgraça… Mas nenhum deles soube ver a profundidade da tua mágoa, nem os teus pés que sangravam no choque de cada pedra em que tropeçavas julgando que era uma flor.