Oscar Wilde
quinta-feira, 30 de abril de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
É evidente...

é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer : PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto
a falha grande que é MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença
e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir 1 consultório,
curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras e ideias claras.
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário.
é evidente, enfim, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.
Gonçalo M. Tavares in. " Livro da dança " assirio & alvim
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Mais um aforismo do Aníbal, o outro

No fim do almoço com mais de 150 dragões de komodo, que devoraram tudo com as dentaduras ferozes e insaciáveis, uns quantos medronhos mata-bicho e uma sessão de tarot que mais parecia um jogo de póquer: «Para curar um amor, não há melhor que arranjar logo outro. É como a bubedeira». Amo o remate. Especialmente, depois de ter passado três dias ébria.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Os pensamentos de Aníbal, o outro

«Quando um indivíduo está na praça, das duas uma: ou não presta ou não sabe o que quer». Isto a propósito das relações amorosas nos tempos de cólera de hoje. E eu que pensava que estava na praça a curtir as vistas. Talvez tenha uma ideia inflacionada de mim ou uma ideia deflacionada da minha solidão. Das duas, uma. Não sei, a ver se penso mais claramente nisto.
«Não existem boas pessoas. O que existem são indivíduos que tiveram sorte e não se depararam com circunstâncias tramadas. Eu não acredito em santos». Este meu tio é qualquer coisa.
Vou por um anúncio no jornal para ver se encontro o homem dos meus sonhos. Só não me consigo decidir em qual: no Correio da Manhã, em que o público é mais massivo e indiferenciado, ou no Público, em que os leitores são mais cultos e pretensiosos.
terça-feira, 21 de abril de 2009
NOITES CROMÁTICAS 1

Picnic no Parque de Alvalade: há muito tempo, que não me deitava na erva a disfrutar do banho da luz da lua. Não percebia os corpos, ouvia apenas as vozes, deliciada e imaginava as rostos dos que não conhecia. Longe do som do mal, dos passos que ecoam fortes e solitários nas igrejas fechadas e húmidas. Percebo a quietude da natureza, das árvores nos passeios, das ervas daninhas nos intervalos das pedras de calçada, à espera de um intervalo nosso para recuperar o que lhe furtámos. Clamo em silêncio por uma oportunidade de vingança do verde.
Alfama: alguns whiskies e vou vendo as caras que conheci no escuro. Caras menos enigmáticas do que as imaginei. Olhos mais alucinados do que supusera.
Regueirão dos Anjos: sento-me ao lado de um homem, vestido com todo o rigor de África. Converso com ele. Fantasio-o um xamã. Diz-me coisas profundas, para ter cuidado com o presente. Lê a desordem na palma da minha mão. Depois sento-me num sofá, ao lado de um espanhol que encontrara noutra noite no LX Factory e que não se recordava da conversa que tínhamos tido. Na outra noite, estava há horas aos beijos com uma rapariga. Quando saí da disco, continuavam cá fora. Na minha ingenuidade não me contive, aproximei-me, pedi desculpa pela interrupção, mas queria saber se aquilo era amor. Queria saber se o amor ainda pode existir nestes tempos. Ele tentou manobrar a questão, a rapariga respondeu de imediato, que não, que não era amor. Ele pareceu desapontado com a resposta. Perguntei então se era sexo. Ela respondeu que não, que era qualquer coisa entre amor e sexo. Afastei-me a pé, a cismar no porquê de não conseguir entender a medianidade, de ter de viver sempre entre absolutos. De não suportar estados intermédios. Ouvi a rapariga gritar e olhei para trás. «Eu estou contigo. Também quero acreditar no amor puro». Continuei sozinha pela minha Lisboa de madrugada, vagueando enleada nos meus pensamentos, com um chapéu por companhia. No Regueirão torno a encontrar este rapaz com outra rapariga. Sento-me a seu lado no sofá e como percebo que não se recorda de mim, falo-lhe como um anjo lhe falaria se pudesse descer até ele. Ele responde com teorias líquidas de afecto, dizendo que o amor acontecerá inevitavelmente. Respondo-lhe que não. Que contra todas as hipóteses, o amor não acontecerá. Saio, arrasto o meu corpo até ao Cais de Sodré. Sinto-me perdida, não quero ir para casa.
Às seis da manhã, vou comer uma bifana com um quilo de carne e alho no café mais xunga do Cais de Sodré, onde o dono faz tudo para me agradar, porque eu sou aquilo que ele chama de «viagra dos pobres». Obviamente tentei negociar sexo oral e quase chegávamos a um acordo - a proposta inicial dele era de dois euros e meio, mas julgo que era capaz de chegar a um preço ainda mais simpático, afinal a negociação é um dos meus fortes.
Depois disto, entro no metro - um erro que cometo raramente, pois não gosto de misturar a minha loucura com o dia normal dos trabalhadores - e começo, juntamente com um amigo a chamar todos de «wankas». E é então que o diálogo mais genial da noite acontece. Um dread de sobrancelhas rapadas diz-me:
- Tu é que tens a culpa disto tudo.
- Disto tudo o quê?
- De tudo. Tudo.
- Mas eu não sou Eva.
- E eu também não sou Adão.
Saio do metro na estação de Roma e olho o metro parado do outro lado da linha. Espero as portas fecharem e chamo a atenção de dois rapazes sentados junto à janela. Levanto a blusa e baixo o soutien. Ainda recordo as suas faces invadidas por uma súbita excitação infantil.
Saí do metro em êxtase e coloquei gentilmente todos os caixotes de lixo na horizontal. Ao virar da esquina, contemplei a rua e era uma visão soberba.
Vejo beleza nisto tudo. E não desculpo quem não veja.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
O Quarto do Filho

É fácil estarmos juntos quando tudo corre bem.
Mas é precisamente quando tudo corre mal, que precisamos uns dos outros. Eu, que não sou nada católica, recordo o discurso do padre no casamento do meu primo: o amor é diferente da paixão, envolve uma decisão racional, um compromisso de estar ao lado de alguém, partilhar uma vida, alegrias e desgostos. Compromisso que esquecemos todos na era líquida do amor, em que os afectos são voláteis, descartáveis e com prazo de validade.
«Ama-me quando eu menos merecer, pois será então que eu mais precisarei».
O ócio nem sempre significa passividade; ás vezes é preciso parar para repensar, para nos reencontrarmos e podermos voltar ao mundo. É preciso morrer um pouco para poder ir vivendo.
Aos nossos amores
quarta-feira, 11 de março de 2009
O Deserto dos Tártaros

O maior dos luxos está em dispor de tempo – um tempo próprio. Mas o tempo, como já foi dito, é um material perigoso nas mãos de quem não o sabe manejar. Termina-se a leitura de O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti e sentimos o tempo a escorrer pelos nossos dedos, a urgir na sua finitude. Com angústia, percebo pela primeira vez que também eu vou morrer – racionalmente sei que todos morrermos, mas tinha a esperança de que seja algo que só acontece aos outros, afinal a nossa experiência da morte é sempre através da morte dos outros. E temo o desperdício, o deserto donde nada virá a tempo. Medo de não conseguir calvagar o tempo. Medo de perder tempo.
«Terá ainda tempo, Drogo, para vê-la, ou partirá antes? A porta do quarto palpita com um leve estalido. Talvez seja um sopro de vento, um simples remoinho destas noites irrequietas de Primavera. Ou então, talvez seja ela que entrou, com passo silencioso, e agora aproxima-se da poltrona de Drogo. Fazendo um esforço, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com a mão o colarinho do uniforme, deita mais um olhar para fora da janela, uma olhadela muito breve para arrecadar o seu derradeiro quinhão de estrelas. Depois, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.»
domingo, 8 de março de 2009
O Mestre - Ana Hatherly

«Ser Mestre é uma profissão ingrata. Eu sou um honesto funcionário que ensina tudo o que está escrito mas não tenho sorte nenhuma com os meus alunos. Procuro incutir-lhes no ânimo a submissão às regras do programa, procuro fazê-los aprender tudo o que vem nos livros e tudo o que está previsto como tudo o que se deve aprender e aceitar sem reserva, mas a maior parte dos meus alunos não compreende isso.
(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)
(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)
O Mestre chega à aula irritadíssimo e grita para os discípulos:
- Vocês são todos uns ignorantes!
- Sim, Mestre!
- Vocês não sabem absolutamente nada nem nunca hão-de saber coisa nenhuma!
- Pois não, Mestre!
(…)
- Aprendam o que está escrito, está tudo escrito!
- Mas Mestre, o que nós queremos é cantar, é ver as plantas crescer, as ondas quebrar, as estrelas acender, as nuvens passar, a gente o que quer é sentir os lábios da pessoa amada poisarem no nosso rosto, a gente o que quer é sentir o calor do sol, o fresco da noite, a voz da pessoa amada tinindo nos nossos ouvidos, a ponta dos seus dedos brincando com os nossos cabelos, a gente o que quer é correr à beira do mar, dançar de alegria, comer fruta das árvores, dormir de cansaço, acordar sorrindo, erguer os olhos para dentro e ter alguém a quem amar, algo a louvar, algo a agradecer, algo a dar, alguém a quem agente se dar!...
(…)
- Você não percebe nada de liberdade!
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)
- Talvez, talvez… mas então o nosso pensamento consegue isso?
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»
In-Consequências

Era bom não existir um dia por semana.
Mas, não é para isso que servem os domingos?
Hoje tomei a decisão: em cada semana, escolherei um dia aleatório (não me agrada que já tenham predestinado o dia do meu descanso) e suspendo a minha existência. Nesse dia não falarei nem verei ninguém, porque nesse dia os outros ficarão suspensos, juntamente comigo.
Uma medida de sanidade.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Boneca de Tripas - Parte 3

Não fui uma criança alegre. Fui uma adolescente fabulosa, entusiasmada e enérgica, mas enquanto criança fui uma menina triste, metida comigo mesma em contas misteriosas. Não sei bem porquê. Gostava de estar sozinha, achava as meninas da minha idade imaturas e não gostava que me despertasse da minha reclusão.
Recordo um Agosto, passado na casa de praia dos meus pais, com a minha tia, o seu marido, os meus primos e o meu irmão mais novo. Os meus pais e o meu irmão mais velho tinham ficado na vida de adultos isenta de longos verões. Eram dias angustiantes e quentes, em que me sentia sufocada por não poder entregar-me aos vícios da solidão, obrigada a conviver em grupo e a encontrar alegria no modo vigente de ser uma criança saudável. Sentia a falta de mim e da minha casa sem os estranhos a mim.
Recordo os dias passados na praia de Odeceixe, como dias de orfandade, de desligamento. Dias inteiros a chapinhar na água de biquíni vermelho. Vermelho órfão. Nem no meu irmão Miguel, o companheiro fiel da minha infância, encontrava o conforto da ligação, o refúgio terno da minha solidão.
Como naquela tarde solarenga em que ambos nos deliciávamos nas travessuras habituais, desafiando a paciência dos deuses com arrogância e eu me magoei ao saltar sobre um ferro. Em cheio no pipi. Uma dor aguda, violenta. E eu a fugir, a escapar-me para um canto para tocar a minha falha. A mão a voltar cheia de sangue. Vermelho vivo. A consciência súbita da natureza violenta, obscena da beleza. Como uma bofetada seca, isolada. A súbita percepção de que era feita de sangue. E a tristeza, breve e marcante, de não poder partilhar com o meu leal companheiro, o meu irmão de sangue, a dor daquela mancha. Vermelho imperfeito.
Uma mão pequena, infantil, manchada de sangue. O tempo apagou a dor, restou apenas essa imagem. Bela, violenta, terna. E uma sensação de condição frágil que me recuso a aceitar até hoje. Mas sei, não esqueci que sou determinada pelo meu sexo e pela minha capacidade de sangrar em silêncio. Anos mais tarde, um amor violento, uma atracção fatal, inebriante, a consumir-me entre lençóis brancos e macios, o sexo a pulsar, a arder no desejo de tocar, de devorar e incorporar o outro no centro da minha falha, um esforço suado para me afogar e naufragar no corpo do outro, os lençóis manchados de vermelho, um vermelho faltante, irreparável, e outra vez, mais uma vez o regresso isolado, com as mãos manchadas de sangue e arrebatamento, os olhos alucinados a tentar entender a perda, o som do coração a rachar,
Quantas vezes pode um coração rachar até se partir?
Uma praça acorda atravessada por um rasto de sangue. A beleza da cor a animar uma manhã branca e gelada. A certeza inquestionável do mal,
Um coração partido não volta a amar, é uma máquina inútil, avariada.
Um coração partido não volta a amar, é uma máquina inútil, avariada.
O arrepio perante a violência do crime – rezo a deus, que eu nunca mate alguém, pergunto ao diabo, afinal o que leva um homem a matar outro. Vermelho insano, desvairado. A carne nua, frágil, disposta a ser retalhada. A alma está indefesa, não te pode proteger, fracassou no seu papel de salvação e redenção.
Detesto talhos, o cheiro azedo da carne, a facilidade com que a cortam, manipulam, decepam. Pronta a cozinhar, a ser digerida. Eu, pequena, acocorada a um canto, a perceber que somos apenas sangue, que jamais escaparemos à corrente de sangue que nos liga e separa. A impossibilidade de partilhar a minha dor com o meu irmão, a dor é sempre nossa, não existem palavras para a compreender,
O que eu sei acerca do outro são as palavras da dor dele, a dor, essa é dele e com que ele permanecerá, não há balanças que a pesem.
O que eu sei acerca do outro são as palavras da dor dele, a dor, essa é dele e com que ele permanecerá, não há balanças que a pesem.
A vergonha de ser mulher, a obrigação do recato, a minha mãe
Uma menina não mostra o pipi aos meninos.
Mas ele era o meu irmão, irmão leal de sangue, o único que comungou da minha infância e, além disso, agora mostro o pipi a outros, que não sabem a minha infância, que não podem entender a minha dor. Vermelho incomunicável. E talvez que o meu irmão tivesse entendido. Enquanto vivíamos na mesma infância. Enquanto a esperança e a desilusão ainda eram divisíveis. Depois crescemos, impuseram-nos um modo severo de ser adulto e deixámos de nos entender. Não sei bem porquê.
Uma menina não mostra o pipi aos meninos.
Mas ele era o meu irmão, irmão leal de sangue, o único que comungou da minha infância e, além disso, agora mostro o pipi a outros, que não sabem a minha infância, que não podem entender a minha dor. Vermelho incomunicável. E talvez que o meu irmão tivesse entendido. Enquanto vivíamos na mesma infância. Enquanto a esperança e a desilusão ainda eram divisíveis. Depois crescemos, impuseram-nos um modo severo de ser adulto e deixámos de nos entender. Não sei bem porquê.
Talvez que o coração tenha começado a rachar antes, mas quando aquele amor louco e gritante começou a colapsar, ia jurar que o ouvi claramente a rachar. Como uma faca de talhante a rasgar o meu peito. Vermelho interior. Pensei que um amor assim não acabava.
Não me disseram que o amor também acaba, não me preparam para deixar de amar. Só para não mostrar o pipi aos rapazes.
Não me disseram que o amor também acaba, não me preparam para deixar de amar. Só para não mostrar o pipi aos rapazes.
Recordo aquela menina triste de cabelo liso-liso, na praia de Odeceixe, a chapinhar na água de uma pequena lagoa, tão pequena como ela. Uma menina que não sabia nadar, que não queria brincar com a prima bruta e estúpida. Queria brincar com o meu irmão, estar em minha casa com os meus pais.
Quantas vezes pode um coração sentir-se só sem se rachar?
Quantas vezes pode um coração sentir-se só sem se rachar?
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Quem me fez, mal?
«Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.»
Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Os gestos que não fizémos e as palavras que não dissémos

«Quando pensava nela, ficava pasmado por ter deixado partir aquela rapariga com o seu violino. Agora, claro, percebia que a proposta abnegada que ela lhe fizera era irrelevante. Tudo o que ela precisava era da certeza do seu amor e de que ele lhe garantisse que não havia pressa, quando tinham a vida inteira pela frente. Amor e paciência – se ao menos ele tivesse possuído os dois ao mesmo tempo – por certo tê-los-iam ajudado aos dois. E então que crianças por nascer teriam tido as suas oportunidades, que menina com uma fita no cabelo se teria tornado a sua filha adorada? É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado. Na praia de Chesil ele poderia ter chamado Florence, poderia ter ido no seu encalço. Não sabia, ou não quis saber que, quando ela fugiu dele, segura na sua angústia de que estava prestes a perdê-lo, ela nunca o amara mais, ou mais desesperadamente, que o som da sua voz teria sido uma libertação, e que ela teria retrocedido. Em vez disso, permaneceu no frio e no silêncio virtuoso do fim daquele dia de Verão, vendo-a caminhar apressada pela praia, com o som do seu avanço penoso abafado pelas pequenas vagas, até se tornar uma mancha indistinta, um ponto a desaparecer contra a imensa estrada de seixos a brilhar na luz pálida do lusco-fusco.»
A MINHA ORAÇÃO
CAMPO DE SANGUE

O homem não sabe como gastar os dias. E o tempo por gastar é perigoso. Vai inventando verdades para cada um, para ser conforme ao que os outros esperam dele, sem esperar nada dos dias.
Encontra-se com a ex-mulher e portam-se como amantes. A ex-mulher, Eva, insiste que ninguém muda, que somos sempre os mesmos. Com medo que o tempo a torne igual aos que a desagradam. Insiste também que ele é um caso perdido. Enganam-se porque ambos sabem que não lhes resta outra alternativa senão a dos enganos consentidos. Precisam um do outro para se enganarem. Sobreviveram ao bairro e os sobreviventes nunca são boas pessoas porque senão sucumbiam.
«(…) Eva nunca poderia avaliar o trabalho que ele tinha ao inventar uma verdade para cada pessoa, a calma que era necessária, o controlo, a memória, ele tinha sempre que esperar pelo que precisava de ser dito, nunca se podia antecipar, era um jogo, a carta que sai determina a jogada seguinte, tudo dependia do que Eva perguntasse, cumpria as regras apesar de Eva o ouvir sem dar importância aos detalhes, o mais difícil, o que é inventado tem de ser rigorosamente certo até ao fim, um pequeno erro estraga o trabalho todo, só a vida se permite errar (..), é preciso inventar tudo muito bem para que a voz nunca falhe, é um trabalho árduo fazer com que todos os factos coincidam, um trabalho minucioso que não admite erros, um trapezista sem rede, o perigo estava em todo o lado, em qualquer pessoa, a memória dos outros era um perigo sério, a argúcia outro, isto para não falar no acaso que nunca se pode controlar, Eva estava diante de si e olhava-o como dantes, ainda não sabia, continuava a acreditar na verdade que ele lhe tinha oferecido, a mãe acreditava noutra, a senhoria noutra, cada pessoa que se cruzava com ele podia contar com uma verdade feita à sua medida, haverá melhor forma de amar, apesar de tudo sempre a voz de Eva, és um caso perdido, haverá maior manifestação de amor do que a de não confrontar o ser amado com uma verdade que não deseja (…)».
O homem e a mãe portam-se como estranhos, vendo-se duas ou três vezes por ano. Vêem televisão sem disfarçar o silêncio entre eles. Propositadamente distantes sem terem que disfarçar qualquer proximidade.
Procura a rapariga bonita durante dias pela cidade; tantas vezes a confunde com outras raparigas louras que com o tempo resta apenas uma ideia de beleza que ele continua diariamente a perseguir, certo de que ideia e objecto coincidirião quando a vir. Até que encontra o amor e se porta como apaixonado, quase uma doença, e tenta arrancar o coração de uma rapariga bonita para combater o desespero e a solidão. A beleza não se deixa recordar, roubar, pede que se olhe constantemente, um vício. Até que nos devore. Porque a beleza, aliada à solidão, pode ser um pretexto para se enlouquecer.
«A mosca acaba de ser apanhada na teia da aranha. Debate-se violentamente agitando as asas. Ele sabia que se a mosca fosse para aquele canto seria apanhada na teia da aranha. A mosca não sabia porque não tinha visto as outras moscas que nos dias anteriores tinham caído na armadilha da aranha. Ele conhecia as moscas dos outros dias. Não faz mais do que observar as moscas e a aranha e esperar pelo dia que uma mosca se consiga libertar da teia, ganhar à aranha. Talvez aconteça esse dia no meio dos outros todos iguais.»
Ninguém pode ter visto tudo sem ser igualmente culpado.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
A CONDIÇÃO FEMININA NA PONTA DO GARFO

Encontrei em Dorothy Parker uma alma gémea e apaixonei-me pela sua visão ácida do mundo e pelos malabarismos de ironia que faz para a manobrar. E surpresa: ri-me pela primeira vez com um livro! Mas não era um riso fácil, era mais como uma espécie de azia a fazer cócegas no cérebro… ou no céu da boca…
Estes contos são um manual de psicologia feminina. Em OS SEXOS encontramos um casal envolvido numa típica birra de ciúmes da rapariga e apercebemo-nos de somos todas iguais e infantis nos momentos de maior fragilidade. E como manipulamos os nossos parceiros a mentir-nos e a esconder a verdade, para que possamos continuar a fingir que está tudo bem. Porque nos martirizamos mas não queremos conhecer a verdade, tememos sair com as mãos a sangrar.
A VALSA é um excelente retrato da psicologia da mente feminina num registo hilariante, de como fomos treinadas para agradar e sentir em silêncio tudo o que é discordante. “Não quero ser do tipo ultra-sensível, mas não me podem dizer que aquele pontapé não foi premeditado. Freud diz que não há acidentes. Não vivi nenhuma vida de clausura, conheci pares na dança que me estragaram os sapatos e rasgaram o vestido; mas, no que toca a pontapés, sou a Feminilidade Ultrajada. Quando me dão um pontapé na canela, sorrio.”
Em O TELEFONEMA temos uma mulher como todas à espera do telefonema de um ex-amante, completamente obcecada em encontrar as suas falhas e culpas. “Acho que nem sabe como me faz sentir. Quem me dera que soubesse, sem ser eu a dizer. Eles não gostam quando lhes dizemos que nos fizeram chorar. Não gostam quando lhes dizemos que estamos infelizes por causa deles. Se o dizemos, pensam que somos possessivas e exigentes. E depois odeiam-nos. Odeiam-nos sempre que dizemos qualquer coisa que pensamos realmente. Temos de estar sempre a fazer joguinhos. Oh, pensava que não tínhamos de o fazer; pensava que isto era tão grandioso que podia dizer o que quisesse. Aposto que não podemos, nunca. Aposto que não há nunca uma coisa suficientemente grandiosa para isso. Oh, se ele telefonasse apenas, não lhe diria que tinha estado triste por causa dele. Eles odeiam gente triste. Eu seria tão meiga e tão alegre que ele não poderia senão gostar de mim. Se ele ao menos telefonasse. Se ele ao menos telefonasse.”
Em LOLITA, encontramos a esperança de uma mãe na infelicidade da filha, apesar do seu casamento com um homem rico e atraente. Uma mãe que depende de uma filha frustrada e infeliz para poder brilhar e se sentir mais afortunada.
“John Marble e Lolita continuavam na mesma, dizia às amigas. John Marble continuava tão arrasador como havia sido quando chegara pela primeira vez à cidade e Lolita continuava sem ter uma palavra a dizer em seu favor. Embora o décimo aniversário do seu casamento estivesse próximo, ela não conseguia ainda dar forma aos seus vestidos (…). Tinham amigos e recebiam muito agradavelmente e, por vezes, saíam. Bem, sim, pareciam, de facto; pareciam realmente ser felizes. «É mesmo como eu digo à Lolita», dizia Mrs. Ewing. «É mesmo como lhe digo quando lhe escrevo: Sê feliz enquanto puderes.»Porque… Bem, sabem como é. Um homem como John Marble casado com uma rapariga como Lolita! Mas ela sabe que pode sempre vir para cá. Esta casa é o seu lar. Ela pode sempre voltar para a sua mãe.»
Pois Mrs, Ewing não era mulher para abandonar facilmente a esperança.”
MR. DURANT é um homem que sacrifica os sentimentos dos outros pela ilusão de que tudo está bem e a sua oportunidade para a felicidade ainda não aconteceu nem se desvaneceu. Para prosseguir animado pela certeza de que haverão sempre outras.
“«Mas as crianças», disse ela. «Vão ficar simplesmente…»
«Ora, deixa tudo isso comigo», assegurou-lhe ele. «Disse-lhes que o cão podia ficar, e ainda nunca quebrei uma promessa, pois não? Olha o que vou fazer – espero até que estejam a dormir e depois pego simplesmente no cãozinho e ponho-o na rua. Depois, de manhã, podes dizer-lhe que fugiu durante a noite, vês?»
Ela inclinou a cabeça em sinal de assentimento. O marido deu-lhe uma palmadinha no ombro, na sua seda negra cheirando a luto. A sua paz com o mundo estava mais uma vez intacta, restaurada por esta solução simples da pequena dificuldade. De novo a sua mente se embrulhou na consciência de que tudo estava solucionado, tudo estava pronto para um belo e novo começo. O seu braço estava ainda sobre o ombro da mulher quando reentraram na sala para jantar.”
E a tradução de Cecília Rego Pinheiro é excelente, soberba.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Aforismo #2
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