terça-feira, 26 de maio de 2009

Good Night & Good Luck




Veneno. Vómito.
Tenho um grito impossível dentro de mim.
Queria tanto, tanto expulsá-lo.
Mas não consigo odiar, não consigo morrer.
Vasculho a história à procura da raiz do mal.
Quem me fez, mal?
A menina gosta de dramas. Vá lá, confesse.
Nasci a 11 de Setembro, filha do ressentimento e de afectos por cumprir,
Tive dois irmãos,
Com um conheci a comunhão e a traição,
Éramos camaradas de trincheiras, dormíamos juntos,
Sonhávamos longe os dois,
Atravessávamos pântanos e campos, roubando frutas e um futuro triunfante,
Fumávamos a solidão e ríamos de todo o mal.
Pensávamo-nos imunes.
Mas a infância passou e sobreveio o desgosto.
O desencontro. Restaram os livros e os cães.
O outro irmão só o conheci anos mais tarde no desamparo.
Quando ele me aceitou como pessoa e pude enfim ter uma voz.
Ao meu pai, escrevi uma carta de amor a pedir tréguas.
Obtive silêncio e uma palmada nas costas:
Desconhecemos como quebrar a ausência que nos afastou.
E a culpa de quem? Tua, que nasceste primeiro?
Ou minha, que compliquei o teu fracasso?
A minha mãe continua surda,
Desfia o dia inteiro punhaladas de agulha na minha pele.
E se me dói é porque sou mesmo igual ao meu pai.
Um sangue que é conhecido por não chorar em funerais.
Um sangue mau e amargo que nem os mosquitos gostam de picar.
A voz da minha mãe dentro da minha cabeça a martelar.
A insistir na minha derrota, para me provar que não há saída.
E eu a correr, às cambalhotas, aos trambolhões,
A rir de impertinência e desafio de todas as regras e convenções.
Cresci perfeita, forte, saudável e fatal.
Num país sem nome nem emoções.
O meu avô ensinou-me que nada estava definido à partida,
Que tudo era possível.
O meu pai morreu de overdose,
Os ombros perderam as asas, ficou apenas a pergunta:
Onde está o banquete que nos prometeram?

Mais tarde, o descontrolo, o desejo a ultrapassar-me,
Veloz e furioso de vingança.
Queria tanto, tanto chorar. Doer-me e poder apontar a dor.
É aqui senhor doutor. Agora, cure-me.
Mas não. Temos tempo, diz o doutor.
Tempo para quê?
Tempo para perder tempo.
Tempo para agonizar. A dor é minha, não é?
Não fiques chateada, pequenina.
Custam-nos cada vez mais os esforços pelos outros.
Já nos pesa tanto o corpo quando nos levantamos de manhã
Ou quando nos deitamos, bebidos pela sede de amor.
E eu só me apetece gritar: à merda com toda essa covardia!
O meu irmão asfixia na gaiola dos dias normais,
Então só ele é que é vil? E a gente?
Se não te consigo perdoar, é porque não te mereci.
Deixa de beber: és tão volátil que o álcool não te convém.
Porque luto tanto contra isto?
Os encontros são cada vez mais raros e curtos
Perdi a inocência.
São, no entanto, mais intensos.
Trazem em si a força dos últimos fôlegos.
É disto que se faz a grande literatura, dizem.
Partiu-se qualquer coisa.
Uma máquina só se revela quando deixa de funcionar.
És linda, porque causas sofrimento e também sofres.
Não quero sentir mais.
Quero só dormir e acordar com a alma despida.
Mais leve. Mais nova. Menos flácida.
Matar o veneno da esperança.
Aceitar que ninguém virá e que é preciso cozinhar
Para não morrer de fome. De sede. De frio.
Mas, no final das contas,
Nada disto tem importância.
São precisos dias maus.
Para que possam haver dias bons.
Até amanhã.

domingo, 24 de maio de 2009

Higiene do Assassino



«Gostaria de lhe ter ensinado que, estrangulando Léopoldine, eu lhe poupara a única morte verdadeira, que é o esquecimento. Você considera-me um assassino, quando eu sou um dos raríssimos seres humanos que não matou ninguém. Olhe à sua volta e olhe para si mesma: o mundo está cheio de assassinos, ou seja, de pessoas que esqueceram aqueles a quem dizem ter amado. Esquecer alguém: já pensou no que quer isto dizer? O esquecimento é um gigantesco oceano onde navega um único navio, que é a memória. Para a imensa maioria dos homens, esse navio reduz-se a um miserável bote que mete água à mínima ocasião, e cujo capitão, personagem sem escrúpulos, só pensa em fazer economias. Sabe no que consiste essa ignóbil palavra? Em sacrificar quotidianamente, entre os membros da tripulação, os considerados supérfluos. E sabe quais deles são considerados supérfluos? Os patifes, os maçadores, os cretinos? Nada disso: os que são atirados pela borda fora são os inúteis, aqueles de quem já nos servimos. Esses deram-nos o melhor de si mesmos: que mais nos poderiam, pois, dar? Vá, nada de piedade, limpemos a casa e zás! Atiram-nos da amurada, e o oceano traga-os, implacável. E aí tem, minha cara menina, como se pratica com toda a impunidade o mais banal dos assassínios.»


Certas vezes, dou comigo a pensar que sou uma espécie de deficiente emocional, incapaz de ultrapassar as perdas, incapaz de fazer sentido da minha história. Parece-me que perdi qualquer coisa, talvez a imunidade contra a vida e a dor. Tornei-me humana, demasiado humana, nos ombros não carrego mais o peso etéreo das asas mas a marca do esquecimento. Das punhaladas no meu peito. Porque esquecer é isso: apunhalar o próprio peito na tentativa de expulsar uma ocupação.

Como se esquece alguém a quem um dia demos o significado da rosa e de todas as outras coisas humanas? O esquecimento é uma educação para a tristeza. Recordo um poema de Rainer Maria Rilke que um dia amei e decorei, para o esquecer durante anos.


«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido em infinitamente angustiadas mãos,
e abandonar até o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.

É estranho não mais desejos desejar.
Estranho, passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,tudo o que antes tinha unidade.
Estar morto é laborioso e cheio de recomeços,

até que aos poucosmos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.

Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno,
tal como ao crescernos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto
é tão frequentemente a fonte do feliz amadurecimento - : poderíamos sem eles existir?»

Tinha 16 anos quando aprendi este poema. Pensei que falava da morte, da morte que todo o esquecimento traz. Porque a verdadeira morte é o esquecimento: morremos quando esquecemos alguém e só morremos mesmo quando ninguém estranha mais a não circulação do nosso corpo por aí. Quando nos tornamos apenas restos de um corpo que precisa de uma inscrição para avisar de que aí jaz. Que um dia cá esteve.


Recordo sempre tudo, afinal. A minha história é uma antologia de esquecimentos falhada.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Arquipélagos Aquáticos



«Um homem pode estar doente, mais gravemente, ainda do que este, e ter o seu momento de felicidade, qual seja, tão só o de se sentir como uma ilha deserta que uma ave sobrevoou, de passagem apenas, trazida e levada pelo inconstante vento.»


Somos ilhas à deriva, atravessadas por breves momentos pelo encontro entre dois seres. O resto é apenas a memória desse momento excepcional de luz e beleza. E a procura e esperança na possibilidade de repetição. Recordarei sempre uma tarde de tempestade e trovoada, em que três amigos se abrigaram num toldo perto da escola onde me deseduquei com afinco, e fomos um. Completamente encharcados pela chuva e pelo encontro sublime que ameaçava rasgar os nossos peitos e cortar definitivamente a condição imposta de ilhéu. Era cedo demais então para saber que um dia poderia ser tarde demais. Não conhecíamos as armadilhas do tempo nem a raridade e brevidade dos arquipélagos.


Convosco aprendi também a delícia da palavra amizade e reencontro e sempre que vos olho, relembro e revivo o momento aquático e sublime daquela tarde de tempestade. Quando morrer, se houver um flashback, esse momento estará lá certamente.

Endgame



Gostava de te marcar de alguma maneira. De uma maneira profunda e silenciosa, grave, para que nunca mais te pudesses esquecer do meu nome, do meu cheiro, do bem e do mal que carrego sobre os ombros. Gostava de te marcar de alguma maneira. A quente e a seco, como um ferro em brasa. Sem dó nem piedade, apenas a liberdade sem limites da perversão. Para que não pudesses continuar a tua vida, incólume, com a expressão de quem conhece tudo sobre a vida, as pessoas e está cansado. Gostava de te oferecer a minha imagem como fantasma e alucinação.
Conheço apenas as palavras fogo e incêndio, ferida e cicatriz. E a vontade de te marcar. De alguma maneira. De preferência, de uma maneira grave. Para que a possibilidade de perdão fosse impossível. Marcar-te de um modo irreversível e sem volta. De preferência na carne, que é onde nos doemos mais. Onde me dói mais a tua ausência. Marcar-te. Para que nunca mais parasses de sangrar, para que te tornasses um ser maculado, jamais absolvido. Eternamente condenado comigo. A mim.

Gostava de te marcar. Para que a minha profundidade ficasse eternamente gravada na memória da tua pele. Para que pudéssemos partir juntos e estilhaçados em mil aventuras de fumo e incenso. Perdermo-nos um dentro do outro em insónias incendiárias. Fogos fátuos, por fim regressados a casa, dormindo abraçados durante a queda. Feridos e juntos. Gostava de te marcar. De terminar contigo. Para sempre e de uma vez por todas.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Está tudo certo, Aníbal!


Mais um jantar com o Aníbal, o outro e estou convencida que há um gene qualquer de insanidade grave acentuada na minha família. A explicação genética torna a coisa bastante mais confortável.

«Umas pessoas são mais complicadas, outras menos. E, no fundo, está tudo certo.»

E está mesmo, Aníbal.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Também a morte foi viciada


Nada tiene que ver el dolor con el dolor
nada tiene que ver la desesperación con la desesperación
Las palabras que usamos para designar esas cosas están viciadas
No hay nombres en la zona muda
Allí, según una imagen de uso, viciada espera la muerte a sus nuevos amantes
acicalada hasta la repugnancia, y los médicos
son sus peluqueros, sus manicuros, sus usurarios usuarios
la mezquinan, la dosifican, la domestican, la encarecen
porque esa bestia tufosa es una tremenda devoradora
Nada tiene que ver la muerte con esta imagen de la que me retracto
todas nuestras maneras de referirnos a las cosas están viciada
sy éste no es más que otro modo de viciarlas.

Enrique Lihn, Diario de Muerte

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Blue Times


Que fazer quando todos os pilares em que assentámos o nosso optimismo e verdade caem por terra como marionetas inválidas e abandonadas subitamente? Que fazer quando a vida se torna uma paisagem sem novidade que contemplamos com um distanciamento cansado? Onde ir buscar forças para continuar a alimentar os nossos sonhos?Há momentos em que nos sentimos vazios e ficamos assustados com a profundidade encantada de abismos que nunca suspeitámos tão vertiginosos.


A tristeza é viciante e possui braços reconfortantes, que nos embalam num sono manso. Ficar triste é muito mais fácil do que espernear, do que ripostar. Será que a atitude correcta é aceitar o curso das coisas, sob pena de nos tornarmos conformados, ou será que devemos batermos numa guerrilha contra a agonia dos nossos sonhos, sob pena de nos tornarmos ingénuos inconfessáveis?De tanto olhar as coisas de todos os pontos de vista, em busca de um critério de justiça eficaz, acabei por me perder...




"Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anônima viuvez,


Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.


Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões pra cantar que a vida.


Ah, canta, canta sem razão !

O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!


Ah, poder ser tu, sendo eu !

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso ! Ó céu !Ó campo ! Ó canção !

A ciência pesa tanto e a vida é tão breve

!Entrai por mim dentro ! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve !

Depois, levando-me, passai !"


Queria ser como a ceifeira de Fernando Pessoa, sempre a cantar, a fluir a vida, escapando eternamente às meandros armadilhados do pensamento, eternamente adiando a morte do instante presente. Mas só aos fins de semana ou ao entardecer. Ao entardecer seria perfeito.

Noites Brancas - Das Memórias de um Sonhador



Porque qualquer trabalho necessita de ser feito com vontade, exige o amor do trabalhador, exige uma entrega total. Haverá, afinal, muita gente que encontrou a sua vocação? […] Então, nos caracteres ansiosos de actividade, mas fracos, femininos, ternos, nasce a pouco e pouco aquilo a que se chama «sonhadorismo», e o homem deixa de ser homem, torna-se numa espécie esquisita… - o sonhador […] A realidade produz no coração do sonhador uma impressão grave, hostil, e então apressa-se a meter-se no seu cantinho secreto e dourado, que na realidade é, não raro, poeirento, desmazelado, desarrumado e porco. A pouco e pouco, o nosso rebelde começa a alienar-se dos interesses comuns e, gradualmente, imperceptivelmente, começa a embotar-se nele o talento de viver na vida real.”

Dostoievski, Crónicas de Petersburgo, 1847


“é verdade que às vezes tenho momentos de uma amargura insuportável, insuportável… Nesses momentos ponho-me a imaginar que nunca serei capaz de começar a ter uma vida verdadeira, porque são momentos em que perco o tacto e o olfacto do verdadeiro, do real; porque chego a amaldiçoar-me a mim próprio; porque, depois das minhas noites fantásticas, vêm os horríveis minutos do desembriagamento! Entretanto, ouço como marulha e gira no turbilhão da vida a multidão humana, ouço, vejo como vivem as pessoas – vivem na realidade; vejo que para elas a vida não é proibida, que a vida delas não se vai desvanecer como um sonho, como uma visão […] A alma já quer e já pede outra coisa! Inutilmente remexe nas cinzas o sonhador, nos seus sonhos antigos, procurando nas cinzas ao menos uma faísca, uma brasa em que sopre e acenda uma chama, para aquecer com o fogo recuperado o coração arrefecido e ressuscitar nele tudo o que dantes lhe era tão querido e lhe tocava a alma, que lhe fazia ferver o sangue, que lhe arrancava lágrimas dos olhos, que tão luxuosamente o iludia! […] Tornar-se-á pálido o teu mundo fantástico, vão esmorecer os teus sonhos, murchar, cair como folhas amarelas das árvores… […] Que triste ficar sozinho, completamente sozinho, sem ter sequer o que lamentar – nada, absolutamente nada, porque todo o perdido era nada, um zero estúpido, nada mais que uma ilusão!”

E que faremos no dia em que não formos mais capazes de sonhar? Com que veneno ou remédio alimentaremos a alma?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A Vida imita a Arte

"O mundo tornou-se triste porque uma boneca esteve uma vez melancólica."

Oscar Wilde

quarta-feira, 29 de abril de 2009

É evidente...


é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer : PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto
a falha grande que é MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença
e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir 1 consultório,
curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras e ideias claras.
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário.
é evidente, enfim, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.


Gonçalo M. Tavares in. " Livro da dança " assirio & alvim

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mais um aforismo do Aníbal, o outro


No fim do almoço com mais de 150 dragões de komodo, que devoraram tudo com as dentaduras ferozes e insaciáveis, uns quantos medronhos mata-bicho e uma sessão de tarot que mais parecia um jogo de póquer: «Para curar um amor, não há melhor que arranjar logo outro. É como a bubedeira». Amo o remate. Especialmente, depois de ter passado três dias ébria.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os pensamentos de Aníbal, o outro


«Quando um indivíduo está na praça, das duas uma: ou não presta ou não sabe o que quer». Isto a propósito das relações amorosas nos tempos de cólera de hoje. E eu que pensava que estava na praça a curtir as vistas. Talvez tenha uma ideia inflacionada de mim ou uma ideia deflacionada da minha solidão. Das duas, uma. Não sei, a ver se penso mais claramente nisto.



«Não existem boas pessoas. O que existem são indivíduos que tiveram sorte e não se depararam com circunstâncias tramadas. Eu não acredito em santos». Este meu tio é qualquer coisa.



Vou por um anúncio no jornal para ver se encontro o homem dos meus sonhos. Só não me consigo decidir em qual: no Correio da Manhã, em que o público é mais massivo e indiferenciado, ou no Público, em que os leitores são mais cultos e pretensiosos.

terça-feira, 21 de abril de 2009

NOITES CROMÁTICAS 1



Picnic no Parque de Alvalade: há muito tempo, que não me deitava na erva a disfrutar do banho da luz da lua. Não percebia os corpos, ouvia apenas as vozes, deliciada e imaginava as rostos dos que não conhecia. Longe do som do mal, dos passos que ecoam fortes e solitários nas igrejas fechadas e húmidas. Percebo a quietude da natureza, das árvores nos passeios, das ervas daninhas nos intervalos das pedras de calçada, à espera de um intervalo nosso para recuperar o que lhe furtámos. Clamo em silêncio por uma oportunidade de vingança do verde.

Alfama: alguns whiskies e vou vendo as caras que conheci no escuro. Caras menos enigmáticas do que as imaginei. Olhos mais alucinados do que supusera.

Regueirão dos Anjos: sento-me ao lado de um homem, vestido com todo o rigor de África. Converso com ele. Fantasio-o um xamã. Diz-me coisas profundas, para ter cuidado com o presente. Lê a desordem na palma da minha mão. Depois sento-me num sofá, ao lado de um espanhol que encontrara noutra noite no LX Factory e que não se recordava da conversa que tínhamos tido. Na outra noite, estava há horas aos beijos com uma rapariga. Quando saí da disco, continuavam cá fora. Na minha ingenuidade não me contive, aproximei-me, pedi desculpa pela interrupção, mas queria saber se aquilo era amor. Queria saber se o amor ainda pode existir nestes tempos. Ele tentou manobrar a questão, a rapariga respondeu de imediato, que não, que não era amor. Ele pareceu desapontado com a resposta. Perguntei então se era sexo. Ela respondeu que não, que era qualquer coisa entre amor e sexo. Afastei-me a pé, a cismar no porquê de não conseguir entender a medianidade, de ter de viver sempre entre absolutos. De não suportar estados intermédios. Ouvi a rapariga gritar e olhei para trás. «Eu estou contigo. Também quero acreditar no amor puro». Continuei sozinha pela minha Lisboa de madrugada, vagueando enleada nos meus pensamentos, com um chapéu por companhia. No Regueirão torno a encontrar este rapaz com outra rapariga. Sento-me a seu lado no sofá e como percebo que não se recorda de mim, falo-lhe como um anjo lhe falaria se pudesse descer até ele. Ele responde com teorias líquidas de afecto, dizendo que o amor acontecerá inevitavelmente. Respondo-lhe que não. Que contra todas as hipóteses, o amor não acontecerá. Saio, arrasto o meu corpo até ao Cais de Sodré. Sinto-me perdida, não quero ir para casa.

Às seis da manhã, vou comer uma bifana com um quilo de carne e alho no café mais xunga do Cais de Sodré, onde o dono faz tudo para me agradar, porque eu sou aquilo que ele chama de «viagra dos pobres». Obviamente tentei negociar sexo oral e quase chegávamos a um acordo - a proposta inicial dele era de dois euros e meio, mas julgo que era capaz de chegar a um preço ainda mais simpático, afinal a negociação é um dos meus fortes.

Depois disto, entro no metro - um erro que cometo raramente, pois não gosto de misturar a minha loucura com o dia normal dos trabalhadores - e começo, juntamente com um amigo a chamar todos de «wankas». E é então que o diálogo mais genial da noite acontece. Um dread de sobrancelhas rapadas diz-me:

- Tu é que tens a culpa disto tudo.
- Disto tudo o quê?
- De tudo. Tudo.
- Mas eu não sou Eva.
- E eu também não sou Adão.

Saio do metro na estação de Roma e olho o metro parado do outro lado da linha. Espero as portas fecharem e chamo a atenção de dois rapazes sentados junto à janela. Levanto a blusa e baixo o soutien. Ainda recordo as suas faces invadidas por uma súbita excitação infantil.

Saí do metro em êxtase e coloquei gentilmente todos os caixotes de lixo na horizontal. Ao virar da esquina, contemplei a rua e era uma visão soberba.

Vejo beleza nisto tudo. E não desculpo quem não veja.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Laboratório do Mal


«Tudo começa no desgosto. É um laboratório para o mal».


Compaixão in Contos, Hélia Correia

O Quarto do Filho


É fácil estarmos juntos quando tudo corre bem.



Mas é precisamente quando tudo corre mal, que precisamos uns dos outros. Eu, que não sou nada católica, recordo o discurso do padre no casamento do meu primo: o amor é diferente da paixão, envolve uma decisão racional, um compromisso de estar ao lado de alguém, partilhar uma vida, alegrias e desgostos. Compromisso que esquecemos todos na era líquida do amor, em que os afectos são voláteis, descartáveis e com prazo de validade.



«Ama-me quando eu menos merecer, pois será então que eu mais precisarei».



O ócio nem sempre significa passividade; ás vezes é preciso parar para repensar, para nos reencontrarmos e podermos voltar ao mundo. É preciso morrer um pouco para poder ir vivendo.




Luz Silenciosa


A paz é mais forte do que o amor.

Aos nossos amores


A maioria de nós só se sente bem quando amada. Mas são tão poucos os que possuem a capacidade de amor, a maioria têm apenas um coração seco.

É neste desiquilíbrio matemático que começam os nossos problemas e os nossos amores.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Deserto dos Tártaros



O maior dos luxos está em dispor de tempo – um tempo próprio. Mas o tempo, como já foi dito, é um material perigoso nas mãos de quem não o sabe manejar. Termina-se a leitura de O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti e sentimos o tempo a escorrer pelos nossos dedos, a urgir na sua finitude. Com angústia, percebo pela primeira vez que também eu vou morrer – racionalmente sei que todos morrermos, mas tinha a esperança de que seja algo que só acontece aos outros, afinal a nossa experiência da morte é sempre através da morte dos outros. E temo o desperdício, o deserto donde nada virá a tempo. Medo de não conseguir calvagar o tempo. Medo de perder tempo.
«Terá ainda tempo, Drogo, para vê-la, ou partirá antes? A porta do quarto palpita com um leve estalido. Talvez seja um sopro de vento, um simples remoinho destas noites irrequietas de Primavera. Ou então, talvez seja ela que entrou, com passo silencioso, e agora aproxima-se da poltrona de Drogo. Fazendo um esforço, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com a mão o colarinho do uniforme, deita mais um olhar para fora da janela, uma olhadela muito breve para arrecadar o seu derradeiro quinhão de estrelas. Depois, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.»

domingo, 8 de março de 2009

Corpo e Imagem - Bragança de Miranda



Só nos resta viver mal ou viver poeticamente.


Eu já me decidi. E tu?

O Mestre - Ana Hatherly



«Ser Mestre é uma profissão ingrata. Eu sou um honesto funcionário que ensina tudo o que está escrito mas não tenho sorte nenhuma com os meus alunos. Procuro incutir-lhes no ânimo a submissão às regras do programa, procuro fazê-los aprender tudo o que vem nos livros e tudo o que está previsto como tudo o que se deve aprender e aceitar sem reserva, mas a maior parte dos meus alunos não compreende isso.
(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)


O Mestre chega à aula irritadíssimo e grita para os discípulos:
- Vocês são todos uns ignorantes!
- Sim, Mestre!
- Vocês não sabem absolutamente nada nem nunca hão-de saber coisa nenhuma!
- Pois não, Mestre!
(…)
- Aprendam o que está escrito, está tudo escrito!
- Mas Mestre, o que nós queremos é cantar, é ver as plantas crescer, as ondas quebrar, as estrelas acender, as nuvens passar, a gente o que quer é sentir os lábios da pessoa amada poisarem no nosso rosto, a gente o que quer é sentir o calor do sol, o fresco da noite, a voz da pessoa amada tinindo nos nossos ouvidos, a ponta dos seus dedos brincando com os nossos cabelos, a gente o que quer é correr à beira do mar, dançar de alegria, comer fruta das árvores, dormir de cansaço, acordar sorrindo, erguer os olhos para dentro e ter alguém a quem amar, algo a louvar, algo a agradecer, algo a dar, alguém a quem agente se dar!...
(…)

- Você não percebe nada de liberdade!
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)

- Talvez, talvez… mas então o nosso pensamento consegue isso?
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»