segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tonio Kröger


Um grande livro. Gosto do estilo certeiro e mental de Thomas Mann.
Entre o narrador e a personagem principal não há quase distância, o que nos permite assistir à construção mental pelo artista pelo próprio. Sim, porque Tonio tornar-se-á um grande escritor. A personagem tem também muito do autor, na medida em que uma dúvida quanto à sua identidade perpassa todo o texto.

Conhecemos Tonio, adolescente, torturado pelo sentimento de exclusão e apaixonado por Hans, amando nele o seu próprio reverso: um rapaz belo, forte e vivo.

(Seremos capazes de amar para além do nosso reflexo? Conseguiremos escapar à nossa imagem? O outro deve validar a nossa identidade ou introduzir uma diferença?)
«O facto era que Tonio amava Hans Hansen e já muito por ele tinha sofrido. Aquele que ama mais fica sempre em situação de inferioridade e tem de sofrer – a sua alma de adolescente já tinha aprendido da vida esta verdade simples e dura; e Tonio era do género de prestar atenção a estes ensinamentos, de os anotar, por assim dizer, no seu interior, e de em certa medida retirar deles alguma alegria, sem que isso o levasse a alterar o seu comportamento e sem que deles tirasse algum benefício prático».
(Também eu, caro Tonio, anoto na minha carne as verdades que vou extraindo aos dias, sem que essas máximas inteligentes me façam viver melhor.)

Um par de anos depois, encontramos Tonio apaixonado pela loura e divertida Ingeborn, mas o seu coração já tinha aprendido que o amor pode morrer sem nos matar.

«Fidelidade! pensava Tonio Kröger. Quero ser fiel e amar-te, Ingeborn, enquanto viver. Tão bem intencionado que ele era. E no entanto cochichavam baixinho dentro dele um medo e uma tristeza, por ter afinal esquecido completamente Hans Hansen, apesar de o ver diariamente.
(…)
E rodava cuidadosamente à volta do altar, onde a pura e casta chama do amor ardia, ajoelhava-se em frente, ateava-a e aproximava-se de todos os modos, porque queria manter-se fiel. Mas passado algum tempo, sem se notar, sem causar sensação e sem ruído, estava no entanto apagada.
Tonio Kröger manteve-se algum tempo diante do altar, arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho».

(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)

E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.

«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»


(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)

Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.

«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»

(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)

Hoje

Queria desnascer.

O Golpe de Misericórdia


Um homem e uma mulher frente-a-frente, medindo forças e fraquezas: a guerra mais antiga, quotidiana.

Como acontece com tudo o que amo, fico sem palavras, recuso quebrar o encanto. Escolho as palavras de Augustina Bessa-Luís para deixar uma impressão.

«O Golpe de Misericórdia, espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos, é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.
(...)
O Golpe de Misericórdia é um livro extremamente sério, como toda a obra de Marguerite Yourcenar. Uma obra em que as suas digressões pelo passado são como que a lenta alquimia da solidão; há uma arqueologia da psique, como há das civilizações. Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.
Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure. Para o desvendar é que nos perdemos.»

O golpe de misericórdia no final tem algo de promíscuo, no sentido de um excesso de intimidade, que equivale ao acto amoroso nunca celebrado pelo par protagonista. A intimidade obscena entre vítima e carrasco, amante e amado.

« (…) tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inabalável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento: pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.»

A mais bela história de amor que li até agora.

Bestiário



Maravilhoso! Adorei particularmente a carta do homem que vomitava coelhinhos: entre o décimo e o décimo primeiro tudo se pode perder. O desespero é uma questão quantitativa. Não tem a ver com intensidade mas sim com acumulação.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Cântico dos Cânticos



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Cântico Negro, José Regio

Deixa isso comigo




Nem às paredes confesso

Quem sabe se te esqueci

Ou se te quero

Quem sabe até se é por ti

Por quem eu espero


Se eu gosto ou não afinal

Isso é comigo

Mesmo que penses

Que me convences

Nada te digo


De quem eu gosto

Nem às paredes confesso

E até aposto

Que não gosto de ninguém

domingo, 9 de agosto de 2009

Sonata de Kreutzer


O amor, o dito sentimento nobre e sublime, e o ciúme, o instinto abjecto de aniquilar um corpo que não suportamos que possa sentir e viver sem nós. O eterno e indecidido debate: o ciúme faz parte do amor? Podemos matar por amor?

Eu arrisco dizer que não. Agora por desamor, podemos torturar, esfaquear, esventrar e matar sem misericórdia.

«Mas não. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez não será assim — dizia-me uma voz, e tudo recomeçava. O que era horrível é que eu considerava-me com direito incontestável sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu próprio corpo e ao mesmo tempo reconhecia que aquele corpo não me pertencia, que ela não podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava não era conforme ao meu. Se ela não tivesse tido nada com ele mas o desejasse, e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido alguma coisa então eu o saberia e não mais haveria incertezas. Eu já não sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.»

Entre os lençóis


Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.

Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.


And this is where I stay, in between the in between.
No more cold winter days.
No more sudden tragedies.
If you really want to know me take away the human heart and stab it with something not so sharp.
Twist like her finger in my hair she's got a brand new white canvas on her face for me to splatter with paint.
She's got nothing more than what was left running down her throat.
The best of us was left in your sheets,
restoring things here in between defining what everything means to me.
The truth's sometimes so hard to see, in my passive uncertainty,
it's a chorus with no melody.
She's got a brand new white canvas on her face.
The best of us was left in your sheets.

domingo, 5 de julho de 2009

Miriam Reyes



No soy dueña de nada

mucho menos podría serlo de alguien.

No deberías temer

cuando estrangulo tu sexo,

no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.


Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.

Mi casa es este cuerpo que parece una mujer,

no necesito más paredes y adentro tengo

mucho espacio:

ese desierto negro que tanto te asusta.


Miriam Reyes, Bella Durmiente

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Perto do Coração Selvagem



«Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida». (James Joyce)


«Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda havia de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»


Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Leitura e o Prazer


«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;

um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver).

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.

E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar:
por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.

Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu?
Paisagens e sítios de chegada.
Contabilidade económica da leitura.

(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)



Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009

domingo, 21 de junho de 2009

Carta de Amor




Escrevi poucas cartas de amor. Agora que tento recordar quantas, só me lembro de uma e de várias preces à lua por alturas da descoberta do amor. Mas, desde que me apaixonei por ti, vêem-me frases à cabeça acompanhadas da imagem do teu sorriso terno. E um rasto de perfume inebriante que me atordoa. E daí a necessidade de te escrever esta carta e a esperança de que a leias e não tenhas dúvidas que a ti se dirige.


«O teu rosto é uma paisagem onde descanso os olhos e ouço o marulhar do meu mistério» - esta uma das frases. Não sei o que significa para além do que significa. Esta a frase mais insistente.

«Moravas já na minha infância». Outra frase-fantasma.


Ontem andava por bares e chamava por ti em silêncio. Apenas a necessidade de te ver. Do meu corpo encontrar o teu e poder existir lado a lado por uns momentos. Se é amor não sei, já vivi muito, provei até o sabor amargo das desilusões, mentiras e traições, entreguei o meu corpo a meros passageiros numa ânsia de o martirizar, e conheço hoje a palavra espantosa que é desamor.

Como ia dizendo, se é amor não sei. Mas deve ser senão não chamaria a isto carta de amor. O que sinto por ti é um sentimento apaziguador de plenitude que não senti antes. Conheci-te antes, é verdade, e não te amei; havia uma tensão no teu corpo e um sopro de medo que cortava a tua voz que me impedia de te olhar como um rapaz. Um homem. Mas sempre me senti abraçada pelo teu sorriso, um sorriso branco, fácil, de tarde solarenta.

E então, quando menos esperava, quando menos convinha, olhei-te e vi-te e agarrei o teu rasto como um porto seguro onde poderia arriscar erguer-me e voltar a amar. Sem medo. Não o quis confessar logo a mim, preferi censurar-me e pensar que era má. Sempre pensei que era má, ainda hoje penso, mas o sentimento que trago por ti, impede-me agora de me crer assim. E um dia em que os nossos corpos brincavam, vi o teu rosto despido da tensão de existir a medo e foi o rosto de prazer mais belo que vi. E então soube dentro de mim, com calma que te amava. Uma certeza que me adormeceu no meio de todo o caos e decadência.

Hoje cheguei da praia com o corpo aquecido pelo calor salgado e ouvi a minha carne a reclamar o teu toque. A exigir a tua presença. Gritei-lhe alegre de volta que estivesse quieta, que a nossa paixão era sozinha. E ela gritou-me irada que não entendia, que o amor acontecia tão pouco, que era uma estupidez não viver esta doçura mesmo que se esgotasse. Calei-me sem resposta e toquei-me triste a pensar em ti.

Talvez um dia destes te encontre pela cidade e sofra por já não seres ferida, paisagem nem mistério. Talvez nem sofra porque a mente apagou um sentimento que precisava de outro corpo para se alimentar. Mas a minha carne há-de recordar o calor salgado, o meu corpo há-de prestar mais atenção ao andar para não vacilar, triste e sozinho, rasgado pela memória de um amor que não se cumpriu, de uma vertigem feliz que não pude partilhar. Contigo.

E agora, com licença, vou à minha vida.

domingo, 31 de maio de 2009

A Dor de Ser Quase


Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou... -
Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Fado


«Deste-me um beijo e vivi.

Da força que veio de ti encontrei a fé perdida.

E o meu corpo, feito grito,

Pediu mais vida à vida.»

Domingo




Um ramo de cravinas e um ramo de boca-de-lobo.
E a palavra casa.

Diário de uma Queda




Apaixonei-me, outra vez. Este ano, outra vez, primeiro pela Dorothy Parker, irmã de sarcasmos agridoces. Ontem pela Clarice Lispector. Um fim-de-semana de encontro, companhia na cama, a euforia de um sorriso que chora mas que consegue ainda rachar a solidão. Apaziguar a perturbação pelo testemunho da beleza que tortura e perde e obriga à queda.

(A uma queda a que me entrego à espera do embate, do momento final do crash. Mas a queda demora, cair é cair sem parar, talvez nunca bata no fundo, talvez já tenha batido - vivi a noite mais longa da minha vida, triste e alerta, envelheci muitos anos, não sabia que havia noites assim tão claras, loucas e tristes, consegui arrastar o meu corpo destroçado até casa e deitá-lo naufrágo na cama - talvez não haja fundo. Talvez bater no fundo seja dizer bati no fundo. Ou talvez bater no fundo seja ficar sem palavras, possuído por um silêncio imemorial. E se um dia não conseguimos continuar? E se um dia nos entregamos à delícia de não querer sobreviver, de não querer ultrapassar, esquecer, matar e morrer? Como parar de sentir, atropelar o sentimento de modo implacável sem lhe dar sequer a oportunidade de um último espasmo? E se um dia o sentimento nos possui, arrasta pelos cabelos e não quer desisitir de nós?)

O Verbo fez-se carne e veio aquecer o meu corpo. Prende-me à cama numa preguiça sensual de cabelos em desalinho e doces vincos na pele, vira-me do avesso e murmura «O meu nome é legião».

terça-feira, 26 de maio de 2009

Temor e Tremor



«Ela tinha mais subordinados além de mim. Eu não era a única pessoa que ela odiava e desprezava. Podia ter martirizado outras pessoas. Ora, ela não exercia a sua crueldade a não ser comigo. Isso devia ser um privilégio.
Devia ver nisso uma eleição.
[…]
Cara tempestade de neve, se eu puder, com tão pouco, ser o instrumento do teu gozo, está à vontade, ataca-me com os teus flocos ásperos e duros, com as tuas pedras de granizo talhadas como sílex, com as tuas nuvens tão pesadas de fúria, aceito ser a mortal perdida na montanha, sobre a qual eles descarregam a sua cólera, recebo em pleno rosto os seus mil perdigotos gelados, não me custa e é um belo espectáculo a tua necessidade de me ferir a pele à força de insultos, disparas pólvora seca, cara tempestade de neve, recusei que me vendassem os olhos face ao teu pelotão de execução, pois há muito que esperava ver o prazer no teu olhar.»


Há algo de erótico na luta de morte entre uma vítima e o seu carrasco. O ódio é um acto de eleição, semelhante à paixão, requerendo a mesma energia, esforço e astúcia.

Good Night & Good Luck




Veneno. Vómito.
Tenho um grito impossível dentro de mim.
Queria tanto, tanto expulsá-lo.
Mas não consigo odiar, não consigo morrer.
Vasculho a história à procura da raiz do mal.
Quem me fez, mal?
A menina gosta de dramas. Vá lá, confesse.
Nasci a 11 de Setembro, filha do ressentimento e de afectos por cumprir,
Tive dois irmãos,
Com um conheci a comunhão e a traição,
Éramos camaradas de trincheiras, dormíamos juntos,
Sonhávamos longe os dois,
Atravessávamos pântanos e campos, roubando frutas e um futuro triunfante,
Fumávamos a solidão e ríamos de todo o mal.
Pensávamo-nos imunes.
Mas a infância passou e sobreveio o desgosto.
O desencontro. Restaram os livros e os cães.
O outro irmão só o conheci anos mais tarde no desamparo.
Quando ele me aceitou como pessoa e pude enfim ter uma voz.
Ao meu pai, escrevi uma carta de amor a pedir tréguas.
Obtive silêncio e uma palmada nas costas:
Desconhecemos como quebrar a ausência que nos afastou.
E a culpa de quem? Tua, que nasceste primeiro?
Ou minha, que compliquei o teu fracasso?
A minha mãe continua surda,
Desfia o dia inteiro punhaladas de agulha na minha pele.
E se me dói é porque sou mesmo igual ao meu pai.
Um sangue que é conhecido por não chorar em funerais.
Um sangue mau e amargo que nem os mosquitos gostam de picar.
A voz da minha mãe dentro da minha cabeça a martelar.
A insistir na minha derrota, para me provar que não há saída.
E eu a correr, às cambalhotas, aos trambolhões,
A rir de impertinência e desafio de todas as regras e convenções.
Cresci perfeita, forte, saudável e fatal.
Num país sem nome nem emoções.
O meu avô ensinou-me que nada estava definido à partida,
Que tudo era possível.
O meu pai morreu de overdose,
Os ombros perderam as asas, ficou apenas a pergunta:
Onde está o banquete que nos prometeram?

Mais tarde, o descontrolo, o desejo a ultrapassar-me,
Veloz e furioso de vingança.
Queria tanto, tanto chorar. Doer-me e poder apontar a dor.
É aqui senhor doutor. Agora, cure-me.
Mas não. Temos tempo, diz o doutor.
Tempo para quê?
Tempo para perder tempo.
Tempo para agonizar. A dor é minha, não é?
Não fiques chateada, pequenina.
Custam-nos cada vez mais os esforços pelos outros.
Já nos pesa tanto o corpo quando nos levantamos de manhã
Ou quando nos deitamos, bebidos pela sede de amor.
E eu só me apetece gritar: à merda com toda essa covardia!
O meu irmão asfixia na gaiola dos dias normais,
Então só ele é que é vil? E a gente?
Se não te consigo perdoar, é porque não te mereci.
Deixa de beber: és tão volátil que o álcool não te convém.
Porque luto tanto contra isto?
Os encontros são cada vez mais raros e curtos
Perdi a inocência.
São, no entanto, mais intensos.
Trazem em si a força dos últimos fôlegos.
É disto que se faz a grande literatura, dizem.
Partiu-se qualquer coisa.
Uma máquina só se revela quando deixa de funcionar.
És linda, porque causas sofrimento e também sofres.
Não quero sentir mais.
Quero só dormir e acordar com a alma despida.
Mais leve. Mais nova. Menos flácida.
Matar o veneno da esperança.
Aceitar que ninguém virá e que é preciso cozinhar
Para não morrer de fome. De sede. De frio.
Mas, no final das contas,
Nada disto tem importância.
São precisos dias maus.
Para que possam haver dias bons.
Até amanhã.

domingo, 24 de maio de 2009

Higiene do Assassino



«Gostaria de lhe ter ensinado que, estrangulando Léopoldine, eu lhe poupara a única morte verdadeira, que é o esquecimento. Você considera-me um assassino, quando eu sou um dos raríssimos seres humanos que não matou ninguém. Olhe à sua volta e olhe para si mesma: o mundo está cheio de assassinos, ou seja, de pessoas que esqueceram aqueles a quem dizem ter amado. Esquecer alguém: já pensou no que quer isto dizer? O esquecimento é um gigantesco oceano onde navega um único navio, que é a memória. Para a imensa maioria dos homens, esse navio reduz-se a um miserável bote que mete água à mínima ocasião, e cujo capitão, personagem sem escrúpulos, só pensa em fazer economias. Sabe no que consiste essa ignóbil palavra? Em sacrificar quotidianamente, entre os membros da tripulação, os considerados supérfluos. E sabe quais deles são considerados supérfluos? Os patifes, os maçadores, os cretinos? Nada disso: os que são atirados pela borda fora são os inúteis, aqueles de quem já nos servimos. Esses deram-nos o melhor de si mesmos: que mais nos poderiam, pois, dar? Vá, nada de piedade, limpemos a casa e zás! Atiram-nos da amurada, e o oceano traga-os, implacável. E aí tem, minha cara menina, como se pratica com toda a impunidade o mais banal dos assassínios.»


Certas vezes, dou comigo a pensar que sou uma espécie de deficiente emocional, incapaz de ultrapassar as perdas, incapaz de fazer sentido da minha história. Parece-me que perdi qualquer coisa, talvez a imunidade contra a vida e a dor. Tornei-me humana, demasiado humana, nos ombros não carrego mais o peso etéreo das asas mas a marca do esquecimento. Das punhaladas no meu peito. Porque esquecer é isso: apunhalar o próprio peito na tentativa de expulsar uma ocupação.

Como se esquece alguém a quem um dia demos o significado da rosa e de todas as outras coisas humanas? O esquecimento é uma educação para a tristeza. Recordo um poema de Rainer Maria Rilke que um dia amei e decorei, para o esquecer durante anos.


«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido em infinitamente angustiadas mãos,
e abandonar até o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.

É estranho não mais desejos desejar.
Estranho, passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,tudo o que antes tinha unidade.
Estar morto é laborioso e cheio de recomeços,

até que aos poucosmos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.

Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno,
tal como ao crescernos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto
é tão frequentemente a fonte do feliz amadurecimento - : poderíamos sem eles existir?»

Tinha 16 anos quando aprendi este poema. Pensei que falava da morte, da morte que todo o esquecimento traz. Porque a verdadeira morte é o esquecimento: morremos quando esquecemos alguém e só morremos mesmo quando ninguém estranha mais a não circulação do nosso corpo por aí. Quando nos tornamos apenas restos de um corpo que precisa de uma inscrição para avisar de que aí jaz. Que um dia cá esteve.


Recordo sempre tudo, afinal. A minha história é uma antologia de esquecimentos falhada.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Arquipélagos Aquáticos



«Um homem pode estar doente, mais gravemente, ainda do que este, e ter o seu momento de felicidade, qual seja, tão só o de se sentir como uma ilha deserta que uma ave sobrevoou, de passagem apenas, trazida e levada pelo inconstante vento.»


Somos ilhas à deriva, atravessadas por breves momentos pelo encontro entre dois seres. O resto é apenas a memória desse momento excepcional de luz e beleza. E a procura e esperança na possibilidade de repetição. Recordarei sempre uma tarde de tempestade e trovoada, em que três amigos se abrigaram num toldo perto da escola onde me deseduquei com afinco, e fomos um. Completamente encharcados pela chuva e pelo encontro sublime que ameaçava rasgar os nossos peitos e cortar definitivamente a condição imposta de ilhéu. Era cedo demais então para saber que um dia poderia ser tarde demais. Não conhecíamos as armadilhas do tempo nem a raridade e brevidade dos arquipélagos.


Convosco aprendi também a delícia da palavra amizade e reencontro e sempre que vos olho, relembro e revivo o momento aquático e sublime daquela tarde de tempestade. Quando morrer, se houver um flashback, esse momento estará lá certamente.