
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Outono Transfigurado

segunda-feira, 12 de outubro de 2009
MÁRIO CESARINY

quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Grande Bukowski
sábado, 29 de agosto de 2009
Muda de Vida
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Sputnik, meu Amor

Mulher em Sangue

segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Balada do Medo
Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.
O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.
Tonio Kröger

Entre o narrador e a personagem principal não há quase distância, o que nos permite assistir à construção mental pelo artista pelo próprio. Sim, porque Tonio tornar-se-á um grande escritor. A personagem tem também muito do autor, na medida em que uma dúvida quanto à sua identidade perpassa todo o texto.
Conhecemos Tonio, adolescente, torturado pelo sentimento de exclusão e apaixonado por Hans, amando nele o seu próprio reverso: um rapaz belo, forte e vivo.
(Seremos capazes de amar para além do nosso reflexo? Conseguiremos escapar à nossa imagem? O outro deve validar a nossa identidade ou introduzir uma diferença?)
(…)
E rodava cuidadosamente à volta do altar, onde a pura e casta chama do amor ardia, ajoelhava-se em frente, ateava-a e aproximava-se de todos os modos, porque queria manter-se fiel. Mas passado algum tempo, sem se notar, sem causar sensação e sem ruído, estava no entanto apagada.
Tonio Kröger manteve-se algum tempo diante do altar, arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho».
(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)
E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.
«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»
(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)
Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.
«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»
(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)
O Golpe de Misericórdia

Como acontece com tudo o que amo, fico sem palavras, recuso quebrar o encanto. Escolho as palavras de Augustina Bessa-Luís para deixar uma impressão.
«O Golpe de Misericórdia, espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos, é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.
(...)
O Golpe de Misericórdia é um livro extremamente sério, como toda a obra de Marguerite Yourcenar. Uma obra em que as suas digressões pelo passado são como que a lenta alquimia da solidão; há uma arqueologia da psique, como há das civilizações. Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.
Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure. Para o desvendar é que nos perdemos.»
O golpe de misericórdia no final tem algo de promíscuo, no sentido de um excesso de intimidade, que equivale ao acto amoroso nunca celebrado pelo par protagonista. A intimidade obscena entre vítima e carrasco, amante e amado.
« (…) tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inabalável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento: pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.»
A mais bela história de amor que li até agora.
Bestiário
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O Cântico dos Cânticos

De que seria bom que eu os ouvisse
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como, pois, sereis vós
Deixa isso comigo
domingo, 9 de agosto de 2009
Sonata de Kreutzer

Entre os lençóis

Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.
Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.
domingo, 5 de julho de 2009
Miriam Reyes

sexta-feira, 26 de junho de 2009
Perto do Coração Selvagem

Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
A Leitura e o Prazer

«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)
Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;
Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009
domingo, 21 de junho de 2009
Carta de Amor

Escrevi poucas cartas de amor. Agora que tento recordar quantas, só me lembro de uma e de várias preces à lua por alturas da descoberta do amor. Mas, desde que me apaixonei por ti, vêem-me frases à cabeça acompanhadas da imagem do teu sorriso terno. E um rasto de perfume inebriante que me atordoa. E daí a necessidade de te escrever esta carta e a esperança de que a leias e não tenhas dúvidas que a ti se dirige.
«O teu rosto é uma paisagem onde descanso os olhos e ouço o marulhar do meu mistério» - esta uma das frases. Não sei o que significa para além do que significa. Esta a frase mais insistente.
Ontem andava por bares e chamava por ti em silêncio. Apenas a necessidade de te ver. Do meu corpo encontrar o teu e poder existir lado a lado por uns momentos. Se é amor não sei, já vivi muito, provei até o sabor amargo das desilusões, mentiras e traições, entreguei o meu corpo a meros passageiros numa ânsia de o martirizar, e conheço hoje a palavra espantosa que é desamor.
E agora, com licença, vou à minha vida.


