quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Baforadas Nocturnas


Ás vezes,
Quando a alegria é tanta que ameaça partir o peito
em estilhaços,
ou quando o pensamento se torna velozmente irracional
e ameaça desapegar-se
do corpo que o pensa e sofre,
tenho vertigens.
Medo de deixar o corpo para trás.
Como um resto.
A esbracejar furiosamente.
Sobrando.

sábado, 14 de novembro de 2009

Há ratos em New York



Há ratos em Nova Iorque.


As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.


A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.


Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.


Lavrando no escuro à espera da desistência humana. Roendo arranha-céus, senhores do subterrâneo e dos asfaltos sujos.


Não se deixam tocar, são arredios, escapam pelas sombras, mas tenho carinho por eles.


Chamo a todos Pet e não reúno paciência nem esforços para os liquidar.


Quando os olho, fico fascinada e sei que a cidade será um dia deles.


Sei que se alimentam indiferentes dos restos dos nossos consumos e que sabem que também nós, um dia, nos havemos de consumir.


Os ratos não têm pena dos humanos mas não nos desafiam. Não querem comungar da nossa desgraça. Não querem conviver connosco, sabem que somos astros breves e que nos havemos de extinguir.

Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outono Transfigurado


Estranhos são os caminhos outonais que fazem regressar os corpos à procissão dos dias.

Outubro, mês de véus e mistérios.


Há um corpo aquecido pela celebração estival que regressa em passos silenciosos pela floresta opaca. Um corpo anónimo, forasteiro, com um rosto de prata oferecido sem pudor ao vento frio que o acompanha. Nos bolsos, esconde as mãos ainda ardidas pela recordação do amor, esse astro grave.

As aves levantam voo das suas moradas lunares á sua passagem. Temem que traga presságios malignos. Não podemos censurar as aves – não conhecem o silêncio de um coração humano em paz.


O verde nocturno abre-se e eis a cidade de pedra e as luzes eléctricas que a alumiam fracamente. Os passos tornam-se hesitantes: recordam as dores fundas que fundaram o ser.

No centro da cidade há uma praça. Nela uma estátua de olhos fechados com o dedo indicador nos lábios, convida ao silêncio os viajantes tardios. O corpo passa sem a olhar, apressado por escapar á ordem do esquecimento. Aperta mais as mãos dentro dos bolsos, não quer deixar escapar a liquidez que o acompanha.


Vagueia pela noite eléctrica, pisando as folhas amarelecidas nos passeios públicos, enquanto recicla a vontade de amar. Antes do dia nascer, entra numa igreja, concentra-se no som dos seus tacões a ecoar pelas paredes seculares e recorda o mistério do sagrado.

Quando sai, o sol forte já transformou a cidade de pedra numa cidade viva. As ruas estão apinhadas de pessoas, cheias de vendedores de vegetais, frutas e peixe. Os carros e as motas buzinam de alegria. O corpo perde o anonimato e transforma-se num rosto feliz por ter vencido a noite inumana.


Para celebrar o seu regresso, decide comprar castanhas assadas na próxima esquina. Observa o rosto fuliginoso da vendedora idosa e as suas mãos gigantes. Depois vai avenida abaixo, saboreando as castanhas solenemente. Quando termina, as suas mãos regressam aos bolsos do sobretudo. Contentes, apaziguadas e ainda quentes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MÁRIO CESARINY



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmera escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipícioe cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter med0
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny in " nobilíssima visão "


OS PÁSSAROS DE LONDRES

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio
fosse o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo
fora o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grande Bukowski


From my bed
I watch
3 birds
on a telephone
wire.
one flies off.
then
another.
one is left,
then
it too
is gone.
my typewriter is tombstone still.
and I am
reduced to birdwatching.
just thought I'd
let you know,
fucker.

Charles Bukowski

Afinal este homem era grande, tenho de admitir.

sábado, 29 de agosto de 2009

Muda de Vida

Construí mal. Usei os andaimes errados: construí para uma pessoa que não sou. Agora deito fora esta muda de vida usada e gasta e tento o que não tentei seriamente antes. Ser feliz.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sputnik, meu Amor


«Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.»


Resta o choque, a colisão como forma de toque, de carícia.

Mulher em Sangue




Este é um livro que li há algum tempo, mas que continua na minha lista mental dos livros da minha vida. O mais verdadeiro e também o mais violento.


Lorena é uma serial suicida, é o eterno feminino das mulheres que sangram, uma personalidade vulcânica que asfixia de intensidade, sem abdicar do humor.


«O sol desceu pela janela e perguntou por mim. O sol entrou no celeiro e procurou por mim. O sol me segui num rastro ao redor do feno. O sol me acordou com um beijo nos lábios. Sorriso caído, cigarro apagado. O sol puxou minha blusa e abriu minha calça. Lambeu meu suor, me derretendo. O sol me disse para não ter medo, não ia doer. Fogo no celeiro, com o sol sobre mim.


(...)


As chamas ardem mas eu não ligo. Eu fecho os olhos e agradeço ao rum. Que ninguém é tão sozinha com o mundo girando. Eu não vou ser tão sozinha no próximo verão.»


Lorena. A mulher que todos os homens querem amar, mas não conseguem. Porquê? Eu sei lá... Por medo, por insegurança, por falta de ousadia, por repulsa. Não é fácil amar uma mulher de corpo e sangue. Os homens ainda preferem as feitas de barro. Lorena Vs. Eva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Balada do Medo

Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.

Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.

O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.

O caso arrasta-se num relato que impressiona por se alimentar daqueles que experimentaram a forma dramática de solidão que é o medo. E que ficaram para contar ou dar a contar como o medo tem uma lógica que aliena de valores até um ponto em que se torna assassino. Porque o assassino é o medo.

Tragédias individuais nascidas de um erro colectivo - as sociedades de terror servem-se dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes essa mão está presente, em todos. «O medo é uma forma dramática de solidão», escreve o assassino. Um limite de solidão que aliena todos os valores e permite o crime. E o medo é o assassino.


Brilhante, JCP!


Tonio Kröger


Um grande livro. Gosto do estilo certeiro e mental de Thomas Mann.
Entre o narrador e a personagem principal não há quase distância, o que nos permite assistir à construção mental pelo artista pelo próprio. Sim, porque Tonio tornar-se-á um grande escritor. A personagem tem também muito do autor, na medida em que uma dúvida quanto à sua identidade perpassa todo o texto.

Conhecemos Tonio, adolescente, torturado pelo sentimento de exclusão e apaixonado por Hans, amando nele o seu próprio reverso: um rapaz belo, forte e vivo.

(Seremos capazes de amar para além do nosso reflexo? Conseguiremos escapar à nossa imagem? O outro deve validar a nossa identidade ou introduzir uma diferença?)
«O facto era que Tonio amava Hans Hansen e já muito por ele tinha sofrido. Aquele que ama mais fica sempre em situação de inferioridade e tem de sofrer – a sua alma de adolescente já tinha aprendido da vida esta verdade simples e dura; e Tonio era do género de prestar atenção a estes ensinamentos, de os anotar, por assim dizer, no seu interior, e de em certa medida retirar deles alguma alegria, sem que isso o levasse a alterar o seu comportamento e sem que deles tirasse algum benefício prático».
(Também eu, caro Tonio, anoto na minha carne as verdades que vou extraindo aos dias, sem que essas máximas inteligentes me façam viver melhor.)

Um par de anos depois, encontramos Tonio apaixonado pela loura e divertida Ingeborn, mas o seu coração já tinha aprendido que o amor pode morrer sem nos matar.

«Fidelidade! pensava Tonio Kröger. Quero ser fiel e amar-te, Ingeborn, enquanto viver. Tão bem intencionado que ele era. E no entanto cochichavam baixinho dentro dele um medo e uma tristeza, por ter afinal esquecido completamente Hans Hansen, apesar de o ver diariamente.
(…)
E rodava cuidadosamente à volta do altar, onde a pura e casta chama do amor ardia, ajoelhava-se em frente, ateava-a e aproximava-se de todos os modos, porque queria manter-se fiel. Mas passado algum tempo, sem se notar, sem causar sensação e sem ruído, estava no entanto apagada.
Tonio Kröger manteve-se algum tempo diante do altar, arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho».

(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)

E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.

«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»


(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)

Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.

«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»

(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)

Hoje

Queria desnascer.

O Golpe de Misericórdia


Um homem e uma mulher frente-a-frente, medindo forças e fraquezas: a guerra mais antiga, quotidiana.

Como acontece com tudo o que amo, fico sem palavras, recuso quebrar o encanto. Escolho as palavras de Augustina Bessa-Luís para deixar uma impressão.

«O Golpe de Misericórdia, espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos, é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.
(...)
O Golpe de Misericórdia é um livro extremamente sério, como toda a obra de Marguerite Yourcenar. Uma obra em que as suas digressões pelo passado são como que a lenta alquimia da solidão; há uma arqueologia da psique, como há das civilizações. Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.
Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure. Para o desvendar é que nos perdemos.»

O golpe de misericórdia no final tem algo de promíscuo, no sentido de um excesso de intimidade, que equivale ao acto amoroso nunca celebrado pelo par protagonista. A intimidade obscena entre vítima e carrasco, amante e amado.

« (…) tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inabalável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento: pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.»

A mais bela história de amor que li até agora.

Bestiário



Maravilhoso! Adorei particularmente a carta do homem que vomitava coelhinhos: entre o décimo e o décimo primeiro tudo se pode perder. O desespero é uma questão quantitativa. Não tem a ver com intensidade mas sim com acumulação.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Cântico dos Cânticos



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Cântico Negro, José Regio

Deixa isso comigo




Nem às paredes confesso

Quem sabe se te esqueci

Ou se te quero

Quem sabe até se é por ti

Por quem eu espero


Se eu gosto ou não afinal

Isso é comigo

Mesmo que penses

Que me convences

Nada te digo


De quem eu gosto

Nem às paredes confesso

E até aposto

Que não gosto de ninguém

domingo, 9 de agosto de 2009

Sonata de Kreutzer


O amor, o dito sentimento nobre e sublime, e o ciúme, o instinto abjecto de aniquilar um corpo que não suportamos que possa sentir e viver sem nós. O eterno e indecidido debate: o ciúme faz parte do amor? Podemos matar por amor?

Eu arrisco dizer que não. Agora por desamor, podemos torturar, esfaquear, esventrar e matar sem misericórdia.

«Mas não. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez não será assim — dizia-me uma voz, e tudo recomeçava. O que era horrível é que eu considerava-me com direito incontestável sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu próprio corpo e ao mesmo tempo reconhecia que aquele corpo não me pertencia, que ela não podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava não era conforme ao meu. Se ela não tivesse tido nada com ele mas o desejasse, e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido alguma coisa então eu o saberia e não mais haveria incertezas. Eu já não sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.»

Entre os lençóis


Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.

Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.


And this is where I stay, in between the in between.
No more cold winter days.
No more sudden tragedies.
If you really want to know me take away the human heart and stab it with something not so sharp.
Twist like her finger in my hair she's got a brand new white canvas on her face for me to splatter with paint.
She's got nothing more than what was left running down her throat.
The best of us was left in your sheets,
restoring things here in between defining what everything means to me.
The truth's sometimes so hard to see, in my passive uncertainty,
it's a chorus with no melody.
She's got a brand new white canvas on her face.
The best of us was left in your sheets.

domingo, 5 de julho de 2009

Miriam Reyes



No soy dueña de nada

mucho menos podría serlo de alguien.

No deberías temer

cuando estrangulo tu sexo,

no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.


Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.

Mi casa es este cuerpo que parece una mujer,

no necesito más paredes y adentro tengo

mucho espacio:

ese desierto negro que tanto te asusta.


Miriam Reyes, Bella Durmiente

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Perto do Coração Selvagem



«Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida». (James Joyce)


«Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda havia de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»


Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Leitura e o Prazer


«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;

um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver).

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.

E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar:
por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.

Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu?
Paisagens e sítios de chegada.
Contabilidade económica da leitura.

(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)



Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009