segunda-feira, 17 de maio de 2010

Wangechi Mutu: My Dirty Little Heaven




"O ventre das mulheres contém sempre uma criança ou uma doença" - Celine



vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

&

a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha

&

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

&

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente


Bénédicte Houart

domingo, 16 de maio de 2010

Andamos a adormecer juntas ultimamente e tem sido das melhores companhias que encontrei na cama

MULHER AO MAR



ANIVERSARIO

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao telhado desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os branco raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor.


-"Mulher ao Mar"- Margarida Vale de Gato

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Full of romantic hopes, I shall place my head in the oven as well



"I have a lot to give someone, someday. But I must not be too Christian. I can only end up with one, and I must leave many lonely by the wayside. So that is all for now. Perhaps someday someone will leave me by the wayside. And that will be poetic justice.

(...)

Click-click: tick-tick
Clock snips time in two
Lap of rain
In the drain pipe
Two o’clock
And never you.
Never you, down the evening,
I cannot
Cry, or even smile
Acidly or bitter-swetly
For never you and incompletely.
Things surround me;
I could touch
Soap or toothbrush
Desk or chair.
Never mind the three dimensions
All is flat and you not there.
Letters, paper, stamps
And white. And black.
Typewritten-you, and there
It is.
The trickle, liquid trickle
Of rain in drain-pipe
Is voice enough
For me tonight.
And the click-click
Hard quick click-click
Of the clock
Is pain enough,
Enough heart-beat
For me tonight.
The narrow cot,
The iron bed
Is space enough.
To bed and sleep
And tearless creep
The formless seconds
Minutes hours
And never you
The raindrops weep
And never you
And tick-tick,
tick-tick
pass the hours."

The Journals of Sylvia Plath 1950-1962

domingo, 20 de dezembro de 2009

Aos meus amantes



Isto não é poesia.
São fragmentos de pele,
Suor, lágrimas,
Vómito, pelos púbicos.
Saliva e merda
Muita merda.
São beijos também,
Flirts com a minha verdade
Que é múltipla,
Resistente e selvagem.
São corpos histéricos
Em busca de uma luz que liga
De um corte que toque a ferida.
São gritos desvairados
Umas vezes doces
Outras tristes.
Sem beleza poética.
E afinal das contas, tudo isto para quê?
Para muito pouco. Ou nada.
Um registo da luta diária
Que vou travando contra mim.
São então
Palavras
De mim
Para mim
Contra mim.
E tudo tão pouco.
Sempre aquém.
Hoje acordei e tinha a verdade
Espalhada por todo o corpo:
Uma aspereza na mão
Uma liquidez na face
Doce.
Não a esperava tão doce,
Tão calmante.
Para dizer a verdade,
Não esperava a verdade.
Embora toda a minha estória
Seja a tensão dessa procura.
Com muito sono
Por intermédio
Pois as horas maçam-me
E é sempre preciso derrotar-me um pouco.
Nunca amei. Não amo.
Às vezes tenho acessos de sede
E saio pelas ruas
Nua e sedenta.
Volto tarde com uma presa nos dentes.
Luto com ela na minha insaciedade.
Até que a sede vença de novo
E seja preciso voltar a navegar.
O meu nome é Eva
Nasci da terra vermelha
Dos homens e dos deuses
Criada como indigna e impura
Hoje corro as cidades
Comandada pela raiva e pela humilhação.
Há também uma vontade de vingança
(Não fosse a vingança feminina,
Ninguém a executa melhor do que uma
Fêmea enganada.
E a mim enganaram-me
E não me sabia mulher
Até ter sido enganada.)
Quando tenho medo,
Muito medo,
Fico quieta,
Quente e dócil
Fundo-me com a natureza dos cobertores
Numa vontade de aniquilação
De camuflagem.
Há algo de animal no meu corpo
De fera ferida,
Algo que vocifera,
Ruge,
Rosna,
Ronrona
E se dobra
Perante um predador mais desesperado.
Um desejo de crueldade
De violação.
Fui excluída da festa dos senhores
Relegada aos trabalhos domésticos
(Não sou uma mulher
Quando galgo as estradas,
Mas quando as coisas correm mal,
Torno-me mulher,
Injuriada como todas,
E culpo a condição.)
Um grito nas traseiras da casa
Que um dia será o grito da revolução
A minha forma de assassinar os senhores
É mastigar as suas carnes com o ventre,
Deitada por debaixo deles,
Alargada nos meus buracos de raiva.
E ressentimento.
Obrigada ao silêncio
Ou ao gemido de prazer.
Vergada pela reprovação,
Acusada da insegurança dos homens.
E dos deuses,
Já agora.
Também os deuses não sabem o que fazer com uma mulher.
O enigma da criação é o eterno feminino.
E para quando o meu banquete?
Para quando???
Eu quero sair
Beber o vinho da camaradagem
Descansar o corpo em redes sonolentas
Respirar
Olhar sem ver
Não estar em guerra
Mas não estar sozinha.
Quero tréguas:
Paz com os homens
E os deuses.
Corpo de cera,
Cabelo de boneca,
Porte de rainha,
A natureza não me deu nada disso.
Coube-me apenas um par de olhos,
Belos, fatais
E profundos, fundos.
Mas na mulher,
Já dizia Nietzsche,
São outros buracos que se querem profundos.
Abaixo do ventre.
Nunca os olhos.
Nem a boca.
E por isso,
(e por tudo o resto
- ou por nada)
Me revolto.
(E pode bem ser
Que me revolte apenas para melhor saborear a submissão).
Mas isso é cá comigo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

the boys i mean are not refined


the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance


e.e. cummings

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Canibalismo emocional


Os corpos andam loucos e suados,
Ansiando por prazeres de lonjura
Cruzam-se pelas ruas, esquinas, becos,
Tocam-se na guerra e no amor
Onde vale tudo e a vida vale tão pouco
Guerreiam-se, enfrentam-se, digladiam-se
Em nome de umas tréguas que esqueceram.
Não conseguem dormir, os corpos,
Andam pela cidade deserta, insones,
Vazios pela sede,
Por uma fome imemorial.
De manhã, os corpos vão cansados para a cama
Morrer um pouco.
Têm urgência em desnascer.
Depois de tanto se darem ao manifesto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

NADA


Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, um amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão"

Tu e Eu


Eras tu.
Eras tu quando passávamos as tardes no meu quarto abafado no Bairro Alto,
Nus e completos.
Eras tu quando ríamos juntos
E ninguém nos podia derrotar na nossa alegria.
Eras tu naquele dia em que fomos ao cinema
E fomos belos e fortes.
Perfeitos.
Um para o outro.
Companheiros.
Amantes.

Mas também não eras tu.
Não eras tu quando ficavas os dias inteiros em casa,
Amarrotado e sujo,
Espalhando derrota pelas paredes.
Não eras tu quando espumavas raiva
Contra todos os condutores do mundo,
Tentando expiar uma ofensa antiga
Talvez imemorial.
Não eras tu então
E, dentro de mim,
Algo te estranhava e odiava.

Eras tu quando acordavas e me tocavas o rosto.
Não eras tu quando não rias comigo.
Eras tu quando movias mundos só para me ver.
Não eras tu quando me gritavas o quanto me odiavas
E quão má eu tinha sido para ti.
Eras tu quando me olhavas numa ternura canina.
Não eras tu quando me deixavas adormecer sozinha e fria.
Eras tu quando me fazias sentir mulher na certeza de um abraço.
Não eras tu sempre que bebias demasiado.
Eras tu quando me ias buscar ao trabalho e levavas flores.
Não eras tu quando me traías.
Eras tu quando podia ser eu contigo.
E correr livre com o teu cheiro a seguir-me,
Não eras tu quando não podia ser eu.

Eras tu.
Meu pai, meu irmão, meu amigo,
Meu amante.
Não eras tu.
Meu adversário.
Não eras pão, madrugada e sono.
No meio disto tudo,
Deixei de saber quem eras.
E nesta intermitência nos perdemos.
E deixaste de ser tu.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Baforadas Nocturnas


Ás vezes,
Quando a alegria é tanta que ameaça partir o peito
em estilhaços,
ou quando o pensamento se torna velozmente irracional
e ameaça desapegar-se
do corpo que o pensa e sofre,
tenho vertigens.
Medo de deixar o corpo para trás.
Como um resto.
A esbracejar furiosamente.
Sobrando.

sábado, 14 de novembro de 2009

Há ratos em New York



Há ratos em Nova Iorque.


As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.


A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.


Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.


Lavrando no escuro à espera da desistência humana. Roendo arranha-céus, senhores do subterrâneo e dos asfaltos sujos.


Não se deixam tocar, são arredios, escapam pelas sombras, mas tenho carinho por eles.


Chamo a todos Pet e não reúno paciência nem esforços para os liquidar.


Quando os olho, fico fascinada e sei que a cidade será um dia deles.


Sei que se alimentam indiferentes dos restos dos nossos consumos e que sabem que também nós, um dia, nos havemos de consumir.


Os ratos não têm pena dos humanos mas não nos desafiam. Não querem comungar da nossa desgraça. Não querem conviver connosco, sabem que somos astros breves e que nos havemos de extinguir.

Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outono Transfigurado


Estranhos são os caminhos outonais que fazem regressar os corpos à procissão dos dias.

Outubro, mês de véus e mistérios.


Há um corpo aquecido pela celebração estival que regressa em passos silenciosos pela floresta opaca. Um corpo anónimo, forasteiro, com um rosto de prata oferecido sem pudor ao vento frio que o acompanha. Nos bolsos, esconde as mãos ainda ardidas pela recordação do amor, esse astro grave.

As aves levantam voo das suas moradas lunares á sua passagem. Temem que traga presságios malignos. Não podemos censurar as aves – não conhecem o silêncio de um coração humano em paz.


O verde nocturno abre-se e eis a cidade de pedra e as luzes eléctricas que a alumiam fracamente. Os passos tornam-se hesitantes: recordam as dores fundas que fundaram o ser.

No centro da cidade há uma praça. Nela uma estátua de olhos fechados com o dedo indicador nos lábios, convida ao silêncio os viajantes tardios. O corpo passa sem a olhar, apressado por escapar á ordem do esquecimento. Aperta mais as mãos dentro dos bolsos, não quer deixar escapar a liquidez que o acompanha.


Vagueia pela noite eléctrica, pisando as folhas amarelecidas nos passeios públicos, enquanto recicla a vontade de amar. Antes do dia nascer, entra numa igreja, concentra-se no som dos seus tacões a ecoar pelas paredes seculares e recorda o mistério do sagrado.

Quando sai, o sol forte já transformou a cidade de pedra numa cidade viva. As ruas estão apinhadas de pessoas, cheias de vendedores de vegetais, frutas e peixe. Os carros e as motas buzinam de alegria. O corpo perde o anonimato e transforma-se num rosto feliz por ter vencido a noite inumana.


Para celebrar o seu regresso, decide comprar castanhas assadas na próxima esquina. Observa o rosto fuliginoso da vendedora idosa e as suas mãos gigantes. Depois vai avenida abaixo, saboreando as castanhas solenemente. Quando termina, as suas mãos regressam aos bolsos do sobretudo. Contentes, apaziguadas e ainda quentes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MÁRIO CESARINY



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmera escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipícioe cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter med0
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny in " nobilíssima visão "


OS PÁSSAROS DE LONDRES

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio
fosse o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo
fora o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grande Bukowski


From my bed
I watch
3 birds
on a telephone
wire.
one flies off.
then
another.
one is left,
then
it too
is gone.
my typewriter is tombstone still.
and I am
reduced to birdwatching.
just thought I'd
let you know,
fucker.

Charles Bukowski

Afinal este homem era grande, tenho de admitir.

sábado, 29 de agosto de 2009

Muda de Vida

Construí mal. Usei os andaimes errados: construí para uma pessoa que não sou. Agora deito fora esta muda de vida usada e gasta e tento o que não tentei seriamente antes. Ser feliz.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sputnik, meu Amor


«Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.»


Resta o choque, a colisão como forma de toque, de carícia.

Mulher em Sangue




Este é um livro que li há algum tempo, mas que continua na minha lista mental dos livros da minha vida. O mais verdadeiro e também o mais violento.


Lorena é uma serial suicida, é o eterno feminino das mulheres que sangram, uma personalidade vulcânica que asfixia de intensidade, sem abdicar do humor.


«O sol desceu pela janela e perguntou por mim. O sol entrou no celeiro e procurou por mim. O sol me segui num rastro ao redor do feno. O sol me acordou com um beijo nos lábios. Sorriso caído, cigarro apagado. O sol puxou minha blusa e abriu minha calça. Lambeu meu suor, me derretendo. O sol me disse para não ter medo, não ia doer. Fogo no celeiro, com o sol sobre mim.


(...)


As chamas ardem mas eu não ligo. Eu fecho os olhos e agradeço ao rum. Que ninguém é tão sozinha com o mundo girando. Eu não vou ser tão sozinha no próximo verão.»


Lorena. A mulher que todos os homens querem amar, mas não conseguem. Porquê? Eu sei lá... Por medo, por insegurança, por falta de ousadia, por repulsa. Não é fácil amar uma mulher de corpo e sangue. Os homens ainda preferem as feitas de barro. Lorena Vs. Eva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Balada do Medo

Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.

Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.

O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.

O caso arrasta-se num relato que impressiona por se alimentar daqueles que experimentaram a forma dramática de solidão que é o medo. E que ficaram para contar ou dar a contar como o medo tem uma lógica que aliena de valores até um ponto em que se torna assassino. Porque o assassino é o medo.

Tragédias individuais nascidas de um erro colectivo - as sociedades de terror servem-se dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes essa mão está presente, em todos. «O medo é uma forma dramática de solidão», escreve o assassino. Um limite de solidão que aliena todos os valores e permite o crime. E o medo é o assassino.


Brilhante, JCP!