domingo, 23 de janeiro de 2011

ORLANDO



Um exercício incrível de imaginação que nos maravilha e inquieta a cada instante: «como é possível que esta história tenha sido imaginado por uma mente, uma mente apenas?».


Concluímos no final da leitura, algo extenuadas pelo ritmo eufórico e diálogo irónico permanente que, embora o livro tenha sido escrito por uma pessoa apenas, essa pessoa era habitada por várias. Uma pessoa, afinal, como as outras, mas com um ouvido extremamente amplificado para sintonizar a multiplicidade de vozes que constitui um Eu.


A desgraça final da autora terá vindo daí, dessa antena apuradíssima que lhe permitia amplificar cada voz, até à loucura. A beleza das suas obras também: veio desse esforço sobre-humano para domar as vozes e integrá-las numa voz, evitando constantemente o colapso. Colocar em palco, no papel, todas as personagens que nos fazem e desfazem.


E é isto que Orlando é, muitas coisas: uma biografia, uma ficção histórica, exorcismo de demónios, crítica feminista, testamento de uma ambição, uma obra desumana e genial e, ainda «a maior carta de amor da literatura», como um crítico feliz disse. De Virginia para Vita. Mas sobretudo, de Virginia para Virginia.


“«O quê, então? Quem?», dizia. «Trinta e seis anos; ao volante de um automóvel; mulher. Sim, mas também um milhão de outras coisas mais. Uma snobe – será que o sou? A jarreteira, no salão? Os leopardos? Os meus antepassados? Se tenho orgulho neles? Tenho, pois! Ávida, sensual, viciosa? Serei mesmo? (aqui entrou em cena um novo eu). Não me importo nada de o ser. Honesta? Julgo que sim. Generosa? Ora isso não conta (aqui entrou em cena um novo eu). Deitada na cama a manhã inteira, entre belos lençóis de linho, a ouvir os pombos; baixela de prata; vinho; criadas; lacaios. Mimada? Talvez. Demasiadas coisas que não servem para nada. Daí os meus livros (aqui citou cinquenta títulos clássicos; aludindo, julgamos nós, às românticas obras de juventude que destruíra). Fluente, desenvolta, romântica. Mas (aqui entrou em cena um novo eu) também uma inepta, uma trapalhona. Mais desastrada que eu não há. E … e … (aqui hesitou, procurando uma palavra, e ao sugerir «Amor» talvez nos enganemos, mas o certo é que ela riu, corou e exclamou depois…) Um sapo cravejado de esmeraldas! O Arquiduque Harry! Varejeiras no tecto! (aqui entrou em cena um novo eu). Então e Nell, Kit, Sasha? (mergulhou nas mais profunda tristeza: algumas lágrimas chegaram mesmo a tomar forma, e havia muito que ela deixara de chorar). Árvores, disse ela. (Aqui entrou em cena um novo eu.) Adoro árvores (ia a passar por um maciço delas), ali a crescer há mais de mil anos. E estábulos (passou por um estábulo em ruínas, à beira da estrada). E cães-pastores (lá vinha um a atravessar a estrada. Orlando desviou-se cautelosamente. E a noite. Mas as pessoas… (aqui entrou em cena um novo eu). As pessoas? (repetiu, sob a forma de uma pergunta.) Não sei. Tagarelas, invejosas, sempre a dizerem mentiras.
(…)
«Assombrada!», exclamou, carregando bruscamente no acelerador. «Assombrada, sim, desde criança. Lá vai o ganso selvagem. Passa diante da janela, voa em direcção ao mar. E eu corri (agarrou-se com mais força ao volante), estiquei-me para o agarrar. Mas o ganso voa demasiado depressa. Tornei a vê-lo, aqui – além – acolá -, Inglaterra, Pérsia, Itália. Sempre a voar muito depressa, em direcção ao mar, e eu sempre a persegui-lo com palavras como redes (aqui estendeu a mão para fora da janela) que mirram como vi mirrarem as redes içadas para o convés, trazendo dentro apenas algas; e às vezes vem um pedacinho de prata – meia dúzia de palavras – no fundo da rede. Mas nunca o grande peixe que mora nas florestas de coral.» Aqui, inclinou a cabeça, em profunda meditação.
E foi nesse instante, em que parara de chamar «Orlando» e estava absorta a pensar noutra coisa, que a Orlando por quem chamara veio de livre vontade; como se prova pela mudança que agora se operava nela (acabava de entrar no parque, transpondo o portão de entrada).
(…)
Estava agora, portanto, obscura e sossegada, tendo-se tornado, com a adição desta Orlando, aquilo a que com razão ou sem ela se chama um eu único, um verdadeiro eu. E calou-se. Porque é provável que quando uma pessoa fala em voz alta, os eus (que podem ser mais de dois mil) se apercebam da discórdia, e tentem comunicar, mas quando a comunicação se estabelece, calam-se.”


A mim também os meus eus me chegam através de vozes conflituosas e, uma vez, poderia julgar que os vi a todos dentro de um carro. Foi numa manhã de ressaca, uma das manhãs mais doces que tive, e estava na casa de uma amiga que entendia o meu coração e a minha cabeça sem se afligir. Estávamos as duas de maquilhagem borrada, os corpos estendidos na cama dela como detritos e sorríamos de todas as nossas histórias até aquele encontro breve. De dois dias apenas. Em New York.

Bebíamos água com sumo de limão de um púcaro enorme e era a água mais saciante de sempre, quando ela me disse, com o sotaque austríaco dela que eu era no mínimo três pessoas. A conduzir um carro.

- «Vais a conduzir e vais relaxada, a ouvir música, a fumar, a rir e a conversar com o outro eu que vai sentado no lugar do morto. De repente, há algo que te perturba e ficas destruída, incapaz de continuar a conduzir o carro. E de imediato, numa acrobacia, sem parar o carro, o outro eu que está ao lado, toma o controlo do volante e começa a conduzir de forma agressiva, dizendo blasfémias à janela. Um eu niilista que quer que tudo se lixe. No banco detrás, há outro eu que fica em pânico com essa acrobacia de condutores, que tem medo que o carro se descontrole. E o mais natural seria que encostasses o carro para que os condutores pudessem trocar sem perigo.»

- «Talvez. Mas o carro não pode parar. Tem de continuar.»


- «É esse o problema. Não consegues admitir que a paragem. És conduzida por um carro».


Em silêncio, enrosquei-me em mim com um sorriso frágil e puxei o cobertor para mim.


- «Vês, agora que te disse isto, ficaste quieta e triste. É verdade. O teu eu mais verdadeiro é esse. O do banco de trás»


- «Não. Fiquei a pensar. Não fiquei triste. Acho bonito. Belo de certa forma.»


- «Há outro eu, então. Um que vai aninhado junto à janela, no banco detrás, indiferente às acrobacias do carro e dos condutores. Vai a olhar a paisagem e a escrever secretamente poemas na sua mente. Esse é o teu eu menos contaminado.»

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN (ii)



From Third Avenue On


And now she walks on out turned feet

Beside the litter in the street

Or rolls beneath a dirty sheet

Within the town.

She does not stir to doff her dress,

She does not kneel low to confess,

A little conscience, no distress

And settled down.

Ah God! she settles down we say;

It means her powers slip away

It means she draws back.

day by day

From good or bad.

And so she looks upon the floor

Or listens at an open door

Or lies her down, upturned to snore

Both loud and sad.


Or sits besides the chinaware,

Sits mouthing meekly in a chair,

With over-curled, hard waving hair

Above her eyes.

Or grins too vacant into space—

A vacant space is in her face—

Where nothing came to take the place

Of high hard cries.

Or yet we hear her on the stairs

With some few elements of prayers,

Until she breaks it off and swears

A loved bad word.

Somewhere beneath her hurried curse,

A corpse lies bounding in a hearse;

And friends and relatives disperse,

And are not stirred.

Those living dead up in their rooms

Must note how partial are the tombs,

That take men back into their wombs

While theirs must fast.

And those who have their blooms in jars

No longer stare into the stars,

Instead, they watch the dinky cars—

And live aghast.


Djuna Barnes

THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN





From Fifth Avenue Up

Someday beneath some hard
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.
For though one took you,
hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.
We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.
It wouldn't go.
We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.
We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.
See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.
Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.
Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—
babyIn grimace,
With your belly bulging stately
Into space.
Djuna Barnes

Djuna Barnes


We are adhering to life now with our last muscle - the heart.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MORTE NA PÉRSIA



Morte na Pérsia é um dos livros mais belos e tristes que li na minha vida. Escrito por uma mulher no fim das suas forças, o livro fala de uma vertigem interior, de uma paisagem íntima chamada pérsia e morte. O que acontece quando o medo se aloja no coração?

As duas conversas com o Anjo são das coisas mais sublimes que já li.

Depois de ler este livro pequeno, fiquei com o coração cheio de Arte, Beleza, Medo e Solidão. Assim mesmo, com letras grandes. Mas o Medo e a Solidão já eram inquilinos antigos. Também o meu coração se podia chamar Pérsia.

«Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão.»

terça-feira, 19 de outubro de 2010

AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM



Uma escrita belíssima, atenta às gradações dos afectos, ás intensidades dos gestos e sobretudo empenhada na compreensão das relações humanas. Porque tudo começa no dois – o amor, a amizade, a família, mas também o dissenso, a política e a guerra.


Henrik é traído pelo melhor amigo e pela mulher. Espera pacientemente quarenta e um anos. Diz que espera a vingança e a verdade. Uma verdade para além dos factos, porque «um acto ainda não é equivalente da verdade». Mas ele já encontrou a verdade na velhice e na morte, quando somos capazes de entender os corpos como corpos e os homens como seres mortais, um entendimento sem dor.


«Uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente? A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida.»


«Sobreviver a alguém, a quem amámos tanto que teríamos sido capazes de matar por ela, sobreviver a alguém, a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida.»


«Quem sobrevive a alguma coisa, não tem direito de formular uma acusação. Quem sobrevive a alguma coisa, ganhou o seu processo, não tem direito, nem razão para acusar alguém; era mais forte, mais astuto, mais agressivo.»


Só os mortos respondem bem e definitavemente.


Recomenda-se como leitura para uma noite ventosa e solitária, acompanhada de velas.

COM O DIABO NO CORPO



Um amor adúltero entre François, de dezasseis anos, e Marthe, de dezanove, casada com um soldado. A guerra serve de pano de fundo ao desvario dos amantes, sentida como um longo período de ociosidade e poesia. Ao conhecer Marthe, o rapaz encanta-se de imediato com a sua imprudência e gosto por Baudelaire e Verlaine. O amor é acompanhado por uma escalada do sentimento de tirania pelo ser amado. François enleia-se cada vez mais no amor, quanto mais acredita não amar Marthe, incapaz de se vergar aos códigos sentimentais, por ingenuidade. «Os momentos em que não podemos mentir são precisamente aqueles em que mais mentimos, sobretudo a nós próprios» (p. 63).


Na repetição dos encontros, os amantes descobrem o êxtase: «Não é na novidade, mas sim no hábito, que encontramos os maiores prazeres» (p.46). François sente-se como uma criança que dá um brinquedo a si própria, um brinquedo a quem pode fazer o que quiser, até mal, se o desejar. A cada novo dia, François testa os limites do amor e da entrega de Marthe, ébrio com os recém-adquiridos poderes da paixão. As loucuras da carne parecem aliviar os distúrbios da alma, desgastando uma paixão incapaz de se gastar pela submissão de Marthe, que perdoa todos os ataques de ciúme, crueldades e mentiras do rapaz. Uma submissão que resulta da certeza da sua paixão, enquanto a crueldade do seu parceiro resulta da sua duvida e incapacidade de aceitar que a ama.

«Mas o amor, que é o egoísmo a dois, sacrifica tudo a si próprio e vive de mentiras» (p. 59). O fim é trágico e Marthe morre – como morrem todos os nossos primeiros amores, para que a vida possa continuar, ainda que empobrecida pela recordação desse astro breve, é certo. A morte da amada não traz uma elevação redentora do sentimento, pelo contrário, a natureza egoísta do amor de François revela-se aí em toda a potência.

«Marthe! O meu ciúme seguia-a até ao túmulo. Eu desejava que nada houvesse depois da morte. É insuportável que a pessoa que amamos se encontre rodeada de outras companhias numa festa onde nós não estamos. O meu coração tinha aquela idade em que ainda não pensa no futuro. Era exactamente o vazio que eu desejava para Marthe, mais do que um mundo novo, onde pudesse juntar-me a ela um dia» (p. 140). O que importa não é que Marthe tenha morrido, mas sim a certeza de que ela tenha morrido chamando pelo amante.

«Quando Marthe dormia assim, com a cabeça encostada num dos meus braços, eu inclinava-me sobre ela para lhe ver o rosto envolto em chamas. Era como brincar com o fogo. Um dia em que me aproximei demais, sem, no entanto, o meu rosto tocar no dela, foi como a agulha magnética que passa um milímetro a zona interdita e se cola ao íman. A culpa é do íman ou da agulha? Era assim que sentia os meus lábios contra os dela. Marthe continuava com os olhos fechados, mas nitidamente como quem não está a dormir. Beijei-a, surpreendido pela minha própria coragem, embora na realidade tivesse sido ela que, mal eu me aproximara do seu rosto, puxara a minha cabeça para a sua boca. As suas mãos agarravam o meu pescoço. Não se teriam agarrado com mais fúria num naufrágio. E eu não compreendia se ela queria que eu a salvasse ou que me afundasse com ela» (p.45).

Fiquei a arder – saudades da desmesura que o primeiro amor apresenta e que nenhum mais nenhum nos traz depois. Porque nos tornámos cínicos, feridos e menos loucos. E, sobretudo, incapazes de ser salvos ou naufragar.

«Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratulam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ele teria sido feliz» (p. 139).

O CHÃO DOS PARDAIS


«Anne Frank morreu com quinze anos, quinze dias antes da libertação do campo para onde tinha sido levada. Se Deus não joga aos dados faz o quê?
(…)
Nós sobrevivemos ao horror pelo qual a família Frank e os amigos passaram. A humanidade sobreviveu. De forma imperdoável, porém. A menos que se constituam deveres.
(…)
Ele e Margarida eram quase recém-casados quando ele a levou ao anexo. Temos de ver isto porque não podemos ter a certeza que não repetimos. Nunca poderemos ter essa certeza. Os que perpetraram o horror eram em tudo iguais às vítimas, eram em tudo iguais a nós.
(…)
Os milhões de pessoas que morreram merecem que os deixemos em paz, dissera inesperadamente Margarida. Merecem que não precisemos deles para nos emocionarmos. Esse é o nosso único dever. Há neste momento milhares de pessoas escondidas por esse mundo fora e nós estamos aqui a visitar um sítio que foi tornado público só para satisfazer a curiosidade dos que querem ver para se emocionarem. Não devia ser permitido. Isto, as visitas aos campos, nada. Não é que não seja preciso ver. É que não devemos ver. Estamos obrigados a sentir para além do que os olhos vêem. A fé já foi inventada. É possível. Isto, os milhões de sapatos, os duches, os crematórios, são obscenos. Deviam ter sido arrasados. Nem sequer o pó desses sítios devia existir. Não se pode permitir a memória física do horror. Deixar que o horror tenha memória física é uma forma de o justificar. E não pode haver nunca justificação. Os visitantes procuram o descanso que nunca deveriam ter. Não há nada de nobre numa visita a um campo de concentração ou a este anexo. Não há solidariedade possível com os que sofreram, com os que foram deixados sofrer. Só nos chocamos com os factos sobre os quais não nos pode ser exigida responsabilidade alguma, com os factos em relação aos quais a nossa acção se tornou impossível. Precisamos da tranquilidade de saber que não nos pode ser exigido que actuemos. Que nunca poderemos ser acusados de termos sido cúmplices. Daqui a uns anos faremos museus às guerras que estão a decorrer neste momento. E iremos visitá-los só para nos chocarmos, para nos emocionarmos. Só temos de esperar que a nossa acção se torne impossível, que a nossa inacção se torne justificável, para que passemos a exigir que nos reconheçam como solidários. É só preciso esperar que o horror acabe para podermos ser completamente contra ele. Para estarmos dispostos a fazer tudo o que pudermos para acabar com ele. Mais tarde poderemos até chegar ao ponto de querermos compreender como é que tudo se passou, o que é que se passou. Tudo em nome da humanidade, dos abismos negros da humanidade.»

sábado, 26 de junho de 2010

DO DESEJO




E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

* * *
Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
* * *
Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?



Hilda Hilst

Temos novo amor: Hilda Hilst



Alcoólicas


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Canção da Inocência Perdida



1

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

2

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C'mo sem ninguém lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

6

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

7

Bem sei: Muito pode vir
'Té que nada por fim. fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht

sábado, 29 de maio de 2010

INGEBORG BACHMANN (1926-1973)




Terra de névoa


No Inverno a minha amada

está com os bichos na mata.

Que eu tenho de voltar antes do dia,

a raposa sabe-o e ri.

Tremem tanto estas nuvens! E

na minha gola de neve cai

uma cama de gelo quebrado.



No Inverno a minha amada

é uma árvore entre as árvores e

convida aos belos ramos

os corvos abandonados da sorte. Sabe

que o vento, ao anoitecer, lhe levanta o

vestido hirto de noite e geada,

e me leva para casa.



No Inverno a minha amada

Vai silenciosa com os peixes.

Servindo as águas, movidas adentro

pelo o fio das barbatanas,

eu fico na margem e vejo-a

mergulhar e revirar,

enquanto os gelos não me expulsam.



E de novo, ao embate do grito

da ave que me ampara

com a asa, desabo

num campo aberto: a amada depena

as galinhas e atira-me

uma clavícula branca. Ponho-a ao pescoço

e afasto-me por entre a penugem amarga.



Infiel é a minha amada,

eu sei que às vezes flutua

de saltos altos até à cidade,

beija nos bares com a palhinha

os copos profundamente na boca

e vêm-lhe palavras para todos.

Mas eu não percebo o idioma.



Vi terra de névoa.

Comi coração de névoa.



uma espécie de perda


Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.



O Tempo Aprazado


Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Vêm aí dias difíceis.

A verdadeira poesia



Ontem foi um dia intenso. Fui a Neue National Galery e percebi que as minhas paixoes em arte nao evoluiram nada nos ultimos anos: ainda continuo desperadamente atraida pelos surrealistas.

Depois fui a uma poetry reading e embebedei-me:
A verdadeira poesia é a sede de poesia.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Wangechi Mutu: My Dirty Little Heaven




"O ventre das mulheres contém sempre uma criança ou uma doença" - Celine



vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

&

a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha

&

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

&

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente


Bénédicte Houart

domingo, 16 de maio de 2010

Andamos a adormecer juntas ultimamente e tem sido das melhores companhias que encontrei na cama

MULHER AO MAR



ANIVERSARIO

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao telhado desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os branco raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor.


-"Mulher ao Mar"- Margarida Vale de Gato