domingo, 9 de agosto de 2009

Entre os lençóis


Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.

Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.


And this is where I stay, in between the in between.
No more cold winter days.
No more sudden tragedies.
If you really want to know me take away the human heart and stab it with something not so sharp.
Twist like her finger in my hair she's got a brand new white canvas on her face for me to splatter with paint.
She's got nothing more than what was left running down her throat.
The best of us was left in your sheets,
restoring things here in between defining what everything means to me.
The truth's sometimes so hard to see, in my passive uncertainty,
it's a chorus with no melody.
She's got a brand new white canvas on her face.
The best of us was left in your sheets.

domingo, 5 de julho de 2009

Miriam Reyes



No soy dueña de nada

mucho menos podría serlo de alguien.

No deberías temer

cuando estrangulo tu sexo,

no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.


Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.

Mi casa es este cuerpo que parece una mujer,

no necesito más paredes y adentro tengo

mucho espacio:

ese desierto negro que tanto te asusta.


Miriam Reyes, Bella Durmiente

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Perto do Coração Selvagem



«Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida». (James Joyce)


«Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda havia de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»


Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Leitura e o Prazer


«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;

um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver).

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.

E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar:
por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.

Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu?
Paisagens e sítios de chegada.
Contabilidade económica da leitura.

(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)



Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009

domingo, 21 de junho de 2009

Carta de Amor




Escrevi poucas cartas de amor. Agora que tento recordar quantas, só me lembro de uma e de várias preces à lua por alturas da descoberta do amor. Mas, desde que me apaixonei por ti, vêem-me frases à cabeça acompanhadas da imagem do teu sorriso terno. E um rasto de perfume inebriante que me atordoa. E daí a necessidade de te escrever esta carta e a esperança de que a leias e não tenhas dúvidas que a ti se dirige.


«O teu rosto é uma paisagem onde descanso os olhos e ouço o marulhar do meu mistério» - esta uma das frases. Não sei o que significa para além do que significa. Esta a frase mais insistente.

«Moravas já na minha infância». Outra frase-fantasma.


Ontem andava por bares e chamava por ti em silêncio. Apenas a necessidade de te ver. Do meu corpo encontrar o teu e poder existir lado a lado por uns momentos. Se é amor não sei, já vivi muito, provei até o sabor amargo das desilusões, mentiras e traições, entreguei o meu corpo a meros passageiros numa ânsia de o martirizar, e conheço hoje a palavra espantosa que é desamor.

Como ia dizendo, se é amor não sei. Mas deve ser senão não chamaria a isto carta de amor. O que sinto por ti é um sentimento apaziguador de plenitude que não senti antes. Conheci-te antes, é verdade, e não te amei; havia uma tensão no teu corpo e um sopro de medo que cortava a tua voz que me impedia de te olhar como um rapaz. Um homem. Mas sempre me senti abraçada pelo teu sorriso, um sorriso branco, fácil, de tarde solarenta.

E então, quando menos esperava, quando menos convinha, olhei-te e vi-te e agarrei o teu rasto como um porto seguro onde poderia arriscar erguer-me e voltar a amar. Sem medo. Não o quis confessar logo a mim, preferi censurar-me e pensar que era má. Sempre pensei que era má, ainda hoje penso, mas o sentimento que trago por ti, impede-me agora de me crer assim. E um dia em que os nossos corpos brincavam, vi o teu rosto despido da tensão de existir a medo e foi o rosto de prazer mais belo que vi. E então soube dentro de mim, com calma que te amava. Uma certeza que me adormeceu no meio de todo o caos e decadência.

Hoje cheguei da praia com o corpo aquecido pelo calor salgado e ouvi a minha carne a reclamar o teu toque. A exigir a tua presença. Gritei-lhe alegre de volta que estivesse quieta, que a nossa paixão era sozinha. E ela gritou-me irada que não entendia, que o amor acontecia tão pouco, que era uma estupidez não viver esta doçura mesmo que se esgotasse. Calei-me sem resposta e toquei-me triste a pensar em ti.

Talvez um dia destes te encontre pela cidade e sofra por já não seres ferida, paisagem nem mistério. Talvez nem sofra porque a mente apagou um sentimento que precisava de outro corpo para se alimentar. Mas a minha carne há-de recordar o calor salgado, o meu corpo há-de prestar mais atenção ao andar para não vacilar, triste e sozinho, rasgado pela memória de um amor que não se cumpriu, de uma vertigem feliz que não pude partilhar. Contigo.

E agora, com licença, vou à minha vida.

domingo, 31 de maio de 2009

A Dor de Ser Quase


Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou... -
Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Fado


«Deste-me um beijo e vivi.

Da força que veio de ti encontrei a fé perdida.

E o meu corpo, feito grito,

Pediu mais vida à vida.»

Domingo




Um ramo de cravinas e um ramo de boca-de-lobo.
E a palavra casa.

Diário de uma Queda




Apaixonei-me, outra vez. Este ano, outra vez, primeiro pela Dorothy Parker, irmã de sarcasmos agridoces. Ontem pela Clarice Lispector. Um fim-de-semana de encontro, companhia na cama, a euforia de um sorriso que chora mas que consegue ainda rachar a solidão. Apaziguar a perturbação pelo testemunho da beleza que tortura e perde e obriga à queda.

(A uma queda a que me entrego à espera do embate, do momento final do crash. Mas a queda demora, cair é cair sem parar, talvez nunca bata no fundo, talvez já tenha batido - vivi a noite mais longa da minha vida, triste e alerta, envelheci muitos anos, não sabia que havia noites assim tão claras, loucas e tristes, consegui arrastar o meu corpo destroçado até casa e deitá-lo naufrágo na cama - talvez não haja fundo. Talvez bater no fundo seja dizer bati no fundo. Ou talvez bater no fundo seja ficar sem palavras, possuído por um silêncio imemorial. E se um dia não conseguimos continuar? E se um dia nos entregamos à delícia de não querer sobreviver, de não querer ultrapassar, esquecer, matar e morrer? Como parar de sentir, atropelar o sentimento de modo implacável sem lhe dar sequer a oportunidade de um último espasmo? E se um dia o sentimento nos possui, arrasta pelos cabelos e não quer desisitir de nós?)

O Verbo fez-se carne e veio aquecer o meu corpo. Prende-me à cama numa preguiça sensual de cabelos em desalinho e doces vincos na pele, vira-me do avesso e murmura «O meu nome é legião».

terça-feira, 26 de maio de 2009

Temor e Tremor



«Ela tinha mais subordinados além de mim. Eu não era a única pessoa que ela odiava e desprezava. Podia ter martirizado outras pessoas. Ora, ela não exercia a sua crueldade a não ser comigo. Isso devia ser um privilégio.
Devia ver nisso uma eleição.
[…]
Cara tempestade de neve, se eu puder, com tão pouco, ser o instrumento do teu gozo, está à vontade, ataca-me com os teus flocos ásperos e duros, com as tuas pedras de granizo talhadas como sílex, com as tuas nuvens tão pesadas de fúria, aceito ser a mortal perdida na montanha, sobre a qual eles descarregam a sua cólera, recebo em pleno rosto os seus mil perdigotos gelados, não me custa e é um belo espectáculo a tua necessidade de me ferir a pele à força de insultos, disparas pólvora seca, cara tempestade de neve, recusei que me vendassem os olhos face ao teu pelotão de execução, pois há muito que esperava ver o prazer no teu olhar.»


Há algo de erótico na luta de morte entre uma vítima e o seu carrasco. O ódio é um acto de eleição, semelhante à paixão, requerendo a mesma energia, esforço e astúcia.

Good Night & Good Luck




Veneno. Vómito.
Tenho um grito impossível dentro de mim.
Queria tanto, tanto expulsá-lo.
Mas não consigo odiar, não consigo morrer.
Vasculho a história à procura da raiz do mal.
Quem me fez, mal?
A menina gosta de dramas. Vá lá, confesse.
Nasci a 11 de Setembro, filha do ressentimento e de afectos por cumprir,
Tive dois irmãos,
Com um conheci a comunhão e a traição,
Éramos camaradas de trincheiras, dormíamos juntos,
Sonhávamos longe os dois,
Atravessávamos pântanos e campos, roubando frutas e um futuro triunfante,
Fumávamos a solidão e ríamos de todo o mal.
Pensávamo-nos imunes.
Mas a infância passou e sobreveio o desgosto.
O desencontro. Restaram os livros e os cães.
O outro irmão só o conheci anos mais tarde no desamparo.
Quando ele me aceitou como pessoa e pude enfim ter uma voz.
Ao meu pai, escrevi uma carta de amor a pedir tréguas.
Obtive silêncio e uma palmada nas costas:
Desconhecemos como quebrar a ausência que nos afastou.
E a culpa de quem? Tua, que nasceste primeiro?
Ou minha, que compliquei o teu fracasso?
A minha mãe continua surda,
Desfia o dia inteiro punhaladas de agulha na minha pele.
E se me dói é porque sou mesmo igual ao meu pai.
Um sangue que é conhecido por não chorar em funerais.
Um sangue mau e amargo que nem os mosquitos gostam de picar.
A voz da minha mãe dentro da minha cabeça a martelar.
A insistir na minha derrota, para me provar que não há saída.
E eu a correr, às cambalhotas, aos trambolhões,
A rir de impertinência e desafio de todas as regras e convenções.
Cresci perfeita, forte, saudável e fatal.
Num país sem nome nem emoções.
O meu avô ensinou-me que nada estava definido à partida,
Que tudo era possível.
O meu pai morreu de overdose,
Os ombros perderam as asas, ficou apenas a pergunta:
Onde está o banquete que nos prometeram?

Mais tarde, o descontrolo, o desejo a ultrapassar-me,
Veloz e furioso de vingança.
Queria tanto, tanto chorar. Doer-me e poder apontar a dor.
É aqui senhor doutor. Agora, cure-me.
Mas não. Temos tempo, diz o doutor.
Tempo para quê?
Tempo para perder tempo.
Tempo para agonizar. A dor é minha, não é?
Não fiques chateada, pequenina.
Custam-nos cada vez mais os esforços pelos outros.
Já nos pesa tanto o corpo quando nos levantamos de manhã
Ou quando nos deitamos, bebidos pela sede de amor.
E eu só me apetece gritar: à merda com toda essa covardia!
O meu irmão asfixia na gaiola dos dias normais,
Então só ele é que é vil? E a gente?
Se não te consigo perdoar, é porque não te mereci.
Deixa de beber: és tão volátil que o álcool não te convém.
Porque luto tanto contra isto?
Os encontros são cada vez mais raros e curtos
Perdi a inocência.
São, no entanto, mais intensos.
Trazem em si a força dos últimos fôlegos.
É disto que se faz a grande literatura, dizem.
Partiu-se qualquer coisa.
Uma máquina só se revela quando deixa de funcionar.
És linda, porque causas sofrimento e também sofres.
Não quero sentir mais.
Quero só dormir e acordar com a alma despida.
Mais leve. Mais nova. Menos flácida.
Matar o veneno da esperança.
Aceitar que ninguém virá e que é preciso cozinhar
Para não morrer de fome. De sede. De frio.
Mas, no final das contas,
Nada disto tem importância.
São precisos dias maus.
Para que possam haver dias bons.
Até amanhã.

domingo, 24 de maio de 2009

Higiene do Assassino



«Gostaria de lhe ter ensinado que, estrangulando Léopoldine, eu lhe poupara a única morte verdadeira, que é o esquecimento. Você considera-me um assassino, quando eu sou um dos raríssimos seres humanos que não matou ninguém. Olhe à sua volta e olhe para si mesma: o mundo está cheio de assassinos, ou seja, de pessoas que esqueceram aqueles a quem dizem ter amado. Esquecer alguém: já pensou no que quer isto dizer? O esquecimento é um gigantesco oceano onde navega um único navio, que é a memória. Para a imensa maioria dos homens, esse navio reduz-se a um miserável bote que mete água à mínima ocasião, e cujo capitão, personagem sem escrúpulos, só pensa em fazer economias. Sabe no que consiste essa ignóbil palavra? Em sacrificar quotidianamente, entre os membros da tripulação, os considerados supérfluos. E sabe quais deles são considerados supérfluos? Os patifes, os maçadores, os cretinos? Nada disso: os que são atirados pela borda fora são os inúteis, aqueles de quem já nos servimos. Esses deram-nos o melhor de si mesmos: que mais nos poderiam, pois, dar? Vá, nada de piedade, limpemos a casa e zás! Atiram-nos da amurada, e o oceano traga-os, implacável. E aí tem, minha cara menina, como se pratica com toda a impunidade o mais banal dos assassínios.»


Certas vezes, dou comigo a pensar que sou uma espécie de deficiente emocional, incapaz de ultrapassar as perdas, incapaz de fazer sentido da minha história. Parece-me que perdi qualquer coisa, talvez a imunidade contra a vida e a dor. Tornei-me humana, demasiado humana, nos ombros não carrego mais o peso etéreo das asas mas a marca do esquecimento. Das punhaladas no meu peito. Porque esquecer é isso: apunhalar o próprio peito na tentativa de expulsar uma ocupação.

Como se esquece alguém a quem um dia demos o significado da rosa e de todas as outras coisas humanas? O esquecimento é uma educação para a tristeza. Recordo um poema de Rainer Maria Rilke que um dia amei e decorei, para o esquecer durante anos.


«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido em infinitamente angustiadas mãos,
e abandonar até o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.

É estranho não mais desejos desejar.
Estranho, passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,tudo o que antes tinha unidade.
Estar morto é laborioso e cheio de recomeços,

até que aos poucosmos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.

Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno,
tal como ao crescernos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto
é tão frequentemente a fonte do feliz amadurecimento - : poderíamos sem eles existir?»

Tinha 16 anos quando aprendi este poema. Pensei que falava da morte, da morte que todo o esquecimento traz. Porque a verdadeira morte é o esquecimento: morremos quando esquecemos alguém e só morremos mesmo quando ninguém estranha mais a não circulação do nosso corpo por aí. Quando nos tornamos apenas restos de um corpo que precisa de uma inscrição para avisar de que aí jaz. Que um dia cá esteve.


Recordo sempre tudo, afinal. A minha história é uma antologia de esquecimentos falhada.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Arquipélagos Aquáticos



«Um homem pode estar doente, mais gravemente, ainda do que este, e ter o seu momento de felicidade, qual seja, tão só o de se sentir como uma ilha deserta que uma ave sobrevoou, de passagem apenas, trazida e levada pelo inconstante vento.»


Somos ilhas à deriva, atravessadas por breves momentos pelo encontro entre dois seres. O resto é apenas a memória desse momento excepcional de luz e beleza. E a procura e esperança na possibilidade de repetição. Recordarei sempre uma tarde de tempestade e trovoada, em que três amigos se abrigaram num toldo perto da escola onde me deseduquei com afinco, e fomos um. Completamente encharcados pela chuva e pelo encontro sublime que ameaçava rasgar os nossos peitos e cortar definitivamente a condição imposta de ilhéu. Era cedo demais então para saber que um dia poderia ser tarde demais. Não conhecíamos as armadilhas do tempo nem a raridade e brevidade dos arquipélagos.


Convosco aprendi também a delícia da palavra amizade e reencontro e sempre que vos olho, relembro e revivo o momento aquático e sublime daquela tarde de tempestade. Quando morrer, se houver um flashback, esse momento estará lá certamente.

Endgame



Gostava de te marcar de alguma maneira. De uma maneira profunda e silenciosa, grave, para que nunca mais te pudesses esquecer do meu nome, do meu cheiro, do bem e do mal que carrego sobre os ombros. Gostava de te marcar de alguma maneira. A quente e a seco, como um ferro em brasa. Sem dó nem piedade, apenas a liberdade sem limites da perversão. Para que não pudesses continuar a tua vida, incólume, com a expressão de quem conhece tudo sobre a vida, as pessoas e está cansado. Gostava de te oferecer a minha imagem como fantasma e alucinação.
Conheço apenas as palavras fogo e incêndio, ferida e cicatriz. E a vontade de te marcar. De alguma maneira. De preferência, de uma maneira grave. Para que a possibilidade de perdão fosse impossível. Marcar-te de um modo irreversível e sem volta. De preferência na carne, que é onde nos doemos mais. Onde me dói mais a tua ausência. Marcar-te. Para que nunca mais parasses de sangrar, para que te tornasses um ser maculado, jamais absolvido. Eternamente condenado comigo. A mim.

Gostava de te marcar. Para que a minha profundidade ficasse eternamente gravada na memória da tua pele. Para que pudéssemos partir juntos e estilhaçados em mil aventuras de fumo e incenso. Perdermo-nos um dentro do outro em insónias incendiárias. Fogos fátuos, por fim regressados a casa, dormindo abraçados durante a queda. Feridos e juntos. Gostava de te marcar. De terminar contigo. Para sempre e de uma vez por todas.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Está tudo certo, Aníbal!


Mais um jantar com o Aníbal, o outro e estou convencida que há um gene qualquer de insanidade grave acentuada na minha família. A explicação genética torna a coisa bastante mais confortável.

«Umas pessoas são mais complicadas, outras menos. E, no fundo, está tudo certo.»

E está mesmo, Aníbal.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Também a morte foi viciada


Nada tiene que ver el dolor con el dolor
nada tiene que ver la desesperación con la desesperación
Las palabras que usamos para designar esas cosas están viciadas
No hay nombres en la zona muda
Allí, según una imagen de uso, viciada espera la muerte a sus nuevos amantes
acicalada hasta la repugnancia, y los médicos
son sus peluqueros, sus manicuros, sus usurarios usuarios
la mezquinan, la dosifican, la domestican, la encarecen
porque esa bestia tufosa es una tremenda devoradora
Nada tiene que ver la muerte con esta imagen de la que me retracto
todas nuestras maneras de referirnos a las cosas están viciada
sy éste no es más que otro modo de viciarlas.

Enrique Lihn, Diario de Muerte

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Blue Times


Que fazer quando todos os pilares em que assentámos o nosso optimismo e verdade caem por terra como marionetas inválidas e abandonadas subitamente? Que fazer quando a vida se torna uma paisagem sem novidade que contemplamos com um distanciamento cansado? Onde ir buscar forças para continuar a alimentar os nossos sonhos?Há momentos em que nos sentimos vazios e ficamos assustados com a profundidade encantada de abismos que nunca suspeitámos tão vertiginosos.


A tristeza é viciante e possui braços reconfortantes, que nos embalam num sono manso. Ficar triste é muito mais fácil do que espernear, do que ripostar. Será que a atitude correcta é aceitar o curso das coisas, sob pena de nos tornarmos conformados, ou será que devemos batermos numa guerrilha contra a agonia dos nossos sonhos, sob pena de nos tornarmos ingénuos inconfessáveis?De tanto olhar as coisas de todos os pontos de vista, em busca de um critério de justiça eficaz, acabei por me perder...




"Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anônima viuvez,


Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.


Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões pra cantar que a vida.


Ah, canta, canta sem razão !

O que em mim sente 'stá pensando.

Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!


Ah, poder ser tu, sendo eu !

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso ! Ó céu !Ó campo ! Ó canção !

A ciência pesa tanto e a vida é tão breve

!Entrai por mim dentro ! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve !

Depois, levando-me, passai !"


Queria ser como a ceifeira de Fernando Pessoa, sempre a cantar, a fluir a vida, escapando eternamente às meandros armadilhados do pensamento, eternamente adiando a morte do instante presente. Mas só aos fins de semana ou ao entardecer. Ao entardecer seria perfeito.

Noites Brancas - Das Memórias de um Sonhador



Porque qualquer trabalho necessita de ser feito com vontade, exige o amor do trabalhador, exige uma entrega total. Haverá, afinal, muita gente que encontrou a sua vocação? […] Então, nos caracteres ansiosos de actividade, mas fracos, femininos, ternos, nasce a pouco e pouco aquilo a que se chama «sonhadorismo», e o homem deixa de ser homem, torna-se numa espécie esquisita… - o sonhador […] A realidade produz no coração do sonhador uma impressão grave, hostil, e então apressa-se a meter-se no seu cantinho secreto e dourado, que na realidade é, não raro, poeirento, desmazelado, desarrumado e porco. A pouco e pouco, o nosso rebelde começa a alienar-se dos interesses comuns e, gradualmente, imperceptivelmente, começa a embotar-se nele o talento de viver na vida real.”

Dostoievski, Crónicas de Petersburgo, 1847


“é verdade que às vezes tenho momentos de uma amargura insuportável, insuportável… Nesses momentos ponho-me a imaginar que nunca serei capaz de começar a ter uma vida verdadeira, porque são momentos em que perco o tacto e o olfacto do verdadeiro, do real; porque chego a amaldiçoar-me a mim próprio; porque, depois das minhas noites fantásticas, vêm os horríveis minutos do desembriagamento! Entretanto, ouço como marulha e gira no turbilhão da vida a multidão humana, ouço, vejo como vivem as pessoas – vivem na realidade; vejo que para elas a vida não é proibida, que a vida delas não se vai desvanecer como um sonho, como uma visão […] A alma já quer e já pede outra coisa! Inutilmente remexe nas cinzas o sonhador, nos seus sonhos antigos, procurando nas cinzas ao menos uma faísca, uma brasa em que sopre e acenda uma chama, para aquecer com o fogo recuperado o coração arrefecido e ressuscitar nele tudo o que dantes lhe era tão querido e lhe tocava a alma, que lhe fazia ferver o sangue, que lhe arrancava lágrimas dos olhos, que tão luxuosamente o iludia! […] Tornar-se-á pálido o teu mundo fantástico, vão esmorecer os teus sonhos, murchar, cair como folhas amarelas das árvores… […] Que triste ficar sozinho, completamente sozinho, sem ter sequer o que lamentar – nada, absolutamente nada, porque todo o perdido era nada, um zero estúpido, nada mais que uma ilusão!”

E que faremos no dia em que não formos mais capazes de sonhar? Com que veneno ou remédio alimentaremos a alma?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A Vida imita a Arte

"O mundo tornou-se triste porque uma boneca esteve uma vez melancólica."

Oscar Wilde

quarta-feira, 29 de abril de 2009

É evidente...


é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer : PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto
a falha grande que é MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença
e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir 1 consultório,
curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras e ideias claras.
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário.
é evidente, enfim, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.


Gonçalo M. Tavares in. " Livro da dança " assirio & alvim

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mais um aforismo do Aníbal, o outro


No fim do almoço com mais de 150 dragões de komodo, que devoraram tudo com as dentaduras ferozes e insaciáveis, uns quantos medronhos mata-bicho e uma sessão de tarot que mais parecia um jogo de póquer: «Para curar um amor, não há melhor que arranjar logo outro. É como a bubedeira». Amo o remate. Especialmente, depois de ter passado três dias ébria.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os pensamentos de Aníbal, o outro


«Quando um indivíduo está na praça, das duas uma: ou não presta ou não sabe o que quer». Isto a propósito das relações amorosas nos tempos de cólera de hoje. E eu que pensava que estava na praça a curtir as vistas. Talvez tenha uma ideia inflacionada de mim ou uma ideia deflacionada da minha solidão. Das duas, uma. Não sei, a ver se penso mais claramente nisto.



«Não existem boas pessoas. O que existem são indivíduos que tiveram sorte e não se depararam com circunstâncias tramadas. Eu não acredito em santos». Este meu tio é qualquer coisa.



Vou por um anúncio no jornal para ver se encontro o homem dos meus sonhos. Só não me consigo decidir em qual: no Correio da Manhã, em que o público é mais massivo e indiferenciado, ou no Público, em que os leitores são mais cultos e pretensiosos.

terça-feira, 21 de abril de 2009

NOITES CROMÁTICAS 1



Picnic no Parque de Alvalade: há muito tempo, que não me deitava na erva a disfrutar do banho da luz da lua. Não percebia os corpos, ouvia apenas as vozes, deliciada e imaginava as rostos dos que não conhecia. Longe do som do mal, dos passos que ecoam fortes e solitários nas igrejas fechadas e húmidas. Percebo a quietude da natureza, das árvores nos passeios, das ervas daninhas nos intervalos das pedras de calçada, à espera de um intervalo nosso para recuperar o que lhe furtámos. Clamo em silêncio por uma oportunidade de vingança do verde.

Alfama: alguns whiskies e vou vendo as caras que conheci no escuro. Caras menos enigmáticas do que as imaginei. Olhos mais alucinados do que supusera.

Regueirão dos Anjos: sento-me ao lado de um homem, vestido com todo o rigor de África. Converso com ele. Fantasio-o um xamã. Diz-me coisas profundas, para ter cuidado com o presente. Lê a desordem na palma da minha mão. Depois sento-me num sofá, ao lado de um espanhol que encontrara noutra noite no LX Factory e que não se recordava da conversa que tínhamos tido. Na outra noite, estava há horas aos beijos com uma rapariga. Quando saí da disco, continuavam cá fora. Na minha ingenuidade não me contive, aproximei-me, pedi desculpa pela interrupção, mas queria saber se aquilo era amor. Queria saber se o amor ainda pode existir nestes tempos. Ele tentou manobrar a questão, a rapariga respondeu de imediato, que não, que não era amor. Ele pareceu desapontado com a resposta. Perguntei então se era sexo. Ela respondeu que não, que era qualquer coisa entre amor e sexo. Afastei-me a pé, a cismar no porquê de não conseguir entender a medianidade, de ter de viver sempre entre absolutos. De não suportar estados intermédios. Ouvi a rapariga gritar e olhei para trás. «Eu estou contigo. Também quero acreditar no amor puro». Continuei sozinha pela minha Lisboa de madrugada, vagueando enleada nos meus pensamentos, com um chapéu por companhia. No Regueirão torno a encontrar este rapaz com outra rapariga. Sento-me a seu lado no sofá e como percebo que não se recorda de mim, falo-lhe como um anjo lhe falaria se pudesse descer até ele. Ele responde com teorias líquidas de afecto, dizendo que o amor acontecerá inevitavelmente. Respondo-lhe que não. Que contra todas as hipóteses, o amor não acontecerá. Saio, arrasto o meu corpo até ao Cais de Sodré. Sinto-me perdida, não quero ir para casa.

Às seis da manhã, vou comer uma bifana com um quilo de carne e alho no café mais xunga do Cais de Sodré, onde o dono faz tudo para me agradar, porque eu sou aquilo que ele chama de «viagra dos pobres». Obviamente tentei negociar sexo oral e quase chegávamos a um acordo - a proposta inicial dele era de dois euros e meio, mas julgo que era capaz de chegar a um preço ainda mais simpático, afinal a negociação é um dos meus fortes.

Depois disto, entro no metro - um erro que cometo raramente, pois não gosto de misturar a minha loucura com o dia normal dos trabalhadores - e começo, juntamente com um amigo a chamar todos de «wankas». E é então que o diálogo mais genial da noite acontece. Um dread de sobrancelhas rapadas diz-me:

- Tu é que tens a culpa disto tudo.
- Disto tudo o quê?
- De tudo. Tudo.
- Mas eu não sou Eva.
- E eu também não sou Adão.

Saio do metro na estação de Roma e olho o metro parado do outro lado da linha. Espero as portas fecharem e chamo a atenção de dois rapazes sentados junto à janela. Levanto a blusa e baixo o soutien. Ainda recordo as suas faces invadidas por uma súbita excitação infantil.

Saí do metro em êxtase e coloquei gentilmente todos os caixotes de lixo na horizontal. Ao virar da esquina, contemplei a rua e era uma visão soberba.

Vejo beleza nisto tudo. E não desculpo quem não veja.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Laboratório do Mal


«Tudo começa no desgosto. É um laboratório para o mal».


Compaixão in Contos, Hélia Correia

O Quarto do Filho


É fácil estarmos juntos quando tudo corre bem.



Mas é precisamente quando tudo corre mal, que precisamos uns dos outros. Eu, que não sou nada católica, recordo o discurso do padre no casamento do meu primo: o amor é diferente da paixão, envolve uma decisão racional, um compromisso de estar ao lado de alguém, partilhar uma vida, alegrias e desgostos. Compromisso que esquecemos todos na era líquida do amor, em que os afectos são voláteis, descartáveis e com prazo de validade.



«Ama-me quando eu menos merecer, pois será então que eu mais precisarei».



O ócio nem sempre significa passividade; ás vezes é preciso parar para repensar, para nos reencontrarmos e podermos voltar ao mundo. É preciso morrer um pouco para poder ir vivendo.




Luz Silenciosa


A paz é mais forte do que o amor.

Aos nossos amores


A maioria de nós só se sente bem quando amada. Mas são tão poucos os que possuem a capacidade de amor, a maioria têm apenas um coração seco.

É neste desiquilíbrio matemático que começam os nossos problemas e os nossos amores.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Deserto dos Tártaros



O maior dos luxos está em dispor de tempo – um tempo próprio. Mas o tempo, como já foi dito, é um material perigoso nas mãos de quem não o sabe manejar. Termina-se a leitura de O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti e sentimos o tempo a escorrer pelos nossos dedos, a urgir na sua finitude. Com angústia, percebo pela primeira vez que também eu vou morrer – racionalmente sei que todos morrermos, mas tinha a esperança de que seja algo que só acontece aos outros, afinal a nossa experiência da morte é sempre através da morte dos outros. E temo o desperdício, o deserto donde nada virá a tempo. Medo de não conseguir calvagar o tempo. Medo de perder tempo.
«Terá ainda tempo, Drogo, para vê-la, ou partirá antes? A porta do quarto palpita com um leve estalido. Talvez seja um sopro de vento, um simples remoinho destas noites irrequietas de Primavera. Ou então, talvez seja ela que entrou, com passo silencioso, e agora aproxima-se da poltrona de Drogo. Fazendo um esforço, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com a mão o colarinho do uniforme, deita mais um olhar para fora da janela, uma olhadela muito breve para arrecadar o seu derradeiro quinhão de estrelas. Depois, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.»

domingo, 8 de março de 2009

Corpo e Imagem - Bragança de Miranda



Só nos resta viver mal ou viver poeticamente.


Eu já me decidi. E tu?

O Mestre - Ana Hatherly



«Ser Mestre é uma profissão ingrata. Eu sou um honesto funcionário que ensina tudo o que está escrito mas não tenho sorte nenhuma com os meus alunos. Procuro incutir-lhes no ânimo a submissão às regras do programa, procuro fazê-los aprender tudo o que vem nos livros e tudo o que está previsto como tudo o que se deve aprender e aceitar sem reserva, mas a maior parte dos meus alunos não compreende isso.
(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)


O Mestre chega à aula irritadíssimo e grita para os discípulos:
- Vocês são todos uns ignorantes!
- Sim, Mestre!
- Vocês não sabem absolutamente nada nem nunca hão-de saber coisa nenhuma!
- Pois não, Mestre!
(…)
- Aprendam o que está escrito, está tudo escrito!
- Mas Mestre, o que nós queremos é cantar, é ver as plantas crescer, as ondas quebrar, as estrelas acender, as nuvens passar, a gente o que quer é sentir os lábios da pessoa amada poisarem no nosso rosto, a gente o que quer é sentir o calor do sol, o fresco da noite, a voz da pessoa amada tinindo nos nossos ouvidos, a ponta dos seus dedos brincando com os nossos cabelos, a gente o que quer é correr à beira do mar, dançar de alegria, comer fruta das árvores, dormir de cansaço, acordar sorrindo, erguer os olhos para dentro e ter alguém a quem amar, algo a louvar, algo a agradecer, algo a dar, alguém a quem agente se dar!...
(…)

- Você não percebe nada de liberdade!
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)

- Talvez, talvez… mas então o nosso pensamento consegue isso?
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»

In-Consequências


Era bom não existir um dia por semana.

Mas, não é para isso que servem os domingos?


Hoje tomei a decisão: em cada semana, escolherei um dia aleatório (não me agrada que já tenham predestinado o dia do meu descanso) e suspendo a minha existência. Nesse dia não falarei nem verei ninguém, porque nesse dia os outros ficarão suspensos, juntamente comigo.

Uma medida de sanidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Boneca de Tripas - Parte 3



Não fui uma criança alegre. Fui uma adolescente fabulosa, entusiasmada e enérgica, mas enquanto criança fui uma menina triste, metida comigo mesma em contas misteriosas. Não sei bem porquê. Gostava de estar sozinha, achava as meninas da minha idade imaturas e não gostava que me despertasse da minha reclusão.


Recordo um Agosto, passado na casa de praia dos meus pais, com a minha tia, o seu marido, os meus primos e o meu irmão mais novo. Os meus pais e o meu irmão mais velho tinham ficado na vida de adultos isenta de longos verões. Eram dias angustiantes e quentes, em que me sentia sufocada por não poder entregar-me aos vícios da solidão, obrigada a conviver em grupo e a encontrar alegria no modo vigente de ser uma criança saudável. Sentia a falta de mim e da minha casa sem os estranhos a mim.


Recordo os dias passados na praia de Odeceixe, como dias de orfandade, de desligamento. Dias inteiros a chapinhar na água de biquíni vermelho. Vermelho órfão. Nem no meu irmão Miguel, o companheiro fiel da minha infância, encontrava o conforto da ligação, o refúgio terno da minha solidão.


Como naquela tarde solarenga em que ambos nos deliciávamos nas travessuras habituais, desafiando a paciência dos deuses com arrogância e eu me magoei ao saltar sobre um ferro. Em cheio no pipi. Uma dor aguda, violenta. E eu a fugir, a escapar-me para um canto para tocar a minha falha. A mão a voltar cheia de sangue. Vermelho vivo. A consciência súbita da natureza violenta, obscena da beleza. Como uma bofetada seca, isolada. A súbita percepção de que era feita de sangue. E a tristeza, breve e marcante, de não poder partilhar com o meu leal companheiro, o meu irmão de sangue, a dor daquela mancha. Vermelho imperfeito.


Uma mão pequena, infantil, manchada de sangue. O tempo apagou a dor, restou apenas essa imagem. Bela, violenta, terna. E uma sensação de condição frágil que me recuso a aceitar até hoje. Mas sei, não esqueci que sou determinada pelo meu sexo e pela minha capacidade de sangrar em silêncio. Anos mais tarde, um amor violento, uma atracção fatal, inebriante, a consumir-me entre lençóis brancos e macios, o sexo a pulsar, a arder no desejo de tocar, de devorar e incorporar o outro no centro da minha falha, um esforço suado para me afogar e naufragar no corpo do outro, os lençóis manchados de vermelho, um vermelho faltante, irreparável, e outra vez, mais uma vez o regresso isolado, com as mãos manchadas de sangue e arrebatamento, os olhos alucinados a tentar entender a perda, o som do coração a rachar,
Quantas vezes pode um coração rachar até se partir?

Uma praça acorda atravessada por um rasto de sangue. A beleza da cor a animar uma manhã branca e gelada. A certeza inquestionável do mal,
Um coração partido não volta a amar, é uma máquina inútil, avariada.

O arrepio perante a violência do crime – rezo a deus, que eu nunca mate alguém, pergunto ao diabo, afinal o que leva um homem a matar outro. Vermelho insano, desvairado. A carne nua, frágil, disposta a ser retalhada. A alma está indefesa, não te pode proteger, fracassou no seu papel de salvação e redenção.

Detesto talhos, o cheiro azedo da carne, a facilidade com que a cortam, manipulam, decepam. Pronta a cozinhar, a ser digerida. Eu, pequena, acocorada a um canto, a perceber que somos apenas sangue, que jamais escaparemos à corrente de sangue que nos liga e separa. A impossibilidade de partilhar a minha dor com o meu irmão, a dor é sempre nossa, não existem palavras para a compreender,
O que eu sei acerca do outro são as palavras da dor dele, a dor, essa é dele e com que ele permanecerá, não há balanças que a pesem.

A vergonha de ser mulher, a obrigação do recato, a minha mãe
Uma menina não mostra o pipi aos meninos.
Mas ele era o meu irmão, irmão leal de sangue, o único que comungou da minha infância e, além disso, agora mostro o pipi a outros, que não sabem a minha infância, que não podem entender a minha dor. Vermelho incomunicável. E talvez que o meu irmão tivesse entendido. Enquanto vivíamos na mesma infância. Enquanto a esperança e a desilusão ainda eram divisíveis. Depois crescemos, impuseram-nos um modo severo de ser adulto e deixámos de nos entender. Não sei bem porquê.

Talvez que o coração tenha começado a rachar antes, mas quando aquele amor louco e gritante começou a colapsar, ia jurar que o ouvi claramente a rachar. Como uma faca de talhante a rasgar o meu peito. Vermelho interior. Pensei que um amor assim não acabava.
Não me disseram que o amor também acaba, não me preparam para deixar de amar. Só para não mostrar o pipi aos rapazes.

Recordo aquela menina triste de cabelo liso-liso, na praia de Odeceixe, a chapinhar na água de uma pequena lagoa, tão pequena como ela. Uma menina que não sabia nadar, que não queria brincar com a prima bruta e estúpida. Queria brincar com o meu irmão, estar em minha casa com os meus pais.
Quantas vezes pode um coração sentir-se só sem se rachar?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Quem me fez, mal?


«Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.

Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.»

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Os gestos que não fizémos e as palavras que não dissémos


«Quando pensava nela, ficava pasmado por ter deixado partir aquela rapariga com o seu violino. Agora, claro, percebia que a proposta abnegada que ela lhe fizera era irrelevante. Tudo o que ela precisava era da certeza do seu amor e de que ele lhe garantisse que não havia pressa, quando tinham a vida inteira pela frente. Amor e paciência – se ao menos ele tivesse possuído os dois ao mesmo tempo – por certo tê-los-iam ajudado aos dois. E então que crianças por nascer teriam tido as suas oportunidades, que menina com uma fita no cabelo se teria tornado a sua filha adorada? É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado. Na praia de Chesil ele poderia ter chamado Florence, poderia ter ido no seu encalço. Não sabia, ou não quis saber que, quando ela fugiu dele, segura na sua angústia de que estava prestes a perdê-lo, ela nunca o amara mais, ou mais desesperadamente, que o som da sua voz teria sido uma libertação, e que ela teria retrocedido. Em vez disso, permaneceu no frio e no silêncio virtuoso do fim daquele dia de Verão, vendo-a caminhar apressada pela praia, com o som do seu avanço penoso abafado pelas pequenas vagas, até se tornar uma mancha indistinta, um ponto a desaparecer contra a imensa estrada de seixos a brilhar na luz pálida do lusco-fusco.»

A MINHA ORAÇÃO


Terei coragem para mudar aquilo que posso mudar,
Serenidade para aceitar o que não posso mudar,
E sabedoria para discernir as duas situações.

CAMPO DE SANGUE


O homem não sabe como gastar os dias. E o tempo por gastar é perigoso. Vai inventando verdades para cada um, para ser conforme ao que os outros esperam dele, sem esperar nada dos dias.


Encontra-se com a ex-mulher e portam-se como amantes. A ex-mulher, Eva, insiste que ninguém muda, que somos sempre os mesmos. Com medo que o tempo a torne igual aos que a desagradam. Insiste também que ele é um caso perdido. Enganam-se porque ambos sabem que não lhes resta outra alternativa senão a dos enganos consentidos. Precisam um do outro para se enganarem. Sobreviveram ao bairro e os sobreviventes nunca são boas pessoas porque senão sucumbiam.

«(…) Eva nunca poderia avaliar o trabalho que ele tinha ao inventar uma verdade para cada pessoa, a calma que era necessária, o controlo, a memória, ele tinha sempre que esperar pelo que precisava de ser dito, nunca se podia antecipar, era um jogo, a carta que sai determina a jogada seguinte, tudo dependia do que Eva perguntasse, cumpria as regras apesar de Eva o ouvir sem dar importância aos detalhes, o mais difícil, o que é inventado tem de ser rigorosamente certo até ao fim, um pequeno erro estraga o trabalho todo, só a vida se permite errar (..), é preciso inventar tudo muito bem para que a voz nunca falhe, é um trabalho árduo fazer com que todos os factos coincidam, um trabalho minucioso que não admite erros, um trapezista sem rede, o perigo estava em todo o lado, em qualquer pessoa, a memória dos outros era um perigo sério, a argúcia outro, isto para não falar no acaso que nunca se pode controlar, Eva estava diante de si e olhava-o como dantes, ainda não sabia, continuava a acreditar na verdade que ele lhe tinha oferecido, a mãe acreditava noutra, a senhoria noutra, cada pessoa que se cruzava com ele podia contar com uma verdade feita à sua medida, haverá melhor forma de amar, apesar de tudo sempre a voz de Eva, és um caso perdido, haverá maior manifestação de amor do que a de não confrontar o ser amado com uma verdade que não deseja (…)».


O homem e a mãe portam-se como estranhos, vendo-se duas ou três vezes por ano. Vêem televisão sem disfarçar o silêncio entre eles. Propositadamente distantes sem terem que disfarçar qualquer proximidade.

Procura a rapariga bonita durante dias pela cidade; tantas vezes a confunde com outras raparigas louras que com o tempo resta apenas uma ideia de beleza que ele continua diariamente a perseguir, certo de que ideia e objecto coincidirião quando a vir. Até que encontra o amor e se porta como apaixonado, quase uma doença, e tenta arrancar o coração de uma rapariga bonita para combater o desespero e a solidão. A beleza não se deixa recordar, roubar, pede que se olhe constantemente, um vício. Até que nos devore. Porque a beleza, aliada à solidão, pode ser um pretexto para se enlouquecer.


«A mosca acaba de ser apanhada na teia da aranha. Debate-se violentamente agitando as asas. Ele sabia que se a mosca fosse para aquele canto seria apanhada na teia da aranha. A mosca não sabia porque não tinha visto as outras moscas que nos dias anteriores tinham caído na armadilha da aranha. Ele conhecia as moscas dos outros dias. Não faz mais do que observar as moscas e a aranha e esperar pelo dia que uma mosca se consiga libertar da teia, ganhar à aranha. Talvez aconteça esse dia no meio dos outros todos iguais.»


Ninguém pode ter visto tudo sem ser igualmente culpado.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A CONDIÇÃO FEMININA NA PONTA DO GARFO


Encontrei em Dorothy Parker uma alma gémea e apaixonei-me pela sua visão ácida do mundo e pelos malabarismos de ironia que faz para a manobrar. E surpresa: ri-me pela primeira vez com um livro! Mas não era um riso fácil, era mais como uma espécie de azia a fazer cócegas no cérebro… ou no céu da boca…


Estes contos são um manual de psicologia feminina. Em OS SEXOS encontramos um casal envolvido numa típica birra de ciúmes da rapariga e apercebemo-nos de somos todas iguais e infantis nos momentos de maior fragilidade. E como manipulamos os nossos parceiros a mentir-nos e a esconder a verdade, para que possamos continuar a fingir que está tudo bem. Porque nos martirizamos mas não queremos conhecer a verdade, tememos sair com as mãos a sangrar.

A VALSA é um excelente retrato da psicologia da mente feminina num registo hilariante, de como fomos treinadas para agradar e sentir em silêncio tudo o que é discordante. “Não quero ser do tipo ultra-sensível, mas não me podem dizer que aquele pontapé não foi premeditado. Freud diz que não há acidentes. Não vivi nenhuma vida de clausura, conheci pares na dança que me estragaram os sapatos e rasgaram o vestido; mas, no que toca a pontapés, sou a Feminilidade Ultrajada. Quando me dão um pontapé na canela, sorrio.


Em O TELEFONEMA temos uma mulher como todas à espera do telefonema de um ex-amante, completamente obcecada em encontrar as suas falhas e culpas. “Acho que nem sabe como me faz sentir. Quem me dera que soubesse, sem ser eu a dizer. Eles não gostam quando lhes dizemos que nos fizeram chorar. Não gostam quando lhes dizemos que estamos infelizes por causa deles. Se o dizemos, pensam que somos possessivas e exigentes. E depois odeiam-nos. Odeiam-nos sempre que dizemos qualquer coisa que pensamos realmente. Temos de estar sempre a fazer joguinhos. Oh, pensava que não tínhamos de o fazer; pensava que isto era tão grandioso que podia dizer o que quisesse. Aposto que não podemos, nunca. Aposto que não há nunca uma coisa suficientemente grandiosa para isso. Oh, se ele telefonasse apenas, não lhe diria que tinha estado triste por causa dele. Eles odeiam gente triste. Eu seria tão meiga e tão alegre que ele não poderia senão gostar de mim. Se ele ao menos telefonasse. Se ele ao menos telefonasse.


Em LOLITA, encontramos a esperança de uma mãe na infelicidade da filha, apesar do seu casamento com um homem rico e atraente. Uma mãe que depende de uma filha frustrada e infeliz para poder brilhar e se sentir mais afortunada.
John Marble e Lolita continuavam na mesma, dizia às amigas. John Marble continuava tão arrasador como havia sido quando chegara pela primeira vez à cidade e Lolita continuava sem ter uma palavra a dizer em seu favor. Embora o décimo aniversário do seu casamento estivesse próximo, ela não conseguia ainda dar forma aos seus vestidos (…). Tinham amigos e recebiam muito agradavelmente e, por vezes, saíam. Bem, sim, pareciam, de facto; pareciam realmente ser felizes. «É mesmo como eu digo à Lolita», dizia Mrs. Ewing. «É mesmo como lhe digo quando lhe escrevo: Sê feliz enquanto puderes.»Porque… Bem, sabem como é. Um homem como John Marble casado com uma rapariga como Lolita! Mas ela sabe que pode sempre vir para cá. Esta casa é o seu lar. Ela pode sempre voltar para a sua mãe.»
Pois Mrs, Ewing não era mulher para abandonar facilmente a esperança.


MR. DURANT é um homem que sacrifica os sentimentos dos outros pela ilusão de que tudo está bem e a sua oportunidade para a felicidade ainda não aconteceu nem se desvaneceu. Para prosseguir animado pela certeza de que haverão sempre outras.
«Mas as crianças», disse ela. «Vão ficar simplesmente…»
«Ora, deixa tudo isso comigo», assegurou-lhe ele. «Disse-lhes que o cão podia ficar, e ainda nunca quebrei uma promessa, pois não? Olha o que vou fazer – espero até que estejam a dormir e depois pego simplesmente no cãozinho e ponho-o na rua. Depois, de manhã, podes dizer-lhe que fugiu durante a noite, vês?»
Ela inclinou a cabeça em sinal de assentimento. O marido deu-lhe uma palmadinha no ombro, na sua seda negra cheirando a luto. A sua paz com o mundo estava mais uma vez intacta, restaurada por esta solução simples da pequena dificuldade. De novo a sua mente se embrulhou na consciência de que tudo estava solucionado, tudo estava pronto para um belo e novo começo. O seu braço estava ainda sobre o ombro da mulher quando reentraram na sala para jantar.


E a tradução de Cecília Rego Pinheiro é excelente, soberba.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Aforismo #2


Quando a mente sofre o corpo grita.

Excelente frase que infelizmente não é minha. The Godfather III.

No final das contas, o acerto pertence sempre ao corpo. Mas deixá-lo pagar se ele estiver a gozar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Boneca de Tripas - Parte 2


Um pensamento que não mata nem morre. O medo, o terror, o pânico. Noite adentro, a mastigar, a ruminar, impedindo os olhos de descansarem. As pálpebras carregadas de ansiolíticos. E o pensamento a martelar, a mastigar incessantemente, roldanas de aço até ao delírio. E eu a querer apenas dormir, fechar os olhos, a tentar cavalgar a onda sem sucesso. A ser engolida pelas palavras que se soltaram dentro da minha cabeça, como notas numa composição insana. Acocorada, debruçada sobre o meu ventre, a desejar, a implorar uma pausa. Esmagada contra a almofada, os vincos da roupa impressos na minha carne.



Liberdade. Quantos comprimidos são precisos para matar o pensamento? O pensamento que me rói do avesso. Sim, exactamento quantos, para que esta porra acabe?



A geometria das paredes alonga-se, o tecto deixou de ser o companheiro vítreo da adolescência eufórica, nele não se projectam mais as esperanças de um futuro mais leve, mais brilhante. Desde que o medo se infiltrou, vísceras adentro sem piedade. Começou a roer em silêncio e apoderou-se de tudo. Medo de ter medo. Um intruso indesejado que se tornou imperador impiedoso.



Um pensamento que não mata nem morre. Vai moendo. Lentamente. Sorrateiramente. Minando o que pode. Um líquido corrosivo. Um sabor a ferrugem e crime na boca. O medo de que a boca se volte para dentro e comece a triturar tudo, os dentes, o estômago, a memória e a dignidade. Olhar para o real e não dar fé nele. Olhar para as paisagens urbanas e apenas o paladar de papel de jornal na minha garganta. Olhar os rostos dos outros e não decifrar neles a minha humanidade.



E o medo a galopar, veloz no meu colo, no meu peito, a trepar pelo pescoço, numa tensão de máquina no meu queixo. Olhar uma mãe e a sua filha e tremer. Leveza e cães. Haverá uma falha, uma brecha no real que me possa acolher? Afinal quantos comprimidos, ao certo, são necessários para matar o pensamento? Fórmula desejada...



O cansaço, a insónia, as olheiras, o suor abafado e condenado. Do outro lado, alguém a batalhar contra o sono, contra a morte certa e urgente. Contra o esquecimento. Os fantasmas brancos da madrugada e a certeza de existirmos sós naquela hora desassossegada. A luz amarela e violenta do candeeiro a insinuar que o mundo acabou e que se esqueceu de nós. De nos vomitar na nossa artificialidade. Cinco da manhã. Agitação. Morangos silvestres sem uma história prestes a ser apagada.



Seis. Sete. Até que tudo se imobiliza, a noite abraça o universo que afinal se resume a um pensamento obsessivo de um, que insite nos bastidores da consciência, sem comparecer ao seu encontro. Uma sereia, morangos silvestres de novo e uma melancia. A minha história a fugir para um disparate qualquer. Ou os comprimidos fazem efeito e adormeço, desmaio, desligo ou passo a ser apenas vestígios de ossos e sangue que um pensamento mastigou a seco. E se não houver espuma do mar? Se não vier o dia seguinte? Se não vierem dias melhores para que possam voltar os dias piores, para que tudo acabe bem para depois ficar tudo mal?



Como desligo isto? Quantos comprimidos afinal? Quantos? Para derrotar a raiz tuberculosa do medo.

Corpo Presente


Vencedor do Man Booker 2007, este livro de Anne Enright é possante, irado e implacável. Cada vez me convenço mais que a escrita das mulheres, desde sempre treinadas para a dor e para o silêncio, consegue ser mais impiedosa. Um dedo afiado na ferida; é isso que Veronica Hegarty faz a si própria depois do suicídio do seu irmão mais próximo. Obriga-se a recordar os traumas de infância onde cada um se tornou um caso perdido, as discórdias de jovens adultos que afastaram a fraternidade de ambos.


«A bebida não era o seu problema, mas acabou por se tornar o seu problema, o que foi um alívio para todos os interessados. «Estou um pouco preocupada com Liam, por andar a beber», portanto, após algum tempo, já ninguém conseguia ouvir nada do que ele dizia.
O que era merecido, pois só dizia merda. O álcool deu cabo dele, como sempre faz. Mas estou a tentar perceber quando foi – quando deixei de me preocupar com ele e comecei a preocupar-me por ele beber


Veronica recorda a descoberta de que Liam era molestado pelo senhorio da avó, o homem que esta rejeitou na sua juventude, que possivelmente também terá molestado a sua mãe e a própria Veronica. Escava no sangue em busca do erro, do mal-entendido onde as vidas e o futuro deles se confundiu. Obriga-se a embater desastrosamente na sua vida.


Até que ponto as nossas famílias disfuncionais (porque todas o são, não fossem elas compostas por pessoas) e os pequenos grandes incidentes, segredos e traumas condicionam a nossa vida de adultos? Seremos sempre eternas crianças em busca de paliativos para curar as cicatrizes dos nossos tímidos começos?


«Olho para as pessoas em fila para pagar e pergunto-me se estarão a ir para casa ou a afastar-se das pessoas que amam. Não há outras viagens. E penso que constituímos refugiados peculiares, a fugir do nosso próprio sangue, ou para junto do nosso próprio sangue; a pulsar para trás e para a frente ao longo das veias fantasmagóricas, que envolvem o mundo numa mixórdia de sangue.»

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Do not go gentle into that good night


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Dylan Thomas

Memória e Delírio



«Los locos van libres por las salas y pasillos o por las habitaciones de los hombres, sin que ello inspire el menor recelo de evasión o desorden. Incluso algunos de ellos, pertenecientes a familias distinguidas, acompañan a las visitas, hacen los honores de la casa. Guardan las más suaves formas de cortesía y buena educación.»

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura é o primeiro romance de António Lobo Antunes que li. O livro, o 14º escrito pelo autor, é composto por 35 capítulos ordenados em 7 partes que se assumem como os 7 dias da criação do mundo. Neste livro que Lobo Antunes classificou como poema, cabe de facto todo o mundo e toda a sua criação, através da viagem interior ziguezagueante entre a memória e a fantasia, empreendida por Maria Clara, numa polifonia de vozes e delírio.

O pai doente nos Cuidados Intensivos serve de pretexto a Maria Clara para ousar entrar em quartos e sótãos proibidos, onde vai recordar a distância do seu pai e fantasiar uma explicação para a ausência deste, onde se vai defrontar com a beleza da irmã que inveja, com a solidão da mãe na cama fria onde o marido não dorme há muitos anos. Lobo Antunes maneja de modo tão inovador a técnica do fluxo de consciência que nos sentimos como o psiquiatra de Maria Clara, tentando descortinar a verdade do delírio, das fantasias que inventámos para gerir melhor a nossa dor e a dor dos outros.

Não é um livro fácil – demorei-me um mês e meio na sua leitura. Todas as palavras são escolhidas a dedo, deliciosas e amargas consoante a circunstância, mas sempre poderosíssimas. A certa altura, podemos até dizer que a escrita de Lobo Antunes se torna penosa pela repetição obsessiva de certas imagens e frases. Mas a vida também é assim, o nosso tempo é marcado pela batuta das nossas obsessões, pelas frustrações que nos venderam, pelas falhas que nos apontaram, pelos afectos que desejámos, pelos polegares no pescoço que nunca se demoraram docemente e nos quais ficámos a cismar precisamente pela sua pressa.

A quase ausência de enredo também não facilita o trabalho do leitor, obrigado a lidar com os delírios de uma menina metida consigo mesma, a perscrutar goivos e freixos, a boina ridícula da avó todas as tardes a caminho do casino do Estoril para apostar mais algumas jóias ou talheres para reaver a riqueza e dignidade de outrora, o passado com cheiro a pobre do pai, os encontros fortuitos da mãe com o motorista no Guincho, a irmã pretendida por todos os homens de rosto enfiado em revistas femininas e telefonemas suspirados. Lobo Antunes disse numa entrevista «Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros». Ou ainda, citando Clarice Lispector, «As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas» e os acontecimentos do quotidiano podem escassear mas dentro de nós há uma roldana imparável, de aço, que vai roendo e mastigando tudo e que desliza às vezes, por engano ou descuido, para nos triturar.

Chegamos ao fim e sabemos que não podemos fugir aos nossos fantasmas, que eles nos vão espiar por detrás dos nossos ombros erguidos, tímidos e inconvenientes. E que a verdade que nos compõe não é só a dos factos, a do real, mas também dos delírios que nos fazem e desfazem. E que raramente podemos confessar a alguém, excepto aos profissionais da mente, sob pena de sermos excluídos da normalidade da vida de todos os dias, reclamada por todos mas onde ninguém habita.

«se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar».


Uma viagem empreendida para recordar a menina que brincava às fadas junto ao lago, que mais tarde dava pontapés nas pedras e odiava todos e que acabou casada com um homem que não suporta o toque e um filho que não reconhece nem lhe apetece, a habitar às escondidas o refúgio da sua meninice e das suas ilusões. Tentando descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa vida, em que a guinada ocorreu e o fracasso começou a devorar a nossa eternidade. Quando, exactamente quando, foi que nos fodemos?

«Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum
(as chaves estão sempre no prato da entrada)
descer as escadas
(não descer pelo elevador, descer as escadas)
até à garagem da cave, ver o fecho eléctrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta auomática subir devagarinho e logo na rua acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direcção da auto-estrada, sem ligar aos painéis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além da pressa de ir-me embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos (…). Parar num desses restaurantes das bombas de gasolina à beira das portagens e comer sem olhar para ninguém, sem reparar em ninguém nem sequer nas crianças que correm entre as mesas e acelerar de novo segurando o volante com força tal como em pequena segurava o guiador da bicicleta (…).


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite (…).

Hoje estava capaz de me ir embora. Metia todo o dinheiro da gaveta no bolso, deixava aqui a mala, os documentos, os sinais de quem sou. Se me perguntarem o que faço responder que não tenho profissão. Sou apenas uma mulher num restaurante das bombas de gasolina à beira de uma portagem, a mastigar calada (…).


Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Boneca de tripas - Parte 1


Dia de Natal e eu fechada na casa-de-banho a sangrar, o sangue escuro, espesso a sair sem parar, a escorregar pelas pernas, o piso da casa de banho ensopado, pontuado por manchas de postas de carne azuis e violetas, eu a desfazer-me numa dor afiada líquida entre as pernas sem sequer…. Um grito de angústia, de socorro, sufocado na manga da camisola de lã grossa que a minha avó me ofereceu no outro natal. No natal em que eu não era, não fui uma menina feia trancada na casa-de-banho a sangrar silenciosamente.


«Como foste capaz, Solange?», a voz severa da figura seca da minha mãe a despertar-me naquela tarde abafada de Agosto em que retirei um a um os peixes raros do meu pai do aquário esverdeado e os coloquei na carpete da sala, junto aos brinquedos gastos noutras tardes solitárias de Verão.


Uma agonia aquática entre as pernas, submersa nos ladrilhos da casa de banho em postas de carne azuis e violetas. Enquanto a minha família ceia reunida na mesa, partilhando doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal. Noite de natal, peixes demoníacos a devorar as minhas vísceras num rodopio de esferas de vidro no meu ventre. Sabres de metal que me atravessam e rasgam a carne.

O medo cortante de que a minha mãe ou a minha tia ou o meu pai descubram a minha ausência e me surpreendam nesta lama de sangue espalhada pelos ladrilhos e

«Como foste capaz, Solange?».


Minutos a fio a assistir ao duelo de escamas contra o algodão da carpete – uma agonia de guelras e bocas escancaradas num som que nunca mais me esqueci e que voltei a ouvir anos depois à beira da cama da minha avó - o cheiro a peixe da morte, quando ninguém sabia que ela morria - é apenas uma gripe, está de cama a ver se se cura – diziam, enquanto eu pressentia, eu sufocava com o cheiro a peixe no quarto da minha avó e olhar de aquário dela em mim, talvez a adivinhar que anos depois, na noite de natal… eu na casa de banho a sangrar, uma dor afiada entre as pernas.

Até que aquela coisa horrorosa sai de dentro de mim, rasgando a carne para se vir espalhar no meio das postas de sangue azuis violetas, as goelas ainda arriscam um choro mas este desmaia, fracassa no embate contra os ladrilhos frios e vermelhos da casa-de-banho do meu crime. E de novo, o barulho das guelras debatendo-se em golfadas de água impossíveis.

Os peixes novamente no aquário, ondulando levemente, os olhos como redomas viscosas a mirarem o vazio e eu a olhá-los, a cismar, extasiada, debruçada sobre o vidro acastanhado num esgar de limos e crueldade. Fascinada mesmo depois da surpresa da minha mãe

«Como foste capaz, Solange?»


Por a dor dos outros não nos poder doer, não passar apenas de uma agonia de guelras encerrada no silêncio das algas de um aquário. Doces e sorrisos abrigados do frio sonolento que assobia nos ciprestes das traseiras do quintal, isolados do lamaçal de sangue de uma casa-de-banho onde não ousam adivinhar que um cordão umbilical é arrancado com os dentes, que podia escapar à descarga do autoclismo, mas… Lá se vai… lá se foi, o quê?

Uma criança entediada por não ter irmãos nem actividades de verão a brincar a inventar o poder demiurgo da vida e da morte, a criar o universo num Agosto distante encerrado em cortinas de tédio, quentes e inimigas. Desta vez não há tempo, apenas a pressa de limpar a mancha, todas as manchas com a esfregona e depois um saco que hei-de atirar cheio de pedras de calçada para o lago do parque, onde um Natal deixei cair, enquanto brincava com a minha prima, a minha fita de cabelo rosa. A minha fita de cabelo rosa que eu adorava perdida no lago de sangue de uma casa de banho na noite de natal.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

D.Juan, o sedutor vítima do seu desejo


JULIETA: Sabes o que eu vejo D. João… cada corpo que se ergue na tua vida é uma cruz assinalando a morte de um pedaço da tua alma… carne branca talhada em pedra tumular a que te agarravas num desespero de náufrago… Tu trazias em ti a essência de Romeu… e no entanto a forma exterior era a de D. João, às apalpadelas, por caminhos ínvios, numa procura febril do rasto de Julieta. Cada mulher era a esperança duma alvorada… a promessa esquiva do possível caminho do encontro com a tua bem-amada… Detinhas-te e caminhavas mais à frente, cheio de mágoa, frustrado na tua eterna pesquisa. E por isso foram muitas.. porque em cada uma delas tu celebraste a momentânea esperança do encontro final. E assim eras cruel e destruías onde passavas… e os homens chamaram-te cínico, ímpio e dissoluto… Eles só viam as ruínas que tu deixavas pelo caminho e anunciavam que a tua presença era mensageira de desgraça… Mas nenhum deles soube ver a profundidade da tua mágoa, nem os teus pés que sangravam no choque de cada pedra em que tropeçavas julgando que era uma flor.