A luxúria, e o vinho, e o mosto tiram o coração.
Oséias 4:11
sexta-feira, 11 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
& Que se fodam

(...) e escrever poemas cheios de honestidades várias e pequenas digitações gramaticais,
com piscadelas de olho ao «real quotidiano»,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 - e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
o stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravaza do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se
ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta vermelha fora
Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo
Foda-se

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.
O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.
Isso eu o quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por
mim até).
....................................................................................
Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu
sendo eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.
Mário Cesariny de Vasconcelos, O Virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
O CHAMADO DA SEREIA

Ontem à noite mais uma insónia fervendo. Nestas noites de tempestade, das duas uma: ou me agarro ao álcool e atravesso a noite com bravura ou fico na cama abraçada a um livro e sobrevivo com ternura. Ontem, escolhi os livros. Trouxe para a cama Os Passos em Volta e Photomaton & Vox. E foi estranho e familiar ao mesmo tempo, como se tivesse saído para afogar a noite.
E depois a certa altura, ultrapassadas as cinco horas, enquanto lia,
«Mandaram-me fazer um electro-encefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa. Eles tinham desconfianças, falavam de estados crepusculares. Divertido. Não havia estados crepusculares, o ritmo alfa ia bem. Cumprimentaram-me muito. «A sua cabeça está firme.» Porreiro, eu tinha uma cabeça firme. Era uma coisa alegre. Encontrei-me ainda algumas vezes com o psicanalista. Nessa altura ele interessava-se pelo Apocalipse (…). Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça firme, um belo ritmo alfa. Então, com a minha firme cabeça, comecei a pensar na morte (…). Gosto da palavra suicídio. A frequência dos is como golpes, as duas sibilantes e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me. Mas bastavam-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais (…). Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas, entrava em todos os bares. Os bêbados formam uma maçonaria. (…). O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. «Merda», disse eu, «tenho uma cabeça firme. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia.» «Bebe», respondeu o amigo. «Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer». Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. «Merda, merda, merda», sibilava baixinho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo nem dá como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.»,
e uma vontade levantou-se dentro de mim, vontade de partir pelas marés, ver cidades, conhecer pessoas, beber muito, alimentar-me de trabalhos precários, ler muito, perder-me em ruas desconhecidas, gozar encontros improváveis e conversas ainda mais improváveis. Vontade de deixar tudo – um tudo que é muito pouco, resume-se apenas aos livros, à tese que tenho de escrever e alguns amigos – e partir pelo mundo afora, que esse sim deverá ser muito.
Tentei manter a calma, disse a mim própria, mais dois anos e vais, cumpres o dever e partes. Mas que fazer com toda esta urgência da viagem? Sinto-me definhar sem o impulso da aventura, andar por uma rua fria e abrir uma porta para um espaço de calor e fumo onde ninguém fala a minha língua, estranhar os rostos porque não são castanhos como os da minha gente. Que fazer?
E depois lembrei-me de um excerto do Moby Dick sobre o navio batido pela tempestade:
«O porto desejaria prestar-lhe socorro; o porto é piedoso; no porto, encontra-se a segurança, o conforto, o lar, a ceia, cobertores fortes, amigos e tudo o mais que provê às nossas necessidades. Mas, em plena tempestade, o porto e a terra representam o maior perigo para esse navio. É preciso evitar qualquer espécie de hospitalidade. Um toque no fundo, ainda que fosse uma simples carícia na quilha, seria o bastante para o quebrar em dois. Portanto larga todo o pano para se afastar da costa; e ao fazer tal, luta contra os próprios ventos que procuram impeli-lo para terra; procura de novo a solidão fustigada do mar; para se salvar lança-se deliberadamente no perigo; o seu único amigo de momento é o seu adversário de sempre.»
E conclui que o porto às vezes pode ser o perigo. Tudo o que é seguro é perigoso: somos educados neste axioma, adubados pela insegurança, mas há o dever, sempre o dever. Enfim, tenho medo. Medo de não partir. De ficar presa nos ventos fortes que porfiam em arrastar-nos na solidez que nos resta para «a costa traiçoeira e escrava». Até lá, fico à margem, evitando carícias na quilha.
E depois a certa altura, ultrapassadas as cinco horas, enquanto lia,
«Mandaram-me fazer um electro-encefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa. Eles tinham desconfianças, falavam de estados crepusculares. Divertido. Não havia estados crepusculares, o ritmo alfa ia bem. Cumprimentaram-me muito. «A sua cabeça está firme.» Porreiro, eu tinha uma cabeça firme. Era uma coisa alegre. Encontrei-me ainda algumas vezes com o psicanalista. Nessa altura ele interessava-se pelo Apocalipse (…). Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça firme, um belo ritmo alfa. Então, com a minha firme cabeça, comecei a pensar na morte (…). Gosto da palavra suicídio. A frequência dos is como golpes, as duas sibilantes e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me. Mas bastavam-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais (…). Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas, entrava em todos os bares. Os bêbados formam uma maçonaria. (…). O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. «Merda», disse eu, «tenho uma cabeça firme. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia.» «Bebe», respondeu o amigo. «Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer». Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. «Merda, merda, merda», sibilava baixinho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo nem dá como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.»,
e uma vontade levantou-se dentro de mim, vontade de partir pelas marés, ver cidades, conhecer pessoas, beber muito, alimentar-me de trabalhos precários, ler muito, perder-me em ruas desconhecidas, gozar encontros improváveis e conversas ainda mais improváveis. Vontade de deixar tudo – um tudo que é muito pouco, resume-se apenas aos livros, à tese que tenho de escrever e alguns amigos – e partir pelo mundo afora, que esse sim deverá ser muito.
Tentei manter a calma, disse a mim própria, mais dois anos e vais, cumpres o dever e partes. Mas que fazer com toda esta urgência da viagem? Sinto-me definhar sem o impulso da aventura, andar por uma rua fria e abrir uma porta para um espaço de calor e fumo onde ninguém fala a minha língua, estranhar os rostos porque não são castanhos como os da minha gente. Que fazer?
E depois lembrei-me de um excerto do Moby Dick sobre o navio batido pela tempestade:
«O porto desejaria prestar-lhe socorro; o porto é piedoso; no porto, encontra-se a segurança, o conforto, o lar, a ceia, cobertores fortes, amigos e tudo o mais que provê às nossas necessidades. Mas, em plena tempestade, o porto e a terra representam o maior perigo para esse navio. É preciso evitar qualquer espécie de hospitalidade. Um toque no fundo, ainda que fosse uma simples carícia na quilha, seria o bastante para o quebrar em dois. Portanto larga todo o pano para se afastar da costa; e ao fazer tal, luta contra os próprios ventos que procuram impeli-lo para terra; procura de novo a solidão fustigada do mar; para se salvar lança-se deliberadamente no perigo; o seu único amigo de momento é o seu adversário de sempre.»
E conclui que o porto às vezes pode ser o perigo. Tudo o que é seguro é perigoso: somos educados neste axioma, adubados pela insegurança, mas há o dever, sempre o dever. Enfim, tenho medo. Medo de não partir. De ficar presa nos ventos fortes que porfiam em arrastar-nos na solidez que nos resta para «a costa traiçoeira e escrava». Até lá, fico à margem, evitando carícias na quilha.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
A IRA É A COISA MAIS FEMININA QUE TRAGO EM MIM

«Um homem só precisa da força para sair de casa e comprar um prego e uma corda. É tudo o que precisa para se enforcar. Esta é a base de toda a esperança.»
«Tanto amor para morrermos tão sozinhos.»
Depois do fracasso do amor, já que ninguém me pode amar, já que não posso ser amada: PUTA OU MORTE!
«Jamais um homem superará em beleza uma mulher irada.»
Angelica Lidell, La Casa de la Fuerza
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
A POESIA É VERTICAL

POETRY IS VERTICAL
________________________________
On a été trop horizontal, j'ai
envie d'étre vertical. -- Léon Paul Fargue.
In a world ruled by the hypnosis of positivism, we proclaim the autonomy of the poetic vision, the hegemony of the inner life over the outer life.
We reject the postulate that the creative personality is a mere factor in the pragmatic conception of progress, and that its function is the delineation of a vitalistic world.
We are against the renewal of the classical ideal, because it inevitably leads to a decorative reactionary conformity to a factitious sense of harmony, to the sterilisation of the living imagination.
We believe that the orphic forces should be guarded from deterioration, no matter what social system ultimately is triumphant.
Esthetic will is not the first law. It is in the immediacy of the ecstatic revelation, in the a-logical movement of the psyche, in the organic rhythm of the vision that the creative art occurs.
The reality of depth can be conquered by a voluntary mediumistic conjuration, by a stupor which proceeds from the irrational to a world beyond a world.
The transcendental 'I' with its multiple stratifications reaching back millions of years is related to the entire history of mankind, past and present, and is brought to the surface with the hallucinatory irruption of images in the dream, the daydream, the mystic-gnostic trance, and even the psychiatric condition.
The final disintegration of the 'I' in the creative act is made possible by the use of a language which is a mantic instrument, and which does not hesitate to adopt a revolutionary attitude toward word and syntax, going even so far as to invent a hermetic language, if necessary.
Poetry builds a nexus between the 'I' and the 'you' by leading the emotions of the sunken, telluric depths upward toward the illumination of a collective reality and a totalistic universe.
The synthesis of a true collectivism is made possible by a community of spirits who aim at the construction of a new mythological reality.
Hans Arp, Samuel Beckett,
Carl Einstein, Eugene Jolas,
Thomas McGreevy, Georges
Pelorson, Theo Rutra, James
J. Sweeney, Ronald Symond
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
CARTA DE AMOR AO CAIS DE SODRÉ

O mar estava bravo e os barcos não andavam. Aportados no cais, pareciam botas desoladas sem pés que as levassem. Os marinheiros debandavam como aves eufóricas de negras asas, em busca de carne que os alimentasse nos dias de encalho.
Durante anos encontraram-se de quando em quando nos bares que asfaltavam o cais. Ela sempre vestida de homem e com um sorriso cru de taberna. Ele mais discreto na sua crueldade, mas com o mesmo vazio alojado nas entranhas. Olhavam-se brevemente nas noites em que se cruzavam. Tinham olhos escuros marejados de desgostos. Conheciam-se de nome pelas lendas de mares travessos que haviam cruzado. Nunca tinham partilhado navio ou travessia, mas sabiam que tinham galopado as mesmas tempestades marinhas, ainda que em águas opostas. Tinham cavalgado as mesmas ondas de inquietação, sido arrastados por marés de esperança inférteis e dedicado os seus melhores anos ao apelo dos mares desconhecidos.
Os outros marinheiros não ousavam referir um nome de um ao outro. Sabiam que havia rivalidade pelas lendas que os precediam e não queriam apoquentar nenhum dos dois. Uns diziam que se tratava de orgulho, outros de medo. E era um pouco dos dois. Raramente dois seres idênticos em força e dor se encontram no mesmo cais. Parados e obrigados à sofreguidão dos dias em terra. Eles eram inimigos e conheciam a força da dor do outro sem os acessórios da palavra. Adivinhavam-se pelo cheiro. Sentiam-se ameaçados.
Partilhavam a mesma maldição: a noite. A noite, essa feiticeira que despe os rostos da identidade e lhes estampa desespero e solidão, eram o porto de ambos. E aí se encontraram durante anos. Suspeitavam um do outro porque conheciam a noite como amantes. E temiam apenas uma coisa: as aflições diurnas. Por isso, mantinham-se nocturnos com obstinação e não deixavam cair a máscara que lhes amarelecia o sorriso e turvava o pensamento.
Um dia as coisas mudaram. Ventos travessos obrigaram os barcos a atracarem por mais tempo que o desejado. O tempo é o maior inimigo dos marinheiros, derrota-os na sua impaciência e arrasta-os para o turbilhão do vício. Ele e ela aportaram no cais vindo de mares contrários – ela do Mar Vermelho, ele do Mar Morto. Traziam os corpos fustigados por tormentas de meses e chegaram quase despidos de desejo. Ambos tinham perdido mais de metade das suas tripulações em caprichos aquáticos e o sangue fervia-lhes nas veias com ardor etílico.
Ela, como mulher, foi a primeira a julgar da necessidade de tréguas: uma aliança era precisa para que o seu barco pudesse navegar novamente. Ou talvez fosse um erro de julgamento, coisa comum nas mulheres, que se deixam arrastar facilmente pelas águas da fantasia. De qualquer dos modos, ela não gastou muito tempo antes de se dirigir a ele, propondo aliança rápida. Trazia nos ossos cansaço e as vértebras corroídas pela desilusão e já não conseguia pensar direito. Precisava de um companheiro com quem partilhar responsabilidades e decisões sobre ventos, marés, mapas e astrolábios. Falou-lhe com as palavras que os homens usam em terra, os sons mais traiçoeiros para as gentes do mar.
Ele ouviu mas manteve-se silencioso e ofensivo, não desvendando nenhuma solução para os barcos atracados. Recusou a aliança. Arrogante e forte. Ela, ofendida, subiu arfante as ruelas até à pensão onde pernoitava. Lançou então aos quatro ventos, que ambos conheciam tão profundamente, um grito de guerra. Que também podia ter sido um grito de amor, não fosse a probabilidade do desencontro tão grande.
Era uma pensão de prostitutas, único local onde uma mulher marinheira se podia albergar e descansar, embora ela conservasse a sua adaga debaixo da almofada. A pensão, que tanto amara no passado, pelo desespero que gritava nas suas paredes, pareceu-lhe acabada. As prostitutas pareciam collants depositadas nos sofás da memória, entediadas na espera dos clientes que não mais regressavam. É o fim de uma época: pensou. Tudo acaba e ainda bem que assim é, para que algo de novo possa começar: tranquilizou-se.
No quarto abafado, despiu as roupas salgadas que trazia e vestiu-se de mulher. Roupas antigas que há muito não envergava: um corpete de veludo vermelho escuro e uma saia coçada rodada como um carrossel. Umas botinas negras de verniz que lhe apertavam os pés. Pintou os lábios de vermelho vivo e empoeirou as faces de rouge. Antes de fechar a porta, viu o seu reflexo breve no espelho e soube-se ridícula. Mas era preciso declarar guerra àquele marinheiro insolente que ousara ofendê-la numa recusa obstinada de farol em noite de nevoeiro. Pensou: com modos de mulher será mais fácil atraí-lo para a minha armadilha.
Galopou com os pés sufocados nas botinas estreitas por tabernas e casas nocturnas até o encontrar num prostíbulo a um canto acanhado. Acompanhado por várias mulheres, todas com modos de menina, modos que ela escolhera desaprender, ele olhou-a com o desprezo do adversário de um duelo, que zomba das armas escolhidas pelo ofendido.
Ela tornou a trepar as ruelas que levavam até à pensão, arrastando com fúria o seu corpo de réptil. Fincava os passos nas calçadas negras com toda a força que dispunha mas sentia-se fraca. Derrotada na sua esperança. Compreendia agora que fora ofendida, gravemente ofendida, não por aquele marinheiro bravo com o olhar frio da faca, mas pelos anos. Derrotada pela mulher que não soubera ser todos esses anos.
No quarto, livrou-se apressadamente das roupas antiquadas. Chorou. Era uma mulher ridícula. Fugira disso durante anos como o diabo foge da cruz. Mas não conseguira escapar e chorava agora um choro de raiva, de menina mimada estragada pelo desgosto, de mulher humilhada pela esperança. Pela fome de amor que nunca se saciara.
Embarcara por despeito. Por não querer ser mulher. Ainda adolescente. Tinha um corpo muito frágil e um coração de vidro. Pensou: a vida no mar fará de mim um ser rijo e não torno a sofrer. Divertira-se muito nos primeiros anos. Conhecera muitas cidades longínquas, velejara pelos mares com sortes de principiante. Vivera várias histórias de amores loucos e passageiros em cada porto, bebendo e fumando as noites com toda a avidez do seu corpo jovem.
Regressara sempre ao navio com a certeza da viagem. A última viagem, porém, tinha sido muito morosa e quase perdera a vida nela. No convés, os ventos violentos quase tinham quebrado a sua espinha. Metade dos seus morreram nessa noite de tormenta, os seus corpos sacudidos pelas bordas do navio. Quando alcançou o porto, pensou que não merecia a vida que lhe tinha sobrevivido. Passou cabisbaixa pelos bares e trepou as vielas até à pensão reles. No quarto sem janela, tomou banho. Era preciso expulsar o sal daquele corpo.
Esfregou a pele com um esfregão de aço, numa febre de inocência. Queria acreditar mas já não sabia como. Queria abandonar adagas e cutelos mas a frieza do metal tinha-se alojado nos seus gestos. Queria continuar guerreira mas também queria descansar e submeter-se. Queria ser mulher mas tinha perdido o caminho de volta para a doçura feminina e materna. Estava perdida.
Olhou a sua imagem nua no espelho e usou o olhar frio que tantas vezes usara para manejar cabos apertados ou avaliar presas masculinas. Estava diferente. Olhou-se demoradamente com o olhar inquisidor do detective que procura a pista que denuncia o invasor ou criminoso. Que mudara em si? O seu corpo avolumara-se com as viagens, adquirira uma rudeza que lhe agradava porque afastara a fragilidade da infância. Mas não era isso. Seriam as rugas, traços de intensidade que sulcavam o rosto como ondas? Não, também não.
Extenuada pela busca, adormeceu em frente ao espelho, nua no seu desamparo. Caiu embalada pela vertigem de um sono sem sonhos. Quando acordou, olhou-se novamente e soube o que era. Eram os seus olhos. Estavam baços, embaciados com o fundo dos mares. Tinham perdido o brilho da juventude. Estou velha: pensou. Mais velha do que a idade que trago escrita nas mãos. O tempo, o tempo enganou-me. Não trouxe a paz que eu ansiava. E continuo a ter um coração de vidro.
Depois desse dia, nunca mais ninguém viu essa mulher marinheira que velejara oceanos amargos e saqueara bares e homens com o seu sorriso lendário de pirata. Diz a lenda que se tornou fiscal dos caminhos-de-ferro, trocando as noites pelos dias e o mar pela terra. E que usou até ao fim dos seus dias um fato cinzento e impessoal que combinava na perfeição com os seus olhos.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
UMA NOITE ENTRE OS CAVALOS

Encontrei mais um livro para endurecer o meu coração com a Beleza: Uma Noite entre os Cavalos de Djuna Barnes.
«- A vida – disse ela – é porca; e assustadora também. Há nela de tudo: crime, sofrimento, beleza, doença… morte. Sabias?
A miúda respondeu: - Sabia.
- E como é que sabes?
A miúda voltou a responder: - Não sei.
- Como vês – continuou Madame von Bartmann – não sabes nada! Tens de aprender tudo, e depois começar. Tens de ter uma grande compreensão, ou darás uma queda. Os cavalos tiram-te rapidamente do perigo; os comboios fazem-te voltar a ele. As pinturas dão um choque mortal ao coração… ficam penduradas por cima de um homem de quem gostaste e talvez tenha sido assassinado na cama. As flores fazem do coração um túmulo porque há dentro delas uma criança sepultada. A música incita ao terror da repetição. Os cruzamentos das estradas são os votos dos amantes; e as tabernas para os ladrões. A contemplação leva ao preconceito; e as camas são campos onde os bebés travam uma batalha perdida. Sabias tudo isto?
Nenhuma resposta chegou do escuro.
- O homem apodrece logo à partida - continuou Madame von Bartmann. – Apodrecido de virtude e vício. Ambos o filam pela garganta e o reduzem a nada; e Deus é a luz que o insecto mortal acende para uso próprio e com ela morrer. Isto é muito sensato, mas não deve equivocar-nos. Não quero que olhes do alto para uma puta qualquer de uma rua qualquer; reza, cai na lama, e desiste, mas sem preconceitos. Um assassino pode ter menos preconceitos do que um santo; mas às vezes mais vale ser santo. Não sintas orgulho com a tua indiferença, se caíres nas garras da indiferença; e não te enganes – disse ela – sobre o valor das tuas paixões; não passam do condimento de todo este horror. Gostaria... – Não terminou o que ia dizer mas tirou calmamente o lenço de bolso e enxugou os olhos em silêncio.
- De quê? – A voz da miúda saía das trevas.
Madame von Bartmann tremia. – Estás a pensar? – perguntou.
- Não – respondeu a miúda.
- Então pensa – disse Madame von Bartmann com uma voz forte, voltando-se para ela. – Pensa em tudo, o bom, o mau, o indiferente; em tudo, e faz tudo, tudo! Antes de morrer, tenta saber o que és. E – disse ela, inclinando a cabeça para trás e engolindo em seco, com os olhos fechados – quando fores uma boa mulher vem ter comigo.»
Irei, Madame von Bartmann.
domingo, 23 de janeiro de 2011
SILÊNCIO PARA 4

«(…)
- Eu não posso viver sem amor.
- Nem nos intervalos?
- Sei lá.
- Precisas de ocupar o tempo livre. Tens de dar pousio ao amor, de te esqueceres que o amor é coisa existente, tens de dar intervalo, precisas de ternura, precisas, eu percebo, é errado ir em busca dessa ternura, ela aparece, não te suicides com o primeiro que aparece, é mal que vem contra ti, dá tempo ao amor, é a tua ânsia de precipício, de cair sempre para a frente, sem ver o que vai nos lados.
- Sou assim.
- É uma resposta extremamente conformista. É uma resposta.
- É.
- Quero o teu bem, espera, alguém aparece no momento mais imprevisível, pessoa que muda o sentido às coisas, espera, não arrastes a carcaça para a fenda do mistério, arrastas também um eu, um outro eu que pode estar inocente, nem sequer percebe o que vai acontecendo contigo, não quero dizer alma. Hem. É diferente.
- Preciso de ternura, cada um sabe daquilo de que tem necessidade.
- Evidente, há uma teimosia que não está de acordo com a tua inteligência, o carro à frente dos bois. Calma, minha filha, o mundo tem uma ordem no caos.»
A HISTÓRIA DE UM SONHO

« (…) Consegui ver que te erguiam uma cruz, não naquele pátio por baixo, mas no ilimitado prado florido, onde me encontrava reclinada nos braços do meu amante, com todos os outros casais. Conseguia divisar-te vagueando só e sem guarda por vielas antigas, contudo, sabia que o teu caminho estava traçado e não havia fuga possível. Caminhavas agora através do atalho da floresta. Eu aguardava-te expectante, mas sem especial simpatia. O teu corpo estava coberto de vergões, mas já não sangrava. À medida que subias, o atalho alargava-se e a floresta recuava de ambos os lados. Encontravas-te agora ao fundo, no prado, a uma distância inacreditavelmente grande. No entanto, saudaste-me com um olhar sorridente, parecendo quereres dizer-me que havias satisfeito os meus desejos e que trazias tudo o que precisava: roupa, sapatos, jóias. Mas eu considerei a tua conduta extremamente grotesca e absurda e senti-me tentada a rir na tua cara com desdém – tudo porque, por fidelidade a mim, havias recusado desposar a princesa, suportado torturas, e agora cambaleavas até aqui para sofreres uma morte atroz. Corri para ti e também apressaste o passo – comecei a levitar e tu flutuavas no ar. Mas, de súbito, perdemo-nos um do outro e dei-me conta que nos cruzáramos sem nos encontrarmos. Então, desejei que ao menos ouvisses as minhas risadas enquanto te pregavam na cruz. Desatei a rir tão alto e tão estridentemente quanto podia. Era esse o riso, Fridolin, que soltava quando acordei.»
O MAR, O AMOR

Duras afirmou uma vez que, se não houvesse o amor e o mar, não haveria romances. É isso que temos em Olhos Azuis, Cabelos Negros: o mar, um casal, silêncio e desespero.
«Foi na estrada nacional de madrugada depois do segundo café ter fechado que ele disse que procurava uma mulher jovem para dormir perto dele durante algum tempo, porque tinha medo da loucura. Disse que queria pagar a essa mulher, era essa a sua ideia, que era preciso pagar às mulheres para elas impedirem os homens de morrer, de enlouquecer. Tinha chorado mais, tão completamente extenuado de cansaço como estava. O Verão metia-lhe medo.»
O homem nunca fez amor com uma mulher: repugna-lhe a «coisa interior».
«Ela diz: Essa dificuldade que sente, sempre esteve aqui na minha vida, inscrita no mais profundo do meu prazer com os outros homens.
Ele pergunta-lhe de que fala ela. Ela fala dessa impossibilidade, dessa repugnância que ela lhe inspira. Diz-lhe que partilha com ele essa repugnância que sente por si própria. E depois diz que não, não é a repugnância. A repugnância é inventada.»
«Ela olha à sua volta no quarto, põe-se a chorar. Por causa daquele amor, diz ela. Pára outra vez. Diz que é terrível viver como eles vivem (…) Que a viver como eles vivem, mais vale morrer. Volta a parar em frente dele, olha-o, chora, repete: Por causa deste amor que se apoderou de tudo e que é impossível.
Ela pára. Ele ouviu-a. Não se ri. Pergunta:
- Está a falar de quê?
Ela sente-se confusa, diz:
- Falei sem pensar, estou muito cansada.
Diz: Nunca me coloquei essa questão.
Ele voltou a levantar-se. Ergue-a encostado a ele. Beija-lhe a boca. O desejo, naquela derrota, fá-los tremer aos dois.
Separam-se. Ele diz:
- Eu não sabia a este ponto.
(…)
O beijo transformou-se no prazer. Ocorreu. Dominou a morte, o horror da ideia. Não veio depois nenhum outro beijo. Ocupa o desejo inteiro, é, por si só, o seu deserto e a sua imensidade, o seu espírito e o seu corpo.»
« - Talvez o amor possa viver-se assim de uma maneira horrível.»
MULHERES - CHARLES BUKOWSKI

«A arte é o meu medo. É dele que eu a extraio.»
«Eu era sentimental em muitas coisas: a uns sapatos de mulher sob a cama; a um gancho abandonado sobre a cómoda; ao modo de dizer «vou fazer chichi..»; fitas de cabelo; descer a avenida com elas à uma e meia da tarde, apenas duas pessoas a caminhar; as longas noites em que se bebe, se fuma e se conversa; as discussões; pensar no suicídio; comermos juntos e sentirmo-nos bem; as brincadeiras e os risos absurdos; sentir milagres no ar; estarmos juntos dentro de um carro estacionado; comparar antigos amores às três da manhã; dizerem-nos que ressonamos, ouvir o ressonar dela; mães, filhas, filhos, gatos, cães; por vezes a morte, por vezes o divórcio, mas continuar sempre; ler o jornal sozinho num quiosque e sentir náuseas por ela estar casada com um dentista com um Q.I. de 95; corridas de cavalos, os parques, ou piqueniques no parque; até cadeias; os sinistros amigos dela, os nossos amigos sinistros; os nossos copos e as danças dela; os teus engates; os engates dela; os comprimidos dela, as tuas fodas por fora e as dela; dormir juntos…» (pag. 227/228).
«Mulheres: gostava da cor das suas roupas; do modo como andavam; a crueldade de alguns rostos; de quando em quando, a beleza quase perfeita dum rosto, encantadoramente feminino. Elas tinham uma vantagem sobre nós: planeavam muito melhor a sua vida, eram muito mais organizadas. Enquanto os homens viam os jogos de futebol, bebiam uma cerveja ou jogavam bowling, elas, as mulheres, pensavam em nós, concentravam-se, perscrutavam, decidiam – aceitar-nos, rejeitar-nos, mudar-nos, matar-nos ou simplesmente viverem connosco. No fim de contas, isto tinha pouca importância; não interessava o que elas faziam, nós acabávamos na solidão e na loucura.» (pag. 241/242).
TRINTA ANOS - INGEBORG BACHMANN

Um homem entra na casa dos trinta. Um Junho chuvoso. «Lança a rede-recordação, lança-a sobre si próprio e apanha-se a si mesmo, captor e presa simultaneamente, sobre o limiar do tempo, o limiar do espaço, para ver quem ele foi e em quem ele se tornou.» Até aqui viveu sem mal, sem definição. Sem reflexão, sem medo. «Agora sabe que também ele caiu na armadilha.»
Junho: Calor. O desassossego apodera-se dele. Tem de partir, deixar o seu passado. Tem de ser livre e abandonar tudo. Vai para Roma, separar-se das pessoas e não se juntar a outros. Já não pode viver entre os homens. «Quando se permanece durante bastante tempo num local, acaba-se por tomar muitas formas, por deixar-se ir pelo que se diz e tem-se cada vez menos direito à sua própria pessoa. Por isso ele quer, a partir de agora e para sempre, mostrar-se sob a sua própria forma.»
Em Roma, não consegue libertar-se, começar tudo de novo. Este ano começa mal. A traição do amigo. O reencontro com um amor antigo e percebe que a cólera dela na altura da separação foi fingida, que ele se sentiu culpado porque ela o tinha simplesmente deixado acreditar nisso. «Baixinho e energicamente, ele expele a culpa como o ar que expira, e pensa: fui mal aconselhado no meu desespero. Mas estou a ser ainda mais mal aconselhado pela minha lucidez. Tenho frio. Preferia ter conservado a minha culpabilidade.
A destruição está em marcha. Poderei vir a falar em felicidade, se este ano não me matar.»
Setembro: «Quem sou eu, então, neste Setembro dourado, se de mim arrancar tudo o que de mim fizeram?
(…)
Se eu não tivesse mergulhado nos livros, em histórias e lendas, nos jornais, em notícias, se tudo o que é comunicável não tivesse crescido dentro de mim, eu seria um nada, uma junção de acontecimentos incompreendidos.
(…)
Não mereço o facto de ver, de ouvir, mas os meus sentimentos, esses mereço-os verdadeiramente, essas garças por sobre brancas praias, esses viajantes da noite, vagabundos famintos que levam o meu coração para a estrada.»
O Inverno: gelado e húmido. No momento em que se sentia tranquilo e feliz, depois de ter passado por todas as experiências possíveis e imaginárias, chega o amor inacreditável. Deixa de ser senhor de si próprio e a sua carne arrasta-o para o inferno. O amor torna-se a vingança sobre tudo o que há de suportável sobre a terra. Porque o amor é insuportável.
«Amava. Estava liberto de tudo, de toda a individualidade, pensamento ou objectivo, naquela catástrofe em que não existia o bem nem o mal, a justiça ou a injustiça, e estava certo de que não havia nenhuma saída digna desse nome para aquela situação.»
Faz as malas pois compreende que mesmo a primeira hora daquele amor foi excessivamente. Gasta as últimas forças nessa fuga.
Mas não vai longe. Tudo se desmorona com a partida. Fica sem dinheiro. Dorme ao relento. Sente que o fim se aproxima. Pela primeira vez quase escreve a verdade e pede dinheiro ao seu pai. Sente-se mal porque tem quase trinta anos e sempre se desenvencilhou sozinho. O dinheiro chega rápido. Volta para Viena – mas sem ousar pronunciar «para casa». reencontra amigos: para trás, ou ainda mato alguém! Mantenham as distâncias!
Torna a fazer as malas à pressa. No comboio, um companheiro de viagem fala sobre quantos por cento de loucos se tomam por Napoleão, quantos pelo último Kaiser, por Lindberg, Hitler ou Ghandi. Isto desperta-lhe um certo interesse e pergunta então se uma pessoa se poderia tomar por si própria sem danos de maior e se isso não seria também uma forma de loucura.
Pensa em desaparecer sem deixar rasto. Ou ir-se embora com ela, cujo nome ele nunca ousa pronunciar. Mas não consegue chegar a nenhuma conclusão.
«Quer fazer frente e não quer fazer frente. Tende a compreender a fraqueza, o erro, a estupidez, e quer combatê-los, denunciá-los na praça pública. Tolera e não tolera. Odeia e não odeia. Não consegue tolerar e não consegue odiar.
Também é um bom motivo para se desaparecer.»
Entretanto, chega a Primavera. Decide submeter-se. Aceita um trabalho. Antes, decide fazer uma viagem sem pressas. Em Génova, apanha uma boleia para Milão, com um homem da sua idade que acelera muito. Diz que tem de chegar ao centro antes da meia-noite. Ao lado do condutor, sente-se mais sossegado e com uma estranha sensação de bem-estar, mas gostaria de dizer alguma coisa e de sentir poisados nele os olhos claros do condutor. Quer perguntar-lhe se aquele ano iria ser difícil também para ele e o que se havia de fazer, o que se havia de pensar daquilo tudo. «Começou a imaginar este diálogo com o homem, enquanto eram levados através da noite, grande noite em que todas as coisas pareciam grandes e estranhas, como dois meninos ajuizados sentados no banco da frente, juntos para ouvirem uma lição. À frente deles surgiu um camião, aproximaram-se dele rapidamente, desviaram-se para o ultrapassar mas, quando estavam lado a lado, o camião desviou-se também na mesma direcção para se meter por um atalho. Voaram pelo ar alguns metros e foram contra um muro.»
Aquele ano quebrou-lhe os ossos. Está deitado na clínica e não conta os dias que faltam até lhe ser tirada a couraça de gesso debaixo da qual promete curar-se. O desconhecido teve morte imediata.
Maio já chegou. Todos os dias as flores do seu quarto são substituídas por flores frescas e mais coloridas. «Já não duvida da sua juventude. Sentira-se um velho de cem anos, sim, mas quando era muito mais novo, quando os seus pensamentos e o corpo o inquietavam demasiado.
Muito jovem, desejara uma morte precoce, não quisera chegar a fazer trinta anos. Mas agora desejava a vida. Outrora, só lhe tinham balançado na cabeça os sinais de pontuação para aquele mundo, mas agora vinham-lhe à mente as primeiras frases com que ele lhe surgia. Outrora, tinha achado que podia pensar tudo até ao fim, e não tinha reparado sequer que dava apenas os primeiros passos numa realidade que não se deixava pensar até ao fim com essa facilidade, e que muito ainda lhe ocultava. Durante muito tempo não soubera já no que acreditar, se é que não pensava mesmo ser uma vergonha acreditar nalguma coisa. Agora começava a acreditar em si próprio, quando fazia alguma coisa ou se expressava. Começa a ter confiança em si mesmo. Confia também nas coisas que não precisam de uma prova, nos poros da sua pele, no sabor salgado do mar, no ar cheirando a frutos, e em tudo o que tem algo de particular.»
Está vivo. Em breve estará curado. Em breve completará 30 anos.
«Digo-te: levanta-te e caminha! Não tens nenhum osso partido.»
ORLANDO

Um exercício incrível de imaginação que nos maravilha e inquieta a cada instante: «como é possível que esta história tenha sido imaginado por uma mente, uma mente apenas?».
Concluímos no final da leitura, algo extenuadas pelo ritmo eufórico e diálogo irónico permanente que, embora o livro tenha sido escrito por uma pessoa apenas, essa pessoa era habitada por várias. Uma pessoa, afinal, como as outras, mas com um ouvido extremamente amplificado para sintonizar a multiplicidade de vozes que constitui um Eu.
A desgraça final da autora terá vindo daí, dessa antena apuradíssima que lhe permitia amplificar cada voz, até à loucura. A beleza das suas obras também: veio desse esforço sobre-humano para domar as vozes e integrá-las numa voz, evitando constantemente o colapso. Colocar em palco, no papel, todas as personagens que nos fazem e desfazem.
E é isto que Orlando é, muitas coisas: uma biografia, uma ficção histórica, exorcismo de demónios, crítica feminista, testamento de uma ambição, uma obra desumana e genial e, ainda «a maior carta de amor da literatura», como um crítico feliz disse. De Virginia para Vita. Mas sobretudo, de Virginia para Virginia.
“«O quê, então? Quem?», dizia. «Trinta e seis anos; ao volante de um automóvel; mulher. Sim, mas também um milhão de outras coisas mais. Uma snobe – será que o sou? A jarreteira, no salão? Os leopardos? Os meus antepassados? Se tenho orgulho neles? Tenho, pois! Ávida, sensual, viciosa? Serei mesmo? (aqui entrou em cena um novo eu). Não me importo nada de o ser. Honesta? Julgo que sim. Generosa? Ora isso não conta (aqui entrou em cena um novo eu). Deitada na cama a manhã inteira, entre belos lençóis de linho, a ouvir os pombos; baixela de prata; vinho; criadas; lacaios. Mimada? Talvez. Demasiadas coisas que não servem para nada. Daí os meus livros (aqui citou cinquenta títulos clássicos; aludindo, julgamos nós, às românticas obras de juventude que destruíra). Fluente, desenvolta, romântica. Mas (aqui entrou em cena um novo eu) também uma inepta, uma trapalhona. Mais desastrada que eu não há. E … e … (aqui hesitou, procurando uma palavra, e ao sugerir «Amor» talvez nos enganemos, mas o certo é que ela riu, corou e exclamou depois…) Um sapo cravejado de esmeraldas! O Arquiduque Harry! Varejeiras no tecto! (aqui entrou em cena um novo eu). Então e Nell, Kit, Sasha? (mergulhou nas mais profunda tristeza: algumas lágrimas chegaram mesmo a tomar forma, e havia muito que ela deixara de chorar). Árvores, disse ela. (Aqui entrou em cena um novo eu.) Adoro árvores (ia a passar por um maciço delas), ali a crescer há mais de mil anos. E estábulos (passou por um estábulo em ruínas, à beira da estrada). E cães-pastores (lá vinha um a atravessar a estrada. Orlando desviou-se cautelosamente. E a noite. Mas as pessoas… (aqui entrou em cena um novo eu). As pessoas? (repetiu, sob a forma de uma pergunta.) Não sei. Tagarelas, invejosas, sempre a dizerem mentiras.
(…)
«Assombrada!», exclamou, carregando bruscamente no acelerador. «Assombrada, sim, desde criança. Lá vai o ganso selvagem. Passa diante da janela, voa em direcção ao mar. E eu corri (agarrou-se com mais força ao volante), estiquei-me para o agarrar. Mas o ganso voa demasiado depressa. Tornei a vê-lo, aqui – além – acolá -, Inglaterra, Pérsia, Itália. Sempre a voar muito depressa, em direcção ao mar, e eu sempre a persegui-lo com palavras como redes (aqui estendeu a mão para fora da janela) que mirram como vi mirrarem as redes içadas para o convés, trazendo dentro apenas algas; e às vezes vem um pedacinho de prata – meia dúzia de palavras – no fundo da rede. Mas nunca o grande peixe que mora nas florestas de coral.» Aqui, inclinou a cabeça, em profunda meditação.
E foi nesse instante, em que parara de chamar «Orlando» e estava absorta a pensar noutra coisa, que a Orlando por quem chamara veio de livre vontade; como se prova pela mudança que agora se operava nela (acabava de entrar no parque, transpondo o portão de entrada).
(…)
Estava agora, portanto, obscura e sossegada, tendo-se tornado, com a adição desta Orlando, aquilo a que com razão ou sem ela se chama um eu único, um verdadeiro eu. E calou-se. Porque é provável que quando uma pessoa fala em voz alta, os eus (que podem ser mais de dois mil) se apercebam da discórdia, e tentem comunicar, mas quando a comunicação se estabelece, calam-se.”
Bebíamos água com sumo de limão de um púcaro enorme e era a água mais saciante de sempre, quando ela me disse, com o sotaque austríaco dela que eu era no mínimo três pessoas. A conduzir um carro.
- «Vais a conduzir e vais relaxada, a ouvir música, a fumar, a rir e a conversar com o outro eu que vai sentado no lugar do morto. De repente, há algo que te perturba e ficas destruída, incapaz de continuar a conduzir o carro. E de imediato, numa acrobacia, sem parar o carro, o outro eu que está ao lado, toma o controlo do volante e começa a conduzir de forma agressiva, dizendo blasfémias à janela. Um eu niilista que quer que tudo se lixe. No banco detrás, há outro eu que fica em pânico com essa acrobacia de condutores, que tem medo que o carro se descontrole. E o mais natural seria que encostasses o carro para que os condutores pudessem trocar sem perigo.»
- «Talvez. Mas o carro não pode parar. Tem de continuar.»
- «É esse o problema. Não consegues admitir que a paragem. És conduzida por um carro».
Em silêncio, enrosquei-me em mim com um sorriso frágil e puxei o cobertor para mim.
- «Vês, agora que te disse isto, ficaste quieta e triste. É verdade. O teu eu mais verdadeiro é esse. O do banco de trás»
- «Não. Fiquei a pensar. Não fiquei triste. Acho bonito. Belo de certa forma.»
- «Há outro eu, então. Um que vai aninhado junto à janela, no banco detrás, indiferente às acrobacias do carro e dos condutores. Vai a olhar a paisagem e a escrever secretamente poemas na sua mente. Esse é o teu eu menos contaminado.»
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN (ii)

From Third Avenue On
And now she walks on out turned feet
Beside the litter in the street
Or rolls beneath a dirty sheet
Within the town.
She does not stir to doff her dress,
She does not kneel low to confess,
A little conscience, no distress
And settled down.
Ah God! she settles down we say;
It means her powers slip away
It means she draws back.
day by day
From good or bad.
And so she looks upon the floor
Or listens at an open door
Or lies her down, upturned to snore
Both loud and sad.
Or sits besides the chinaware,
Sits mouthing meekly in a chair,
With over-curled, hard waving hair
Above her eyes.
Or grins too vacant into space—
A vacant space is in her face—
Where nothing came to take the place
Of high hard cries.
Or yet we hear her on the stairs
With some few elements of prayers,
Until she breaks it off and swears
A loved bad word.
Somewhere beneath her hurried curse,
A corpse lies bounding in a hearse;
And friends and relatives disperse,
And are not stirred.
Those living dead up in their rooms
Must note how partial are the tombs,
That take men back into their wombs
While theirs must fast.
And those who have their blooms in jars
No longer stare into the stars,
Instead, they watch the dinky cars—
And live aghast.
Djuna Barnes
THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN

From Fifth Avenue Up
Someday beneath some hard
Capricious star—
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.
For though one took you,
hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.
We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.
It wouldn't go.
We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.
We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.
At your feet.
See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.
Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.
Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—
babyIn grimace,
With your belly bulging stately
Into space.
Into space.
Djuna Barnes
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
MORTE NA PÉRSIA

Morte na Pérsia é um dos livros mais belos e tristes que li na minha vida. Escrito por uma mulher no fim das suas forças, o livro fala de uma vertigem interior, de uma paisagem íntima chamada pérsia e morte. O que acontece quando o medo se aloja no coração?
As duas conversas com o Anjo são das coisas mais sublimes que já li.
Depois de ler este livro pequeno, fiquei com o coração cheio de Arte, Beleza, Medo e Solidão. Assim mesmo, com letras grandes. Mas o Medo e a Solidão já eram inquilinos antigos. Também o meu coração se podia chamar Pérsia.
«Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão.»
terça-feira, 19 de outubro de 2010
AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM

Uma escrita belíssima, atenta às gradações dos afectos, ás intensidades dos gestos e sobretudo empenhada na compreensão das relações humanas. Porque tudo começa no dois – o amor, a amizade, a família, mas também o dissenso, a política e a guerra.
Henrik é traído pelo melhor amigo e pela mulher. Espera pacientemente quarenta e um anos. Diz que espera a vingança e a verdade. Uma verdade para além dos factos, porque «um acto ainda não é equivalente da verdade». Mas ele já encontrou a verdade na velhice e na morte, quando somos capazes de entender os corpos como corpos e os homens como seres mortais, um entendimento sem dor.
«Uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente? A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida.»
«Sobreviver a alguém, a quem amámos tanto que teríamos sido capazes de matar por ela, sobreviver a alguém, a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida.»
«Quem sobrevive a alguma coisa, não tem direito de formular uma acusação. Quem sobrevive a alguma coisa, ganhou o seu processo, não tem direito, nem razão para acusar alguém; era mais forte, mais astuto, mais agressivo.»
Só os mortos respondem bem e definitavemente.
Recomenda-se como leitura para uma noite ventosa e solitária, acompanhada de velas.
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