
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
NADA

Tu e Eu

Eras tu quando passávamos as tardes no meu quarto abafado no Bairro Alto,
Nus e completos.
Eras tu quando ríamos juntos
E ninguém nos podia derrotar na nossa alegria.
Eras tu naquele dia em que fomos ao cinema
E fomos belos e fortes.
Perfeitos.
Um para o outro.
Companheiros.
Amantes.
Mas também não eras tu.
Não eras tu quando ficavas os dias inteiros em casa,
Amarrotado e sujo,
Espalhando derrota pelas paredes.
Não eras tu quando espumavas raiva
Contra todos os condutores do mundo,
Tentando expiar uma ofensa antiga
Talvez imemorial.
Não eras tu então
E, dentro de mim,
Algo te estranhava e odiava.
Eras tu quando acordavas e me tocavas o rosto.
Não eras tu quando não rias comigo.
Eras tu quando movias mundos só para me ver.
Não eras tu quando me gritavas o quanto me odiavas
E quão má eu tinha sido para ti.
Eras tu quando me olhavas numa ternura canina.
Eras tu quando me fazias sentir mulher na certeza de um abraço.
Eras tu quando me ias buscar ao trabalho e levavas flores.
Não eras tu quando me traías.
Eras tu quando podia ser eu contigo.
Não eras tu quando não podia ser eu.
Eras tu.
Deixei de saber quem eras.
E deixaste de ser tu.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Baforadas Nocturnas
sábado, 14 de novembro de 2009
Há ratos em New York

As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.
A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.
Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.
Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Outono Transfigurado

segunda-feira, 12 de outubro de 2009
MÁRIO CESARINY

quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Grande Bukowski
sábado, 29 de agosto de 2009
Muda de Vida
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Sputnik, meu Amor

Mulher em Sangue

segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Balada do Medo
Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.
O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.
Tonio Kröger

Entre o narrador e a personagem principal não há quase distância, o que nos permite assistir à construção mental pelo artista pelo próprio. Sim, porque Tonio tornar-se-á um grande escritor. A personagem tem também muito do autor, na medida em que uma dúvida quanto à sua identidade perpassa todo o texto.
Conhecemos Tonio, adolescente, torturado pelo sentimento de exclusão e apaixonado por Hans, amando nele o seu próprio reverso: um rapaz belo, forte e vivo.
(Seremos capazes de amar para além do nosso reflexo? Conseguiremos escapar à nossa imagem? O outro deve validar a nossa identidade ou introduzir uma diferença?)
(…)
E rodava cuidadosamente à volta do altar, onde a pura e casta chama do amor ardia, ajoelhava-se em frente, ateava-a e aproximava-se de todos os modos, porque queria manter-se fiel. Mas passado algum tempo, sem se notar, sem causar sensação e sem ruído, estava no entanto apagada.
Tonio Kröger manteve-se algum tempo diante do altar, arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho».
(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)
E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.
«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»
(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)
Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.
«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»
(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)
O Golpe de Misericórdia

Como acontece com tudo o que amo, fico sem palavras, recuso quebrar o encanto. Escolho as palavras de Augustina Bessa-Luís para deixar uma impressão.
«O Golpe de Misericórdia, espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos, é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.
(...)
O Golpe de Misericórdia é um livro extremamente sério, como toda a obra de Marguerite Yourcenar. Uma obra em que as suas digressões pelo passado são como que a lenta alquimia da solidão; há uma arqueologia da psique, como há das civilizações. Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.
Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure. Para o desvendar é que nos perdemos.»
O golpe de misericórdia no final tem algo de promíscuo, no sentido de um excesso de intimidade, que equivale ao acto amoroso nunca celebrado pelo par protagonista. A intimidade obscena entre vítima e carrasco, amante e amado.
« (…) tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inabalável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento: pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.»
A mais bela história de amor que li até agora.
Bestiário
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O Cântico dos Cânticos

De que seria bom que eu os ouvisse
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como, pois, sereis vós
Deixa isso comigo
domingo, 9 de agosto de 2009
Sonata de Kreutzer

Entre os lençóis

Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.
Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.
domingo, 5 de julho de 2009
Miriam Reyes

sexta-feira, 26 de junho de 2009
Perto do Coração Selvagem

Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
A Leitura e o Prazer

«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)
Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;
Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009
domingo, 21 de junho de 2009
Carta de Amor

Escrevi poucas cartas de amor. Agora que tento recordar quantas, só me lembro de uma e de várias preces à lua por alturas da descoberta do amor. Mas, desde que me apaixonei por ti, vêem-me frases à cabeça acompanhadas da imagem do teu sorriso terno. E um rasto de perfume inebriante que me atordoa. E daí a necessidade de te escrever esta carta e a esperança de que a leias e não tenhas dúvidas que a ti se dirige.
«O teu rosto é uma paisagem onde descanso os olhos e ouço o marulhar do meu mistério» - esta uma das frases. Não sei o que significa para além do que significa. Esta a frase mais insistente.
Ontem andava por bares e chamava por ti em silêncio. Apenas a necessidade de te ver. Do meu corpo encontrar o teu e poder existir lado a lado por uns momentos. Se é amor não sei, já vivi muito, provei até o sabor amargo das desilusões, mentiras e traições, entreguei o meu corpo a meros passageiros numa ânsia de o martirizar, e conheço hoje a palavra espantosa que é desamor.
E agora, com licença, vou à minha vida.
domingo, 31 de maio de 2009
A Dor de Ser Quase
Fado
Diário de uma Queda

terça-feira, 26 de maio de 2009
Temor e Tremor

Devia ver nisso uma eleição.
[…]
Cara tempestade de neve, se eu puder, com tão pouco, ser o instrumento do teu gozo, está à vontade, ataca-me com os teus flocos ásperos e duros, com as tuas pedras de granizo talhadas como sílex, com as tuas nuvens tão pesadas de fúria, aceito ser a mortal perdida na montanha, sobre a qual eles descarregam a sua cólera, recebo em pleno rosto os seus mil perdigotos gelados, não me custa e é um belo espectáculo a tua necessidade de me ferir a pele à força de insultos, disparas pólvora seca, cara tempestade de neve, recusei que me vendassem os olhos face ao teu pelotão de execução, pois há muito que esperava ver o prazer no teu olhar.»
Há algo de erótico na luta de morte entre uma vítima e o seu carrasco. O ódio é um acto de eleição, semelhante à paixão, requerendo a mesma energia, esforço e astúcia.
Good Night & Good Luck

Queria tanto, tanto expulsá-lo.
Mas não consigo odiar, não consigo morrer.
Vasculho a história à procura da raiz do mal.
Quem me fez, mal?
A menina gosta de dramas. Vá lá, confesse.
Tive dois irmãos,
Com um conheci a comunhão e a traição,
Éramos camaradas de trincheiras, dormíamos juntos,
Sonhávamos longe os dois,
Atravessávamos pântanos e campos, roubando frutas e um futuro triunfante,
Fumávamos a solidão e ríamos de todo o mal.
Pensávamo-nos imunes.
Mas a infância passou e sobreveio o desgosto.
O desencontro. Restaram os livros e os cães.
Quando ele me aceitou como pessoa e pude enfim ter uma voz.
Ao meu pai, escrevi uma carta de amor a pedir tréguas.
Obtive silêncio e uma palmada nas costas:
Desconhecemos como quebrar a ausência que nos afastou.
E a culpa de quem? Tua, que nasceste primeiro?
Ou minha, que compliquei o teu fracasso?
Desfia o dia inteiro punhaladas de agulha na minha pele.
E se me dói é porque sou mesmo igual ao meu pai.
Um sangue que é conhecido por não chorar em funerais.
Um sangue mau e amargo que nem os mosquitos gostam de picar.
A voz da minha mãe dentro da minha cabeça a martelar.
A insistir na minha derrota, para me provar que não há saída.
A rir de impertinência e desafio de todas as regras e convenções.
Num país sem nome nem emoções.
O meu avô ensinou-me que nada estava definido à partida,
Que tudo era possível.
O meu pai morreu de overdose,
Os ombros perderam as asas, ficou apenas a pergunta:
Onde está o banquete que nos prometeram?
Veloz e furioso de vingança.
Queria tanto, tanto chorar. Doer-me e poder apontar a dor.
É aqui senhor doutor. Agora, cure-me.
Mas não. Temos tempo, diz o doutor.
Tempo para quê?
Tempo para perder tempo.
Tempo para agonizar. A dor é minha, não é?
Não fiques chateada, pequenina.
Já nos pesa tanto o corpo quando nos levantamos de manhã
Ou quando nos deitamos, bebidos pela sede de amor.
E eu só me apetece gritar: à merda com toda essa covardia!
O meu irmão asfixia na gaiola dos dias normais,
Então só ele é que é vil? E a gente?
Deixa de beber: és tão volátil que o álcool não te convém.
Os encontros são cada vez mais raros e curtos
Perdi a inocência.
São, no entanto, mais intensos.
Trazem em si a força dos últimos fôlegos.
É disto que se faz a grande literatura, dizem.
És linda, porque causas sofrimento e também sofres.
Não quero sentir mais.
Quero só dormir e acordar com a alma despida.
Mais leve. Mais nova. Menos flácida.
Matar o veneno da esperança.
Para não morrer de fome. De sede. De frio.
Mas, no final das contas,
Nada disto tem importância.
São precisos dias maus.
Para que possam haver dias bons.
domingo, 24 de maio de 2009
Higiene do Assassino

«Gostaria de lhe ter ensinado que, estrangulando Léopoldine, eu lhe poupara a única morte verdadeira, que é o esquecimento. Você considera-me um assassino, quando eu sou um dos raríssimos seres humanos que não matou ninguém. Olhe à sua volta e olhe para si mesma: o mundo está cheio de assassinos, ou seja, de pessoas que esqueceram aqueles a quem dizem ter amado. Esquecer alguém: já pensou no que quer isto dizer? O esquecimento é um gigantesco oceano onde navega um único navio, que é a memória. Para a imensa maioria dos homens, esse navio reduz-se a um miserável bote que mete água à mínima ocasião, e cujo capitão, personagem sem escrúpulos, só pensa em fazer economias. Sabe no que consiste essa ignóbil palavra? Em sacrificar quotidianamente, entre os membros da tripulação, os considerados supérfluos. E sabe quais deles são considerados supérfluos? Os patifes, os maçadores, os cretinos? Nada disso: os que são atirados pela borda fora são os inúteis, aqueles de quem já nos servimos. Esses deram-nos o melhor de si mesmos: que mais nos poderiam, pois, dar? Vá, nada de piedade, limpemos a casa e zás! Atiram-nos da amurada, e o oceano traga-os, implacável. E aí tem, minha cara menina, como se pratica com toda a impunidade o mais banal dos assassínios.»
«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
Estranho, passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,tudo o que antes tinha unidade.
Estar morto é laborioso e cheio de recomeços,
Tinha 16 anos quando aprendi este poema. Pensei que falava da morte, da morte que todo o esquecimento traz. Porque a verdadeira morte é o esquecimento: morremos quando esquecemos alguém e só morremos mesmo quando ninguém estranha mais a não circulação do nosso corpo por aí. Quando nos tornamos apenas restos de um corpo que precisa de uma inscrição para avisar de que aí jaz. Que um dia cá esteve.
Recordo sempre tudo, afinal. A minha história é uma antologia de esquecimentos falhada.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Arquipélagos Aquáticos

«Um homem pode estar doente, mais gravemente, ainda do que este, e ter o seu momento de felicidade, qual seja, tão só o de se sentir como uma ilha deserta que uma ave sobrevoou, de passagem apenas, trazida e levada pelo inconstante vento.»
Somos ilhas à deriva, atravessadas por breves momentos pelo encontro entre dois seres. O resto é apenas a memória desse momento excepcional de luz e beleza. E a procura e esperança na possibilidade de repetição. Recordarei sempre uma tarde de tempestade e trovoada, em que três amigos se abrigaram num toldo perto da escola onde me deseduquei com afinco, e fomos um. Completamente encharcados pela chuva e pelo encontro sublime que ameaçava rasgar os nossos peitos e cortar definitivamente a condição imposta de ilhéu. Era cedo demais então para saber que um dia poderia ser tarde demais. Não conhecíamos as armadilhas do tempo nem a raridade e brevidade dos arquipélagos.
Endgame

Gostava de te marcar. Para que a minha profundidade ficasse eternamente gravada na memória da tua pele. Para que pudéssemos partir juntos e estilhaçados em mil aventuras de fumo e incenso. Perdermo-nos um dentro do outro em insónias incendiárias. Fogos fátuos, por fim regressados a casa, dormindo abraçados durante a queda. Feridos e juntos. Gostava de te marcar. De terminar contigo. Para sempre e de uma vez por todas.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Também a morte foi viciada

quarta-feira, 6 de maio de 2009
Blue Times

Noites Brancas - Das Memórias de um Sonhador

“é verdade que às vezes tenho momentos de uma amargura insuportável, insuportável… Nesses momentos ponho-me a imaginar que nunca serei capaz de começar a ter uma vida verdadeira, porque são momentos em que perco o tacto e o olfacto do verdadeiro, do real; porque chego a amaldiçoar-me a mim próprio; porque, depois das minhas noites fantásticas, vêm os horríveis minutos do desembriagamento! Entretanto, ouço como marulha e gira no turbilhão da vida a multidão humana, ouço, vejo como vivem as pessoas – vivem na realidade; vejo que para elas a vida não é proibida, que a vida delas não se vai desvanecer como um sonho, como uma visão […] A alma já quer e já pede outra coisa! Inutilmente remexe nas cinzas o sonhador, nos seus sonhos antigos, procurando nas cinzas ao menos uma faísca, uma brasa em que sopre e acenda uma chama, para aquecer com o fogo recuperado o coração arrefecido e ressuscitar nele tudo o que dantes lhe era tão querido e lhe tocava a alma, que lhe fazia ferver o sangue, que lhe arrancava lágrimas dos olhos, que tão luxuosamente o iludia! […] Tornar-se-á pálido o teu mundo fantástico, vão esmorecer os teus sonhos, murchar, cair como folhas amarelas das árvores… […] Que triste ficar sozinho, completamente sozinho, sem ter sequer o que lamentar – nada, absolutamente nada, porque todo o perdido era nada, um zero estúpido, nada mais que uma ilusão!”
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A Vida imita a Arte
quarta-feira, 29 de abril de 2009
É evidente...

é evidente que podemos explicar.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Mais um aforismo do Aníbal, o outro

quinta-feira, 23 de abril de 2009
Os pensamentos de Aníbal, o outro

«Quando um indivíduo está na praça, das duas uma: ou não presta ou não sabe o que quer». Isto a propósito das relações amorosas nos tempos de cólera de hoje. E eu que pensava que estava na praça a curtir as vistas. Talvez tenha uma ideia inflacionada de mim ou uma ideia deflacionada da minha solidão. Das duas, uma. Não sei, a ver se penso mais claramente nisto.
«Não existem boas pessoas. O que existem são indivíduos que tiveram sorte e não se depararam com circunstâncias tramadas. Eu não acredito em santos». Este meu tio é qualquer coisa.
Vou por um anúncio no jornal para ver se encontro o homem dos meus sonhos. Só não me consigo decidir em qual: no Correio da Manhã, em que o público é mais massivo e indiferenciado, ou no Público, em que os leitores são mais cultos e pretensiosos.
terça-feira, 21 de abril de 2009
NOITES CROMÁTICAS 1

Picnic no Parque de Alvalade: há muito tempo, que não me deitava na erva a disfrutar do banho da luz da lua. Não percebia os corpos, ouvia apenas as vozes, deliciada e imaginava as rostos dos que não conhecia. Longe do som do mal, dos passos que ecoam fortes e solitários nas igrejas fechadas e húmidas. Percebo a quietude da natureza, das árvores nos passeios, das ervas daninhas nos intervalos das pedras de calçada, à espera de um intervalo nosso para recuperar o que lhe furtámos. Clamo em silêncio por uma oportunidade de vingança do verde.
Alfama: alguns whiskies e vou vendo as caras que conheci no escuro. Caras menos enigmáticas do que as imaginei. Olhos mais alucinados do que supusera.
Regueirão dos Anjos: sento-me ao lado de um homem, vestido com todo o rigor de África. Converso com ele. Fantasio-o um xamã. Diz-me coisas profundas, para ter cuidado com o presente. Lê a desordem na palma da minha mão. Depois sento-me num sofá, ao lado de um espanhol que encontrara noutra noite no LX Factory e que não se recordava da conversa que tínhamos tido. Na outra noite, estava há horas aos beijos com uma rapariga. Quando saí da disco, continuavam cá fora. Na minha ingenuidade não me contive, aproximei-me, pedi desculpa pela interrupção, mas queria saber se aquilo era amor. Queria saber se o amor ainda pode existir nestes tempos. Ele tentou manobrar a questão, a rapariga respondeu de imediato, que não, que não era amor. Ele pareceu desapontado com a resposta. Perguntei então se era sexo. Ela respondeu que não, que era qualquer coisa entre amor e sexo. Afastei-me a pé, a cismar no porquê de não conseguir entender a medianidade, de ter de viver sempre entre absolutos. De não suportar estados intermédios. Ouvi a rapariga gritar e olhei para trás. «Eu estou contigo. Também quero acreditar no amor puro». Continuei sozinha pela minha Lisboa de madrugada, vagueando enleada nos meus pensamentos, com um chapéu por companhia. No Regueirão torno a encontrar este rapaz com outra rapariga. Sento-me a seu lado no sofá e como percebo que não se recorda de mim, falo-lhe como um anjo lhe falaria se pudesse descer até ele. Ele responde com teorias líquidas de afecto, dizendo que o amor acontecerá inevitavelmente. Respondo-lhe que não. Que contra todas as hipóteses, o amor não acontecerá. Saio, arrasto o meu corpo até ao Cais de Sodré. Sinto-me perdida, não quero ir para casa.
Às seis da manhã, vou comer uma bifana com um quilo de carne e alho no café mais xunga do Cais de Sodré, onde o dono faz tudo para me agradar, porque eu sou aquilo que ele chama de «viagra dos pobres». Obviamente tentei negociar sexo oral e quase chegávamos a um acordo - a proposta inicial dele era de dois euros e meio, mas julgo que era capaz de chegar a um preço ainda mais simpático, afinal a negociação é um dos meus fortes.
Depois disto, entro no metro - um erro que cometo raramente, pois não gosto de misturar a minha loucura com o dia normal dos trabalhadores - e começo, juntamente com um amigo a chamar todos de «wankas». E é então que o diálogo mais genial da noite acontece. Um dread de sobrancelhas rapadas diz-me:
- Tu é que tens a culpa disto tudo.
- Disto tudo o quê?
- De tudo. Tudo.
- Mas eu não sou Eva.
- E eu também não sou Adão.
Saio do metro na estação de Roma e olho o metro parado do outro lado da linha. Espero as portas fecharem e chamo a atenção de dois rapazes sentados junto à janela. Levanto a blusa e baixo o soutien. Ainda recordo as suas faces invadidas por uma súbita excitação infantil.
Saí do metro em êxtase e coloquei gentilmente todos os caixotes de lixo na horizontal. Ao virar da esquina, contemplei a rua e era uma visão soberba.
Vejo beleza nisto tudo. E não desculpo quem não veja.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
O Quarto do Filho

É fácil estarmos juntos quando tudo corre bem.
Mas é precisamente quando tudo corre mal, que precisamos uns dos outros. Eu, que não sou nada católica, recordo o discurso do padre no casamento do meu primo: o amor é diferente da paixão, envolve uma decisão racional, um compromisso de estar ao lado de alguém, partilhar uma vida, alegrias e desgostos. Compromisso que esquecemos todos na era líquida do amor, em que os afectos são voláteis, descartáveis e com prazo de validade.
«Ama-me quando eu menos merecer, pois será então que eu mais precisarei».
O ócio nem sempre significa passividade; ás vezes é preciso parar para repensar, para nos reencontrarmos e podermos voltar ao mundo. É preciso morrer um pouco para poder ir vivendo.
Aos nossos amores
quarta-feira, 11 de março de 2009
O Deserto dos Tártaros

domingo, 8 de março de 2009
O Mestre - Ana Hatherly

(…)
O exame é que conta e quem passa é quem sabe. Depois do diploma é lá com eles, mas antes disso é preciso que os alunos se compenetrem de que é preciso saber tudo o que está escrito para passar no exame. O exame é que conta. O nosso papel é levar os alunos a exame e fazer com que fiquem aprovados. Também isso está escrito.
(…)
O que é preciso é que haja alunos aplicados para haver alguém que passe sempre nos exames finais e justifique a sua existência.
(…)
O Mestre chega à aula irritadíssimo e grita para os discípulos:
- Vocês são todos uns ignorantes!
- Sim, Mestre!
- Vocês não sabem absolutamente nada nem nunca hão-de saber coisa nenhuma!
- Pois não, Mestre!
(…)
- Aprendam o que está escrito, está tudo escrito!
- Mas Mestre, o que nós queremos é cantar, é ver as plantas crescer, as ondas quebrar, as estrelas acender, as nuvens passar, a gente o que quer é sentir os lábios da pessoa amada poisarem no nosso rosto, a gente o que quer é sentir o calor do sol, o fresco da noite, a voz da pessoa amada tinindo nos nossos ouvidos, a ponta dos seus dedos brincando com os nossos cabelos, a gente o que quer é correr à beira do mar, dançar de alegria, comer fruta das árvores, dormir de cansaço, acordar sorrindo, erguer os olhos para dentro e ter alguém a quem amar, algo a louvar, algo a agradecer, algo a dar, alguém a quem agente se dar!...
(…)
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo que escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição.
(…)
- Claro, o nosso pensamento pode conseguir tudo.
- Se assim é fico com medo de pensar…
- E tem toda a razão. Para isso é que tem razão.
- Mas então para que quero eu a razão se não me servir dela?
- Tem razão. É muito confuso isto. O melhor é irmos para casa pensar.»
In-Consequências

Mas, não é para isso que servem os domingos?
Hoje tomei a decisão: em cada semana, escolherei um dia aleatório (não me agrada que já tenham predestinado o dia do meu descanso) e suspendo a minha existência. Nesse dia não falarei nem verei ninguém, porque nesse dia os outros ficarão suspensos, juntamente comigo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Boneca de Tripas - Parte 3

Não fui uma criança alegre. Fui uma adolescente fabulosa, entusiasmada e enérgica, mas enquanto criança fui uma menina triste, metida comigo mesma em contas misteriosas. Não sei bem porquê. Gostava de estar sozinha, achava as meninas da minha idade imaturas e não gostava que me despertasse da minha reclusão.
Recordo os dias passados na praia de Odeceixe, como dias de orfandade, de desligamento. Dias inteiros a chapinhar na água de biquíni vermelho. Vermelho órfão. Nem no meu irmão Miguel, o companheiro fiel da minha infância, encontrava o conforto da ligação, o refúgio terno da minha solidão.
Como naquela tarde solarenga em que ambos nos deliciávamos nas travessuras habituais, desafiando a paciência dos deuses com arrogância e eu me magoei ao saltar sobre um ferro. Em cheio no pipi. Uma dor aguda, violenta. E eu a fugir, a escapar-me para um canto para tocar a minha falha. A mão a voltar cheia de sangue. Vermelho vivo. A consciência súbita da natureza violenta, obscena da beleza. Como uma bofetada seca, isolada. A súbita percepção de que era feita de sangue. E a tristeza, breve e marcante, de não poder partilhar com o meu leal companheiro, o meu irmão de sangue, a dor daquela mancha. Vermelho imperfeito.
Uma mão pequena, infantil, manchada de sangue. O tempo apagou a dor, restou apenas essa imagem. Bela, violenta, terna. E uma sensação de condição frágil que me recuso a aceitar até hoje. Mas sei, não esqueci que sou determinada pelo meu sexo e pela minha capacidade de sangrar em silêncio. Anos mais tarde, um amor violento, uma atracção fatal, inebriante, a consumir-me entre lençóis brancos e macios, o sexo a pulsar, a arder no desejo de tocar, de devorar e incorporar o outro no centro da minha falha, um esforço suado para me afogar e naufragar no corpo do outro, os lençóis manchados de vermelho, um vermelho faltante, irreparável, e outra vez, mais uma vez o regresso isolado, com as mãos manchadas de sangue e arrebatamento, os olhos alucinados a tentar entender a perda, o som do coração a rachar,
Quantas vezes pode um coração rachar até se partir?
Um coração partido não volta a amar, é uma máquina inútil, avariada.
O que eu sei acerca do outro são as palavras da dor dele, a dor, essa é dele e com que ele permanecerá, não há balanças que a pesem.
Uma menina não mostra o pipi aos meninos.
Mas ele era o meu irmão, irmão leal de sangue, o único que comungou da minha infância e, além disso, agora mostro o pipi a outros, que não sabem a minha infância, que não podem entender a minha dor. Vermelho incomunicável. E talvez que o meu irmão tivesse entendido. Enquanto vivíamos na mesma infância. Enquanto a esperança e a desilusão ainda eram divisíveis. Depois crescemos, impuseram-nos um modo severo de ser adulto e deixámos de nos entender. Não sei bem porquê.
Não me disseram que o amor também acaba, não me preparam para deixar de amar. Só para não mostrar o pipi aos rapazes.
Quantas vezes pode um coração sentir-se só sem se rachar?










