domingo, 26 de junho de 2011

um livro tem que ser como um machado



"Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio."

Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904

domingo, 19 de junho de 2011

Com a carne triste



BRISE MARINE

La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!


Stéphane Mallarmé

A grande beleza arranhada



Há cerca de quatro meses, com a primavera atrasada, encontrava consolo apenas nas palavras de Herberto Hélder. Palavras de cão batido. Um amigo avisou-me, carinhosamente, que parasse de o ler. Parece que mata muitas pessoas. Respondi que não queria abdicar da beleza apesar do perigo que nela reconhecia: até os mortos têm direito à beleza por isso lhes oferecem flores. Ao que ele corrigiu: só os mortos têm direito à beleza, por isso lhes oferecem flores. Rematei o problema dizendo que pararia no dia em que ele me receitasse um livro upper, a salvo dos efeitos narcóticos da indignação e da raiva. Um pedido difícil, bem sei, dado que o desamor e a mágoa parecem ser os motores mais potentes do esforço literário. As maiores obras foram escritas na merda.

Contudo, através de outras mãos, acabei por encontrar esse livro-estimulante e dediquei os últimos dois meses e meio a essa paixão, que defini como intermitente para que o prazer pudesse durar mais: As Aventuras de Augie March de Saul Bellow. São as vantagens dos chamados calhamaços: juntamente com o tempo e o fôlego arriscamos um compromisso emocional.


No primeiro parágrafo, Augie apresenta-se a si e ao estilo da narrativa das suas aventuras: “Sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria -, e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre. Vou, portanto, fazer o relato à minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; às vezes uma pancada inocente, outras nem tanto. Mas o carácter de um homem é o seu destino, diz Heraclito, e no fundo não há forma de disfarçar a natureza das pancadas, nem fazendo um tratamento acústico na ponta nem cobrindo os nós dos dedos com uma luva” (p.9). E está dado o mote para as 700 páginas que se seguem: o relato de um rapaz que cresceu pelas ruas de Chicago, a cidade dos gangsters, como um órfão, retirando do desamparo a garantia para a sua independência e busca pela liberdade.


A infância de Augie é passada entre a simples e resignada mãe, o irmão atrasado mental Georgie e o irmão mais velho, o combativo Simon, entretida pelas mentiras para sacar dinheiro às instituições de caridade e pelos ensinamentos da resmungona avó Lausch “sobre um mundo em que os crédulos, amorosos e simples vivem cercados pelos astuciosos e duros de coração” (p. 19). A adolescência é populada por vários empregos ocasionais, desde distribuir panfletos de propaganda para um teatro, ajudar na distribuição de jornais com o primo, pau para toda a obra do paralítico Einhorn, trato com pugilistas e breves incursões pela criminalidade.


“De tudo isto, o que queria eu para mim? O meu irmão Simon não era muito mais velho do que eu, e ele e outros rapazes da nossa idade já tinham percebido que era preciso viver a vida e escolhido a direcção que pretendiam seguir, enquanto eu continuava a andar em círculos (…)
Mas quando não existe nenhuma Sicília pastoril, nenhuma pintura livre da natureza, mas apenas a aflição profunda da cidade, e cedo somos forçados a ter objectivos profundos da cidade, sem nos mandarem, com o nosso éfode vestido, apresentar-nos perante Elias para começarmos a servir no templo, não enviados a cavalo pelas nossas irmãs chorosas estudar grego em Bogotá, antes acabamos por ir parar a um salão de bilhar – o que tem isso de elevado? (…) Amigos, companheiros humanos, homens e irmãos, não há maneira breve, condensada ou taquigráfica de dizer até onde isso nos leva. O próprio Crusoe, sozinho na natureza e sob o firmamento, passou tempos duros e complicados com o inumano, e eu estou no meio de uma multidão que produz resultados com muito mais dificuldade e relutância e sou parte dela” (p. 118-119).


Num primeiro olhar mais superficial e descuidado, Augie parece-nos uma folha ao vento, levado ao sabor das influências que o enredam. E ele está rodeado de gente manipuladora que o procura recrutar para os seus objectivos e realidade (Bellow começou por chamar ao seu romance «Vida entre maquiavélicos»). Porque todos andam à procura de alguém para partilhar a sua sina e Augie é um bom ouvinte, retirando a melhor polpa das apaixonantes personagens secundárias que o vão interpelando pelo caminho. Mas o nosso rapaz é salvo por um sentimento de oposição que traz dentro de si e “um enorme desejo de oferecer resistência e dizer «Não!» que não podia ser mais claro, uma sensação tão inequívoca como uma pontada de fome” (p. 162).

Com ligeireza, vai crescendo à deriva. Termina o secundário, apaixona-se, recusa ser adoptado por um casal abastado, envolve-se no contrabando de imigrantes, viaja clandestino em vagões de mercadorias com outros vagabundos, é preso por engano e pressente que “a escuridão existe. E é para todos.” (p. 239). Sofre as primeiras mortes e deslealdades. “E acontece também que, enquanto para defender outra pessoa falta vigor, para defender o gosto de ovo na boca não se medem esforços, e é assim que se distribui amor” (p. 341).


Todavia, Augie não é o desamparado que vai entrar para a estatística pelo lado do crime, da deliquência ou da desistência. Não, ele é demasiado teimoso e esperançoso para se deixar abater assim pela realidade. Fazendo da errância uma aliada, busca acertar em si, saltando de ocupação e interesse. É acometido pela febre da leitura mas a universidade não o entusiasma. “Afinal, quando o vento virava para sul e oeste e soprava dos currais dos matadouros trazendo a poeira das fábricas de fertilizantes para as belas trepadeiras que cobriam os muros, tinha a sensação de que tinha havido um salto de alguns dos estádios intermédios entre a bruta criação e a mente sublime, e que esse salto era muito grande” (p. 385). Gosta dos prazeres que o dinheiro proporciona mas não está disposto a sacrificar a sua liberdade para o obter. Em suma, Augie não alinha.


Através de um amor forte conhece a comunhão e pensa que a unidade humana talvez não seja um mas dois. Por isso, alinha com a sua amada e vai para o México treinar uma águia a caçar lagartos gigantes. A tarefa falha assim como a pureza dos sentimentos soçobra. Com o crânio e o orgulho ferido, Augie sangra durante algum tempo. “Porque o que não se sofre na carne é quase como um sonho, ou como disparos de luz, fogos-de-artifício que salpicam o céu e rodas de luz branca que espalham faúlhas numa terra triste” (p. 425-426).


Regressa a Chicago e tenta perceber que rumo dar à sua vida. Concebe utopias que são interrompidas pela guerra. Faz todos os esforços necessários para se alistar e combater. Pelo caminho, encontra o amor, concebe-o como definitivo e casa-se. Num acidente de guerra, naufraga e quase morre. Nas últimas páginas da sua narrativa, encontramo-lo na Europa, bem-sucedido financeiramente com negócios ilegítimos e lutando diariamente contra a faina de preocupações e segredos. Por amor e fé no humano.


“Ninguém imaginaria o esforço que há por detrás disso.
(…)
Stella chegou dos estúdios e foi tomar banho; gritou-me do quarto de banho:
- Amor, traz-me uma toalha, se fazes favor.
(…)
Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz (…). E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado; e além disso, todo aquele tempo em pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo (…). E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de chegar a qualquer lugar que seja, incapazes de obter justiça ou desforra, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos e ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro” (p.691).


No final do bildungsroman, Augie é já um homem feito, inteiro e que não saiu derrotado na empresa. Despede-se de nós com o seu riso optimista:


“Ainda estava gelado da caminhada pelos campos, mas, pensando em Jacqueline e no México, comecei a rir outra vez. Este é o animal ridens que há em mim, o animal que ri, sempre a ressurgir. O que há de tão risível em que Jacqueline, por exemplo, tão agredida por forças brutais, ainda se recuse a ter uma vida de desilusão? Ou será que rimos da natureza – incluindo a eternidade – por ela pensar que nos pode derrotar a nós e à força da esperança? Ná, não, creio. Nunca nos derrotará. Mas provavelmente a piada está nisto, em cima de nós ou dela, e o riso é um enigma que inclui os dois. Olhe-se para mim, viajando para todo o lado! Ora, sou uma espécie de Colombo daqueles que estão à mão de semear e acredito que podemos chegar até eles nesta terra incognita imediata que espalha diante de cada olhar. Pode muito bem dar-se o caso de eu ser um fracasso nesta linha de empreendimento. Provavelmente Colombo também deve ter pensado que era um fracasso quando o recambiaram acorrentado. O que não provou a inexistência da América” (p. 709).


Circulando com o mesmo à vontade pelos antros de Chicago como pelos salões dos abastado, buscando o amor e praticando as boas intenções com todo o mesmo vigor com que se envolve em negócios obscuros, Augie não pertence a nenhum dos lados da barricada da grande batalha da Humanidade. Não é dominado pela inocência nem pela malícia. É o espírito livre americano que Walt Whitman cantou nos seus versos e a sua narrativa segue as pancadas dessa liberdade num ritmo intenso, apaixonado, bem-humorado, como um longo improviso de jazz, onde se misturam referências da high culture e da mitologia com lições de esquemas das ruas escuras de Chicago: “primeiro tem de se testar aquilo de humano com que se consegue conviver. E se o mais elevado estiver naquela taberna vazia e abafada, com as moscas, o rádio quente a zumbir entre jogadas e a cerveja de Sox Park, o que poderá fazer-se senão aceitar a mistura e dizer que a imperfeição é sempre a condição do que encontramos? Do mesmo modo, os meus olhos arranhados verão sempre a grande beleza arranhada. E deuses podem aparecer em qualquer lugar” (p. 353).

sábado, 18 de junho de 2011

Ataques de existência



«Tem-se vinte e três anos ou trinta e um, ou ainda mais, e descobre-se ao atravessar uma rua ou quando cai o chaveiro, que, realmente, se existe. Contra isto, não há nenhuma protecção segura. Nem a teoria nem o álcool podem garantir uma prevenção impenetrável contra o ser-aí. Safer thinking, safer drinking – não serve em todos os casos» (p. 17).

«Deprimido torna-se quem transporta pesos sem saber para quê. Então, a vida torna-se demasiado pesada para si mesma, porque já não pode contar mais com o apoio do seu fundamento anónimo de resistência para se ir consolidando. O deprimido não acolhe a carga com um positivismo jovial, mas sim com um último esforço ruinoso (…), na depressão o individuo esgota-se na tentativa desesperada de querer aquilo que não quer. Os depressivos são estóicos clínicos por detrás dos quais se ocultam revolucionários fracassados» (p. 38-39).

domingo, 12 de junho de 2011

Com a alma junta




Estes dois senhores andam a restaurar a minha confiança na vida.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O ÚNICO E A SUA PROPRIEDADE


«Encontramos nós apenas gente possessa do demónio, ou será que vêm ao nosso encontro outro tipo de possessos, obcecados pelo bem, pela virtude, a moralidade, a lei ou outro qualquer “princípio”? As possessões diabólicas não são as únicas. Sobre nós age Deus e age o diabo: a acção do primeiro é da ordem da “graça”, a do segundo é diabólica. Possessos são aqueles que se fixam nas suas opiniões» (pág. 43).

«Quem é que de forma mais ou menos consciente, nunca reparou que toda a nossa educação está orientada no sentido de produzir em nós sentimentos, ou seja, de os impor, em vez de nos deixar a iniciativa de os produzir, quaisquer que eles sejam? Se ouvimos o nome de Deus, se ouvimos o da majestade real, esse sentimento deve ser recebido com respeito, veneração e submissão, se ouvimos o da moral, espera-se que ouçamos qualquer coisa de intocável, se ouvimos falar do mal e dos malvados, espera-se que tremamos de medo, etc. Tudo está preparado para produzir estes sentimentos» (pág. 58).

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DO TEU PAI VAIS HERDAR TAMBÉM A MORTE

"Sentia-se cheio de vigor e, quando as vagas investiram contra ele e teve de lutar para não ser rechaçado, sentiu em todo o corpo o júbilo da força e da saúde. Fez-se ao largo, contra os vagalhões, sentindo o prazer de se fundir e ao mesmo tempo de contender com o elemento implacável; sabia que nenhuma fraqueza lhe seria perdoada.


Quando virou o rosto para terra, viu uma figura em pé sobre uma rocha.



Seu pai. A cabeça descoberta, redonda, com o cabelo curto e ralo, erguia-se orgulhosa sobre o busto; por baixo do casaco e das calças batidas pelo vento, o corpo aguentava firme e direito. Quem sabe há quanto tempo lá estava, seguindo-o com os olhos, em silêncio? Pareceu-lhe mais alto, por entre tanta luz, mais jovem. Teve a estranha impressão de que ele queria medir-se consigo, e que assim, sobre a solidez daquela rocha açoitada pelo vento, estavam de igual para igual.



(...)



- Sim, nos meus tempos; até gostava de vir aqui em dias de borrasca - disse o pai sem fanfarronice, calmo, como se desse a entender: "agora é a tua vez". Depois, acariciando-lhe o ombro húmido e luzidio, acrescentou: - A montanha bronzeou-te, o sol do mar completará o trabalho.



- São dois rivais maravilhosos - disse o filho, a rir." (p.34-35)






"Do outro quarto chegava com frequência a tosse do pai. Por cima dos trombones e dos tambores da banda, por cima da barulheira da festa, aquela tosse tinha um timbre profundo, comparado com o qual qualquer outro som parecia insignificante. Aquele homem já fora posto de parte pela corrente da vida; mas da sua margem, onde ainda se detinha um pouco antes de desaparecer, enviava com os seus ganidos uma terrível advertência aos homens, soubessem ou não escutá-lo.



Em certas noites, no silêncio da montanha, ouvira um som semelhante: a voz do cabrito-montês. Dor? Medo? Perseguido e pressentindo a morte próxima? Por que razão os homens, que tudo procuram saber, evitam ter consciência do animal que há neles, que há em todas as criaturas vivas?" (p.60-61)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

IAN CURTIS A ANNIK HONORÉ


Colho um tufo de erva do teu corpo.
Deito-me nele e como-o,
sinto-lhe a humidade que ficou da última noite
quando nos deitámos e rebolámos
e nos cruzámos com insectos
a medirem-nos a respiração das coisas.

Prosto-me sob a sombra do teu peito,
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve.

Andamos sempre à procura
de uma noite que não tem dias,
de uma noite sem sinais,
candeeiros que reflictam
a agitação dos mosquitos à queima-roupa.

Andamos como uma letra despovoada
nos silos da ternura, a encostar um sopro
a outro sopro. E nada, absolutamente nada,
nada nos cura desta traição consumada.


Henrique Manuel Bento Fialho, A Dança das Feridas

domingo, 15 de maio de 2011

Morangos & Niilismo



É capaz de ser a melhor mistura para uma tarde domingueira num sábado à noite.

sábado, 14 de maio de 2011

o poema ensina a cair




NEXT TO NOTHING

Não acordei com o teu corpo,
mas com um verso
que me parece agora
o mais triste do mundo:
Le tuve tan cerca.

Foi verdade, foi tão depressa
mentira – acabarmos juntos
no último bar. Ou apertar-te
em plena desrazão os ombros,
o pescoço baixo,
a cor indecisa dos cabelos.
Enquanto se partem tão
tristes os tristes copos
que nessa noite derrubei – e eras tu.

Não sei o que te disse, que
outras partes de quem foste
toquei ou perdi. De qualquer modo,
perdi. E foi, só podia ser,
demasiado triste: dois corpos
que ninguém via desciam a rua
da Misericórdia, já perto da manhã.
Aquela nenhuma distância
não pôde ser um beijo. Apenas derrota,
ressaca, mais uma canção sem nós.

Tu não sabes – e ainda bem – que
este homem te desejou todas as noites,
até que fechasse o bar. Este homem
que não deseja e que tem,
infelizmente, um nome igual ao meu.

Da próxima vez, quero estar menos
bêbedo, saber se apanhámos
ou não o mesmo táxi. Mas
«da próxima vez» nunca existirá.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

chegou hoje por correio e fez-me tão feliz



A Dança das Feridas reúne 68 poemas de amor e morte, na sua maioria sob a forma de cartas, que têm por mote relações amorosas sublinhadas pela história. Há de tudo um pouco, de Adão e Eva a Woody Allen e as suas ex-mulheres, passando por Ulisses e Penélope ou as ossadas de Mantova.

domingo, 8 de maio de 2011

um livrinho precioso



«A própria localização do Pátio Maldito era estranha, como se tivesse sido calculada para aumentar as torturas e os sofrimentos dos presos (frei Petar voltava muitas vezes a isto, tentando descrevê-lo). Do pátio nada se vê da cidade, nem do porto, nem do arsenal abandonado lá em baixo na margem do estreito. Só há o céu, imenso e cruel na sua beleza e, ao longe, um canto verdejante da margem asiática, do outro lado do mar invisível, e o vértice do minarete de uma mesquita desconhecida ou da copa de um cipreste gigantesco, atrás do muro. Tudo indeterminado, anónimo e alheio. Assim, um estrangeiro tem a sensação constante de estar numa ilha diabólica, longe de tudo o que até então para si significava vida, e sem esperança de em breve tornar a reencontrá-la. Os presos de Constantinopla sofrem ainda um outro castigo, aquele de não ver nem sentir nada da sua cidade: estão lá, mas é como se estivessem a cem dias de viagem; e essa lonjura aparente atormenta-os como se fosse real. Por todas estas razões, o pátio, rápida e insensivelmente, dobra um homem, subjuga-o de tal modo, que acaba por se perder. Depressa se esquece de tudo o que aconteceu e pensa-se cada vez menos no que acontecerá; assim o passado e o futuro fundem-se num único presente, na terrível e insólita vida do Pátio Maldito.
E quando acontece o céu cobrir-se de nuvens e começa a soprar um vento tépido e doentio do sul, que traz o fedor nauseabundo da putrefacção marinha do porto invisível e das imundices da cidade, então a vida nas celas e no pátio torna-se verdadeiramente insuportável. (…) O vento sibila e, como uma doença oculta, penetra em tudo o que é vivo. Mesmo os presos mais habitualmente tranquilos ficam atormentados por uma incompreensível irritação e, com os nervos à flor da pele, começam a agitar-se, tomados de raiva, procuram zaragatas. (…) Os nervos esticam-se até doer e descambam de repente em perigosas crises e gestos disparatados. (…)
Nessas horas de exaltação geral, a loucura, tal como uma epidemia ou uma labareda, passa de cela em cela, de homem em homem e transmite-se de pessoas para animais e seres inanimados. Agitam-se os cães e os gatos. Rápidas como flechas, ratazanas graúdas correm de um muro para o outro. Os homens rebentam com as portas, batem com as colheres em malgas de lata. As coisas escapam das mãos. (…)
Nestes momentos, o Pátio Maldito geme e crepita como um enorme guizo numa mão gigante e os homens dentro dele saltitam, encolhem-se, empurram-se uns aos outros e chocam contra os muros como bolas de metal dentro desse guizo.» (pag. 18-20).

«Não posso eu, meu amigo, curar-me – diz -, porque nem doente estou, mas é assim que sou e de nós próprios não nos podemos curar.» (pag.113)



A literatura deita muitas vidas a perder



SALDOS


Fugi muito novo da prisão
com Edmundo Dantés
e saboreei a vingança antes
de a conhecer de facto.
Fui acossado e cuspido
ao lado de Gwynplaine nas aldeias
de lama por onde passámos.
Numa tarde de Inverno, Lúcio
despertou-me para a morte
e deu-me a conhecer palavras
que eram chuva e relâmpagos
num céu que não tinha nuvens.

Estive na cama com Odette de Crécy
quando Swann espreitou
à procura da desilusão do amor.
Vesti-me de rapariga breve
em frente àquele espelho antigo
que revelou a Malte a sua androginia.
E ouvi as ondas quebrarem-se
como se a angústia chamasse
devagar pelo meu nome de água.
Senti com Fabrício a fome, a certeza
do veneno, o sol no rosto de Clélia.

Fui Quixote e Sancho e os moinhos
também. Passei muitas noites
ordinárias a folhear cartas devolvidas,
cartas de amor somente.
Em Quauhnahuac vi vulcões de álcool
arderem e abutres ternos
que esperavam pelo meu corpo.
Enrolei serpentes de tédio
ao meu colo nu de princesa
e comprei um vestido vermelho
para que reparassem no meu desespero.
Conheci o amor porque o li em Kavafis
e nalguns apressados corpos
que não posso voltar a ler.

Estive na Ponte de Pin a escrever
um longo testamento, «belo
como o tremor de mãos de um alcóolico».
Bebi do mesmo samovar que Kirilov,
mas decidi não partir tão cedo.
Conheci Malone & Molloy, meus próximos,
meus irmãos. Também tive dezassete anos,
também soube que não valia a pena tê-los.
Fui esses todos que não pude ser,
em Veneza e em Trieste, em Buenos
Aires e em Boston, ou no mar da Islândia.

Chorei lágrimas míopes, de tinta e de pouca
terra – para que não me ouvissem
os vizinhos e a posteridade.
Inventei a dor, desdisse-a, voltei.
Bebi loucamente com Anne Desbaresdes,
julgando que o vinho curava a doença da morte.
Vendi o corpo em Barcelona, na Calle
Carmen e na Calle Mediodía, só
para te comprar esta camisa – gostas?
Cheguei ao fim da noite mais cedo do que pensava.



Manuel de Freitas

Game Over

Se este senhor quiser, caso com a sua tristeza.

BWV 988


Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações de Goldberg
Não sei, não quero saber, não faço ideia.

Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.

Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.

O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.

É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida
não deveria ser exactamente assim.

Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.

E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino - uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).

E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.

Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.

A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu - ou ninguém, porque
ninguém basta. É um erro - mas gostamos
tanto - pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.

E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos, para ti,
foram sempre sentimentos vãos).

Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram - ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.

O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.

Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.

Qualquer coisa assim.



Manuel de Freitas,
A Última Porta

«o happy end é coisa dos cinemas»



FALA CIRCE

Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?

Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.

Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,

quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.



José Miguel Silva

Ulisses Já Não Mora Aqui




«ONDE A NOITE CAI SOBRE ANTUÉRPIA»

há uma tal ventoinha no tecto soprando
um possível começo um hotel um homem
bebendo whisky no balcão do bar

o gelo roça no vidro do copo
o calor atrasa as pás da ventoinha
uma mulher lê uma carta junto à janela sentada
num esquecido cadeirão de vime

é meio -

-dia ouve-se lá fora a claridade de um motor
de automóvel europeu fazendo fazendo a curva de uma rua inquieta
um pouco de cinema algum pó

tem o longínquo nome de Kikwit esta cidade
o nome do hotel não sei - Congo Belga anos cinquenta
a película retrata um tempo colonial

não conheço esta história
sei apenas que a mulher tem um vestido azul
que a carta foi tecida na distância de Antuérpia ao pôr do sol
junto ao porto por um homem que a já não quer

a mulher tem um cigarro ao fim dos dedos a cinza cai
a perna cruzada

o joelho branco apontado ao janelão
que dá para a rua

o homem no balcão é o dono do hotel
é português usa fato gravata impecável no pescoço suado
tem um livro dentro do bolso do casaco e espera alguém
olha a mulher sem olhar a mulher
dentro dela cai a noite sobre Antuérpia
relê sempre a primeira frase que diz

esteve um dia lindo no teu sorriso

das histórias que desconheço gosto muito desta
um lóbi de hotel uma cidade chamada Kikwit nos anos cinquenta
um homem uma mulher ele impaciente em whisky ela
triste em tabaco

não se conhecem nem se vão conhecer
o homem tem um livro no bolso a mulher o coração partido

entre o bar e o cadeirão de vime há um verso impossível

depois alguém entra a porta abre fecha
nesse intervalo um ruído de vozes calor poeira e comércio
invadem a placitude do lugar

o homem pousa enfim o copo no tampo do balcão
a mulher nem repara (esteve um dia lindo no sorriso dela
há muito tempo)

o português dirige a maior simpatia à
personagem que acaba de entrar - é Jacques-Yves Cousteau
o conhecido oceanógrafo francês

trocam cortesias
o gesto do português convida-o a sentar-se
apontando uma das cadeiras
o livro sai do bolso e vai estender-se na mesinha onde
acabam por deter-se

Cousteau aceita a caneta do português
abre na folha de rosto escreve o seu nome
debaixo do nome desenha um peixe

a mulher amachuca um pouco mais a carta
no gesto de a guardar na mala
levanta-se sai do hotel

consigo vê-la dobrando o edifício à direita
não sei para onde levou o começo de um choro
não sei onde leva aquela rua
desconheço toda a geografia da cidade africana

bem como o fim desta história
apenas que Cousteau subiu para um dos quartos
que o português sentado sorriu na direcção do tecto
com o livro encostado ao peito
desapertou um pouco a gravata
soube-lhe bem o inexistente sopro da ventoinha



Miguel-Manso

Contra a Manhã Burra

MARILYN



NA MORTE DE MARILYN

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo
Transporte No Tempo


A LUA E MARILYN

Tinha duas faces como a lua
Uma que toda a gente conhece
e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)
e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer
É esse o teu lado que me fascina
que sempre me fascinou
Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)
como uma borboleta
e não pesavas mais do que isso
e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir
o pólen que trazias agarrado nas mãos
Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo
(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)
custa-me a entender como é que tu ao passares a língua
pela casca de um fruto carnudo
lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa

90-60-90…

São essas rigorosamente as medidas do universo
em que te movias
as medidas do pesadelo
que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes
e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra
Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens
desaguam desesperadamente
O mar está encapelado
Nem me dou conta que está morta –
Subiram o pano
A sessão da tarde vai começar…
Gostaria de me encontrar depois contigo
num dos manicómios desta cidade
(há vários e vai ser difícil escolher)
Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas
amarelas e fragrantes
nos jardins da nossa inconsistência

Jorge de Sousa Braga,
O Poeta Nu

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Encontrei-me esta madrugada num livro e era uma cantora perdida



«Na altura em que os drinks eficientes, uma boa grafonola e uns quantos desejos disseminados por duas salas começam a por um pouco de magia dentro da mais banal assembleia, porque uma cantora me pergunta o que eu penso do seu repertório e eu respondo, exaltado pelo álcool e por dois olhos suficientemente belos para eu querer seduzir o corpo a que pertencem, que a sua arte não é digna dela, fica impaciente por justificar a sua carreira explicando-a e, por este motivo, procurando razões mas sem chegar a defender as suas coplas, cansada de argumentos já experimentados, declara: «Sim, eu sei o pouco valor que as minhas canções têm, o pouco valor de todos os que aqui estão, de todos os que temos de ver, mas…»
Não termina a frase. Acaba de sentir, de me fazer sentir, que a actividade incapaz de dar ao homem um olvido perdurável nunca sabe consolá-lo com uma sensação peremptória que se basta a si mesma, como é, por exemplo, a sensação de grandeza ou verdade.
No entanto, nem eu nem essa cantora aceitamos desconsiderar-nos, mesmo, e sobretudo, quando confessamos.
Ela, então, com rugas de medo espalhadas por todo o rosto, um rosto onde a transparente derrocada da pintura põe à mostra as mais secretas decomposições apesar da vontade dos olhos, ela, com as mãos como flores doentes postas naquele peito de veludo que uma fadiga já vai deixando cavado, com o corpo rebelde ao sobressalto, que o espírito comanda, ela, muito lenta, com a gravidade de quem apresenta ao juiz o último argumento, afirma: «Chego a tudo por caminhos modestos.»
E eu, sensibilizado com estas palavras simples, sinto vontade de me ajoelhar, beijar o rasto dos seus passos.
Repito: «Tudo por caminhos modestos.» Vou precisar desta luz parda da manhã que se regozija em denunciar a pobreza da tez e dos pensamentos, para fazer a mim próprio esta pergunta: não tomará ela os caminhos desviados por caminhos modestos? A vida de cantora será modesta para uma mulher que, só por si, tudo atrai? São os outros que ela ensina a desprezar, não a estimá-la. Aceita a dimensão falsa das palavras. E como poderá ficar de bem consigo própria quando tenta, não limitar-se, definir-se, mas perder-se?
Vive com os outros, chega-se aos outros, a todos os outros, a todos. ora, chegar a todos não é chegar a tudo mas, pelo contrário, não chegar a nada.
Um exemplo destes é um aviso.
E por isto, depois destas palavras, também eu resolvi ficar dali a pouco só, verdadeiramente só.»


Bom dia. Boa noite. Vou ver como nasce o sol no Bosque da Bolonha e esperar que a solidão seja possível.





René Crevel, O Meu Corpo e Eu

domingo, 1 de maio de 2011

E a tua ferida, onde está?



E a tua ferida, onde está?

Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.

(...)

Jean Genet