

















Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.
(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)
E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.
«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»
(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)
Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.
«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»
(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)














