sábado, 26 de junho de 2010

DO DESEJO




E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

* * *
Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
* * *
Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?



Hilda Hilst

Temos novo amor: Hilda Hilst



Alcoólicas


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Canção da Inocência Perdida



1

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

2

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C'mo sem ninguém lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

6

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

7

Bem sei: Muito pode vir
'Té que nada por fim. fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht

sábado, 29 de maio de 2010

INGEBORG BACHMANN (1926-1973)




Terra de névoa


No Inverno a minha amada

está com os bichos na mata.

Que eu tenho de voltar antes do dia,

a raposa sabe-o e ri.

Tremem tanto estas nuvens! E

na minha gola de neve cai

uma cama de gelo quebrado.



No Inverno a minha amada

é uma árvore entre as árvores e

convida aos belos ramos

os corvos abandonados da sorte. Sabe

que o vento, ao anoitecer, lhe levanta o

vestido hirto de noite e geada,

e me leva para casa.



No Inverno a minha amada

Vai silenciosa com os peixes.

Servindo as águas, movidas adentro

pelo o fio das barbatanas,

eu fico na margem e vejo-a

mergulhar e revirar,

enquanto os gelos não me expulsam.



E de novo, ao embate do grito

da ave que me ampara

com a asa, desabo

num campo aberto: a amada depena

as galinhas e atira-me

uma clavícula branca. Ponho-a ao pescoço

e afasto-me por entre a penugem amarga.



Infiel é a minha amada,

eu sei que às vezes flutua

de saltos altos até à cidade,

beija nos bares com a palhinha

os copos profundamente na boca

e vêm-lhe palavras para todos.

Mas eu não percebo o idioma.



Vi terra de névoa.

Comi coração de névoa.



uma espécie de perda


Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.



O Tempo Aprazado


Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Vêm aí dias difíceis.

A verdadeira poesia



Ontem foi um dia intenso. Fui a Neue National Galery e percebi que as minhas paixoes em arte nao evoluiram nada nos ultimos anos: ainda continuo desperadamente atraida pelos surrealistas.

Depois fui a uma poetry reading e embebedei-me:
A verdadeira poesia é a sede de poesia.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Wangechi Mutu: My Dirty Little Heaven




"O ventre das mulheres contém sempre uma criança ou uma doença" - Celine



vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

&

a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha

&

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

&

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente


Bénédicte Houart

domingo, 16 de maio de 2010

Andamos a adormecer juntas ultimamente e tem sido das melhores companhias que encontrei na cama

MULHER AO MAR



ANIVERSARIO

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao telhado desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os branco raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor.


-"Mulher ao Mar"- Margarida Vale de Gato

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Full of romantic hopes, I shall place my head in the oven as well



"I have a lot to give someone, someday. But I must not be too Christian. I can only end up with one, and I must leave many lonely by the wayside. So that is all for now. Perhaps someday someone will leave me by the wayside. And that will be poetic justice.

(...)

Click-click: tick-tick
Clock snips time in two
Lap of rain
In the drain pipe
Two o’clock
And never you.
Never you, down the evening,
I cannot
Cry, or even smile
Acidly or bitter-swetly
For never you and incompletely.
Things surround me;
I could touch
Soap or toothbrush
Desk or chair.
Never mind the three dimensions
All is flat and you not there.
Letters, paper, stamps
And white. And black.
Typewritten-you, and there
It is.
The trickle, liquid trickle
Of rain in drain-pipe
Is voice enough
For me tonight.
And the click-click
Hard quick click-click
Of the clock
Is pain enough,
Enough heart-beat
For me tonight.
The narrow cot,
The iron bed
Is space enough.
To bed and sleep
And tearless creep
The formless seconds
Minutes hours
And never you
The raindrops weep
And never you
And tick-tick,
tick-tick
pass the hours."

The Journals of Sylvia Plath 1950-1962

domingo, 20 de dezembro de 2009

Aos meus amantes



Isto não é poesia.
São fragmentos de pele,
Suor, lágrimas,
Vómito, pelos púbicos.
Saliva e merda
Muita merda.
São beijos também,
Flirts com a minha verdade
Que é múltipla,
Resistente e selvagem.
São corpos histéricos
Em busca de uma luz que liga
De um corte que toque a ferida.
São gritos desvairados
Umas vezes doces
Outras tristes.
Sem beleza poética.
E afinal das contas, tudo isto para quê?
Para muito pouco. Ou nada.
Um registo da luta diária
Que vou travando contra mim.
São então
Palavras
De mim
Para mim
Contra mim.
E tudo tão pouco.
Sempre aquém.
Hoje acordei e tinha a verdade
Espalhada por todo o corpo:
Uma aspereza na mão
Uma liquidez na face
Doce.
Não a esperava tão doce,
Tão calmante.
Para dizer a verdade,
Não esperava a verdade.
Embora toda a minha estória
Seja a tensão dessa procura.
Com muito sono
Por intermédio
Pois as horas maçam-me
E é sempre preciso derrotar-me um pouco.
Nunca amei. Não amo.
Às vezes tenho acessos de sede
E saio pelas ruas
Nua e sedenta.
Volto tarde com uma presa nos dentes.
Luto com ela na minha insaciedade.
Até que a sede vença de novo
E seja preciso voltar a navegar.
O meu nome é Eva
Nasci da terra vermelha
Dos homens e dos deuses
Criada como indigna e impura
Hoje corro as cidades
Comandada pela raiva e pela humilhação.
Há também uma vontade de vingança
(Não fosse a vingança feminina,
Ninguém a executa melhor do que uma
Fêmea enganada.
E a mim enganaram-me
E não me sabia mulher
Até ter sido enganada.)
Quando tenho medo,
Muito medo,
Fico quieta,
Quente e dócil
Fundo-me com a natureza dos cobertores
Numa vontade de aniquilação
De camuflagem.
Há algo de animal no meu corpo
De fera ferida,
Algo que vocifera,
Ruge,
Rosna,
Ronrona
E se dobra
Perante um predador mais desesperado.
Um desejo de crueldade
De violação.
Fui excluída da festa dos senhores
Relegada aos trabalhos domésticos
(Não sou uma mulher
Quando galgo as estradas,
Mas quando as coisas correm mal,
Torno-me mulher,
Injuriada como todas,
E culpo a condição.)
Um grito nas traseiras da casa
Que um dia será o grito da revolução
A minha forma de assassinar os senhores
É mastigar as suas carnes com o ventre,
Deitada por debaixo deles,
Alargada nos meus buracos de raiva.
E ressentimento.
Obrigada ao silêncio
Ou ao gemido de prazer.
Vergada pela reprovação,
Acusada da insegurança dos homens.
E dos deuses,
Já agora.
Também os deuses não sabem o que fazer com uma mulher.
O enigma da criação é o eterno feminino.
E para quando o meu banquete?
Para quando???
Eu quero sair
Beber o vinho da camaradagem
Descansar o corpo em redes sonolentas
Respirar
Olhar sem ver
Não estar em guerra
Mas não estar sozinha.
Quero tréguas:
Paz com os homens
E os deuses.
Corpo de cera,
Cabelo de boneca,
Porte de rainha,
A natureza não me deu nada disso.
Coube-me apenas um par de olhos,
Belos, fatais
E profundos, fundos.
Mas na mulher,
Já dizia Nietzsche,
São outros buracos que se querem profundos.
Abaixo do ventre.
Nunca os olhos.
Nem a boca.
E por isso,
(e por tudo o resto
- ou por nada)
Me revolto.
(E pode bem ser
Que me revolte apenas para melhor saborear a submissão).
Mas isso é cá comigo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

the boys i mean are not refined


the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance


e.e. cummings

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Canibalismo emocional


Os corpos andam loucos e suados,
Ansiando por prazeres de lonjura
Cruzam-se pelas ruas, esquinas, becos,
Tocam-se na guerra e no amor
Onde vale tudo e a vida vale tão pouco
Guerreiam-se, enfrentam-se, digladiam-se
Em nome de umas tréguas que esqueceram.
Não conseguem dormir, os corpos,
Andam pela cidade deserta, insones,
Vazios pela sede,
Por uma fome imemorial.
De manhã, os corpos vão cansados para a cama
Morrer um pouco.
Têm urgência em desnascer.
Depois de tanto se darem ao manifesto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

NADA


Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, um amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão"

Tu e Eu


Eras tu.
Eras tu quando passávamos as tardes no meu quarto abafado no Bairro Alto,
Nus e completos.
Eras tu quando ríamos juntos
E ninguém nos podia derrotar na nossa alegria.
Eras tu naquele dia em que fomos ao cinema
E fomos belos e fortes.
Perfeitos.
Um para o outro.
Companheiros.
Amantes.

Mas também não eras tu.
Não eras tu quando ficavas os dias inteiros em casa,
Amarrotado e sujo,
Espalhando derrota pelas paredes.
Não eras tu quando espumavas raiva
Contra todos os condutores do mundo,
Tentando expiar uma ofensa antiga
Talvez imemorial.
Não eras tu então
E, dentro de mim,
Algo te estranhava e odiava.

Eras tu quando acordavas e me tocavas o rosto.
Não eras tu quando não rias comigo.
Eras tu quando movias mundos só para me ver.
Não eras tu quando me gritavas o quanto me odiavas
E quão má eu tinha sido para ti.
Eras tu quando me olhavas numa ternura canina.
Não eras tu quando me deixavas adormecer sozinha e fria.
Eras tu quando me fazias sentir mulher na certeza de um abraço.
Não eras tu sempre que bebias demasiado.
Eras tu quando me ias buscar ao trabalho e levavas flores.
Não eras tu quando me traías.
Eras tu quando podia ser eu contigo.
E correr livre com o teu cheiro a seguir-me,
Não eras tu quando não podia ser eu.

Eras tu.
Meu pai, meu irmão, meu amigo,
Meu amante.
Não eras tu.
Meu adversário.
Não eras pão, madrugada e sono.
No meio disto tudo,
Deixei de saber quem eras.
E nesta intermitência nos perdemos.
E deixaste de ser tu.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Baforadas Nocturnas


Ás vezes,
Quando a alegria é tanta que ameaça partir o peito
em estilhaços,
ou quando o pensamento se torna velozmente irracional
e ameaça desapegar-se
do corpo que o pensa e sofre,
tenho vertigens.
Medo de deixar o corpo para trás.
Como um resto.
A esbracejar furiosamente.
Sobrando.

sábado, 14 de novembro de 2009

Há ratos em New York



Há ratos em Nova Iorque.


As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.


A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.


Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.


Lavrando no escuro à espera da desistência humana. Roendo arranha-céus, senhores do subterrâneo e dos asfaltos sujos.


Não se deixam tocar, são arredios, escapam pelas sombras, mas tenho carinho por eles.


Chamo a todos Pet e não reúno paciência nem esforços para os liquidar.


Quando os olho, fico fascinada e sei que a cidade será um dia deles.


Sei que se alimentam indiferentes dos restos dos nossos consumos e que sabem que também nós, um dia, nos havemos de consumir.


Os ratos não têm pena dos humanos mas não nos desafiam. Não querem comungar da nossa desgraça. Não querem conviver connosco, sabem que somos astros breves e que nos havemos de extinguir.

Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outono Transfigurado


Estranhos são os caminhos outonais que fazem regressar os corpos à procissão dos dias.

Outubro, mês de véus e mistérios.


Há um corpo aquecido pela celebração estival que regressa em passos silenciosos pela floresta opaca. Um corpo anónimo, forasteiro, com um rosto de prata oferecido sem pudor ao vento frio que o acompanha. Nos bolsos, esconde as mãos ainda ardidas pela recordação do amor, esse astro grave.

As aves levantam voo das suas moradas lunares á sua passagem. Temem que traga presságios malignos. Não podemos censurar as aves – não conhecem o silêncio de um coração humano em paz.


O verde nocturno abre-se e eis a cidade de pedra e as luzes eléctricas que a alumiam fracamente. Os passos tornam-se hesitantes: recordam as dores fundas que fundaram o ser.

No centro da cidade há uma praça. Nela uma estátua de olhos fechados com o dedo indicador nos lábios, convida ao silêncio os viajantes tardios. O corpo passa sem a olhar, apressado por escapar á ordem do esquecimento. Aperta mais as mãos dentro dos bolsos, não quer deixar escapar a liquidez que o acompanha.


Vagueia pela noite eléctrica, pisando as folhas amarelecidas nos passeios públicos, enquanto recicla a vontade de amar. Antes do dia nascer, entra numa igreja, concentra-se no som dos seus tacões a ecoar pelas paredes seculares e recorda o mistério do sagrado.

Quando sai, o sol forte já transformou a cidade de pedra numa cidade viva. As ruas estão apinhadas de pessoas, cheias de vendedores de vegetais, frutas e peixe. Os carros e as motas buzinam de alegria. O corpo perde o anonimato e transforma-se num rosto feliz por ter vencido a noite inumana.


Para celebrar o seu regresso, decide comprar castanhas assadas na próxima esquina. Observa o rosto fuliginoso da vendedora idosa e as suas mãos gigantes. Depois vai avenida abaixo, saboreando as castanhas solenemente. Quando termina, as suas mãos regressam aos bolsos do sobretudo. Contentes, apaziguadas e ainda quentes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MÁRIO CESARINY



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmera escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipícioe cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter med0
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny in " nobilíssima visão "


OS PÁSSAROS DE LONDRES

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio
fosse o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo
fora o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grande Bukowski


From my bed
I watch
3 birds
on a telephone
wire.
one flies off.
then
another.
one is left,
then
it too
is gone.
my typewriter is tombstone still.
and I am
reduced to birdwatching.
just thought I'd
let you know,
fucker.

Charles Bukowski

Afinal este homem era grande, tenho de admitir.

sábado, 29 de agosto de 2009

Muda de Vida

Construí mal. Usei os andaimes errados: construí para uma pessoa que não sou. Agora deito fora esta muda de vida usada e gasta e tento o que não tentei seriamente antes. Ser feliz.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sputnik, meu Amor


«Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.»


Resta o choque, a colisão como forma de toque, de carícia.

Mulher em Sangue




Este é um livro que li há algum tempo, mas que continua na minha lista mental dos livros da minha vida. O mais verdadeiro e também o mais violento.


Lorena é uma serial suicida, é o eterno feminino das mulheres que sangram, uma personalidade vulcânica que asfixia de intensidade, sem abdicar do humor.


«O sol desceu pela janela e perguntou por mim. O sol entrou no celeiro e procurou por mim. O sol me segui num rastro ao redor do feno. O sol me acordou com um beijo nos lábios. Sorriso caído, cigarro apagado. O sol puxou minha blusa e abriu minha calça. Lambeu meu suor, me derretendo. O sol me disse para não ter medo, não ia doer. Fogo no celeiro, com o sol sobre mim.


(...)


As chamas ardem mas eu não ligo. Eu fecho os olhos e agradeço ao rum. Que ninguém é tão sozinha com o mundo girando. Eu não vou ser tão sozinha no próximo verão.»


Lorena. A mulher que todos os homens querem amar, mas não conseguem. Porquê? Eu sei lá... Por medo, por insegurança, por falta de ousadia, por repulsa. Não é fácil amar uma mulher de corpo e sangue. Os homens ainda preferem as feitas de barro. Lorena Vs. Eva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Balada do Medo

Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.

Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.

O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.

O caso arrasta-se num relato que impressiona por se alimentar daqueles que experimentaram a forma dramática de solidão que é o medo. E que ficaram para contar ou dar a contar como o medo tem uma lógica que aliena de valores até um ponto em que se torna assassino. Porque o assassino é o medo.

Tragédias individuais nascidas de um erro colectivo - as sociedades de terror servem-se dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes essa mão está presente, em todos. «O medo é uma forma dramática de solidão», escreve o assassino. Um limite de solidão que aliena todos os valores e permite o crime. E o medo é o assassino.


Brilhante, JCP!


Tonio Kröger


Um grande livro. Gosto do estilo certeiro e mental de Thomas Mann.
Entre o narrador e a personagem principal não há quase distância, o que nos permite assistir à construção mental pelo artista pelo próprio. Sim, porque Tonio tornar-se-á um grande escritor. A personagem tem também muito do autor, na medida em que uma dúvida quanto à sua identidade perpassa todo o texto.

Conhecemos Tonio, adolescente, torturado pelo sentimento de exclusão e apaixonado por Hans, amando nele o seu próprio reverso: um rapaz belo, forte e vivo.

(Seremos capazes de amar para além do nosso reflexo? Conseguiremos escapar à nossa imagem? O outro deve validar a nossa identidade ou introduzir uma diferença?)
«O facto era que Tonio amava Hans Hansen e já muito por ele tinha sofrido. Aquele que ama mais fica sempre em situação de inferioridade e tem de sofrer – a sua alma de adolescente já tinha aprendido da vida esta verdade simples e dura; e Tonio era do género de prestar atenção a estes ensinamentos, de os anotar, por assim dizer, no seu interior, e de em certa medida retirar deles alguma alegria, sem que isso o levasse a alterar o seu comportamento e sem que deles tirasse algum benefício prático».
(Também eu, caro Tonio, anoto na minha carne as verdades que vou extraindo aos dias, sem que essas máximas inteligentes me façam viver melhor.)

Um par de anos depois, encontramos Tonio apaixonado pela loura e divertida Ingeborn, mas o seu coração já tinha aprendido que o amor pode morrer sem nos matar.

«Fidelidade! pensava Tonio Kröger. Quero ser fiel e amar-te, Ingeborn, enquanto viver. Tão bem intencionado que ele era. E no entanto cochichavam baixinho dentro dele um medo e uma tristeza, por ter afinal esquecido completamente Hans Hansen, apesar de o ver diariamente.
(…)
E rodava cuidadosamente à volta do altar, onde a pura e casta chama do amor ardia, ajoelhava-se em frente, ateava-a e aproximava-se de todos os modos, porque queria manter-se fiel. Mas passado algum tempo, sem se notar, sem causar sensação e sem ruído, estava no entanto apagada.
Tonio Kröger manteve-se algum tempo diante do altar, arrefecido, cheio de espanto e desilusão, por ter descoberto que a fidelidade era impossível no mundo. Depois encolheu os ombros e seguiu o seu caminho».

(Que triste lição, Tonio. É então, acredito eu, que iniciamos a nossa queda e deixamos de ser bem-intencionados: já que não pudemos morrer de amor, resta-nos sobreviver aos dias.)

E tornou-se um grande artista. Vivendo mal, vivendo da literatura e da poesia. Transformando o seu sentimento arcaico de exclusão no desprezo pelos outros, como vingança, na certeza do génio e na figura do escritor atormentado e afastado da vida.

«Ele trabalhava em silêncio, fechado, invisível e cheio de desprezo para com os pequenos artistas para quem o talento era um adorno social, aqueles que, fossem pobres ou ricos, andavam sujos e esfarrapados ou que praticavam o luxo com as suas gravatas fora do normal, se preocupavam principalmente em viver felizes, amados e artisticamente, ignorando que as grandes obras só surgem sob a pressão de uma vida dura, que aquele que vive não trabalha e que é necessário estar morto para se ser de facto um criador.»


(Neste ponto, estimado Tonio, sou obrigada a discordar consigo. A vida e a arte não precisam andar divorciadas. Para além da óbvia afirmação de que é possível transformar a vida numa obra de arte, acredito fervorosamente que é preciso viver intensamente para criar uma obra de arte enérgica e genuína e que o artista solitário rodeado de fantasmas é uma figura romântica que pouco serve a nossa época. É preciso viver, a arte não pode desistir da vida. A arte não pode servir o ressentimento contra a vida e a alegria. Nela colocamos a nossa humanidade e esperança.)

Tonio está ,de facto, morto, trabalhando para os seus fantasmas, Hans e Inge, afastado do doce e trivial compasso ternário da valsa da vida. Torturado por não pertencer nem à Arte nem à Vida. Dentro do desencontro.

«Mas o meu mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.
Não troce deste amor, Lisaveta; ele é bom e fecundo. É feito de nostalgia, de uma inveja melancólica, de um bocadinho de desprezo, de uma felicidade muito casta.»

(Não troço, Tonio. Na verdade, estou consigo, camarada. Embora isto não ajude, bem o sei. Entre os marginais, não poderá nunca haver um sentimento de classe. Mas antes do naufrágio, contemplemos as margens. A rir de preferência.)

Hoje

Queria desnascer.

O Golpe de Misericórdia


Um homem e uma mulher frente-a-frente, medindo forças e fraquezas: a guerra mais antiga, quotidiana.

Como acontece com tudo o que amo, fico sem palavras, recuso quebrar o encanto. Escolho as palavras de Augustina Bessa-Luís para deixar uma impressão.

«O Golpe de Misericórdia, espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos, é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.
(...)
O Golpe de Misericórdia é um livro extremamente sério, como toda a obra de Marguerite Yourcenar. Uma obra em que as suas digressões pelo passado são como que a lenta alquimia da solidão; há uma arqueologia da psique, como há das civilizações. Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.
Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure. Para o desvendar é que nos perdemos.»

O golpe de misericórdia no final tem algo de promíscuo, no sentido de um excesso de intimidade, que equivale ao acto amoroso nunca celebrado pelo par protagonista. A intimidade obscena entre vítima e carrasco, amante e amado.

« (…) tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inabalável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento: pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.»

A mais bela história de amor que li até agora.

Bestiário



Maravilhoso! Adorei particularmente a carta do homem que vomitava coelhinhos: entre o décimo e o décimo primeiro tudo se pode perder. O desespero é uma questão quantitativa. Não tem a ver com intensidade mas sim com acumulação.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Cântico dos Cânticos



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Cântico Negro, José Regio

Deixa isso comigo




Nem às paredes confesso

Quem sabe se te esqueci

Ou se te quero

Quem sabe até se é por ti

Por quem eu espero


Se eu gosto ou não afinal

Isso é comigo

Mesmo que penses

Que me convences

Nada te digo


De quem eu gosto

Nem às paredes confesso

E até aposto

Que não gosto de ninguém

domingo, 9 de agosto de 2009

Sonata de Kreutzer


O amor, o dito sentimento nobre e sublime, e o ciúme, o instinto abjecto de aniquilar um corpo que não suportamos que possa sentir e viver sem nós. O eterno e indecidido debate: o ciúme faz parte do amor? Podemos matar por amor?

Eu arrisco dizer que não. Agora por desamor, podemos torturar, esfaquear, esventrar e matar sem misericórdia.

«Mas não. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez não será assim — dizia-me uma voz, e tudo recomeçava. O que era horrível é que eu considerava-me com direito incontestável sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu próprio corpo e ao mesmo tempo reconhecia que aquele corpo não me pertencia, que ela não podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava não era conforme ao meu. Se ela não tivesse tido nada com ele mas o desejasse, e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido alguma coisa então eu o saberia e não mais haveria incertezas. Eu já não sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.»

Entre os lençóis


Primeira leitura de Ian McEwan. Um certo desapontamento e a esperança de que o autor seja melhor romancista do que contista.

Gostei apenas do conto homónimo. Entre os lençóis adormecemos inocentes, sonhamos dias diferentes, praticamos o vício e a tristeza e acordamos em pânico a meio da noite. Entre os lençóis somos crianças inocentes e adultos herméticos. Amar e assassinar: é entre os lençõis que ganhamos e perdemos a vida. E onde abandonamos o melhor de nós.


And this is where I stay, in between the in between.
No more cold winter days.
No more sudden tragedies.
If you really want to know me take away the human heart and stab it with something not so sharp.
Twist like her finger in my hair she's got a brand new white canvas on her face for me to splatter with paint.
She's got nothing more than what was left running down her throat.
The best of us was left in your sheets,
restoring things here in between defining what everything means to me.
The truth's sometimes so hard to see, in my passive uncertainty,
it's a chorus with no melody.
She's got a brand new white canvas on her face.
The best of us was left in your sheets.

domingo, 5 de julho de 2009

Miriam Reyes



No soy dueña de nada

mucho menos podría serlo de alguien.

No deberías temer

cuando estrangulo tu sexo,

no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.


Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.

Mi casa es este cuerpo que parece una mujer,

no necesito más paredes y adentro tengo

mucho espacio:

ese desierto negro que tanto te asusta.


Miriam Reyes, Bella Durmiente

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Perto do Coração Selvagem



«Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida». (James Joyce)


«Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda havia de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»


Depois de um período longo de crise, quietude, trevas e esperança, chegou a altura de me levantar, «forte e bela como um cavalo novo». E partir despida a galope com toda a força acumulada. Quem mo disse foi este livro de Clarice Lispector. É mesmo verdade que os livros, como as pessoas, não cruzam por acaso as nossas vidas: são portadores de mensagens e revelações que viajam no tempo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Leitura e o Prazer


«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro;

um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver).

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.

E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar:
por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.

Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu?
Paisagens e sítios de chegada.
Contabilidade económica da leitura.

(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)



Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009

domingo, 21 de junho de 2009

Carta de Amor




Escrevi poucas cartas de amor. Agora que tento recordar quantas, só me lembro de uma e de várias preces à lua por alturas da descoberta do amor. Mas, desde que me apaixonei por ti, vêem-me frases à cabeça acompanhadas da imagem do teu sorriso terno. E um rasto de perfume inebriante que me atordoa. E daí a necessidade de te escrever esta carta e a esperança de que a leias e não tenhas dúvidas que a ti se dirige.


«O teu rosto é uma paisagem onde descanso os olhos e ouço o marulhar do meu mistério» - esta uma das frases. Não sei o que significa para além do que significa. Esta a frase mais insistente.

«Moravas já na minha infância». Outra frase-fantasma.


Ontem andava por bares e chamava por ti em silêncio. Apenas a necessidade de te ver. Do meu corpo encontrar o teu e poder existir lado a lado por uns momentos. Se é amor não sei, já vivi muito, provei até o sabor amargo das desilusões, mentiras e traições, entreguei o meu corpo a meros passageiros numa ânsia de o martirizar, e conheço hoje a palavra espantosa que é desamor.

Como ia dizendo, se é amor não sei. Mas deve ser senão não chamaria a isto carta de amor. O que sinto por ti é um sentimento apaziguador de plenitude que não senti antes. Conheci-te antes, é verdade, e não te amei; havia uma tensão no teu corpo e um sopro de medo que cortava a tua voz que me impedia de te olhar como um rapaz. Um homem. Mas sempre me senti abraçada pelo teu sorriso, um sorriso branco, fácil, de tarde solarenta.

E então, quando menos esperava, quando menos convinha, olhei-te e vi-te e agarrei o teu rasto como um porto seguro onde poderia arriscar erguer-me e voltar a amar. Sem medo. Não o quis confessar logo a mim, preferi censurar-me e pensar que era má. Sempre pensei que era má, ainda hoje penso, mas o sentimento que trago por ti, impede-me agora de me crer assim. E um dia em que os nossos corpos brincavam, vi o teu rosto despido da tensão de existir a medo e foi o rosto de prazer mais belo que vi. E então soube dentro de mim, com calma que te amava. Uma certeza que me adormeceu no meio de todo o caos e decadência.

Hoje cheguei da praia com o corpo aquecido pelo calor salgado e ouvi a minha carne a reclamar o teu toque. A exigir a tua presença. Gritei-lhe alegre de volta que estivesse quieta, que a nossa paixão era sozinha. E ela gritou-me irada que não entendia, que o amor acontecia tão pouco, que era uma estupidez não viver esta doçura mesmo que se esgotasse. Calei-me sem resposta e toquei-me triste a pensar em ti.

Talvez um dia destes te encontre pela cidade e sofra por já não seres ferida, paisagem nem mistério. Talvez nem sofra porque a mente apagou um sentimento que precisava de outro corpo para se alimentar. Mas a minha carne há-de recordar o calor salgado, o meu corpo há-de prestar mais atenção ao andar para não vacilar, triste e sozinho, rasgado pela memória de um amor que não se cumpriu, de uma vertigem feliz que não pude partilhar. Contigo.

E agora, com licença, vou à minha vida.

domingo, 31 de maio de 2009

A Dor de Ser Quase


Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou... -
Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro

Fado


«Deste-me um beijo e vivi.

Da força que veio de ti encontrei a fé perdida.

E o meu corpo, feito grito,

Pediu mais vida à vida.»

Domingo




Um ramo de cravinas e um ramo de boca-de-lobo.
E a palavra casa.

Diário de uma Queda




Apaixonei-me, outra vez. Este ano, outra vez, primeiro pela Dorothy Parker, irmã de sarcasmos agridoces. Ontem pela Clarice Lispector. Um fim-de-semana de encontro, companhia na cama, a euforia de um sorriso que chora mas que consegue ainda rachar a solidão. Apaziguar a perturbação pelo testemunho da beleza que tortura e perde e obriga à queda.

(A uma queda a que me entrego à espera do embate, do momento final do crash. Mas a queda demora, cair é cair sem parar, talvez nunca bata no fundo, talvez já tenha batido - vivi a noite mais longa da minha vida, triste e alerta, envelheci muitos anos, não sabia que havia noites assim tão claras, loucas e tristes, consegui arrastar o meu corpo destroçado até casa e deitá-lo naufrágo na cama - talvez não haja fundo. Talvez bater no fundo seja dizer bati no fundo. Ou talvez bater no fundo seja ficar sem palavras, possuído por um silêncio imemorial. E se um dia não conseguimos continuar? E se um dia nos entregamos à delícia de não querer sobreviver, de não querer ultrapassar, esquecer, matar e morrer? Como parar de sentir, atropelar o sentimento de modo implacável sem lhe dar sequer a oportunidade de um último espasmo? E se um dia o sentimento nos possui, arrasta pelos cabelos e não quer desisitir de nós?)

O Verbo fez-se carne e veio aquecer o meu corpo. Prende-me à cama numa preguiça sensual de cabelos em desalinho e doces vincos na pele, vira-me do avesso e murmura «O meu nome é legião».

terça-feira, 26 de maio de 2009

Temor e Tremor



«Ela tinha mais subordinados além de mim. Eu não era a única pessoa que ela odiava e desprezava. Podia ter martirizado outras pessoas. Ora, ela não exercia a sua crueldade a não ser comigo. Isso devia ser um privilégio.
Devia ver nisso uma eleição.
[…]
Cara tempestade de neve, se eu puder, com tão pouco, ser o instrumento do teu gozo, está à vontade, ataca-me com os teus flocos ásperos e duros, com as tuas pedras de granizo talhadas como sílex, com as tuas nuvens tão pesadas de fúria, aceito ser a mortal perdida na montanha, sobre a qual eles descarregam a sua cólera, recebo em pleno rosto os seus mil perdigotos gelados, não me custa e é um belo espectáculo a tua necessidade de me ferir a pele à força de insultos, disparas pólvora seca, cara tempestade de neve, recusei que me vendassem os olhos face ao teu pelotão de execução, pois há muito que esperava ver o prazer no teu olhar.»


Há algo de erótico na luta de morte entre uma vítima e o seu carrasco. O ódio é um acto de eleição, semelhante à paixão, requerendo a mesma energia, esforço e astúcia.

Good Night & Good Luck




Veneno. Vómito.
Tenho um grito impossível dentro de mim.
Queria tanto, tanto expulsá-lo.
Mas não consigo odiar, não consigo morrer.
Vasculho a história à procura da raiz do mal.
Quem me fez, mal?
A menina gosta de dramas. Vá lá, confesse.
Nasci a 11 de Setembro, filha do ressentimento e de afectos por cumprir,
Tive dois irmãos,
Com um conheci a comunhão e a traição,
Éramos camaradas de trincheiras, dormíamos juntos,
Sonhávamos longe os dois,
Atravessávamos pântanos e campos, roubando frutas e um futuro triunfante,
Fumávamos a solidão e ríamos de todo o mal.
Pensávamo-nos imunes.
Mas a infância passou e sobreveio o desgosto.
O desencontro. Restaram os livros e os cães.
O outro irmão só o conheci anos mais tarde no desamparo.
Quando ele me aceitou como pessoa e pude enfim ter uma voz.
Ao meu pai, escrevi uma carta de amor a pedir tréguas.
Obtive silêncio e uma palmada nas costas:
Desconhecemos como quebrar a ausência que nos afastou.
E a culpa de quem? Tua, que nasceste primeiro?
Ou minha, que compliquei o teu fracasso?
A minha mãe continua surda,
Desfia o dia inteiro punhaladas de agulha na minha pele.
E se me dói é porque sou mesmo igual ao meu pai.
Um sangue que é conhecido por não chorar em funerais.
Um sangue mau e amargo que nem os mosquitos gostam de picar.
A voz da minha mãe dentro da minha cabeça a martelar.
A insistir na minha derrota, para me provar que não há saída.
E eu a correr, às cambalhotas, aos trambolhões,
A rir de impertinência e desafio de todas as regras e convenções.
Cresci perfeita, forte, saudável e fatal.
Num país sem nome nem emoções.
O meu avô ensinou-me que nada estava definido à partida,
Que tudo era possível.
O meu pai morreu de overdose,
Os ombros perderam as asas, ficou apenas a pergunta:
Onde está o banquete que nos prometeram?

Mais tarde, o descontrolo, o desejo a ultrapassar-me,
Veloz e furioso de vingança.
Queria tanto, tanto chorar. Doer-me e poder apontar a dor.
É aqui senhor doutor. Agora, cure-me.
Mas não. Temos tempo, diz o doutor.
Tempo para quê?
Tempo para perder tempo.
Tempo para agonizar. A dor é minha, não é?
Não fiques chateada, pequenina.
Custam-nos cada vez mais os esforços pelos outros.
Já nos pesa tanto o corpo quando nos levantamos de manhã
Ou quando nos deitamos, bebidos pela sede de amor.
E eu só me apetece gritar: à merda com toda essa covardia!
O meu irmão asfixia na gaiola dos dias normais,
Então só ele é que é vil? E a gente?
Se não te consigo perdoar, é porque não te mereci.
Deixa de beber: és tão volátil que o álcool não te convém.
Porque luto tanto contra isto?
Os encontros são cada vez mais raros e curtos
Perdi a inocência.
São, no entanto, mais intensos.
Trazem em si a força dos últimos fôlegos.
É disto que se faz a grande literatura, dizem.
Partiu-se qualquer coisa.
Uma máquina só se revela quando deixa de funcionar.
És linda, porque causas sofrimento e também sofres.
Não quero sentir mais.
Quero só dormir e acordar com a alma despida.
Mais leve. Mais nova. Menos flácida.
Matar o veneno da esperança.
Aceitar que ninguém virá e que é preciso cozinhar
Para não morrer de fome. De sede. De frio.
Mas, no final das contas,
Nada disto tem importância.
São precisos dias maus.
Para que possam haver dias bons.
Até amanhã.

domingo, 24 de maio de 2009

Higiene do Assassino



«Gostaria de lhe ter ensinado que, estrangulando Léopoldine, eu lhe poupara a única morte verdadeira, que é o esquecimento. Você considera-me um assassino, quando eu sou um dos raríssimos seres humanos que não matou ninguém. Olhe à sua volta e olhe para si mesma: o mundo está cheio de assassinos, ou seja, de pessoas que esqueceram aqueles a quem dizem ter amado. Esquecer alguém: já pensou no que quer isto dizer? O esquecimento é um gigantesco oceano onde navega um único navio, que é a memória. Para a imensa maioria dos homens, esse navio reduz-se a um miserável bote que mete água à mínima ocasião, e cujo capitão, personagem sem escrúpulos, só pensa em fazer economias. Sabe no que consiste essa ignóbil palavra? Em sacrificar quotidianamente, entre os membros da tripulação, os considerados supérfluos. E sabe quais deles são considerados supérfluos? Os patifes, os maçadores, os cretinos? Nada disso: os que são atirados pela borda fora são os inúteis, aqueles de quem já nos servimos. Esses deram-nos o melhor de si mesmos: que mais nos poderiam, pois, dar? Vá, nada de piedade, limpemos a casa e zás! Atiram-nos da amurada, e o oceano traga-os, implacável. E aí tem, minha cara menina, como se pratica com toda a impunidade o mais banal dos assassínios.»


Certas vezes, dou comigo a pensar que sou uma espécie de deficiente emocional, incapaz de ultrapassar as perdas, incapaz de fazer sentido da minha história. Parece-me que perdi qualquer coisa, talvez a imunidade contra a vida e a dor. Tornei-me humana, demasiado humana, nos ombros não carrego mais o peso etéreo das asas mas a marca do esquecimento. Das punhaladas no meu peito. Porque esquecer é isso: apunhalar o próprio peito na tentativa de expulsar uma ocupação.

Como se esquece alguém a quem um dia demos o significado da rosa e de todas as outras coisas humanas? O esquecimento é uma educação para a tristeza. Recordo um poema de Rainer Maria Rilke que um dia amei e decorei, para o esquecer durante anos.


«É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas, e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido em infinitamente angustiadas mãos,
e abandonar até o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.

É estranho não mais desejos desejar.
Estranho, passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,tudo o que antes tinha unidade.
Estar morto é laborioso e cheio de recomeços,

até que aos poucosmos apercebamos da eternidade. - Mas todos os vivos
cometem o erro de fazer distinções demasiado rígidas.

Os Anjos, diz-se, não sabem muitas vezes se se movem
por entre os vivos ou por entre os mortos. A eterna corrente
consigo arrasta incessantemente todas as idades,
através destes domínios, e o seu som a ambos se impõe.
Afinal, de nós já não precisam aqueles que tão cedo nos foram arrebatados,
suavemente se vai perdendo o gosto pelo que é terreno,
tal como ao crescernos desprendemos da doçura do peito materno.
Mas nós, que de tão grandes mistérios necessitamos, nós para quem o luto
é tão frequentemente a fonte do feliz amadurecimento - : poderíamos sem eles existir?»

Tinha 16 anos quando aprendi este poema. Pensei que falava da morte, da morte que todo o esquecimento traz. Porque a verdadeira morte é o esquecimento: morremos quando esquecemos alguém e só morremos mesmo quando ninguém estranha mais a não circulação do nosso corpo por aí. Quando nos tornamos apenas restos de um corpo que precisa de uma inscrição para avisar de que aí jaz. Que um dia cá esteve.


Recordo sempre tudo, afinal. A minha história é uma antologia de esquecimentos falhada.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Arquipélagos Aquáticos



«Um homem pode estar doente, mais gravemente, ainda do que este, e ter o seu momento de felicidade, qual seja, tão só o de se sentir como uma ilha deserta que uma ave sobrevoou, de passagem apenas, trazida e levada pelo inconstante vento.»


Somos ilhas à deriva, atravessadas por breves momentos pelo encontro entre dois seres. O resto é apenas a memória desse momento excepcional de luz e beleza. E a procura e esperança na possibilidade de repetição. Recordarei sempre uma tarde de tempestade e trovoada, em que três amigos se abrigaram num toldo perto da escola onde me deseduquei com afinco, e fomos um. Completamente encharcados pela chuva e pelo encontro sublime que ameaçava rasgar os nossos peitos e cortar definitivamente a condição imposta de ilhéu. Era cedo demais então para saber que um dia poderia ser tarde demais. Não conhecíamos as armadilhas do tempo nem a raridade e brevidade dos arquipélagos.


Convosco aprendi também a delícia da palavra amizade e reencontro e sempre que vos olho, relembro e revivo o momento aquático e sublime daquela tarde de tempestade. Quando morrer, se houver um flashback, esse momento estará lá certamente.

Endgame



Gostava de te marcar de alguma maneira. De uma maneira profunda e silenciosa, grave, para que nunca mais te pudesses esquecer do meu nome, do meu cheiro, do bem e do mal que carrego sobre os ombros. Gostava de te marcar de alguma maneira. A quente e a seco, como um ferro em brasa. Sem dó nem piedade, apenas a liberdade sem limites da perversão. Para que não pudesses continuar a tua vida, incólume, com a expressão de quem conhece tudo sobre a vida, as pessoas e está cansado. Gostava de te oferecer a minha imagem como fantasma e alucinação.
Conheço apenas as palavras fogo e incêndio, ferida e cicatriz. E a vontade de te marcar. De alguma maneira. De preferência, de uma maneira grave. Para que a possibilidade de perdão fosse impossível. Marcar-te de um modo irreversível e sem volta. De preferência na carne, que é onde nos doemos mais. Onde me dói mais a tua ausência. Marcar-te. Para que nunca mais parasses de sangrar, para que te tornasses um ser maculado, jamais absolvido. Eternamente condenado comigo. A mim.

Gostava de te marcar. Para que a minha profundidade ficasse eternamente gravada na memória da tua pele. Para que pudéssemos partir juntos e estilhaçados em mil aventuras de fumo e incenso. Perdermo-nos um dentro do outro em insónias incendiárias. Fogos fátuos, por fim regressados a casa, dormindo abraçados durante a queda. Feridos e juntos. Gostava de te marcar. De terminar contigo. Para sempre e de uma vez por todas.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Está tudo certo, Aníbal!


Mais um jantar com o Aníbal, o outro e estou convencida que há um gene qualquer de insanidade grave acentuada na minha família. A explicação genética torna a coisa bastante mais confortável.

«Umas pessoas são mais complicadas, outras menos. E, no fundo, está tudo certo.»

E está mesmo, Aníbal.