domingo, 14 de agosto de 2011

Há uma gravidez do pensamento no tédio





“Para o pensador, bem como para todos os espíritos sensíveis, o aborrecimento é aquela desagradável «calmaria» da alma que precede a viagem venturosa e os ventos joviais. É preciso que eles suportem e aguardem o seu efeito. É exactamente isso que as naturezas medíocres não conseguem atingir por si! Afastar de si o aborrecimento, a qualquer preço, é coisa tão comum como trabalhar sem prazer. Talvez seja isto que distingue os Asiáticos dos Europeus – serem capazes de um repouso mais longo e mais profundo. Mesmo os seus narcóticos actuam lentamente e exigem paciência, em contraste com a rapidez repugnante do veneno europeu – o álcool”.

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência

Sigo nietzscheana.






“E então se o prazer e o desprazer estiverem de tal modo entrosados que, quem quiser usufruir o máximo de um, seja obrigado a ter também o máximo do outro? Que quem quiser aprender a «rejubilar até aos céus» tenha também de se preparar para a «depressão até à morte». E é talvez, assim, que as coisas sejam!”

Friedrich Wilhelm Nietzsche, A Gaia Ciência

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Lê-se numa noite e deixa mazelas de graça






Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu Peito.

E traí e fui traído.
e duvidei, impacientemente, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).

Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.

Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.

Manuel António Pina

It's all right, ma...




Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.


Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.


Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.


Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.


Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.


Nas tuas mãos
entrego o meu espírito
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.


Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.


Manuel António Pina

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

“The whole world is three drinks behind" - Humphrey Bogart

Confesso que voei






Mas, se nestas seis décadas e meia
eu fui capaz de algum voo

– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –

devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.

Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.

Voei, está voado.
Nada de nostalgias.



A.M. Pires Cabral

Metereologia fodida



METEOROLÓGICA


Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:um dia
tão bonito
e eu
não fornico.


Adília Lopes

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Provérbio medieval

«Per aspera ad astra».

Até às estrelas pela adversidade.

Provérbio brasileiro



Coração alheio é terra que ninguém pisa.

Descansa em mim



Desconfiei do teu rosto na primeira noite. Mas a primavera negava-se com pudores rijos e eu tinha bebido demasiados whiskies por distracção. Confundi-te com um comboio e coloquei o meu corpo na linha para te travar.
Alguém gritava o meu nome pela janela enquanto eu te ordenava:
Cala-te e fode-me,
Depois, partiste rude e indelicado, murmurando semelhanças com actrizes de Hollywood que eu desconhecia.
No dia seguinte acordei dorida, a memória da loucura impressa em sangue pisado nas minhas vértebras. Alguém me disse que eu andava a brincar com tudo isto e isso alegrou-me ainda mais. E o tempo foi fluindo, com o vento de feição sobre os selins da esperança.
Tornei a reencontrar-te no teu despropósito e qual soldado da legião estrangeira, pensei que podia sair incólume. E foi como uma febre veloz, sem pausas para convalescença. Os dias abundavam de fomes e ameaças de enfarte e o meu corpo inquieto cirandava pela cidade. Só no teu olhar insistente encontrava a calma. E eram as palavras – sempre as palavras - as palavras mais belas, tão longamente queridas, que bebi com sedes arcaicas. Delirante, desafiei os deuses e prometi-te eternidades exclusivas. Porque eu era um livro de pernas abertas que só tu conseguias ler.
Falavas de amor, de queda, de anjos e eu julguei que todos os campos bombardeados que tinha atravessado serviam apenas para te amparar. São malícias da inocência, perdoa, meu querido, com tanto ruído não percebi que também eu caía e que os meus braços jamais seriam raízes.
No apeadeiro final, restei paisagem acidentada nos estilhaços de uma janela. Fiquei a sós com a tarefa de me fiar mulher. Recusei os venenos amargos que me ofertavam e não tomei outros corpos como paliativos. Deixei-me estar quieta, muito quieta, a brincar com a morte. Durante dias a fio meditei nos cães de caça e na fome que os treina.
E três vezes a pergunta bateu à porta:
Quem te fez mal?
E três vezes a recusei com uma vírgula de ironia no sorriso:
Quem me fez, mal?
Apenas por caminhos travessos se alcança a ponta do desamor.
Parece que os gregos tinham razão e as paixões servem apenas para compor belos epitáfios. Por isso descansa em paz, meu amor. Dentro de mim. Não tenho outras águas para arrumar as saudades que restam.

Regresso sempre com o mesmo espanto pueril aos meus primeiros amores




Manhã de Embriaguez

“Ó meu Bem! Ó meu Belo! Fanfarra atroz em que não cambaleio. Cavalete féerico! Hurrá pela obra inaudita e pelo corpo maravilhoso, pela primeira vez! Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar. Este veneno vai ficar em todas as nossas veias, mesmo quando, regressada a fanfarra, formo devolvidos à antiga inharmonia. Ó nós agora tão dignos destas torturas, cumpramos fielmente a jura sobre-humana feita ao nosso corpo e à nossa alma gerados: esta promessa, esta demência! A elegância, a ciência, a violência! Prometeram-nos enterrar na sombra a árvore do bem e do mal, banir as honestidades tirânicas, afim de que pudéssemos nosso puríssimo amor. Isto começou com uma certa náusea e isto acaba – não podendo assenhorear-nos já de tal eternidade, - isto acaba por uma debandada de perfumes.

Risos de criança, discrição de escravos, austeridade das virgens, horror destas caras e destes objectos, sagrados sejais pela recordação desta vigília. Isto começou com toda a grosseria, eis que isto acaba em anjos de fogo e de neve.
Breve vigília de embriaguez, santa!, quanto mais não seja pela máscara que nos deste! Afirmamos-te, método! Não esquecemos que exaltaste outrora todas as nossas idades. Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias.
Eis o tempo dos ASSASSINOS.”

Jean-Arthur Rimbaud

terça-feira, 26 de julho de 2011

E aprende-se.

Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.


Jorge Luís Borges

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O corpo do leitor é a entrada secreta de um texto


"Não é por esperares alguma coisa deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livro, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave."

Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno um Viajante

domingo, 26 de junho de 2011

um livro tem que ser como um machado



"Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio."

Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904

domingo, 19 de junho de 2011

Com a carne triste



BRISE MARINE

La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!


Stéphane Mallarmé

A grande beleza arranhada



Há cerca de quatro meses, com a primavera atrasada, encontrava consolo apenas nas palavras de Herberto Hélder. Palavras de cão batido. Um amigo avisou-me, carinhosamente, que parasse de o ler. Parece que mata muitas pessoas. Respondi que não queria abdicar da beleza apesar do perigo que nela reconhecia: até os mortos têm direito à beleza por isso lhes oferecem flores. Ao que ele corrigiu: só os mortos têm direito à beleza, por isso lhes oferecem flores. Rematei o problema dizendo que pararia no dia em que ele me receitasse um livro upper, a salvo dos efeitos narcóticos da indignação e da raiva. Um pedido difícil, bem sei, dado que o desamor e a mágoa parecem ser os motores mais potentes do esforço literário. As maiores obras foram escritas na merda.

Contudo, através de outras mãos, acabei por encontrar esse livro-estimulante e dediquei os últimos dois meses e meio a essa paixão, que defini como intermitente para que o prazer pudesse durar mais: As Aventuras de Augie March de Saul Bellow. São as vantagens dos chamados calhamaços: juntamente com o tempo e o fôlego arriscamos um compromisso emocional.


No primeiro parágrafo, Augie apresenta-se a si e ao estilo da narrativa das suas aventuras: “Sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria -, e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre. Vou, portanto, fazer o relato à minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; às vezes uma pancada inocente, outras nem tanto. Mas o carácter de um homem é o seu destino, diz Heraclito, e no fundo não há forma de disfarçar a natureza das pancadas, nem fazendo um tratamento acústico na ponta nem cobrindo os nós dos dedos com uma luva” (p.9). E está dado o mote para as 700 páginas que se seguem: o relato de um rapaz que cresceu pelas ruas de Chicago, a cidade dos gangsters, como um órfão, retirando do desamparo a garantia para a sua independência e busca pela liberdade.


A infância de Augie é passada entre a simples e resignada mãe, o irmão atrasado mental Georgie e o irmão mais velho, o combativo Simon, entretida pelas mentiras para sacar dinheiro às instituições de caridade e pelos ensinamentos da resmungona avó Lausch “sobre um mundo em que os crédulos, amorosos e simples vivem cercados pelos astuciosos e duros de coração” (p. 19). A adolescência é populada por vários empregos ocasionais, desde distribuir panfletos de propaganda para um teatro, ajudar na distribuição de jornais com o primo, pau para toda a obra do paralítico Einhorn, trato com pugilistas e breves incursões pela criminalidade.


“De tudo isto, o que queria eu para mim? O meu irmão Simon não era muito mais velho do que eu, e ele e outros rapazes da nossa idade já tinham percebido que era preciso viver a vida e escolhido a direcção que pretendiam seguir, enquanto eu continuava a andar em círculos (…)
Mas quando não existe nenhuma Sicília pastoril, nenhuma pintura livre da natureza, mas apenas a aflição profunda da cidade, e cedo somos forçados a ter objectivos profundos da cidade, sem nos mandarem, com o nosso éfode vestido, apresentar-nos perante Elias para começarmos a servir no templo, não enviados a cavalo pelas nossas irmãs chorosas estudar grego em Bogotá, antes acabamos por ir parar a um salão de bilhar – o que tem isso de elevado? (…) Amigos, companheiros humanos, homens e irmãos, não há maneira breve, condensada ou taquigráfica de dizer até onde isso nos leva. O próprio Crusoe, sozinho na natureza e sob o firmamento, passou tempos duros e complicados com o inumano, e eu estou no meio de uma multidão que produz resultados com muito mais dificuldade e relutância e sou parte dela” (p. 118-119).


Num primeiro olhar mais superficial e descuidado, Augie parece-nos uma folha ao vento, levado ao sabor das influências que o enredam. E ele está rodeado de gente manipuladora que o procura recrutar para os seus objectivos e realidade (Bellow começou por chamar ao seu romance «Vida entre maquiavélicos»). Porque todos andam à procura de alguém para partilhar a sua sina e Augie é um bom ouvinte, retirando a melhor polpa das apaixonantes personagens secundárias que o vão interpelando pelo caminho. Mas o nosso rapaz é salvo por um sentimento de oposição que traz dentro de si e “um enorme desejo de oferecer resistência e dizer «Não!» que não podia ser mais claro, uma sensação tão inequívoca como uma pontada de fome” (p. 162).

Com ligeireza, vai crescendo à deriva. Termina o secundário, apaixona-se, recusa ser adoptado por um casal abastado, envolve-se no contrabando de imigrantes, viaja clandestino em vagões de mercadorias com outros vagabundos, é preso por engano e pressente que “a escuridão existe. E é para todos.” (p. 239). Sofre as primeiras mortes e deslealdades. “E acontece também que, enquanto para defender outra pessoa falta vigor, para defender o gosto de ovo na boca não se medem esforços, e é assim que se distribui amor” (p. 341).


Todavia, Augie não é o desamparado que vai entrar para a estatística pelo lado do crime, da deliquência ou da desistência. Não, ele é demasiado teimoso e esperançoso para se deixar abater assim pela realidade. Fazendo da errância uma aliada, busca acertar em si, saltando de ocupação e interesse. É acometido pela febre da leitura mas a universidade não o entusiasma. “Afinal, quando o vento virava para sul e oeste e soprava dos currais dos matadouros trazendo a poeira das fábricas de fertilizantes para as belas trepadeiras que cobriam os muros, tinha a sensação de que tinha havido um salto de alguns dos estádios intermédios entre a bruta criação e a mente sublime, e que esse salto era muito grande” (p. 385). Gosta dos prazeres que o dinheiro proporciona mas não está disposto a sacrificar a sua liberdade para o obter. Em suma, Augie não alinha.


Através de um amor forte conhece a comunhão e pensa que a unidade humana talvez não seja um mas dois. Por isso, alinha com a sua amada e vai para o México treinar uma águia a caçar lagartos gigantes. A tarefa falha assim como a pureza dos sentimentos soçobra. Com o crânio e o orgulho ferido, Augie sangra durante algum tempo. “Porque o que não se sofre na carne é quase como um sonho, ou como disparos de luz, fogos-de-artifício que salpicam o céu e rodas de luz branca que espalham faúlhas numa terra triste” (p. 425-426).


Regressa a Chicago e tenta perceber que rumo dar à sua vida. Concebe utopias que são interrompidas pela guerra. Faz todos os esforços necessários para se alistar e combater. Pelo caminho, encontra o amor, concebe-o como definitivo e casa-se. Num acidente de guerra, naufraga e quase morre. Nas últimas páginas da sua narrativa, encontramo-lo na Europa, bem-sucedido financeiramente com negócios ilegítimos e lutando diariamente contra a faina de preocupações e segredos. Por amor e fé no humano.


“Ninguém imaginaria o esforço que há por detrás disso.
(…)
Stella chegou dos estúdios e foi tomar banho; gritou-me do quarto de banho:
- Amor, traz-me uma toalha, se fazes favor.
(…)
Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz (…). E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado; e além disso, todo aquele tempo em pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo (…). E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de chegar a qualquer lugar que seja, incapazes de obter justiça ou desforra, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos e ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro” (p.691).


No final do bildungsroman, Augie é já um homem feito, inteiro e que não saiu derrotado na empresa. Despede-se de nós com o seu riso optimista:


“Ainda estava gelado da caminhada pelos campos, mas, pensando em Jacqueline e no México, comecei a rir outra vez. Este é o animal ridens que há em mim, o animal que ri, sempre a ressurgir. O que há de tão risível em que Jacqueline, por exemplo, tão agredida por forças brutais, ainda se recuse a ter uma vida de desilusão? Ou será que rimos da natureza – incluindo a eternidade – por ela pensar que nos pode derrotar a nós e à força da esperança? Ná, não, creio. Nunca nos derrotará. Mas provavelmente a piada está nisto, em cima de nós ou dela, e o riso é um enigma que inclui os dois. Olhe-se para mim, viajando para todo o lado! Ora, sou uma espécie de Colombo daqueles que estão à mão de semear e acredito que podemos chegar até eles nesta terra incognita imediata que espalha diante de cada olhar. Pode muito bem dar-se o caso de eu ser um fracasso nesta linha de empreendimento. Provavelmente Colombo também deve ter pensado que era um fracasso quando o recambiaram acorrentado. O que não provou a inexistência da América” (p. 709).


Circulando com o mesmo à vontade pelos antros de Chicago como pelos salões dos abastado, buscando o amor e praticando as boas intenções com todo o mesmo vigor com que se envolve em negócios obscuros, Augie não pertence a nenhum dos lados da barricada da grande batalha da Humanidade. Não é dominado pela inocência nem pela malícia. É o espírito livre americano que Walt Whitman cantou nos seus versos e a sua narrativa segue as pancadas dessa liberdade num ritmo intenso, apaixonado, bem-humorado, como um longo improviso de jazz, onde se misturam referências da high culture e da mitologia com lições de esquemas das ruas escuras de Chicago: “primeiro tem de se testar aquilo de humano com que se consegue conviver. E se o mais elevado estiver naquela taberna vazia e abafada, com as moscas, o rádio quente a zumbir entre jogadas e a cerveja de Sox Park, o que poderá fazer-se senão aceitar a mistura e dizer que a imperfeição é sempre a condição do que encontramos? Do mesmo modo, os meus olhos arranhados verão sempre a grande beleza arranhada. E deuses podem aparecer em qualquer lugar” (p. 353).

sábado, 18 de junho de 2011

Ataques de existência



«Tem-se vinte e três anos ou trinta e um, ou ainda mais, e descobre-se ao atravessar uma rua ou quando cai o chaveiro, que, realmente, se existe. Contra isto, não há nenhuma protecção segura. Nem a teoria nem o álcool podem garantir uma prevenção impenetrável contra o ser-aí. Safer thinking, safer drinking – não serve em todos os casos» (p. 17).

«Deprimido torna-se quem transporta pesos sem saber para quê. Então, a vida torna-se demasiado pesada para si mesma, porque já não pode contar mais com o apoio do seu fundamento anónimo de resistência para se ir consolidando. O deprimido não acolhe a carga com um positivismo jovial, mas sim com um último esforço ruinoso (…), na depressão o individuo esgota-se na tentativa desesperada de querer aquilo que não quer. Os depressivos são estóicos clínicos por detrás dos quais se ocultam revolucionários fracassados» (p. 38-39).

domingo, 12 de junho de 2011

Com a alma junta




Estes dois senhores andam a restaurar a minha confiança na vida.