sexta-feira, 19 de agosto de 2011
"Nunca disse que fosse sempre um erro entrar no país das fadas. Disse somente que era sempre perigoso" (Chesterton)
"Aí tendes, malditos sejais, saciai-vos com este belo espectáculo!" (Platão)
Nietzsche demonstrou exemplarmente como o humano (ou melhor, a definição de humano que a nossa cultura privilegiou) se baseia num conjunto de cinco ou seis promessas que se fixam na carne através de um processo de habituação histórica edificado sobre uma mnemotécnica da dor. Com o horror passa-se o mesmo: é tudo uma questão de gradação das doses inicias e um progressivo incremento, até que o individuo reclame a sua necessidade imperiosa.
“É a primeira vez”?, perguntou delicadamente o Hauptmann. Baixei o queixo. “Há-de habituar-se”, acrescentou ele, “mas nunca completamente, talvez”. Ele próprio estava pálido, mas não tapava a boca.
(...)
Os cadáveres empilhavam-se num grande pátio empedrado, em pequenos montes desordenados, espalhado por aqui e por ali. Um imenso zumbido, obsidiante, ocupava o ar: milhares de pesadas moscas azuis esvoaçavam por cima dos corpos, dos charcos de sangue, das matérias fecais. As minhas botas pegavam-se ao empedrado do chão. Os mortos estavam já a inchar, contemplei a sua pele verde e amarelada, os rostos informes, como os de um homem espancado. O cheiro era imundo; e este cheiro, eu sabia-o, era o princípio e o fim de tudo, a própria significação da nossa existência. Este pensamento destroçava-me o coração. (...) Eu queria fechar os olhos, ou tapar com a mão os meus olhos, e ao mesmo tempo queria olhar, olhar até à saciedade e tentar compreender através do olhar aquela coisa incompreensível, ali, diante de mim, aquele vazio para o pensamento humano. Desamparado, virei-me para o oficial da Abwehr: “Você leu Platão?” Ele olhou para mim, desconcertado: “O quê?” – “Não, não é nada” (p. 41).
No segundo dia da minha odisseia literária pelo holocausto, dei comigo a chorar perante uma cena que descreve outra execução colectiva. E o que me comoveu não foram os pormenores das massas cranianas espalhadas pela terra e pelo rosto dos atiradores nem a agonia aflita de alguns moribundos, mas sim esta frase: “Olhei para os judeus: os mais próximos de mim pareciam calmos, mas pálidos” (p. 84) e a visão de uma marcha ordeira para a morte sem qualquer perturbação ou resistência, cravou-se-me no peito com vigor, murmurando suavemente quão facilmente o humano se reduz a simples carne para matadouro e a cultura, a chamada “cultura superior” retorna à matança que a fundou e refunda todos os dias, umas vezes sob formas mais sofisticadas mas nem por isso menos cruéis.
it's all so quiet, ma...
Nestes últimos tempos, tenho andado grávida. Grávida de qualquer coisa que forçou a sua vinda através de caminhos daninhos. Não sei o que vou parir mas suspeito que irei parir-me mulher dentro em breve. Não tenho medo.
Já não esbracejo com a raiva de um cão batido, já não corro a cidade com sedes acres e o meu ventre não reclama mais facas. As noites não picam mais a carne com as suas insónias. Estou calma, quase pedra. Depois da negra noite da alma e de alguns êxtases breves da carne, surgiu em mim um estoicismo involuntário, uma capacidade de modelar o tédio e a angústia com artifícios honestos.
Passo os dias sem ver pessoas e curiosamente não lhes sinto a falta. Cada uma é uma cidade bombardeada, como diria Eugénio de Andrade, e é tarefa mais fácil amá-las com uma certa distância. Vou lendo os dias. Se casarei ou não, já não me interessa; o amor não obscurece nem alumia a caligrafia singela das horas. Será talvez, apenas, um verão que asfixia na cidade abrasada. Ou eu, a parir uma solidão mais sólida que a pedra. De qualquer dos modos, está-se estranhamente bem.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
"Um anjo no Inferno voa na sua própria pequena nuvem de Paraíso" (Eckhart)
Uma odisseia não se pode levar a cabo sem um homem desabrigado no início dos inícios.
E o homem garatuja as suas memórias para descobrir se ainda é capaz de sofrer. É estóico, recto e culto, como convém, e sabe quão raramente um pensamento humano acontece. Não está à procura do caminho para regressar a casa, está desabrigado no lar burguês que construiu para si, para a mulher relativamente bela e de boa família com quem casou com alguma repugnância e a quem trata de homenagear de quando em quando, com pouco prazer mas sem repulsa excessiva, para garantir a paz no seu lar. O tear de Penélope foi substituído pelos teares mecânicos e alinhados da fábrica de rendas que dirige.
Também ele combateu e fez o que tinha a fazer, sem hesitações. Saiu dela “um homem vazio, cheio unicamente de amargura e de uma longa vergonha, como areia que range entre os dentes” (p. 19) e com o horror impresso na retina. Não pode regressar como herói. Não pode regressar. O regresso a casa pode apenas equivaler ao desejo sofocliano de não ter nascido. A guerra é perpétua e ninguém pode escolher o lado da trincheira que ocupa – isso é apenas uma fantasia consoladora dos vencedores.
“Sou culpado, o leitor não, muito bem. Mas o leitor deveria apesar de tudo ser capaz de dizer para consigo que teria feito também aquilo que eu fiz. Talvez com menos zelo, mas talvez também com menos desespero, mas seja como for de uma maneira ou de outra. Penso que me é permitido concluir como um facto estabelecido pela história moderna que toda a gente, ou quase, num conjunto de circunstâncias dadas, faz o que se lhe diz que faça; e, peço desculpa, há poucas probabilidades de ser o leitor a excepção, tal como eu não a fui. Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus e vão em paz. Mas mantenham sempre presente no espírito esta ideia: talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu. Porque no momento em que tenham a arrogância de pensar sê-lo, aí começa o perigo.” (pag. 27).
Já quase nada lhe interessa. Mantém aventuras esporádicas com belos rapazes como um cuidado de higiene. Resta-lhe apenas a literatura. Não fosse a guerra, ter-se-ia ocupado das coisas belas e calmas, fazendo ou ensinando literatura. E gostaria de ter tocado piano. “Tocar só para mim, em casa, ter-me-ia cumulado de satisfação. Bem entendido, ouço muitas vezes música, e nisso tenho um vivo prazer, mas não é a mesma coisa, é um prazer de substituição. Tal como os meus amores masculinos: a realidade, não coro ao dizê-lo, é que teria preferido decerto ser uma mulher. Não necessariamente uma mulher que vivesse e agisse neste mundo, uma esposa, uma mãe; não, uma mulher nu, deitada de costas, com as pernas abertas, esmagada sob o peso de um homem, agarrada a ele e trespassada por ele, afogada nele e tornando-se o mar sem limites em que ele mesmo se afoga, prazer sem fim, e sem princípio também. Ora não foi assim. Em vez disso, dei comigo jurista, funcionário da segurança, oficial SS, e depois director de uma fábrica de rendas. É triste, mas é como é.” (p. 29).
Uma odisseia não se pode levar a cabo sem um homem desabrigado no início dos inícios. E este homem não está abrigado no homem que é porque os abrigos do humano foram calcinados pelos fornos crematórios.
E uma odisseia não pode efectuar-se sem o amor por uma mulher distante. “Uma só, mas mais do que tudo no mundo. Ora essa, justamente, era a que me estava proibida. É bastante concebível que ao sonhar ser uma mulher, sonhando-me um corpo de mulher, eu a procurasse ainda, quisesse aproximar-me dela, quisesse ser como ela, quisesse ser ela. É inteiramente plausível, ainda que nada mude ao caso. Dos tipos com quem fui para a cama, nunca amei um só que fosse, servi-me deles, dos seus corpos, é tudo.” (p.29)
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Apetece muito uma odisseia literária
Para celebrar os últimos dias dos meus vinte e oito anos começo hoje a ler As Benevolentes de Jonathan Littell. Apetecia há muito mas só agora chegou o tempo.
domingo, 14 de agosto de 2011
Há uma gravidez do pensamento no tédio
“Para o pensador, bem como para todos os espíritos sensíveis, o aborrecimento é aquela desagradável «calmaria» da alma que precede a viagem venturosa e os ventos joviais. É preciso que eles suportem e aguardem o seu efeito. É exactamente isso que as naturezas medíocres não conseguem atingir por si! Afastar de si o aborrecimento, a qualquer preço, é coisa tão comum como trabalhar sem prazer. Talvez seja isto que distingue os Asiáticos dos Europeus – serem capazes de um repouso mais longo e mais profundo. Mesmo os seus narcóticos actuam lentamente e exigem paciência, em contraste com a rapidez repugnante do veneno europeu – o álcool”.
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
Sigo nietzscheana.
“E então se o prazer e o desprazer estiverem de tal modo entrosados que, quem quiser usufruir o máximo de um, seja obrigado a ter também o máximo do outro? Que quem quiser aprender a «rejubilar até aos céus» tenha também de se preparar para a «depressão até à morte». E é talvez, assim, que as coisas sejam!”
Friedrich Wilhelm Nietzsche, A Gaia Ciência
Friedrich Wilhelm Nietzsche, A Gaia Ciência
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Lê-se numa noite e deixa mazelas de graça
Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu Peito.
E traí e fui traído.
e duvidei, impacientemente, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu Peito.
E traí e fui traído.
e duvidei, impacientemente, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina
It's all right, ma...
Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.
Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.
Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.
Nas tuas mãos
entrego o meu espírito
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
Manuel António Pina
sábado, 6 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Confesso que voei

Mas, se nestas seis décadas e meia
eu fui capaz de algum voo
– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –
devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.
E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.
Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.
Voei, está voado.
Nada de nostalgias.
A.M. Pires Cabral
eu fui capaz de algum voo
– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –
devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.
E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.
Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.
Voei, está voado.
Nada de nostalgias.
A.M. Pires Cabral
Metereologia fodida
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Descansa em mim

Desconfiei do teu rosto na primeira noite. Mas a primavera negava-se com pudores rijos e eu tinha bebido demasiados whiskies por distracção. Confundi-te com um comboio e coloquei o meu corpo na linha para te travar.
Alguém gritava o meu nome pela janela enquanto eu te ordenava:
Cala-te e fode-me,
Depois, partiste rude e indelicado, murmurando semelhanças com actrizes de Hollywood que eu desconhecia.
No dia seguinte acordei dorida, a memória da loucura impressa em sangue pisado nas minhas vértebras. Alguém me disse que eu andava a brincar com tudo isto e isso alegrou-me ainda mais. E o tempo foi fluindo, com o vento de feição sobre os selins da esperança.
Tornei a reencontrar-te no teu despropósito e qual soldado da legião estrangeira, pensei que podia sair incólume. E foi como uma febre veloz, sem pausas para convalescença. Os dias abundavam de fomes e ameaças de enfarte e o meu corpo inquieto cirandava pela cidade. Só no teu olhar insistente encontrava a calma. E eram as palavras – sempre as palavras - as palavras mais belas, tão longamente queridas, que bebi com sedes arcaicas. Delirante, desafiei os deuses e prometi-te eternidades exclusivas. Porque eu era um livro de pernas abertas que só tu conseguias ler.
Falavas de amor, de queda, de anjos e eu julguei que todos os campos bombardeados que tinha atravessado serviam apenas para te amparar. São malícias da inocência, perdoa, meu querido, com tanto ruído não percebi que também eu caía e que os meus braços jamais seriam raízes.
No apeadeiro final, restei paisagem acidentada nos estilhaços de uma janela. Fiquei a sós com a tarefa de me fiar mulher. Recusei os venenos amargos que me ofertavam e não tomei outros corpos como paliativos. Deixei-me estar quieta, muito quieta, a brincar com a morte. Durante dias a fio meditei nos cães de caça e na fome que os treina.
E três vezes a pergunta bateu à porta:
Quem te fez mal?
E três vezes a recusei com uma vírgula de ironia no sorriso:
Quem me fez, mal?
Apenas por caminhos travessos se alcança a ponta do desamor.
Parece que os gregos tinham razão e as paixões servem apenas para compor belos epitáfios. Por isso descansa em paz, meu amor. Dentro de mim. Não tenho outras águas para arrumar as saudades que restam.
Alguém gritava o meu nome pela janela enquanto eu te ordenava:
Cala-te e fode-me,
Depois, partiste rude e indelicado, murmurando semelhanças com actrizes de Hollywood que eu desconhecia.
No dia seguinte acordei dorida, a memória da loucura impressa em sangue pisado nas minhas vértebras. Alguém me disse que eu andava a brincar com tudo isto e isso alegrou-me ainda mais. E o tempo foi fluindo, com o vento de feição sobre os selins da esperança.
Tornei a reencontrar-te no teu despropósito e qual soldado da legião estrangeira, pensei que podia sair incólume. E foi como uma febre veloz, sem pausas para convalescença. Os dias abundavam de fomes e ameaças de enfarte e o meu corpo inquieto cirandava pela cidade. Só no teu olhar insistente encontrava a calma. E eram as palavras – sempre as palavras - as palavras mais belas, tão longamente queridas, que bebi com sedes arcaicas. Delirante, desafiei os deuses e prometi-te eternidades exclusivas. Porque eu era um livro de pernas abertas que só tu conseguias ler.
Falavas de amor, de queda, de anjos e eu julguei que todos os campos bombardeados que tinha atravessado serviam apenas para te amparar. São malícias da inocência, perdoa, meu querido, com tanto ruído não percebi que também eu caía e que os meus braços jamais seriam raízes.
No apeadeiro final, restei paisagem acidentada nos estilhaços de uma janela. Fiquei a sós com a tarefa de me fiar mulher. Recusei os venenos amargos que me ofertavam e não tomei outros corpos como paliativos. Deixei-me estar quieta, muito quieta, a brincar com a morte. Durante dias a fio meditei nos cães de caça e na fome que os treina.
E três vezes a pergunta bateu à porta:
Quem te fez mal?
E três vezes a recusei com uma vírgula de ironia no sorriso:
Quem me fez, mal?
Apenas por caminhos travessos se alcança a ponta do desamor.
Parece que os gregos tinham razão e as paixões servem apenas para compor belos epitáfios. Por isso descansa em paz, meu amor. Dentro de mim. Não tenho outras águas para arrumar as saudades que restam.
Regresso sempre com o mesmo espanto pueril aos meus primeiros amores

Manhã de Embriaguez
“Ó meu Bem! Ó meu Belo! Fanfarra atroz em que não cambaleio. Cavalete féerico! Hurrá pela obra inaudita e pelo corpo maravilhoso, pela primeira vez! Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar. Este veneno vai ficar em todas as nossas veias, mesmo quando, regressada a fanfarra, formo devolvidos à antiga inharmonia. Ó nós agora tão dignos destas torturas, cumpramos fielmente a jura sobre-humana feita ao nosso corpo e à nossa alma gerados: esta promessa, esta demência! A elegância, a ciência, a violência! Prometeram-nos enterrar na sombra a árvore do bem e do mal, banir as honestidades tirânicas, afim de que pudéssemos nosso puríssimo amor. Isto começou com uma certa náusea e isto acaba – não podendo assenhorear-nos já de tal eternidade, - isto acaba por uma debandada de perfumes.
Risos de criança, discrição de escravos, austeridade das virgens, horror destas caras e destes objectos, sagrados sejais pela recordação desta vigília. Isto começou com toda a grosseria, eis que isto acaba em anjos de fogo e de neve.
Breve vigília de embriaguez, santa!, quanto mais não seja pela máscara que nos deste! Afirmamos-te, método! Não esquecemos que exaltaste outrora todas as nossas idades. Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias.
Eis o tempo dos ASSASSINOS.”
Jean-Arthur Rimbaud
terça-feira, 26 de julho de 2011
E aprende-se.
Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.
Jorge Luís Borges
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.
Jorge Luís Borges
quinta-feira, 14 de julho de 2011
O corpo do leitor é a entrada secreta de um texto

"Não é por esperares alguma coisa deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livro, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave."
Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno um Viajante
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