sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CARTA DE AMOR AO CAIS DE SODRÉ



O mar estava bravo e os barcos não andavam. Aportados no cais, pareciam botas desoladas sem pés que as levassem. Os marinheiros debandavam como aves eufóricas de negras asas, em busca de carne que os alimentasse nos dias de encalho.
Durante anos encontraram-se de quando em quando nos bares que asfaltavam o cais. Ela sempre vestida de homem e com um sorriso cru de taberna. Ele mais discreto na sua crueldade, mas com o mesmo vazio alojado nas entranhas. Olhavam-se brevemente nas noites em que se cruzavam. Tinham olhos escuros marejados de desgostos. Conheciam-se de nome pelas lendas de mares travessos que haviam cruzado. Nunca tinham partilhado navio ou travessia, mas sabiam que tinham galopado as mesmas tempestades marinhas, ainda que em águas opostas. Tinham cavalgado as mesmas ondas de inquietação, sido arrastados por marés de esperança inférteis e dedicado os seus melhores anos ao apelo dos mares desconhecidos.
Os outros marinheiros não ousavam referir um nome de um ao outro. Sabiam que havia rivalidade pelas lendas que os precediam e não queriam apoquentar nenhum dos dois. Uns diziam que se tratava de orgulho, outros de medo. E era um pouco dos dois. Raramente dois seres idênticos em força e dor se encontram no mesmo cais. Parados e obrigados à sofreguidão dos dias em terra. Eles eram inimigos e conheciam a força da dor do outro sem os acessórios da palavra. Adivinhavam-se pelo cheiro. Sentiam-se ameaçados.
Partilhavam a mesma maldição: a noite. A noite, essa feiticeira que despe os rostos da identidade e lhes estampa desespero e solidão, eram o porto de ambos. E aí se encontraram durante anos. Suspeitavam um do outro porque conheciam a noite como amantes. E temiam apenas uma coisa: as aflições diurnas. Por isso, mantinham-se nocturnos com obstinação e não deixavam cair a máscara que lhes amarelecia o sorriso e turvava o pensamento.
Um dia as coisas mudaram. Ventos travessos obrigaram os barcos a atracarem por mais tempo que o desejado. O tempo é o maior inimigo dos marinheiros, derrota-os na sua impaciência e arrasta-os para o turbilhão do vício. Ele e ela aportaram no cais vindo de mares contrários – ela do Mar Vermelho, ele do Mar Morto. Traziam os corpos fustigados por tormentas de meses e chegaram quase despidos de desejo. Ambos tinham perdido mais de metade das suas tripulações em caprichos aquáticos e o sangue fervia-lhes nas veias com ardor etílico.
Ela, como mulher, foi a primeira a julgar da necessidade de tréguas: uma aliança era precisa para que o seu barco pudesse navegar novamente. Ou talvez fosse um erro de julgamento, coisa comum nas mulheres, que se deixam arrastar facilmente pelas águas da fantasia. De qualquer dos modos, ela não gastou muito tempo antes de se dirigir a ele, propondo aliança rápida. Trazia nos ossos cansaço e as vértebras corroídas pela desilusão e já não conseguia pensar direito. Precisava de um companheiro com quem partilhar responsabilidades e decisões sobre ventos, marés, mapas e astrolábios. Falou-lhe com as palavras que os homens usam em terra, os sons mais traiçoeiros para as gentes do mar.
Ele ouviu mas manteve-se silencioso e ofensivo, não desvendando nenhuma solução para os barcos atracados. Recusou a aliança. Arrogante e forte. Ela, ofendida, subiu arfante as ruelas até à pensão onde pernoitava. Lançou então aos quatro ventos, que ambos conheciam tão profundamente, um grito de guerra. Que também podia ter sido um grito de amor, não fosse a probabilidade do desencontro tão grande.
Era uma pensão de prostitutas, único local onde uma mulher marinheira se podia albergar e descansar, embora ela conservasse a sua adaga debaixo da almofada. A pensão, que tanto amara no passado, pelo desespero que gritava nas suas paredes, pareceu-lhe acabada. As prostitutas pareciam collants depositadas nos sofás da memória, entediadas na espera dos clientes que não mais regressavam. É o fim de uma época: pensou. Tudo acaba e ainda bem que assim é, para que algo de novo possa começar: tranquilizou-se.
No quarto abafado, despiu as roupas salgadas que trazia e vestiu-se de mulher. Roupas antigas que há muito não envergava: um corpete de veludo vermelho escuro e uma saia coçada rodada como um carrossel. Umas botinas negras de verniz que lhe apertavam os pés. Pintou os lábios de vermelho vivo e empoeirou as faces de rouge. Antes de fechar a porta, viu o seu reflexo breve no espelho e soube-se ridícula. Mas era preciso declarar guerra àquele marinheiro insolente que ousara ofendê-la numa recusa obstinada de farol em noite de nevoeiro. Pensou: com modos de mulher será mais fácil atraí-lo para a minha armadilha.
Galopou com os pés sufocados nas botinas estreitas por tabernas e casas nocturnas até o encontrar num prostíbulo a um canto acanhado. Acompanhado por várias mulheres, todas com modos de menina, modos que ela escolhera desaprender, ele olhou-a com o desprezo do adversário de um duelo, que zomba das armas escolhidas pelo ofendido.
Ela tornou a trepar as ruelas que levavam até à pensão, arrastando com fúria o seu corpo de réptil. Fincava os passos nas calçadas negras com toda a força que dispunha mas sentia-se fraca. Derrotada na sua esperança. Compreendia agora que fora ofendida, gravemente ofendida, não por aquele marinheiro bravo com o olhar frio da faca, mas pelos anos. Derrotada pela mulher que não soubera ser todos esses anos.
No quarto, livrou-se apressadamente das roupas antiquadas. Chorou. Era uma mulher ridícula. Fugira disso durante anos como o diabo foge da cruz. Mas não conseguira escapar e chorava agora um choro de raiva, de menina mimada estragada pelo desgosto, de mulher humilhada pela esperança. Pela fome de amor que nunca se saciara.
Embarcara por despeito. Por não querer ser mulher. Ainda adolescente. Tinha um corpo muito frágil e um coração de vidro. Pensou: a vida no mar fará de mim um ser rijo e não torno a sofrer. Divertira-se muito nos primeiros anos. Conhecera muitas cidades longínquas, velejara pelos mares com sortes de principiante. Vivera várias histórias de amores loucos e passageiros em cada porto, bebendo e fumando as noites com toda a avidez do seu corpo jovem.
Regressara sempre ao navio com a certeza da viagem. A última viagem, porém, tinha sido muito morosa e quase perdera a vida nela. No convés, os ventos violentos quase tinham quebrado a sua espinha. Metade dos seus morreram nessa noite de tormenta, os seus corpos sacudidos pelas bordas do navio. Quando alcançou o porto, pensou que não merecia a vida que lhe tinha sobrevivido. Passou cabisbaixa pelos bares e trepou as vielas até à pensão reles. No quarto sem janela, tomou banho. Era preciso expulsar o sal daquele corpo.
Esfregou a pele com um esfregão de aço, numa febre de inocência. Queria acreditar mas já não sabia como. Queria abandonar adagas e cutelos mas a frieza do metal tinha-se alojado nos seus gestos. Queria continuar guerreira mas também queria descansar e submeter-se. Queria ser mulher mas tinha perdido o caminho de volta para a doçura feminina e materna. Estava perdida.
Olhou a sua imagem nua no espelho e usou o olhar frio que tantas vezes usara para manejar cabos apertados ou avaliar presas masculinas. Estava diferente. Olhou-se demoradamente com o olhar inquisidor do detective que procura a pista que denuncia o invasor ou criminoso. Que mudara em si? O seu corpo avolumara-se com as viagens, adquirira uma rudeza que lhe agradava porque afastara a fragilidade da infância. Mas não era isso. Seriam as rugas, traços de intensidade que sulcavam o rosto como ondas? Não, também não.
Extenuada pela busca, adormeceu em frente ao espelho, nua no seu desamparo. Caiu embalada pela vertigem de um sono sem sonhos. Quando acordou, olhou-se novamente e soube o que era. Eram os seus olhos. Estavam baços, embaciados com o fundo dos mares. Tinham perdido o brilho da juventude. Estou velha: pensou. Mais velha do que a idade que trago escrita nas mãos. O tempo, o tempo enganou-me. Não trouxe a paz que eu ansiava. E continuo a ter um coração de vidro.
Depois desse dia, nunca mais ninguém viu essa mulher marinheira que velejara oceanos amargos e saqueara bares e homens com o seu sorriso lendário de pirata. Diz a lenda que se tornou fiscal dos caminhos-de-ferro, trocando as noites pelos dias e o mar pela terra. E que usou até ao fim dos seus dias um fato cinzento e impessoal que combinava na perfeição com os seus olhos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

MULHER






«O QUE É UMA MULHER?


É UM VACA SENTADA EM CIMA DE UM SORRISO AMARROTADO»




DJUNA BARNES

UMA NOITE ENTRE OS CAVALOS



Encontrei mais um livro para endurecer o meu coração com a Beleza: Uma Noite entre os Cavalos de Djuna Barnes.


«- A vida – disse ela – é porca; e assustadora também. Há nela de tudo: crime, sofrimento, beleza, doença… morte. Sabias?
A miúda respondeu: - Sabia.
- E como é que sabes?
A miúda voltou a responder: - Não sei.
- Como vês – continuou Madame von Bartmann – não sabes nada! Tens de aprender tudo, e depois começar. Tens de ter uma grande compreensão, ou darás uma queda. Os cavalos tiram-te rapidamente do perigo; os comboios fazem-te voltar a ele. As pinturas dão um choque mortal ao coração… ficam penduradas por cima de um homem de quem gostaste e talvez tenha sido assassinado na cama. As flores fazem do coração um túmulo porque há dentro delas uma criança sepultada. A música incita ao terror da repetição. Os cruzamentos das estradas são os votos dos amantes; e as tabernas para os ladrões. A contemplação leva ao preconceito; e as camas são campos onde os bebés travam uma batalha perdida. Sabias tudo isto?
Nenhuma resposta chegou do escuro.
- O homem apodrece logo à partida - continuou Madame von Bartmann. – Apodrecido de virtude e vício. Ambos o filam pela garganta e o reduzem a nada; e Deus é a luz que o insecto mortal acende para uso próprio e com ela morrer. Isto é muito sensato, mas não deve equivocar-nos. Não quero que olhes do alto para uma puta qualquer de uma rua qualquer; reza, cai na lama, e desiste, mas sem preconceitos. Um assassino pode ter menos preconceitos do que um santo; mas às vezes mais vale ser santo. Não sintas orgulho com a tua indiferença, se caíres nas garras da indiferença; e não te enganes – disse ela – sobre o valor das tuas paixões; não passam do condimento de todo este horror. Gostaria... – Não terminou o que ia dizer mas tirou calmamente o lenço de bolso e enxugou os olhos em silêncio.
- De quê? – A voz da miúda saía das trevas.
Madame von Bartmann tremia. – Estás a pensar? – perguntou.
- Não – respondeu a miúda.
- Então pensa – disse Madame von Bartmann com uma voz forte, voltando-se para ela. – Pensa em tudo, o bom, o mau, o indiferente; em tudo, e faz tudo, tudo! Antes de morrer, tenta saber o que és. E – disse ela, inclinando a cabeça para trás e engolindo em seco, com os olhos fechados – quando fores uma boa mulher vem ter comigo.»


Irei, Madame von Bartmann.

domingo, 23 de janeiro de 2011

SILÊNCIO PARA 4



«(…)
- Eu não posso viver sem amor.
- Nem nos intervalos?
- Sei lá.
- Precisas de ocupar o tempo livre. Tens de dar pousio ao amor, de te esqueceres que o amor é coisa existente, tens de dar intervalo, precisas de ternura, precisas, eu percebo, é errado ir em busca dessa ternura, ela aparece, não te suicides com o primeiro que aparece, é mal que vem contra ti, dá tempo ao amor, é a tua ânsia de precipício, de cair sempre para a frente, sem ver o que vai nos lados.
- Sou assim.
- É uma resposta extremamente conformista. É uma resposta.
- É.
- Quero o teu bem, espera, alguém aparece no momento mais imprevisível, pessoa que muda o sentido às coisas, espera, não arrastes a carcaça para a fenda do mistério, arrastas também um eu, um outro eu que pode estar inocente, nem sequer percebe o que vai acontecendo contigo, não quero dizer alma. Hem. É diferente.
- Preciso de ternura, cada um sabe daquilo de que tem necessidade.
- Evidente, há uma teimosia que não está de acordo com a tua inteligência, o carro à frente dos bois. Calma, minha filha, o mundo tem uma ordem no caos.»

A HISTÓRIA DE UM SONHO



« (…) Consegui ver que te erguiam uma cruz, não naquele pátio por baixo, mas no ilimitado prado florido, onde me encontrava reclinada nos braços do meu amante, com todos os outros casais. Conseguia divisar-te vagueando só e sem guarda por vielas antigas, contudo, sabia que o teu caminho estava traçado e não havia fuga possível. Caminhavas agora através do atalho da floresta. Eu aguardava-te expectante, mas sem especial simpatia. O teu corpo estava coberto de vergões, mas já não sangrava. À medida que subias, o atalho alargava-se e a floresta recuava de ambos os lados. Encontravas-te agora ao fundo, no prado, a uma distância inacreditavelmente grande. No entanto, saudaste-me com um olhar sorridente, parecendo quereres dizer-me que havias satisfeito os meus desejos e que trazias tudo o que precisava: roupa, sapatos, jóias. Mas eu considerei a tua conduta extremamente grotesca e absurda e senti-me tentada a rir na tua cara com desdém – tudo porque, por fidelidade a mim, havias recusado desposar a princesa, suportado torturas, e agora cambaleavas até aqui para sofreres uma morte atroz. Corri para ti e também apressaste o passo – comecei a levitar e tu flutuavas no ar. Mas, de súbito, perdemo-nos um do outro e dei-me conta que nos cruzáramos sem nos encontrarmos. Então, desejei que ao menos ouvisses as minhas risadas enquanto te pregavam na cruz. Desatei a rir tão alto e tão estridentemente quanto podia. Era esse o riso, Fridolin, que soltava quando acordei.»

O MAR, O AMOR



Duras afirmou uma vez que, se não houvesse o amor e o mar, não haveria romances. É isso que temos em Olhos Azuis, Cabelos Negros: o mar, um casal, silêncio e desespero.


«Foi na estrada nacional de madrugada depois do segundo café ter fechado que ele disse que procurava uma mulher jovem para dormir perto dele durante algum tempo, porque tinha medo da loucura. Disse que queria pagar a essa mulher, era essa a sua ideia, que era preciso pagar às mulheres para elas impedirem os homens de morrer, de enlouquecer. Tinha chorado mais, tão completamente extenuado de cansaço como estava. O Verão metia-lhe medo.»


O homem nunca fez amor com uma mulher: repugna-lhe a «coisa interior».
«Ela diz: Essa dificuldade que sente, sempre esteve aqui na minha vida, inscrita no mais profundo do meu prazer com os outros homens.
Ele pergunta-lhe de que fala ela. Ela fala dessa impossibilidade, dessa repugnância que ela lhe inspira. Diz-lhe que partilha com ele essa repugnância que sente por si própria. E depois diz que não, não é a repugnância. A repugnância é inventada.»
«Ela olha à sua volta no quarto, põe-se a chorar. Por causa daquele amor, diz ela. Pára outra vez. Diz que é terrível viver como eles vivem (…) Que a viver como eles vivem, mais vale morrer. Volta a parar em frente dele, olha-o, chora, repete: Por causa deste amor que se apoderou de tudo e que é impossível.
Ela pára. Ele ouviu-a. Não se ri. Pergunta:
- Está a falar de quê?
Ela sente-se confusa, diz:
- Falei sem pensar, estou muito cansada.
Diz: Nunca me coloquei essa questão.
Ele voltou a levantar-se. Ergue-a encostado a ele. Beija-lhe a boca. O desejo, naquela derrota, fá-los tremer aos dois.
Separam-se. Ele diz:
- Eu não sabia a este ponto.
(…)
O beijo transformou-se no prazer. Ocorreu. Dominou a morte, o horror da ideia. Não veio depois nenhum outro beijo. Ocupa o desejo inteiro, é, por si só, o seu deserto e a sua imensidade, o seu espírito e o seu corpo.»


Um odor salgado perpassa a totalidade do romance. O som das vagas acompanha uma frase que soa, recua e se repete:

« - Talvez o amor possa viver-se assim de uma maneira horrível.»

MULHERES - CHARLES BUKOWSKI



«A arte é o meu medo. É dele que eu a extraio.»


«Eu era sentimental em muitas coisas: a uns sapatos de mulher sob a cama; a um gancho abandonado sobre a cómoda; ao modo de dizer «vou fazer chichi..»; fitas de cabelo; descer a avenida com elas à uma e meia da tarde, apenas duas pessoas a caminhar; as longas noites em que se bebe, se fuma e se conversa; as discussões; pensar no suicídio; comermos juntos e sentirmo-nos bem; as brincadeiras e os risos absurdos; sentir milagres no ar; estarmos juntos dentro de um carro estacionado; comparar antigos amores às três da manhã; dizerem-nos que ressonamos, ouvir o ressonar dela; mães, filhas, filhos, gatos, cães; por vezes a morte, por vezes o divórcio, mas continuar sempre; ler o jornal sozinho num quiosque e sentir náuseas por ela estar casada com um dentista com um Q.I. de 95; corridas de cavalos, os parques, ou piqueniques no parque; até cadeias; os sinistros amigos dela, os nossos amigos sinistros; os nossos copos e as danças dela; os teus engates; os engates dela; os comprimidos dela, as tuas fodas por fora e as dela; dormir juntos…» (pag. 227/228).


«Mulheres: gostava da cor das suas roupas; do modo como andavam; a crueldade de alguns rostos; de quando em quando, a beleza quase perfeita dum rosto, encantadoramente feminino. Elas tinham uma vantagem sobre nós: planeavam muito melhor a sua vida, eram muito mais organizadas. Enquanto os homens viam os jogos de futebol, bebiam uma cerveja ou jogavam bowling, elas, as mulheres, pensavam em nós, concentravam-se, perscrutavam, decidiam – aceitar-nos, rejeitar-nos, mudar-nos, matar-nos ou simplesmente viverem connosco. No fim de contas, isto tinha pouca importância; não interessava o que elas faziam, nós acabávamos na solidão e na loucura.» (pag. 241/242).

TRINTA ANOS - INGEBORG BACHMANN



Um homem entra na casa dos trinta. Um Junho chuvoso. «Lança a rede-recordação, lança-a sobre si próprio e apanha-se a si mesmo, captor e presa simultaneamente, sobre o limiar do tempo, o limiar do espaço, para ver quem ele foi e em quem ele se tornou.» Até aqui viveu sem mal, sem definição. Sem reflexão, sem medo. «Agora sabe que também ele caiu na armadilha.»


Junho: Calor. O desassossego apodera-se dele. Tem de partir, deixar o seu passado. Tem de ser livre e abandonar tudo. Vai para Roma, separar-se das pessoas e não se juntar a outros. Já não pode viver entre os homens. «Quando se permanece durante bastante tempo num local, acaba-se por tomar muitas formas, por deixar-se ir pelo que se diz e tem-se cada vez menos direito à sua própria pessoa. Por isso ele quer, a partir de agora e para sempre, mostrar-se sob a sua própria forma.»
Em Roma, não consegue libertar-se, começar tudo de novo. Este ano começa mal. A traição do amigo. O reencontro com um amor antigo e percebe que a cólera dela na altura da separação foi fingida, que ele se sentiu culpado porque ela o tinha simplesmente deixado acreditar nisso. «Baixinho e energicamente, ele expele a culpa como o ar que expira, e pensa: fui mal aconselhado no meu desespero. Mas estou a ser ainda mais mal aconselhado pela minha lucidez. Tenho frio. Preferia ter conservado a minha culpabilidade.
A destruição está em marcha. Poderei vir a falar em felicidade, se este ano não me matar.»


Agosto: a coação para agir rapidamente, para viver depressa. Ama um bilião de mulheres, todas ao mesmo tempo, sem as diferenciar.

Setembro: «Quem sou eu, então, neste Setembro dourado, se de mim arrancar tudo o que de mim fizeram?
(…)
Se eu não tivesse mergulhado nos livros, em histórias e lendas, nos jornais, em notícias, se tudo o que é comunicável não tivesse crescido dentro de mim, eu seria um nada, uma junção de acontecimentos incompreendidos.
(…)
Não mereço o facto de ver, de ouvir, mas os meus sentimentos, esses mereço-os verdadeiramente, essas garças por sobre brancas praias, esses viajantes da noite, vagabundos famintos que levam o meu coração para a estrada.»


Ser-se humano: saber guardar as distâncias. Sono. A cabeça nas almofadas. O Outono das últimas rosas: o tempo já não lhe parece precioso, utilizável. Gastas as noites em paixões efémeras. Há avareza de luz, mesmo os dias claros se vestem de cinzento. Ganha hábitos e vê com agrado esse seu processo de petrificação. Deixa de ver os amigos. Desliga o telefone. Sente-se bem sozinho e torna-se mais simples de dia para dia.

O Inverno: gelado e húmido. No momento em que se sentia tranquilo e feliz, depois de ter passado por todas as experiências possíveis e imaginárias, chega o amor inacreditável. Deixa de ser senhor de si próprio e a sua carne arrasta-o para o inferno. O amor torna-se a vingança sobre tudo o que há de suportável sobre a terra. Porque o amor é insuportável.
«Amava. Estava liberto de tudo, de toda a individualidade, pensamento ou objectivo, naquela catástrofe em que não existia o bem nem o mal, a justiça ou a injustiça, e estava certo de que não havia nenhuma saída digna desse nome para aquela situação.»
Faz as malas pois compreende que mesmo a primeira hora daquele amor foi excessivamente. Gasta as últimas forças nessa fuga.
Mas não vai longe. Tudo se desmorona com a partida. Fica sem dinheiro. Dorme ao relento. Sente que o fim se aproxima. Pela primeira vez quase escreve a verdade e pede dinheiro ao seu pai. Sente-se mal porque tem quase trinta anos e sempre se desenvencilhou sozinho. O dinheiro chega rápido. Volta para Viena – mas sem ousar pronunciar «para casa». reencontra amigos: para trás, ou ainda mato alguém! Mantenham as distâncias!


Torna a fazer as malas à pressa. No comboio, um companheiro de viagem fala sobre quantos por cento de loucos se tomam por Napoleão, quantos pelo último Kaiser, por Lindberg, Hitler ou Ghandi. Isto desperta-lhe um certo interesse e pergunta então se uma pessoa se poderia tomar por si própria sem danos de maior e se isso não seria também uma forma de loucura.
Pensa em desaparecer sem deixar rasto. Ou ir-se embora com ela, cujo nome ele nunca ousa pronunciar. Mas não consegue chegar a nenhuma conclusão.
«Quer fazer frente e não quer fazer frente. Tende a compreender a fraqueza, o erro, a estupidez, e quer combatê-los, denunciá-los na praça pública. Tolera e não tolera. Odeia e não odeia. Não consegue tolerar e não consegue odiar.
Também é um bom motivo para se desaparecer.»


Entretanto, chega a Primavera. Decide submeter-se. Aceita um trabalho. Antes, decide fazer uma viagem sem pressas. Em Génova, apanha uma boleia para Milão, com um homem da sua idade que acelera muito. Diz que tem de chegar ao centro antes da meia-noite. Ao lado do condutor, sente-se mais sossegado e com uma estranha sensação de bem-estar, mas gostaria de dizer alguma coisa e de sentir poisados nele os olhos claros do condutor. Quer perguntar-lhe se aquele ano iria ser difícil também para ele e o que se havia de fazer, o que se havia de pensar daquilo tudo. «Começou a imaginar este diálogo com o homem, enquanto eram levados através da noite, grande noite em que todas as coisas pareciam grandes e estranhas, como dois meninos ajuizados sentados no banco da frente, juntos para ouvirem uma lição. À frente deles surgiu um camião, aproximaram-se dele rapidamente, desviaram-se para o ultrapassar mas, quando estavam lado a lado, o camião desviou-se também na mesma direcção para se meter por um atalho. Voaram pelo ar alguns metros e foram contra um muro.»


Aquele ano quebrou-lhe os ossos. Está deitado na clínica e não conta os dias que faltam até lhe ser tirada a couraça de gesso debaixo da qual promete curar-se. O desconhecido teve morte imediata.
Maio já chegou. Todos os dias as flores do seu quarto são substituídas por flores frescas e mais coloridas. «Já não duvida da sua juventude. Sentira-se um velho de cem anos, sim, mas quando era muito mais novo, quando os seus pensamentos e o corpo o inquietavam demasiado.
Muito jovem, desejara uma morte precoce, não quisera chegar a fazer trinta anos. Mas agora desejava a vida. Outrora, só lhe tinham balançado na cabeça os sinais de pontuação para aquele mundo, mas agora vinham-lhe à mente as primeiras frases com que ele lhe surgia. Outrora, tinha achado que podia pensar tudo até ao fim, e não tinha reparado sequer que dava apenas os primeiros passos numa realidade que não se deixava pensar até ao fim com essa facilidade, e que muito ainda lhe ocultava. Durante muito tempo não soubera já no que acreditar, se é que não pensava mesmo ser uma vergonha acreditar nalguma coisa. Agora começava a acreditar em si próprio, quando fazia alguma coisa ou se expressava. Começa a ter confiança em si mesmo. Confia também nas coisas que não precisam de uma prova, nos poros da sua pele, no sabor salgado do mar, no ar cheirando a frutos, e em tudo o que tem algo de
particular.»


Antes de sair da clínica, ao pentear-se em frente a um espelho, descobre um cabelo branco.
Está vivo. Em breve estará curado. Em breve completará 30 anos.

«Digo-te: levanta-te e caminha! Não tens nenhum osso partido.»

ORLANDO



Um exercício incrível de imaginação que nos maravilha e inquieta a cada instante: «como é possível que esta história tenha sido imaginado por uma mente, uma mente apenas?».


Concluímos no final da leitura, algo extenuadas pelo ritmo eufórico e diálogo irónico permanente que, embora o livro tenha sido escrito por uma pessoa apenas, essa pessoa era habitada por várias. Uma pessoa, afinal, como as outras, mas com um ouvido extremamente amplificado para sintonizar a multiplicidade de vozes que constitui um Eu.


A desgraça final da autora terá vindo daí, dessa antena apuradíssima que lhe permitia amplificar cada voz, até à loucura. A beleza das suas obras também: veio desse esforço sobre-humano para domar as vozes e integrá-las numa voz, evitando constantemente o colapso. Colocar em palco, no papel, todas as personagens que nos fazem e desfazem.


E é isto que Orlando é, muitas coisas: uma biografia, uma ficção histórica, exorcismo de demónios, crítica feminista, testamento de uma ambição, uma obra desumana e genial e, ainda «a maior carta de amor da literatura», como um crítico feliz disse. De Virginia para Vita. Mas sobretudo, de Virginia para Virginia.


“«O quê, então? Quem?», dizia. «Trinta e seis anos; ao volante de um automóvel; mulher. Sim, mas também um milhão de outras coisas mais. Uma snobe – será que o sou? A jarreteira, no salão? Os leopardos? Os meus antepassados? Se tenho orgulho neles? Tenho, pois! Ávida, sensual, viciosa? Serei mesmo? (aqui entrou em cena um novo eu). Não me importo nada de o ser. Honesta? Julgo que sim. Generosa? Ora isso não conta (aqui entrou em cena um novo eu). Deitada na cama a manhã inteira, entre belos lençóis de linho, a ouvir os pombos; baixela de prata; vinho; criadas; lacaios. Mimada? Talvez. Demasiadas coisas que não servem para nada. Daí os meus livros (aqui citou cinquenta títulos clássicos; aludindo, julgamos nós, às românticas obras de juventude que destruíra). Fluente, desenvolta, romântica. Mas (aqui entrou em cena um novo eu) também uma inepta, uma trapalhona. Mais desastrada que eu não há. E … e … (aqui hesitou, procurando uma palavra, e ao sugerir «Amor» talvez nos enganemos, mas o certo é que ela riu, corou e exclamou depois…) Um sapo cravejado de esmeraldas! O Arquiduque Harry! Varejeiras no tecto! (aqui entrou em cena um novo eu). Então e Nell, Kit, Sasha? (mergulhou nas mais profunda tristeza: algumas lágrimas chegaram mesmo a tomar forma, e havia muito que ela deixara de chorar). Árvores, disse ela. (Aqui entrou em cena um novo eu.) Adoro árvores (ia a passar por um maciço delas), ali a crescer há mais de mil anos. E estábulos (passou por um estábulo em ruínas, à beira da estrada). E cães-pastores (lá vinha um a atravessar a estrada. Orlando desviou-se cautelosamente. E a noite. Mas as pessoas… (aqui entrou em cena um novo eu). As pessoas? (repetiu, sob a forma de uma pergunta.) Não sei. Tagarelas, invejosas, sempre a dizerem mentiras.
(…)
«Assombrada!», exclamou, carregando bruscamente no acelerador. «Assombrada, sim, desde criança. Lá vai o ganso selvagem. Passa diante da janela, voa em direcção ao mar. E eu corri (agarrou-se com mais força ao volante), estiquei-me para o agarrar. Mas o ganso voa demasiado depressa. Tornei a vê-lo, aqui – além – acolá -, Inglaterra, Pérsia, Itália. Sempre a voar muito depressa, em direcção ao mar, e eu sempre a persegui-lo com palavras como redes (aqui estendeu a mão para fora da janela) que mirram como vi mirrarem as redes içadas para o convés, trazendo dentro apenas algas; e às vezes vem um pedacinho de prata – meia dúzia de palavras – no fundo da rede. Mas nunca o grande peixe que mora nas florestas de coral.» Aqui, inclinou a cabeça, em profunda meditação.
E foi nesse instante, em que parara de chamar «Orlando» e estava absorta a pensar noutra coisa, que a Orlando por quem chamara veio de livre vontade; como se prova pela mudança que agora se operava nela (acabava de entrar no parque, transpondo o portão de entrada).
(…)
Estava agora, portanto, obscura e sossegada, tendo-se tornado, com a adição desta Orlando, aquilo a que com razão ou sem ela se chama um eu único, um verdadeiro eu. E calou-se. Porque é provável que quando uma pessoa fala em voz alta, os eus (que podem ser mais de dois mil) se apercebam da discórdia, e tentem comunicar, mas quando a comunicação se estabelece, calam-se.”


A mim também os meus eus me chegam através de vozes conflituosas e, uma vez, poderia julgar que os vi a todos dentro de um carro. Foi numa manhã de ressaca, uma das manhãs mais doces que tive, e estava na casa de uma amiga que entendia o meu coração e a minha cabeça sem se afligir. Estávamos as duas de maquilhagem borrada, os corpos estendidos na cama dela como detritos e sorríamos de todas as nossas histórias até aquele encontro breve. De dois dias apenas. Em New York.

Bebíamos água com sumo de limão de um púcaro enorme e era a água mais saciante de sempre, quando ela me disse, com o sotaque austríaco dela que eu era no mínimo três pessoas. A conduzir um carro.

- «Vais a conduzir e vais relaxada, a ouvir música, a fumar, a rir e a conversar com o outro eu que vai sentado no lugar do morto. De repente, há algo que te perturba e ficas destruída, incapaz de continuar a conduzir o carro. E de imediato, numa acrobacia, sem parar o carro, o outro eu que está ao lado, toma o controlo do volante e começa a conduzir de forma agressiva, dizendo blasfémias à janela. Um eu niilista que quer que tudo se lixe. No banco detrás, há outro eu que fica em pânico com essa acrobacia de condutores, que tem medo que o carro se descontrole. E o mais natural seria que encostasses o carro para que os condutores pudessem trocar sem perigo.»

- «Talvez. Mas o carro não pode parar. Tem de continuar.»


- «É esse o problema. Não consegues admitir que a paragem. És conduzida por um carro».


Em silêncio, enrosquei-me em mim com um sorriso frágil e puxei o cobertor para mim.


- «Vês, agora que te disse isto, ficaste quieta e triste. É verdade. O teu eu mais verdadeiro é esse. O do banco de trás»


- «Não. Fiquei a pensar. Não fiquei triste. Acho bonito. Belo de certa forma.»


- «Há outro eu, então. Um que vai aninhado junto à janela, no banco detrás, indiferente às acrobacias do carro e dos condutores. Vai a olhar a paisagem e a escrever secretamente poemas na sua mente. Esse é o teu eu menos contaminado.»

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN (ii)



From Third Avenue On


And now she walks on out turned feet

Beside the litter in the street

Or rolls beneath a dirty sheet

Within the town.

She does not stir to doff her dress,

She does not kneel low to confess,

A little conscience, no distress

And settled down.

Ah God! she settles down we say;

It means her powers slip away

It means she draws back.

day by day

From good or bad.

And so she looks upon the floor

Or listens at an open door

Or lies her down, upturned to snore

Both loud and sad.


Or sits besides the chinaware,

Sits mouthing meekly in a chair,

With over-curled, hard waving hair

Above her eyes.

Or grins too vacant into space—

A vacant space is in her face—

Where nothing came to take the place

Of high hard cries.

Or yet we hear her on the stairs

With some few elements of prayers,

Until she breaks it off and swears

A loved bad word.

Somewhere beneath her hurried curse,

A corpse lies bounding in a hearse;

And friends and relatives disperse,

And are not stirred.

Those living dead up in their rooms

Must note how partial are the tombs,

That take men back into their wombs

While theirs must fast.

And those who have their blooms in jars

No longer stare into the stars,

Instead, they watch the dinky cars—

And live aghast.


Djuna Barnes

THE BOOK OF REPULSIVE WOMEN





From Fifth Avenue Up

Someday beneath some hard
Capricious star—
Spreading its light a little
Over far,
We'll know you for the woman
That you are.
For though one took you,
hurled you
Out of space,
With your legs half strangled
In your lace,
You'd lip the world to madness
On your face.
We’d see your body in the grass
With cool pale eyes.
We'd strain to touch those lang'rous
Length of thighs,
And hear your short sharp modern
Babylonic cries.
It wouldn't go.
We’d feel you
Coil in fear
Leaning across the fertile
Fields to leer
As you urged some bitter secret
Through the ear.
We see your arms grow humid
In the heat;
We see your damp chemise lie
Pulsing in the beat
Of the over-hearts left oozing
At your feet.
See you sagging down with bulging
Hair to sip,
The dappled damp from some vague
Under lip,
Your soft saliva, loosed
With orgy, drip.
Once we'd not have called this
Woman you—
When leaning above your mothers
Spleen you drew
Your mouth across her breast as
Trick musicians do.
Plunging grandly out to fall
Upon your face.
Naked—female—
babyIn grimace,
With your belly bulging stately
Into space.
Djuna Barnes

Djuna Barnes


We are adhering to life now with our last muscle - the heart.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MORTE NA PÉRSIA



Morte na Pérsia é um dos livros mais belos e tristes que li na minha vida. Escrito por uma mulher no fim das suas forças, o livro fala de uma vertigem interior, de uma paisagem íntima chamada pérsia e morte. O que acontece quando o medo se aloja no coração?

As duas conversas com o Anjo são das coisas mais sublimes que já li.

Depois de ler este livro pequeno, fiquei com o coração cheio de Arte, Beleza, Medo e Solidão. Assim mesmo, com letras grandes. Mas o Medo e a Solidão já eram inquilinos antigos. Também o meu coração se podia chamar Pérsia.

«Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão.»

terça-feira, 19 de outubro de 2010

AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM



Uma escrita belíssima, atenta às gradações dos afectos, ás intensidades dos gestos e sobretudo empenhada na compreensão das relações humanas. Porque tudo começa no dois – o amor, a amizade, a família, mas também o dissenso, a política e a guerra.


Henrik é traído pelo melhor amigo e pela mulher. Espera pacientemente quarenta e um anos. Diz que espera a vingança e a verdade. Uma verdade para além dos factos, porque «um acto ainda não é equivalente da verdade». Mas ele já encontrou a verdade na velhice e na morte, quando somos capazes de entender os corpos como corpos e os homens como seres mortais, um entendimento sem dor.


«Uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente? A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida.»


«Sobreviver a alguém, a quem amámos tanto que teríamos sido capazes de matar por ela, sobreviver a alguém, a quem estávamos ligados de tal maneira que quase morremos por isso, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida.»


«Quem sobrevive a alguma coisa, não tem direito de formular uma acusação. Quem sobrevive a alguma coisa, ganhou o seu processo, não tem direito, nem razão para acusar alguém; era mais forte, mais astuto, mais agressivo.»


Só os mortos respondem bem e definitavemente.


Recomenda-se como leitura para uma noite ventosa e solitária, acompanhada de velas.

COM O DIABO NO CORPO



Um amor adúltero entre François, de dezasseis anos, e Marthe, de dezanove, casada com um soldado. A guerra serve de pano de fundo ao desvario dos amantes, sentida como um longo período de ociosidade e poesia. Ao conhecer Marthe, o rapaz encanta-se de imediato com a sua imprudência e gosto por Baudelaire e Verlaine. O amor é acompanhado por uma escalada do sentimento de tirania pelo ser amado. François enleia-se cada vez mais no amor, quanto mais acredita não amar Marthe, incapaz de se vergar aos códigos sentimentais, por ingenuidade. «Os momentos em que não podemos mentir são precisamente aqueles em que mais mentimos, sobretudo a nós próprios» (p. 63).


Na repetição dos encontros, os amantes descobrem o êxtase: «Não é na novidade, mas sim no hábito, que encontramos os maiores prazeres» (p.46). François sente-se como uma criança que dá um brinquedo a si própria, um brinquedo a quem pode fazer o que quiser, até mal, se o desejar. A cada novo dia, François testa os limites do amor e da entrega de Marthe, ébrio com os recém-adquiridos poderes da paixão. As loucuras da carne parecem aliviar os distúrbios da alma, desgastando uma paixão incapaz de se gastar pela submissão de Marthe, que perdoa todos os ataques de ciúme, crueldades e mentiras do rapaz. Uma submissão que resulta da certeza da sua paixão, enquanto a crueldade do seu parceiro resulta da sua duvida e incapacidade de aceitar que a ama.

«Mas o amor, que é o egoísmo a dois, sacrifica tudo a si próprio e vive de mentiras» (p. 59). O fim é trágico e Marthe morre – como morrem todos os nossos primeiros amores, para que a vida possa continuar, ainda que empobrecida pela recordação desse astro breve, é certo. A morte da amada não traz uma elevação redentora do sentimento, pelo contrário, a natureza egoísta do amor de François revela-se aí em toda a potência.

«Marthe! O meu ciúme seguia-a até ao túmulo. Eu desejava que nada houvesse depois da morte. É insuportável que a pessoa que amamos se encontre rodeada de outras companhias numa festa onde nós não estamos. O meu coração tinha aquela idade em que ainda não pensa no futuro. Era exactamente o vazio que eu desejava para Marthe, mais do que um mundo novo, onde pudesse juntar-me a ela um dia» (p. 140). O que importa não é que Marthe tenha morrido, mas sim a certeza de que ela tenha morrido chamando pelo amante.

«Quando Marthe dormia assim, com a cabeça encostada num dos meus braços, eu inclinava-me sobre ela para lhe ver o rosto envolto em chamas. Era como brincar com o fogo. Um dia em que me aproximei demais, sem, no entanto, o meu rosto tocar no dela, foi como a agulha magnética que passa um milímetro a zona interdita e se cola ao íman. A culpa é do íman ou da agulha? Era assim que sentia os meus lábios contra os dela. Marthe continuava com os olhos fechados, mas nitidamente como quem não está a dormir. Beijei-a, surpreendido pela minha própria coragem, embora na realidade tivesse sido ela que, mal eu me aproximara do seu rosto, puxara a minha cabeça para a sua boca. As suas mãos agarravam o meu pescoço. Não se teriam agarrado com mais fúria num naufrágio. E eu não compreendia se ela queria que eu a salvasse ou que me afundasse com ela» (p.45).

Fiquei a arder – saudades da desmesura que o primeiro amor apresenta e que nenhum mais nenhum nos traz depois. Porque nos tornámos cínicos, feridos e menos loucos. E, sobretudo, incapazes de ser salvos ou naufragar.

«Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratulam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ele teria sido feliz» (p. 139).

O CHÃO DOS PARDAIS


«Anne Frank morreu com quinze anos, quinze dias antes da libertação do campo para onde tinha sido levada. Se Deus não joga aos dados faz o quê?
(…)
Nós sobrevivemos ao horror pelo qual a família Frank e os amigos passaram. A humanidade sobreviveu. De forma imperdoável, porém. A menos que se constituam deveres.
(…)
Ele e Margarida eram quase recém-casados quando ele a levou ao anexo. Temos de ver isto porque não podemos ter a certeza que não repetimos. Nunca poderemos ter essa certeza. Os que perpetraram o horror eram em tudo iguais às vítimas, eram em tudo iguais a nós.
(…)
Os milhões de pessoas que morreram merecem que os deixemos em paz, dissera inesperadamente Margarida. Merecem que não precisemos deles para nos emocionarmos. Esse é o nosso único dever. Há neste momento milhares de pessoas escondidas por esse mundo fora e nós estamos aqui a visitar um sítio que foi tornado público só para satisfazer a curiosidade dos que querem ver para se emocionarem. Não devia ser permitido. Isto, as visitas aos campos, nada. Não é que não seja preciso ver. É que não devemos ver. Estamos obrigados a sentir para além do que os olhos vêem. A fé já foi inventada. É possível. Isto, os milhões de sapatos, os duches, os crematórios, são obscenos. Deviam ter sido arrasados. Nem sequer o pó desses sítios devia existir. Não se pode permitir a memória física do horror. Deixar que o horror tenha memória física é uma forma de o justificar. E não pode haver nunca justificação. Os visitantes procuram o descanso que nunca deveriam ter. Não há nada de nobre numa visita a um campo de concentração ou a este anexo. Não há solidariedade possível com os que sofreram, com os que foram deixados sofrer. Só nos chocamos com os factos sobre os quais não nos pode ser exigida responsabilidade alguma, com os factos em relação aos quais a nossa acção se tornou impossível. Precisamos da tranquilidade de saber que não nos pode ser exigido que actuemos. Que nunca poderemos ser acusados de termos sido cúmplices. Daqui a uns anos faremos museus às guerras que estão a decorrer neste momento. E iremos visitá-los só para nos chocarmos, para nos emocionarmos. Só temos de esperar que a nossa acção se torne impossível, que a nossa inacção se torne justificável, para que passemos a exigir que nos reconheçam como solidários. É só preciso esperar que o horror acabe para podermos ser completamente contra ele. Para estarmos dispostos a fazer tudo o que pudermos para acabar com ele. Mais tarde poderemos até chegar ao ponto de querermos compreender como é que tudo se passou, o que é que se passou. Tudo em nome da humanidade, dos abismos negros da humanidade.»

sábado, 26 de junho de 2010

DO DESEJO




E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

* * *
Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
* * *
Que canto há de cantar o que perdura?

A sombra, o sonho, o labirinto, o caos

A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:

O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas

E ao mesmo tempo te dizer adeus

Porque imperfeito és carne e perecível



E o que eu desejo é luz e imaterial.



Que canto há de cantar o indefinível?

O toque sem tocar, o olhar sem ver

A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?



Hilda Hilst

Temos novo amor: Hilda Hilst



Alcoólicas


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Canção da Inocência Perdida



1

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

2

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C'mo sem ninguém lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

6

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

7

Bem sei: Muito pode vir
'Té que nada por fim. fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht

sábado, 29 de maio de 2010

INGEBORG BACHMANN (1926-1973)




Terra de névoa


No Inverno a minha amada

está com os bichos na mata.

Que eu tenho de voltar antes do dia,

a raposa sabe-o e ri.

Tremem tanto estas nuvens! E

na minha gola de neve cai

uma cama de gelo quebrado.



No Inverno a minha amada

é uma árvore entre as árvores e

convida aos belos ramos

os corvos abandonados da sorte. Sabe

que o vento, ao anoitecer, lhe levanta o

vestido hirto de noite e geada,

e me leva para casa.



No Inverno a minha amada

Vai silenciosa com os peixes.

Servindo as águas, movidas adentro

pelo o fio das barbatanas,

eu fico na margem e vejo-a

mergulhar e revirar,

enquanto os gelos não me expulsam.



E de novo, ao embate do grito

da ave que me ampara

com a asa, desabo

num campo aberto: a amada depena

as galinhas e atira-me

uma clavícula branca. Ponho-a ao pescoço

e afasto-me por entre a penugem amarga.



Infiel é a minha amada,

eu sei que às vezes flutua

de saltos altos até à cidade,

beija nos bares com a palhinha

os copos profundamente na boca

e vêm-lhe palavras para todos.

Mas eu não percebo o idioma.



Vi terra de névoa.

Comi coração de névoa.



uma espécie de perda


Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.



O Tempo Aprazado


Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Vêm aí dias difíceis.

A verdadeira poesia



Ontem foi um dia intenso. Fui a Neue National Galery e percebi que as minhas paixoes em arte nao evoluiram nada nos ultimos anos: ainda continuo desperadamente atraida pelos surrealistas.

Depois fui a uma poetry reading e embebedei-me:
A verdadeira poesia é a sede de poesia.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Wangechi Mutu: My Dirty Little Heaven




"O ventre das mulheres contém sempre uma criança ou uma doença" - Celine



vestem-se as dores
nos bastidores da minha memória
esta é a puta
que estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a ingénua
não estendeu a mão
após descruzar as pernas
esta é a nostálgica
traz a mão estendida
nunca descruzou as pernas
despem-se as dores nos
bastidores da minha memória

&

a puta que me pariu era a mais linda da rua formosa
eu saí a ela deve ser por isso que mal sorrio os homens perguntam
quanto é
e eu não é nada a puta que me pariu pôs-me a estudar e eu agora
só sorrio e é tudo de graça
e a seguir mostro-lhes o rabo e a seguir as pernas e ponho-me a andar
deixo-os de corpo a abarrotar
de tralha

&

um homem geme porque
o corpo da mulher que recusa
se enrosca e
a recusa é doce e um homem geme
enquanto a mulher se ausenta
estica o corpo até às nuvens
enfia os dedos no ânus das nuvens e
está frio na ponta dos seus dedos então
a mulher cose as nuvens umas às outras
monta um carrossel para se aquecer
e disse tomai os meus vestidos enfiai-os que não os quero mais
e empinou o corpo
finalmente a mulher remata o homem enrosca-se então

&

hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente


Bénédicte Houart

domingo, 16 de maio de 2010

Andamos a adormecer juntas ultimamente e tem sido das melhores companhias que encontrei na cama

MULHER AO MAR



ANIVERSARIO

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu
à frente sem reparar deixava
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao telhado desarmados.

O tambor do sol batia
nos olhos que a luz e o álcool e a luz
e o álcool diminuíam
e os branco raiavam o solstício
incandescentes eu
fazia vinte anos tu
tinhas-me dado uma música eu
rodava-a na mão e o sol
girava no gume do metal eu
de vestido curto descrevia
um círculo de desejo nós
estávamos tristes creio nós
tínhamos subido e a crista
das telhas beliscava na pele
petéquias de luz e tu
ao disco do sol dançavas e eu
de olhos cegos espiava fazia calor nós
tínhamos bebido e tínhamos calor eu
já tinha vinte anos nós
éramos o grande amor.


-"Mulher ao Mar"- Margarida Vale de Gato

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Full of romantic hopes, I shall place my head in the oven as well



"I have a lot to give someone, someday. But I must not be too Christian. I can only end up with one, and I must leave many lonely by the wayside. So that is all for now. Perhaps someday someone will leave me by the wayside. And that will be poetic justice.

(...)

Click-click: tick-tick
Clock snips time in two
Lap of rain
In the drain pipe
Two o’clock
And never you.
Never you, down the evening,
I cannot
Cry, or even smile
Acidly or bitter-swetly
For never you and incompletely.
Things surround me;
I could touch
Soap or toothbrush
Desk or chair.
Never mind the three dimensions
All is flat and you not there.
Letters, paper, stamps
And white. And black.
Typewritten-you, and there
It is.
The trickle, liquid trickle
Of rain in drain-pipe
Is voice enough
For me tonight.
And the click-click
Hard quick click-click
Of the clock
Is pain enough,
Enough heart-beat
For me tonight.
The narrow cot,
The iron bed
Is space enough.
To bed and sleep
And tearless creep
The formless seconds
Minutes hours
And never you
The raindrops weep
And never you
And tick-tick,
tick-tick
pass the hours."

The Journals of Sylvia Plath 1950-1962

domingo, 20 de dezembro de 2009

Aos meus amantes



Isto não é poesia.
São fragmentos de pele,
Suor, lágrimas,
Vómito, pelos púbicos.
Saliva e merda
Muita merda.
São beijos também,
Flirts com a minha verdade
Que é múltipla,
Resistente e selvagem.
São corpos histéricos
Em busca de uma luz que liga
De um corte que toque a ferida.
São gritos desvairados
Umas vezes doces
Outras tristes.
Sem beleza poética.
E afinal das contas, tudo isto para quê?
Para muito pouco. Ou nada.
Um registo da luta diária
Que vou travando contra mim.
São então
Palavras
De mim
Para mim
Contra mim.
E tudo tão pouco.
Sempre aquém.
Hoje acordei e tinha a verdade
Espalhada por todo o corpo:
Uma aspereza na mão
Uma liquidez na face
Doce.
Não a esperava tão doce,
Tão calmante.
Para dizer a verdade,
Não esperava a verdade.
Embora toda a minha estória
Seja a tensão dessa procura.
Com muito sono
Por intermédio
Pois as horas maçam-me
E é sempre preciso derrotar-me um pouco.
Nunca amei. Não amo.
Às vezes tenho acessos de sede
E saio pelas ruas
Nua e sedenta.
Volto tarde com uma presa nos dentes.
Luto com ela na minha insaciedade.
Até que a sede vença de novo
E seja preciso voltar a navegar.
O meu nome é Eva
Nasci da terra vermelha
Dos homens e dos deuses
Criada como indigna e impura
Hoje corro as cidades
Comandada pela raiva e pela humilhação.
Há também uma vontade de vingança
(Não fosse a vingança feminina,
Ninguém a executa melhor do que uma
Fêmea enganada.
E a mim enganaram-me
E não me sabia mulher
Até ter sido enganada.)
Quando tenho medo,
Muito medo,
Fico quieta,
Quente e dócil
Fundo-me com a natureza dos cobertores
Numa vontade de aniquilação
De camuflagem.
Há algo de animal no meu corpo
De fera ferida,
Algo que vocifera,
Ruge,
Rosna,
Ronrona
E se dobra
Perante um predador mais desesperado.
Um desejo de crueldade
De violação.
Fui excluída da festa dos senhores
Relegada aos trabalhos domésticos
(Não sou uma mulher
Quando galgo as estradas,
Mas quando as coisas correm mal,
Torno-me mulher,
Injuriada como todas,
E culpo a condição.)
Um grito nas traseiras da casa
Que um dia será o grito da revolução
A minha forma de assassinar os senhores
É mastigar as suas carnes com o ventre,
Deitada por debaixo deles,
Alargada nos meus buracos de raiva.
E ressentimento.
Obrigada ao silêncio
Ou ao gemido de prazer.
Vergada pela reprovação,
Acusada da insegurança dos homens.
E dos deuses,
Já agora.
Também os deuses não sabem o que fazer com uma mulher.
O enigma da criação é o eterno feminino.
E para quando o meu banquete?
Para quando???
Eu quero sair
Beber o vinho da camaradagem
Descansar o corpo em redes sonolentas
Respirar
Olhar sem ver
Não estar em guerra
Mas não estar sozinha.
Quero tréguas:
Paz com os homens
E os deuses.
Corpo de cera,
Cabelo de boneca,
Porte de rainha,
A natureza não me deu nada disso.
Coube-me apenas um par de olhos,
Belos, fatais
E profundos, fundos.
Mas na mulher,
Já dizia Nietzsche,
São outros buracos que se querem profundos.
Abaixo do ventre.
Nunca os olhos.
Nem a boca.
E por isso,
(e por tudo o resto
- ou por nada)
Me revolto.
(E pode bem ser
Que me revolte apenas para melhor saborear a submissão).
Mas isso é cá comigo.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

the boys i mean are not refined


the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance


e.e. cummings

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Canibalismo emocional


Os corpos andam loucos e suados,
Ansiando por prazeres de lonjura
Cruzam-se pelas ruas, esquinas, becos,
Tocam-se na guerra e no amor
Onde vale tudo e a vida vale tão pouco
Guerreiam-se, enfrentam-se, digladiam-se
Em nome de umas tréguas que esqueceram.
Não conseguem dormir, os corpos,
Andam pela cidade deserta, insones,
Vazios pela sede,
Por uma fome imemorial.
De manhã, os corpos vão cansados para a cama
Morrer um pouco.
Têm urgência em desnascer.
Depois de tanto se darem ao manifesto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

NADA


Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, um amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão"

Tu e Eu


Eras tu.
Eras tu quando passávamos as tardes no meu quarto abafado no Bairro Alto,
Nus e completos.
Eras tu quando ríamos juntos
E ninguém nos podia derrotar na nossa alegria.
Eras tu naquele dia em que fomos ao cinema
E fomos belos e fortes.
Perfeitos.
Um para o outro.
Companheiros.
Amantes.

Mas também não eras tu.
Não eras tu quando ficavas os dias inteiros em casa,
Amarrotado e sujo,
Espalhando derrota pelas paredes.
Não eras tu quando espumavas raiva
Contra todos os condutores do mundo,
Tentando expiar uma ofensa antiga
Talvez imemorial.
Não eras tu então
E, dentro de mim,
Algo te estranhava e odiava.

Eras tu quando acordavas e me tocavas o rosto.
Não eras tu quando não rias comigo.
Eras tu quando movias mundos só para me ver.
Não eras tu quando me gritavas o quanto me odiavas
E quão má eu tinha sido para ti.
Eras tu quando me olhavas numa ternura canina.
Não eras tu quando me deixavas adormecer sozinha e fria.
Eras tu quando me fazias sentir mulher na certeza de um abraço.
Não eras tu sempre que bebias demasiado.
Eras tu quando me ias buscar ao trabalho e levavas flores.
Não eras tu quando me traías.
Eras tu quando podia ser eu contigo.
E correr livre com o teu cheiro a seguir-me,
Não eras tu quando não podia ser eu.

Eras tu.
Meu pai, meu irmão, meu amigo,
Meu amante.
Não eras tu.
Meu adversário.
Não eras pão, madrugada e sono.
No meio disto tudo,
Deixei de saber quem eras.
E nesta intermitência nos perdemos.
E deixaste de ser tu.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Baforadas Nocturnas


Ás vezes,
Quando a alegria é tanta que ameaça partir o peito
em estilhaços,
ou quando o pensamento se torna velozmente irracional
e ameaça desapegar-se
do corpo que o pensa e sofre,
tenho vertigens.
Medo de deixar o corpo para trás.
Como um resto.
A esbracejar furiosamente.
Sobrando.

sábado, 14 de novembro de 2009

Há ratos em New York



Há ratos em Nova Iorque.


As ruas e os metros são deles, não dormem. Não descansam.


A confusão dos dias afastam-os dos olhares, há demasiada solidão e extravagância para olhar e ignorar.


Mas eles estão lá, ruminando e vasulhando incessantemente nos destroços que enchem a cidade.


Lavrando no escuro à espera da desistência humana. Roendo arranha-céus, senhores do subterrâneo e dos asfaltos sujos.


Não se deixam tocar, são arredios, escapam pelas sombras, mas tenho carinho por eles.


Chamo a todos Pet e não reúno paciência nem esforços para os liquidar.


Quando os olho, fico fascinada e sei que a cidade será um dia deles.


Sei que se alimentam indiferentes dos restos dos nossos consumos e que sabem que também nós, um dia, nos havemos de consumir.


Os ratos não têm pena dos humanos mas não nos desafiam. Não querem comungar da nossa desgraça. Não querem conviver connosco, sabem que somos astros breves e que nos havemos de extinguir.

Os ratos são os verdadeiros new Yorkers.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outono Transfigurado


Estranhos são os caminhos outonais que fazem regressar os corpos à procissão dos dias.

Outubro, mês de véus e mistérios.


Há um corpo aquecido pela celebração estival que regressa em passos silenciosos pela floresta opaca. Um corpo anónimo, forasteiro, com um rosto de prata oferecido sem pudor ao vento frio que o acompanha. Nos bolsos, esconde as mãos ainda ardidas pela recordação do amor, esse astro grave.

As aves levantam voo das suas moradas lunares á sua passagem. Temem que traga presságios malignos. Não podemos censurar as aves – não conhecem o silêncio de um coração humano em paz.


O verde nocturno abre-se e eis a cidade de pedra e as luzes eléctricas que a alumiam fracamente. Os passos tornam-se hesitantes: recordam as dores fundas que fundaram o ser.

No centro da cidade há uma praça. Nela uma estátua de olhos fechados com o dedo indicador nos lábios, convida ao silêncio os viajantes tardios. O corpo passa sem a olhar, apressado por escapar á ordem do esquecimento. Aperta mais as mãos dentro dos bolsos, não quer deixar escapar a liquidez que o acompanha.


Vagueia pela noite eléctrica, pisando as folhas amarelecidas nos passeios públicos, enquanto recicla a vontade de amar. Antes do dia nascer, entra numa igreja, concentra-se no som dos seus tacões a ecoar pelas paredes seculares e recorda o mistério do sagrado.

Quando sai, o sol forte já transformou a cidade de pedra numa cidade viva. As ruas estão apinhadas de pessoas, cheias de vendedores de vegetais, frutas e peixe. Os carros e as motas buzinam de alegria. O corpo perde o anonimato e transforma-se num rosto feliz por ter vencido a noite inumana.


Para celebrar o seu regresso, decide comprar castanhas assadas na próxima esquina. Observa o rosto fuliginoso da vendedora idosa e as suas mãos gigantes. Depois vai avenida abaixo, saboreando as castanhas solenemente. Quando termina, as suas mãos regressam aos bolsos do sobretudo. Contentes, apaziguadas e ainda quentes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MÁRIO CESARINY



PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmera escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipícioe cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter med0
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny in " nobilíssima visão "


OS PÁSSAROS DE LONDRES

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio
fosse o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo
fora o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Grande Bukowski


From my bed
I watch
3 birds
on a telephone
wire.
one flies off.
then
another.
one is left,
then
it too
is gone.
my typewriter is tombstone still.
and I am
reduced to birdwatching.
just thought I'd
let you know,
fucker.

Charles Bukowski

Afinal este homem era grande, tenho de admitir.

sábado, 29 de agosto de 2009

Muda de Vida

Construí mal. Usei os andaimes errados: construí para uma pessoa que não sou. Agora deito fora esta muda de vida usada e gasta e tento o que não tentei seriamente antes. Ser feliz.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sputnik, meu Amor


«Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa.»


Resta o choque, a colisão como forma de toque, de carícia.

Mulher em Sangue




Este é um livro que li há algum tempo, mas que continua na minha lista mental dos livros da minha vida. O mais verdadeiro e também o mais violento.


Lorena é uma serial suicida, é o eterno feminino das mulheres que sangram, uma personalidade vulcânica que asfixia de intensidade, sem abdicar do humor.


«O sol desceu pela janela e perguntou por mim. O sol entrou no celeiro e procurou por mim. O sol me segui num rastro ao redor do feno. O sol me acordou com um beijo nos lábios. Sorriso caído, cigarro apagado. O sol puxou minha blusa e abriu minha calça. Lambeu meu suor, me derretendo. O sol me disse para não ter medo, não ia doer. Fogo no celeiro, com o sol sobre mim.


(...)


As chamas ardem mas eu não ligo. Eu fecho os olhos e agradeço ao rum. Que ninguém é tão sozinha com o mundo girando. Eu não vou ser tão sozinha no próximo verão.»


Lorena. A mulher que todos os homens querem amar, mas não conseguem. Porquê? Eu sei lá... Por medo, por insegurança, por falta de ousadia, por repulsa. Não é fácil amar uma mulher de corpo e sangue. Os homens ainda preferem as feitas de barro. Lorena Vs. Eva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Balada do Medo

Balada da Praia dos Cães: um romance policial experimental que conta a história de um crime político histórico. Editado em 1982, é a história da investigação do crime da praia do Mastro, que em 1960 dera origem a manchetes de jornais e animara conversas de café. Construído a partir do relato escrito de um dos envolvidos na morte, Cardoso Pires esperou vinte anos para escrever em liberdade sobre um crime cometido por opositores ao governo fascista de Salazar e da PIDE.

Elias Santana, mais conhecido por Covas na Judite, conduz a investigação. Interroga, anda aos calados, teslê os relatórios e consulta o Livro dos Mortes. Vagueia pela cidade, limpa o jazigo de família e vive sobre o Tejo, tendo por única companhia o lagarto Lizardo. Começamos e acabamos com Covas. O polícia que “ao fim de muitos anos de traquejar com cadáveres malditos” conclui que “o que mata não faz mais que se suicidar nessa morte”.

O móbil do crime não chega a ser explicitado. Os criminosos tinham todos os motivos e, simultaneamente, nenhuns para o crime. Três suspeitos, três conspiradores numa balada de medo. O arquitecto Fontenova e o cabo, evadidos do Forte de Elvas, e Filomena, Mena - a amante voluptuosa e provocadora do Major: mulher em fundo de aves.

O caso arrasta-se num relato que impressiona por se alimentar daqueles que experimentaram a forma dramática de solidão que é o medo. E que ficaram para contar ou dar a contar como o medo tem uma lógica que aliena de valores até um ponto em que se torna assassino. Porque o assassino é o medo.

Tragédias individuais nascidas de um erro colectivo - as sociedades de terror servem-se dos crimes avulsos para justificarem o crime social que elas representam por si mesmas e que em todos esses crimes essa mão está presente, em todos. «O medo é uma forma dramática de solidão», escreve o assassino. Um limite de solidão que aliena todos os valores e permite o crime. E o medo é o assassino.


Brilhante, JCP!