
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Cenas de caça: Diana

terça-feira, 8 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
decifra-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar

A aprendizagem da mulher começa pelo convite paciente do homem: “Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro (…). Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o nosso pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos do que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de pagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você estar mais pronta.” (p. 40-41).
Mas ela ainda não está a salvo: é necessário enfrentar o silêncio visceral das noites de terror para se chegar aos pensamentos sobrenaturais das madrugadas indizíveis: “tenta-se em vão ler para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarcá-lo, inventar um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo possível. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio? Desse silêncio sem lembrança de palavras (…). E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente” (p. 30-32).
E então ela deixa de entender, porque compreender foi sempre um erro que impossibilitou a rara adivinhação. “O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez” (p. 37). E o silêncio que nunca mais se esquece aninha-se no seu colo, assombrando-lhe os gestos e reclamando que o seu coração se apresente nu e submisso perante o Nada. Mas o Nada é um abismo, que convida à vertigem e ela chega ao impasse de si mesma, assusta-se, quer recuar, telefona ao homem que a aguarda com fidelidade, confessa a sua escuridão, o mistério de não saber como estar viva e este responde: Aguente. E ela aguenta, arrisca o grande perigo – a alegria, e alcança por fim o grande susto de estar viva, a grande dor e a alegria mansa.
E, finalmente, mulher com um corpo habitado, sem culpa nem gratidão, ela vai ao encontro do seu homem, que a recebe de joelhos pois a mulher que regressa de tão longas jornadas é a mãe, desabrochada em rosa vermelho-sangue. “E de súbito o sobressalto da alegria: notava que estava abrindo as mãos e o coração mas que se podia fazer isso sem perigo! Eu não estou perdendo nada! Estou enfim me dando e o que me acontece quando eu estou me dando é que recebo, recebo (…). Não havia pois mais avareza com seu vazio-pleno que era a sua alma, e gastá-lo em nome de um homem e de uma mulher” (p. 128-129).
“ – Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si, disse Ulisses.
- Não sei, meu amor, mas sei que meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo.
- Mulher minha, disse ele.
- Sim, disse Lóri, sou mulher tua” (p. 138).
Querida V.,
Eurídice

“Vai, cai, levanta-te, faz o que te aprouver. Não te consegui evitar. Nem a ti, nem à tua sombra. Nem ao teu pó, se te afundares. Fui tua. Conheci o teu reinado e não me envergonho. Não quero essa coroa. Porque é outra coisa que quero: ser mulher. Mulher até ao fim. Que sofre. Que, devendo reinar, o consegue através disto: submissão.
Mulher, repetiu de novo. Com aquela racha entre as pernas, no seu baixo-ventre. Uma falha mas daquelas, que como tu próprio me disseste, nas Sagradas Escrituras, longe de serem encaradas como privações, são chamadas tesouros.
(…)
O que ele tentava fazer era evidente. Ela já não precisava fingir não perceber. Sentiu a gaveta abrir-se, depois o movimento do braço que retirava o revólver.
(…)
O cano gelado da arma foi encostado às suas vértebras, um pouco abaixo do seio direito. Embora estivesse equipado com um silenciador, ela apercebeu-se da detonação e sentiu a bala penetrar-lhe a carne.
Era, então, isto que tu querias, pensou.
(…)
Levantou-se em silêncio e dirigiu-se à casa de banho. Examinou a ferida. Parecia limpa, bem definida, como se tivesse sido desenhada à mão. Por baixo do espelho, por entre os seus produtos de beleza, encontrou a caixa de adesivos que tinha por hábito trazer consigo. Colocou um sobre a ferida e acalmou-se imediatamente. Pelo menos, não iria morrer como uma prostituta de motel.
Inacreditável, repetiu para si própria ao voltar para a cama. Ele continuava a dormir como se nada fosse, e ela, como mil anos antes, estendia-se a seu lado.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Ah, diz-me a verdade acerca do amor
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.
Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.
Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.
Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.
Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
W.H. Auden
QUANDO O CAÇADOR SE TORNA CAÇA

terça-feira, 13 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Meu nome é Legião, porque somos muitas: Circe é um deles.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Quero este livrinho de gaja
sábado, 27 de agosto de 2011
Tanatografias
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
And if it is not love then it's the bomb, the bomb...
Depois de muitos dias intensivos de estoicismo apercebi-me que continuo extremista. Depois de ter dedicado alguns anos à investigação afincada do projecto hedonista, tomando o prazer e o riso como missão, retornei a Lisboa com a minha revolução sexual concluída, as finanças arruinadas e com os nervos algo descompensados. Há este problema de fundo com a via do êxtase: toma-se o momento presente como absoluto e tudo o resto vai colapsando. Mas é preciso ter a coragem de destruir, já dizia o Stirner, e não lamento os dias esbanjados.
Decidi então experimentar o outro extremo, a atitude estóica, ocupando os dias a ler, a trabalhar e a cozinhar. Resultado: tornei-me uma dona-de-casa com alguns laivos intelectuais e aprendo a persistir e a contrariar a minha inquietação. A coisa corre bem. Mas chego à conclusão que a doutrina do meio-termo enunciada por Aristóteles é a mais acertada. Desde que me conheço que desprezo a palavra “moderação” mas a minha aprendizagem revela-me que é preciso ir por aí para viver bem, ou viver menos mal. Ao clamor tchekhoviano “É preciso trabalhar!”, é preciso adicionar “É preciso conhaque!” Em nome da saúde mental, é preciso ter horários para servir o dever narcóticos e horários para desatinar e descompensar: é tudo, com efeito, uma questão de dosagem.
E por isso ontem, segui leve pela noite adentro: dançar, dançar para cansar o corpo e aliviar a cabeça que pensa sempre demais do que deve. Voltei a reencontrar a beleza nocturna nos corpos que se agitam como quem empenha todo o vigor das últimas forças. São corpos que apostam o sono em nome de uma alegria que os invade na claridade pela sua ausência, mas que não desistem de acreditar e procurar. Uma cambada de crentes popula os bares e uma oração diferente, uma oração da convulsão, sobe pelas raios eléctricos da noite. E ouvem-se as coisas mais bonitas porque a escuridão torna as palavras mais espontâneas: um tipo com cara de anjo despede-se às seis da manhã dizendo que vai para o seu quarto beber uma garrafa de vodka e desmembrar uma grama de cocaína; tem um ar santo, parece um daqueles monges habituados a visões beatíficas. “É a minha cena. Ando a desfrutar imenso da minha relação comigo”, diz antes de partir, mas não como quem se justifica. E ao vê-lo ir-se, sabe-se que, apesar de utilizar meios travessos (e quem não os utiliza, feitas as contas?), ali vai um tipo em paz consigo, mesmo que momentânea. E vêem-se as coisas mais despropositadas, subitamente justificadas por uma aura de sonho que envolve a visão e a torna estranhamente mais turva mas também mais curva. No Copenhaga, o cinema português dança com passos histéricos ao som do Hit the Road Jack e insinua-se em ti uma suspeita de que talvez nem tudo esteja perdido neste país ! Tens os pensamentos planos e suaves, esqueces as horas, os planos de regressar e fazes all-in com mais um Jack Daniels, saboreando o contraste do gelo nos lábios contra o calor que ameaça o peito. Porque sabes, de um modo seguro e íntimo que tudo corre bem e os vivos estão, afinal, ainda vivos e fortes.
E depois há o dia a raiar, as gaivotas girando loucas num céu que pica, o sol vigoroso das nove horas que reinicia o trabalho da criação. Mas é domingo, ainda há calma, o mundo dá uma pausa. E entras finalmente no táxi e casa é agora uma palavra querida. E aí acontecem sempre as conversas mais hilariantes e profundas, porque os deuses, depois de mortos pelo progresso das luzes e das fábricas, reencarnaram taxistas. Deus e o Diabo, a coisa é uma roleta, nunca se sabe quem te leva a casa. E o taxista pergunta se te divertiste. Dizes sim, com um sorriso fino. Ele diz que estás com um ar feliz. Respondes que estás a pensar no amor. Ele pergunta porque voltas então para casa sozinha. Não tens essa resposta, Deus e o diabo são ambos matreiros nas perguntas que te fazem. Na incerteza avanças que não sabes, que se calhar o melhor é ele fazer inversão de marcha, voltar ao ponto onde te apanhou. E então ele diz: “Não, relaxa, ouve aí essa morna angolana e vais para casa descansar”. E ele aumenta o som, e tu encostas a cabeça, cabelos ao vento fresco, olhos sonhando as avenidas e o rio, os poros todos a ouvir a voz africana mais sedosa do mundo. E sabes que tiveste a dose de beleza que te vai permitir mais dias calmos, sem sentires que esfacelas as asas contra as barras da gaiola. E que, desta vez, voltas a casa guiada por Deus.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
"Nunca disse que fosse sempre um erro entrar no país das fadas. Disse somente que era sempre perigoso" (Chesterton)
"Aí tendes, malditos sejais, saciai-vos com este belo espectáculo!" (Platão)
it's all so quiet, ma...
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
"Um anjo no Inferno voa na sua própria pequena nuvem de Paraíso" (Eckhart)
“Sou culpado, o leitor não, muito bem. Mas o leitor deveria apesar de tudo ser capaz de dizer para consigo que teria feito também aquilo que eu fiz. Talvez com menos zelo, mas talvez também com menos desespero, mas seja como for de uma maneira ou de outra. Penso que me é permitido concluir como um facto estabelecido pela história moderna que toda a gente, ou quase, num conjunto de circunstâncias dadas, faz o que se lhe diz que faça; e, peço desculpa, há poucas probabilidades de ser o leitor a excepção, tal como eu não a fui. Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus e vão em paz. Mas mantenham sempre presente no espírito esta ideia: talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu. Porque no momento em que tenham a arrogância de pensar sê-lo, aí começa o perigo.” (pag. 27).
Já quase nada lhe interessa. Mantém aventuras esporádicas com belos rapazes como um cuidado de higiene. Resta-lhe apenas a literatura. Não fosse a guerra, ter-se-ia ocupado das coisas belas e calmas, fazendo ou ensinando literatura. E gostaria de ter tocado piano. “Tocar só para mim, em casa, ter-me-ia cumulado de satisfação. Bem entendido, ouço muitas vezes música, e nisso tenho um vivo prazer, mas não é a mesma coisa, é um prazer de substituição. Tal como os meus amores masculinos: a realidade, não coro ao dizê-lo, é que teria preferido decerto ser uma mulher. Não necessariamente uma mulher que vivesse e agisse neste mundo, uma esposa, uma mãe; não, uma mulher nu, deitada de costas, com as pernas abertas, esmagada sob o peso de um homem, agarrada a ele e trespassada por ele, afogada nele e tornando-se o mar sem limites em que ele mesmo se afoga, prazer sem fim, e sem princípio também. Ora não foi assim. Em vez disso, dei comigo jurista, funcionário da segurança, oficial SS, e depois director de uma fábrica de rendas. É triste, mas é como é.” (p. 29).
Uma odisseia não se pode levar a cabo sem um homem desabrigado no início dos inícios. E este homem não está abrigado no homem que é porque os abrigos do humano foram calcinados pelos fornos crematórios.
E uma odisseia não pode efectuar-se sem o amor por uma mulher distante. “Uma só, mas mais do que tudo no mundo. Ora essa, justamente, era a que me estava proibida. É bastante concebível que ao sonhar ser uma mulher, sonhando-me um corpo de mulher, eu a procurasse ainda, quisesse aproximar-me dela, quisesse ser como ela, quisesse ser ela. É inteiramente plausível, ainda que nada mude ao caso. Dos tipos com quem fui para a cama, nunca amei um só que fosse, servi-me deles, dos seus corpos, é tudo.” (p.29)



