terça-feira, 15 de novembro de 2011
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
(...)
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido – eu da palavra Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser cadela de todos os cães e eles não bastam,
(...)
Álvaro de Campos
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Merci, chérie!

Atravessaram o atlântico e chegaram hoje numa caixinha amorosa e com palavras carinhosas. O carteiro notou o meu sorriso infantil e expectante. Irei sempre delirar com livros que chegam por correio, mesmo que sejam encomendados da amazon, do price minister ou da wook, porque me recordam o frenesim em que ficava nos dias da infância, quando os livros chegavam também por correio, vindos de longe, para alegrar os dias chuvosos. domingo, 13 de novembro de 2011
DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
sábado, 12 de novembro de 2011
Profanações íntimas

quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Cenas de caça: Bacantes

A primeira a começar o ritual do morticínio é a mãe, que cai sobre ele. Penteu atira com a mitra que tinha sobre o cabelo, para que, reconhecendo-o, o não imolasse a desventurada Agave. Toca-lhe na face e diz: “Sou eu, ó mãe, o teu filho Penteu, a quem deste à luz no palácio de Equíon. Compadece-te de mim, ó mãe, não sacrifiques o teu filho por causa dos meus desvarios”.
Com a boca a espumar e revolvendo os olhos em todas as direcções, sem saber pensar direito, e dominada por Baco, não a persuadiu o filho. Agarra-lhe o antebraço esquerdo, apoia o pé no flanco do desventurado e desarticula-lhe o ombro, não pela sua própria força, mas pela destreza que o deus infundira em suas mãos.
Do outro lado actuava Ino, dilacerando as carnes. Antónoe e o bando todo das Bacantes assenhoravam-se dele. Por todos os lados se erguia um clamor: ele gemia com o alento que lhe restava, elas soltavam gritos de triunfo. Levava uma o braço, outra um pé ainda calçado. Desnudavam-se as costelas dilaceradas pelas unhas. Todas as mãos estavam ensaguentadas das carnes de Penteu atiradas como quem joga à bola.»
Eurípedes, As Bacantes, v. 1105-1140
Cenas de caça: Diana

terça-feira, 8 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
decifra-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar

A aprendizagem da mulher começa pelo convite paciente do homem: “Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro (…). Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o nosso pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos do que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de pagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você estar mais pronta.” (p. 40-41).
Mas ela ainda não está a salvo: é necessário enfrentar o silêncio visceral das noites de terror para se chegar aos pensamentos sobrenaturais das madrugadas indizíveis: “tenta-se em vão ler para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarcá-lo, inventar um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo possível. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio? Desse silêncio sem lembrança de palavras (…). E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente” (p. 30-32).
E então ela deixa de entender, porque compreender foi sempre um erro que impossibilitou a rara adivinhação. “O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez” (p. 37). E o silêncio que nunca mais se esquece aninha-se no seu colo, assombrando-lhe os gestos e reclamando que o seu coração se apresente nu e submisso perante o Nada. Mas o Nada é um abismo, que convida à vertigem e ela chega ao impasse de si mesma, assusta-se, quer recuar, telefona ao homem que a aguarda com fidelidade, confessa a sua escuridão, o mistério de não saber como estar viva e este responde: Aguente. E ela aguenta, arrisca o grande perigo – a alegria, e alcança por fim o grande susto de estar viva, a grande dor e a alegria mansa.
E, finalmente, mulher com um corpo habitado, sem culpa nem gratidão, ela vai ao encontro do seu homem, que a recebe de joelhos pois a mulher que regressa de tão longas jornadas é a mãe, desabrochada em rosa vermelho-sangue. “E de súbito o sobressalto da alegria: notava que estava abrindo as mãos e o coração mas que se podia fazer isso sem perigo! Eu não estou perdendo nada! Estou enfim me dando e o que me acontece quando eu estou me dando é que recebo, recebo (…). Não havia pois mais avareza com seu vazio-pleno que era a sua alma, e gastá-lo em nome de um homem e de uma mulher” (p. 128-129).
“ – Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si, disse Ulisses.
- Não sei, meu amor, mas sei que meu caminho chegou ao fim: quer dizer que cheguei à porta de um começo.
- Mulher minha, disse ele.
- Sim, disse Lóri, sou mulher tua” (p. 138).
Querida V.,
Eurídice

“Vai, cai, levanta-te, faz o que te aprouver. Não te consegui evitar. Nem a ti, nem à tua sombra. Nem ao teu pó, se te afundares. Fui tua. Conheci o teu reinado e não me envergonho. Não quero essa coroa. Porque é outra coisa que quero: ser mulher. Mulher até ao fim. Que sofre. Que, devendo reinar, o consegue através disto: submissão.
Mulher, repetiu de novo. Com aquela racha entre as pernas, no seu baixo-ventre. Uma falha mas daquelas, que como tu próprio me disseste, nas Sagradas Escrituras, longe de serem encaradas como privações, são chamadas tesouros.
(…)
O que ele tentava fazer era evidente. Ela já não precisava fingir não perceber. Sentiu a gaveta abrir-se, depois o movimento do braço que retirava o revólver.
(…)
O cano gelado da arma foi encostado às suas vértebras, um pouco abaixo do seio direito. Embora estivesse equipado com um silenciador, ela apercebeu-se da detonação e sentiu a bala penetrar-lhe a carne.
Era, então, isto que tu querias, pensou.
(…)
Levantou-se em silêncio e dirigiu-se à casa de banho. Examinou a ferida. Parecia limpa, bem definida, como se tivesse sido desenhada à mão. Por baixo do espelho, por entre os seus produtos de beleza, encontrou a caixa de adesivos que tinha por hábito trazer consigo. Colocou um sobre a ferida e acalmou-se imediatamente. Pelo menos, não iria morrer como uma prostituta de motel.
Inacreditável, repetiu para si própria ao voltar para a cama. Ele continuava a dormir como se nada fosse, e ela, como mil anos antes, estendia-se a seu lado.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Ah, diz-me a verdade acerca do amor
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.
Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.
Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.
Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.
Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
W.H. Auden
QUANDO O CAÇADOR SE TORNA CAÇA

terça-feira, 13 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Meu nome é Legião, porque somos muitas: Circe é um deles.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Quero este livrinho de gaja
sábado, 27 de agosto de 2011
Tanatografias
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
And if it is not love then it's the bomb, the bomb...
Depois de muitos dias intensivos de estoicismo apercebi-me que continuo extremista. Depois de ter dedicado alguns anos à investigação afincada do projecto hedonista, tomando o prazer e o riso como missão, retornei a Lisboa com a minha revolução sexual concluída, as finanças arruinadas e com os nervos algo descompensados. Há este problema de fundo com a via do êxtase: toma-se o momento presente como absoluto e tudo o resto vai colapsando. Mas é preciso ter a coragem de destruir, já dizia o Stirner, e não lamento os dias esbanjados.
Decidi então experimentar o outro extremo, a atitude estóica, ocupando os dias a ler, a trabalhar e a cozinhar. Resultado: tornei-me uma dona-de-casa com alguns laivos intelectuais e aprendo a persistir e a contrariar a minha inquietação. A coisa corre bem. Mas chego à conclusão que a doutrina do meio-termo enunciada por Aristóteles é a mais acertada. Desde que me conheço que desprezo a palavra “moderação” mas a minha aprendizagem revela-me que é preciso ir por aí para viver bem, ou viver menos mal. Ao clamor tchekhoviano “É preciso trabalhar!”, é preciso adicionar “É preciso conhaque!” Em nome da saúde mental, é preciso ter horários para servir o dever narcóticos e horários para desatinar e descompensar: é tudo, com efeito, uma questão de dosagem.
E por isso ontem, segui leve pela noite adentro: dançar, dançar para cansar o corpo e aliviar a cabeça que pensa sempre demais do que deve. Voltei a reencontrar a beleza nocturna nos corpos que se agitam como quem empenha todo o vigor das últimas forças. São corpos que apostam o sono em nome de uma alegria que os invade na claridade pela sua ausência, mas que não desistem de acreditar e procurar. Uma cambada de crentes popula os bares e uma oração diferente, uma oração da convulsão, sobe pelas raios eléctricos da noite. E ouvem-se as coisas mais bonitas porque a escuridão torna as palavras mais espontâneas: um tipo com cara de anjo despede-se às seis da manhã dizendo que vai para o seu quarto beber uma garrafa de vodka e desmembrar uma grama de cocaína; tem um ar santo, parece um daqueles monges habituados a visões beatíficas. “É a minha cena. Ando a desfrutar imenso da minha relação comigo”, diz antes de partir, mas não como quem se justifica. E ao vê-lo ir-se, sabe-se que, apesar de utilizar meios travessos (e quem não os utiliza, feitas as contas?), ali vai um tipo em paz consigo, mesmo que momentânea. E vêem-se as coisas mais despropositadas, subitamente justificadas por uma aura de sonho que envolve a visão e a torna estranhamente mais turva mas também mais curva. No Copenhaga, o cinema português dança com passos histéricos ao som do Hit the Road Jack e insinua-se em ti uma suspeita de que talvez nem tudo esteja perdido neste país ! Tens os pensamentos planos e suaves, esqueces as horas, os planos de regressar e fazes all-in com mais um Jack Daniels, saboreando o contraste do gelo nos lábios contra o calor que ameaça o peito. Porque sabes, de um modo seguro e íntimo que tudo corre bem e os vivos estão, afinal, ainda vivos e fortes.
E depois há o dia a raiar, as gaivotas girando loucas num céu que pica, o sol vigoroso das nove horas que reinicia o trabalho da criação. Mas é domingo, ainda há calma, o mundo dá uma pausa. E entras finalmente no táxi e casa é agora uma palavra querida. E aí acontecem sempre as conversas mais hilariantes e profundas, porque os deuses, depois de mortos pelo progresso das luzes e das fábricas, reencarnaram taxistas. Deus e o Diabo, a coisa é uma roleta, nunca se sabe quem te leva a casa. E o taxista pergunta se te divertiste. Dizes sim, com um sorriso fino. Ele diz que estás com um ar feliz. Respondes que estás a pensar no amor. Ele pergunta porque voltas então para casa sozinha. Não tens essa resposta, Deus e o diabo são ambos matreiros nas perguntas que te fazem. Na incerteza avanças que não sabes, que se calhar o melhor é ele fazer inversão de marcha, voltar ao ponto onde te apanhou. E então ele diz: “Não, relaxa, ouve aí essa morna angolana e vais para casa descansar”. E ele aumenta o som, e tu encostas a cabeça, cabelos ao vento fresco, olhos sonhando as avenidas e o rio, os poros todos a ouvir a voz africana mais sedosa do mundo. E sabes que tiveste a dose de beleza que te vai permitir mais dias calmos, sem sentires que esfacelas as asas contra as barras da gaiola. E que, desta vez, voltas a casa guiada por Deus.



