domingo, 18 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

O poema ensina a voar








Na cabeça:
um par de asas atrofiadas
chamuscadas

pela pretensão

de tudo poder compreender
pela dor.

É preciso cair.

Nas mãos:

o susto de estar viva
numa terra vermelha
e hostil.
A volúpia
da vertigem
nas têmporas.
É preciso aprender

o orgulho ferido

e a humilhação.

Cair: é preciso.

Mutar o medo
que arranha
a pele parda e anémica
em carícia

e cair em si.

E,
então,
gritar com fúria certa:
“eis-me aqui, cansada,

pronta para começar a caminhar”.

Só o poeta pode trepar,
Feridas,
Rasgões
e estilhaços acima,
Até ao milagre das andorinhas retornadas.
E tudo compreender pela alegria.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Arte da Queda




O poema ensina a cair


sobre os vários solos


desde perder o chão repentino sob os pés


como se perde os sentidos numa


queda de amor, ao encontro


do cabo onde a terra abate e


a fecunda ausência excede


até à queda vinda


da lenta volúpia de cair,


quando a face atinge o solo


numa curva delgada subtil


uma vénia a ninguém de especial


ou especialmente a nós uma homenagem


póstuma.




Luísa Neto Jorge

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Crime e Castigo




Tendo aproveitado a noite de feriado para resguardar a minha solidão no sofá, aproveito para fazer duas confissões ridículas. Os blogs e todas as personas cibernéticas servem afinal para isso, para nos confessarmos, são sucedâneos light da confissão cristã. Seguimos, talvez mais necessitados do que nunca, de nos confessarmos. Mas a maioria aproveita o novo espaço para continuar com a mesma farsa. E assim se ampliam egos pela internet fora, ad infinitum, para acariciar o desespero de andarmos todos tão desavindos. Resta apenas um narcisismo triste, comovente, que não dá nem para começar uma revolta menor.




Por isso tenho duas confissões tristes a fazer. E têm ambas a ver com o lendário livro de Dostoiévski, Crime e Castigo, que me aqueceu os ossos durante o último mês. Confesso que nunca tinha lido o livro antes. Foram várias as tentativas ao longo dos anos, mas a ansiedade derrotava-me sempre. E queria muito lê-lo, não só porque é um dos grandes livros do cânone ocidental, mas porque foi neste autor russo que, por um golpe do acaso aos treze anos, eu me decidi e escolhi a minha personalidade. Porque existem idades em que podemos apostar e escolher arbitrariamente que personagem queremos ser nesta farsa e os livros funcionam simultaneamente como drogas e como tábua de salvação. E assim naufraguei na identidade de jogadora, ganhei o riso astuto da adrenalina da vitória, embora saiba que a condição de vencedor é das mais matreiras e que nunca se roça tão de perto a ruína como quando somos levados por marés agradáveis. Mas... eis que me afasto da infâmia que pretendia e caio também eu no elogio narcísico de mim mesma: coitadinha de mim, tenho mostrado grande capacidade de sofrimento mas olhem que continuo de pé, orgulhosa na minha decadência... nada disso, peço perdão humildemente: rejeito o orgulho porque a sua ferida pode ser letal, mas já lá iremos.



A verdade é que tinha medo deste livro. Um medo visceral. O tom obsessivo dos primeiros capítulos deixava-me sem ar, um mal-estar que passava das letras para a pele. Tinha pesadelos desconcertantes e dormia como quem é sovada. E porquê? Porque o meu maior medo é matar. Confesso: tenho medo de matar. Mais uma fobia típica dos absurdamente racionais, certo, mas a questão vai mais longe. Tenho medo de ter medo de matar e de me começar a desafiar. Como fiz sempre com tudo o que me assustava: ir até lá espicaçar o monstro para me descobrir melhor, no risco e na excitação de me perder. Uma questão íntima, portanto.

A segunda confissão é que me apaixonei por Rodion Romanovitch Raskólnikov, um verdadeiro disparate emocional que só a Madame Bovary ousaria igualar. Afinal não existem regras mas o amor está mesmo colado à ponta do medo. Confesso que sempre preferi as personagens femininas porque são sempre as mais arriscadas e imprevisíveis e que, para além do Augie March e Antoine Roquentin, assim de supetão não me ocorrem mais personagens masculinas que tenha verdadeiramente admirado (tenho má memória, também é um facto); e se o primeiro admirei pela inteligência grata com que aceitava todas as vicissitudes, com o segundo partilhei de uma verdadeira intimidade existencial. Mas com o Ródia, a coisa foi diferente: une affaire d’amour. Uma questão de solidariedade, portanto.



Ródia: impossível não amar a tua irritabilidade, a tua compaixão, a tua revolta, a obsessão mental de quem se atira ao mundo com a indelicadeza de quem mal começou a viver, a vontade de ousar um passo original, a angústia que se segue porque não se aguenta tal enormidade e custa tanto desenvencilhar-se dos sentimentos alheios que se tomam por próprios e queridos, alternada com uma súbita indiferença e desprezo. A perspicácia que te corta na leitura certeira dos estratagemas dos outros, o nojo que pede que os desmascares, e um delírio subterraneamente conflituante que te diz para alinhar, que a partir do interior do jogo é mais fácil devorá-los, seguido do medo de te tornares semelhante e nada adiantar. Enfim, meu amor, angustias-te mais do que os demais, tanto sofrimento e afinal sofres apenas de orgulho ferido. Com legitimidade, é certo. Mas a vida ainda agora começou. E tu e eu ainda temos uma porta a que bater, enquanto o milagre e a punição se atrasam.



“O coto de vela havia muito que estava a querer extinguir-se no castiçal torto, iluminando palidamente, neste quarto miserável, o assassino e a prostituta, estranhamente reunidos para lerem o livro eterno.
(…)
- Agora só te tenho a ti – acrescentou Raskólnikov. – Vamos juntos… Eu vim a ti. Somos ambos malditos, então vamos juntos!
- Vamos aonde? – perguntou cheia de medo e, involuntariamente, deu um passo para trás.
- Como posso saber? Só sei, tenho a certeza, que iremos pelo mesmo caminho, e mais nada. Até ao mesmo destino!
Sónia olhava e não percebia nada. Apenas sabia que ele estava muito infeliz, infinitamente infeliz.
- Ninguém, deles, compreenderá nada se lhes falares – continuou Raskólnikov -, e eu compreendi. Preciso de ti, por isso aqui estou.”

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Este natal quero um museu de arte imaginário!



O espírito




Nada a fazer, amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.


Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:


Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.




Natália Correia

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estranha forma de vida



Foi por vontade de Deus

Que eu vivo nesta ansiedade.

Que todos os ais são meus,

Que é toda minha a saudade.

Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida

Tem este meu coração:

Vive de forma perdida;

Quem lhe daria o condão?

Que estranha forma de vida.

Coração independente,

Coração que não comando:

Vive perdido entre a gente,

Teimosamente sangrando,

Coração independente.

Eu não te acompanho mais:

Pára, deixa de bater.

Se não sabes onde vais,

Porque teimas em correr,

Eu não te acompanho mais.


Amália Rodrigues

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O grande amor



"O poeta se faz vidente por um longo, imenso, e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura, ele procura a si mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para guardar apenas a quintessência. Inefável tortura na qual tem necessidade de toda fé, de toda força sobre-humana, onde ele se torna, entre todos, o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito – e o Supremo Sábio! – Pois ele chegou ao Desconhecido."


Rimbaud, carta a Paul Demeny, 15 de Maio de 1871

"À pergunta habitual: ''Por que é que escreve ?'', a resposta do poeta será sempre a mais curta: ''Para viver melhor.''

Saint-John Perse

sábado, 19 de novembro de 2011

Time is a river


Time is like a river
made up of the events which happen,
and its current is strong.
No sooner does anything appear
than it is swept away
and another comes in its place,
and will be swept away too.

Marcus Aurelius

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"daqui ninguém sai sem cadastro."


NOTAS PARA O DIÁRIO

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário — o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida — e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


Al Berto, in "horto de incêndio" assírio & alvim, 2000

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN

(...)
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido – eu da palavra Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser cadela de todos os cães e eles não bastam,
(...)


Álvaro de Campos

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Merci, chérie!










Atravessaram o atlântico e chegaram hoje numa caixinha amorosa e com palavras carinhosas. O carteiro notou o meu sorriso infantil e expectante. Irei sempre delirar com livros que chegam por correio, mesmo que sejam encomendados da amazon, do price minister ou da wook, porque me recordam o frenesim em que ficava nos dias da infância, quando os livros chegavam também por correio, vindos de longe, para alegrar os dias chuvosos.

domingo, 13 de novembro de 2011

DOBRADA À MODA DO PORTO


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

sábado, 12 de novembro de 2011

Profanações íntimas





De quando em quando sou visitada por uma frase misteriosa que me ocupa. De onde surge, não sei nem me importa muito. A questão é sempre o que fazer dela, que espaço lhe dar ou criar para que ela possa habitar o real e libertar-me da sua dicção interior.

A mais recente é: Viajando no tempo, a dor sedimenta-se, faz-se pele ressequida e o papel já não a corta. A história onde se aninhará não sou ainda capaz de a escrever: falta-me tempo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cenas de caça: Bacantes



«[…] “Vamos, ponde-vos em toda a volta e agarrai no tronco, ó Ménades, para apanharmos a fera trepadora, a fim de que ele não vá revelar as danças secretas do deus”. Milhares de mãos se deitaram ao abeto e o arrancaram da terra. Sentado nas alturas, das alturas é atirado e, no meio de milhares de gritos, cai ao chão Penteu. Bem compreendera que a desgraça estava perto.
A primeira a começar o ritual do morticínio é a mãe, que cai sobre ele. Penteu atira com a mitra que tinha sobre o cabelo, para que, reconhecendo-o, o não imolasse a desventurada Agave. Toca-lhe na face e diz: “Sou eu, ó mãe, o teu filho Penteu, a quem deste à luz no palácio de Equíon. Compadece-te de mim, ó mãe, não sacrifiques o teu filho por causa dos meus desvarios”.
Com a boca a espumar e revolvendo os olhos em todas as direcções, sem saber pensar direito, e dominada por Baco, não a persuadiu o filho. Agarra-lhe o antebraço esquerdo, apoia o pé no flanco do desventurado e desarticula-lhe o ombro, não pela sua própria força, mas pela destreza que o deus infundira em suas mãos.
Do outro lado actuava Ino, dilacerando as carnes. Antónoe e o bando todo das Bacantes assenhoravam-se dele. Por todos os lados se erguia um clamor: ele gemia com o alento que lhe restava, elas soltavam gritos de triunfo. Levava uma o braço, outra um pé ainda calçado. Desnudavam-se as costelas dilaceradas pelas unhas. Todas as mãos estavam ensaguentadas das carnes de Penteu atiradas como quem joga à bola.»

Eurípedes, As Bacantes, v. 1105-1140

Cenas de caça: Diana




“ora, é em nós que fulgura o astro luminoso, é na treva das nossas memórias, na grande noite constelada que trazemos no nosso seio, mas da qual fugimos, refugiando-nos na ilusão do dia a dia. Aí confiamo-nos à nossa língua viva. Mas por vezes, entre duas palavras de uso quotidiano, deslizam algumas sílabas das línguas mortas: palavras-espectro que possuem a transparência da chama em pleno meio-dia, da lua no azul do céu; mas desde que as abriguemos na penumbra do nosso espírito, elas são de brilho intenso: que deste modo os nomes de Diana e Actéon restituam, por um instante, os seus sentidos ocultos às árvores, ao veado sedento e à água, espelho da impalpável nudez”.



Pierre Klossowski, O Banho de Diana, Lisboa: Cotovia, 1989 (p. 9-10).