sexta-feira, 19 de agosto de 2011
"Nunca disse que fosse sempre um erro entrar no país das fadas. Disse somente que era sempre perigoso" (Chesterton)
"Aí tendes, malditos sejais, saciai-vos com este belo espectáculo!" (Platão)
Nietzsche demonstrou exemplarmente como o humano (ou melhor, a definição de humano que a nossa cultura privilegiou) se baseia num conjunto de cinco ou seis promessas que se fixam na carne através de um processo de habituação histórica edificado sobre uma mnemotécnica da dor. Com o horror passa-se o mesmo: é tudo uma questão de gradação das doses inicias e um progressivo incremento, até que o individuo reclame a sua necessidade imperiosa.
“É a primeira vez”?, perguntou delicadamente o Hauptmann. Baixei o queixo. “Há-de habituar-se”, acrescentou ele, “mas nunca completamente, talvez”. Ele próprio estava pálido, mas não tapava a boca.
(...)
Os cadáveres empilhavam-se num grande pátio empedrado, em pequenos montes desordenados, espalhado por aqui e por ali. Um imenso zumbido, obsidiante, ocupava o ar: milhares de pesadas moscas azuis esvoaçavam por cima dos corpos, dos charcos de sangue, das matérias fecais. As minhas botas pegavam-se ao empedrado do chão. Os mortos estavam já a inchar, contemplei a sua pele verde e amarelada, os rostos informes, como os de um homem espancado. O cheiro era imundo; e este cheiro, eu sabia-o, era o princípio e o fim de tudo, a própria significação da nossa existência. Este pensamento destroçava-me o coração. (...) Eu queria fechar os olhos, ou tapar com a mão os meus olhos, e ao mesmo tempo queria olhar, olhar até à saciedade e tentar compreender através do olhar aquela coisa incompreensível, ali, diante de mim, aquele vazio para o pensamento humano. Desamparado, virei-me para o oficial da Abwehr: “Você leu Platão?” Ele olhou para mim, desconcertado: “O quê?” – “Não, não é nada” (p. 41).
No segundo dia da minha odisseia literária pelo holocausto, dei comigo a chorar perante uma cena que descreve outra execução colectiva. E o que me comoveu não foram os pormenores das massas cranianas espalhadas pela terra e pelo rosto dos atiradores nem a agonia aflita de alguns moribundos, mas sim esta frase: “Olhei para os judeus: os mais próximos de mim pareciam calmos, mas pálidos” (p. 84) e a visão de uma marcha ordeira para a morte sem qualquer perturbação ou resistência, cravou-se-me no peito com vigor, murmurando suavemente quão facilmente o humano se reduz a simples carne para matadouro e a cultura, a chamada “cultura superior” retorna à matança que a fundou e refunda todos os dias, umas vezes sob formas mais sofisticadas mas nem por isso menos cruéis.
it's all so quiet, ma...
Nestes últimos tempos, tenho andado grávida. Grávida de qualquer coisa que forçou a sua vinda através de caminhos daninhos. Não sei o que vou parir mas suspeito que irei parir-me mulher dentro em breve. Não tenho medo.
Já não esbracejo com a raiva de um cão batido, já não corro a cidade com sedes acres e o meu ventre não reclama mais facas. As noites não picam mais a carne com as suas insónias. Estou calma, quase pedra. Depois da negra noite da alma e de alguns êxtases breves da carne, surgiu em mim um estoicismo involuntário, uma capacidade de modelar o tédio e a angústia com artifícios honestos.
Passo os dias sem ver pessoas e curiosamente não lhes sinto a falta. Cada uma é uma cidade bombardeada, como diria Eugénio de Andrade, e é tarefa mais fácil amá-las com uma certa distância. Vou lendo os dias. Se casarei ou não, já não me interessa; o amor não obscurece nem alumia a caligrafia singela das horas. Será talvez, apenas, um verão que asfixia na cidade abrasada. Ou eu, a parir uma solidão mais sólida que a pedra. De qualquer dos modos, está-se estranhamente bem.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
"Um anjo no Inferno voa na sua própria pequena nuvem de Paraíso" (Eckhart)
Uma odisseia não se pode levar a cabo sem um homem desabrigado no início dos inícios.
E o homem garatuja as suas memórias para descobrir se ainda é capaz de sofrer. É estóico, recto e culto, como convém, e sabe quão raramente um pensamento humano acontece. Não está à procura do caminho para regressar a casa, está desabrigado no lar burguês que construiu para si, para a mulher relativamente bela e de boa família com quem casou com alguma repugnância e a quem trata de homenagear de quando em quando, com pouco prazer mas sem repulsa excessiva, para garantir a paz no seu lar. O tear de Penélope foi substituído pelos teares mecânicos e alinhados da fábrica de rendas que dirige.
Também ele combateu e fez o que tinha a fazer, sem hesitações. Saiu dela “um homem vazio, cheio unicamente de amargura e de uma longa vergonha, como areia que range entre os dentes” (p. 19) e com o horror impresso na retina. Não pode regressar como herói. Não pode regressar. O regresso a casa pode apenas equivaler ao desejo sofocliano de não ter nascido. A guerra é perpétua e ninguém pode escolher o lado da trincheira que ocupa – isso é apenas uma fantasia consoladora dos vencedores.
“Sou culpado, o leitor não, muito bem. Mas o leitor deveria apesar de tudo ser capaz de dizer para consigo que teria feito também aquilo que eu fiz. Talvez com menos zelo, mas talvez também com menos desespero, mas seja como for de uma maneira ou de outra. Penso que me é permitido concluir como um facto estabelecido pela história moderna que toda a gente, ou quase, num conjunto de circunstâncias dadas, faz o que se lhe diz que faça; e, peço desculpa, há poucas probabilidades de ser o leitor a excepção, tal como eu não a fui. Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus e vão em paz. Mas mantenham sempre presente no espírito esta ideia: talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu. Porque no momento em que tenham a arrogância de pensar sê-lo, aí começa o perigo.” (pag. 27).
Já quase nada lhe interessa. Mantém aventuras esporádicas com belos rapazes como um cuidado de higiene. Resta-lhe apenas a literatura. Não fosse a guerra, ter-se-ia ocupado das coisas belas e calmas, fazendo ou ensinando literatura. E gostaria de ter tocado piano. “Tocar só para mim, em casa, ter-me-ia cumulado de satisfação. Bem entendido, ouço muitas vezes música, e nisso tenho um vivo prazer, mas não é a mesma coisa, é um prazer de substituição. Tal como os meus amores masculinos: a realidade, não coro ao dizê-lo, é que teria preferido decerto ser uma mulher. Não necessariamente uma mulher que vivesse e agisse neste mundo, uma esposa, uma mãe; não, uma mulher nu, deitada de costas, com as pernas abertas, esmagada sob o peso de um homem, agarrada a ele e trespassada por ele, afogada nele e tornando-se o mar sem limites em que ele mesmo se afoga, prazer sem fim, e sem princípio também. Ora não foi assim. Em vez disso, dei comigo jurista, funcionário da segurança, oficial SS, e depois director de uma fábrica de rendas. É triste, mas é como é.” (p. 29).
Uma odisseia não se pode levar a cabo sem um homem desabrigado no início dos inícios. E este homem não está abrigado no homem que é porque os abrigos do humano foram calcinados pelos fornos crematórios.
E uma odisseia não pode efectuar-se sem o amor por uma mulher distante. “Uma só, mas mais do que tudo no mundo. Ora essa, justamente, era a que me estava proibida. É bastante concebível que ao sonhar ser uma mulher, sonhando-me um corpo de mulher, eu a procurasse ainda, quisesse aproximar-me dela, quisesse ser como ela, quisesse ser ela. É inteiramente plausível, ainda que nada mude ao caso. Dos tipos com quem fui para a cama, nunca amei um só que fosse, servi-me deles, dos seus corpos, é tudo.” (p.29)
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Apetece muito uma odisseia literária
Para celebrar os últimos dias dos meus vinte e oito anos começo hoje a ler As Benevolentes de Jonathan Littell. Apetecia há muito mas só agora chegou o tempo.
domingo, 14 de agosto de 2011
Há uma gravidez do pensamento no tédio
“Para o pensador, bem como para todos os espíritos sensíveis, o aborrecimento é aquela desagradável «calmaria» da alma que precede a viagem venturosa e os ventos joviais. É preciso que eles suportem e aguardem o seu efeito. É exactamente isso que as naturezas medíocres não conseguem atingir por si! Afastar de si o aborrecimento, a qualquer preço, é coisa tão comum como trabalhar sem prazer. Talvez seja isto que distingue os Asiáticos dos Europeus – serem capazes de um repouso mais longo e mais profundo. Mesmo os seus narcóticos actuam lentamente e exigem paciência, em contraste com a rapidez repugnante do veneno europeu – o álcool”.
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
Sigo nietzscheana.
“E então se o prazer e o desprazer estiverem de tal modo entrosados que, quem quiser usufruir o máximo de um, seja obrigado a ter também o máximo do outro? Que quem quiser aprender a «rejubilar até aos céus» tenha também de se preparar para a «depressão até à morte». E é talvez, assim, que as coisas sejam!”
Friedrich Wilhelm Nietzsche, A Gaia Ciência
Friedrich Wilhelm Nietzsche, A Gaia Ciência
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Lê-se numa noite e deixa mazelas de graça
Também eu ceei com os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu Peito.
E traí e fui traído.
e duvidei, impacientemente, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu Peito.
E traí e fui traído.
e duvidei, impacientemente, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina
It's all right, ma...
Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.
Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.
Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.
Nas tuas mãos
entrego o meu espírito
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
Manuel António Pina
sábado, 6 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Confesso que voei

Mas, se nestas seis décadas e meia
eu fui capaz de algum voo
– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –
devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.
E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.
Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.
Voei, está voado.
Nada de nostalgias.
A.M. Pires Cabral
eu fui capaz de algum voo
– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –
devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.
E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.
Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.
Voei, está voado.
Nada de nostalgias.
A.M. Pires Cabral
Metereologia fodida
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Descansa em mim

Desconfiei do teu rosto na primeira noite. Mas a primavera negava-se com pudores rijos e eu tinha bebido demasiados whiskies por distracção. Confundi-te com um comboio e coloquei o meu corpo na linha para te travar.
Alguém gritava o meu nome pela janela enquanto eu te ordenava:
Cala-te e fode-me,
Depois, partiste rude e indelicado, murmurando semelhanças com actrizes de Hollywood que eu desconhecia.
No dia seguinte acordei dorida, a memória da loucura impressa em sangue pisado nas minhas vértebras. Alguém me disse que eu andava a brincar com tudo isto e isso alegrou-me ainda mais. E o tempo foi fluindo, com o vento de feição sobre os selins da esperança.
Tornei a reencontrar-te no teu despropósito e qual soldado da legião estrangeira, pensei que podia sair incólume. E foi como uma febre veloz, sem pausas para convalescença. Os dias abundavam de fomes e ameaças de enfarte e o meu corpo inquieto cirandava pela cidade. Só no teu olhar insistente encontrava a calma. E eram as palavras – sempre as palavras - as palavras mais belas, tão longamente queridas, que bebi com sedes arcaicas. Delirante, desafiei os deuses e prometi-te eternidades exclusivas. Porque eu era um livro de pernas abertas que só tu conseguias ler.
Falavas de amor, de queda, de anjos e eu julguei que todos os campos bombardeados que tinha atravessado serviam apenas para te amparar. São malícias da inocência, perdoa, meu querido, com tanto ruído não percebi que também eu caía e que os meus braços jamais seriam raízes.
No apeadeiro final, restei paisagem acidentada nos estilhaços de uma janela. Fiquei a sós com a tarefa de me fiar mulher. Recusei os venenos amargos que me ofertavam e não tomei outros corpos como paliativos. Deixei-me estar quieta, muito quieta, a brincar com a morte. Durante dias a fio meditei nos cães de caça e na fome que os treina.
E três vezes a pergunta bateu à porta:
Quem te fez mal?
E três vezes a recusei com uma vírgula de ironia no sorriso:
Quem me fez, mal?
Apenas por caminhos travessos se alcança a ponta do desamor.
Parece que os gregos tinham razão e as paixões servem apenas para compor belos epitáfios. Por isso descansa em paz, meu amor. Dentro de mim. Não tenho outras águas para arrumar as saudades que restam.
Alguém gritava o meu nome pela janela enquanto eu te ordenava:
Cala-te e fode-me,
Depois, partiste rude e indelicado, murmurando semelhanças com actrizes de Hollywood que eu desconhecia.
No dia seguinte acordei dorida, a memória da loucura impressa em sangue pisado nas minhas vértebras. Alguém me disse que eu andava a brincar com tudo isto e isso alegrou-me ainda mais. E o tempo foi fluindo, com o vento de feição sobre os selins da esperança.
Tornei a reencontrar-te no teu despropósito e qual soldado da legião estrangeira, pensei que podia sair incólume. E foi como uma febre veloz, sem pausas para convalescença. Os dias abundavam de fomes e ameaças de enfarte e o meu corpo inquieto cirandava pela cidade. Só no teu olhar insistente encontrava a calma. E eram as palavras – sempre as palavras - as palavras mais belas, tão longamente queridas, que bebi com sedes arcaicas. Delirante, desafiei os deuses e prometi-te eternidades exclusivas. Porque eu era um livro de pernas abertas que só tu conseguias ler.
Falavas de amor, de queda, de anjos e eu julguei que todos os campos bombardeados que tinha atravessado serviam apenas para te amparar. São malícias da inocência, perdoa, meu querido, com tanto ruído não percebi que também eu caía e que os meus braços jamais seriam raízes.
No apeadeiro final, restei paisagem acidentada nos estilhaços de uma janela. Fiquei a sós com a tarefa de me fiar mulher. Recusei os venenos amargos que me ofertavam e não tomei outros corpos como paliativos. Deixei-me estar quieta, muito quieta, a brincar com a morte. Durante dias a fio meditei nos cães de caça e na fome que os treina.
E três vezes a pergunta bateu à porta:
Quem te fez mal?
E três vezes a recusei com uma vírgula de ironia no sorriso:
Quem me fez, mal?
Apenas por caminhos travessos se alcança a ponta do desamor.
Parece que os gregos tinham razão e as paixões servem apenas para compor belos epitáfios. Por isso descansa em paz, meu amor. Dentro de mim. Não tenho outras águas para arrumar as saudades que restam.
Regresso sempre com o mesmo espanto pueril aos meus primeiros amores

Manhã de Embriaguez
“Ó meu Bem! Ó meu Belo! Fanfarra atroz em que não cambaleio. Cavalete féerico! Hurrá pela obra inaudita e pelo corpo maravilhoso, pela primeira vez! Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar. Este veneno vai ficar em todas as nossas veias, mesmo quando, regressada a fanfarra, formo devolvidos à antiga inharmonia. Ó nós agora tão dignos destas torturas, cumpramos fielmente a jura sobre-humana feita ao nosso corpo e à nossa alma gerados: esta promessa, esta demência! A elegância, a ciência, a violência! Prometeram-nos enterrar na sombra a árvore do bem e do mal, banir as honestidades tirânicas, afim de que pudéssemos nosso puríssimo amor. Isto começou com uma certa náusea e isto acaba – não podendo assenhorear-nos já de tal eternidade, - isto acaba por uma debandada de perfumes.
Risos de criança, discrição de escravos, austeridade das virgens, horror destas caras e destes objectos, sagrados sejais pela recordação desta vigília. Isto começou com toda a grosseria, eis que isto acaba em anjos de fogo e de neve.
Breve vigília de embriaguez, santa!, quanto mais não seja pela máscara que nos deste! Afirmamos-te, método! Não esquecemos que exaltaste outrora todas as nossas idades. Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias.
Eis o tempo dos ASSASSINOS.”
Jean-Arthur Rimbaud
terça-feira, 26 de julho de 2011
E aprende-se.
Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.
Jorge Luís Borges
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.
Jorge Luís Borges
quinta-feira, 14 de julho de 2011
O corpo do leitor é a entrada secreta de um texto

"Não é por esperares alguma coisa deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livro, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave."
Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno um Viajante
domingo, 26 de junho de 2011
um livro tem que ser como um machado

"Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio."
Franz Kafka, carta a Oscar Pollak, 1904
domingo, 19 de junho de 2011
Com a carne triste

BRISE MARINE
La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!
Stéphane Mallarmé
A grande beleza arranhada

Há cerca de quatro meses, com a primavera atrasada, encontrava consolo apenas nas palavras de Herberto Hélder. Palavras de cão batido. Um amigo avisou-me, carinhosamente, que parasse de o ler. Parece que mata muitas pessoas. Respondi que não queria abdicar da beleza apesar do perigo que nela reconhecia: até os mortos têm direito à beleza por isso lhes oferecem flores. Ao que ele corrigiu: só os mortos têm direito à beleza, por isso lhes oferecem flores. Rematei o problema dizendo que pararia no dia em que ele me receitasse um livro upper, a salvo dos efeitos narcóticos da indignação e da raiva. Um pedido difícil, bem sei, dado que o desamor e a mágoa parecem ser os motores mais potentes do esforço literário. As maiores obras foram escritas na merda.
Contudo, através de outras mãos, acabei por encontrar esse livro-estimulante e dediquei os últimos dois meses e meio a essa paixão, que defini como intermitente para que o prazer pudesse durar mais: As Aventuras de Augie March de Saul Bellow. São as vantagens dos chamados calhamaços: juntamente com o tempo e o fôlego arriscamos um compromisso emocional.
No primeiro parágrafo, Augie apresenta-se a si e ao estilo da narrativa das suas aventuras: “Sou americano, nascido em Chicago – Chicago, aquela cidade sombria -, e encaro as coisas da maneira que aprendi a fazer sozinho, em estilo livre. Vou, portanto, fazer o relato à minha maneira: o que bater primeiro, é o primeiro a entrar; às vezes uma pancada inocente, outras nem tanto. Mas o carácter de um homem é o seu destino, diz Heraclito, e no fundo não há forma de disfarçar a natureza das pancadas, nem fazendo um tratamento acústico na ponta nem cobrindo os nós dos dedos com uma luva” (p.9). E está dado o mote para as 700 páginas que se seguem: o relato de um rapaz que cresceu pelas ruas de Chicago, a cidade dos gangsters, como um órfão, retirando do desamparo a garantia para a sua independência e busca pela liberdade.
A infância de Augie é passada entre a simples e resignada mãe, o irmão atrasado mental Georgie e o irmão mais velho, o combativo Simon, entretida pelas mentiras para sacar dinheiro às instituições de caridade e pelos ensinamentos da resmungona avó Lausch “sobre um mundo em que os crédulos, amorosos e simples vivem cercados pelos astuciosos e duros de coração” (p. 19). A adolescência é populada por vários empregos ocasionais, desde distribuir panfletos de propaganda para um teatro, ajudar na distribuição de jornais com o primo, pau para toda a obra do paralítico Einhorn, trato com pugilistas e breves incursões pela criminalidade.
“De tudo isto, o que queria eu para mim? O meu irmão Simon não era muito mais velho do que eu, e ele e outros rapazes da nossa idade já tinham percebido que era preciso viver a vida e escolhido a direcção que pretendiam seguir, enquanto eu continuava a andar em círculos (…)
Mas quando não existe nenhuma Sicília pastoril, nenhuma pintura livre da natureza, mas apenas a aflição profunda da cidade, e cedo somos forçados a ter objectivos profundos da cidade, sem nos mandarem, com o nosso éfode vestido, apresentar-nos perante Elias para começarmos a servir no templo, não enviados a cavalo pelas nossas irmãs chorosas estudar grego em Bogotá, antes acabamos por ir parar a um salão de bilhar – o que tem isso de elevado? (…) Amigos, companheiros humanos, homens e irmãos, não há maneira breve, condensada ou taquigráfica de dizer até onde isso nos leva. O próprio Crusoe, sozinho na natureza e sob o firmamento, passou tempos duros e complicados com o inumano, e eu estou no meio de uma multidão que produz resultados com muito mais dificuldade e relutância e sou parte dela” (p. 118-119).
Mas quando não existe nenhuma Sicília pastoril, nenhuma pintura livre da natureza, mas apenas a aflição profunda da cidade, e cedo somos forçados a ter objectivos profundos da cidade, sem nos mandarem, com o nosso éfode vestido, apresentar-nos perante Elias para começarmos a servir no templo, não enviados a cavalo pelas nossas irmãs chorosas estudar grego em Bogotá, antes acabamos por ir parar a um salão de bilhar – o que tem isso de elevado? (…) Amigos, companheiros humanos, homens e irmãos, não há maneira breve, condensada ou taquigráfica de dizer até onde isso nos leva. O próprio Crusoe, sozinho na natureza e sob o firmamento, passou tempos duros e complicados com o inumano, e eu estou no meio de uma multidão que produz resultados com muito mais dificuldade e relutância e sou parte dela” (p. 118-119).
Num primeiro olhar mais superficial e descuidado, Augie parece-nos uma folha ao vento, levado ao sabor das influências que o enredam. E ele está rodeado de gente manipuladora que o procura recrutar para os seus objectivos e realidade (Bellow começou por chamar ao seu romance «Vida entre maquiavélicos»). Porque todos andam à procura de alguém para partilhar a sua sina e Augie é um bom ouvinte, retirando a melhor polpa das apaixonantes personagens secundárias que o vão interpelando pelo caminho. Mas o nosso rapaz é salvo por um sentimento de oposição que traz dentro de si e “um enorme desejo de oferecer resistência e dizer «Não!» que não podia ser mais claro, uma sensação tão inequívoca como uma pontada de fome” (p. 162).
Com ligeireza, vai crescendo à deriva. Termina o secundário, apaixona-se, recusa ser adoptado por um casal abastado, envolve-se no contrabando de imigrantes, viaja clandestino em vagões de mercadorias com outros vagabundos, é preso por engano e pressente que “a escuridão existe. E é para todos.” (p. 239). Sofre as primeiras mortes e deslealdades. “E acontece também que, enquanto para defender outra pessoa falta vigor, para defender o gosto de ovo na boca não se medem esforços, e é assim que se distribui amor” (p. 341).
Todavia, Augie não é o desamparado que vai entrar para a estatística pelo lado do crime, da deliquência ou da desistência. Não, ele é demasiado teimoso e esperançoso para se deixar abater assim pela realidade. Fazendo da errância uma aliada, busca acertar em si, saltando de ocupação e interesse. É acometido pela febre da leitura mas a universidade não o entusiasma. “Afinal, quando o vento virava para sul e oeste e soprava dos currais dos matadouros trazendo a poeira das fábricas de fertilizantes para as belas trepadeiras que cobriam os muros, tinha a sensação de que tinha havido um salto de alguns dos estádios intermédios entre a bruta criação e a mente sublime, e que esse salto era muito grande” (p. 385). Gosta dos prazeres que o dinheiro proporciona mas não está disposto a sacrificar a sua liberdade para o obter. Em suma, Augie não alinha.
Através de um amor forte conhece a comunhão e pensa que a unidade humana talvez não seja um mas dois. Por isso, alinha com a sua amada e vai para o México treinar uma águia a caçar lagartos gigantes. A tarefa falha assim como a pureza dos sentimentos soçobra. Com o crânio e o orgulho ferido, Augie sangra durante algum tempo. “Porque o que não se sofre na carne é quase como um sonho, ou como disparos de luz, fogos-de-artifício que salpicam o céu e rodas de luz branca que espalham faúlhas numa terra triste” (p. 425-426).
Regressa a Chicago e tenta perceber que rumo dar à sua vida. Concebe utopias que são interrompidas pela guerra. Faz todos os esforços necessários para se alistar e combater. Pelo caminho, encontra o amor, concebe-o como definitivo e casa-se. Num acidente de guerra, naufraga e quase morre. Nas últimas páginas da sua narrativa, encontramo-lo na Europa, bem-sucedido financeiramente com negócios ilegítimos e lutando diariamente contra a faina de preocupações e segredos. Por amor e fé no humano.
“Ninguém imaginaria o esforço que há por detrás disso.
(…)
Stella chegou dos estúdios e foi tomar banho; gritou-me do quarto de banho:
- Amor, traz-me uma toalha, se fazes favor.
(…)
Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz (…). E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado; e além disso, todo aquele tempo em pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo (…). E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de chegar a qualquer lugar que seja, incapazes de obter justiça ou desforra, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos e ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro” (p.691).
(…)
Stella chegou dos estúdios e foi tomar banho; gritou-me do quarto de banho:
- Amor, traz-me uma toalha, se fazes favor.
(…)
Sentei-me com o roupão pendurado no ombro e senti-me extremamente em paz (…). E é aí que está a coisa. É preciso um momento como este para percebermos como o nosso coração anda angustiado; e além disso, todo aquele tempo em pensávamos estar a vaguear ociosamente, estava a ser realizado um trabalho duríssimo (…). E nada disto pode ser visto do lado de fora. É tudo feito internamente. Isto acontece porque nos sentimos impotentes e incapazes de chegar a qualquer lugar que seja, incapazes de obter justiça ou desforra, e, então, dentro de nós, trabalhamos, guerreamos e combatemos, ajustamos contas, recordamos insultos, brigamos, reagimos, negamos, palramos, denunciamos, triunfamos, enganamos, superamos, vingamo-nos, choramos, persistimos, absolvemos, morremos e ressuscitamos. E fazemos isto tudo sozinhos! Onde é que está toda a gente? Dentro do nosso peito e da nossa pele, o elenco inteiro” (p.691).
No final do bildungsroman, Augie é já um homem feito, inteiro e que não saiu derrotado na empresa. Despede-se de nós com o seu riso optimista:
“Ainda estava gelado da caminhada pelos campos, mas, pensando em Jacqueline e no México, comecei a rir outra vez. Este é o animal ridens que há em mim, o animal que ri, sempre a ressurgir. O que há de tão risível em que Jacqueline, por exemplo, tão agredida por forças brutais, ainda se recuse a ter uma vida de desilusão? Ou será que rimos da natureza – incluindo a eternidade – por ela pensar que nos pode derrotar a nós e à força da esperança? Ná, não, creio. Nunca nos derrotará. Mas provavelmente a piada está nisto, em cima de nós ou dela, e o riso é um enigma que inclui os dois. Olhe-se para mim, viajando para todo o lado! Ora, sou uma espécie de Colombo daqueles que estão à mão de semear e acredito que podemos chegar até eles nesta terra incognita imediata que espalha diante de cada olhar. Pode muito bem dar-se o caso de eu ser um fracasso nesta linha de empreendimento. Provavelmente Colombo também deve ter pensado que era um fracasso quando o recambiaram acorrentado. O que não provou a inexistência da América” (p. 709).
Circulando com o mesmo à vontade pelos antros de Chicago como pelos salões dos abastado, buscando o amor e praticando as boas intenções com todo o mesmo vigor com que se envolve em negócios obscuros, Augie não pertence a nenhum dos lados da barricada da grande batalha da Humanidade. Não é dominado pela inocência nem pela malícia. É o espírito livre americano que Walt Whitman cantou nos seus versos e a sua narrativa segue as pancadas dessa liberdade num ritmo intenso, apaixonado, bem-humorado, como um longo improviso de jazz, onde se misturam referências da high culture e da mitologia com lições de esquemas das ruas escuras de Chicago: “primeiro tem de se testar aquilo de humano com que se consegue conviver. E se o mais elevado estiver naquela taberna vazia e abafada, com as moscas, o rádio quente a zumbir entre jogadas e a cerveja de Sox Park, o que poderá fazer-se senão aceitar a mistura e dizer que a imperfeição é sempre a condição do que encontramos? Do mesmo modo, os meus olhos arranhados verão sempre a grande beleza arranhada. E deuses podem aparecer em qualquer lugar” (p. 353).
sábado, 18 de junho de 2011
Ataques de existência

«Tem-se vinte e três anos ou trinta e um, ou ainda mais, e descobre-se ao atravessar uma rua ou quando cai o chaveiro, que, realmente, se existe. Contra isto, não há nenhuma protecção segura. Nem a teoria nem o álcool podem garantir uma prevenção impenetrável contra o ser-aí. Safer thinking, safer drinking – não serve em todos os casos» (p. 17).
«Deprimido torna-se quem transporta pesos sem saber para quê. Então, a vida torna-se demasiado pesada para si mesma, porque já não pode contar mais com o apoio do seu fundamento anónimo de resistência para se ir consolidando. O deprimido não acolhe a carga com um positivismo jovial, mas sim com um último esforço ruinoso (…), na depressão o individuo esgota-se na tentativa desesperada de querer aquilo que não quer. Os depressivos são estóicos clínicos por detrás dos quais se ocultam revolucionários fracassados» (p. 38-39).
domingo, 12 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
O ÚNICO E A SUA PROPRIEDADE
«Encontramos nós apenas gente possessa do demónio, ou será que vêm ao nosso encontro outro tipo de possessos, obcecados pelo bem, pela virtude, a moralidade, a lei ou outro qualquer “princípio”? As possessões diabólicas não são as únicas. Sobre nós age Deus e age o diabo: a acção do primeiro é da ordem da “graça”, a do segundo é diabólica. Possessos são aqueles que se fixam nas suas opiniões» (pág. 43).
«Quem é que de forma mais ou menos consciente, nunca reparou que toda a nossa educação está orientada no sentido de produzir em nós sentimentos, ou seja, de os impor, em vez de nos deixar a iniciativa de os produzir, quaisquer que eles sejam? Se ouvimos o nome de Deus, se ouvimos o da majestade real, esse sentimento deve ser recebido com respeito, veneração e submissão, se ouvimos o da moral, espera-se que ouçamos qualquer coisa de intocável, se ouvimos falar do mal e dos malvados, espera-se que tremamos de medo, etc. Tudo está preparado para produzir estes sentimentos» (pág. 58).
«Quem é que de forma mais ou menos consciente, nunca reparou que toda a nossa educação está orientada no sentido de produzir em nós sentimentos, ou seja, de os impor, em vez de nos deixar a iniciativa de os produzir, quaisquer que eles sejam? Se ouvimos o nome de Deus, se ouvimos o da majestade real, esse sentimento deve ser recebido com respeito, veneração e submissão, se ouvimos o da moral, espera-se que ouçamos qualquer coisa de intocável, se ouvimos falar do mal e dos malvados, espera-se que tremamos de medo, etc. Tudo está preparado para produzir estes sentimentos» (pág. 58).
segunda-feira, 23 de maio de 2011
DO TEU PAI VAIS HERDAR TAMBÉM A MORTE
"Sentia-se cheio de vigor e, quando as vagas investiram contra ele e teve de lutar para não ser rechaçado, sentiu em todo o corpo o júbilo da força e da saúde. Fez-se ao largo, contra os vagalhões, sentindo o prazer de se fundir e ao mesmo tempo de contender com o elemento implacável; sabia que nenhuma fraqueza lhe seria perdoada.Quando virou o rosto para terra, viu uma figura em pé sobre uma rocha.
Seu pai. A cabeça descoberta, redonda, com o cabelo curto e ralo, erguia-se orgulhosa sobre o busto; por baixo do casaco e das calças batidas pelo vento, o corpo aguentava firme e direito. Quem sabe há quanto tempo lá estava, seguindo-o com os olhos, em silêncio? Pareceu-lhe mais alto, por entre tanta luz, mais jovem. Teve a estranha impressão de que ele queria medir-se consigo, e que assim, sobre a solidez daquela rocha açoitada pelo vento, estavam de igual para igual.
(...)
- Sim, nos meus tempos; até gostava de vir aqui em dias de borrasca - disse o pai sem fanfarronice, calmo, como se desse a entender: "agora é a tua vez". Depois, acariciando-lhe o ombro húmido e luzidio, acrescentou: - A montanha bronzeou-te, o sol do mar completará o trabalho.
- São dois rivais maravilhosos - disse o filho, a rir." (p.34-35)
"Do outro quarto chegava com frequência a tosse do pai. Por cima dos trombones e dos tambores da banda, por cima da barulheira da festa, aquela tosse tinha um timbre profundo, comparado com o qual qualquer outro som parecia insignificante. Aquele homem já fora posto de parte pela corrente da vida; mas da sua margem, onde ainda se detinha um pouco antes de desaparecer, enviava com os seus ganidos uma terrível advertência aos homens, soubessem ou não escutá-lo.
Em certas noites, no silêncio da montanha, ouvira um som semelhante: a voz do cabrito-montês. Dor? Medo? Perseguido e pressentindo a morte próxima? Por que razão os homens, que tudo procuram saber, evitam ter consciência do animal que há neles, que há em todas as criaturas vivas?" (p.60-61)
quarta-feira, 18 de maio de 2011
IAN CURTIS A ANNIK HONORÉ
Colho um tufo de erva do teu corpo.
Deito-me nele e como-o,
sinto-lhe a humidade que ficou da última noite
quando nos deitámos e rebolámos
e nos cruzámos com insectos
a medirem-nos a respiração das coisas.
Prosto-me sob a sombra do teu peito,
deixo cair dos olhos alguns flocos de neve.
Andamos sempre à procura
de uma noite que não tem dias,
de uma noite sem sinais,
candeeiros que reflictam
a agitação dos mosquitos à queima-roupa.
Andamos como uma letra despovoada
nos silos da ternura, a encostar um sopro
a outro sopro. E nada, absolutamente nada,
nada nos cura desta traição consumada.
Henrique Manuel Bento Fialho, A Dança das Feridas
domingo, 15 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
o poema ensina a cair
NEXT TO NOTHING
Não acordei com o teu corpo,
mas com um verso
que me parece agora
o mais triste do mundo:
Le tuve tan cerca.
Foi verdade, foi tão depressa
mentira – acabarmos juntos
no último bar. Ou apertar-te
em plena desrazão os ombros,
o pescoço baixo,
a cor indecisa dos cabelos.
Enquanto se partem tão
tristes os tristes copos
que nessa noite derrubei – e eras tu.
Não sei o que te disse, que
outras partes de quem foste
toquei ou perdi. De qualquer modo,
perdi. E foi, só podia ser,
demasiado triste: dois corpos
que ninguém via desciam a rua
da Misericórdia, já perto da manhã.
Aquela nenhuma distância
não pôde ser um beijo. Apenas derrota,
ressaca, mais uma canção sem nós.
Tu não sabes – e ainda bem – que
este homem te desejou todas as noites,
até que fechasse o bar. Este homem
que não deseja e que tem,
infelizmente, um nome igual ao meu.
Da próxima vez, quero estar menos
bêbedo, saber se apanhámos
ou não o mesmo táxi. Mas
«da próxima vez» nunca existirá.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
chegou hoje por correio e fez-me tão feliz
terça-feira, 10 de maio de 2011
domingo, 8 de maio de 2011
um livrinho precioso

«A própria localização do Pátio Maldito era estranha, como se tivesse sido calculada para aumentar as torturas e os sofrimentos dos presos (frei Petar voltava muitas vezes a isto, tentando descrevê-lo). Do pátio nada se vê da cidade, nem do porto, nem do arsenal abandonado lá em baixo na margem do estreito. Só há o céu, imenso e cruel na sua beleza e, ao longe, um canto verdejante da margem asiática, do outro lado do mar invisível, e o vértice do minarete de uma mesquita desconhecida ou da copa de um cipreste gigantesco, atrás do muro. Tudo indeterminado, anónimo e alheio. Assim, um estrangeiro tem a sensação constante de estar numa ilha diabólica, longe de tudo o que até então para si significava vida, e sem esperança de em breve tornar a reencontrá-la. Os presos de Constantinopla sofrem ainda um outro castigo, aquele de não ver nem sentir nada da sua cidade: estão lá, mas é como se estivessem a cem dias de viagem; e essa lonjura aparente atormenta-os como se fosse real. Por todas estas razões, o pátio, rápida e insensivelmente, dobra um homem, subjuga-o de tal modo, que acaba por se perder. Depressa se esquece de tudo o que aconteceu e pensa-se cada vez menos no que acontecerá; assim o passado e o futuro fundem-se num único presente, na terrível e insólita vida do Pátio Maldito.
E quando acontece o céu cobrir-se de nuvens e começa a soprar um vento tépido e doentio do sul, que traz o fedor nauseabundo da putrefacção marinha do porto invisível e das imundices da cidade, então a vida nas celas e no pátio torna-se verdadeiramente insuportável. (…) O vento sibila e, como uma doença oculta, penetra em tudo o que é vivo. Mesmo os presos mais habitualmente tranquilos ficam atormentados por uma incompreensível irritação e, com os nervos à flor da pele, começam a agitar-se, tomados de raiva, procuram zaragatas. (…) Os nervos esticam-se até doer e descambam de repente em perigosas crises e gestos disparatados. (…)
Nessas horas de exaltação geral, a loucura, tal como uma epidemia ou uma labareda, passa de cela em cela, de homem em homem e transmite-se de pessoas para animais e seres inanimados. Agitam-se os cães e os gatos. Rápidas como flechas, ratazanas graúdas correm de um muro para o outro. Os homens rebentam com as portas, batem com as colheres em malgas de lata. As coisas escapam das mãos. (…)
Nestes momentos, o Pátio Maldito geme e crepita como um enorme guizo numa mão gigante e os homens dentro dele saltitam, encolhem-se, empurram-se uns aos outros e chocam contra os muros como bolas de metal dentro desse guizo.» (pag. 18-20).
«Não posso eu, meu amigo, curar-me – diz -, porque nem doente estou, mas é assim que sou e de nós próprios não nos podemos curar.» (pag.113)
E quando acontece o céu cobrir-se de nuvens e começa a soprar um vento tépido e doentio do sul, que traz o fedor nauseabundo da putrefacção marinha do porto invisível e das imundices da cidade, então a vida nas celas e no pátio torna-se verdadeiramente insuportável. (…) O vento sibila e, como uma doença oculta, penetra em tudo o que é vivo. Mesmo os presos mais habitualmente tranquilos ficam atormentados por uma incompreensível irritação e, com os nervos à flor da pele, começam a agitar-se, tomados de raiva, procuram zaragatas. (…) Os nervos esticam-se até doer e descambam de repente em perigosas crises e gestos disparatados. (…)
Nessas horas de exaltação geral, a loucura, tal como uma epidemia ou uma labareda, passa de cela em cela, de homem em homem e transmite-se de pessoas para animais e seres inanimados. Agitam-se os cães e os gatos. Rápidas como flechas, ratazanas graúdas correm de um muro para o outro. Os homens rebentam com as portas, batem com as colheres em malgas de lata. As coisas escapam das mãos. (…)
Nestes momentos, o Pátio Maldito geme e crepita como um enorme guizo numa mão gigante e os homens dentro dele saltitam, encolhem-se, empurram-se uns aos outros e chocam contra os muros como bolas de metal dentro desse guizo.» (pag. 18-20).
«Não posso eu, meu amigo, curar-me – diz -, porque nem doente estou, mas é assim que sou e de nós próprios não nos podemos curar.» (pag.113)
A literatura deita muitas vidas a perder

SALDOS
Fugi muito novo da prisão
com Edmundo Dantés
e saboreei a vingança antes
de a conhecer de facto.
Fui acossado e cuspido
ao lado de Gwynplaine nas aldeias
de lama por onde passámos.
Numa tarde de Inverno, Lúcio
despertou-me para a morte
e deu-me a conhecer palavras
que eram chuva e relâmpagos
num céu que não tinha nuvens.
Estive na cama com Odette de Crécy
quando Swann espreitou
à procura da desilusão do amor.
Vesti-me de rapariga breve
em frente àquele espelho antigo
que revelou a Malte a sua androginia.
E ouvi as ondas quebrarem-se
como se a angústia chamasse
devagar pelo meu nome de água.
Senti com Fabrício a fome, a certeza
do veneno, o sol no rosto de Clélia.
Fui Quixote e Sancho e os moinhos
também. Passei muitas noites
ordinárias a folhear cartas devolvidas,
cartas de amor somente.
Em Quauhnahuac vi vulcões de álcool
arderem e abutres ternos
que esperavam pelo meu corpo.
Enrolei serpentes de tédio
ao meu colo nu de princesa
e comprei um vestido vermelho
para que reparassem no meu desespero.
Conheci o amor porque o li em Kavafis
e nalguns apressados corpos
que não posso voltar a ler.
Estive na Ponte de Pin a escrever
um longo testamento, «belo
como o tremor de mãos de um alcóolico».
Bebi do mesmo samovar que Kirilov,
mas decidi não partir tão cedo.
Conheci Malone & Molloy, meus próximos,
meus irmãos. Também tive dezassete anos,
também soube que não valia a pena tê-los.
Fui esses todos que não pude ser,
em Veneza e em Trieste, em Buenos
Aires e em Boston, ou no mar da Islândia.
Chorei lágrimas míopes, de tinta e de pouca
terra – para que não me ouvissem
os vizinhos e a posteridade.
Inventei a dor, desdisse-a, voltei.
Bebi loucamente com Anne Desbaresdes,
julgando que o vinho curava a doença da morte.
Vendi o corpo em Barcelona, na Calle
Carmen e na Calle Mediodía, só
para te comprar esta camisa – gostas?
Cheguei ao fim da noite mais cedo do que pensava.
com Edmundo Dantés
e saboreei a vingança antes
de a conhecer de facto.
Fui acossado e cuspido
ao lado de Gwynplaine nas aldeias
de lama por onde passámos.
Numa tarde de Inverno, Lúcio
despertou-me para a morte
e deu-me a conhecer palavras
que eram chuva e relâmpagos
num céu que não tinha nuvens.
Estive na cama com Odette de Crécy
quando Swann espreitou
à procura da desilusão do amor.
Vesti-me de rapariga breve
em frente àquele espelho antigo
que revelou a Malte a sua androginia.
E ouvi as ondas quebrarem-se
como se a angústia chamasse
devagar pelo meu nome de água.
Senti com Fabrício a fome, a certeza
do veneno, o sol no rosto de Clélia.
Fui Quixote e Sancho e os moinhos
também. Passei muitas noites
ordinárias a folhear cartas devolvidas,
cartas de amor somente.
Em Quauhnahuac vi vulcões de álcool
arderem e abutres ternos
que esperavam pelo meu corpo.
Enrolei serpentes de tédio
ao meu colo nu de princesa
e comprei um vestido vermelho
para que reparassem no meu desespero.
Conheci o amor porque o li em Kavafis
e nalguns apressados corpos
que não posso voltar a ler.
Estive na Ponte de Pin a escrever
um longo testamento, «belo
como o tremor de mãos de um alcóolico».
Bebi do mesmo samovar que Kirilov,
mas decidi não partir tão cedo.
Conheci Malone & Molloy, meus próximos,
meus irmãos. Também tive dezassete anos,
também soube que não valia a pena tê-los.
Fui esses todos que não pude ser,
em Veneza e em Trieste, em Buenos
Aires e em Boston, ou no mar da Islândia.
Chorei lágrimas míopes, de tinta e de pouca
terra – para que não me ouvissem
os vizinhos e a posteridade.
Inventei a dor, desdisse-a, voltei.
Bebi loucamente com Anne Desbaresdes,
julgando que o vinho curava a doença da morte.
Vendi o corpo em Barcelona, na Calle
Carmen e na Calle Mediodía, só
para te comprar esta camisa – gostas?
Cheguei ao fim da noite mais cedo do que pensava.
Manuel de Freitas
Game Over
Se este senhor quiser, caso com a sua tristeza.
BWV 988
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações de Goldberg
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.
Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.
É tudo - sabes? - tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida
não deveria ser exactamente assim.
Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino - uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).
E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.
Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.
A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu - ou ninguém, porque
ninguém basta. É um erro - mas gostamos
tanto - pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.
E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos, para ti,
foram sempre sentimentos vãos).
Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram - ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.
O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.
Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.
Qualquer coisa assim.
Manuel de Freitas,
A Última Porta
«o happy end é coisa dos cinemas»

FALA CIRCE
Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?
Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.
Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,
quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.
Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?
Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.
Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,
quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.
José Miguel Silva
Ulisses Já Não Mora Aqui
«ONDE A NOITE CAI SOBRE ANTUÉRPIA»
há uma tal ventoinha no tecto soprando
um possível começo um hotel um homem
bebendo whisky no balcão do bar
o gelo roça no vidro do copo
o calor atrasa as pás da ventoinha
uma mulher lê uma carta junto à janela sentada
num esquecido cadeirão de vime
é meio -
-dia ouve-se lá fora a claridade de um motor
de automóvel europeu fazendo fazendo a curva de uma rua inquieta
um pouco de cinema algum pó
tem o longínquo nome de Kikwit esta cidade
o nome do hotel não sei - Congo Belga anos cinquenta
a película retrata um tempo colonial
não conheço esta história
sei apenas que a mulher tem um vestido azul
que a carta foi tecida na distância de Antuérpia ao pôr do sol
junto ao porto por um homem que a já não quer
a mulher tem um cigarro ao fim dos dedos a cinza cai
a perna cruzada
o joelho branco apontado ao janelão
que dá para a rua
o homem no balcão é o dono do hotel
é português usa fato gravata impecável no pescoço suado
tem um livro dentro do bolso do casaco e espera alguém
olha a mulher sem olhar a mulher
dentro dela cai a noite sobre Antuérpia
relê sempre a primeira frase que diz
esteve um dia lindo no teu sorriso
das histórias que desconheço gosto muito desta
um lóbi de hotel uma cidade chamada Kikwit nos anos cinquenta
um homem uma mulher ele impaciente em whisky ela
triste em tabaco
não se conhecem nem se vão conhecer
o homem tem um livro no bolso a mulher o coração partido
entre o bar e o cadeirão de vime há um verso impossível
depois alguém entra a porta abre fecha
nesse intervalo um ruído de vozes calor poeira e comércio
invadem a placitude do lugar
o homem pousa enfim o copo no tampo do balcão
a mulher nem repara (esteve um dia lindo no sorriso dela
há muito tempo)
o português dirige a maior simpatia à
personagem que acaba de entrar - é Jacques-Yves Cousteau
o conhecido oceanógrafo francês
trocam cortesias
o gesto do português convida-o a sentar-se
apontando uma das cadeiras
o livro sai do bolso e vai estender-se na mesinha onde
acabam por deter-se
Cousteau aceita a caneta do português
abre na folha de rosto escreve o seu nome
debaixo do nome desenha um peixe
a mulher amachuca um pouco mais a carta
no gesto de a guardar na mala
levanta-se sai do hotel
consigo vê-la dobrando o edifício à direita
não sei para onde levou o começo de um choro
não sei onde leva aquela rua
desconheço toda a geografia da cidade africana
bem como o fim desta história
apenas que Cousteau subiu para um dos quartos
que o português sentado sorriu na direcção do tecto
com o livro encostado ao peito
desapertou um pouco a gravata
soube-lhe bem o inexistente sopro da ventoinha
há uma tal ventoinha no tecto soprando
um possível começo um hotel um homem
bebendo whisky no balcão do bar
o gelo roça no vidro do copo
o calor atrasa as pás da ventoinha
uma mulher lê uma carta junto à janela sentada
num esquecido cadeirão de vime
é meio -
-dia ouve-se lá fora a claridade de um motor
de automóvel europeu fazendo fazendo a curva de uma rua inquieta
um pouco de cinema algum pó
tem o longínquo nome de Kikwit esta cidade
o nome do hotel não sei - Congo Belga anos cinquenta
a película retrata um tempo colonial
não conheço esta história
sei apenas que a mulher tem um vestido azul
que a carta foi tecida na distância de Antuérpia ao pôr do sol
junto ao porto por um homem que a já não quer
a mulher tem um cigarro ao fim dos dedos a cinza cai
a perna cruzada
o joelho branco apontado ao janelão
que dá para a rua
o homem no balcão é o dono do hotel
é português usa fato gravata impecável no pescoço suado
tem um livro dentro do bolso do casaco e espera alguém
olha a mulher sem olhar a mulher
dentro dela cai a noite sobre Antuérpia
relê sempre a primeira frase que diz
esteve um dia lindo no teu sorriso
das histórias que desconheço gosto muito desta
um lóbi de hotel uma cidade chamada Kikwit nos anos cinquenta
um homem uma mulher ele impaciente em whisky ela
triste em tabaco
não se conhecem nem se vão conhecer
o homem tem um livro no bolso a mulher o coração partido
entre o bar e o cadeirão de vime há um verso impossível
depois alguém entra a porta abre fecha
nesse intervalo um ruído de vozes calor poeira e comércio
invadem a placitude do lugar
o homem pousa enfim o copo no tampo do balcão
a mulher nem repara (esteve um dia lindo no sorriso dela
há muito tempo)
o português dirige a maior simpatia à
personagem que acaba de entrar - é Jacques-Yves Cousteau
o conhecido oceanógrafo francês
trocam cortesias
o gesto do português convida-o a sentar-se
apontando uma das cadeiras
o livro sai do bolso e vai estender-se na mesinha onde
acabam por deter-se
Cousteau aceita a caneta do português
abre na folha de rosto escreve o seu nome
debaixo do nome desenha um peixe
a mulher amachuca um pouco mais a carta
no gesto de a guardar na mala
levanta-se sai do hotel
consigo vê-la dobrando o edifício à direita
não sei para onde levou o começo de um choro
não sei onde leva aquela rua
desconheço toda a geografia da cidade africana
bem como o fim desta história
apenas que Cousteau subiu para um dos quartos
que o português sentado sorriu na direcção do tecto
com o livro encostado ao peito
desapertou um pouco a gravata
soube-lhe bem o inexistente sopro da ventoinha
Miguel-Manso
Contra a Manhã Burra
MARILYN

NA MORTE DE MARILYN
Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.
Ruy Belo
Transporte No Tempo
A LUA E MARILYN
Tinha duas faces como a lua
Uma que toda a gente conhece
e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)
e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer
É esse o teu lado que me fascina
que sempre me fascinou
Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)
como uma borboleta
e não pesavas mais do que isso
e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir
o pólen que trazias agarrado nas mãos
Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo
(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)
custa-me a entender como é que tu ao passares a língua
pela casca de um fruto carnudo
lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa
90-60-90…
São essas rigorosamente as medidas do universo
em que te movias
as medidas do pesadelo
que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes
e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra
Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens
desaguam desesperadamente
O mar está encapelado
Nem me dou conta que está morta –
Subiram o pano
A sessão da tarde vai começar…
Gostaria de me encontrar depois contigo
num dos manicómios desta cidade
(há vários e vai ser difícil escolher)
Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas
amarelas e fragrantes
nos jardins da nossa inconsistência
Jorge de Sousa Braga,
O Poeta Nu
sábado, 7 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Encontrei-me esta madrugada num livro e era uma cantora perdida

«Na altura em que os drinks eficientes, uma boa grafonola e uns quantos desejos disseminados por duas salas começam a por um pouco de magia dentro da mais banal assembleia, porque uma cantora me pergunta o que eu penso do seu repertório e eu respondo, exaltado pelo álcool e por dois olhos suficientemente belos para eu querer seduzir o corpo a que pertencem, que a sua arte não é digna dela, fica impaciente por justificar a sua carreira explicando-a e, por este motivo, procurando razões mas sem chegar a defender as suas coplas, cansada de argumentos já experimentados, declara: «Sim, eu sei o pouco valor que as minhas canções têm, o pouco valor de todos os que aqui estão, de todos os que temos de ver, mas…»
Não termina a frase. Acaba de sentir, de me fazer sentir, que a actividade incapaz de dar ao homem um olvido perdurável nunca sabe consolá-lo com uma sensação peremptória que se basta a si mesma, como é, por exemplo, a sensação de grandeza ou verdade.
No entanto, nem eu nem essa cantora aceitamos desconsiderar-nos, mesmo, e sobretudo, quando confessamos.
Ela, então, com rugas de medo espalhadas por todo o rosto, um rosto onde a transparente derrocada da pintura põe à mostra as mais secretas decomposições apesar da vontade dos olhos, ela, com as mãos como flores doentes postas naquele peito de veludo que uma fadiga já vai deixando cavado, com o corpo rebelde ao sobressalto, que o espírito comanda, ela, muito lenta, com a gravidade de quem apresenta ao juiz o último argumento, afirma: «Chego a tudo por caminhos modestos.»
E eu, sensibilizado com estas palavras simples, sinto vontade de me ajoelhar, beijar o rasto dos seus passos.
Repito: «Tudo por caminhos modestos.» Vou precisar desta luz parda da manhã que se regozija em denunciar a pobreza da tez e dos pensamentos, para fazer a mim próprio esta pergunta: não tomará ela os caminhos desviados por caminhos modestos? A vida de cantora será modesta para uma mulher que, só por si, tudo atrai? São os outros que ela ensina a desprezar, não a estimá-la. Aceita a dimensão falsa das palavras. E como poderá ficar de bem consigo própria quando tenta, não limitar-se, definir-se, mas perder-se?
Vive com os outros, chega-se aos outros, a todos os outros, a todos. ora, chegar a todos não é chegar a tudo mas, pelo contrário, não chegar a nada.
Um exemplo destes é um aviso.
E por isto, depois destas palavras, também eu resolvi ficar dali a pouco só, verdadeiramente só.»
Bom dia. Boa noite. Vou ver como nasce o sol no Bosque da Bolonha e esperar que a solidão seja possível.
Não termina a frase. Acaba de sentir, de me fazer sentir, que a actividade incapaz de dar ao homem um olvido perdurável nunca sabe consolá-lo com uma sensação peremptória que se basta a si mesma, como é, por exemplo, a sensação de grandeza ou verdade.
No entanto, nem eu nem essa cantora aceitamos desconsiderar-nos, mesmo, e sobretudo, quando confessamos.
Ela, então, com rugas de medo espalhadas por todo o rosto, um rosto onde a transparente derrocada da pintura põe à mostra as mais secretas decomposições apesar da vontade dos olhos, ela, com as mãos como flores doentes postas naquele peito de veludo que uma fadiga já vai deixando cavado, com o corpo rebelde ao sobressalto, que o espírito comanda, ela, muito lenta, com a gravidade de quem apresenta ao juiz o último argumento, afirma: «Chego a tudo por caminhos modestos.»
E eu, sensibilizado com estas palavras simples, sinto vontade de me ajoelhar, beijar o rasto dos seus passos.
Repito: «Tudo por caminhos modestos.» Vou precisar desta luz parda da manhã que se regozija em denunciar a pobreza da tez e dos pensamentos, para fazer a mim próprio esta pergunta: não tomará ela os caminhos desviados por caminhos modestos? A vida de cantora será modesta para uma mulher que, só por si, tudo atrai? São os outros que ela ensina a desprezar, não a estimá-la. Aceita a dimensão falsa das palavras. E como poderá ficar de bem consigo própria quando tenta, não limitar-se, definir-se, mas perder-se?
Vive com os outros, chega-se aos outros, a todos os outros, a todos. ora, chegar a todos não é chegar a tudo mas, pelo contrário, não chegar a nada.
Um exemplo destes é um aviso.
E por isto, depois destas palavras, também eu resolvi ficar dali a pouco só, verdadeiramente só.»
Bom dia. Boa noite. Vou ver como nasce o sol no Bosque da Bolonha e esperar que a solidão seja possível.
René Crevel, O Meu Corpo e Eu
domingo, 1 de maio de 2011
E a tua ferida, onde está?

E a tua ferida, onde está?
Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?
Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.
Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.
O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.
(...)
Jean Genet
Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?
Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.
Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.
O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.
(...)
Jean Genet
caligrafia da violência

AS IMAGENS
As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto.
Já o céu não há imagem que o fixe. A nuvem vista do
avião: um vapor que nos tira a vista. O grou, um pássaro, mais
nada.
Até o comunismo, a imagem final, sempre refrescada
Porque lavada com sangue tantas vezes, o dia-a-dia
Paga-lhe um salário modesto, sem brilho, cego de suor,
Escombros os grandes poemas, como corpos muito tempo
amados e
Postos de lado agora, no caminho da espécie exigente e finita
Nas entrelinhas lamentos
sobre ossos feliz o carregador de pedra
Porque o belo significa o fim provável dos terrores.
Heiner Muller in O Anjo do Desespero
sábado, 30 de abril de 2011
Bolero de Ravel

Há dias em que não acredito na psicologia humana. Dói-me a cabeça. Muito. Nunca ninguém saiu daqui curado. Na minha frente, um paciente. Uma rapariga ou mulher, não sei ao certo, que se queixa de pânico. Preciso de ter paciência e não pacientes. Penso que lhe digo:
Não sei que dizer, menina – o melhor seria perguntar a Deus. Eu sou apenas um homem num dia mau com uma dor de cabeça enorme.
Em vez disso, digo:
Há quanto tempo tem ataques de pânico?
Há quanto tempo tem ataques de pânico?
Conte-me a primeira vez.
A primeira vez deles foi no nosso quarto conjugal. Ela diz que andava pelas ruas quando de repente tudo lhe pareceu paisagem cartonada. Como no Truman Show, penso. Diz que os rostos perderam a humanidade.
Perderam a humanidade como? Explique isso melhor.
Oiço-a dizer nos bastidores da minha dor de cabeça que é difícil explicar, é uma coisa da ordem da sensação. Como dar um testemunho da dor através das palavras? As palavras são traiçoeiras, enredam-nos em asfixias que nos matam lentamente. Devia divorciar-me. Porque não me deixa ela? Não entendo. Ela tenta explicar: por detrás dos rostos não havia nada, eram máscaras arquitectadas de carne sem entranhas, por dentro nada, nem vísceras. Bombas-relógio.
Olho para ela. Pela primeira vez. Já não é uma menina mas ainda não é uma mulher. Está perdida e assustada. Tem medo dela, tem medo do mundo. Ela viu qualquer coisa. Viu o real sem aquilo a que os antigos chamavam o véu de Maya. De súbito, apetece-me levantar da cadeira, esquecer a posição frágil de doutor onde enterrei a minha juventude e todas as esperanças, pegar-lhe na mão frágil e dizer:
A menina dança?
E girar por este consultório, falso como toda a mobília do mundo, ao som de um bolero de Ravel nunca composto. Dizer-lhe,
Não tenha medo, você foi salva! Foi salva pelo pânico! Viu! Agora sabe. Vá-se embora, não há nada de errado consigo. Vá, tente fazer o melhor que puder, sabendo que a festa não virá! Só esta dança.
Reparo nos seus olhos miúdos que suplicam uma reacção minha – é só isto que a vida nos permite: reagir? e digo:
Pois talvez alguma medicação possa ajudar. Anti-depressivos. Ansioliticos. E hipnóticos em SOS.
E a mim quem me salva? A mão escreve veloz a receita como quem acelera daqui para fora. Para fora deste contexto doutor-paciente em que o mundo nos atrasa a ambos num compasso de solidão. Talvez seja apenas um dia mau. É preciso paciência. Aperto a mão dela, tão frágil e magra, ensaio um sorriso profissional – Deus se sorrisse, como seria?, e digo,
As melhoras e até à próxima.
Como quem diz,
Até amanhã e esta guerra não fui eu que a criei.
um casal ventoso

Corpo e Cabeça nunca tiveram os mesmos interesses e há muito que esqueceram o propósito da sua união. Raramente se põem de acordo e pontuam as noites com desacordos e insultos. A Cabeça é uma esposa dedicada, ocupa os dias com a alimentação, limpeza e defecação do Corpo. Não é, no entanto, apaixonada. O mais das vezes, é ouvi-la andar pelas divisões de sua casa resmungando que seria mais feliz longe dos hábitos e rotinas do Corpo. Nunca partiu, porém.
Perante as contínuas guerras domésticas do casal, os vizinhos não conseguem chegar a um consenso. Uns dizem que a culpa é da Cabeça que a todo o instante trai o corpo com as ideias dos outros. E quem sofre, é o pobre do Corpo! Mas, reclamam outros, o Corpo também trai a Cabeça com outros corpos, toda a gente sabe. Pois, replicam outros, mas volta para casa na mesma noite. Ou de manhã. Adormece a cantarolar satisfeito enquanto a Cabeça gira em torno de mais uma insónia, as mãos apertando a culpa.
MULHER, ESSA FOME DE IMPOSSÍVEIS...

Numa digressão pelos corredores da biblioteca onde a minha adolescência criou raízes encontrei o livro de Hector Abad Faciolince, Receitas de Amor para Mulheres Tristes. Li-o numa hora, intimada não pela falta de afectos amorosos nem pela tristeza, mas por ter uma capa bonita, ter sido traduzido pelo Pedro Tamen e, sobretudo, porque nele se publicitava a sabedoria de um homem que conhece o «feminino» em profundidade.
Ora eu, que pertenço ao sexo feminino por outorgação biológica e cultural, muito tenho debatido comigo na minha solidão e com algumas amigas empenhadas em estudos feministas sobre as chamadas questões das mulherzinhas. E isto sem saber nada do feminino em profundidade, mas sentindo-o muito profundamente. Na pele, que é onde mais nos sentimos e doemos.
Até hoje cheguei apenas à conclusão de que a mulher é um dos enigma da cultura e que eu própria sou uma mulher-enigma. Explico melhor. Mulher-enigma, mulher que passa o tempo a meditar em si, com o corpo ocupado por um problema. Um corpo-problema parasitado pelo pensamento que se devora do avesso. Ser mulher é hospedar um problema que afecta os gestos, os afectos, as palavras. Um problema criado para além da possibilidade da solução. Um problema que me ultrapassa e me dispensa até, por vezes.
Por isso, se antes me empenhava em responder aos argumentos feministas dizendo que quando seguia pela rua nos dias ordinários não me recordava como mulher mas como ser, hoje revi essa postura, sobretudo acicatada pela indignação e pela ira (que como já disse, são os afectos mais femininos que trago em mim) e digo: não sou uma mulher, sou um problema.
Convidada pela apregoada sabedoria do autor, entrei então pelo livro com toda a credulidade e inocência. E alguma ironia também, confesso. Afinal a ideia de que é preciso vir um homem para nos iluminar persiste e isso faz-me sorrir travessamente.
A prosa elegante e suave seduziam-me com acenos domésticos e sensuais. Gostei particularmente da comparação dos fluidos femininos a clara de ovo:
«Deixa-te guiar pelo manso marulhar das sensações, conhece os atalhos do teu corpo, que tudo se humedeça com o seu líquido fresco, e não penses, não penses muito, porque nada seca tanto o ventre como o pensamento. Olha, tu sabes de que humidades te estou falando; das mais desejadas, dessas que como claras de ovo se te escondem no corpo e que são o deleite do teu companheiro. Não temas derreter-te, desidratar-te, dissolver-te. Deixa-te ir, não penses, quero ouvir um gemido de corpo inteiro, um alarido de poros abertos. Abre, abre até te partires, submerge-te no mar das sensações, perde-te, solta o freio, desata-te, permite-te ser toda, por momentos, uma perdida.» (p.46)
Notável. Mas a ironia persistia. Com travos culinários. Já tenho a minha cota de perdida. As tripas e o coração seguiam intactos pelas páginas. A certa altura, o autor escreve:
Notável. Mas a ironia persistia. Com travos culinários. Já tenho a minha cota de perdida. As tripas e o coração seguiam intactos pelas páginas. A certa altura, o autor escreve:
«Como hás-de acreditar naquele que diz que gosta de ti?
(…) à falta de um método infalível, aí vai o velho conselho matemático: deve-se acreditar em metade da metade. Se depois desse par de divisões ficar de pé uma chamazinha de luz, começa a acreditar nele, mas não te esqueças: os homens são cobardes a amar.» (p. 96)
(…) à falta de um método infalível, aí vai o velho conselho matemático: deve-se acreditar em metade da metade. Se depois desse par de divisões ficar de pé uma chamazinha de luz, começa a acreditar nele, mas não te esqueças: os homens são cobardes a amar.» (p. 96)
Foi aqui neste momento e com esta banalidade, confesso, que ele ganhou o meu respeito. Porque os homens são mesmo cobardes a amar; na literatura, como na vida, é sempre pela mão feminina que se ousa a grande aposta. É verdade que também é essa mesma mão que depois paga a factura trágica, num catálogo memorável de fatalismos e suicídios ridículos. Pela coragem, as mulheres conquistaram o estatuto das grandes vítimas históricas da ideia de amor, não perdendo jamais a inspiração. Há beleza nisto, digo eu.
Mais adiante, desfeito o sorriso travesso, na página 64 eis-me completamente rendida ao senhor:
«Essa tendência para traíres, para mentires – e para seres perfeitamente franca. Para te esconderes – ou para te mostrares muito. Esse cuidado de te preservares tanto – para acabares a contar a tua história, a tua verdade, com todos os pormenores, a um desconhecido. Essa vontade de fugires, de saíres a correr quando alguém mostra que começa a conhecer-te, embora não te reveles, e essa vertigem de ficares. Essa indomável sede de alguém – e de não estares com ninguém. Essa fome de impossíveis. Como pensar no meio desta confusão contraditória? É verdade e mentira, está bem e está mal, e não há saída.
Nada a fazer. Toma um copo de água.» (p.64)
Nada a fazer. Toma um copo de água.» (p.64)
Esta passagem tocou-me particularmente, nela revi as minhas ansiedades e contradições. Fiquei mais sossegada porque me senti mais acompanhada. Para esta fome de impossíveis, o autor não apresenta receita nem remédio. Não existe cura para a beleza mas existem paliativos para atenuar a dor que sempre fica como rasto: um copo de água porque Faciolince desaconselha o uso imoderado de álcool.
O whisky, segundo o autor, favorece sentimentos opostos, alimentando o engano e a credulidade. As suas misturas amarelas não convêm ao peito na aflição. Contudo, se for de single mat e de águas escocesas ou da Irlanda, a mulher pode tomar dois decilitros. Mas apenas quando se vir na obrigação de mentir despudoradamente; «o whisky dá uma cara tão dura que facilita a mentira. Mais séria que qualquer trampolineiro, parecerás de gesso, e todos acreditarão em ti» (p.53). As aguardentes, líquidos traiçoeiros pela semelhança com a água, são de evitar. Resta o vinho e a cerveja, bebidas benignas e sãs. E o rum das Antilhas, que aquece e é de bom gosto. Com gelo e algumas gotas de limão revela os seus melhores atributos.
De acordo com esta avaliação, parece que me tenho andado a envenenar. Nada a fazer, respondo eu deste lado: A vida! a saúde! o dinheiro! o corpo! tudo! para seja belo! É esta a minha aposta: aposto na vida e na beleza e aceito pagar o preço. Porque a beleza me deixa sempre em apuros e aflições mas decido que o prazer vale a despesa. Com as palavras de Rimbaud em mente, canto com coragem:
«Ó meu Bem! Ó meu Belo!
(…)
Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar.
(…)
Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias. Este é o tempo dos ASSASSINOS.»
(…)
Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar.
(…)
Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias. Este é o tempo dos ASSASSINOS.»
Não estou para poupanças: a vida é para gastar todos os dias, sem folgas nem férias. Estou em crise, é verdade, mas ainda estou viva. Mais viva que morta. E com os dentes todos. Para um riso grande e franco.
sábado, 16 de abril de 2011
O APOGEU DE MISS JEAN BRODIE
«“Miss Jean Brodie diz que o apogeu é melhor”, disse Sandy.
“Pois, mas ela nunca se casou como as nossas mães e os nossos pais.”
“Eles não têm apogeus”, disse Sandy.
“Têm relações sexuais”, disse Jenny.
As meninas fizeram uma pausa, porque isto por enquanto era um pensamento assombroso e sobre o qual só recentemente se fizera luz para elas; a própria frase e o seu significado eram novidade. Era mesmo inacreditável. Depois, Sandy disse: “Mr. Lloyd teve um bebé na semana passada. Deve ter praticado sexo com a esposa”. Esta ideia era mais fácil de encarar e elas riram-se estridentemente, cobrindo a boca com os guardanapos de papel cor-de-rosa. Mr. Lloyd era o professor de Arte das raparigas no secundário.
“Consegues ver isso a acontecer?”, segredou Jenny.
Sandy contraiu os olhos, tornando-os ainda mais pequenos, no esforço de ver mentalmente. “Ele tinha o pijama vestido”, segredou por sua vez.
As raparigas sacudiram-se de riso, pensando em Mr. Lloyd, que era maneta, fazendo a sua entrada solene na escola.
Depois Jenny disse: “É uma coisa que se faz num impulso momentâneo. É assim que acontece.”
Jenny era uma fonte de informações de confiança, porque uma rapariga que era empregada na mercearia do pai dela aparecera grávida recentemente, e Jenny captara alguns fragmentos do rebuliço que se seguira. Tendo confidenciado as suas descobertas a Sandy, deram ambas início a uma série de pesquisas a que chamaram ‘pesquisa’, ligando entre si indícios que recordavam de conversas ouvidas ilicitamente e excertos de grandes dicionários.
“Acontece tudo num abrir e fechar de olhos”, disse Jenny. “Aconteceu à Teenie quando ela andava a passear em Puddocky com o namorado. Depois tiveram de se casar.”
“Dir-se-ia que o ímpeto já devia ter passado no momento em que ela despiu a roupa”, disse Sandy. Por “roupa” ela queria sem dúvida referir-se a cuecas, mas “cuecas” era grosseiro neste contexto científico.
“Sim, é isso que eu não consigo compreender”, disse Jenny.»
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