segunda-feira, 23 de abril de 2012
"It is preferable not to travel with a dead man."
Every night and every morn,
Some to misery are born,
Every morn and every night,
Some are born to sweet delight.
Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.
William Blake
domingo, 22 de abril de 2012
...most of us need the eggs
quinta-feira, 19 de abril de 2012
O exorcismo é o verdadeiro poema do prisioneiro

“É preciso estarmos sempre de pé atrás, Meus Senhores, sempre com pressa de acabar, jurar tal coisa e voltar a por todos os dias essa jura em obra, não nos permitirmos por mero prazer uma única respiraçãozinha, utilizar todas as pancadas do coração naquilo que fazemos, pois aquela que tenha sido empregue só por divertimento irá por em desordem as milhares de outras que se seguem.
(…)
Mas que isso acabe depressa. Digo-o para vosso bem, um iluminado não pode durar muito tempo. Um iluminado come o seu próprio tutano, e a satisfação não é o que vos interessa. Vocês verão aliás como isso acabará. Os sons voltarão a entrar no órgão e o futuro há-de invaginar-se no Passado como sempre fez.”
“Para compreender, a inteligência tem de se sujar. Antes de tudo, antes até de se sujar tem de ser ferida.”
A noite em que o servo comeu a senhora...

Olha-o fixamente nos olhos.
JÚLIA: Talvez seja, mas você também é. E, vendo bem, tudo é estranho: a vida, os seres humanos, tudo. Tudo é um lixo que cai sobre a superfície da água, até mergulhar, mais fundo, mais fundo. Há um sonho que eu tenho muitas vezes. Eu estou em cima de uma coluna e não sei como descer. Quando olho para baixo sinto tonturas; tendo de descer, mas tenho medo de saltar. Não posso ali estar, sinto que vou cair, mas não caio. Não há uma pausa. Não haverá paz para mim até eu descer e chegar ao chão. Mas ao tocar o chão, eu quero mesmo é ficar debaixo do chão… Alguma vez sentiu isto?
Se até bates nas
cadelas
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Quando estão a acasalar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Deixa as outras com o seu
par
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Não lhes roubes o que é
delas
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Trazes debaixo da saia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
O que tens para lhe dar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Porque de véu e grinalda
Tridiridi-rala, tridiridi-ra
Terás muito para contar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
E vê lá que te não caia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Em sorte alguma desdita
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Para a sorte ser bonita
Tridiridi-rala, tridiridi-ra
Basta levantares a saia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
segunda-feira, 16 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
Noites brancas com o mestre Visconti
Natalia: Agora posso dizer que fui dançar.
Mario: Agora posso dizer que fui feliz.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Onde está, partido, o que recebi?

em que almofada, ou objec-
to da sala?
E ela responde-lhe; com um novo sorriso, ou esgar de choro: - Onde está, partido, o que recebi?
Eu vi, veloz, que alguém, ou alguma coisa, ou alguma hesitação sobre o absoluto, precisava de nascer_______ de nascer deles. Voltei para trás, à fonte do silêncio e _______ senti que ia ser profundamente amada, e mal.
Ele interrogou – Queres ser superficialmente bem amada
ou
mal amada, mas profundamente?
«Amada profundamente mal, amada profundamente, e sem saber», traçou o pé do lápis na ombreira da porta.”
domingo, 8 de abril de 2012
PARA A SEREIA DO NEVOEIRO
Boca no espelho escondido,joelho diante da coluna do orgulho,
mão com a barra da grade:
ofertai-vos as trevas,
dizei o meu nome,
guiai-me até elas.
DO AZUL, que ainda busca o seu olho, bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos, pérola, e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas: o granizo preto da melancolia
cai num lenço, todo branco de dizer adeus.
QUEM ARRANCA de noite o coração do peito deseja a rosa.
Pertencem-lhe a sua folha e o seu espinho.
A esse põe ela a luz no prato,
com o seu sopro enche-lhe os copos,
só para ele sussurram as sombras do amor.
Quem arranca de noite o coração do peito e o arremessa ao alto:
não falha o alvo,
apedreja a pedra,
a esse bate-lhe o sangue fora do relógio,
o tempo faz-lhe soar na mão a sua hora:
pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.
sábado, 7 de abril de 2012
um falcão no punho

A escrita de Maria Gabriela Llansol enfeitiçou-me. Nela encontro a mesma constelação onde os corpos dos livros se entrelaçam com o desejo, o erotismo e a falta.
Confronto estes dias com o período final da minha adolescência em que sofria de uma doença ligeira de fadiga. Vinda do liceu, ou já em férias, só me restavam forças para, na imobilidade, ler, acrescentando-lhes o gozo ilícito do meu próprio corpo. Sob o signo da falta, eu gozava e lia e, agitando-me, sem violência, nesta contradição fundava a escrita.”
Vou agora dedicar-me a aprender a estimar a minha loucura sem me assustar. É só isso que me falta e é tarefa que só a escrita, o grande exercício da Falta, pode cumprir, cumprindo-me. “Escrever não é um protesto de inocência?”
segunda-feira, 2 de abril de 2012
A morte de Danton
quarta-feira, 28 de março de 2012
Quem é o sexo de ler?
Enleada nestes devaneios, vou adiando o momento da leitura do livro. Os meus melhores amores são os sonhados, por arder. Depois, começo lentamente a desflorar o livro, com gestos do pudor mais lascivo. O prefácio de Maria Gabriela Llansol serve de preliminar; um êxtase tumultuoso na melhor, mais perfeita figuração do sexo – “o nome de uma alegria recortada num fundo de aflição”, “uma matéria figural irradiante e enigmática. Uma folha de água caindo às águas. E, como linguagem, um vazio iluminado pelo encantamento – quem é o sexo?”
Quem é o sexo?
Sem resposta, cavalgo as restantes páginas em frenesim, apalpando nas entrelinhas a aproximação dessa cena sem imagem, cena inaugural da cultura e, sobretudo, da escrita. Porque a leitura mais não é do que um acto de amor diferido, mediado pelo papel, as frases indizíveis buscando o aconchego dos corpos desencontrados pelo Tempo.
“a frase luta, alterna de género, o seu único intento é arrancar ao leitor a tira que lhe venda os olhos, não para que veja a cena, mas para que sinta que nasceu cego, não há cena de sexo, apenas o incontornável que a todos nos foi dado como forma de matéria atractiva, os corpos atraem-se, moça, por aquele halo que escapa à visão, o leitor encosta-se à prateleira dos livros já lidos, atordoado com a notícia, recolhe o braço com que ia em busca de alívio num outro tomo qualquer, volta a estendê-lo, recolhe a notícia que se escondia naquele corpo ainda vestido,
olha para as sandálias ainda espalhadas pelo chão, não as vê, é noite, vê, sim, que ser leitor é
uma vida passada em tantos outros lugares, uns com ele, outro adversos, uns do seu género, outros sedutores e ofuscantes, passou e não sabe dizer o que viu, é a vida que não sabe dizer-se, baixa-se e pergunta
«onde está a minha leitura?»,
onde paira o sexo fugaz que se esvaiu nos infravermelhos?,”
E o orgasmo acontece. O resto – os poemas, o corpo do texto, são deliciosos e firmes, mas incomparáveis ao supremo júbilo da cabeça e do beijo de Llansol, onde o Sexo de Ler se abre e mostra de soslaio: imagens arredias que não se fixam na língua mas cujas afterimages fazem estremecer a carne.
pensa: o herói dura, mesmo a queda lhe foi pretexto para ser: seu supremo nascer.

Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes repararam já
que nós não estamos muito confiados em casa
neste mundo explicado. Resta-nos talvez
qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos
diariamente; resta-nos a estrada de ontem
e a fidelidade amimada dum costume,
que gostou de estar connosco, e por isso ficou e se não foi.
Oh! e a Noite, a Noite, quando o vento cheio de espaço dos mundos
nos desgasta a face - , a quem não restaria ela, a ansiada,
a das desilusões suaves, que a cada coração solitário
espera penosa. É mais leve aos amantes?
Ai! eles apenas se tapam um com o outro a sua sorte.
Pois não o sabes ainda? Arroja dos braços o vácuo
para os espaços que respiramos; talvez as aves
sintam o ar alargado com um voo mais íntimo.
Sim, as primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
esperavam de ti que as sentisses. Levantava-se
uma onda no passado e aproximava-se, ou,
ao passares pela janela aberta,
um violino entregava-se. Tudo isto era missão.
Mas cumpriste-a tu? Não estavas tu sempre
distraído ainda de expectativa, como se tudo te anunciasse
uma Amada? (Onde queres tu abrigá-la,
se os grandes pensamentos estranhos em ti
entram e saem e muitas vezes pernoitam.)
Se, porém, a saudade te assalta, canta as Amantes;longe
ainda de ser imortal bastante o seu sentimento célebre.
Canta aquelas - quase as invejas! - abandonadas que tu
achavas tanto mais amorosas que as satisfeitas. Recomeça
sempre de novo o inacessível louvor;
pensa: o herói dura, mesmo a queda lhe foi
só um pretexto para ser: seu supremo nascer.
Mas as amantes recolhe-as a Natureza cansada
de novo em si, como se não houvesse duas vezes as forças
para cumprir tal obra. Celebraste já bastante
a Gaspara Stampa, para que qualquer donzela
a quem fugiu o amado, ao exemplo sublimado
desta amante, sinta: Oh fosse eu como ela?
Pois não hão-de finalmente estas antiquíssimas dores
tornar-se-nos mais férteis? Não é tempo que, amando,
nos libertenos do amado e, trementes, vençamos a prova?:
como a seta vence a corda, para, concentrada ao saltar,
se superar a si própria. Pois nenhures há parar.
Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como somente outrora
santos ouviam, de tal forma que o apelo imenso
os erguia do solo; eles, porém, impossíveis,
continuavam de joelhos e nem o atendiam:
de tal maneira ouviam. Não que tu, nem de longe,suportasses
a voz de Deus. Mas ouve o hálito,
a mensagem ininterrupta, que se forma de silêncio.
Um rumor rola agora daqueles mortos jovens para ti.
Onde quer que entrasses, nas igrejas de Roma e Nápoles,
não ouviste o seu fado dirigir-se-te, tranquilo?
Ou era uma inscrição que se te impunha, sublime,
como há pouco a lápide de Santa Maria Formosa.
Que querem eles de mim?Que afaste baixinho
o véu da injustiça que, por vezes, impede um pouco
o movimento puro de seus espíritos.
É estranho, de certo, não morar mais a Terra,
não mais praticar actos apenas adquiridos,
às rosas, e a outras coisas tão prometedoras,
não mais dar o sentido dum futuro humano;
aquilo que fomos em mãos infinitamente tímidas
não mais ser, e abandonar até o próprio nome
como um brinquedo partido.
Estranho, não continuar a desejar os desejos. Estranho,
ver voar solto pelo espaço o que estava
em relação. E o estar-morto é custoso,
e há tanto a recuperar, até gradualmente se sentir
um pouco de Eternidade. - Mas os vivos cometem
todos o erro de distinguir demais.
Os anjos (diz-se) não sabem muitas vezes se andam
entre vivos ou entre mortos. A corrente eterna
arrasta pelos dois reinos todas as idades
sempre consigo, e em ambos as domina com a sua vozpotente.
Afinal já nos não precisam, os de morte precoce;
suavemente nos vamos desacostumando do que é terreno, como nos alheamos
brandamente dos seios maternos. Mas nós, que precisamos
tão grandes mistérios, para quem do luto tantas vezes
nasce progresso feliz - : poderíamos nós ser sem eles?
Será vã a lenda de que outrora repassou o torpor árido?,
de tal forma que só no espaço assustado, de que de repente partiu
um jovem quase divino, é que o vácuo entrou nessa vibração
que agora nos arrasta e consola e ajuda.
Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno
O Lobo das Estepes
Harry Haller é um homem que lê, lê muito. Abandonou família, pátria, profissão, sociedade e moral para se dedicar ao espírito e à liberdade, pagando o seu preço em solidão e sofrimento. «“A maioria das pessoas não querem nadar antes de saber.” Não tem piada? Pois se nasceram para a terra, e não para a água! E é óbvio que não querem pensar; foram feitos para viver, não para pensar! Pois aquele que pensa, aquele que tudo centra no pensar, pode realmente ir muito longe nesse campo, mas para todos os efeitos trocou a terra pela água, e um dia há-de ir ao fundo.»
Incapaz de encontrar abrigo ou descanso, auto-intitula-se Lobo das Estepes, subvivendo como animal desgarrado num mundo que lhe é estranho e incompreensível, cujas ambições e prazeres não partilha minimamente. Alimenta-se na demanda das raras réstias de ouro que iluminam a vidinha, rasgando-a numa explosão ek-stática que desagrega qualquer individualismo. Mas o êxtase dura apenas um instante, que é o tempo da eternidade, e Harry decide-se assim pelo suicídio: «é próprio do suicida sentir o seu eu, com ou sem razão, como germe da natureza especialmente perigoso, equívoco e ameaçado, como se estivesse suspenso no mais afilado cume de um rochedo onde um ligeiro toque do exterior ou a mínima fraqueza do interior bastariam para o precipitar no vácuo.»
E é exactamente na noite em que a lâmina de barbear o aguarda, que o instinto de sobrevivência de Harry começa a espernear. O lobo das estepes encontra então uma linda e pálida rapariga com um rosto masculino que percebe o que falta a Harry: ser cuidado e obedecer. «Obedecer é como comer e beber – quando se passou muito tempo sem isso, não há nada que o valha.»
“Seria mais inteligente da minha parte não te dizer isto. Mas não quero ser inteligente, Harry; desta vez, não. Quero outra coisa bem diferente. presta atenção, abre os ouvidos! Hás-de ouvir, depois hás-de voltar a esquecer, depois hás-de rir à conta disso, e chorar à conta disso. toma atenção, pequeno! Vou brincar contigo à vida e à morte, maninho, e vou-te por as cartas na mesa, bem à vista, ainda antes de começarmos o jogo!”
O jogo começa com a aprendizagem que Hermínia lhe impõe: comer beber, foder e dançar. Culmina num teatro de desagregação de personalidade, cujo preço de entrada é a razão, uma trip alucinatória de pendor nietzscheano que procura atingir a cura pela doença. A farsa termina em
tragédia, com facadas passionais e a insistente angústia das estepes. Mas num golpe de magia, Harry pressente que a vida é jogo e que afinal aos jogos não convém a seriedade, sentindo-se capaz de palmilhar mais uma vez e sempre o inferno do seu interior e aprender a única coisa verdadeiramente imortal – o riso.
A lição final é, mais uma vez nietzscheana: é preciso chorar e passar pela tristeza mais funda para que possamos rir com todos os dentes e experimentar a alegria mais exclusivamente. A liberdade, meu caro, existe mas é preciso pagar o seu preço, sem cobardias nem avarezas.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Romãs & Tonturas

Há já algum tempo que desenvolvo uma predilecção por encontrar misturas perfeitas. Por exemplo: combinar fruta com disposições. Se ao niilismo nada assenta melhor que morangos, a tonturas e estados febris convêm romãs.
E sempre que descasco uma romã, não consigo deixar de acreditar, vá-se lá saber porquê, que a haver uma fruta do pecado no paraíso, seria a romã e não a corriqueira maçã, e que um erro de tradução determinou uma tradição simbólica infinitamente mais pobre.
É capaz de ser uma mistura fatal. Pelo sim pelo não, troquei Adoecer de Hélia Correia pela A Obra ao Negro da Yourcenar. E a coisa começa bem.
" - Tenho dezasseis anos - escusou-se Henrique Maximiliano. - Dentro de quinze, já se poderá ver se por acaso serei igual a Alexandre. Dentro de trinta, saber-se-á se valho ou não o defunto César. Pois irei eu passar uma vida inteira a medir pano numa loja da Rua das Lãs? Trata-se de ser ou não ser um homem.
- Tenho vinte anos – calculou Zenão. – Se tudo correr pelo melhor, tenho à minha frente cinquenta anos de estudo, antes que este meu crânio se transforme em caveira. Ide procurar heróis e devaneios em Plutarco, irmão Henrique. A questão, para mim, é ser mais do que um homem.”
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
UMA RECORDAÇÃO

nela. Todo o passado se dilui num sonho
como uma rua na manhã e só fica ela.
Se não fosse a testa franzida por um momento
pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre
um sorriso.
Também não se acumulam os dias
no seu rosto, nem alteram o sorriso leve
que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura
faz cada coisa como se fosse a primeira;
no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo
firme abre-se, o olhar recolhido,
a uma voz doce e algo rouca: à voz
dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca.
Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos
à espera: ninguém se arriscaria.
Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso
ou a súbita ruga. Se homem existiu
que a soube queixosa, humilhada de amor,
paga dia após dia, ignorando dela
por quem vive hoje.
Caminhando pela rua
sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa
as raparigas da província são mais doces

Mais do que certo; ele virou para um caminho lateral e parou o carro. Tomou o meu rosto na concha das suas mãos geladas e muito solenemente e muito tristemente disse o que eu esperava que dissesse. E esse momento foi inteira e totalmente perfeito para mim; e tudo quanto até ali eu sofrera foi confortado pela suavidade da sua voz terna e ciciante; sussurrando, sussurrando, como os flocos de neve. Uma espinheira à nossa frente estava revestida de branco como se fosse açucar, e a neve piorou e caía com tal força que mal conseguíamos ver. Ele beijou-me. Foi um beijo de verdade. Afectou todo o meu corpo. Os dedos dos pés, apesar de entorpecidos e apertados dentro dos sapatos novos, reagiram àquele beijo, e durante alguns minutos o meu espírito abandonou-me. Depois senti uma pinga na ponta do nariz e fiquei aborrecida.
«Narizes roxos», disse eu, procurando o lenço.
«O que são narizes roxos?», perguntou ele.
«É o nome dos narizes no Inverno», disse eu. Não tinha lenço, por isso ele emprestou-me o seu.”
Arranca-me o coração

“Viu então, ao virar-se, as três gaiolas. Erguiam-se ao fundo da sala, vazia de mobília. Eram precisamente da altura de um homem não muito alto. As grossas grades quadradas dissimulavam em parte o interior, mas havia qualquer coisa a mexer lá dentro. Tinham todas a sua caminha fofa, a sua cadeirinha e uma mesa baixa. Eram iluminadas por uma lâmpada eléctrica colocada do lado de fora. Aproximou-se, sempre à procura do martelo, e reparou numa cabeleira loira. Olhou com mais atenção, mas pouco à vontade, porque sentia que a senhora o estava a observar. Entretanto, já havia descoberto o martelo. Semicerrou os olhos, enquanto se baixava para o apanhar. E quando o seu olhar se cruzou com o deles, ficou a saber que havia outros meninos ali metidos nas gaiolas. Um deles pediu qualquer coisa e então a senhora abriu a porta e foi até ao pé dele, dizendo umas palavras que André não compreendia, mas que eram de tal modo meigas.
(…)
Desceu os degraus de pedra. Ia-lhe pela cabeça um turbilhão de ideias. E ao chegar ao grande portão doirado, virou-se para trás pela última vez. Devia ser maravilhoso estarem assim todos juntinhos, com uma pessoa para os acarinhar, assim dentro daquela gaiolinha tão quente, tão cheia de amor.”
Boris Vian, O Arranca-Corações
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Days of Wine and Roses

DONAL: it all has to do with information
MONA: what has to do with information
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
SÍNDROME DE STENDHAL EM MADRID: HERMITAGE, FEMMES FATALES & EXPRESSIONISTAS











terça-feira, 17 de janeiro de 2012
As cordas da alma
Os clichés são de mau-gosto na literatura. No entanto, descubro que a vida está, mais do que eu gostaria, cheia deles. Esta música, por exemplo, faz vibrar todas as cordas da minha alma. Figura de estilo gasta, bem sei, mas não encontro outra mais honesta.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A graça disto, deixa uma gaja maravilhada.
outras contas que faço e me embalam,
morrendo de idade e um pouco de
tudo, no quarto em que durmo e onde
ouço de novo esse leão abissínio a coxear
na minha sombra. O pequeno sol da
lâmpada, as persianas balbuciando
umas vagas noções de claridade.
Tiro a camisa em voz alta, deixo
os óculos, largo um barulho qualquer
aliviando o silêncio, nestes eternos
trezentos e sessenta graus que reajusto
entre fósforo e fósforo. Chego uns
provérbios de cinza no caderninho,
e, de cabeça baixa, quieto, sofro com
todo o cuidado enquanto passam
pelas minhas mãos muitas dessas
criaturas antigas como os sonhos,
em busca da sua história. Fumo
de olhos fechados, somo suspiros
mentalmente ou fico colando restos
de melodias. A chuva cai e eu quase
só penso nisso. Ouço o mundo e,
quando ela pára, saio
atrás dele, dos pássaros que lhe dão
corda: reticências fabulosas, e juntam
a sua medida ao canto cordial das
distâncias. Formas indecisas que
me levam, estonteado, baralhando
os nomes do mundo
num mantra. Atravesso jardins de
manicómios, escuto a canção intacta
das suas fontes, olho a mutilada doçura
das estátuas, essa mão que deixa cair
a última flor, como um estilhaço, e uma
luz adocicada que parte crianças em
pássaros iguais. Também não sei ao certo
do que falo, mas sigo-me de perto
entre ruas e valados, parques de
estacionamento onde me apanho girando
sem órbita certa, misturado aos outros,
rebelado, inconsequente, confuso e lírico.
Vadios, ensonados, trazem as suas doces
personagens pela mão e distribuem-se,
virando o lixo, farejando a verdadeira alma
dos nossos tempos.
Consumidores de épocas, bocejam uivos
magníficos, falam sozinhos enquanto
bebem restos de chuva num velho serviço
de chá. As pétalas de rosa afogadas,
a música quebrada com que o vento
junta tudo. Que estranha lição
de infância. Gestos antigos, rituais:
composições de pedras e paus, cruzes
de sombra – esta intimidade mágica
que, a pouco e pouco, nos devolve
ao mundo.
Assim e aqui, o pulso dos dias solta-se
e canta, compassando este ballet
miserável, a lenta coreografia que
alarga o espaço da fábula. Os séculos
são breves, a modernidade um delírio
inconsequente. A vida é sempre imediata.
Por uns momentos perdemo-nos
entre a assistência, deixando que passe
esse entusiasmo estrangeiro, a pressa
e o atrevimento que nos emprestam.
Eis a noite, ágil, impondo os seus
ritmos indecifráveis e esse bando
adolescente a correr na ânsia
de esgotar a cidade. Rostos disformes,
sombrios mas belos, corpos angulosos,
geniais. Anjos que vivem caídos
pelos fundos de cafés, bares – sim,
sim –, num fascínio incurável, presos
pelo tal fio. Há muito tempo
que é assim, isto, estas mãos entretidas
sobre pianos mudos e as expressões
de abismo, leitura suficiente
para quem aprende a prestar atenção.
Um gosto guardado para sempre na
boca, as antigas contra-senhas e o sabor
das carícias esboçadas. A sensação de ser
olhado, e olhar de volta uma mulher
doce como o fim do mundo.
Como te puseste velha, Roxanne.
Meio chanfrada, dos lábios fogem-lhe
sílabas de rezas inarticuladas. E os deuses
somos nós, se nos restar ainda algum
nos bolsos.
Aí, entregue, alto, já muito bêbedo,
a um coração que segue doido e bate
ao calhas. Faço-me todas as velhas
promessas: um copo mais e saio. Mais um
e volto para casa. Um copo que ainda
não vi tudo, e a vida, eu sei, não presta.
Se é do hábito eu já não sei, só que
há qualquer coisa que agarra, e com
que força! A graça disto, deixa um gajo
maravilhado.
sábado, 31 de dezembro de 2011
There is an obvious change in me!
Bless this hour of meditation,
Just us and medication.
Can’t say it ex-ex-ex-ex-explicitly.
All my friends became my family!
There is an obvious change in me!
I tripped, and fell in love with you.
Honest, you do what I aim to.
We looked at each other,
And our eyes were clear.
Love your family, you do well, and so sincere.
I tripped, and fell in love with you.
Dance in the light, honest you do.
We looked at each other,
And our eyes were clear
Love your family, you do well, and so sincere.
I tripped!
Entangled in Vertigo, here we go,
And now you know…
how I’ve felt all along.
Decadence and Charity coming on strong.
I told myself I’d never write a love song.
We’ve known each other our whole lives
Under circumstance and sacrifice.
Now we’re together un-ex-expectedly.
All my friends became my family!
There is an obvious change in me!
E venha de lá um feliz 2012!
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
2011 e os meus livros

2011 foi um ano tramado: um ano de crise interna.
A Primavera traz-me O Apogeu de Miss Jean Brodie e a promessa de um amor bruto como o primeiro. Perco o apetite, decido confiar e sentir, sentir muito. Com o peito cheio, descarto os tiques, as frases de pacotilha e os espólios de guerra e recebo uma doçura desconhecida e deliciosa. Mudo mais uma vez de casa. Desta vez, optimista. Passo as noites a namorar com o Augie March e a acreditar que podemos ser fáceis, dados e aceitar o que vier. “Primeiro tem de se testar aquilo de humano com que se consegue conviver. E se o mais elevado estiver naquela taberna vazia e abafada, com as moscas, o rádio quente a zumbir entre jogadas e a cerveja de Sox Park, o que poderá fazer-se senão aceitar a mistura e dizer que a imperfeição é sempre a condição do que encontramos? Do mesmo modo, os meus olhos arranhados verão sempre a grande beleza arranhada. E deuses podem aparecer em qualquer lugar”.
A Aprendizagem começa a solidificar-se no Outono, quando regresso perdida da caça com o nome de Lóri. Os sonhos amputados por solidariedade, por ver que todos saíam tão derrotados pelo mundo. E termina com o diagnóstico de Raskólnikov, que é afinal o meu: orgulho ferido. Mas isso, eu apenas percebo uns dias após o Natal, depois de reler Coração, Solitário Caçador. Ou melhor: vejo. Por uns instantes, perco o medo de levar o pensamento demasiado longe, penso, e de súbito, vejo-me. Vejo-me dividida em duas forças contrárias, uma força guerreira, afirmativa e optimista que quer ser feliz e fazer muitas coisas e outra que teima na inércia e na descrença, fazendo trincheira de uns quantos desgostos, ofendida por o mundo não ser tal e qual o seu desejo. Que eu me boicotava a mim própria já sabia, mas nunca o tinha visto com olhos de ver. O que andou aqui dentro a espernear este ano todo foi a minha parte adolescente – está, portanto, resolvido o enigma de apenas me apetecerem romances de formação.
O ano termina bem. Não tenho nada de grave, apenas dores de parto. O que vou fazer daqui em diante é outra guerra, pois não posso simplesmente açoitar a menina mimada que está magoada: é ela quem sonha mais alto e escreve com maior delírio e força. “Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo nem dá como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.” Nenhum osso partido.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
There is no cure for curiosity.
“Well, I’ve known you to do things no man in this world would be proud of. I’ve known you to -”
“Or maybe it’s curiosity I mean. You don’t ever see or notice anything important that goes on. You never watch and think and try to figure anything out. Maybe that’s the biggest difference between you and me, after all.”
(…)
“The enjoyment of a spectacle is something you have never known”, he said.
Her voice was tired. “That fellow downstairs is a spectacle, all right, and a circus too. But I’m through putting up with him.”
“Hell, the man don’t mean anything to me. But you don’t know what it is to store up a whole lot of details and then come upon something real.”
Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Homenagem a Robert Walser

the heart is a lonely hunter (i)
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
domingo, 18 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
O poema ensina a voar

um par de asas atrofiadas
chamuscadas
pela dor.
numa terra vermelha
e hostil.
A volúpia
da vertigem
nas têmporas.
É preciso aprender
que arranha
a pele parda e anémica
em carícia
então,
gritar com fúria certa:
“eis-me aqui, cansada,
Feridas,
Rasgões
e estilhaços acima,
Até ao milagre das andorinhas retornadas.
E tudo compreender pela alegria.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
A Arte da Queda

O poema ensina a cair
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Crime e Castigo

A segunda confissão é que me apaixonei por Rodion Romanovitch Raskólnikov, um verdadeiro disparate emocional que só a Madame Bovary ousaria igualar. Afinal não existem regras mas o amor está mesmo colado à ponta do medo. Confesso que sempre preferi as personagens femininas porque são sempre as mais arriscadas e imprevisíveis e que, para além do Augie March e Antoine Roquentin, assim de supetão não me ocorrem mais personagens masculinas que tenha verdadeiramente admirado (tenho má memória, também é um facto); e se o primeiro admirei pela inteligência grata com que aceitava todas as vicissitudes, com o segundo partilhei de uma verdadeira intimidade existencial. Mas com o Ródia, a coisa foi diferente: une affaire d’amour. Uma questão de solidariedade, portanto.
(…)
- Agora só te tenho a ti – acrescentou Raskólnikov. – Vamos juntos… Eu vim a ti. Somos ambos malditos, então vamos juntos!
- Vamos aonde? – perguntou cheia de medo e, involuntariamente, deu um passo para trás.
- Como posso saber? Só sei, tenho a certeza, que iremos pelo mesmo caminho, e mais nada. Até ao mesmo destino!
Sónia olhava e não percebia nada. Apenas sabia que ele estava muito infeliz, infinitamente infeliz.
- Ninguém, deles, compreenderá nada se lhes falares – continuou Raskólnikov -, e eu compreendi. Preciso de ti, por isso aqui estou.”
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
O espírito

Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Estranha forma de vida

quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O grande amor

terça-feira, 22 de novembro de 2011
sábado, 19 de novembro de 2011
Time is a river
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
"daqui ninguém sai sem cadastro."
NOTAS PARA O DIÁRIO
deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário — o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida — e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto, in "horto de incêndio" assírio & alvim, 2000
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
(...)
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido – eu da palavra Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser cadela de todos os cães e eles não bastam,
(...)
Álvaro de Campos
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Merci, chérie!

Atravessaram o atlântico e chegaram hoje numa caixinha amorosa e com palavras carinhosas. O carteiro notou o meu sorriso infantil e expectante. Irei sempre delirar com livros que chegam por correio, mesmo que sejam encomendados da amazon, do price minister ou da wook, porque me recordam o frenesim em que ficava nos dias da infância, quando os livros chegavam também por correio, vindos de longe, para alegrar os dias chuvosos. domingo, 13 de novembro de 2011
DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
sábado, 12 de novembro de 2011
Profanações íntimas

quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Cenas de caça: Bacantes

A primeira a começar o ritual do morticínio é a mãe, que cai sobre ele. Penteu atira com a mitra que tinha sobre o cabelo, para que, reconhecendo-o, o não imolasse a desventurada Agave. Toca-lhe na face e diz: “Sou eu, ó mãe, o teu filho Penteu, a quem deste à luz no palácio de Equíon. Compadece-te de mim, ó mãe, não sacrifiques o teu filho por causa dos meus desvarios”.
Com a boca a espumar e revolvendo os olhos em todas as direcções, sem saber pensar direito, e dominada por Baco, não a persuadiu o filho. Agarra-lhe o antebraço esquerdo, apoia o pé no flanco do desventurado e desarticula-lhe o ombro, não pela sua própria força, mas pela destreza que o deus infundira em suas mãos.
Do outro lado actuava Ino, dilacerando as carnes. Antónoe e o bando todo das Bacantes assenhoravam-se dele. Por todos os lados se erguia um clamor: ele gemia com o alento que lhe restava, elas soltavam gritos de triunfo. Levava uma o braço, outra um pé ainda calçado. Desnudavam-se as costelas dilaceradas pelas unhas. Todas as mãos estavam ensaguentadas das carnes de Penteu atiradas como quem joga à bola.»
Eurípedes, As Bacantes, v. 1105-1140
Cenas de caça: Diana










