domingo, 20 de janeiro de 2013

a vida é sempre menos que a vida (?)



Niels Lyhne chegou indicado por Rilke, primeiro na versão francesa e depois na versão portuguesa pela Cosac & Naify. Parente de Emma Bovary, Fréderic Moreau e Oblómov, trata de um problema bicudo: será a vida plena e una, tão arduamente sonhada, apenas uma quimera literária púbere? A vida terá inevitavelmente que soçobrar perante a vidinha, salvando-se apenas os mais calculistas?

Como acontece com todas as perguntas genuínas, a resposta chega com atraso. Há uns tempos atrás, pus-me a matutar seriamente no problema da vida. Tão seriamente, que por vezes sentia que o cérebro se enovelava na mais crua certeza da morte violenta. Durante esse tempo, procurei com verdadeiro afinco encontrar uma pessoa, uma apenas que fosse ou estivesse, genuinamente feliz. Em cada alma, encontrei apenas uma falha, quando não uma farsa. Lembrei-me então desse velho Diógenes que procurava um homem pelas ruas, em pleno meio-dia, com uma lanterna acesa. O fracasso desta demanda tornava a situação mais aflitiva, pois se até estava na disposição de aceitar a minha derrota, a possibilidade de sairmos todos derrotados afligia-me como uma sede sem água à vista.

Niels Lyhne vem comprovar que aquilo que há muitos anos tomei como uma questão íntima é afinal um problema moderno e um problema essencialmente literário, que afecta a todos mesmo os que escapam às leituras. Niels Lyhne passa a vida a poetar a vida em vez de a viver. Petrificada pela letra, a vida é algo que nunca chega. O processo começa nos suspeitos do costume – Platão e Aristóteles – e atinge a sua hipérbole na contemporaneidade: privadas das suas forças vitais, a vida acaba congelada pela retórica, entregue à melancolia de uma temporalidade que não se consegue transcender sem se negar. Até aqui nada de novo. Aliás, o livro todo não traz qualquer novidade para quem já leu essa epopeia da bulimia temporal que é A Educação Sentimental do Flaubert.

Mas a edição brasileira traz um belíssimo ensaio de Claudio Magris como introdução, intitulado «As Moedas da Vida». Nada melhor que um escritor para explicar uma questão literária: “Entre o eu e a vida abriu-se um hiato, que faz daquela não mais a sua vida, mas um território onde ele não consegue penetrar e se inserir, um lugar estranho que não lhe pertence e ao qual não sente pertencer, uma contínua fuga de algo que nunca possui e que portanto não é seu, mas do qual sente nostalgia como se o tivesse perdido”. Entre essência e existência abriu-se uma cesura intransponível que vota a primeira à abstração inacessível e a segunda a uma opaca insignificância. O conflito entre vida e representação converte o tempo da existência nas moedas da vida, “trocados miúdos que não podem ser usados para mais nada”. “A vida alienada é a que foi privada de fins que realmente a justifiquem e a tornem auto-suficiente na dedicação a uma meta superior; no lugar de um fim último, instalou-se uma miríade de objectivos momentâneos e parciais, que se sucedem uns aos outros sem repouso, como na cadeia de montagens de uma imensa produção, sacrificando e queimando cada momento ao seguinte, para alcançar um objectivo meramente prático e despido de valores, que portanto não ilumina – nem retrospectivamente, na memória, nem prospectivamente, na expectativa – o caminho que é preciso percorrer para alcançá-lo.

Que cada um medite nisto, com a urgência com que o problema o encontrar. A maioria optará por não pensar, mas nem por isso deixará de o sentir na própria pele. Outra parte, optará pelo esteticismo e pelo deleite no impasse – deus vos livre do esteta e da sua melancolia artificiosa, antes uma trave no olho! Poucos irão pelo caminho marginal de Stirner, cantando a vida e tomando-a, se necessário, à força. Eu já tenho a minha resposta mas não a partilho. Trata-se de uma questão humanista, pelo que cada qual terá de se por a caminho, sozinho e desorientado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um útero é do tamanho de um punho


eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que eu não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Das saudades contentes


“Pouco a pouco o passado foi-se esbatendo, a saudade diminuindo; ela ainda vinha em certas tardes silenciosas, ao crepúsculo, quando o adeus do sol iluminava a parede do quarto solitário, e o chamado distante e monótono do cuco, cessando de repente, ampliava o silêncio; - então chegava de repente uma saudade que invadia tudo, que penetrava o coração; mas ela não o afligia mais, ela vinha tão suave, tão de leve, que era até meio doce de sentir, como uma dor amortecida.”

Jens Peter Jacobsen, Niels Lyhne

domingo, 13 de janeiro de 2013

Afinidades Electivas




Mudar de casa é sempre penoso para um bibliófilo. Primeiro, há que catar os caixotes de papelão necessários para empacotar os mais de 1550 livros, depois arranjar os braços necessários para os levar até à nova morada e, por fim, tornar a arrumá-los nas estantes.

Apesar de cansativa, esta última parte é a mais deliciosa de todas. Porque em cada nova casa, os livros decidem novas contiguidades nas prateleiras, que me fazem sonhar com uma história alternativa da literatura, muito próxima da história da arte que Aby Warburg propôs no seu inacabado Atlas Mnemosyne: uma história da literatura não aglutinada por cronologias, movimentos ou temas mas por ligações estranhas. Como, por exemplo: a História de Portugal seguida de uma colectânea francesa de textos sobre o tratamento histórico da melancolia, o banquete de Kierkegaard e a moeda viva de Klossowski, as confissões de Santo Agostinho e o Assim falou Zaratustra de Nietzsche, Teorias Sociológicas e o Guia de Vinhos de Portugal de 2010, o Arco-Íris da Gravidade e o Em Busca do Tempo Perdido, o Kama Sutra e a Biblía, o 2666 e o Orlando Furioso, o Mujeres que leen son peligrosas e o Capuchinho Vermelho… No meu quarto, o Liaisons Dangereuses deita-se sobre o meu diário, intervalando a proximidade horizontal do Oblomov com Niels Lyhne.

Só depois de guiar cada livro até ao seu lugar, posso tratar de arrumar e apossar-me das outras partes da casa. E deitar-me enfim, no novo quarto, sonhando os diálogos estranhos que os livros tecem nestas convivências inesperadas, quando a casa dorme o seu sono mais profundo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DA SERIEDADE DO OFÍCIO


“A receita, por exemplo, para que um individuo possa vir a ser bom novelista, é fácil de dar, mas a sua aplicação pressupõe qualidades, de que se costuma não fazer caso, quando se diz: ‘Eu não tenho talento bastante’. Faça-se cem ou mais projectos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, contudo de uma clareza tal que, neles, cada palavra seja indispensável; redija-se anedotas, diariamente, até se aprender a achar a sua forma mais expressiva, mais eficaz; seja-se incansável a recolher e descrever tipos e caracteres humanos; sobretudo, conte-se tão frequentemente quanto for possível e oiça-se contar, com olhos e ouvidos atentos ao efeito produzido junto das outras pessoas presentes; viaje-se como um pintor paisagista e como um desenhador de modas; extraia-se de cada uma das ciências tudo aquilo que faz efeitos artísticos, se for bem apresentado; por fim, medite-se sobre o motivo das acções humanas, não se desdenhe nenhum indício instrutivo a esse respeito e seja-se, de dia e de noite um tal colecionador de tais coisas. Neste múltiplo exercício, deixe-se passar uns dez anos: mas aquilo, que for então criado na oficina, também poderá sair à luz da rua.”

Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

UMA MULHER A PARIR A SUA ALMA



2012 foi um ano estéril em paixões. À parte alguns arrufos inconsequentes, não amei nenhum homem nem nenhum livro. Foi por isso um ano estranhamente bom, ocupado na aprendizagem de uma solidão interior, calma e insuspeita. Até aqui, houve sempre alguém, como diz a Mick em The Heart is a Lonely Hunter, e houve sempre um livro, a tal ponto que a escrita da minha história da leitura se confunde com os meus amores e desamores.

Como o desejo se desloca da minha carne e encontra um livro, é algo misterioso. Como uma operação alquímica. Nalguns casos, o desejo é encaminhado por um terceiro, noutros casos, mora já em minha casa. Mas continuo a preferir os encontros fortuitos na biblioteca, quando as minhas mãos e olhos escutam o apelo de um livro manuseado, que não figura na lista dos livros que gostaria de ler, e o encontram doído de colos ausentes. Com estes livros feridos por outras mãos, sinto sempre uma maior liberdade de tacto, como se fosse mais fácil imprimir-me neles antes de os devolver à sua posição enigmática.

Desta vez, o acaso aconteceu com os diários de Etty Hillesum na Biblioteca de Portimão, a biblioteca da minha adolescência nietzscheana. Uma surpresa deliciosa, considerando que a questão judaica nunca me interessou muito, porque demasiado absolutizada nos pólos vítima-carrasco. Chamou-me uma vez: ignorei, outras leituras se impunham. Chamou-me mais uma vez, fui até ele e li a contracapa, tornei a pousá-lo, outras leituras se impunham. Chamou uma terceira vez, caminhei até ele com passos resolutos e abri-o sem qualquer pudor:

“Terça-feira de manhã [17 de Março de 1942], às nove e meia
Ontem à noite, quando ia ter com ele de bicicleta, havia um grande e aprazível desejo de primavera em mim. E enquanto eu pedalava em cima do asfalto da rua Lairesse, desejando-o e com sonhos na cabeça, senti-me de repente acariciada por um ar tépido de primavera. E subitamente pensei: «Assim também está bem. Porque é que uma pessoa não pode experimentar uma grande e terna euforia pela primavera e, também, por todas as pessoas?» (…) Sim, por que razão é que uma pessoa não poderia sentir amor por uma primavera? E as carícias do ar primaveril eram tão delicadas e tão envolventes, que mãos masculinas, mesmo que fossem as dele, em comparação com elas me haveriam de parecer rudes.

E foi assim que cheguei a casa dele. O pequeno quarto de dormir apanhava um pouco de luz vinda do quarto de trabalho e, quando entrei reparei que a cama dele estava aberta e que, dobrado por cima dela, havia um pesado ramo de orquídeas aromatizando o quarto. E na mesinha ao lado da almofada havia narcisos, muito amarelos, tão extremamente amarelos e frescos. A cama aberta e as orquídeas e os narcisos – uma pessoa nem precisa de se deitar acompanhada naquela cama. Enquanto ali estive, por um instante, naquele quarto meio iluminado, foi como se tivesse tido uma noite inteira de amor. E ele estava sentado à pequena escrivaninha e de novo me saltou à vista como o rosto dele se assemelhava a uma paisagem antiga, cinzenta e gasta.

Pois, estás a ver, uma pessoa necessita de ter paciência. O teu desejo deve ser como um navio lento e majestoso, navegando no oceano infinito e não à procura de um local onde largar a âncora. E de súbito, inesperadamente, dás de caras com um local onde ancorar por um momento. Ontem à noite, encontrou o seu ancoradouro por um breve instante. Foi só há quinze dias que eu fui tão bravia e indomável e o puxei para mim, de tal forma que ele caiu por cima de mim e eu me senti mais tarde tão infeliz que pensei que dificilmente conseguiria continuar a viver? E passou-se só uma semana desde que eu me enfiei nos seus braços e, de um modo ou outro, permaneci infeliz porque havia ainda qualquer coisa de forçado nisso?

E todavia, estes estádios terão sido necessários para chegar a este deslizar ao encontro um do outro, a esta familiaridade, a este ser querido ao outro e ser bom para ele. E uma noite destas fica para sempre, em tamanho enorme, na memória. E se calhar, uma pessoa nem precisa de muitas destas noites para ter a sensação de levar uma vida amorosa plena e rica.”

E pronto: de novo, essa ligação estranha. Saí da biblioteca com o livro junto ao peito, com aquela sensação reconfortante de ter encontrado um objecto perdido na infância – a conceptualização do fetiche por Freud não anda longe da verdade, ainda que a sua verdade se resuma a uma metáfora. Coloquei o livro no lugar do morto e assim fizemos a viagem até casa. Mais tarde, nessa mesma noite, tive de ir ver os homens, compromisso penoso que prolongava mais um pouco o ritual de sedução. Levei-o comigo. É sempre assim quando um livro me conquista: sinto a todo o instante, uma enorme vontade de o ter ao meu alcance, estender a mão e sentir o seu corpo sólido e macio, antecipando com delícia o nosso momento de entrega e rendição. Por isso, quando estou apaixonada por um livro saio à noite com ele, mesmo sabendo que não o posso ler porque os protocolos de leitura não o permitem, imensamente agradada pela companhia do seu peso, que a mão sub-repticiamente acaricia sempre que pode. Algumas vezes, chego até a colocá-lo com todo o cuidado na almofada contígua à minha e podem crer que adormeço contente e satisfeita como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Sim, porque razão é que uma pessoa não pode sentir amor por um livro?

Não vou escrever sobre o livro da Etty. Não consigo, dissecar um amor apenas é possível no desamor. Posso apenas dizer que se trata do registo diarístico de uma mulher a parir a sua alma, com todas as tremendas dores da individuação, para conquistar a alegria anterior a um coração desassossegado e acelerado e uma vida plena, digna de ser vivida. Uma dádiva que me trouxe a consciência de que já não sou nem desejo ser uma amante-leitora compulsiva, atacada pelo síndrome do bovarysmo, faminta por  conhecer o máximo de experiências e sensações. Platão tinha razão quando dizia que a escrita era um pharmakon, sei-o agora. A literatura pode ser um vício, uma compulsão que envenena e corrompe a vida. Mas eu não quero acabar como a Emma, desiludida com a vida, vomitando a tinta negra de todos os livros lidos. Lá onde está o veneno, também estará a cura. Tendo a sorte de poder afirmar ousadamente que já vivi muito e já fiz de muitas personagens, posso agora começar a trabalhar na minha síntese feliz e isso implica fazer do erotismo e da literatura um trabalho mais sério e árduo, um trabalho de exegese. Uma decisão válida para os livros e para os homens: não me interessam mais os arrufos da paixão, mas o Amor. Não querendo isto dizer que me converti ao platonismo. Porque corpo e alma são um só, como a Etty e eu aprendemos. Tendo escavado bem fundo em mim, com todas as facas que encontrei à mão, vou agora tratar de me esculpir e fazer da vida uma obra de arte. A Obra começa.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já da outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.


Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para repensar o amor


Excelente contraponto ao Banquete platónico: aqui bebe-se à séria e busca-se um amor para além da moral e da estética.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


É a segunda vez que me acontece. Ter um contacto inicial desagradável com um autor, recusar lê-lo e depois descobrir anos mais tarde, com um espanto incrível, inúmeras afinidades. Aconteceu com o Bukowski há muito muito tempo. Li qualquer coisa dele num dia errado, rotulei-o levianamente de misógino e segui quase uma década sem o ler, até que um verão dei comigo na praia, sob um sol louco, enternecida pelo seu humor e desespero, e tive de admitir que o homem amava a vida e as pessoas como poucos. Hoje, aconteceu com o Derrida: a tarde inteira, enleada nos Spectres de Marx, lamentando não ter uma eternidade para abraçar cada página. Li algumas coisas dele na faculdade, achei-o hermético, um mestre de malabarismos com conceitos e gramáticas, raiando muitas vezes a incomunicabilidade. Não podia estar mais enganada. O homem conhece exemplarmente a história da filosofia ocidental, não só de trás para a frente como de frente para trás, de modo oblíquo, centrípeto e centrífugo. E diverte-se a brincar com essa história, tratando-o como uma estória, analisando os seus caminhos, desvios e patologias.  E não é um homem interessado apenas nos conceitos: o que lhe interessa é sobretudo a vida, a vida de todos os dias, a vida até dos que não leram nunca uma única linha de filosofia. E em usar todas as artimanhas, possíveis e imaginárias, para vergar os conceitos, para que a vida possa respirar novamente, ainda que por breves momentos.

Mais uma vez, me é provado que a literatura é un affaire d'amour e que para certos livros ou autores, é preciso esperar e confiar no tempo e na sua capacidade de amadurecer a compaixão, uma paixão com, partilhada. Tem razão o Alberto Manguel quando diz que cada leitor cria a sua própria história da literatura. É que a vida e a literatura caminham juntas, mesmo quando desavindas.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

verão vermelho-sangue resfolegando sobre os fenos

“Do verão, diria uma planície lenta, quase amarela: o trigo
a enrolar-se nos pés, o oiro do sol, os cabelos
mais loiros. Um vento quente e ondulante sibilando
nas frestas de um celeiro. O fumo sonolento do calor
tornando informe o fio do horizonte. Do verão

diria também um tempo espesso onde todos
os acasos são sofríveis: duas papoilas, vermelho-sangue,
agitam a paisagem. Tu chegas e a minha pele chama-te
sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor
dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica

apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície
lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram.”

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A todos os romanticidas: a vida e a crise que se lixem, o amor é o amor.

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.


Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.


Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?


O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.


Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.


A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
 
Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As delícias do Inverno



Estamos não na Primavera, nem no Verão, nem no Outono, mas no pico do Inverno. Este é um ponto muito importante na ciência da felicidade. E surpreende-me ver pessoas que não se importam com isso e que até se felicitam por o Inverno estar a acabar ou, se ele está a decorrer, por ser muito rigoroso. Eu, pelo contrário, todos os anos rezo a pedir ao céu o máximo de neve, granizo, gelo e tempestades que ele possa dar-nos. Todos, é claro, sabem dos divinos prazeres que nos esperam no Inverno ao canto da lareira; as velas que se acendem às quatro horas, o calor da alcatifa, o chá, a formosa pessoa que o faz, os reposteiros corridos, as pregas das cortinas a roçar o chão, enquanto o vento e a chuva rugem lá fora
      
      E parecem bater às portas e janelas,
      Como se terra e céu um só quisessem ser;
      Mas não podem entrar, não encontram por onde,
      Nada poderá invadir o nosso doce abrigo.
                              (Castle of Indolence)
                                                     
                                                           Thomas De Quincey, Confissões de um Opiómano Inglês

Sentíamo-nos perfeitamente bem ali no quente, tanto mais que lá fora, e no próprio quarto, sem aquecimento, reinava um frio cortante. A este respeito acrescento que para se gozar plenamente o calor é indispensável ter uma parte do corpo exposta ao frio; porque neste mundo a única medida de valores é a que resulta do contraste. Em si, nada existe. Se uma pessoa se vangloria de um conforto pleno e perene, isso é o mesmo que afirmar que não se encontra mais em condições de avaliar o que é o conforto. Mas se, à semelhança de Queequeng e de mim próprio, uma pessoa se encontra na cama com a ponta do nariz e o alto da cabeça ligeiramente friorentos, então, na verdade, essa pessoa pode afirmar com toda a consciência que sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por este motivo um quarto de cama nunca devia dispor de aquecimento, que é um dos luxuosos desconfortos dos ricos. Porque a suprema delícia é não ter, entre o nosso corpo e o frio exterior, outra coisa além de cobertores. Então podemos dizer que somos como uma fonte de calor incrustada no cerne de um cristal do Ártico.

                                                                                    Herman Melville, Moby Dick

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Humor & Ternura



Há já algum tempo que sem explicação conhecida me sentia atraída pelo livro A Boneca de Kokoschka de Afonso Cruz, mas a sua leitura ia sendo adiada pela urgência de clássicos. O recente prémio da União Europeia para a Literatura materializou esta vontade, sem que eu entendesse bem porquê, dado que não acredito nem em prémios nem na referida união.

Foi o primeiro livro do autor que li. Proporcionou-me um fim-de-semana muito agradável. Os estranhos nomes e o cenário de uma Dresden bombardeada recordaram-me de imediato um outro universo de escrita: Gonçalo M. Tavares. E embora a minha intuição inicial se viesse a revelar adequada, entre ambos os autores temos apenas essa coincidência de tema, a saber, o eterno e irrespondível tema do Mal. Com a grande diferença essencial, que a escrita de Afonso Cruz não se deixa contaminar pelo objecto de investigação, permanecendo fiel a uma afectividade compassiva, que um olhar mais leviano poderá tomar por ingenuidade.

“Sr. Vogel, se não estiver contente com o rumo das coisas – disse Isaac -, só tem de fazer uma coisa muito simples: juntar os dois pés, concentrar-se e dar um pequeno pulo na vertical. Quando os seus pés tocarem o chão outra vez, a realidade do chão, quando deixarem esse momento celeste que é o salto, quando tocarem o chão, dizia eu, provocará um pequeno tremor que abalará a direcção do universo. Se ia em determinado sentido, sentido que, por certo, não lhe agrada, basta pular para ver mudar o rumo. Mas porque o tremor é muito pequeno, os efeitos não se notam de imediato, no entanto, se pudesse olhar para o futuro, veria como foi diferente daqueles futuros em que não pulou. A vida é feita destes saltinhos.”

A Boneca de Kokoschka não desalinha órgãos ou ideias nem oferece epifanias. É mais uma aproximação a uma ficção borgesiana, em que mais uma vez se replica o eterno debate entre a vida e a ficção. O mais das vezes é a ficção a insistir em suplementar a vida, com um editor a encomendar biografias imaginárias e até obras desses biografados inventados, um homem com reticências cranianas, uma livraria chamada Humilhados & Ofendidos, cartas de amor que colocam no mesmo plano o eterno e a secção de enlatados do supermercado, um livro dentro do livro, um coleccionador de borboletas excêntrico que tenta pesar o Mal e uma prostituta que faz descontos a homens de esquerda. Em ocasiões mais raras, é a vida que se liberta da sua modorra e explode numa riqueza que ultrapassa qualquer possibilidade de imaginação.

“ – (…) Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas. Quer mais brandy?”

Repete a receita mais arcaica para derrotar o Mal: a sua nomeação pela narração. Repete que sem os outros não somos nada e que apenas a sobreposição de vários ângulos ao mesmo tempo, mesmo os mais inimagináveis, dissipa as grades com que a alma escolheu engaiolar-se, até porque o grande inimigo está dentro de nós, neste corpo que alimentamos e vestimos.

Centra toda a sua mensagem numa apologia banal do amor. “Lutamos então contra a maior força do cosmos, contra aquilo que o caracteriza, contra aquilo que ele faz: expandir-se. O universo expande-se, mesmo nos momentos de ócio. Isso quer dizer que separa tudo, faz com que todas as coisas se afastem, se dissolvam. O amor vai juntando as peças que pode – como um velho reformado a jogar dominó – e o universo está aqui para baralhar tudo outra vez.” Banal porque a a história da nossa cultura é rica nestas chamadas de atenção sobre o poder aglutinador de Eros, que remontam aos seus inícios com Empédocles e Platão, entre outros.

Um aviso reiteradamente afirmado e jamais concretizado que justifica a insistência. Por isso, repetir nunca é demais. E Afonso Cruz fá-lo com imensa criatividade, humor e erudição e do que andamos precisados, meus caros, é disto mesmo, desta amálgama de humor e ternura para renovar optimismos e esperanças. Eu, por mim aceito o repto e concluo que não vale a pena tentar enganar-me: não consigo não ser alegre. Temos mais um livro para integrar a tão reduzida lista de uppers, embora seja um upper light, porque não tem aquela grande Beleza que dói de tão bela. Mas merece o prémio e mereceu as minhas duas noites.

“Adele Varga saiu do escritório de Filip Marlov com uma espécie de raiva. Não sabia contra quem a deveria dirigir, mas sentia-se magoada pela maneira como o universo trata os nossos afectos. Entrou no bar mais próximo e pediu um Manhattan. Nessa altura, enquanto bebia, apareceu um homem ao seu lado. Conversaram sobre música porque ele era músico e, no final da noite, apaixonaram-se para sempre. E ficaram assim, nesse estado tão pouco natural, para o resto da sua eternidade: a lutar contra o universo. Ao fundo, ouvia-se uma música de Django Reinhardt: Tears.”

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a poesia acaba quando um poeta morre



A Poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?»    E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? — 

Manuel António Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"