quarta-feira, 6 de junho de 2012

As Anotações de Malte Laurids Brigge



Um homem de 28 anos, dinamarquês, chega à grande cidade, Paris, num estado frágil. Vem para empreender uma grande aprendizagem. A cidade está cheia de hospitais e cheira a medo por todos os muros e recantos. Os ruídos não o deixam adormecer de noite mas há também o grande silêncio terrível. A grande transformação começa pelas ruas, pelo olhar que aprende a ver os rostos e os não-rostos.
“Mas aquela mulher, aquela mulher: estava completamente ensimesmada, de cabeça inclinada para a frente, sobre as mãos. Foi na esquina da rue Notre-Dame-des-Champs. Assim que a vi comecei a andar sem fazer ruído. Quando os pobres se põem a pensar não se deve incomodá-los. Talvez acabem por lembrar-se.
A rua estava vazia de mais, o seu vazio aborreceu-se e retirou-me o passo debaixo dos pés e pôs-se a bater com ele, aqui e acolá, como se fosse uma tamanca. A mulher assustou-se e saiu do seu ensimesmamento, demasiado depressa, com demasiada violência, de tal modo que o rosto lhe ficou nas duas mãos. Eu podia vê-lo nessa posição, ver a sua forma oca. Custou-me um esforço indescritível fixar o olhar apenas nas mãos e não o levantar para ver o que delas se tinha arrancado. Sentia o pavor de ver um rosto por dentro, mas tinha um medo ainda maior de uma cabeça nua e em carne viva, sem rosto.”
Malte tem medo. Sabe que a morte foi seriada mas não perdeu a sua dificuldade. Escreve as noites contra o medo. Esquece as suas recordações e aguarda pacientemente o seu regresso. Separa-se de tudo e de todos. Com as palavras de Baudelaire, reza a Deus. Tudo o que se perdeu na infância retorna, os perigos passados tornam-se novamente presentes.
"A existência do terrível em cada partícula de ar. Tu respira-lo com a sua transparência; mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas e geométricas entre os órgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é, à sua terrível realidade.”
Malte não tem para onde ir, o seu coração expulsa-o de si mesmo. A vida torna-se indistinta e incomunicável. Pressente, no entanto, uma bem-aventurança próxima,  nas Amantes, as poderosas Amante, como Gaspara Stampa e Mariana Alcoforado e nos seus amores que não precisam de qualquer correspondência, porque são chamamento e resposta; as imortais amantes que ultrapassam sempre o amado pela felicidade da sua entrega, porque sabem já que a união de dois seres nada mais pode trazer do que um acréscimo de solidão.
“O que sabiam eles sobre quem ele era? Ele era agora extremamente difícil de amar e sentia que só Alguém o poderia fazer. Mas esse ainda não queria.”

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"while Wilde is on mine"

Do erotismo da leitura


“Estou sentado a ler um poeta. Há muitas pessoas na sala, mas passam desapercebidas. Estão embrenhadas nos livros. Por vezes movimentam-se nas páginas como quem está a dormir e se volta entre dois sonhos. Ah, como é verdadeiramente bom estar entre pessoas que lêem. Porque é que elas não são sempre assim? Podes aproximar-te de uma e tocar-lhe ao de leve: ela nada sente. E se, quando te levantares, deres um leve empurrão ao vizinho do lado e pedires desculpa, ele faz um gesto de assentimento para o lado de onde veio a tua voz, o seu rosto vira-se para ti e não te vê, e tem o cabelo como o de alguém que está a dormir. Como isto faz bem! E eu estou sentado e tenho um poeta. Que destino!”

Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge

Da compulsão de ler


“E quando voltei a Ulsgaard e vi todos aqueles livros, atirei-me a eles, com enorme pressa, quase com má consciência. Aquilo que mais tarde senti com tanta frequência, pressenti-o então de alguma maneira: que não se tinha o direito de se abrir um livro sem se comprometer a lê-los todos. A cada linha abria-se o mundo. Antes dos livros ele encontrava-se intacto, depois deles talvez de novo completamente inteiro.”

Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Do prazer de confessar

“Tornámo-nos, desde então, uma sociedade singularmente confidente. A confissão difundiu longe os seus efeitos: na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na ordem mais quotidiana e nos ritos mais solenes; confessam-se os crimes, confessam-se os pecados, confessam-se os pensamentos e os desejos, confessam-se o passados e os sonhos, confessa-se a infância, confessam-se as doenças e as misérias; as pessoas esforçam-se com a maior exactidão por dizer o que há de mais difícil de dizer; confessam-se em público e em privado, aos pais, aos educadores, ao médico, àqueles que amam; a si próprias fazem, nos prazeres e nos desgostos, confissões impossíveis a qualquer outro, e com que se fazem livros.
[…]
Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la, em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo, em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer (…). Os livros sábios, escritos e lidos, as consultas e os exames, a angústia para responder às perguntas e as delícias em sentir-se interpretado, tantas narrativas feitas a si próprio e aos outros, tanta curiosidade, tão numerosas confidências cujo escândalo é aguentado pelo dever da verdade, não sem tremer um pouco, o pulular de fantasias secretas em que se paga tão caro o direito de as murmurar a quem as sabe ouvir, numa palavra, o formidável «prazer da análise» (no sentido mais lato desta última palavra) que o Ocidente há vários séculos sabiamente fomentou”.
Michel Foucault, História da Sexualidade I. A Vontade de Saber

quinta-feira, 31 de maio de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

sempre a mesma dor de ser quase:


Não consigo evitar um certo misticismo recente em mim. Após mais uma série de jogos mentais em que a minha cabeça se serviu de todos os limites para me desafiar, sobreveio em Março uma crise nervosa violentísima e deixei Lisboa às pressas. Rumo à minha infância e à minha fragilidade. Fugi com medo, verdadeiro terror, tendo visto a noite em pleno meio-dia e não sabendo como voltar as vestir as coisas mortas e tornar a viver. A única salvação possível que se me afigurava era entrar pela carne a dentro dos outros para não sentir tanto o mal-estar do meu corpo. Fui para junto dos meus, magra, assustada, e pedi ajuda, pela primeira vez. E a coisa correu francamente bem, tão simples e apaziguador como… como pedir e receber.

Recobrei. Recobro todos os dias, ainda a medo, frágil, doce. E nos últimos dias, perante alguns acontecimentos, constatei em mim algo que se constituía como uma enigma: perante situações temerosas ou passionais, não consigo sentir nada, sou de uma insensibilidade dura que por vezes fere a carne dos outros; noutros casos, em contextos insignificantes, como perante o encontro de um rosto anónimo no metro, uma tonalidade do céu, o aroma de uma esquina, uma frase ou melodia, o sangue ferve e quebro com a facilidade de um ramo seco. Que estranha álgebra poderá explicar esta insensibilidade mórbida que vibra com os nervos arrebitados em franja?

Andava às voltas com esta pergunta enquanto lia A Educação Sentimental do caríssimo Flaubert e eureka! eis que mais uma vez, ele me explica a mim mesma! As semelhanças com Madame Bovary são extensas; fiquemo-nos pelas mais evidentes: o protagonista Frédéric, jovem possuído pelas suas leituras românticas que obsessivamente tenta replicar, entendia-se perante o atraso da felicidade merecida pela excelência do seu espírito. Os primeiros capítulos apresentam-no como um animal engaiolado nas suas fantasias, as suas ocupações exclusivas consistem em olhar, meditar, sonhar, aborrecer-se mortalmente, deambular pelos bulevares de Paris para se distrair de si e aturdir-se com a multidão e o rumor contínuo. A sua libido fixou-se obsessivamente numa senhora casada.

“As prostitutas que encontrava à luz do gás, as cantoras soltando gorjeios, as amazonas nos seus cavalos a galope, as burguesas a pé, as costureirinhas à janela, todas as mulheres, ou por semelhanças ou por contrastes violentos, lhe recordavam a Senhora Arnoux. Olhava, ao longo das lojas, os xailes, as rendas e os pingentes de pedrarias, imaginando-os enrolados à volta dos seus rins, cosidos ao espartilho, fazendo reflexos na cabeleira negra. Nos expositores das vendedoras, desabrochavam as flores para que ela as escolhesse, ao passar; na montra das sapatarias, as pequenas pantufas de cetim bordadas pareciam esperar o seu pé; todas as ruas iam dar a casa dela; as carruagens estacionavam nas praças abertas apenas para o levarem lá mais depressa; Paris ligava-se à sua pessoa, e a grande cidade, com todas as suas vozes, sussurrava como uma imensa orquestra em torno dela.”

Mas a semelhança fundamental entre este romance e o outro é o tédio, que parasitando tudo e todos, constitui a afecção dominante e pano de fundo de toda a narrativa. Flaubert explora as múltiplas nuances da grande afectação da modernidade para nos legar uma cartografia do sistema nervoso desarranjado (assunto íntimo para ele também, vítima de sucessivas crises nervosas que a ciência da altura não consegue definir e que o levam a abandonar estudos e a vida parisiense na primeira juventude). É ao ritmo do tédio e de uma ociosidade estéril que as suas personagens são impulsionadas para paixões sempre decepcionantes; a vida flui e esvai-se num vazio sem fundo, os eventos e as reviravoltas não sucedem (a Revolução provoca apenas uma vontade de rir imensa), enquanto os detalhes, as pequenas vírgulas da história (com “h” minúsculo) se convertem em falsos acontecimentos.

Esta bulimia temporal impede qualquer trabalho, emoção ou valor de perdurar e solidificar-se na História (com “h” grande) que, falhando a sua oportunidade de incorporação no real, não encontra outra alternativa que não a de permanecer refém do Imaginário, hegemonicamente romântico.

“Falavam do que fariam mais tarde, depois de saírem do colégio. Primeiro, empreenderiam uma grande viagem com o dinheiro que Frédéric havia de levantar antecipadamente da fortuna que lhe estava destinada, quando antigisse a maioridade. Depois regressariam a Paris, trabalhariam juntos, não se separariam; e, como refrigério para os seus trabalhos, teriam amores de princesas em alcovas de cetim, ou orgias fulgurantes com cortesãs ilustres. Mas as dúvidas sucediam-se aos seus arrebatamentos de esperança. Após as crises de alegria verbosa, caíam em silêncios profundos.”

A crença romântica na ideia de génio e de sublime originam um sentimento de magnanimidade narcísica engajado numa extenuante demanda por emoções extraordinárias, quase inumanas, que raramente encontram coincidência no real; pensamentos e sentimentos divorciam-se em infindáveis ciclos de mania e melancolia que se sucedem ao longo das páginas, muitas vezes apenas intervalados por uma ponto e vírgula, onde a cólera alterna com a compaixão, o ciúme encontra na ponta da sua faca o desejo mais intenso e a ternura culmina em decepção.

O ciclo de mania-melancolia, onde a intensidade de cada pólo depende do seu extremo, é replicado na dinâmica dos dois amores de Frédéric:

“O convívio com estas duas mulheres, criava na sua vida como que duas músicas: uma folgazã, arrebatada, divertida, a outra grave e quase religiosa; e, vibrando ao mesmo tempo, aumentavam sempre e, a pouco e pouco, confundiam-se; porque, se a Senhora Arnoux lhe tocava só com um dedo que fosse, a imagem da outra, logo se apresentava ao seu desejo, porque tinha, desse lado, uma fortuna menos longíqua; e, na companhia de Rosanette, quando lhe acontecia sentir o coração enternecido, lembrava-se imediatamente do seu grande amor.”

E assim se encontra a raiz dos movimentos dissipadores da adição moderna: perante um vazio narcísico e entendiado que se auto-devora, tudo serve como recurso estimulante ou narcótico, consoante a circunstância e pretensão. O amor, sobretudo o romântico, é em Flaubert a droga protagonista por eleição, fármaco que ora remedia, ora envenena.

“Rodopiavam tão perto dele que Frédéric lhes distinguia as gotinhas de suor nas testas; e este movimento giratório cada vez mais vivo e regular, vertiginoso, transmitindo-lhe ao pensamento uma espécie de embriaguez, sugeria-lhe outras imagens, enquanto todas passavam com o mesmo deslumbramento, e cada uma com uma excitação particular consoante o género da sua beleza. A Polaca, que se abandonava de um modo langoroso, inspirava-lhe o desejo de a apertar contra o peito, fugindo os dois num trenó pela pradaria coberta de neve. Horizontes de volúpia tranquila, à beira de um lago, num chalé, desenrolavam-se sob os passos da Suiça, que valsava de torso direito, e de pálpebras descidas. Depois, de súbito, a Bacante, inclinando para trás a cabeça morena, fazia-o sonhar com carícias devoradoras, em bosques de loureiros cor-de-rosa, num tempo de tempestade, no meio do ruído confuso dos tamboris. A Peixeira, a quem o ritmo rápido tirava o fôlego, soltava risadas; e ele teria gostado, ao beber com ela nos Porcherons, de lhe amarfanhar, com ambas as mãos, o lenço que trazia ao pescoço, como nos bons velhos tempos. Mas a Estivadora, cujas pontas dos pés mal afloravam o chão, parecia ocultar na ligeireza dos membros e no ar sério do rosto todas as subtilezas do amor moderno, que tem a justeza de uma ciência e a mobilidade de um pássaro.”

Mas tudo o resto é mobilizado pela valsa do desejo historicamente frustrado: o vinho acalma, o desprezo excita, os perfumes enervam, os bailes distraem, a compaixão expande, a política atordoa, a morte diverte, a vida citadina alegra, etc., mas logo, as drogas confundem as suas propriedades anestésicas e euforizantes e tudo se baralha de novo, e o vinho excita, o desprezo acalma, os perfumes tranquilizam, os bailes aborrecem, a compaixão retrai, a política estimula, a morte irrita, a vida citadina deprime e a dura insensibilidade alterna com enervamentos subtis numa dança despropositada de compassos desvairados.

Todos as personagens desta Educação são líquidas, fantoches de emoções fraudulentas porque transitórias, que se enganam uns aos outros, ocultando a atrofia sentimental por detrás da máscara de uma sensibilidade extrema que não passa de nervos em franja. Os caçados aceitam as mentiras como homenagens áquilo que não sentem mas gostariam de sentir e os caçadores, inebriados pelas próprias palavras, chegam a acreditar no que dizem.

“- O que se passa? Estou arruinada, arruinada! Estás a ouvir?

(…)

- É a miséria, pois não posso oferecer-te uma grande fortuna!

Apenas tinha trinta mil libras de rendimento, sem contar com o palacete, que valia talvez dezoito a vinte, não mais.

Embora isso fosse a opulência para Frédéric, nem mesmo assim deixou de sentir uma decepção. Adeus sonhos, e toda a grande vida que iria levar! A honra forçava-o a desposar a Senhora Dambreuse. Reflectiu um minuto: depois, com um ar terno:

- Vou ter-te sempre, a ti!

Ela lançou-se-lhe nos braços; e ele apertou-a contra o peito, com uma ternura em que havia um pouco de admiração por si próprio. A Senhora Dambreuse, cujas lágrimas já não corriam, ergueu o rosto, radiante de felicidade e, pegando-lhe na mão:

- Ah, eu nunca duvidei de ti! Contava com isso!

Esta certeza antecipada daquilo que ele considerava como uma boa acção desagradou ao jovem.”

A educação sentimental de Frédéric vai consistir no desmoronar de todos os seus sonhos. Acompanhamos o seu desinteresse pelos estudos, a sua miséria na província e o entusiasmo com que recebe a herança do tio, a sua introdução na alta sociedade, a sede de luxo, da vida citadina e de mulheres. É pai e perde o filho. Quase casa. Quase volta para a província. No final do romance, quando a juventude já passou, Frédéric constata que falhou a sua vida. A felicidade aparece-lhe como uma imagem passada – uma imagem romântica que assombrou e devorou o seu futuro.

Com o retraimento dos deuses e a correlativa imanentização do mundo na modernidade, ficámos reféns da própria carne, encerrados e ensarilhados em nós mesmos, a todo o instante buscando um meio de escape que nos alivie do facto dos céus terem desabado e termos ficado aqui em baixo tão sozinhos. E tão sozinhos vamos de droga em droga, de sexo em sexo, de emoção em emoção buscando algum consolo, mas ainda assim, incapazes de abandonar a trincheira da nossa solidão narcísica e expropriar os nossos corpos ao Amor e à Revolução, porque as imagens esteticizadas sugam o nosso sangue e impedem os afectos genuínos, por certo bem menores e menos belos, e a capacidade dos nossos rostos tocarem e serem tocados. Mas, durante algum tempo, nada disto importa muito porque da moral aturdida nasce um gozo perverso.

“Os seus lindos olhos húmidos cintilavam de uma paixão de tal forma poderosa que Frédéric a atraiu para os joelhos e disse para consigo: «Sou mesmo um grande canalha!», aplaudindo-se pela sua perversidade.”

O pior é que também este orgulho imprevisto perde eventualmente a flor da sua novidade. O que nos sobra, portanto já não é o Grande Outro, Deus, mas o Outro, o humano. Enquanto ele não assoma, recaímos no mesmo vazio intímo, esse tédio desértico, e recorremos a meios para excitar os sentidos e sentir qualquer coisa a mais de Outro e a menos do Mesmo. No dia seguinte, a inevitável ressaca – todo o prazer se paga – e voltamos a sentir demais. Do Mesmo: ou seja, o sentir tanto até quebrar, que me intrigava, é apenas sentir-me demais. A ver se me esqueço então de caçar a minha própria pele…

sexta-feira, 18 de maio de 2012

I have heard of killer texts


When I first saw it, the small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office.  They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed--and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,

And the man I work for laughed:  'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.'  And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
I could not believe it.  Is it so difficult
For the spirit to conceive a face, a mouth?
The letters proceed from these black keys, and these black keys proceed
From my alphabetical fingers, ordering parts,

Parts, bits, cogs, the shining multiples.
I am dying as I sit.  I lose a dimension.
Trains roar in my ears, departures, departures!
The silver track of time empties into the distance,
The white sky empties of its promise, like a cup.
These are my feet, these mechanical echoes.
Tap, tap, tap, steel pegs.  I am found wanting.

This is a disease I carry home, this is a death.
Again, this is a death.  Is it the air,
The particles of destruction I suck up?  Am I a pulse
That wanes and wanes, facing the cold angel?
Is this my lover then?  This death, this death?
As a child I loved a lichen-bitten name.
Is this the one sin then, this old dead love of death?



Sylvia Plath, Three Women

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Crime do Poeta






Era uma vez uma criança estranha. Na aldeia onde cresceu todos a temiam. Os mais antigos diziam que os seus olhos grandes e violetas traziam mau agouro. As línguas mais desocupadas avançavam que a criança tinha pacto com o demónio. A própria mãe desconfiava da criança desde que o seu corpo começou a crescer dentro de si. Pensara até ao momento do parto que trazia dentro do seu ventre um nado-morto.

- Senhor doutor, não pode ser. Nem um pontapé, nem um movimento, nada. Alguma coisa está mal.

O médico sorria e acalmava a mãe com ecografias e evidências científicas:

- Não se preocupe minha senhora, é um bebé forte. Olhe, deve ter um feitio muito calmo. Traz aí um santo ou santinha, é o que é!



E de facto, a criança nasceu e cresceu. Forte e quieta. Esse sossego continuou a alarmar a mãe. Recordava-lhe a quietude antes dos grandes vendavais da sua terra. Por isso, a mãe espiava a criança a toda a hora.
Um dia, quando a criança tinha sete anos, a família decidiu fazer uma viagem de sete dias pelo país. Visitaram as cidades mais importantes, mosteiros, serras e castelos. No caminho de regresso, fizeram um desvio por uma estrada antiga que serpenteava a costa marítima. A criança nunca tinha visto o mar. Entrou em frenesim no banco de trás, parlando incessantemente e suplicando que parassem uns instantes para ver o mar de perto. O pai concedeu mas disse que o faria no local mais bonito, para que a criança visse o mar a tentar tomar a terra. A criança acatou a decisão em desassossego. A mãe seguia com o rosto colado no pára-brisas, aterrorizada pela mudança súbita de comportamento, repetindo de si para si,

- É apenas uma criança, apenas uma criança que vai ver o mar pela primeira vez. Apenas isso, Maria.

Mas as mães têm sempre razão, uma razão secreta que adivinha os sismos nos corações dos filhos. O pai parou o carro e saíram todos, a mãe com medo, a criança com passos decididos e eufóricos. O pai ia explicando que aquele lugar se chamava Boca do Inferno porque se diziam que aquelas águas estavam destinadas a engolir a terra.

A criança foi pela mão do pai ver as águas a galgarem as rochas. Atraída pelo som das ondas que rebentavam violentas, soltou-se da mão paterna e abeirou-se do precipício para espreitar a origem daqueles braços de água. Nesse preciso momento, com o rosto salpicado pelas vagas tumultuosas, a criança sentiu o quebrar de tormentas no seu peito O seu coração partia-se em dois e a criança não queria arredar pé dali. Ouviu a voz da mãe, quebrada, dizer,



- Não te acerques demasiado da beira, olha que ainda cais!
E adivinhou nelas, uma vontade de catástrofe rochas abaixo e perdoou a mãe em simultâneo, porque agora a criança imaginava a dor de uma mãe e, por isso, conhecia e compreendia até os seus pensamentos mais secretos. A criança deu um passo em frente, sentiu um pêndulo dentro do peito agitar-se, reclamando o beijo do abismo e fechou os olhos. Com a alma embalada pelo aguaceiro subterrâneo, a criança ia compreendendo o mundo e a história dos seus dias, séculos, milénios, eras. O seu corpo soltava-se líquido da infância e envelhecia agilmente pela compreensão. Nesse instante, a criança, de olhos marejados pelo sal das águas, entendeu deus e teve compaixão do mundo.

Instada a recuar, desta vez, pela voz segura do pai, a criança percebeu que tudo entendia e que estava destinada a amar e a perder-se pela beleza do mundo. Mas a beleza era das matérias mais ariscas, perigosa, podia tornar-se insuportável e despedaçar num jorro a alma mais incauta. A beleza andava de mãos dadas com a loucura. E a loucura era empresa arriscada, era voo e queda.

De regresso ao carro, a família seguia silenciosa e de pés encharcados. No banco traseiro do carro, viajavam agora mais dois passageiros: a beleza e a loucura. E a criança já não era criança: tinha decidido apostar a vida. A voz da infância agonizou nessa viagem, no banco traseiro, ladeado de vidros chuvosos, com uma pergunta que suspirava:


- e se cais, para onde cais?

- Não cais para lado nenhum. O terrível da queda é isso: quando começas a cair nunca mais páras, respondeu a voz da loucura.



A mãe não ouviu este diálogo mas soube que naquela tarde tinha perdido a sua criança e seguiu gelada o resto da viagem. Nessa noite, deitou a criança que não era mais criança, muito menos sua, e beijou-lhe com tristeza resignada as faces, recordando a voz de malha da sua avó,

- É assim, filha, a gente tem os filhos mas eles pertencem ao mundo, não são nossos.



A sua avó sabia muito. Não sabia escrever mas sabia muito. Tinha parido treze filhos, dos quais apenas três vingaram até à velhice. Os outros levou-os o mundo, a guerra, o suicídio, os jogos, as terras.
Quando saía do quarto, a voz delirante chamou-a, voltou-se rápido, talvez ainda pudesse salvar a criança, talvez fosse ainda uma criança, uma criança apenas e ela não se devesse inquietar,

- Mamã?
- Sim?
- Amo a beleza.

A mãe soube então que a sua criança estava perdida, não para o mundo, mas contra o mundo, de uma forma ainda mais cruel.


- São horas de dormir,
Respondeu e saiu do quarto e nervosa admitiu primeiro para si que tinha medo daquela criança. Disse depois mais tarde, já deitada na cama, em voz alta para o seu marido,

-
A criança é diferente, José.
- Diferente como?
- Tu não notas?
- Não. Tu que notas?
- Não sei. Não sei bem. É estranha, José!
- Não é nada. Isso são preocupações de mãe. Está tudo bem.
O homem abraçou-a com as mãos largas e ásperas e ela amou-o como já não o amava há muitos anos. E quis acreditar que tudo estava bem. Jurou muda que nunca mais falaria nisso e que tudo estava bem.

Semanas depois, a criança saiu um dia de casa, ainda de madrugada, usou de passos adultos para ir até ao jardim oriental que ficava na outra margem da cidade mais próxima da aldeia. Cruzou-se com os fantasmas da noite, prostitutas, chulos, ladrões, bêbados, mas nem ela teve medo nem nenhum ousou falar-lhe ou fazer-lhe mal.

A criança amava o lago que havia nesse jardim e as centenas de carpas que se afadigavam nas águas num trânsito de cores. Nessa manhã, a criança levava nas suas mãos o imperativo da beleza. Distribuiu veneno pelas águas e aguardou com os olhos hipnotizados as bocas que bailavam á superfície e devoravam o veneno. A criança imaginou que em cada uma daquelas bocas escancaradas se arrendondava uma palavra derradeira.

Esgotado o baile das bocas e das palavras, o sol nasceu amarelo e forte sobre um lago onde centenas de carpas bailavam mortas à tona das águas paradas na recordação de um antigo trânsito de cores. Um crime tinha sido cometido, o real tinha sido assassinado pela ideia que uma criança tinha da beleza.

Alertadas as autoridades, a criança foi levada para casa, repreendida, os pais informados e encarregues do castigo. A mãe fechou-a no quarto durante duas semanas, com as persianas cerradas e sem ver nem falar com ninguém. As refeições foram parcas e entregues em silêncio pela cara ofendida da mãe. A criança não percebia que mal tinha feito para merecer esse castigo e tratou de ocupar o tempo lendo.

Apaixonou-se então pelas palavras e pensou que nelas poderia encontrar a sua redenção e o perdão da mãe. Um dia, quando o rosto encerrado da mãe assomou na ombreira a criança disse com voz de criança,

- Mãe, escrevi-te um poema, para que me perdoes.

A mãe, pegou no papel, desconfiada, e leu. No final, começou a rir contente e olhou a criança pela primeira vez com olhos de mãe e disse, numa comoção de voz alagada:
- É muito bonito! É lindo!


Nessa noite, pude tornar a jantar com o meu pai e a minha mãe. Uma mãe nova e alegre. Também eu me sentia alegre. Tinha descoberto que com as palavras podia cometer todas as loucuras e crimes em nome da beleza e sair impune. Assim cresci e me tornei poeta.




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Here comes the sun ♥

"Teria saudades de si mesmo, de si naquele instante passado em que tivera como insuportável a solidão. (...) Mas não era uma tristeza, era exatamente uma saudade de ter sofrido o que sofrera, o necessário para usufruir mais tarde, agora, a ...felicidade. (...) Nunca cultivava a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se for assim, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita."
 
Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens

domingo, 29 de abril de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Crime e Tédio




O Doutor Glas de Hjalmar Söderberg recupera a pergunta de Crime e Castigo, para lhe dar uma resposta diferente, substituindo o frio gélido das largas avenidas de São Petersburgo pelo pacato sol da meia noite de Estocolmo e a mão pobre e desajeitada de um jovem orgulhoso pela pílula de cianeto de um homem maduro familiarizado com as infâmias da carne.

Nas primeiras páginas do romance narrado na primeira pessoa, sob o artifício de diário, o anti-herói (ou melhor, o herói sem evento, como se verá) passeia pela cidade e apresenta-se formalmente: “Eu, Tyko Gabriel Glas, médico diplomado, que, algumas vezes, ajudo os outros, mas nunca pude ajudar-me a mim mesmo, e que, com trinta anos feitos, nunca me aproximei de uma mulher.

Glas é um esteta; sabe todas as suas ideias e sonhos assentam em impressões extraídas da literatura e da arte e que não tem olhos próprios: é o olhar que o espelho devolve quando os deuses se calam e os fantasmas reinam, “uma sombra que queria tornar-se um homem”, como no conto de Andersen. Um burguês com a solidão e o tempo necessários ao pensamento, que prefere o sonho do amor à história de amor que se desfaz na manhã seguinte em flores murchas e porcaria, cativado apenas por mulheres enamoradas, oleadas por outros, mulheres que ele não tenha de foder, que não o vejam dormir e que ele não veja na manhã seguinte. “Não, não há sonho de felicidade que não morda a sua própria cauda.” Os affaires da carne são para ele a grande obscenidade e o seu ateísmo começa pela descoberta (teórica) do sexo.

Editado na Suécia em 1905, o romance causou escândalo pelas ideias inovadoras de Glas sobre o aborto e a eutanásia. “A vida humana pulula por toda a parte. E as vidas humanas distantes, invisíveis e desconhecidas, pouco importam seja a quem for, com a possível excepção de meia dúzia de filantropos cuja estupidez está muito acima da média.” Glas não partilha estas ideias com ninguém, porque a partilha de si é-lhe promíscua e porque não está disposto a arriscar a sua pele e abdicar do seu conforto. E nisto, a personagem do médico é absolutamente coerente: um homem desligado da humanidade não deseja nada, muito menos alumiar caminho para outros. Conhecendo intimamente que ninguém é culpado, rejeita apenas intelectualmente as ladainhas do dever e da moral que repete. “Nunca senti tão intensamente que a moral não passa de um carrossel que não pára de girar. Sabia-o desde há já alguns anos, mas sempre pensara que as voltas do carrossel se contavam por séculos ou por eras, e agora a minha impressão era que se contavam, afinal, por minutos ou segundos. Dir-se-ia que explodiam centelhas diante dos meus olhos.”

E talvez se ele fosse ainda capaz de se comprometer nessa ou noutra batalha qualquer, a sua sede de acção se pudesse apaziguar. Também a ele a lua da adolescência prometeu “uma felicidade ímpia ou uma infelicidade que valia mais do que todas as felicidades da terra, qualquer coisa de calcinante, de voluptuoso, e grande”.

Glas mata mas falha o acontecimento que devia curar a sua bulimia temporal. Consegue iludir os remorsos, reconhece que o mundo arde e aceita a injustiça inerente à vida, interrompendo a deriva do pensamento e colando-se à sua pele. Como todos os pensadores, ele busca a verdade e quase se perde a si mesmo, mas tem a delicadeza de se dissimular na mansidão do gado, refreando as suas ideias através de um mandamento de quem arrepia caminho para conservar a dignidades das entranhas e do estômago: “A porção de verdade que te é útil é-te dada gratuitamente, e chega-te misturada com o erro e a mentira, mas é para teu bem, uma vez que, em estado puro te queimaria as entranhas. Não tentes purgar a alma de mentiras, porque, com elas, irão muitas outras coisas em que não pensaste, e ficarás vazio de ti mesmo, e de tudo o que tem valor para ti. «Não perguntarás.»

O Doutor Glas espera mas a acção nunca lhe acontece e a vida passa-lhe ao lado, sem amor que a redima. Sai também ele derrotado, desta feita não pela culpa mas pelo tédio moderno que a todos contamina. “A chuva cai no parapeito da janela. Sinto que me cai no coração e abre nele um buraco. Há qualquer coisa que não funciona no meu cérebro. Não sei se o tenho melhor ou pior do que o normal, mas o certo é que não tenho como convém tê-lo.

E a vida continua de treva em treva. Glas não a entende ou finge não compreender, pois num parágrafo simples ele consegue resumir a razão de tanto sofrimento e tanta miséria, para tão pouco prazer: “Queremos ser amados; à falta de amor, queremos ser admirados; à falta de admiração, ser temidos; à falta de sermos temidos, odiados e desprezados. Queremos suscitar nos outros esta ou aquela espécie de sentimento. A alma tem horror ao vazio, e quer a todo o custo manter os seus contactos.

Por cumprir resta a sua profecia: “Terá de chegar, e chegará, um dia em que o direito a morrer seja considerado muito mais importante e inalienável do que o direito de introduzir um boletim numa urna eleitoral. E quando os tempos estiverem maduros para esse dia, todo o doente incurável – e igualmente todo o «criminoso» - terá direito à assistência do médico, caso deseje a libertação.” Ainda não chegou esse dia. Ainda não somos suficientemente modernos. O espectro de Deus ainda nos assombra.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

o medo...

“O verdadeiro medo (e até os homens mais intrépidos o podem ter) é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma decomposição da alma, um espasmo horroroso do pensamento e do coração, cuja mera recordação provoca estremecimentos de angústia. Mas quando se é corajoso, isto não acontece nem perante um ataque, nem perante a morte inevitável, nem perante qualquer das formas conhecidas de perigo: acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas, face a ameaças vagas.”

Guy de MAUPASSANT

feira do livro melancólica






segunda-feira, 23 de abril de 2012

"It is preferable not to travel with a dead man."


 
Every night and every morn,
Some to misery are born,
Every morn and every night,
Some are born to sweet delight.
Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.

William Blake

domingo, 22 de abril de 2012

...most of us need the eggs

Alvy Singer: It was great seeing Annie again and I realized what a terrific person she was and how much fun it was just knowing her and I thought of that old joke, you know, the, this, this guy goes to a psychiatrist and says, 'Doc, uh, my brother's crazy, he thinks he's a chicken,' and uh, the doctor says, 'well why don't you turn him in?' And the guy says, 'I would, but I need the eggs.' Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships. You know, they're totally irrational and crazy and absurd and, but uh, I guess we keep going through it...because...most of us need the eggs.

Norberto Lobo

Olhar para o rosto deste gajo enquanto toca é verdadeiramente delicioso.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O exorcismo é o verdadeiro poema do prisioneiro


“É preciso estarmos sempre de pé atrás, Meus Senhores, sempre com pressa de acabar, jurar tal coisa e voltar a por todos os dias essa jura em obra, não nos permitirmos por mero prazer uma única respiraçãozinha, utilizar todas as pancadas do coração naquilo que fazemos, pois aquela que tenha sido empregue só por divertimento irá por em desordem as milhares de outras que se seguem.
(…)
Mas que isso acabe depressa. Digo-o para vosso bem, um iluminado não pode durar muito tempo. Um iluminado come o seu próprio tutano, e a satisfação não é o que vos interessa. Vocês verão aliás como isso acabará. Os sons voltarão a entrar no órgão e o futuro há-de invaginar-se no Passado como sempre fez.”


“Para compreender, a inteligência tem de se sujar. Antes de tudo, antes até de se sujar tem de ser ferida.”

A noite em que o servo comeu a senhora...


JÚLIA: Tenho melhor opinião acerca das pessoas do que você. Vamos experimentar. Vamos lá.

Olha-o fixamente nos olhos.
JOÃO: É uma pessoa muito estranha, sabe.

JÚLIA: Talvez seja, mas você também é. E, vendo bem, tudo é estranho: a vida, os seres humanos, tudo. Tudo é um lixo que cai sobre a superfície da água, até mergulhar, mais fundo, mais fundo. Há um sonho que eu tenho muitas vezes. Eu estou em cima de uma coluna e não sei como descer. Quando olho para baixo sinto tonturas; tendo de descer, mas tenho medo de saltar. Não posso ali estar, sinto que vou cair, mas não caio. Não há uma pausa. Não haverá paz para mim até eu descer e chegar ao chão. Mas ao tocar o chão, eu quero mesmo é ficar debaixo do chão… Alguma vez sentiu isto?
(...)
O coro aproxima-se a cantar.
O CORO

Se até bates nas
cadelas
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Quando estão a acasalar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra

Deixa as outras com o seu
par
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Não lhes roubes o que é
delas
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra

Trazes debaixo da saia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
O que tens para lhe dar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra

Porque de véu e grinalda
Tridiridi-rala, tridiridi-ra
Terás muito para contar
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra

E vê lá que te não caia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
Em sorte alguma desdita
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra

Para a sorte ser bonita
Tridiridi-rala, tridiridi-ra
Basta levantares a saia
Tridiridi-rala,
tridiridi-ra
“Mas antes de mais, não há mal absoluto. A ruína de uma raça fará a felicidade de outra que se elevará, e as alternâncias entre ascensão e queda são um dos principais ingredientes da vida, já que a felicidade depende de uma comparação. Quanto ao homem apaixonado por programas e por reforma, ao homem que queira evitar que a ave de rapina como a pomba, e o piolho a ave de rapina, far-lhe-ei esta pergunta: porquê dar remédio a isso? A vida não é assim tão matematicamente louca que só os grandes comam os pequenos; acontece frequentes vezes também a abelha comer o leão, ou pelo menos enlouquecê-lo.”

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Next stop: Stockholm!



A minha próxima viagem vai começar a ser planeada e sonhada com este livrinho...

domingo, 15 de abril de 2012

Noites brancas com o mestre Visconti



Natalia: Agora posso dizer que fui dançar.

Mario: Agora posso dizer que fui feliz.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Onde está, partido, o que recebi?


“O quarto ameaçado torna-se a ouvir, e eu vejo que o relâmpago de «escrevo, mas não sou escravo», se dirige, sozinho, para a secretária do escritório, e derruba todos os inúteis auxiliares da escrita – mata-borrão, tinteiro, bloco, jarra convencional, borracha de tinta. (…) Quem está à secretária pergunta-lhe: - Onde ficou o que eu dei?
em que almofada, ou objec-
to da sala?
E ela responde-lhe; com um novo sorriso, ou esgar de choro: - Onde está, partido, o que recebi?
Eu vi, veloz, que alguém, ou alguma coisa, ou alguma hesitação sobre o absoluto, precisava de nascer_______ de nascer deles. Voltei para trás, à fonte do silêncio e _______ senti que ia ser profundamente amada, e mal.
Ele interrogou – Queres ser superficialmente bem amada
ou
mal amada, mas profundamente?
«Amada profundamente mal, amada profundamente, e sem saber», traçou o pé do lápis na ombreira da porta.”

domingo, 8 de abril de 2012

PARA A SEREIA DO NEVOEIRO

Boca no espelho escondido,
joelho diante da coluna do orgulho,
mão com a barra da grade:

ofertai-vos as trevas,
dizei o meu nome,
guiai-me até elas.


DO AZUL, que ainda busca o seu olho, bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos, pérola, e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas: o granizo preto da melancolia
cai num lenço, todo branco de dizer adeus.



QUEM ARRANCA de noite o coração do peito deseja a rosa.
Pertencem-lhe a sua folha e o seu espinho.
A esse põe ela a luz no prato,
com o seu sopro enche-lhe os copos,
só para ele sussurram as sombras do amor.

Quem arranca de noite o coração do peito e o arremessa ao alto:
não falha o alvo,
apedreja a pedra,
a esse bate-lhe o sangue fora do relógio,
o tempo faz-lhe soar na mão a sua hora:
pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.
Paul Celan

sábado, 7 de abril de 2012

um falcão no punho


A escrita de Maria Gabriela Llansol enfeitiçou-me. Nela encontro a mesma constelação onde os corpos dos livros se entrelaçam com o desejo, o erotismo e a falta.
“A fase constante de não querer senão olhar com atenção, e ler, passar dias e dias a interrogar os livros (…), enfim, fazer falar com o tempo quem é menos mudo, e alcançar uma coisa que se deseja (…).
Confronto estes dias com o período final da minha adolescência em que sofria de uma doença ligeira de fadiga. Vinda do liceu, ou já em férias, só me restavam forças para, na imobilidade, ler, acrescentando-lhes o gozo ilícito do meu próprio corpo. Sob o signo da falta, eu gozava e lia e, agitando-me, sem violência, nesta contradição fundava a escrita.”
Tenho vinte e nove e sinto-me muito mais velha. Tenho vivido muito, tenho sido muito feliz e muito triste e sei que eu não podia ser de outra forma. Fui uma criança demasiado séria e forte, cresci no campo, no meio de uma guerra, aconchegada pela comunhão dos irmãos, dos cães e dos livros. A adolescência foi dedicada ao riso. Depois, mudei-me para Lisboa, descobri o amor como guerra, depois como faca e, esporádica e brevemente como réstia de ouro. Fui amada e amei mas a inquietação não me deixava sossegar. Era preciso tudo questionar, ir até aos limites para ver se a ideia de liberdade não era uma quimera. Parti, fui viver fora. Fui feliz, fui triste. Regressei cansada. A guerra com os outros tinha terminado. Perdi a esperança, conheci o sentimento de impossível. Entendi que a liberdade existe, é queda livre sem fim. Quebrei. Tive medo, muito medo. E descobri a solidão. E no medo, aprendi a pedir e a receber: a minha maior lição de humildade. E que o grande mistério é não haver mistério nenhum e andarmos todos ligados. Continuo a ter medo mas sinto-me cada vez mais perto de mim e os livros são os amantes a que sempre retorno e onde mais me encontro em Casa.
“o sentimento mais agudo que experimentei, e que me aperta ainda muitas vezes é o de não ter para onde ir, de ter sido cercada pelo desejo de mover-me sem fim; lembro-me que, no tempo em que crescia (…), chamava a mim mesma «a corça prisioneira»; eis a verdadeira natureza do meu espírito. Sou um peso vasto para quem tenha a bondade de fazer-me companhia e, se adquiri e conservei o conhecimento da arte de escrever foi por necessidade, tendo descoberto que a escrita e o medo são incompatíveis.”

Vou agora dedicar-me a aprender a estimar a minha loucura sem me assustar. É só isso que me falta e é tarefa que só a escrita, o grande exercício da Falta, pode cumprir, cumprindo-me. “Escrever não é um protesto de inocência?”

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A morte de Danton

Danton: Sabemos tão pouco um do outro. Somos elefantes de pele grossa, estendemos as mãos, mas é uma perca de tempo, roçamos só os nossos couros um contra o outro - estamos muito sós.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quem é o sexo de ler?

Uma tarde na biblioteca: a carne em bulício, impossível estudar. Das prateleiras, um canto de sereia. Levanto-me e deixo-me conduzir pelo chamamento até encontrar a sua boca: O Sexo de Ler de Bilitis de Pierre Louÿs.
Trago o livro para casa, bem junto ao peito, como quem se orgulha de um crime. As mãos seguras da sua textura. Durante dias não faço mais do que olhá-lo, tocá-lo e adormecer junto dele. Sonho com a fantasia de um sexo de ler: o prazer de fazer um fellatio e receber na boca um jorro quente de poesia, um texto-carne a penetrar-me, a doer-me fundo e um orgasmo acontecendo pelas palavras (que palavras?).
Enleada nestes devaneios, vou adiando o momento da leitura do livro. Os meus melhores amores são os sonhados, por arder. Depois, começo lentamente a desflorar o livro, com gestos do pudor mais lascivo. O prefácio de Maria Gabriela Llansol serve de preliminar; um êxtase tumultuoso na melhor, mais perfeita figuração do sexo – “o nome de uma alegria recortada num fundo de aflição”, “uma matéria figural irradiante e enigmática. Uma folha de água caindo às águas. E, como linguagem, um vazio iluminado pelo encantamento – quem é o sexo?

Quem é o sexo?

Sem resposta, cavalgo as restantes páginas em frenesim, apalpando nas entrelinhas a aproximação dessa cena sem imagem, cena inaugural da cultura e, sobretudo, da escrita. Porque a leitura mais não é do que um acto de amor diferido, mediado pelo papel, as frases indizíveis buscando o aconchego dos corpos desencontrados pelo Tempo.

“a frase luta, alterna de género, o seu único intento é arrancar ao leitor a tira que lhe venda os olhos, não para que veja a cena, mas para que sinta que nasceu cego, não há cena de sexo, apenas o incontornável que a todos nos foi dado como forma de matéria atractiva, os corpos atraem-se, moça, por aquele halo que escapa à visão, o leitor encosta-se à prateleira dos livros já lidos, atordoado com a notícia, recolhe o braço com que ia em busca de alívio num outro tomo qualquer, volta a estendê-lo, recolhe a notícia que se escondia naquele corpo ainda vestido,
olha para as sandálias ainda espalhadas pelo chão, não as vê, é noite, vê, sim, que ser leitor é

uma vida passada em tantos outros lugares, uns com ele, outro adversos, uns do seu género, outros sedutores e ofuscantes, passou e não sabe dizer o que viu, é a vida que não sabe dizer-se, baixa-se e pergunta

«onde está a minha leitura?»,
onde paira o sexo fugaz que se esvaiu nos infravermelhos?,”

E o orgasmo acontece. O resto – os poemas, o corpo do texto, são deliciosos e firmes, mas incomparáveis ao supremo júbilo da cabeça e do beijo de Llansol, onde o Sexo de Ler se abre e mostra de soslaio: imagens arredias que não se fixam na língua mas cujas afterimages fazem estremecer a carne.

pensa: o herói dura, mesmo a queda lhe foi pretexto para ser: seu supremo nascer.



Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens
dos anjos? e mesmo que um me apertasse
de repente contra o coração: eu morreria da sua
existência mais forte. Pois o belo não é senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento
dum soluçar escuro. Ai! de quem poderíamos
nós então valer-nos? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes repararam já
que nós não estamos muito confiados em casa
neste mundo explicado. Resta-nos talvez
qualquer árvore na encosta, que de novo a vejamos
diariamente; resta-nos a estrada de ontem
e a fidelidade amimada dum costume,
que gostou de estar connosco, e por isso ficou e se não foi.
Oh! e a Noite, a Noite, quando o vento cheio de espaço dos mundos
nos desgasta a face - , a quem não restaria ela, a ansiada,
a das desilusões suaves, que a cada coração solitário
espera penosa. É mais leve aos amantes?
Ai! eles apenas se tapam um com o outro a sua sorte.
Pois não o sabes ainda? Arroja dos braços o vácuo
para os espaços que respiramos; talvez as aves
sintam o ar alargado com um voo mais íntimo.

Sim, as primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas
esperavam de ti que as sentisses. Levantava-se
uma onda no passado e aproximava-se, ou,
ao passares pela janela aberta,
um violino entregava-se. Tudo isto era missão.
Mas cumpriste-a tu? Não estavas tu sempre
distraído ainda de expectativa, como se tudo te anunciasse
uma Amada? (Onde queres tu abrigá-la,
se os grandes pensamentos estranhos em ti
entram e saem e muitas vezes pernoitam.)
Se, porém, a saudade te assalta, canta as Amantes;longe
ainda de ser imortal bastante o seu sentimento célebre.
Canta aquelas - quase as invejas! - abandonadas que tu
achavas tanto mais amorosas que as satisfeitas. Recomeça
sempre de novo o inacessível louvor;
pensa: o herói dura, mesmo a queda lhe foi
só um pretexto para ser: seu supremo nascer.
Mas as amantes recolhe-as a Natureza cansada
de novo em si, como se não houvesse duas vezes as forças
para cumprir tal obra. Celebraste já bastante
a Gaspara Stampa, para que qualquer donzela
a quem fugiu o amado, ao exemplo sublimado
desta amante, sinta: Oh fosse eu como ela?
Pois não hão-de finalmente estas antiquíssimas dores
tornar-se-nos mais férteis? Não é tempo que, amando,
nos libertenos do amado e, trementes, vençamos a prova?:
como a seta vence a corda, para, concentrada ao saltar,
se superar a si própria. Pois nenhures há parar.
Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como somente outrora
santos ouviam, de tal forma que o apelo imenso
os erguia do solo; eles, porém, impossíveis,
continuavam de joelhos e nem o atendiam:
de tal maneira ouviam. Não que tu, nem de longe,suportasses
a voz de Deus. Mas ouve o hálito,
a mensagem ininterrupta, que se forma de silêncio.
Um rumor rola agora daqueles mortos jovens para ti.
Onde quer que entrasses, nas igrejas de Roma e Nápoles,
não ouviste o seu fado dirigir-se-te, tranquilo?
Ou era uma inscrição que se te impunha, sublime,
como há pouco a lápide de Santa Maria Formosa.
Que querem eles de mim?Que afaste baixinho
o véu da injustiça que, por vezes, impede um pouco
o movimento puro de seus espíritos.

É estranho, de certo, não morar mais a Terra,
não mais praticar actos apenas adquiridos,
às rosas, e a outras coisas tão prometedoras,
não mais dar o sentido dum futuro humano;
aquilo que fomos em mãos infinitamente tímidas
não mais ser, e abandonar até o próprio nome
como um brinquedo partido.
Estranho, não continuar a desejar os desejos. Estranho,
ver voar solto pelo espaço o que estava
em relação. E o estar-morto é custoso,
e há tanto a recuperar, até gradualmente se sentir
um pouco de Eternidade. - Mas os vivos cometem
todos o erro de distinguir demais.
Os anjos (diz-se) não sabem muitas vezes se andam
entre vivos ou entre mortos. A corrente eterna
arrasta pelos dois reinos todas as idades
sempre consigo, e em ambos as domina com a sua vozpotente.

Afinal já nos não precisam, os de morte precoce;
suavemente nos vamos desacostumando do que é terreno, como nos alheamos
brandamente dos seios maternos. Mas nós, que precisamos
tão grandes mistérios, para quem do luto tantas vezes
nasce progresso feliz - : poderíamos nós ser sem eles?
Será vã a lenda de que outrora repassou o torpor árido?,
de tal forma que só no espaço assustado, de que de repente partiu
um jovem quase divino, é que o vácuo entrou nessa vibração
que agora nos arrasta e consola e ajuda.


Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno