domingo, 28 de abril de 2013

Da inocência obstinada



Há algum tempo que não me deixava tocar por um livro. Tenho andado arisca a literaturas, concentrada em usar as pernas para andar. Tentando manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Mas às vezes o sonho faz sentir a sua falta nas mãos inquietas que fumam demasiado. Foi assim na manhã alegre de sábado em que encontrei o livro Os Cães e os Lobos. Confortadas pela presença do livro, as mãos abrandaram junto ao peito, trocando a compulsão do fumo pelas palavras límpidas de Irène Némirovsky.

Não concordo com o texto da contracapa que apresenta a obra como “um romance sobre a infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do século XX”. A cada leitor o seu livro: para mim, é um romance sobre a infância e a inocência obstinada.

O enredo acompanha a história solitária de Ada, uma judia pobre que se apaixona por Harry, filho de um rico banqueiro judeu. Através da narração deste amor insensato, conhecemos a diferença entre os cães e os lobos. Os lobos desejam com toda a força das suas almas, cravam os dentes nas presas da sua esperança e não largam. Conseguem privar-se dos bens essenciais e decorativos mas não abdicam das suas alucinações interiores. Os cães também sentem dentro de si esse desejo insaciável de felicidade mas sem os lobos são incapazes de deixar a atmosfera doméstica onde confortavelmente definham.

“Madame Mimi deu apressadamente meia-volta e Ada foi atrás dela, cabisbaixa, com a sensação que toda a gente a olhava e se ria à sua custa. Adoptou uma expressão tão singular, tão concentrada e dolorosa que a francesa parou e advertiu-a:
- Ada, não se deve desejar com tanta força.
- Não consigo ser de outra maneira, Madame Mimi.
- Tem de ser mais desprendida. Perante a vida, a menina tem de ser generosa como um credor compreensivo e não como um ávido usurário.
- Não consigo ser de outra maneira – repetiu Ada.”

Ocorrem-me mais uma vez os versos de Sylvia Plath:

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

E sei que também eu não consigo ser de outra forma. Há no meu sangue uma ingenuidade obstinada que não se deixa domar. "Pudica e selvagem, de corpo e alma..."

Crónica do Amor que Começa



"Esta semana não tem jeito, esta semana é de conversa com Paulo Mendes Campos. Reler o homem dá nisso.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:

E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?

O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?

Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.

O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.

O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.

E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!

O amor começa “ah lá em casa”.

Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.

Amor não carece de tira-teima.

Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.

O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!

O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.

O amor tem que começar, por exemplo, na contramão, o amor tem que começar em São Paulo, para depois evoluir até a beira da praia, uma pousada, o sal marinho que salva os velhos safados, uma metida em pé romantiquinha antes do jantar e da larica, a fome de viver, a perna bamba diante do garçom que pensa “já fui bom nisso”.

O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.

O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.

Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.

Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?"

Xico Sá

Quem tem medo de Sylvia Plath?


Toda a gente sabe que mulheres que lêem são perigosas. E que mulheres que lêem e escrevem são fatais. Historicamente, as mulheres foram sempre mais vulneráveis à loucura pela identificação romanesca. Sylvia Plath, encontrada morta na sua casa, a 11 de Fevereiro de 1963, com a cabeça dentro do forno e o gás ligado, tornou-se o ícone pop da femme fatale que lê e escreve. Bonita, inteligente e perturbada, o seu nome foi usado para designar o célebre ‘efeito Plath’, uma suposta propensão das poetisas para os distúrbios mentais. Devota das palavras certeiras, Sylvia consagrou a sua vida ao “grande striptease”, confundindo literatura e vida. Em Lady Lazarus, escreveu sobre as suas tentativas de suicídio:
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
O que quase ninguém sabe ou diz é que existem textos que matam. Textos que deixam as mãos, os olhos e os ouvidos ensanguentados. Palavras que incitam à revolta, ganas de sair pelas ruas gritando o que todos calam, que assim, meus senhores, não se pode viver. É preciso inventar uma outra vida que não estes dias chãos, dias de cão roendo os ossos e as vísceras. Inventar um amor novo, louco e forte, para derrotar o medo que corrompe as falanges. A vida inteira revisitada e não se encontra recordação que sirva de mastro, farol ou almofada. Tudo tão violento para depois se morrer no fim. Textos assassinos cujas palavras, dispostas numa determinada sequência, nos amarrotam o peito com uma mão negra e tornam a morte certa e inevitável.
Suspeitei desde cedo que as palavras não são tão inofensivas como a presente cultura da imagem pretende fazer esquecer e que tudo pode ser textualmente produzido, desde o amor à morte. Ou: sobretudo o amor e a morte. E foi nas palavras de Sylvia Plath no poema Three Women que encontrei a minha primeira grande máquina de morte escrita, numa encenação teatral da qual saí lívida e assustada.
When I first saw it, the small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office.  They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,

And the man I work for laughed:  'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.'  And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
Assustada de morte. De repente, era tarde demais. Tarde demais para desejar, tarde demais para descansar. O mistério da vida revelava-se sob a forma de uma pergunta atroz, impedindo qualquer respostas que não fosse violenta. Exposto aos sons destas letras, o corpo perdia a sua capacidade de ser casa e quietude. Expulso da vida, estava entregue à noite e ao silêncio.
Mas nem todos os textos matam de um só golpe. Existem outros que se instalam nos escaninhos da alma e lentamente a corroem até à derrocada. No entanto, esta morte textual não está destinada a todos e é imprevisível. Depende da sequência das leituras e só acontece a quem aceita tomar o tempo e o pensamento com a mesma compulsão voraz de quem toma uma droga. Os dias sucedem graves e mesmerizados como estátuas de gelo, cada minuto sacrificado no altar do demónio internalizado. É assim que se caminha e cai ao mesmo tempo, e da alegria mais fértil nasce o desespero mais daninho.
Sobrevém depois o grande abalo. O chão treme como um dia a cabeça desejou e os pés já não dançam como antes. Dentro do corpo tudo se escoa e converte em detrito e fica-se a sós com um grande medo que não autoriza esquecimento ou sono. É-se tomado por uma tristeza que não nos pertence, um bicho arcaico vindo de tempos remotos para se alojar num organismo estranho e parasitar as suas entranhas.
Mas nem sempre se acaba com a cabeça dentro do forno. Às vezes, um texto assassino é o golpe de misericórdia necessário para uma mulher se parir a si mesma. E é possível regressar das mortes múltiplas sibilando baixinho: a literatura é sobretudo exercício de queda e voo. Nela dificilmente encontrarás amparo ou abrigo, coração excessivo. É preciso que continues caindo para a frente e descubras como pode uma morte convalescer. Felizmente, existe também a música. 

domingo, 7 de abril de 2013

Do caos risível

http://www.raizonline.net/duzentosetreze/quarentaenoveaaa.htm

sexta-feira, 29 de março de 2013

Desenamoramentos



Acaba ali a terra 
Nos derradeiros rochedos, 
A deserta árida serra 
Por entre os negros penedos 
Só deixa viver mesquinho 
Triste pinheiro maninho. 
E os ventos despregados 
Sopram rijos na rama, 
E os céus turvos, anuviados, 
Tudo ali era braveza 
De selvagem natureza.
Aí, na quebra do monte, 
Entre uns juncos mal medrados, 
Seco o rio, seca a fonte, 
Ervas e matos queimados, 
Aí nessa bruta serra, 
Aí foi um céu na terra.
Ali sós no mundo, sós, 
Santo Deus! Como vivemos! 
Como éramos tudo nós 
E de nada mais soubemos! 
Como nos folgava a vida 
De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim, 
Que falar dos olhos mudo! 
Como ela vivia em mim. 
Como eu tinha nela tudo, 
Minha alma em sua razão, 
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias 
Contaram na eternidade: 
Que essas horas fugidias. 
Séculos na intensidade, 
Por milénios marca Deus 
Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim foi a tragos largos, 
Longos, fundos, que a bebi 
Do prazer a taça: – amargos 
Depois... depois os senti 
Os travos que ela deixou... 
Mas como eu ninguém gozou.
Ninguém: que é preciso amar 
Como eu amei – ser amado 
Como eu fui; dar, e tomar 
Do outro ser a quem se há dado, 
Toda a razão, toda a vida 
Que em nós se anula perdida.
Ai, ai! que pesados anos 
Tardios depois vieram! 
Oh, que fatais desenganos, 
Ramo a ramo a desfizeram 
A minha choça na serra, 
Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vê-lo 
Aquele sítio encantado; 
Claro estou não conhecê-lo, 
Tão outro estará mudado. 
Mudado como eu, como ela, 
Que a vejo sem conhecê-la!
Inda ali acaba a terra, 
Mas já o céu não começa; 
Que aquela visão da serra 
Sumiu-se na treva espessa, 
E deixou nua a bruteza 
Dessa agreste natureza.

Almeida Garrett, Cascais

domingo, 24 de março de 2013

Um poema curto

Foi um fim de semana curioso.
Sábado sai de casa para andar junto ao rio
e acabei na Boca do Inferno.
Domingo fui ouvir poesia ao CCB.
Prefiro a Boca do Inferno.
Se queres continuar a amar a poesia,
afasta-te dos poetas.

Nada se perde, tudo faz pele

"Um homem de génio, melancólico, misantropo, e querendo vingar-se da injustiça do seu século, lança um dia fogo a todas as suas obras ainda manuscritas. E, tendo sido censurado por este terrível holocausto à raiva, que, de resto era o sacrifício de todas as suas próprias esperanças, respondeu: «O que importa? O importante era que todas essas coisas fossem criadas; elas foram criadas, logo existem.» Atribuía a toda a coisa criada um carácter indestrutível. Como essa ideia se aplica com maior evidência ainda, a todos os nossos pensamentos, a todas as nossas acções, boas ou más! E se existe nessa crença algo de infinitamente consolador, no caso de o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que podemos considerar com condescendência, não existirá também algo de infinitamente terrível, no caso futuro, inevitável, em que o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que só com horror podemos enfrentar? No espiritual, tal como no material, nada se perde. Do mesmo modo como toda a acção, lançada no turbilhão da acção universal, é em si irrevogável e irreparável, abstraindo dos seus resultados possíveis, também todo o pensamento é indelével. O palimpsesto da memória é indestrutível."

Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais

sábado, 16 de março de 2013

Leituras Tristes em Tempos Tranquilos



“Rufa o tambor: tan-tarantan-tan; despejam-se no pátio presos acorrentados e não acorrentados, e Serguiêi, e Fiona, e Sónietka, e Catierina Lvovna, e um raskólnik acorrentado a um jid, e um polonês na mesma corrente que um tártaro.
Todos se amontoaram, depois se emparelharam de qualquer jeito e partiram.
O mais desolador dos quadros: um punhado de pessoas, arrancadas do mundo e privadas de qualquer sombra de esperança em um futuro melhor, afunda na lama negra e fria de uma estrada de terra batida. Tudo ao redor é de uma feiura que chega ao horror: uma lama sem fim, um céu cinzento, salgueiros desfolhados e molhados, e em seus galhos abertos uma gralha cinzenta eriçando as penas. O vento ora geme, ora se enfurece, ora uiva e brame.
Nesses sons infernais, que dilaceram a alma e completam o horror do quadro, ecoam os conselhos da mulher do Jó bíblico: “Amaldiçoa o dia do teu nascimento e morre”.
Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau.”

domingo, 10 de março de 2013

Ser-a-três



“Deito-me junto a ela, a seu corpo impenetrável. Reconheço seu cheiro. Acaricio-a sem olhá-la.
- Ai, você está me machucando!
Continuo. No tocar reconheço as ondulações de um corpo de mulher. Desenho flores em cima. Ela não se queixa mais. Não se mexe mais, lembra-se provavelmente de que está com o amante de Tatiana Karl.
Mas de repente ela duvida enfim dessa identidade, a única que ela reconhece, a única que sempre alegou pelo menos durante o tempo em que a conheci. Ela diz:
- Quem é?
Geme, pede-me que o diga. Digo:
- Tatiana Karl, por exemplo.

Extenuado, quase sem forças, peço-lhe que me ajude:
Ela me ajuda. Ela sabia. Quem fora antes de mim? Nunca saberei. Pouco se me dá.
Depois, aos gritos, ela insultou, suplicou, implorou que a pegasse e a largasse ao mesmo tempo, acossada, procurando fugir do quarto, da cama, voltando para fazer-se capturar, sabida, e não houve mais diferença entre ela e Tatiana Karl, excepto em seus olhos isentos de remorso e na designação que fazia de si mesma – Tatiana, quanto a ela, não se designa pelo nome -, e nos dois nomes que ela se dava: Tatiana Karl e Lol V. Stein.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Amar um livro


No início, havia o campo, os invernos rigorosos e uma estranha guerra ocupava os dias. O corpo era muito magro e frágil mas vingou ao abrigo da comunhão com os livros, os cães e os irmãos. Assim se constituiu a sua ideia pessoal de felicidade: uma cama, um livro, um cão e um amante que fosse também um camarada. Terá sido então que os livros se entrelaçaram com o erotismo numa enigmática mas bela coincidência.
[O pai estava ausente: sentado no sofá, fumava cigarro atrás de cigarro e lia um livro grosso. Complexo de Electra. Livros e cigarros: uma compulsão fálica de inspiração-expiração.]
Dos livros recebeu, portanto, a sua educação sentimental e o gosto pelas palavras certeiras. A sua segunda pele. Anos mais tarde, ao deixá-los empacotados num sótão amigo para viajar durante um ano sentir-se-á estranhamente livre e nua. A doença do livro colou-se aos ossos. As noites serão perdidas para a insónia, na angústia da vida não durar nem para metade dos livros que deseja. Sentirá sempre que não se pode ler um livro sem ter lido todos. Por consolo, conceberá a ideia de paraíso-biblioteca. No entanto, terá sempre as suas poupanças empenhadas, penará sempre que muda de casa e irá cometer muitas imprudências na vida, tentando igualar a beleza da arte.
Irá sofrer mas nos ombros sentirá sempre asas prestes a despontar. Aprende-se mulher, cativa-se na ideia de um amor louco. Enternece-se com os desvarios de uma tal Madame Bovary, parece que escolheram ambas viver mal mas poeticamente. Às vezes vacila, as pernas já não prestam para andar, mas sempre acha novo vigor em poemas (ou serão elegias?) como o de Alexandre 0’Neill:
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

A sua história da leitura confunde-se com os seus amores e desamores. O primeiro será amado com todo o arsenal literário da adolescência, um amor nietzscheano incapaz de durar porque consagrado ao fogo violento. Depois virão as noites das paixões nómadas e cada aurora a achará, deitada num desalinho etílico, com um amante-livro diferente. O coração será um caçador solitário e o amor uma faca que ela usará para se esventrar, procurando acertar em si mesma. Partilhará o sono com mil amores emprestados até que um dia acordará esvaindo-se em sangue. Vermelho imperfeito.
[Os encontros fortuitos na biblioteca. Traz o livro para casa, bem junto ao peito, como quem se orgulha de um crime. As mãos seguras da sua textura. Durante dias não faz mais do que olhá-lo, acariciá-lo e adormecer junto dele. Sonha com a fantasia de um sexo de ler: um texto-carne a penetrá-la, a doer-lhe fundo e um orgasmo acontecendo pelas palavras.]
As noites seguintes serão assombradas pelo chamamento de sereias impiedosas. Conseguirá sobreviver apenas graças às terríveis palavras do Herberto Hélder. Ele nunca saberá mas salvará a sua vida numa altura em que mão alguma a poderia alcançar. Uma noite de primavera adiada virá esse amor louco e bruto, tão arduamente sonhado. Os dias serão então fartos em fomes e enfartes e o corpo, inquieto, cirandará pela cidade, buscando as suas palavras. Será finalmente um livro de pernas abertas que alguém conseguirá ler. Mas de novo a desilusão. Desta vez quase fatal. Vermelho perfeito. Atravessará então a morte desértica, acompanhada apenas pela indignação de Raskólnikov. Sobrevirá depois a grande solidão e durante a travessia desse deserto inumano, nenhum homem ou livro será amado.
Os livros continuarão lá, à espera do seu regresso, amantes leais que ela saberá reencontrar quando regressar à casa que o coração construiu para se abrigar. Com um livro bem junto do peito, ela sentirá por fim a sua alma junta, adormecendo contente e satisfeita, como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Um acto de amor diferido, mediado pela solidez do papel, consumado na liquidez da tinta. As frases indizíveis acharão por fim aconchego nos corpos desencontrados no Tempo. E carne e letra fundir-se-ão num só Livro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Liberdade



Hoje acordei muito cedo e saí de casa alegre, sem saber como vai ser a minha vida (“facing the fear that the truth I discovered/No telling how, all this will work out”). 

Vi Lisboa a despertar pelo vidro acelerado, ao som desta música, e soube amar-me como tanto gosto. É que apesar de estar numa fase em que nada possuo, sinto-me deliciosamente calma e confiante no que virá. Sei com uma certeza intocável que fiz a escolha certa e que aquilo que mais quero é liberdade (“I am looking for freedom, looking for freedom/And to find it cost me everything I have/But I’ve come too far to go back now”). E se hoje enfrento as consequências dessa paixão num país fodido e escolho não desertar, é porque sinto com uma convicção íntima que já estive mais longe de coincidir com a minha liberdade.

Tudo o que perdi foram afinal merdas, orgulhos e arrogâncias acessórias, umas quantas euforias baratas. Em troca: uma simplicidade meiga e inusitada. 

Aos poucos as palavras vão regressando, com passos dançantes de mulher que conseguiu sobreviver até à vida. Os olhos conformam-se aos milagres, disponíveis para ver. E as mãos vão reunindo o que lhes chega para escrever. Sabendo que o que vier fará parte. Porque nunca ninguém se perdeu. (“In time the sun’s gonna shine on me nicely (on me yeah)/somethin’ tells me good things are coming/and I ain´t gonna not believe”).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

As Ilhas Malucas


Estar desempregada é fodido pelas mais óbvias razões. Mas também pode ser uma experiência psicadélica capaz de bater qualquer ficção do Pynchon. Para além dos gajos que se fingem dispostos a ajudar quando mal conseguem disfarçar os seus próprios interesses sexuais, acontecem coisas verdadeiramente hilariantes.
Ontem, por exemplo, tive uma reunião surpreendente. Tinha ido correr junto ao Tejo e preparava-me para tomar um duche longo e quente quando me ligaram para falar de uma proposta de trabalho. Desci as escadas do meu prédio, suada e em roupa desportiva, e entrei num carro híbrido (foi a minha primeira experiência num híbrido).

A proposta era a seguinte: existem umas ilhas, cujo nome não se pode mencionar, que estão a ser disputadas por dois países. Alguns documentos foram reunidos em Espanha para provar a pertença histórica e natural (pertença natural?) dessas ilhas a um dos países envolvidos no conflito diplomático e entregues à ONU. Contudo, as provas não são conclusivas e existe a informação de que Portugal poderá (note-se o carácter hipotético da coisa) possuir documentos que comprovam essa pertença. Por isso, um embaixador pagou a um investigador de história para andar a vasculhar em tudo quanto era sítio e arredores para encontrar esses documentos. Três mil euros por baixo da mesa: um primeiro adiantamento. No entanto, parece que o rapaz provocou de algum modo algum descontentamento no embaixador, pelo que existe a possibilidade (ainda não efectiva) de o mesmo embaixador vir a necessitar de contratar outra pessoa para encontrar essas provas. A tarefa é-me proposta, dada a minha experiência em investigação e a (suposta) facilidade que terei, enquanto investigadora de doutoramento, em aceder a documentos mais recatados. Mas, caso aceite, não poderei nunca dizer o que investigo e só num próximo encontro me será dito os nomes das ditas ilhas.

E uma pessoa sobe as escadas do prédio, enfia-se finalmente no duche merecido e delira com máfias diplomáticas e vinte asiáticos a invadirem a Torre do Tombo para destruírem um mapa do século XV. Olha foda-se, Culatra!

domingo, 20 de janeiro de 2013

a vida é sempre menos que a vida (?)



Niels Lyhne chegou indicado por Rilke, primeiro na versão francesa e depois na versão portuguesa pela Cosac & Naify. Parente de Emma Bovary, Fréderic Moreau e Oblómov, trata de um problema bicudo: será a vida plena e una, tão arduamente sonhada, apenas uma quimera literária púbere? A vida terá inevitavelmente que soçobrar perante a vidinha, salvando-se apenas os mais calculistas?

Como acontece com todas as perguntas genuínas, a resposta chega com atraso. Há uns tempos atrás, pus-me a matutar seriamente no problema da vida. Tão seriamente, que por vezes sentia que o cérebro se enovelava na mais crua certeza da morte violenta. Durante esse tempo, procurei com verdadeiro afinco encontrar uma pessoa, uma apenas que fosse ou estivesse, genuinamente feliz. Em cada alma, encontrei apenas uma falha, quando não uma farsa. Lembrei-me então desse velho Diógenes que procurava um homem pelas ruas, em pleno meio-dia, com uma lanterna acesa. O fracasso desta demanda tornava a situação mais aflitiva, pois se até estava na disposição de aceitar a minha derrota, a possibilidade de sairmos todos derrotados afligia-me como uma sede sem água à vista.

Niels Lyhne vem comprovar que aquilo que há muitos anos tomei como uma questão íntima é afinal um problema moderno e um problema essencialmente literário, que afecta a todos mesmo os que escapam às leituras. Niels Lyhne passa a vida a poetar a vida em vez de a viver. Petrificada pela letra, a vida é algo que nunca chega. O processo começa nos suspeitos do costume – Platão e Aristóteles – e atinge a sua hipérbole na contemporaneidade: privadas das suas forças vitais, a vida acaba congelada pela retórica, entregue à melancolia de uma temporalidade que não se consegue transcender sem se negar. Até aqui nada de novo. Aliás, o livro todo não traz qualquer novidade para quem já leu essa epopeia da bulimia temporal que é A Educação Sentimental do Flaubert.

Mas a edição brasileira traz um belíssimo ensaio de Claudio Magris como introdução, intitulado «As Moedas da Vida». Nada melhor que um escritor para explicar uma questão literária: “Entre o eu e a vida abriu-se um hiato, que faz daquela não mais a sua vida, mas um território onde ele não consegue penetrar e se inserir, um lugar estranho que não lhe pertence e ao qual não sente pertencer, uma contínua fuga de algo que nunca possui e que portanto não é seu, mas do qual sente nostalgia como se o tivesse perdido”. Entre essência e existência abriu-se uma cesura intransponível que vota a primeira à abstração inacessível e a segunda a uma opaca insignificância. O conflito entre vida e representação converte o tempo da existência nas moedas da vida, “trocados miúdos que não podem ser usados para mais nada”. “A vida alienada é a que foi privada de fins que realmente a justifiquem e a tornem auto-suficiente na dedicação a uma meta superior; no lugar de um fim último, instalou-se uma miríade de objectivos momentâneos e parciais, que se sucedem uns aos outros sem repouso, como na cadeia de montagens de uma imensa produção, sacrificando e queimando cada momento ao seguinte, para alcançar um objectivo meramente prático e despido de valores, que portanto não ilumina – nem retrospectivamente, na memória, nem prospectivamente, na expectativa – o caminho que é preciso percorrer para alcançá-lo.

Que cada um medite nisto, com a urgência com que o problema o encontrar. A maioria optará por não pensar, mas nem por isso deixará de o sentir na própria pele. Outra parte, optará pelo esteticismo e pelo deleite no impasse – deus vos livre do esteta e da sua melancolia artificiosa, antes uma trave no olho! Poucos irão pelo caminho marginal de Stirner, cantando a vida e tomando-a, se necessário, à força. Eu já tenho a minha resposta mas não a partilho. Trata-se de uma questão humanista, pelo que cada qual terá de se por a caminho, sozinho e desorientado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um útero é do tamanho de um punho


eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que eu não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Das saudades contentes


“Pouco a pouco o passado foi-se esbatendo, a saudade diminuindo; ela ainda vinha em certas tardes silenciosas, ao crepúsculo, quando o adeus do sol iluminava a parede do quarto solitário, e o chamado distante e monótono do cuco, cessando de repente, ampliava o silêncio; - então chegava de repente uma saudade que invadia tudo, que penetrava o coração; mas ela não o afligia mais, ela vinha tão suave, tão de leve, que era até meio doce de sentir, como uma dor amortecida.”

Jens Peter Jacobsen, Niels Lyhne

domingo, 13 de janeiro de 2013

Afinidades Electivas




Mudar de casa é sempre penoso para um bibliófilo. Primeiro, há que catar os caixotes de papelão necessários para empacotar os mais de 1550 livros, depois arranjar os braços necessários para os levar até à nova morada e, por fim, tornar a arrumá-los nas estantes.

Apesar de cansativa, esta última parte é a mais deliciosa de todas. Porque em cada nova casa, os livros decidem novas contiguidades nas prateleiras, que me fazem sonhar com uma história alternativa da literatura, muito próxima da história da arte que Aby Warburg propôs no seu inacabado Atlas Mnemosyne: uma história da literatura não aglutinada por cronologias, movimentos ou temas mas por ligações estranhas. Como, por exemplo: a História de Portugal seguida de uma colectânea francesa de textos sobre o tratamento histórico da melancolia, o banquete de Kierkegaard e a moeda viva de Klossowski, as confissões de Santo Agostinho e o Assim falou Zaratustra de Nietzsche, Teorias Sociológicas e o Guia de Vinhos de Portugal de 2010, o Arco-Íris da Gravidade e o Em Busca do Tempo Perdido, o Kama Sutra e a Biblía, o 2666 e o Orlando Furioso, o Mujeres que leen son peligrosas e o Capuchinho Vermelho… No meu quarto, o Liaisons Dangereuses deita-se sobre o meu diário, intervalando a proximidade horizontal do Oblomov com Niels Lyhne.

Só depois de guiar cada livro até ao seu lugar, posso tratar de arrumar e apossar-me das outras partes da casa. E deitar-me enfim, no novo quarto, sonhando os diálogos estranhos que os livros tecem nestas convivências inesperadas, quando a casa dorme o seu sono mais profundo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DA SERIEDADE DO OFÍCIO


“A receita, por exemplo, para que um individuo possa vir a ser bom novelista, é fácil de dar, mas a sua aplicação pressupõe qualidades, de que se costuma não fazer caso, quando se diz: ‘Eu não tenho talento bastante’. Faça-se cem ou mais projectos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, contudo de uma clareza tal que, neles, cada palavra seja indispensável; redija-se anedotas, diariamente, até se aprender a achar a sua forma mais expressiva, mais eficaz; seja-se incansável a recolher e descrever tipos e caracteres humanos; sobretudo, conte-se tão frequentemente quanto for possível e oiça-se contar, com olhos e ouvidos atentos ao efeito produzido junto das outras pessoas presentes; viaje-se como um pintor paisagista e como um desenhador de modas; extraia-se de cada uma das ciências tudo aquilo que faz efeitos artísticos, se for bem apresentado; por fim, medite-se sobre o motivo das acções humanas, não se desdenhe nenhum indício instrutivo a esse respeito e seja-se, de dia e de noite um tal colecionador de tais coisas. Neste múltiplo exercício, deixe-se passar uns dez anos: mas aquilo, que for então criado na oficina, também poderá sair à luz da rua.”

Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

UMA MULHER A PARIR A SUA ALMA



2012 foi um ano estéril em paixões. À parte alguns arrufos inconsequentes, não amei nenhum homem nem nenhum livro. Foi por isso um ano estranhamente bom, ocupado na aprendizagem de uma solidão interior, calma e insuspeita. Até aqui, houve sempre alguém, como diz a Mick em The Heart is a Lonely Hunter, e houve sempre um livro, a tal ponto que a escrita da minha história da leitura se confunde com os meus amores e desamores.

Como o desejo se desloca da minha carne e encontra um livro, é algo misterioso. Como uma operação alquímica. Nalguns casos, o desejo é encaminhado por um terceiro, noutros casos, mora já em minha casa. Mas continuo a preferir os encontros fortuitos na biblioteca, quando as minhas mãos e olhos escutam o apelo de um livro manuseado, que não figura na lista dos livros que gostaria de ler, e o encontram doído de colos ausentes. Com estes livros feridos por outras mãos, sinto sempre uma maior liberdade de tacto, como se fosse mais fácil imprimir-me neles antes de os devolver à sua posição enigmática.

Desta vez, o acaso aconteceu com os diários de Etty Hillesum na Biblioteca de Portimão, a biblioteca da minha adolescência nietzscheana. Uma surpresa deliciosa, considerando que a questão judaica nunca me interessou muito, porque demasiado absolutizada nos pólos vítima-carrasco. Chamou-me uma vez: ignorei, outras leituras se impunham. Chamou-me mais uma vez, fui até ele e li a contracapa, tornei a pousá-lo, outras leituras se impunham. Chamou uma terceira vez, caminhei até ele com passos resolutos e abri-o sem qualquer pudor:

“Terça-feira de manhã [17 de Março de 1942], às nove e meia
Ontem à noite, quando ia ter com ele de bicicleta, havia um grande e aprazível desejo de primavera em mim. E enquanto eu pedalava em cima do asfalto da rua Lairesse, desejando-o e com sonhos na cabeça, senti-me de repente acariciada por um ar tépido de primavera. E subitamente pensei: «Assim também está bem. Porque é que uma pessoa não pode experimentar uma grande e terna euforia pela primavera e, também, por todas as pessoas?» (…) Sim, por que razão é que uma pessoa não poderia sentir amor por uma primavera? E as carícias do ar primaveril eram tão delicadas e tão envolventes, que mãos masculinas, mesmo que fossem as dele, em comparação com elas me haveriam de parecer rudes.

E foi assim que cheguei a casa dele. O pequeno quarto de dormir apanhava um pouco de luz vinda do quarto de trabalho e, quando entrei reparei que a cama dele estava aberta e que, dobrado por cima dela, havia um pesado ramo de orquídeas aromatizando o quarto. E na mesinha ao lado da almofada havia narcisos, muito amarelos, tão extremamente amarelos e frescos. A cama aberta e as orquídeas e os narcisos – uma pessoa nem precisa de se deitar acompanhada naquela cama. Enquanto ali estive, por um instante, naquele quarto meio iluminado, foi como se tivesse tido uma noite inteira de amor. E ele estava sentado à pequena escrivaninha e de novo me saltou à vista como o rosto dele se assemelhava a uma paisagem antiga, cinzenta e gasta.

Pois, estás a ver, uma pessoa necessita de ter paciência. O teu desejo deve ser como um navio lento e majestoso, navegando no oceano infinito e não à procura de um local onde largar a âncora. E de súbito, inesperadamente, dás de caras com um local onde ancorar por um momento. Ontem à noite, encontrou o seu ancoradouro por um breve instante. Foi só há quinze dias que eu fui tão bravia e indomável e o puxei para mim, de tal forma que ele caiu por cima de mim e eu me senti mais tarde tão infeliz que pensei que dificilmente conseguiria continuar a viver? E passou-se só uma semana desde que eu me enfiei nos seus braços e, de um modo ou outro, permaneci infeliz porque havia ainda qualquer coisa de forçado nisso?

E todavia, estes estádios terão sido necessários para chegar a este deslizar ao encontro um do outro, a esta familiaridade, a este ser querido ao outro e ser bom para ele. E uma noite destas fica para sempre, em tamanho enorme, na memória. E se calhar, uma pessoa nem precisa de muitas destas noites para ter a sensação de levar uma vida amorosa plena e rica.”

E pronto: de novo, essa ligação estranha. Saí da biblioteca com o livro junto ao peito, com aquela sensação reconfortante de ter encontrado um objecto perdido na infância – a conceptualização do fetiche por Freud não anda longe da verdade, ainda que a sua verdade se resuma a uma metáfora. Coloquei o livro no lugar do morto e assim fizemos a viagem até casa. Mais tarde, nessa mesma noite, tive de ir ver os homens, compromisso penoso que prolongava mais um pouco o ritual de sedução. Levei-o comigo. É sempre assim quando um livro me conquista: sinto a todo o instante, uma enorme vontade de o ter ao meu alcance, estender a mão e sentir o seu corpo sólido e macio, antecipando com delícia o nosso momento de entrega e rendição. Por isso, quando estou apaixonada por um livro saio à noite com ele, mesmo sabendo que não o posso ler porque os protocolos de leitura não o permitem, imensamente agradada pela companhia do seu peso, que a mão sub-repticiamente acaricia sempre que pode. Algumas vezes, chego até a colocá-lo com todo o cuidado na almofada contígua à minha e podem crer que adormeço contente e satisfeita como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Sim, porque razão é que uma pessoa não pode sentir amor por um livro?

Não vou escrever sobre o livro da Etty. Não consigo, dissecar um amor apenas é possível no desamor. Posso apenas dizer que se trata do registo diarístico de uma mulher a parir a sua alma, com todas as tremendas dores da individuação, para conquistar a alegria anterior a um coração desassossegado e acelerado e uma vida plena, digna de ser vivida. Uma dádiva que me trouxe a consciência de que já não sou nem desejo ser uma amante-leitora compulsiva, atacada pelo síndrome do bovarysmo, faminta por  conhecer o máximo de experiências e sensações. Platão tinha razão quando dizia que a escrita era um pharmakon, sei-o agora. A literatura pode ser um vício, uma compulsão que envenena e corrompe a vida. Mas eu não quero acabar como a Emma, desiludida com a vida, vomitando a tinta negra de todos os livros lidos. Lá onde está o veneno, também estará a cura. Tendo a sorte de poder afirmar ousadamente que já vivi muito e já fiz de muitas personagens, posso agora começar a trabalhar na minha síntese feliz e isso implica fazer do erotismo e da literatura um trabalho mais sério e árduo, um trabalho de exegese. Uma decisão válida para os livros e para os homens: não me interessam mais os arrufos da paixão, mas o Amor. Não querendo isto dizer que me converti ao platonismo. Porque corpo e alma são um só, como a Etty e eu aprendemos. Tendo escavado bem fundo em mim, com todas as facas que encontrei à mão, vou agora tratar de me esculpir e fazer da vida uma obra de arte. A Obra começa.