domingo, 9 de junho de 2013
terça-feira, 4 de junho de 2013
to shake a memory
Working through das pain
Last night I swear I felt your touch
Gentle and warm
The hair stood on my arms
How, how, how?
Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory
I flipped my forelock, I twitched my withers, I reared and bucked
I could not put my rider aground
All these fine memories are fuckin' me down
I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Love is the king of the beasts
A lion walking down city streets
I fell back asleep some time later on
And I dreamed the perfect song
It held all the answers, like hands laid on
I woke halfway and scribbled it down
And in the morning what I wrote I read
It was hard to read at first but here's what it said
Eid ma clack shaw
Zupoven del ba
Mertepy ven seinur
Cofally ragdah
Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory
terça-feira, 28 de maio de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
domingo, 12 de maio de 2013
A dor não me domesticará
O primeiro banho do ano. Entrei nas águas geladas com toda a coragem restante no corpo combalido pela longa noite e formulei o meu grande desejo para este verão. Chegou a hora de esquecer os assombros da morte que passou. A verdade é que estou viva e nem sempre se morre de morte. É tempo de esquecer a memória da dor e voltar a ser selvagem como sempre fui.
sábado, 11 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Da inocência obstinada
Há algum tempo que não me deixava tocar por
um livro. Tenho andado arisca a literaturas, concentrada em usar as pernas para
andar. Tentando manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Mas às vezes o sonho faz sentir a sua falta
nas mãos inquietas que fumam demasiado. Foi assim na manhã alegre de sábado em
que encontrei o livro Os Cães e os Lobos. Confortadas pela presença do livro,
as mãos abrandaram junto ao peito, trocando a compulsão do fumo pelas palavras
límpidas de Irène Némirovsky.
Não concordo com o texto da contracapa que
apresenta a obra como “um romance sobre a
infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do
século XX”. A cada leitor o seu livro: para mim, é um romance sobre a
infância e a inocência obstinada.
O enredo acompanha a história solitária de
Ada, uma judia pobre que se apaixona por Harry, filho de um rico banqueiro
judeu. Através da narração deste amor insensato, conhecemos a diferença entre os
cães e os lobos. Os lobos desejam com toda a força das suas almas, cravam os
dentes nas presas da sua esperança e não largam. Conseguem privar-se dos bens
essenciais e decorativos mas não abdicam das suas alucinações interiores. Os cães
também sentem dentro de si esse desejo insaciável de felicidade mas sem os
lobos são incapazes de deixar a atmosfera doméstica onde confortavelmente
definham.
“Madame Mimi deu apressadamente meia-volta e
Ada foi atrás dela, cabisbaixa, com a sensação que toda a gente a olhava e se
ria à sua custa. Adoptou uma expressão tão singular, tão concentrada e dolorosa
que a francesa parou e advertiu-a:
- Ada, não se deve desejar com tanta força.
- Não consigo ser de outra maneira, Madame
Mimi.
- Tem de ser mais desprendida. Perante a
vida, a menina tem de ser generosa como um credor compreensivo e não como um
ávido usurário.
- Não consigo ser de outra maneira – repetiu Ada.”
Ocorrem-me mais uma vez os versos de Sylvia
Plath:
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
E sei que também eu não consigo ser de outra
forma. Há no meu sangue uma ingenuidade obstinada que não se deixa domar. "Pudica
e selvagem, de corpo e alma..."
Crónica do Amor que Começa
"Esta semana não tem jeito, esta semana é de conversa com Paulo Mendes Campos. Reler o homem dá nisso.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:
E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?
O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?
Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.
O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.
O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.
E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!
O amor começa “ah lá em casa”.
Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.
Amor não carece de tira-teima.
Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.
O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!
O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.
O amor tem que começar, por exemplo, na contramão, o amor tem que começar em São Paulo, para depois evoluir até a beira da praia, uma pousada, o sal marinho que salva os velhos safados, uma metida em pé romantiquinha antes do jantar e da larica, a fome de viver, a perna bamba diante do garçom que pensa “já fui bom nisso”.
O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.
O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.
Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.
Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?"
Xico Sá
Quem tem medo de Sylvia Plath?
Toda a gente sabe que mulheres que
lêem são perigosas. E que mulheres que lêem e escrevem são fatais. Historicamente,
as mulheres foram sempre mais vulneráveis à loucura pela identificação
romanesca. Sylvia Plath, encontrada morta na sua casa, a 11 de Fevereiro de
1963, com a cabeça dentro do forno e o gás ligado, tornou-se o ícone pop da femme fatale que lê e escreve. Bonita,
inteligente e perturbada, o seu nome foi usado para designar o célebre ‘efeito Plath’, uma suposta propensão das
poetisas para os distúrbios mentais. Devota das palavras certeiras, Sylvia consagrou
a sua vida ao “grande striptease”,
confundindo literatura e vida. Em Lady
Lazarus, escreveu sobre as suas tentativas de suicídio:
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times
to die.
O que quase ninguém sabe ou diz é que
existem textos que matam. Textos que deixam as mãos, os olhos e os ouvidos
ensanguentados. Palavras que incitam à revolta, ganas de sair pelas ruas
gritando o que todos calam, que assim, meus senhores, não se pode viver. É
preciso inventar uma outra vida que não estes dias chãos, dias de cão roendo os
ossos e as vísceras. Inventar um amor novo, louco e forte, para derrotar o medo
que corrompe as falanges. A vida inteira revisitada e
não se encontra recordação que sirva de mastro, farol ou almofada. Tudo tão
violento para depois se morrer no fim. Textos assassinos cujas palavras,
dispostas numa determinada sequência, nos amarrotam o peito com uma mão negra e
tornam a morte certa e inevitável.
Suspeitei desde cedo que as palavras
não são tão inofensivas como a presente cultura da imagem pretende fazer
esquecer e que tudo pode ser textualmente produzido, desde o amor à morte. Ou:
sobretudo o amor e a morte. E foi nas palavras de Sylvia Plath no poema Three Women que encontrei a minha primeira
grande máquina de morte escrita, numa encenação teatral da qual saí lívida e
assustada.
When I first saw it, the
small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office. They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,
And the man I work for laughed: 'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.' And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
I watched the men walk about me in the office. They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,
And the man I work for laughed: 'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.' And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
Assustada de morte. De repente, era
tarde demais. Tarde demais para desejar, tarde demais para descansar. O
mistério da vida revelava-se sob a forma de uma pergunta atroz, impedindo
qualquer respostas que não fosse violenta. Exposto aos sons destas letras, o
corpo perdia a sua capacidade de ser casa e quietude. Expulso da vida, estava
entregue à noite e ao silêncio.
Mas nem todos os textos
matam de um só golpe. Existem outros que se instalam nos escaninhos da alma e
lentamente a corroem até à derrocada. No entanto, esta morte textual não está
destinada a todos e é imprevisível. Depende da sequência das leituras e só
acontece a quem aceita tomar o tempo e o pensamento com a mesma compulsão voraz
de quem toma uma droga. Os dias sucedem graves e mesmerizados como estátuas de
gelo, cada minuto sacrificado no altar do demónio internalizado. É assim que se
caminha e cai ao mesmo tempo, e da alegria mais fértil nasce o desespero mais
daninho.
Sobrevém depois o grande
abalo. O chão treme como um dia a cabeça desejou e os pés já não dançam como
antes. Dentro do corpo tudo se escoa e converte em detrito e fica-se a sós com
um grande medo que não autoriza esquecimento ou sono. É-se tomado por uma
tristeza que não nos pertence, um bicho arcaico vindo de tempos remotos para se
alojar num organismo estranho e parasitar as suas entranhas.
Mas nem sempre se acaba
com a cabeça dentro do forno. Às vezes, um texto assassino é o golpe de
misericórdia necessário para uma mulher se parir a si mesma. E é possível
regressar das mortes múltiplas sibilando baixinho: a literatura é sobretudo
exercício de queda e voo. Nela dificilmente encontrarás amparo ou abrigo,
coração excessivo. É preciso que continues caindo para a frente e descubras
como pode uma morte convalescer. Felizmente, existe também a música.
domingo, 7 de abril de 2013
sexta-feira, 29 de março de 2013
Desenamoramentos
Acaba ali a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
Sopram rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
Sopram rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.
Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um céu na terra.
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um céu na terra.
Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus! Como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!
Santo Deus! Como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim.
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim.
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias.
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias.
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim foi a tragos largos,
Longos, fundos, que a bebi
Do prazer a taça: – amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ela deixou...
Mas como eu ninguém gozou.
Longos, fundos, que a bebi
Do prazer a taça: – amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ela deixou...
Mas como eu ninguém gozou.
Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.
Ai, ai! que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh, que fatais desenganos,
Ramo a ramo a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!
Tardios depois vieram!
Oh, que fatais desenganos,
Ramo a ramo a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vê-lo
Aquele sítio encantado;
Claro estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado.
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!
Aquele sítio encantado;
Claro estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado.
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!
Inda ali acaba a terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.
Almeida Garrett, Cascais
domingo, 24 de março de 2013
Um poema curto
Foi um fim de semana curioso.
Sábado sai de casa para andar junto ao rio
e acabei na Boca do Inferno.
Domingo fui ouvir poesia ao CCB.
Prefiro a Boca do Inferno.
Se queres continuar a amar a poesia,
afasta-te dos poetas.
Sábado sai de casa para andar junto ao rio
e acabei na Boca do Inferno.
Domingo fui ouvir poesia ao CCB.
Prefiro a Boca do Inferno.
Se queres continuar a amar a poesia,
afasta-te dos poetas.
Nada se perde, tudo faz pele
"Um homem de génio, melancólico, misantropo, e querendo vingar-se da injustiça do seu século, lança um dia fogo a todas as suas obras ainda manuscritas. E, tendo sido censurado por este terrível holocausto à raiva, que, de resto era o sacrifício de todas as suas próprias esperanças, respondeu: «O que importa? O importante era que todas essas coisas fossem criadas; elas foram criadas, logo existem.» Atribuía a toda a coisa criada um carácter indestrutível. Como essa ideia se aplica com maior evidência ainda, a todos os nossos pensamentos, a todas as nossas acções, boas ou más! E se existe nessa crença algo de infinitamente consolador, no caso de o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que podemos considerar com condescendência, não existirá também algo de infinitamente terrível, no caso futuro, inevitável, em que o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que só com horror podemos enfrentar? No espiritual, tal como no material, nada se perde. Do mesmo modo como toda a acção, lançada no turbilhão da acção universal, é em si irrevogável e irreparável, abstraindo dos seus resultados possíveis, também todo o pensamento é indelével. O palimpsesto da memória é indestrutível."
Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais
sábado, 16 de março de 2013
Leituras Tristes em Tempos Tranquilos
“Rufa o tambor: tan-tarantan-tan; despejam-se no
pátio presos acorrentados e não acorrentados, e Serguiêi, e Fiona, e Sónietka,
e Catierina Lvovna, e um raskólnik acorrentado a um jid, e um polonês na mesma corrente que um
tártaro.
Todos se amontoaram, depois se emparelharam de
qualquer jeito e partiram.
O mais desolador dos quadros: um punhado de
pessoas, arrancadas do mundo e privadas de qualquer sombra de esperança em um
futuro melhor, afunda na lama negra e fria de uma estrada de terra batida. Tudo
ao redor é de uma feiura que chega ao horror: uma lama sem fim, um céu
cinzento, salgueiros desfolhados e molhados, e em seus galhos abertos uma
gralha cinzenta eriçando as penas. O vento ora geme, ora se enfurece, ora uiva
e brame.
Nesses sons infernais, que dilaceram a alma e
completam o horror do quadro, ecoam os conselhos da mulher do Jó bíblico: “Amaldiçoa
o dia do teu nascimento e morre”.
Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes
palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação
deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com
algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende
perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a
fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser
especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau.”
domingo, 10 de março de 2013
Ser-a-três
“Deito-me
junto a ela, a seu corpo impenetrável. Reconheço seu cheiro. Acaricio-a sem
olhá-la.
- Ai,
você está me machucando!
Continuo.
No tocar reconheço as ondulações de um corpo de mulher. Desenho flores em cima.
Ela não se queixa mais. Não se mexe mais, lembra-se provavelmente de que está
com o amante de Tatiana Karl.
Mas de
repente ela duvida enfim dessa identidade, a única que ela reconhece, a única
que sempre alegou pelo menos durante o tempo em que a conheci. Ela diz:
-
Quem é?
Geme,
pede-me que o diga. Digo:
-
Tatiana Karl, por exemplo.
Extenuado,
quase sem forças, peço-lhe que me ajude:
Ela me
ajuda. Ela sabia. Quem fora antes de mim? Nunca saberei. Pouco se me dá.
Depois,
aos gritos, ela insultou, suplicou, implorou que a pegasse e a largasse ao
mesmo tempo, acossada, procurando fugir do quarto, da cama, voltando para
fazer-se capturar, sabida, e não houve mais diferença entre ela e Tatiana Karl,
excepto em seus olhos isentos de remorso e na designação que fazia de si mesma –
Tatiana, quanto a ela, não se designa pelo nome -, e nos dois nomes que ela se
dava: Tatiana Karl e Lol V. Stein.”
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Amar um livro
No início, havia o campo, os invernos
rigorosos e uma estranha guerra ocupava os dias. O corpo era muito magro e frágil
mas vingou ao abrigo da comunhão com os livros, os cães e os irmãos. Assim se
constituiu a sua ideia pessoal de felicidade: uma cama, um livro, um cão e um
amante que fosse também um camarada. Terá sido então que os livros se
entrelaçaram com o erotismo numa enigmática mas bela coincidência.
[O pai estava ausente:
sentado no sofá, fumava cigarro atrás de cigarro e lia um livro grosso. Complexo
de Electra. Livros e cigarros: uma compulsão fálica de inspiração-expiração.]
Dos livros recebeu, portanto, a sua
educação sentimental e o gosto pelas palavras certeiras. A sua segunda pele.
Anos mais tarde, ao deixá-los empacotados num sótão amigo para viajar durante
um ano sentir-se-á estranhamente livre e nua. A doença do livro colou-se aos
ossos. As noites serão perdidas para a insónia, na angústia da vida não durar
nem para metade dos livros que deseja. Sentirá sempre que não se pode ler um
livro sem ter lido todos. Por consolo, conceberá a ideia de paraíso-biblioteca.
No entanto, terá sempre as suas poupanças empenhadas, penará sempre que muda de
casa e irá cometer muitas imprudências na vida, tentando igualar a beleza da
arte.
Irá sofrer mas nos ombros sentirá
sempre asas prestes a despontar. Aprende-se mulher, cativa-se na ideia de um
amor louco. Enternece-se com os desvarios de uma tal Madame Bovary, parece que
escolheram ambas viver mal mas poeticamente. Às vezes vacila, as pernas já não
prestam para andar, mas sempre acha novo vigor em poemas (ou serão elegias?)
como o de Alexandre 0’Neill:
Gosto de Ofélia ao sabor da
corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há
tanto homem!»
A sua história da
leitura confunde-se com os seus amores e desamores. O primeiro será amado com
todo o arsenal literário da adolescência, um amor nietzscheano incapaz de durar
porque consagrado ao fogo violento. Depois virão as noites das paixões nómadas
e cada aurora a achará, deitada num desalinho etílico, com um amante-livro
diferente. O coração será um caçador solitário e o amor uma faca que ela usará
para se esventrar, procurando acertar em si mesma. Partilhará o sono com mil
amores emprestados até que um dia acordará esvaindo-se em sangue. Vermelho
imperfeito.
[Os encontros fortuitos
na biblioteca. Traz o livro para casa, bem junto ao peito, como quem se
orgulha de um crime. As mãos seguras da sua textura. Durante dias não faz mais
do que olhá-lo, acariciá-lo e adormecer junto dele. Sonha com a fantasia de um
sexo de ler: um texto-carne a penetrá-la, a doer-lhe fundo e um orgasmo
acontecendo pelas palavras.]
As
noites seguintes serão assombradas pelo chamamento de sereias impiedosas.
Conseguirá sobreviver apenas graças às terríveis palavras do Herberto Hélder.
Ele nunca saberá mas salvará a sua vida numa altura em que mão alguma a poderia
alcançar. Uma noite de primavera adiada virá esse amor louco e bruto, tão
arduamente sonhado. Os dias serão então fartos em fomes e enfartes e o corpo,
inquieto, cirandará pela cidade, buscando as suas palavras. Será finalmente um
livro de pernas abertas que alguém conseguirá ler. Mas de novo a desilusão.
Desta vez quase fatal. Vermelho perfeito. Atravessará então a morte desértica,
acompanhada apenas pela indignação de Raskólnikov. Sobrevirá depois a grande
solidão e durante a travessia desse deserto inumano, nenhum homem ou livro será
amado.
Os
livros continuarão lá, à espera do seu regresso, amantes leais que ela saberá
reencontrar quando regressar à casa que o coração construiu para se abrigar. Com
um livro bem junto do peito, ela sentirá por fim a sua alma junta, adormecendo
contente e satisfeita, como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Um acto
de amor diferido, mediado pela solidez do papel, consumado na liquidez da tinta.
As frases indizíveis acharão por fim aconchego nos corpos desencontrados no
Tempo. E carne e letra fundir-se-ão num só Livro.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Liberdade
Hoje
acordei muito cedo e saí de casa alegre, sem saber como vai ser a minha vida (“facing
the fear that the truth I discovered/No telling how, all this will work out”).
Vi
Lisboa a despertar pelo vidro acelerado, ao som desta música, e soube amar-me
como tanto gosto. É que apesar de estar numa fase em que nada possuo, sinto-me
deliciosamente calma e confiante no que virá. Sei com uma certeza intocável que fiz a escolha certa
e que aquilo que mais quero é liberdade (“I am looking for freedom, looking for
freedom/And to find it cost me everything I have/But I’ve come too far to go
back now”). E se hoje enfrento as consequências dessa paixão num país
fodido e escolho não desertar, é porque sinto com uma convicção íntima que já
estive mais longe de coincidir com a minha liberdade.
Tudo
o que perdi foram afinal merdas, orgulhos e arrogâncias acessórias, umas
quantas euforias baratas. Em troca: uma simplicidade meiga e inusitada.
Aos poucos as palavras vão regressando, com passos dançantes de mulher que
conseguiu sobreviver até à vida. Os olhos conformam-se aos milagres, disponíveis
para ver. E as mãos vão reunindo o que lhes chega para escrever. Sabendo que o
que vier fará parte. Porque
nunca ninguém se perdeu. (“In time the sun’s gonna shine on me nicely (on me
yeah)/somethin’ tells me good things are coming/and I ain´t gonna not believe”).
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
As Ilhas Malucas
Estar desempregada é fodido pelas mais óbvias razões. Mas
também pode ser uma experiência psicadélica capaz de bater qualquer ficção do
Pynchon. Para além dos gajos que se fingem dispostos a ajudar quando mal
conseguem disfarçar os seus próprios interesses sexuais, acontecem coisas
verdadeiramente hilariantes.
Ontem, por exemplo, tive uma reunião surpreendente. Tinha ido
correr junto ao Tejo e preparava-me para tomar um duche longo e quente quando
me ligaram para falar de uma proposta de trabalho. Desci as escadas do meu
prédio, suada e em roupa desportiva, e entrei num carro híbrido (foi a minha
primeira experiência num híbrido).
A proposta era a seguinte: existem umas ilhas, cujo nome não
se pode mencionar, que estão a ser disputadas por dois países. Alguns
documentos foram reunidos em Espanha para provar a pertença histórica e natural
(pertença natural?) dessas ilhas a um dos países envolvidos no conflito
diplomático e entregues à ONU. Contudo, as provas não são conclusivas e existe
a informação de que Portugal poderá (note-se o carácter hipotético da coisa)
possuir documentos que comprovam essa pertença. Por isso, um embaixador pagou a
um investigador de história para andar a vasculhar em tudo quanto era sítio e arredores para encontrar esses documentos. Três mil euros por
baixo da mesa: um primeiro adiantamento. No entanto, parece que o rapaz
provocou de algum modo algum descontentamento no embaixador, pelo que existe a
possibilidade (ainda não efectiva) de o mesmo embaixador vir a necessitar de
contratar outra pessoa para encontrar essas provas. A tarefa é-me proposta,
dada a minha experiência em investigação e a (suposta) facilidade que terei,
enquanto investigadora de doutoramento, em aceder a documentos mais recatados.
Mas, caso aceite, não poderei nunca dizer o que investigo e só num próximo
encontro me será dito os nomes das ditas ilhas.
E uma pessoa sobe as escadas do prédio, enfia-se finalmente
no duche merecido e delira com máfias diplomáticas e vinte asiáticos a invadirem a Torre do Tombo para
destruírem um mapa do século XV. Olha foda-se, Culatra!
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