terça-feira, 4 de junho de 2013

to shake a memory



Working through das pain



Last night I swear I felt your touch

Gentle and warm

The hair stood on my arms

How, how, how?



Show me the way, show me the way, show me the way

To shake a memory



I flipped my forelock, I twitched my withers, I reared and bucked

I could not put my rider aground

All these fine memories are fuckin' me down



I dreamed it was a dream that you were gone

I woke up feeling so ripped by reality

Love is the king of the beasts

And when it gets hungry it must kill to eat

Love is the king of the beasts

A lion walking down city streets

I fell back asleep some time later on

And I dreamed the perfect song

It held all the answers, like hands laid on



I woke halfway and scribbled it down

And in the morning what I wrote I read

It was hard to read at first but here's what it said


Eid ma clack shaw

Zupoven del ba

Mertepy ven seinur

Cofally ragdah


Show me the way, show me the way, show me the way

To shake a memory



quinta-feira, 16 de maio de 2013


"Aprende a ler no teu espírito e tudo o resto virá por acréscimo."
Paul Valéry




domingo, 12 de maio de 2013

A dor não me domesticará


O primeiro banho do ano. Entrei nas águas geladas com toda a coragem restante no corpo combalido pela longa noite e formulei o meu grande desejo para este verão. Chegou a hora de esquecer os assombros da morte que passou. A verdade é que estou viva e nem sempre se morre de morte. É tempo de esquecer a memória da dor e voltar a ser selvagem como sempre fui.

domingo, 5 de maio de 2013

Já me matei faz muito tempo


me matei quando o tempo era escasso

e o que havia entre o tempo e o espaço

era o de sempre

nunca mesmo o sempre passo

...

morrer faz bem à vista e ao baço

melhora o ritmo do pulso

e clareia a alma



morrer de vez em quando

é a única coisa que me acalma.



- Paulo Leminski

domingo, 28 de abril de 2013

Da inocência obstinada



Há algum tempo que não me deixava tocar por um livro. Tenho andado arisca a literaturas, concentrada em usar as pernas para andar. Tentando manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Mas às vezes o sonho faz sentir a sua falta nas mãos inquietas que fumam demasiado. Foi assim na manhã alegre de sábado em que encontrei o livro Os Cães e os Lobos. Confortadas pela presença do livro, as mãos abrandaram junto ao peito, trocando a compulsão do fumo pelas palavras límpidas de Irène Némirovsky.

Não concordo com o texto da contracapa que apresenta a obra como “um romance sobre a infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do século XX”. A cada leitor o seu livro: para mim, é um romance sobre a infância e a inocência obstinada.

O enredo acompanha a história solitária de Ada, uma judia pobre que se apaixona por Harry, filho de um rico banqueiro judeu. Através da narração deste amor insensato, conhecemos a diferença entre os cães e os lobos. Os lobos desejam com toda a força das suas almas, cravam os dentes nas presas da sua esperança e não largam. Conseguem privar-se dos bens essenciais e decorativos mas não abdicam das suas alucinações interiores. Os cães também sentem dentro de si esse desejo insaciável de felicidade mas sem os lobos são incapazes de deixar a atmosfera doméstica onde confortavelmente definham.

“Madame Mimi deu apressadamente meia-volta e Ada foi atrás dela, cabisbaixa, com a sensação que toda a gente a olhava e se ria à sua custa. Adoptou uma expressão tão singular, tão concentrada e dolorosa que a francesa parou e advertiu-a:
- Ada, não se deve desejar com tanta força.
- Não consigo ser de outra maneira, Madame Mimi.
- Tem de ser mais desprendida. Perante a vida, a menina tem de ser generosa como um credor compreensivo e não como um ávido usurário.
- Não consigo ser de outra maneira – repetiu Ada.”

Ocorrem-me mais uma vez os versos de Sylvia Plath:

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

E sei que também eu não consigo ser de outra forma. Há no meu sangue uma ingenuidade obstinada que não se deixa domar. "Pudica e selvagem, de corpo e alma..."

Crónica do Amor que Começa



"Esta semana não tem jeito, esta semana é de conversa com Paulo Mendes Campos. Reler o homem dá nisso.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:

E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?

O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?

Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.

O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.

O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.

E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!

O amor começa “ah lá em casa”.

Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.

Amor não carece de tira-teima.

Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.

O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!

O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.

O amor tem que começar, por exemplo, na contramão, o amor tem que começar em São Paulo, para depois evoluir até a beira da praia, uma pousada, o sal marinho que salva os velhos safados, uma metida em pé romantiquinha antes do jantar e da larica, a fome de viver, a perna bamba diante do garçom que pensa “já fui bom nisso”.

O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.

O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.

Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.

Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?"

Xico Sá

Quem tem medo de Sylvia Plath?


Toda a gente sabe que mulheres que lêem são perigosas. E que mulheres que lêem e escrevem são fatais. Historicamente, as mulheres foram sempre mais vulneráveis à loucura pela identificação romanesca. Sylvia Plath, encontrada morta na sua casa, a 11 de Fevereiro de 1963, com a cabeça dentro do forno e o gás ligado, tornou-se o ícone pop da femme fatale que lê e escreve. Bonita, inteligente e perturbada, o seu nome foi usado para designar o célebre ‘efeito Plath’, uma suposta propensão das poetisas para os distúrbios mentais. Devota das palavras certeiras, Sylvia consagrou a sua vida ao “grande striptease”, confundindo literatura e vida. Em Lady Lazarus, escreveu sobre as suas tentativas de suicídio:
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
O que quase ninguém sabe ou diz é que existem textos que matam. Textos que deixam as mãos, os olhos e os ouvidos ensanguentados. Palavras que incitam à revolta, ganas de sair pelas ruas gritando o que todos calam, que assim, meus senhores, não se pode viver. É preciso inventar uma outra vida que não estes dias chãos, dias de cão roendo os ossos e as vísceras. Inventar um amor novo, louco e forte, para derrotar o medo que corrompe as falanges. A vida inteira revisitada e não se encontra recordação que sirva de mastro, farol ou almofada. Tudo tão violento para depois se morrer no fim. Textos assassinos cujas palavras, dispostas numa determinada sequência, nos amarrotam o peito com uma mão negra e tornam a morte certa e inevitável.
Suspeitei desde cedo que as palavras não são tão inofensivas como a presente cultura da imagem pretende fazer esquecer e que tudo pode ser textualmente produzido, desde o amor à morte. Ou: sobretudo o amor e a morte. E foi nas palavras de Sylvia Plath no poema Three Women que encontrei a minha primeira grande máquina de morte escrita, numa encenação teatral da qual saí lívida e assustada.
When I first saw it, the small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office.  They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,

And the man I work for laughed:  'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.'  And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
Assustada de morte. De repente, era tarde demais. Tarde demais para desejar, tarde demais para descansar. O mistério da vida revelava-se sob a forma de uma pergunta atroz, impedindo qualquer respostas que não fosse violenta. Exposto aos sons destas letras, o corpo perdia a sua capacidade de ser casa e quietude. Expulso da vida, estava entregue à noite e ao silêncio.
Mas nem todos os textos matam de um só golpe. Existem outros que se instalam nos escaninhos da alma e lentamente a corroem até à derrocada. No entanto, esta morte textual não está destinada a todos e é imprevisível. Depende da sequência das leituras e só acontece a quem aceita tomar o tempo e o pensamento com a mesma compulsão voraz de quem toma uma droga. Os dias sucedem graves e mesmerizados como estátuas de gelo, cada minuto sacrificado no altar do demónio internalizado. É assim que se caminha e cai ao mesmo tempo, e da alegria mais fértil nasce o desespero mais daninho.
Sobrevém depois o grande abalo. O chão treme como um dia a cabeça desejou e os pés já não dançam como antes. Dentro do corpo tudo se escoa e converte em detrito e fica-se a sós com um grande medo que não autoriza esquecimento ou sono. É-se tomado por uma tristeza que não nos pertence, um bicho arcaico vindo de tempos remotos para se alojar num organismo estranho e parasitar as suas entranhas.
Mas nem sempre se acaba com a cabeça dentro do forno. Às vezes, um texto assassino é o golpe de misericórdia necessário para uma mulher se parir a si mesma. E é possível regressar das mortes múltiplas sibilando baixinho: a literatura é sobretudo exercício de queda e voo. Nela dificilmente encontrarás amparo ou abrigo, coração excessivo. É preciso que continues caindo para a frente e descubras como pode uma morte convalescer. Felizmente, existe também a música. 

domingo, 7 de abril de 2013

Do caos risível

http://www.raizonline.net/duzentosetreze/quarentaenoveaaa.htm

sexta-feira, 29 de março de 2013

Desenamoramentos



Acaba ali a terra 
Nos derradeiros rochedos, 
A deserta árida serra 
Por entre os negros penedos 
Só deixa viver mesquinho 
Triste pinheiro maninho. 
E os ventos despregados 
Sopram rijos na rama, 
E os céus turvos, anuviados, 
Tudo ali era braveza 
De selvagem natureza.
Aí, na quebra do monte, 
Entre uns juncos mal medrados, 
Seco o rio, seca a fonte, 
Ervas e matos queimados, 
Aí nessa bruta serra, 
Aí foi um céu na terra.
Ali sós no mundo, sós, 
Santo Deus! Como vivemos! 
Como éramos tudo nós 
E de nada mais soubemos! 
Como nos folgava a vida 
De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim, 
Que falar dos olhos mudo! 
Como ela vivia em mim. 
Como eu tinha nela tudo, 
Minha alma em sua razão, 
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias 
Contaram na eternidade: 
Que essas horas fugidias. 
Séculos na intensidade, 
Por milénios marca Deus 
Quando as dá aos que são seus.
Ai! sim foi a tragos largos, 
Longos, fundos, que a bebi 
Do prazer a taça: – amargos 
Depois... depois os senti 
Os travos que ela deixou... 
Mas como eu ninguém gozou.
Ninguém: que é preciso amar 
Como eu amei – ser amado 
Como eu fui; dar, e tomar 
Do outro ser a quem se há dado, 
Toda a razão, toda a vida 
Que em nós se anula perdida.
Ai, ai! que pesados anos 
Tardios depois vieram! 
Oh, que fatais desenganos, 
Ramo a ramo a desfizeram 
A minha choça na serra, 
Lá onde se acaba a terra!
Se o visse... não quero vê-lo 
Aquele sítio encantado; 
Claro estou não conhecê-lo, 
Tão outro estará mudado. 
Mudado como eu, como ela, 
Que a vejo sem conhecê-la!
Inda ali acaba a terra, 
Mas já o céu não começa; 
Que aquela visão da serra 
Sumiu-se na treva espessa, 
E deixou nua a bruteza 
Dessa agreste natureza.

Almeida Garrett, Cascais

domingo, 24 de março de 2013

Um poema curto

Foi um fim de semana curioso.
Sábado sai de casa para andar junto ao rio
e acabei na Boca do Inferno.
Domingo fui ouvir poesia ao CCB.
Prefiro a Boca do Inferno.
Se queres continuar a amar a poesia,
afasta-te dos poetas.

Nada se perde, tudo faz pele

"Um homem de génio, melancólico, misantropo, e querendo vingar-se da injustiça do seu século, lança um dia fogo a todas as suas obras ainda manuscritas. E, tendo sido censurado por este terrível holocausto à raiva, que, de resto era o sacrifício de todas as suas próprias esperanças, respondeu: «O que importa? O importante era que todas essas coisas fossem criadas; elas foram criadas, logo existem.» Atribuía a toda a coisa criada um carácter indestrutível. Como essa ideia se aplica com maior evidência ainda, a todos os nossos pensamentos, a todas as nossas acções, boas ou más! E se existe nessa crença algo de infinitamente consolador, no caso de o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que podemos considerar com condescendência, não existirá também algo de infinitamente terrível, no caso futuro, inevitável, em que o nosso espírito se voltar para essa parte de nós mesmos que só com horror podemos enfrentar? No espiritual, tal como no material, nada se perde. Do mesmo modo como toda a acção, lançada no turbilhão da acção universal, é em si irrevogável e irreparável, abstraindo dos seus resultados possíveis, também todo o pensamento é indelével. O palimpsesto da memória é indestrutível."

Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais

sábado, 16 de março de 2013

Leituras Tristes em Tempos Tranquilos



“Rufa o tambor: tan-tarantan-tan; despejam-se no pátio presos acorrentados e não acorrentados, e Serguiêi, e Fiona, e Sónietka, e Catierina Lvovna, e um raskólnik acorrentado a um jid, e um polonês na mesma corrente que um tártaro.
Todos se amontoaram, depois se emparelharam de qualquer jeito e partiram.
O mais desolador dos quadros: um punhado de pessoas, arrancadas do mundo e privadas de qualquer sombra de esperança em um futuro melhor, afunda na lama negra e fria de uma estrada de terra batida. Tudo ao redor é de uma feiura que chega ao horror: uma lama sem fim, um céu cinzento, salgueiros desfolhados e molhados, e em seus galhos abertos uma gralha cinzenta eriçando as penas. O vento ora geme, ora se enfurece, ora uiva e brame.
Nesses sons infernais, que dilaceram a alma e completam o horror do quadro, ecoam os conselhos da mulher do Jó bíblico: “Amaldiçoa o dia do teu nascimento e morre”.
Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau.”

domingo, 10 de março de 2013

Ser-a-três



“Deito-me junto a ela, a seu corpo impenetrável. Reconheço seu cheiro. Acaricio-a sem olhá-la.
- Ai, você está me machucando!
Continuo. No tocar reconheço as ondulações de um corpo de mulher. Desenho flores em cima. Ela não se queixa mais. Não se mexe mais, lembra-se provavelmente de que está com o amante de Tatiana Karl.
Mas de repente ela duvida enfim dessa identidade, a única que ela reconhece, a única que sempre alegou pelo menos durante o tempo em que a conheci. Ela diz:
- Quem é?
Geme, pede-me que o diga. Digo:
- Tatiana Karl, por exemplo.

Extenuado, quase sem forças, peço-lhe que me ajude:
Ela me ajuda. Ela sabia. Quem fora antes de mim? Nunca saberei. Pouco se me dá.
Depois, aos gritos, ela insultou, suplicou, implorou que a pegasse e a largasse ao mesmo tempo, acossada, procurando fugir do quarto, da cama, voltando para fazer-se capturar, sabida, e não houve mais diferença entre ela e Tatiana Karl, excepto em seus olhos isentos de remorso e na designação que fazia de si mesma – Tatiana, quanto a ela, não se designa pelo nome -, e nos dois nomes que ela se dava: Tatiana Karl e Lol V. Stein.”

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Amar um livro


No início, havia o campo, os invernos rigorosos e uma estranha guerra ocupava os dias. O corpo era muito magro e frágil mas vingou ao abrigo da comunhão com os livros, os cães e os irmãos. Assim se constituiu a sua ideia pessoal de felicidade: uma cama, um livro, um cão e um amante que fosse também um camarada. Terá sido então que os livros se entrelaçaram com o erotismo numa enigmática mas bela coincidência.
[O pai estava ausente: sentado no sofá, fumava cigarro atrás de cigarro e lia um livro grosso. Complexo de Electra. Livros e cigarros: uma compulsão fálica de inspiração-expiração.]
Dos livros recebeu, portanto, a sua educação sentimental e o gosto pelas palavras certeiras. A sua segunda pele. Anos mais tarde, ao deixá-los empacotados num sótão amigo para viajar durante um ano sentir-se-á estranhamente livre e nua. A doença do livro colou-se aos ossos. As noites serão perdidas para a insónia, na angústia da vida não durar nem para metade dos livros que deseja. Sentirá sempre que não se pode ler um livro sem ter lido todos. Por consolo, conceberá a ideia de paraíso-biblioteca. No entanto, terá sempre as suas poupanças empenhadas, penará sempre que muda de casa e irá cometer muitas imprudências na vida, tentando igualar a beleza da arte.
Irá sofrer mas nos ombros sentirá sempre asas prestes a despontar. Aprende-se mulher, cativa-se na ideia de um amor louco. Enternece-se com os desvarios de uma tal Madame Bovary, parece que escolheram ambas viver mal mas poeticamente. Às vezes vacila, as pernas já não prestam para andar, mas sempre acha novo vigor em poemas (ou serão elegias?) como o de Alexandre 0’Neill:
Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

A sua história da leitura confunde-se com os seus amores e desamores. O primeiro será amado com todo o arsenal literário da adolescência, um amor nietzscheano incapaz de durar porque consagrado ao fogo violento. Depois virão as noites das paixões nómadas e cada aurora a achará, deitada num desalinho etílico, com um amante-livro diferente. O coração será um caçador solitário e o amor uma faca que ela usará para se esventrar, procurando acertar em si mesma. Partilhará o sono com mil amores emprestados até que um dia acordará esvaindo-se em sangue. Vermelho imperfeito.
[Os encontros fortuitos na biblioteca. Traz o livro para casa, bem junto ao peito, como quem se orgulha de um crime. As mãos seguras da sua textura. Durante dias não faz mais do que olhá-lo, acariciá-lo e adormecer junto dele. Sonha com a fantasia de um sexo de ler: um texto-carne a penetrá-la, a doer-lhe fundo e um orgasmo acontecendo pelas palavras.]
As noites seguintes serão assombradas pelo chamamento de sereias impiedosas. Conseguirá sobreviver apenas graças às terríveis palavras do Herberto Hélder. Ele nunca saberá mas salvará a sua vida numa altura em que mão alguma a poderia alcançar. Uma noite de primavera adiada virá esse amor louco e bruto, tão arduamente sonhado. Os dias serão então fartos em fomes e enfartes e o corpo, inquieto, cirandará pela cidade, buscando as suas palavras. Será finalmente um livro de pernas abertas que alguém conseguirá ler. Mas de novo a desilusão. Desta vez quase fatal. Vermelho perfeito. Atravessará então a morte desértica, acompanhada apenas pela indignação de Raskólnikov. Sobrevirá depois a grande solidão e durante a travessia desse deserto inumano, nenhum homem ou livro será amado.
Os livros continuarão lá, à espera do seu regresso, amantes leais que ela saberá reencontrar quando regressar à casa que o coração construiu para se abrigar. Com um livro bem junto do peito, ela sentirá por fim a sua alma junta, adormecendo contente e satisfeita, como se tivesse tido uma noite inteira de amor. Um acto de amor diferido, mediado pela solidez do papel, consumado na liquidez da tinta. As frases indizíveis acharão por fim aconchego nos corpos desencontrados no Tempo. E carne e letra fundir-se-ão num só Livro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Liberdade



Hoje acordei muito cedo e saí de casa alegre, sem saber como vai ser a minha vida (“facing the fear that the truth I discovered/No telling how, all this will work out”). 

Vi Lisboa a despertar pelo vidro acelerado, ao som desta música, e soube amar-me como tanto gosto. É que apesar de estar numa fase em que nada possuo, sinto-me deliciosamente calma e confiante no que virá. Sei com uma certeza intocável que fiz a escolha certa e que aquilo que mais quero é liberdade (“I am looking for freedom, looking for freedom/And to find it cost me everything I have/But I’ve come too far to go back now”). E se hoje enfrento as consequências dessa paixão num país fodido e escolho não desertar, é porque sinto com uma convicção íntima que já estive mais longe de coincidir com a minha liberdade.

Tudo o que perdi foram afinal merdas, orgulhos e arrogâncias acessórias, umas quantas euforias baratas. Em troca: uma simplicidade meiga e inusitada. 

Aos poucos as palavras vão regressando, com passos dançantes de mulher que conseguiu sobreviver até à vida. Os olhos conformam-se aos milagres, disponíveis para ver. E as mãos vão reunindo o que lhes chega para escrever. Sabendo que o que vier fará parte. Porque nunca ninguém se perdeu. (“In time the sun’s gonna shine on me nicely (on me yeah)/somethin’ tells me good things are coming/and I ain´t gonna not believe”).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

As Ilhas Malucas


Estar desempregada é fodido pelas mais óbvias razões. Mas também pode ser uma experiência psicadélica capaz de bater qualquer ficção do Pynchon. Para além dos gajos que se fingem dispostos a ajudar quando mal conseguem disfarçar os seus próprios interesses sexuais, acontecem coisas verdadeiramente hilariantes.
Ontem, por exemplo, tive uma reunião surpreendente. Tinha ido correr junto ao Tejo e preparava-me para tomar um duche longo e quente quando me ligaram para falar de uma proposta de trabalho. Desci as escadas do meu prédio, suada e em roupa desportiva, e entrei num carro híbrido (foi a minha primeira experiência num híbrido).

A proposta era a seguinte: existem umas ilhas, cujo nome não se pode mencionar, que estão a ser disputadas por dois países. Alguns documentos foram reunidos em Espanha para provar a pertença histórica e natural (pertença natural?) dessas ilhas a um dos países envolvidos no conflito diplomático e entregues à ONU. Contudo, as provas não são conclusivas e existe a informação de que Portugal poderá (note-se o carácter hipotético da coisa) possuir documentos que comprovam essa pertença. Por isso, um embaixador pagou a um investigador de história para andar a vasculhar em tudo quanto era sítio e arredores para encontrar esses documentos. Três mil euros por baixo da mesa: um primeiro adiantamento. No entanto, parece que o rapaz provocou de algum modo algum descontentamento no embaixador, pelo que existe a possibilidade (ainda não efectiva) de o mesmo embaixador vir a necessitar de contratar outra pessoa para encontrar essas provas. A tarefa é-me proposta, dada a minha experiência em investigação e a (suposta) facilidade que terei, enquanto investigadora de doutoramento, em aceder a documentos mais recatados. Mas, caso aceite, não poderei nunca dizer o que investigo e só num próximo encontro me será dito os nomes das ditas ilhas.

E uma pessoa sobe as escadas do prédio, enfia-se finalmente no duche merecido e delira com máfias diplomáticas e vinte asiáticos a invadirem a Torre do Tombo para destruírem um mapa do século XV. Olha foda-se, Culatra!