segunda-feira, 29 de julho de 2013
um livro do caralho, já se sabia
"e eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu corpo de bode coroado
No fundo da garrafa, a liberdade.
"Os castanheiros inclinavam-se e erguiam-se com um sussurro enlouquecido. O vento secava as lágrimas de Hélène e fazia-lhe arder os olhos; parecia atravessar-lhe a cabeça, mais calma e leve, e aquecia-lhe o sangue. Tirou o chapéu, fê-lo girar entre as mãos, deitou a cabeça para trás e, de repente, com inexprimível assombro, percebeu que estava a sorrir, que esticava devagarinho os lábios para reter e saborear a rajada sibilante que passava.
«Não tenho medo da vida», pensava. «Foram anos de aprendizagem. Foram extraordinariamente duros, mas temperaram a minha coragem e o meu orgulho. Isso é meu, é a minha inalienável riqueza. Estou só, mas a minha solidão é ávida e inebriante.»
Irène Némirovski, O Vinho da Solidão
domingo, 28 de julho de 2013
segunda-feira, 15 de julho de 2013
«Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exactamente à nossa condição, as quais, se de facto pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas.
Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.
As mesmas questões que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens sábios; nenhuma foi omitida, e cada um deles respondeu de acordo com a sua capacidade, por meio de palavras ou da própria vida. De mais a mais, juntamente com a sabedoria aprendemos a liberalidade.»
Henry David Thoreau, "Walden ou a Vida Nos Bosques"
um bom livro é difícil de encontrar
Tenho lido muito. Depois de toda a espécie de alugueres quotidianos, parece que o tempo milagrosamente se dilata quando ao fim do dia me deito na cama para descansar os ossos e ler.
Tenho lido muito sem ser arrebatada. Depois de O Crime e o Castigo parece que mais nada me satisfaz. Como no amor, talvez existam livros que se distingam como maiores, diminuindo a possibilidade das paixões fátuas.
Foi o caso do primeiro livro de Ana Teresa Pereira, Até que a Morte nos Separe. Gosto da maneira como ela escreve, como doseia o enredo e da atmosfera noir que envolve toda a narrativa. Não está nenhuma peça fora do sítio mas também não está lá aquele suplemento de grande beleza. Terminada a leitura, fica uma grande vontade de dividir as minhas noites entre livros e filmes. Já comecei a sacar o They live by night. É preciso continuar a tentar ultrapassar o rasto de melancolia que os grandes amores deixam.
Sempre gostei de histórias de solidão. Há algum tempo (muito tempo?) passava tardes inteiras num cinema de sessões contínuas, vendo filmes do Nicholas Ray: On dangerous ground (ele trazia-me o mundo lá fora, as mãos cheias de flores, um ramo de árvore), In a lonely place (a mais bela frase do cinema, "I was born when he kissed me, I died when he left me, I lived a few weeks while he loved me"). Não conhecia o amor. Ouvira dizer que existia, mas não tinha bem a certeza. E no entanto pressentia que só podia vir assim, quando a solidão era desmedida, e que depois nos deixava sozinhos de novo.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
iluminações profanas
“Agora é como se alguma coisa me levasse pela
mão (…). É como se nos indicassem as palavras foneticamente. Aqui há ligação
automática. Há coisas que tomam a palavra sem pedir autorização para isso. E
isso vai até às mais altas esferas. Há uma senha silenciosa, com a qual certas
coisas agora atravessam o portão.”
“Para nos aproximarmos dos mistérios de felicidade no êxtase teríamos de reflectir sobre o fio de Ariadne. Que prazer no simples acto de desenrolar um novelo! Um prazer que tem afinidades profundas, quer com o do êxtase, quer com o da criação. Avançamos, mas, ao avançar, não só descobrimos os meandros da caverna em que nos aventurámos, como também desfrutamos dessa felicidade do descobridor apenas através daquela outra que consiste em desenrolar um novelo. Essa certeza que nos é dada pelo novelo engenhosamente enrolado que nós desenrolamos não será essa a felicidade de toda a produtividade, pelo menos daquela que tem forma de prosa? E no haxixe somos seres de prosa e de prazer da mais alta potência.”
terça-feira, 2 de julho de 2013
uma mulher perdida
A prosa de Willa Cather é fluída e
delicada. Uma Mulher Perdida versa sobre a passagem da época dos sólidos
pioneiros para a era líquida dos afectos capitalistas. Não comungo,
infelizmente, desta nostalgia.
"Naquela noite, Mrs. Forrester
começou com «em tempos que já lá vão». (...) Contou-lhes que o capitão
Forrester, à época viúvo, tinha viajado até ao acampamento para visitar o sócio
do pai dela. Marian quase não deu por ele - saía todos os dias a passear com os
rapazes. Certa tarde, convenceu o jovem Fred Harney, uma montanhista intrépido,
a descer com ela a Escarpa da Águia. Já quase tinham chegado ao fundo e
avançavam cautelosamente sobre uma laje rochosa saliente quando a corda se
rompeu e caíram os dois desamparados. Harney tombou sobre uns penedos e teve
morte instantânea. A rapariga enredou-se num pinheiro que lhe amorteceu a
queda. Fracturou as pernas e ficou estendida toda a noite no fundo do
desfiladeiro, sob o frio intenso, fustigada pela ventania gélida que ali
soprava. (…) Foi o grupo do capitão Forrester que encontrou Marian e que a
transportou através do carreiro inferior. O trilho era tão íngreme e estreito,
com curvas tão apertadas em volta das saliências rochosas, que era impossível
transportá-la numa padiola. Os homens revezavam-se a carregá-la às costas, com
os ombros a roçar nas paredes do desfiladeiro enquanto avançavam
cautelosamente. Com as pernas fracturadas a baloiçar, suspensas, ela sofria
horrivelmente, e desmaiou uma e outra vez. Porém, deu-se conta de que sofria
menos quando era o capitão Forrester a carrega-la e de que ele o fez em todos
os troços mais perigosos do trilho. – Eu sentia o coração dele a bater e os
músculos a retesarem-se – disse – quando ele se equilibrava sobre os penedos,
comigo às costas. Eu sabia que, se caíssemos, cairíamos os dois juntos, porque
ele nunca me soltaria.
Regressaram ao acampamento e fizeram todos
os possíveis para a tratar, mas, quando um cirurgião finalmente chegou de São Francisco,
as fracturas já tinham começado a cicatrizar e foi necessário partir-lhe os
ossos de novo.
- Era o capitão Forrester que eu queria
que me desse a mão cada vez que o cirurgião tinha de me fazer coisas. Lembras-te,
Niel, ele contava sempre, cheio de orgulho, que eu não gritei uma só vez quando
eles me carregavam por aquele trilho acima. Ele ficou no acampamento até eu ser
capaz de dar os primeiros passos, apoiada no braço dele. Quando me pediu em
casamento, não teve de pedir duas vezes. Espanta-vos? – Percorreu o círculo de
rostos com um olhar sorridente e, num gesto alheado, passou as pontas dos dedos
pela testa, como que para afugentar qualquer coisa – o passado, o presente,
quem sabe…
(…) No fim de contas, ela não tinha mudado
assim tanto desde então. Niel sentiu naquela noite que, apesar do tempo já
decorrido, o homem certo ainda a poderia salvar. Ela conservava ainda a sua
natureza indomável, qual actriz a representar o papel de sempre – mas no teatro,
para a ouvr, só restavam os maquinistas de cena e os ajudantes. Todos quanto
tinham partilhado belos feitos e ocasiões esplêndidas já não se encontravam
ali.”
domingo, 30 de junho de 2013
Guia de Amor para Infiéis
“Não sou má pessoa. Eu sei que
isto soa defensivo, pouco escrupuloso, mas é verdade. Sou como toda a gente:
fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom. A Magdalena, porém, não tem a
mesma opinião. Acha que eu sou um dominicano típico: um sucio, um cabrão.”
“Levas o máximo tempo que podes a desligar o carro. Sentes-te esmagado
por uma tristeza pelágica. Tristeza por teres sido apanhado e pela
incontroversa certeza de que ela jamais te perdoará. Olhas para as suas pernas
incríveis e para o seu entrepernas, para essa ainda mais incrível pópola que
amaste de forma tão inconstante nos últimos oito meses. Só quando ela avança
furiosa na tua direcção é que tu sais finalmente do carro. Atravessas descontraidamente
o relvado, propulsionado pelo derradeiro gás da tua revoltante sinvergüenceria.
Hey, muñeca, dizes, prevaricando até ao fim. […] Em vez de baixares a cabeça e
aguentares como um homem, pegas no diário com a ponta dos dedos, como se fosse
uma fralda de bebé recém-cagada, como se fosse um preservativo recém-usado. Passas
os olhos pelos excertos acusadores. Depois olhas para ela e sorris um sorriso
que o teu rosto hipócrita irá recordar até ao fim dos teus dias. Querida,
dizes, isto é apenas um capítulo do meu romance.
É assim que a perdes.”
“A nossa relação não era para ser nada de sério. Não nos vejo casados
ou algo do género, e tu acenaste com a cabeça e disseste que compreendias. Depois
fodemos, para podermos fingir que nada de doloroso se tinha passado. Devia ser
talvez a quinta vez que estávamos juntos e depois de pores um vestido preto e
justo e calçares as sandálias mexicanas, disseste-me que podia telefonar-te
quando quisesse, mas que tu nunca me telefonarias. Tu é que tens de decidir
onde e quando, disseste. Se ficasse ao meu critério, disseste, ia querer ver-te
todos os dias. […] Tu não queres desistir, mas também não queres sair disto
magoada. Não estamos no melhor dos barcos, mas que queres que te diga? […] És a
única pessoa que conheço que consegue passar tanto tempo como eu numa livraria.
Uma espertinha: algo que não se encontra facilmente.”
“E porque o amor, o verdadeiro amor, não é coisa que se esqueça
facilmente. […] A princípio, fazes de conta que não te importas. Seja como for,
tens muitas razões de queixa em relação a ela. Tens sim! Não sabia fazer
broches, tinha na cara uma penugem detestável, nunca rapava os pelos púbicos, não
limpava o apartamento, etc. […] Tão depressa estás a ponto de te meter no carro
para ir a casa dela, como logo no minuto seguinte estás a telefonar a uma sucia
e a dizer-lhe: És a mulher dos meus sonhos.”
“E, por fim, quando te julgas capaz de o fazer sem te desintegrares
numa combustão de átomos, abres uma pasta que mantiveste escondida sob a cama. O
Livro do Juízo Final. Cópias de todos os e-mails e fotos dos teus tempos de
infiel, aquelas que a ex descobriu e compilou e te enviou por correio um mês
depois do fim. Querido Yunior, material para o teu próximo livro. Deve ter sido a última vez que ela escreveu
o teu nome.
Lês aquilo tudo da capa à contracapa (sim, ela mandou encapar). Com surpresa,
verificas que és um cobarde e um cagarolas do caralho. Custa admitir, mas é um
facto.”
É assim que a perdes de Junot Díaz. Vale muito a pena ler: pelo tom coloquial e honesto até ao osso como narra a masculinidade. Um homem está obrigado a ser um homem: aí começa a genealogia dos cabrões. É bom conhecer-lhes os corações frágeis, obrigados à dureza, raramente expostos.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
O Jogo Sério ou a pantomina do amor
O Doutor Glas deixou-me muito curiosa sobre a obra de Hjalmar
Söderberg, pelo que fiquei muito alegre quando soube na Feira do Livro que a
Relógio d’Água tinha acabado de publicar outro livro do autor. O Jogo Sério é, nas palavras de Henning
Mankel, “uma história de amor que não
envelhece. Mantém-se tocante, evocativa e vívida”. A história de Arvid e Lydia
insere-se numa tradição comum daquilo que se chama a novela do adultério. Mas
mais uma vez, temos de olhar para além das aparências em Söderberg. Ao
contrário de Madame Bovary ou Anna Karenina, aqui ninguém morre por amor. A
visão deste amor extraconjugal – o mais apto à codificação romântico porque
externo ao contrato racional do casamento – não conserva qualquer vestígio de
tragédia.
Arvid e Lydia nunca se
comprometem de facto um com o outro. O jogo sério que ambos jogam é o da
pantomina do amor, nenhum representando de forma exemplar. Tudo é banal e todos
enganam todos. “Enquanto se beijavam, ele
pensou: isto é apenas um gesto de cortesia exigido pela situação.” Quando a
mulher de Arvid lhe pergunta se ele ouviu dizer alguma coisa, é impossível não suspeitar
dela também. Tem razão a figura do escritor Rissler quando afirma que uma personagem
construída a partir de Lydia é artificial. Neste jogo sério todos são
artificiais, embora insistam em mimetizar o humano.
Hjalmar Söderberg é talvez um
autor que, à falta de um melhor termo, se poderia chamar pós-moderno. Não na
forma obviamente, pois a sua prosa conserva a elegância e coerência narrativa
do século XIX, mas na solução pós-romântica que as suas histórias encontram. O Jogo Sério e O Doutor Glas partilham o mesmo problema moral. A razão moderna fez
da moral uma forma opaca que paradoxalmente se opõe à concretização desse mesmo
projecto racionalista. Morto Deus, tudo se torna inevitavelmente permitido.
Disso se dava conta Dostoievski através de Raskolnikov e do seu crime, embora o
seu espírito ainda fosse refém de uma certa beatitude sagrada que impunha o
castigo e a redenção.
Em O Doutor Glas,
Söderberg repete a questão da relação entre ateísmo e crime, tendo a coragem
necessária de afastar a assombração divina da equação. O que resulta num
problema ainda mais bicudo: eliminada a autoridade da lei e a sua concomitante
produção de culpa, os modernos estão entregues a um tédio sem resolução. A
moral torna-se um termo formal, cuja maioria reconhece na sua arbitrariedade, e
a vida parece não encontrar outro destino para além da bestialidade infeliz. A primeira coisa que fizera ao mudar-se
para aquele quarto fora tirar todas as horrendas pinturas da senhoria. Não tinha
nenhumas com que as substituir; enquanto as retirava, ocorrera-lhe, com um
sorriso, quão típica era esta atitude – nada mais fácil do que deitar abaixo as
coisas, mas voltar a levantá-las era outra história.”
Crime e amor são reversos do
mesmo problema íntimo de uma subjectividade que ao perder o Outro fica
encerrada numa solidão sem recursos. O que me recorda recentes palavras de
alguém: “tu jogas bem sem bola”. É
fácil para quem fez do amor uma aposta e perdeu.
“Ela deve estar agora a percorrer Djurgarden para ir ao encontro dele.
O Sol brilha. Ela pára numa curva do caminho e diz-lhe, de olhos baixos sob as
longas pestanas: «Há uns dias encontrei um homem que amei em tempos. Não compreendo
como é que alguma vez o pude ter amado.»
…E o comboio continuou a rolar…”
domingo, 9 de junho de 2013
terça-feira, 4 de junho de 2013
to shake a memory
Working through das pain
Last night I swear I felt your touch
Gentle and warm
The hair stood on my arms
How, how, how?
Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory
I flipped my forelock, I twitched my withers, I reared and bucked
I could not put my rider aground
All these fine memories are fuckin' me down
I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Love is the king of the beasts
A lion walking down city streets
I fell back asleep some time later on
And I dreamed the perfect song
It held all the answers, like hands laid on
I woke halfway and scribbled it down
And in the morning what I wrote I read
It was hard to read at first but here's what it said
Eid ma clack shaw
Zupoven del ba
Mertepy ven seinur
Cofally ragdah
Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory
terça-feira, 28 de maio de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
domingo, 12 de maio de 2013
A dor não me domesticará
O primeiro banho do ano. Entrei nas águas geladas com toda a coragem restante no corpo combalido pela longa noite e formulei o meu grande desejo para este verão. Chegou a hora de esquecer os assombros da morte que passou. A verdade é que estou viva e nem sempre se morre de morte. É tempo de esquecer a memória da dor e voltar a ser selvagem como sempre fui.
sábado, 11 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Da inocência obstinada
Há algum tempo que não me deixava tocar por
um livro. Tenho andado arisca a literaturas, concentrada em usar as pernas para
andar. Tentando manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Mas às vezes o sonho faz sentir a sua falta
nas mãos inquietas que fumam demasiado. Foi assim na manhã alegre de sábado em
que encontrei o livro Os Cães e os Lobos. Confortadas pela presença do livro,
as mãos abrandaram junto ao peito, trocando a compulsão do fumo pelas palavras
límpidas de Irène Némirovsky.
Não concordo com o texto da contracapa que
apresenta a obra como “um romance sobre a
infância e a inocência perdida, uma obra-prima indiscutível da literatura do
século XX”. A cada leitor o seu livro: para mim, é um romance sobre a
infância e a inocência obstinada.
O enredo acompanha a história solitária de
Ada, uma judia pobre que se apaixona por Harry, filho de um rico banqueiro
judeu. Através da narração deste amor insensato, conhecemos a diferença entre os
cães e os lobos. Os lobos desejam com toda a força das suas almas, cravam os
dentes nas presas da sua esperança e não largam. Conseguem privar-se dos bens
essenciais e decorativos mas não abdicam das suas alucinações interiores. Os cães
também sentem dentro de si esse desejo insaciável de felicidade mas sem os
lobos são incapazes de deixar a atmosfera doméstica onde confortavelmente
definham.
“Madame Mimi deu apressadamente meia-volta e
Ada foi atrás dela, cabisbaixa, com a sensação que toda a gente a olhava e se
ria à sua custa. Adoptou uma expressão tão singular, tão concentrada e dolorosa
que a francesa parou e advertiu-a:
- Ada, não se deve desejar com tanta força.
- Não consigo ser de outra maneira, Madame
Mimi.
- Tem de ser mais desprendida. Perante a
vida, a menina tem de ser generosa como um credor compreensivo e não como um
ávido usurário.
- Não consigo ser de outra maneira – repetiu Ada.”
Ocorrem-me mais uma vez os versos de Sylvia
Plath:
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
E sei que também eu não consigo ser de outra
forma. Há no meu sangue uma ingenuidade obstinada que não se deixa domar. "Pudica
e selvagem, de corpo e alma..."
Crónica do Amor que Começa
"Esta semana não tem jeito, esta semana é de conversa com Paulo Mendes Campos. Reler o homem dá nisso.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:
E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?
O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?
Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.
O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.
O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.
E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!
O amor começa “ah lá em casa”.
Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.
Amor não carece de tira-teima.
Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.
O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!
O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.
O amor tem que começar, por exemplo, na contramão, o amor tem que começar em São Paulo, para depois evoluir até a beira da praia, uma pousada, o sal marinho que salva os velhos safados, uma metida em pé romantiquinha antes do jantar e da larica, a fome de viver, a perna bamba diante do garçom que pensa “já fui bom nisso”.
O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.
O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.
Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.
Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?"
Xico Sá
Quem tem medo de Sylvia Plath?
Toda a gente sabe que mulheres que
lêem são perigosas. E que mulheres que lêem e escrevem são fatais. Historicamente,
as mulheres foram sempre mais vulneráveis à loucura pela identificação
romanesca. Sylvia Plath, encontrada morta na sua casa, a 11 de Fevereiro de
1963, com a cabeça dentro do forno e o gás ligado, tornou-se o ícone pop da femme fatale que lê e escreve. Bonita,
inteligente e perturbada, o seu nome foi usado para designar o célebre ‘efeito Plath’, uma suposta propensão das
poetisas para os distúrbios mentais. Devota das palavras certeiras, Sylvia consagrou
a sua vida ao “grande striptease”,
confundindo literatura e vida. Em Lady
Lazarus, escreveu sobre as suas tentativas de suicídio:
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times
to die.
O que quase ninguém sabe ou diz é que
existem textos que matam. Textos que deixam as mãos, os olhos e os ouvidos
ensanguentados. Palavras que incitam à revolta, ganas de sair pelas ruas
gritando o que todos calam, que assim, meus senhores, não se pode viver. É
preciso inventar uma outra vida que não estes dias chãos, dias de cão roendo os
ossos e as vísceras. Inventar um amor novo, louco e forte, para derrotar o medo
que corrompe as falanges. A vida inteira revisitada e
não se encontra recordação que sirva de mastro, farol ou almofada. Tudo tão
violento para depois se morrer no fim. Textos assassinos cujas palavras,
dispostas numa determinada sequência, nos amarrotam o peito com uma mão negra e
tornam a morte certa e inevitável.
Suspeitei desde cedo que as palavras
não são tão inofensivas como a presente cultura da imagem pretende fazer
esquecer e que tudo pode ser textualmente produzido, desde o amor à morte. Ou:
sobretudo o amor e a morte. E foi nas palavras de Sylvia Plath no poema Three Women que encontrei a minha primeira
grande máquina de morte escrita, numa encenação teatral da qual saí lívida e
assustada.
When I first saw it, the
small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office. They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,
And the man I work for laughed: 'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.' And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
I watched the men walk about me in the office. They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,
And the man I work for laughed: 'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.' And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
Assustada de morte. De repente, era
tarde demais. Tarde demais para desejar, tarde demais para descansar. O
mistério da vida revelava-se sob a forma de uma pergunta atroz, impedindo
qualquer respostas que não fosse violenta. Exposto aos sons destas letras, o
corpo perdia a sua capacidade de ser casa e quietude. Expulso da vida, estava
entregue à noite e ao silêncio.
Mas nem todos os textos
matam de um só golpe. Existem outros que se instalam nos escaninhos da alma e
lentamente a corroem até à derrocada. No entanto, esta morte textual não está
destinada a todos e é imprevisível. Depende da sequência das leituras e só
acontece a quem aceita tomar o tempo e o pensamento com a mesma compulsão voraz
de quem toma uma droga. Os dias sucedem graves e mesmerizados como estátuas de
gelo, cada minuto sacrificado no altar do demónio internalizado. É assim que se
caminha e cai ao mesmo tempo, e da alegria mais fértil nasce o desespero mais
daninho.
Sobrevém depois o grande
abalo. O chão treme como um dia a cabeça desejou e os pés já não dançam como
antes. Dentro do corpo tudo se escoa e converte em detrito e fica-se a sós com
um grande medo que não autoriza esquecimento ou sono. É-se tomado por uma
tristeza que não nos pertence, um bicho arcaico vindo de tempos remotos para se
alojar num organismo estranho e parasitar as suas entranhas.
Mas nem sempre se acaba
com a cabeça dentro do forno. Às vezes, um texto assassino é o golpe de
misericórdia necessário para uma mulher se parir a si mesma. E é possível
regressar das mortes múltiplas sibilando baixinho: a literatura é sobretudo
exercício de queda e voo. Nela dificilmente encontrarás amparo ou abrigo,
coração excessivo. É preciso que continues caindo para a frente e descubras
como pode uma morte convalescer. Felizmente, existe também a música.
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