segunda-feira, 23 de julho de 2012
Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.
Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
A ousadia de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguião selvagem e debochada dos factos nus,
o tactear indecente de temas delicados,
a desova das idéias – é disso que eles gostam.
À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triangulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)
Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)
É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”
wislawa szymborska, opinião sobre pornografia
"(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa."
Clarice Lispector, Felicidade Clandestina
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
Álvaro de Campos
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
Álvaro de Campos
segunda-feira, 16 de julho de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
de qualquer dos modos vais acabar com o fígado podre e o coração partido
“Hesito em confessá-lo,
com medo de proferir ainda alguns palavrões: parece-me bem que senti nessa
altura, a necessidade de um amor. Obsceno, não é? Experimentava, no entanto, um
sofrimento surdo, uma espécie de privação que me tornou mais disponível e me
permitiu, meio forçado, meio curioso, tomar alguns compromissos. Pois que tinha
necessidade de amar e ser amado, julguei-me apaixonado. Por outras palavras,
fiz de parvo.
(…)
Tomei-me assim de uma
falsa paixão por uma pateta encantadora, que tinha lido tão bem a literatura
cor-de-rosa que falava do amor com a segurança e a convicção de um intelectual
anunciando a sociedade sem classes. Tentei falar também do amor e acabei por eu
próprio me persuadir. Até, pelo menos, ao momento em que ela se tornou minha
amante e eu compreendi que a literatura cor-de-rosa, que ensinava a falar do
amor, não ensinava a praticá-lo. Depois de ter amado um papagaio, tive de
dormir com uma serpente. Procurei, pois, noutro sítio, o amor prometido pelos
livros e que nunca encontrara na vida.
(…)
Fora do desejo, as
mulheres aborreceram-me para além de tudo o que seria de esperar e,
visivelmente, também eu as aborrecia. Nada de jogos, nada de teatro, eu estava,
sem dúvida, dentro da verdade. Mas a verdade, caro amigo, é uma estopada.
Desesperado do amor e
da castidade, lembrei-me, enfim, de que restava o deboche, que substitui muito
bem o amor, faz calar os risos, restabelece o silêncio e, sobretudo, confere a
imortalidade. Num certo grau de embriaguez lúcida, deitado, alta noite, entre
duas raparigas, e vazio de qualquer desejo, a esperança já não é uma tortura,
repare, o espírito reina sobre todos os tempos, a dor de viver está para sempre
afastada.
(…)
O álcool e as mulheres
forneceram-me, devo confessá-lo, o único alívio de que era digno. Confio-lhe
este segredo, caro amigo, não
receie utilizá-lo. Verá então que o verdadeiro deboche é libertador porque não
cria nenhuma obrigação (…). Deixa-se, ao lá entrar, tanto o medo como a
esperança (…) Servi-me, em todo o caso, sem medida desta libertação (…).
Passarei isso por alto: o senhor sabe que até pessoas muito inteligentes tiram
glória do facto de poderem esvaziar uma garrafa a mais que o vizinho. Eu teria
podido, enfim, encontrar a paz e libertar-me nesta dissipação. Mas, mesmo aí,
encontrei um obstáculo em mim mesmo. Foi o fígado, desta vez, e um cansaço tão
horrível que ainda não me largou. Brincamos aos imortais e ao fim de algumas
semanas já nem sequer sabemos se nos poderemos arrastar até ao dia seguinte.”
A cantiga do bandido explicada às criancinhas
“Nestas relações, aliás
eu satisfazia ainda outra coisa, além da sensualidade: o meu amor do jogo. Eu
amava nas mulheres as parceiras de um certo jogo, que tinha, pelo menos, o
sabor da inocência. Veja bem, não posso suportar o tédio e só aprecio na vida
as distracções (…).
Por conseguinte, eu ia
no jogo. Sabia que elas gostavam que se não fosse muito depressa ao fim. Antes
de tudo, era precisa conversa, ternura, como elas dizem (…). Mudava muitas
vezes de papel, mas tratava-se sempre da mesma peça. Por exemplo, o número da
atracção incompreensível, do «não sei quê», do «não há razões, eu não desejava
ser atraído, estava, no entanto, cansado do amor, etc…» era sempre eficaz, posto
que seja um dos mais velhos do repertório. Havia também o da felicidade
misteriosa que nenhuma outra mulher jamais nos deu, que é talvez sem futuro, de
certeza mesmo (…). Eu tinha aperfeiçoado, sobretudo, uma pequena tirada, sempre
bem recebida, e que o senhor aplaudirá, tenho a certeza. O essencial desta
tirada consistia na afirmação dolorosa e resignada, de que eu não era nada, não
valia a pena prenderem-se a mim, a minha vida estava alhures, passava ao lado
da felicidade de todos os dias, felicidade que talvez eu preferisse a tudo o
resto, mas, enfim, era tarde demias. Sobre as razões deste atraso decisivo, eu
guardava segredo, pois sabia que era melhor dormir com o mistério. Em certo
sentido, aliás, acreditava no que dizia, vivia o meu papel. Não admira, pois,
que as minhas parceiras se entusiasmassem também com o delas. As mais sensíveis
das minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender e este esforço levava-as
a melancólicos abandonos. As outras, satisfeitas por verem que eu respeitava as
regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir, passavam sem
esperar às realidades. Tinha então ganho duplamente, pois que, além do desejo
que sentia por elas, satisfazia o amor que eu me dedicava, verificando de cada
vez os meus belos poderes.
Tanto isso é verdade
que, mesmo se acontecia que algumas me não dessem senão um prazer medíocre, eu
tratava, contudo, de reatar com elas, de longe em longe, animado, sem dúvida,
por este desejo singular que é favorecido pela ausência, seguida de uma cumplicidade
de súbito reencontrada, mas também para verificar que os nossos laços se
mantinham ainda e que só a mim competia estreitá-los. Por vezes, chegava mesmo
ao ponto de lhes fazer jurar que não pertenceriam a nenhum outro homem, para
aplacar de uma vez para sempre, as minhas inquietações sobre este ponto. O
coração, todavia, não tomava parte alguma nesta inquietação, nem a imaginação
tão-pouco. Uma certa espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em
mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher
que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. Mas este juramento
que elas me faziam libertava-me, prendendo-as. Desde o momento que não
pertenciam a ninguém, podia então decidir-me a romper com elas, o que, de outra
maneira, me era quase sempre impossível. A verificação, no que lhes dizia
respeito, estava feita de uma vez para sempre e o meu poder assegurado por
muito tempo. Curioso, não? É, no entanto, assim, meu caro compatriota. Uns
gritam: «Ama-me!» Outros: «Não me ames!». Mas uma certa raça, a pior e a mais
infeliz: «Não me ames e sê-me fiel!»
Somente, aí está, a
verificação nunca é definitva, é preciso recomeçá-la com cada ser. À força de
recomeçar, contraem-se hábitos. Bem depressa o discurso nos surge sem pensarmos
nisso, segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem
verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não
possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo.”
Albert Camus, A Queda
Albert Camus, A Queda
terça-feira, 10 de julho de 2012
Ask the Dust
“Aí vai o Bandini pela rua fora; não é alto mas é robusto, tem orgulho nos seus músculos, cerra os punhos para admirar a rija alegria dos bíceps, é absurdamente destemido esse Bandini, nada receia além do que não conhece neste mundo de misteriosos prodígios. Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite grita que sim. Tenho vinte anos, cheguei à idade da razão, preparo-me para percorrer as ruas da cidade à procura de uma mulher. Terei a alma já manchada, será melhor voltar para trás, será que um anjo me protege, será que as preces da minha mãe me tranquilizam, será que as preces da minha mãe me aborrecem?
[…]
Então que hei-de fazer? Devo erguer a boca aos céus, gaguejar ou balbuciar em voz temerosa? Devo bater no peito nu como num tambor ressonante para atrair a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais razoável que me resguarde e continue o meu caminho? Haverá inquietação e desejo ardente; haverá solidão, mitigada apenas pelas lágrimas que hão-de correr para me adoçarem os lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá uma beleza semelhante ao amor de uma qualquer rapariga morta. Haverá riso, um riso contido, e uma serena espera nocturna e um vago receio da noite que trará consigo o ávido e injurioso beijo da morte. Depois será noite, o tempo dos doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre os meus sentidos pelos capitães que abandonei no ímpeto sonhador da minha juventude. Mas serei perdoado por isso e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante adejar das asas de Voltaire, por me ter detido a ouvir e a observar essa ave fascinante, por tudo isso serei perdoado quando regressar à minha terra natal junto ao mar.”
Junkie literária à míngua
Junho foi passado com a Ressurreição de Tolstoi: um livro demasiado beato que não aquece nem arrefece. Não há nada mais terrível que um coração despido de paixão e de livros, sobretudo para quem está habituado a doses elevadas de ambos. É como uma fome que desorienta e mói e tudo varre. Como uma morte lenta e estudada. Reconheço que sou viciada nas sensações de vertigem e que tenho sérios problemas em sentir-me viva quando não sinto um tambor rugir descompassado no peito. E que até posso abdicar das ideias regadas a risos excessivos, das doses pouco recomendáveis de whisky e das histórias de amor fodido; agora sem livros, sem os livros grandes, belos e cruéis sinto-me como um trapo amarfanhado a um canto insípido da vida menor e isso é intolerável e sufoca como um verão desperdiçado numa aldeia do tédio.
“Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, mas nenhum desses livros parecia ter qualquer relação comigo, ou com as ruas, ou com as pessoas que me rodeavam (…). Para encontrar algum risco, alguma paixão, era necessário recuar aos escritores russos anteriores à Revolução. Havia excepções, mas eram tão raras que depressa se esgotavam, deixando-nos a olhar para estantes e mais estantes cheias de livros incrivelmente enfadonhos. Apesar de um legado de muitos séculos e de todas as suas vantagens, os autores modernos não eram, afinal, grande coisa.
Tirava das prateleiras livro atrás de livro. Porque é que ninguém dizia nada? Porque é que ninguém gritava?”
Charles Bukowski
segunda-feira, 2 de julho de 2012
A MULHER
“Dá-me algo lento e fino
como
uma faca nas costas
E se
nada tens para dar-me
dá-me
tudo o que te falta!
CARLOS
EDMUNDO DE ORY
(…)
Quero uma mulher assim,
de silêncios
venenosos, que me morda
o tendão
do ombro e da língua, e
abuse
de declarações de
guerra e paz,
vá para o inferno e
regresse
no meio de um mar de
boatos
exibindo gloriosos
arranhões,
e me arraste em jogos
de malícia,
me esconda o coração e
me deixe
doido dias inteiros
atrás de pistas
e coordenadas.
Não quero uma mulher
explicada,
prefiro o assombro.
Antes aturar
mistérios, teimas,
transes e jejuns,
mesmo às vezes a troça
e o desprezo,
e que quando se sinta
enfastiada
fuja sem aviso e se
feche parindo
a escuridão.
Que me adore e se
farte, me empurre
do alto das escadas, e
se ria perdidamente
ou chore e me asfixie
devagarinho
com os primeiros
cabelos que lhe
nasçam brancos. Quero
que até esse dia
em que se chegará
tristemente
para pedir-me a mão
logo depois
que o seu rosto se
retire para sempre
de todos os espelhos.
No fim, nem me importa
que nunca venha a
cruzar-se comigo,
que isto eventualmente
ainda seja eu
a roubar acessórios em
lojas
de senhora. Pelo menos
não será
uma coisa que se
explique nem alguém
que tenha a descortesia
de dizer por aí
que chegámos a um
entendimento.
Diogo Vaz Pinto
domingo, 1 de julho de 2012
Hurricane
Welcome to the inner workings of my mind
so dark and foul I can’t disguise
can’t disguise
nights like this I become afraid of the darkness in my heart
hurricane
terça-feira, 26 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
il faut croire pour danser
CONDE: Felicidade? Por
favor, senhora. Não há felicidade. As coisas de que mais se fala são
precisamente as coisas que não existem… Por exemplo, o amor. Essa também é uma
delas.
ACTRIZ: Se calhar tem
razão.
CONDE: Prazer…
ebriedade… pronto, escusado será dizer… isso são coisas certas. Estou a fruir
de alguma coisa… bom, sei que estou a fruir. Ou estou inebriado, belo. Também é
certo. E quando acabou, acabou de vez.
(…)
CONDE: Certo. Portanto,
como eu disse, a diferença não é lá muita. Se eu à noite for para o casino ou o
clube, é tudo a mesma coisa.
ACTRIZ: E qual a
relação entre isso e o amor?
CONDE: Quando se acredita
nisso, há sempre alguém ao lado que gosta de nós.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Coração, caçador solitário
“Que diria a
Pórtia se soubesse que sempre tinha havido alguém, um depois do outro? E todas as
vezes era como se uma parte dela estoirasse em cem pedaços.
[…]
Pensou e repensou,
sempre a bater nas coxas com os punhos fechados. Sentia a cara como se a tivesse
dividida em bocados separados e a não pudesse manter direita. Era uma sensação mil
vezes pior que a fome, e no entanto era com a fome que isto se parecia. “Eu quero…
eu quero… eu quero…”, repetia, sem poder pensar noutra coisa: mas o que fosse esse
querer não saberia dizê-lo.”
quarta-feira, 6 de junho de 2012
As Anotações de Malte Laurids Brigge
Um homem de 28 anos, dinamarquês, chega à grande cidade, Paris, num
estado frágil. Vem para empreender uma grande aprendizagem. A cidade está cheia
de hospitais e cheira a medo por todos os muros e recantos. Os ruídos não o
deixam adormecer de noite mas há também o grande silêncio terrível. A grande
transformação começa pelas ruas, pelo olhar que aprende a ver os rostos e os
não-rostos.
“Mas aquela mulher, aquela mulher: estava completamente ensimesmada,
de cabeça inclinada para a frente, sobre as mãos. Foi na esquina da rue
Notre-Dame-des-Champs. Assim que a vi comecei a andar sem fazer ruído. Quando
os pobres se põem a pensar não se deve incomodá-los. Talvez acabem por
lembrar-se.
A rua estava vazia de mais, o seu vazio aborreceu-se e retirou-me o
passo debaixo dos pés e pôs-se a bater com ele, aqui e acolá, como se fosse uma
tamanca. A mulher assustou-se e saiu do seu ensimesmamento, demasiado depressa,
com demasiada violência, de tal modo que o rosto lhe ficou nas duas mãos. Eu
podia vê-lo nessa posição, ver a sua forma oca. Custou-me um esforço
indescritível fixar o olhar apenas nas mãos e não o levantar para ver o que
delas se tinha arrancado. Sentia o pavor de ver um rosto por dentro, mas tinha
um medo ainda maior de uma cabeça nua e em carne viva, sem rosto.”
Malte tem medo. Sabe que a morte foi seriada mas não perdeu a sua dificuldade.
Escreve as noites contra o medo. Esquece as suas recordações e aguarda
pacientemente o seu regresso. Separa-se de tudo e de todos. Com as palavras de
Baudelaire, reza a Deus. Tudo o que se perdeu na infância retorna, os perigos
passados tornam-se novamente presentes.
"A existência do terrível em cada partícula de ar. Tu respira-lo com a
sua transparência; mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas
e geométricas entre os órgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em
lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de
operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma
resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é,
à sua terrível realidade.”
Malte não tem para onde ir, o seu coração expulsa-o de si mesmo. A vida torna-se indistinta e incomunicável. Pressente, no entanto, uma bem-aventurança próxima, nas Amantes, as poderosas Amante, como
Gaspara Stampa e Mariana Alcoforado e nos seus amores que não precisam de
qualquer correspondência, porque são chamamento e resposta; as imortais amantes
que ultrapassam sempre o amado pela felicidade da sua entrega, porque sabem já
que a união de dois seres nada mais pode trazer do que um acréscimo de solidão.
“O que sabiam eles sobre quem ele era? Ele era agora extremamente difícil
de amar e sentia que só Alguém o poderia fazer. Mas esse ainda não queria.”
terça-feira, 5 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Do erotismo da leitura
“Estou sentado a ler um
poeta. Há muitas pessoas na sala, mas passam desapercebidas. Estão embrenhadas nos
livros. Por vezes movimentam-se nas páginas como quem está a dormir e se volta entre
dois sonhos. Ah, como é verdadeiramente bom estar entre pessoas que lêem. Porque
é que elas não são sempre assim? Podes aproximar-te de uma e tocar-lhe ao de leve:
ela nada sente. E se, quando te levantares, deres um leve empurrão ao vizinho do
lado e pedires desculpa, ele faz um gesto de assentimento para o lado de onde veio
a tua voz, o seu rosto vira-se para ti e não te vê, e tem o cabelo como o de alguém
que está a dormir. Como isto faz bem! E eu estou sentado e tenho um poeta. Que destino!”
Rainer Maria Rilke, As
Anotações de Malte Laurids Brigge
Da compulsão de ler
“E quando voltei a Ulsgaard
e vi todos aqueles livros, atirei-me a eles, com enorme pressa, quase com má consciência.
Aquilo que mais tarde senti com tanta frequência, pressenti-o então de alguma maneira:
que não se tinha o direito de se abrir um livro sem se comprometer a lê-los todos.
A cada linha abria-se o mundo. Antes dos livros ele encontrava-se intacto, depois
deles talvez de novo completamente inteiro.”
Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge
Rainer Maria Rilke, As Anotações de Malte Laurids Brigge
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Do prazer de confessar
“Tornámo-nos, desde então, uma sociedade singularmente
confidente. A confissão difundiu longe os seus efeitos: na justiça, na
medicina, na pedagogia, nas relações familiares, nas relações amorosas, na
ordem mais quotidiana e nos ritos mais solenes; confessam-se os crimes,
confessam-se os pecados, confessam-se os pensamentos e os desejos, confessam-se
o passados e os sonhos, confessa-se a infância, confessam-se as doenças e as
misérias; as pessoas esforçam-se com a maior exactidão por dizer o que há de
mais difícil de dizer; confessam-se em público e em privado, aos pais, aos
educadores, ao médico, àqueles que amam; a si próprias fazem, nos prazeres e
nos desgostos, confissões impossíveis a qualquer outro, e com que se fazem
livros.
[…]
Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar
prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do
prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la,
em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo,
em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o
prazer (…). Os livros sábios, escritos e lidos, as consultas e os exames, a
angústia para responder às perguntas e as delícias em sentir-se interpretado,
tantas narrativas feitas a si próprio e aos outros, tanta curiosidade, tão
numerosas confidências cujo escândalo é aguentado pelo dever da verdade, não
sem tremer um pouco, o pulular de fantasias secretas em que se paga tão caro o
direito de as murmurar a quem as sabe ouvir, numa palavra, o formidável «prazer
da análise» (no sentido mais lato desta última palavra) que o Ocidente há
vários séculos sabiamente fomentou”.
Michel Foucault, História da Sexualidade I. A Vontade de Saber
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
sempre a mesma dor de ser quase:
Não
consigo evitar um certo misticismo recente em mim. Após mais uma série de jogos
mentais em que a minha cabeça se serviu de todos os limites para me desafiar,
sobreveio em Março uma crise nervosa violentísima e deixei Lisboa às pressas.
Rumo à minha infância e à minha fragilidade. Fugi com medo, verdadeiro terror,
tendo visto a noite em pleno meio-dia e não sabendo como voltar as vestir as
coisas mortas e tornar a viver. A única salvação possível que se me afigurava
era entrar pela carne a dentro dos outros para não sentir tanto o mal-estar do
meu corpo. Fui para junto dos meus, magra, assustada, e pedi ajuda, pela
primeira vez. E a coisa correu francamente bem, tão simples e apaziguador como…
como pedir e receber.
Recobrei.
Recobro todos os dias, ainda a medo, frágil, doce. E nos últimos dias, perante
alguns acontecimentos, constatei em mim algo que se constituía como uma enigma:
perante situações temerosas ou passionais, não consigo sentir nada, sou de uma
insensibilidade dura que por vezes fere a carne dos outros; noutros casos, em
contextos insignificantes, como perante o encontro de um rosto anónimo no
metro, uma tonalidade do céu, o aroma de uma esquina, uma frase ou melodia, o
sangue ferve e quebro com a facilidade de um ramo seco. Que estranha álgebra
poderá explicar esta insensibilidade mórbida que vibra com os nervos
arrebitados em franja?
Andava
às voltas com esta pergunta enquanto lia A
Educação Sentimental do caríssimo Flaubert e eureka! eis que mais uma vez,
ele me explica a mim mesma! As semelhanças com Madame Bovary são extensas;
fiquemo-nos pelas mais evidentes: o protagonista Frédéric, jovem possuído pelas
suas leituras românticas que obsessivamente tenta replicar, entendia-se perante
o atraso da felicidade merecida pela excelência do seu espírito. Os primeiros
capítulos apresentam-no como um animal engaiolado nas suas fantasias, as suas
ocupações exclusivas consistem em olhar, meditar, sonhar, aborrecer-se
mortalmente, deambular pelos bulevares de Paris para se distrair de si e
aturdir-se com a multidão e o rumor contínuo. A sua libido fixou-se
obsessivamente numa senhora casada.
“As
prostitutas que encontrava à luz do gás, as cantoras soltando gorjeios, as
amazonas nos seus cavalos a galope, as burguesas a pé, as costureirinhas à
janela, todas as mulheres, ou por semelhanças ou por contrastes violentos, lhe
recordavam a Senhora Arnoux. Olhava, ao longo das lojas, os xailes, as rendas e
os pingentes de pedrarias, imaginando-os enrolados à volta dos seus rins,
cosidos ao espartilho, fazendo reflexos na cabeleira negra. Nos expositores das
vendedoras, desabrochavam as flores para que ela as escolhesse, ao passar; na
montra das sapatarias, as pequenas pantufas de cetim bordadas pareciam esperar
o seu pé; todas as ruas iam dar a casa dela; as carruagens estacionavam nas
praças abertas apenas para o levarem lá mais depressa; Paris ligava-se à sua
pessoa, e a grande cidade, com todas as suas vozes, sussurrava como uma imensa
orquestra em torno dela.”
Mas
a semelhança fundamental entre este romance e o outro é o tédio, que
parasitando tudo e todos, constitui a afecção dominante e pano de fundo de toda
a narrativa. Flaubert explora as múltiplas nuances da grande afectação da
modernidade para nos legar uma cartografia do sistema nervoso desarranjado (assunto
íntimo para ele também, vítima de sucessivas crises nervosas que a ciência da
altura não consegue definir e que o levam a abandonar estudos e a vida
parisiense na primeira juventude). É ao ritmo do tédio e de uma ociosidade
estéril que as suas personagens são impulsionadas para paixões sempre
decepcionantes; a vida flui e esvai-se num vazio sem fundo, os eventos e as
reviravoltas não sucedem (a Revolução provoca apenas uma vontade de rir
imensa), enquanto os detalhes, as pequenas vírgulas da história (com “h”
minúsculo) se convertem em falsos acontecimentos.
Esta
bulimia temporal impede qualquer trabalho, emoção ou valor de perdurar e
solidificar-se na História (com “h” grande) que, falhando a sua oportunidade de
incorporação no real, não encontra outra alternativa que não a de permanecer
refém do Imaginário, hegemonicamente romântico.
“Falavam do que fariam mais tarde, depois de saírem do
colégio. Primeiro, empreenderiam uma grande viagem com o dinheiro que Frédéric
havia de levantar antecipadamente da fortuna que lhe estava destinada, quando
antigisse a maioridade. Depois regressariam a Paris, trabalhariam juntos, não
se separariam; e, como refrigério para os seus trabalhos, teriam amores de
princesas em alcovas de cetim, ou orgias fulgurantes com cortesãs ilustres. Mas
as dúvidas sucediam-se aos seus arrebatamentos de esperança. Após as crises de
alegria verbosa, caíam em silêncios profundos.”
A
crença romântica na ideia de génio e de sublime originam um sentimento de
magnanimidade narcísica engajado numa extenuante demanda por emoções
extraordinárias, quase inumanas, que raramente encontram coincidência no real;
pensamentos e sentimentos divorciam-se em infindáveis ciclos de mania e
melancolia que se sucedem ao longo das páginas, muitas vezes apenas intervalados
por uma ponto e vírgula, onde a cólera alterna com a compaixão, o ciúme
encontra na ponta da sua faca o desejo mais intenso e a ternura culmina em
decepção.
O
ciclo de mania-melancolia, onde a intensidade de cada pólo depende do seu
extremo, é replicado na dinâmica dos dois amores de Frédéric:
“O convívio com estas duas mulheres, criava na sua vida
como que duas músicas: uma folgazã, arrebatada, divertida, a outra grave e
quase religiosa; e, vibrando ao mesmo tempo, aumentavam sempre e, a pouco e
pouco, confundiam-se; porque, se a Senhora Arnoux lhe tocava só com um dedo que
fosse, a imagem da outra, logo se apresentava ao seu desejo, porque tinha,
desse lado, uma fortuna menos longíqua; e, na companhia de Rosanette, quando
lhe acontecia sentir o coração enternecido, lembrava-se imediatamente do seu
grande amor.”
E
assim se encontra a raiz dos movimentos dissipadores da adição moderna: perante
um vazio narcísico e entendiado que se auto-devora, tudo serve como recurso
estimulante ou narcótico, consoante a circunstância e pretensão. O amor,
sobretudo o romântico, é em Flaubert a droga protagonista por eleição, fármaco
que ora remedia, ora envenena.
“Rodopiavam tão perto dele que Frédéric lhes distinguia
as gotinhas de suor nas testas; e este movimento giratório cada vez mais vivo e
regular, vertiginoso, transmitindo-lhe ao pensamento uma espécie de embriaguez,
sugeria-lhe outras imagens, enquanto todas passavam com o mesmo deslumbramento,
e cada uma com uma excitação particular consoante o género da sua beleza. A
Polaca, que se abandonava de um modo langoroso, inspirava-lhe o desejo de a
apertar contra o peito, fugindo os dois num trenó pela pradaria coberta de
neve. Horizontes de volúpia tranquila, à beira de um lago, num chalé,
desenrolavam-se sob os passos da Suiça, que valsava de torso direito, e de
pálpebras descidas. Depois, de súbito, a Bacante, inclinando para trás a cabeça
morena, fazia-o sonhar com carícias devoradoras, em bosques de loureiros
cor-de-rosa, num tempo de tempestade, no meio do ruído confuso dos tamboris. A
Peixeira, a quem o ritmo rápido tirava o fôlego, soltava risadas; e ele teria
gostado, ao beber com ela nos Porcherons, de lhe amarfanhar, com ambas as mãos,
o lenço que trazia ao pescoço, como nos bons velhos tempos. Mas a Estivadora,
cujas pontas dos pés mal afloravam o chão, parecia ocultar na ligeireza dos
membros e no ar sério do rosto todas as subtilezas do amor moderno, que tem a
justeza de uma ciência e a mobilidade de um pássaro.”
Mas
tudo o resto é mobilizado pela valsa do desejo historicamente frustrado: o
vinho acalma, o desprezo excita, os perfumes enervam, os bailes distraem, a
compaixão expande, a política atordoa, a morte diverte, a vida citadina alegra,
etc., mas logo, as drogas confundem as suas propriedades anestésicas e
euforizantes e tudo se baralha de novo, e o vinho excita, o desprezo acalma, os
perfumes tranquilizam, os bailes aborrecem, a compaixão retrai, a política
estimula, a morte irrita, a vida citadina deprime e a dura insensibilidade
alterna com enervamentos subtis numa dança despropositada de compassos
desvairados.
Todos
as personagens desta Educação são líquidas, fantoches de emoções fraudulentas porque
transitórias, que se enganam uns aos outros, ocultando a atrofia sentimental
por detrás da máscara de uma sensibilidade extrema que não passa de nervos em
franja. Os caçados aceitam as mentiras como homenagens áquilo que não sentem
mas gostariam de sentir e os caçadores, inebriados pelas próprias palavras,
chegam a acreditar no que dizem.
“- O que se
passa? Estou arruinada, arruinada! Estás a ouvir?
(…)
- É a
miséria, pois não posso oferecer-te uma grande fortuna!
Apenas tinha trinta mil libras de rendimento, sem contar
com o palacete, que valia talvez dezoito a vinte, não mais.
Embora isso fosse a opulência para Frédéric, nem mesmo
assim deixou de sentir uma decepção. Adeus sonhos, e toda a grande vida que
iria levar! A honra forçava-o a desposar a Senhora Dambreuse. Reflectiu um
minuto: depois, com um ar terno:
- Vou ter-te
sempre, a ti!
Ela lançou-se-lhe nos braços; e ele apertou-a contra o
peito, com uma ternura em que havia um pouco de admiração por si próprio. A
Senhora Dambreuse, cujas lágrimas já não corriam, ergueu o rosto, radiante de
felicidade e, pegando-lhe na mão:
- Ah, eu
nunca duvidei de ti! Contava com isso!
Esta certeza antecipada daquilo que ele considerava como
uma boa acção desagradou ao jovem.”
A
educação sentimental de Frédéric vai consistir no desmoronar de todos os seus
sonhos. Acompanhamos o seu desinteresse pelos estudos, a sua miséria na
província e o entusiasmo com que recebe a herança do tio, a sua introdução na
alta sociedade, a sede de luxo, da vida citadina e de mulheres. É pai e perde o
filho. Quase casa. Quase volta para a província. No final do romance, quando a
juventude já passou, Frédéric constata que falhou a sua vida. A felicidade
aparece-lhe como uma imagem passada – uma imagem romântica que assombrou e
devorou o seu futuro.
Com
o retraimento dos deuses e a correlativa imanentização do mundo na modernidade,
ficámos reféns da própria carne, encerrados e ensarilhados em nós mesmos, a
todo o instante buscando um meio de escape que nos alivie do facto dos céus
terem desabado e termos ficado aqui em baixo tão sozinhos. E tão sozinhos vamos
de droga em droga, de sexo em sexo, de emoção em emoção buscando algum consolo,
mas ainda assim, incapazes de abandonar a trincheira da nossa solidão narcísica
e expropriar os nossos corpos ao Amor e à Revolução, porque as imagens
esteticizadas sugam o nosso sangue e impedem os afectos genuínos, por certo bem
menores e menos belos, e a capacidade dos nossos rostos tocarem e serem
tocados. Mas, durante algum tempo, nada disto importa muito porque da moral
aturdida nasce um gozo perverso.
“Os seus
lindos olhos húmidos cintilavam de uma paixão de tal forma poderosa que
Frédéric a atraiu para os joelhos e disse para consigo: «Sou mesmo um grande
canalha!», aplaudindo-se pela sua perversidade.”
O
pior é que também este orgulho imprevisto perde eventualmente a flor da sua
novidade. O que nos sobra, portanto já não é o Grande Outro, Deus, mas o Outro,
o humano. Enquanto ele não assoma, recaímos no mesmo vazio intímo, esse tédio
desértico, e recorremos a meios para excitar os sentidos e sentir qualquer
coisa a mais de Outro e a menos do Mesmo. No dia seguinte, a inevitável ressaca
– todo o prazer se paga – e voltamos a sentir demais. Do Mesmo: ou seja, o
sentir tanto até quebrar, que me intrigava, é apenas sentir-me demais. A ver se
me esqueço então de caçar a minha própria pele…
sexta-feira, 18 de maio de 2012
I have heard of killer texts
When I first saw it, the small red seep, I did not believe it.
I watched the men walk about me in the office. They were so flat!
There was something about them like cardboard, and now I had caught it,
That flat, flat, flatness from which ideas, destructions,
Bulldozers, guillotines, white chambers of shrieks proceed,
Endlessly proceed--and the cold angels, the abstractions.
I sat at my desk in my stockings, my high heels,
And the man I work for laughed: 'Have you seen something awful?
You are so white, suddenly.' And I said nothing.
I saw death in the bare trees, a deprivation.
I could not believe it. Is it so difficult
For the spirit to conceive a face, a mouth?
The letters proceed from these black keys, and these black keys proceed
From my alphabetical fingers, ordering parts,
Parts, bits, cogs, the shining multiples.
I am dying as I sit. I lose a dimension.
Trains roar in my ears, departures, departures!
The silver track of time empties into the distance,
The white sky empties of its promise, like a cup.
These are my feet, these mechanical echoes.
Tap, tap, tap, steel pegs. I am found wanting.
This is a disease I carry home, this is a death.
Again, this is a death. Is it the air,
The particles of destruction I suck up? Am I a pulse
That wanes and wanes, facing the cold angel?
Is this my lover then? This death, this death?
As a child I loved a lichen-bitten name.
Is this the one sin then, this old dead love of death?
Sylvia Plath, Three Women
terça-feira, 15 de maio de 2012
O Crime do Poeta
Era uma vez uma criança estranha. Na
aldeia onde cresceu todos a temiam. Os mais antigos diziam que os seus olhos
grandes e violetas traziam mau agouro. As línguas mais desocupadas avançavam
que a criança tinha pacto com o demónio. A própria mãe desconfiava da criança
desde que o seu corpo começou a crescer dentro de si. Pensara até ao momento do
parto que trazia dentro do seu ventre um nado-morto.
- Senhor doutor, não pode ser. Nem um pontapé, nem um
movimento, nada. Alguma coisa está mal.
O médico sorria e acalmava a mãe com ecografias e evidências científicas:
- Não se preocupe minha senhora, é um bebé forte. Olhe, deve ter um feitio muito calmo. Traz aí um santo ou santinha, é o que é!
- Não se preocupe minha senhora, é um bebé forte. Olhe, deve ter um feitio muito calmo. Traz aí um santo ou santinha, é o que é!
E de facto, a criança nasceu e cresceu. Forte e quieta. Esse sossego
continuou a alarmar a mãe. Recordava-lhe a quietude antes dos grandes vendavais
da sua terra. Por isso, a mãe espiava a criança a toda a hora.
Um dia, quando a criança tinha sete anos, a família decidiu fazer uma viagem de sete dias pelo país. Visitaram as cidades mais importantes, mosteiros, serras e castelos. No caminho de regresso, fizeram um desvio por uma estrada antiga que serpenteava a costa marítima. A criança nunca tinha visto o mar. Entrou em frenesim no banco de trás, parlando incessantemente e suplicando que parassem uns instantes para ver o mar de perto. O pai concedeu mas disse que o faria no local mais bonito, para que a criança visse o mar a tentar tomar a terra. A criança acatou a decisão em desassossego. A mãe seguia com o rosto colado no pára-brisas, aterrorizada pela mudança súbita de comportamento, repetindo de si para si,
- É apenas uma criança, apenas uma criança que vai ver o mar pela primeira vez. Apenas isso, Maria.
Um dia, quando a criança tinha sete anos, a família decidiu fazer uma viagem de sete dias pelo país. Visitaram as cidades mais importantes, mosteiros, serras e castelos. No caminho de regresso, fizeram um desvio por uma estrada antiga que serpenteava a costa marítima. A criança nunca tinha visto o mar. Entrou em frenesim no banco de trás, parlando incessantemente e suplicando que parassem uns instantes para ver o mar de perto. O pai concedeu mas disse que o faria no local mais bonito, para que a criança visse o mar a tentar tomar a terra. A criança acatou a decisão em desassossego. A mãe seguia com o rosto colado no pára-brisas, aterrorizada pela mudança súbita de comportamento, repetindo de si para si,
- É apenas uma criança, apenas uma criança que vai ver o mar pela primeira vez. Apenas isso, Maria.
Mas as mães têm sempre razão, uma razão secreta que adivinha os sismos nos
corações dos filhos. O pai parou o carro e saíram todos, a mãe com medo, a
criança com passos decididos e eufóricos. O pai ia explicando que aquele lugar
se chamava Boca do Inferno porque se diziam que aquelas águas estavam
destinadas a engolir a terra.
A criança foi pela mão do pai ver as águas a galgarem as rochas. Atraída pelo
som das ondas que rebentavam violentas, soltou-se da mão paterna e abeirou-se
do precipício para espreitar a origem daqueles braços de água. Nesse preciso
momento, com o rosto salpicado pelas vagas tumultuosas, a criança sentiu o
quebrar de tormentas no seu peito O seu coração partia-se em dois e a criança
não queria arredar pé dali. Ouviu a voz da mãe, quebrada, dizer,
- Não te acerques demasiado da beira,
olha que ainda cais!
E adivinhou nelas, uma vontade de catástrofe rochas abaixo e perdoou a mãe em simultâneo, porque agora a criança imaginava a dor de uma mãe e, por isso, conhecia e compreendia até os seus pensamentos mais secretos. A criança deu um passo em frente, sentiu um pêndulo dentro do peito agitar-se, reclamando o beijo do abismo e fechou os olhos. Com a alma embalada pelo aguaceiro subterrâneo, a criança ia compreendendo o mundo e a história dos seus dias, séculos, milénios, eras. O seu corpo soltava-se líquido da infância e envelhecia agilmente pela compreensão. Nesse instante, a criança, de olhos marejados pelo sal das águas, entendeu deus e teve compaixão do mundo.
E adivinhou nelas, uma vontade de catástrofe rochas abaixo e perdoou a mãe em simultâneo, porque agora a criança imaginava a dor de uma mãe e, por isso, conhecia e compreendia até os seus pensamentos mais secretos. A criança deu um passo em frente, sentiu um pêndulo dentro do peito agitar-se, reclamando o beijo do abismo e fechou os olhos. Com a alma embalada pelo aguaceiro subterrâneo, a criança ia compreendendo o mundo e a história dos seus dias, séculos, milénios, eras. O seu corpo soltava-se líquido da infância e envelhecia agilmente pela compreensão. Nesse instante, a criança, de olhos marejados pelo sal das águas, entendeu deus e teve compaixão do mundo.
Instada a recuar, desta vez, pela voz segura do pai, a criança percebeu que
tudo entendia e que estava destinada a amar e a perder-se pela beleza do mundo.
Mas a beleza era das matérias mais ariscas, perigosa, podia tornar-se
insuportável e despedaçar num jorro a alma mais incauta. A beleza andava de
mãos dadas com a loucura. E a loucura era empresa arriscada, era voo e queda.
De regresso ao carro, a família seguia silenciosa e de pés encharcados. No
banco traseiro do carro, viajavam agora mais dois passageiros: a beleza e a
loucura. E a criança já não era criança: tinha decidido apostar a vida. A voz
da infância agonizou nessa viagem, no banco traseiro, ladeado de vidros chuvosos,
com uma pergunta que suspirava:
- e se cais, para onde cais?
- Não cais para lado nenhum. O terrível da queda é
isso: quando começas a cair nunca mais páras, respondeu a voz da loucura.
A mãe não ouviu este diálogo mas soube que naquela tarde tinha perdido a
sua criança e seguiu gelada o resto da viagem. Nessa noite, deitou a criança
que não era mais criança, muito menos sua, e beijou-lhe com tristeza resignada
as faces, recordando a voz de malha da sua avó,
- É assim, filha, a gente tem os filhos mas eles pertencem ao mundo, não são nossos.
- É assim, filha, a gente tem os filhos mas eles pertencem ao mundo, não são nossos.
A sua avó sabia muito. Não sabia escrever mas sabia muito. Tinha parido
treze filhos, dos quais apenas três vingaram até à velhice. Os outros levou-os
o mundo, a guerra, o suicídio, os jogos, as terras.
Quando saía do quarto, a voz delirante chamou-a, voltou-se rápido, talvez ainda pudesse salvar a criança, talvez fosse ainda uma criança, uma criança apenas e ela não se devesse inquietar,
Quando saía do quarto, a voz delirante chamou-a, voltou-se rápido, talvez ainda pudesse salvar a criança, talvez fosse ainda uma criança, uma criança apenas e ela não se devesse inquietar,
- Mamã?
- Sim?
- Amo a beleza.
A mãe soube então que a sua criança estava perdida, não para o mundo, mas contra o mundo, de uma forma ainda mais cruel.
- Sim?
- Amo a beleza.
A mãe soube então que a sua criança estava perdida, não para o mundo, mas contra o mundo, de uma forma ainda mais cruel.
- São horas de dormir,
Respondeu e saiu do quarto e nervosa admitiu primeiro para si que tinha medo daquela criança. Disse depois mais tarde, já deitada na cama, em voz alta para o seu marido,
- A criança é diferente, José.
- Diferente como?
- Tu não notas?
- Não. Tu que notas?
- Não sei. Não sei bem. É estranha, José!
- Não é nada. Isso são preocupações de mãe. Está tudo bem.
O homem abraçou-a com as mãos largas e ásperas e ela amou-o como já não o amava há muitos anos. E quis acreditar que tudo estava bem. Jurou muda que nunca mais falaria nisso e que tudo estava bem.
Respondeu e saiu do quarto e nervosa admitiu primeiro para si que tinha medo daquela criança. Disse depois mais tarde, já deitada na cama, em voz alta para o seu marido,
- A criança é diferente, José.
- Diferente como?
- Tu não notas?
- Não. Tu que notas?
- Não sei. Não sei bem. É estranha, José!
- Não é nada. Isso são preocupações de mãe. Está tudo bem.
O homem abraçou-a com as mãos largas e ásperas e ela amou-o como já não o amava há muitos anos. E quis acreditar que tudo estava bem. Jurou muda que nunca mais falaria nisso e que tudo estava bem.
Semanas depois, a criança saiu um dia de casa, ainda de madrugada, usou de
passos adultos para ir até ao jardim oriental que ficava na outra margem da
cidade mais próxima da aldeia. Cruzou-se com os fantasmas da noite,
prostitutas, chulos, ladrões, bêbados, mas nem ela teve medo nem nenhum ousou
falar-lhe ou fazer-lhe mal.
A criança amava o lago
que havia nesse jardim e as centenas de carpas que se afadigavam nas águas num
trânsito de cores. Nessa manhã, a criança levava nas suas mãos o imperativo da
beleza. Distribuiu veneno pelas águas e aguardou com os olhos hipnotizados as
bocas que bailavam á superfície e devoravam o veneno. A criança imaginou que em
cada uma daquelas bocas escancaradas se arrendondava uma palavra derradeira.
Esgotado o baile das bocas e das palavras, o sol nasceu amarelo e forte sobre um lago onde centenas de carpas bailavam mortas à tona das águas paradas na recordação de um antigo trânsito de cores. Um crime tinha sido cometido, o real tinha sido assassinado pela ideia que uma criança tinha da beleza.
Esgotado o baile das bocas e das palavras, o sol nasceu amarelo e forte sobre um lago onde centenas de carpas bailavam mortas à tona das águas paradas na recordação de um antigo trânsito de cores. Um crime tinha sido cometido, o real tinha sido assassinado pela ideia que uma criança tinha da beleza.
Alertadas as
autoridades, a criança foi levada para casa, repreendida, os pais informados e
encarregues do castigo. A mãe fechou-a no quarto durante duas semanas, com as
persianas cerradas e sem ver nem falar com ninguém. As refeições foram parcas e
entregues em silêncio pela cara ofendida da mãe. A criança não percebia que mal
tinha feito para merecer esse castigo e tratou de ocupar o tempo lendo.
Apaixonou-se então
pelas palavras e pensou que nelas poderia encontrar a sua redenção e o perdão da
mãe. Um dia, quando o rosto encerrado da mãe assomou na ombreira a criança
disse com voz de criança,
- Mãe, escrevi-te um poema, para que me perdoes.
A mãe, pegou no papel,
desconfiada, e leu. No final, começou a rir contente e olhou a criança pela
primeira vez com olhos de mãe e disse, numa comoção de voz alagada:
- É muito bonito! É lindo!
- É muito bonito! É lindo!
Nessa noite, pude tornar a jantar com o meu pai e a minha mãe. Uma mãe nova e alegre. Também eu me sentia alegre. Tinha descoberto que com as palavras podia cometer todas as loucuras e crimes em nome da beleza e sair impune. Assim cresci e me tornei poeta.
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