sexta-feira, 19 de outubro de 2012

a poesia acaba quando um poeta morre



A Poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?»    E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar? — 

Manuel António Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

“Adquirir a sua alma na paciência”


Lisboa, 19 de Outubro de 2012

Estimado Poeta,

Não tenho outro modo de lhe agradecer as cartas que escreveu há mais de um século. Embora endereçadas a outro jovem aspirante a poeta, as suas palavras trouxeram-me uma alegria preciosa. Os seus conselhos, sempre tão ternos e sábios, afiançam-me que conheceu enormes fadigas e pesadas tristezas e que a certo ponto, decidiu não desesperar e confiar nesse negrume que o abraçava. Tem razão quando afirma que se deve fazer da solidão “uma casa à luz do cair da tarde ou do amanhecer, por onde os ruídos dos outros passa à distância”. Tudo o que é genuíno e grande começa nessa solidão desmedida.

A tristeza é o momento em que qualquer coisa de novo e desconhecido penetra em nós, como uma tempestade primaveril que entra pelos escaninhos da alma, sorrateira, aí se instalando com toda a lentidão e silêncio enquanto prepara o seu parto, no centro do ser. “Tudo se resume a levar ao fim a gravidez e depois dar à luz. Deixar medrar cada impressão, cada semente de uma emoção, dentro de nós, no escuro, no inefável, no inconsciente, inacessível ao próprio entendimento, e com profunda humildade e paciência aguardar a hora do parto de uma nova claridade: apenas assim se vive artisticamente, no entendimento como na criação (…) O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo esta lição, aprendo-a pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!

A solidão será difícil de suportar, mas o esforço será recompensado. Nas horas mais escuras, haverá a tentação de a trocar uma qualquer convenção ou conveniência, mais vulgar e fácil, menos dispendiosa e arriscada. Mas é preciso confiar e amar a pergunta que nos nasceu, velar pacientemente pelo seu crescimento pois, como tão sabiamente nos repete, a vida tem sempre razão.

Portanto, não nos agitemos demasiado: renascer leva o seu tempo. A turbulência acabará, eventualmente, por amainar, restando a sua face infinita, devolvendo-nos o olhar que um dia lançámos para fora. Depois de atravessarmos a nossa solidão, seremos talvez capazes de alcançar um amor mais humano, “o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam”.

Quem poderá dizer o que daqui sairá? Ninguém, este é um caminho que tacteamos, sozinhos e desamparados. “O futuro é um eixo fixo (…) mas nós deslocamo-nos no espaço infinito”. Cada um por si. Conforta-me, no entanto, saber que andou pelas imediações e que achou tranquilidade e ternura para falar disso. A minha grande solidão levou-me até si; leitora ávida, raramente sonho com referências literárias, mas há cerca de um ano, numa dessas noites eternas que mastigam o corpo e a alma, uma voz visitou-me enquanto dormia, recomendando-me que tornasse a ler as Elegias a Duíno. No dia seguinte, obedeci de imediato ao ditado onírico e a minha alma foi convalescendo, consolada pelas suas palavras.

Eternamente sua,

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma espiã na casa do amor



«Vestida de vermelho e prata, ela evocava os sons e imagens dos carros de bombeiros, quando rasgavam as ruas de Nova York, inquietando o coração com o violento gongo da catástrofe; toda vestida de vermelho e prata, o impetuoso vermelho e prata cortando caminho através da carne. Na primeira vez que ele olhou para ela, sentiu: Tudo se vai incendiar!
Do vermelho e prata e do longo grito de alarme ao poeta que sobrevive em todo o ser humano, enquanto a criança nele sobrevive; a esse poeta, ela atirou uma inesperada escada no meio da cidade e ordenou: “Suba!”
(…)
Ela era compelida por uma febre confessional que a forçava a levantar um canto do véu, e então amedrontava-se quando alguém ouvia muito atentamente. Repetidas vezes, pegava numa esponja gigantesca e apagava tudo o que havia dito pela negação absoluta, como se essa confusão fosse em si um manto de protecção.»

Um livro mediano. Nada de especial: nem facadas no peito nem picos no pipi.

domingo, 14 de outubro de 2012

uma pergunta relevante


Em casa a batidos e Orson Welles, tentando não fumar muito. Que será de mim sem Tanatos?

domingo, 7 de outubro de 2012

Afirma Pereira


"Nesse momento, Pereira lembrou-se de uma frase que o seu tio, que era um literato falhado, lhe repetia sempre, e pronunciou-a. Disse: a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade."

"E quando o doutor Cardoso passou a porta e desapareceu na rua sentiu-se só, verdadeiramente só, e pensou que quando estamos verdadeiramente sós é o momento de nos medirmos com o nosso eu hegemónico que procura impor-se à corte das almas. Mas apesar deste pensamento não se sentiu apaziguado, pelo contrário, sentiu uma grande saudade, não saberia dizer de quê, mas era uma grande saudade de uma vida passada e de uma vida futura, afirma Pereira."

sábado, 6 de outubro de 2012

"Prive o homem comum da sua mentira vital e ter­‑lhe­‑á roubado a felicidade."



“Elias Rukla lembrava-se que tivera uma grande decepção quando lera A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. Não com o livro, que era muito bom, até mesmo uma obra-prima, mas com o título. O título estava errado. O livro não trata da insustentável leveza do ser, mas de algo distinto. Porque a insustentável leveza do ser não constitui uma condição existencial da vida humana, mas uma condição social para um determinado estrato do mundo ocidental durante a última metade do século XX. A insustentável leveza do ser é algo que afecta as pessoas pensantes e sedentas de conhecimento da Escola Secundária de Fagerborg na capital norueguesa nas últimas duas décadas deste nosso século. E que lhes usurpa a capacidade de dizer alguma coisa a outras pessoas. De falar. A conversa tinha estancado. As pessoas do mesmo estrato social de Elias Rukla já não conversavam. Só de um modo fugaz e superficial. Quase só se limitavam a encolher os ombros entre elas. Talvez ante os demais, numa espécie de cumplicidade irónica (…) Ah, quanto ansiava que alguém conseguisse sair desse mutismo e dissesse algo, ainda que fosse apenas para referir que a vida tinha mais coisas para oferecer. Na realidade, o que procurava era que alguém fizesse uma alusão nesse sentido, mesmo que fosse em forma de código, por exemplo, se alguém durante um desses rápidos intercâmbios de comentários tivesse levantado de repente o dedo indicador em direcção ao céu, assinalando desse modo que na nossa parte do mundo existe uma longa tradição religiosa baseada no cristianismo, e que por isso se costuma apontar lá para cima, com o indicador esticado para o céu, onde, segundo a tradição, se encontram Deus e os seus anjos, e também os bem-aventurados, Elias Rukla tê-lo-ia abraçado, independentemente do quão irónico esse indicador pudesse parecer, tanto para o que teve esse impulso como para os demais (…). Ah, estava verdadeiramente esfomeado, e sentia que o seu cérebro se encontrava sobreaquecido, como se estivesse a incubar uma meningite espiritual que podia brotar a qualquer momento, pelo que não se podia considerar inteiramente responsável pelos seus actos, era como se esperasse um ataque, como se encontrasse um vómito tremendo e libertador à sua frente, no futuro imediato, mas que não chegava nunca. Procurava nos seus colegas algo que pudesse expressar essa outra coisa, algo que tornasse possível uma aproximação. Examinava de lanterna na mão cada palavra que pronunciavam, disposto a interpretar tudo no melhor dos sentidos e a socorrer imediatamente a pessoa em questão mal se pronunciassem as possíveis palavras crípticas, a fim de mostrar a sua gratidão, e também para falar com ela, muito provavelmente com um sussurro rouco na primeira investida, presumia.”

É exactamente por isto que fico em casa num sábado à noite, acompanhada por gelado de menta e chocolate e um livro. A comunicação parece ter-se tornado uma utopia e não tenho nem pudor nem dignidade para participar neste mutismo palrador. E ainda bem.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Amor em tempos de austeridade



Os tempos estão para paixões nómadas. Todas as noites um livro diferente na cama. Sem arroubos nem consequências de maior. Mas quer-se sempre algo de maior, algo que permita viver menos mal e mais poeticamente, nem que seja tão só um livro belo e terrível a partilhar o desalinho do sono.

Cansada de mastigar novidades estéreis, fui reler a minha história de amor predilecta: O Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar.

A narrativa compacta apresenta-se sob a forma de uma confissão, com todos os quid pro quos implicados. Um mercenário ferido, que diz jamais se ter implicado numa causa pessoal, faz face ao seu passado num esforço de honestidade pontuado por lapsos, esquecimentos e mentiras.

Conta afinal da única guerra pessoal que travou – o seu primeiro encontro com o amor, protegido pela guerra civil de 1914 na imaginária localidade de Kratovicé. Ele é o vivo que restou e não esqueceu, apesar da sua couraça de indiferença.

É nesse cenário bélico que duas eróticas ocidentais poderosas se defrontam em campo aberto, numa atmosfera asfixiada – a erótica estóica do homem austero que deseja mas não ousa ceder por medo e orgulho e a erótica socialista da mulher que se entrega ao amor como a uma doença nervosa. Ela, Sofia, avança, oferece-se ao amor sem ponderação nem pudor, com “a encantadora graça dum fruto que se propõe igualmente à boca e à faca”. A sua promessa de sacrifício não é no entanto uma garantia de submissão; ela deseja o homem não como fim do seu desejo, mas como meio para se dar de corpo e alma. Eric pressente isso mesmo, e assustado  por tamanha generosidade, resiste, aperta-se em si e insiste na inércia e no desprezo; “tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma natureza inalterável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão perigoso e tão seguro como um elemento; pode-se confiar no fogo, desde que se saiba que a sua lei é morrer ou queimar.” Eis a dança mais antiga dos pares amorosos: dar e recusar-se alternadamente até à apoteose.

Unidos por uma dor que não faz concessões à piedade, ele testa o voluntarismo sacrificial da oferenda feminina, ela mantém a sua promessa com desespero; assim se estabelece entre ambos uma intimidade tácita de carrasco e vítima, com dias do caçador e dias da caça. Nas palavras da autora: “Para além da anedota da rapariga que se oferece e do rapaz que se recusa, o tema central de O Golpe de Misericórdia é, antes de tudo, esta comunidade de espécie, esta solidariedade de destino entre três seres submetidos às mesmas privações e aos mesmos perigos. Eric e Sofia, sobretudo, parecem-se um com o outro por esta intransigência e pelo seu gosto apaixonado de irem até ao extremo de si próprios.

Sofia jamais considera retirar a sua promessa de amor, escolhe activamente arder e acaba morta. Eric escolhe renunciar e sai queimado. “O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado. Pensei, primeiro, que, ao pedir-me que me incumbisse deste serviço, ela julgara dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi, depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.” “On est toujours pris au piège avec ces femmes. ”

No prefácio à edição portuguesa, Augustina Bessa-Luís classifica este livro como uma “espécie de educação sentimental para veteranos”. Eu dava o dedo mindinho para o ter escrito – a simplicidade aparente de cada diálogo, a tragédia de um cenário depurado, a nobreza das personagens e a dose exacta de ambiguidade em cada palavra. Como não o posso fazer, pego no dedo mindinho e vou à biblioteca requisitar o livro que lamentavelmente está esgotado por cá. Sim, sou dessas que dormem com amores emprestados.

domingo, 30 de setembro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.

Rainer Maria Rilke

terça-feira, 18 de setembro de 2012

um hino à noite

“O que é que, de repente, pleno de pressentimentos, brota debaixo do coração e sorve a doce aragem da melancolia? Também em nós te comprazes, obscura Noite. O que é que tu guardas debaixo do teu manto, que me toca a alma com uma força invisível? Um bálsamo precioso goteja da tua mão, de um molho de papoilas. Elevas as pesadas asas do nosso ânimo. Sentimo-nos obscuramente, inexprimivelmente comovidos (…). Tão pobre e tão pueril me parece agora a luz – que júbilo e que benção, ao despedir-se o dia – Assim, só porque a Noite aparta de ti seus servidores, semeaste na lonjura do espaço as esferas luminosas, para que testemunhassem da tua omnipresença – do teu regresso – no tempo do teu afastamento. Mais celestes do que aquelas estrelas cintilantes nos parecem os olhos infinitos que a Noite em nós abre (…). Glória à rainha do mundo, à grande mensageira de mundos sagrados, a do amor extasiado – é ela que te envia até mim – doce amada – amável sol da noite – eis que estou desperto – porque sou teu e sou meu – revelaste-me a Noite como Vida – tornaste-me humano – devora de ardor espiritual o meu corpo para que, etéreo, eu possa misturar-me contigo mais intimamente, e seja então a nossa noite de bodas.”


Novalis, Hinos à Noite

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Epifanias domésticas

A mão firmada sobre a laranja. A faca dividindo a laranja em duas metades. O espremedor devolvendo o som do real acolhedor. A consciência de ter novamente o meu corpo em casa, sólido, firme. Parada e segura em mim, a mão tremendo sobre a meia laranja, nada mais que isso. A luz da manhã a pico estirada alegre por azulejos e móveis enche-me os olhos de água. As lágrimas rolam pelo rosto aturdido pelo calor e vão fundir-se no sumo laranja. Recordo brevemente a minha quase-morte, as noites terríveis e silenciosas, outrora tão queridas. Uma descida longa, de início desejada com a arrogância de quem sonha o mundo de coração cerrado, mais tarde temida com cada poro. A difícil aprendizagem das camadas de sombra que compõem cada abismo que é um ser. Choro de gratidão. Como uma Eurídice, refazendo com passos ainda inseguros o caminho de volta para junto dos vivos. Sem Orfeu nem lira, acompanhada apenas por uma voz na rádio cantando os subúrbios de um passado perfeito em que se acreditou poder vencer sem jamais perder. Despejo o sumo no copo e enxugo as lágrimas com as costas da mão. Sento-me à mesa e sorrio do mistério de estar viva e das formas insuspeitadas da comoção. Suspeito que estou quase safa.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Madame Bovary é quase quase uma mulher de trinta anos muito orgulhosa…



“Com efeito, uma rapariga tem demasiadas ilusões, excessiva inexperiência, e o sexo é demasiado cúmplice do seu amor, para um jovem poder sentir-se lisonjeado; enquanto uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios a fazer. Se uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe. Esta escolha não é imensamente lisonjeira? Armada com uma experiência quase sempre paga, por alto preço, com infelicidades, ao dar-se, a mulher experimentada parece dar mais do que ela própria, enquanto a jovem, ignorante e crédula, como não sabe nada, nada pode comparar, nada apreciar; aceita o amor e estuda-o. Uma instrui-nos, aconselha-nos, numa idade em que gostamos de ser guiados, em que a obediência é um prazer; a outra quer aprender tudo e mostra-se ingénua naquilo em que a primeira é terna. Aquela só permite um único triunfo; esta obriga a combates perpétuos. A primeira só tem lágrimas e prazeres, a segunda só voluptuosidades e remorsos. Uma, demasiado submissa, oferece a triste segurança da tranquilidade; a outra perde muito por não pedir ao amor as suas mil metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra mata uma família inteira por aquele a quem ama. Uma jovem só tem um atractivo a julga ter dito tudo quando se despe; mas a mulher tem-nos em grande número e oculta-os sob mil véus; em suma, afaga todas as vaidades, enquanto a noviça só lisonjeia uma. São excitantes, aliás, as indecisões, os pavores, o medo, as perturbações e as tempestades da mulher de trinta anos, que não se encontram nunca no amor duma rapariga (…). Finalmente, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se rapariga, representar todos os papéis, ser púdica e embelezar-se até com uma infelicidade. Entre ambas encontra-se a incomensurável diferença do previsto para o imprevisto, da força para a fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz a tudo; a jovem, sob pena de não o ser, não deve satisfazer a nada.”

Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos

domingo, 2 de setembro de 2012

Lisboa, 2 de Setembro



Oslo, 31 de Agosto. Não falta ali nada. Um homem de 34 anos perdido, ex-toxicodependente tenta regressar à vida. Recomeçar do zero é impossível, os outros e ele próprio não perdoam. Os outros que também estão no mesmo barco à deriva, e que não admitem que alguém esteja mais partido que eles. Todos fodidos, náufragos pouco solidários: importa manter a farsa e seguir andando. O homem é apenas a baixa mais evidente, a braços com um problema comum que excede a heroína. A droga nunca é o problema. É a solução. Existem outras: o trabalho, a televisão, o casamento, os filhos, blá-blá.
E qual é o problema do homem, afinal? O problema é ter nascido numa época descomplicada, obrigado ao sucesso e à felicidade. É ser demasiado inteligente, ver e dizer o que não pode ser visto nem dito. É ter desprezado a idiotia da felicidade para aprimorar um talento que não pode cumprir porque quando nos pomos a cismar mais do que os outros caímos no buraco e então, é o ver-se-te-avias para tornar a subir e regressar ao mundo dos vivos.
Falta ali tudo. Naquele olhar descrente de quem sonhou uma vida diferente, uma vida mais próxima do extraordinário, da beleza, e soçobra todos os dias perante a realidade chã, crua e pobre. As pessoas e as coisas opacas, incapazes de devolver qualquer sentido. “São coisas que nunca se mostram nos filmes: o sentimento de não saber porque é que estamos perdidos, apesar de termos vidas confortáveis ou de virmos de famílias privilegiadas.” “Nos meus filmes, tenho falado sempre da «dupla vergonha» de fracassar, ao não se conseguir fazer aquilo para que se tem talento no contexto de uma vida privilegiada num dos países mais ricos do mundo, e de não ter razões de queixa. Fracassar na Noruega é uma dupla vergonha: com o mundo como está tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?”
Impossível evitar a identificação narcísica automática. A caminho da praia, uma amiga confessa, de sorriso leve,  que ao ler sobre o filme pensou “epá isto é a minha vida”. Com a mesma leveza, retribuo graciosamente “a tua e a de todos nós. Fomos todos ludibriados. Quero o meu dinheiro de volta!”. Ironizamos depois sobre a sorte da nossa catástrofe quotidiana não se passar na Noruega e lá vamos nós a banhos, desprendidas como quem acredita ainda. Fazemos como o protagonista do filme: sorrimos da nossa desgraça e da dos outros e fazemos de conta que não se passa nada de extraordinário.
E de facto, nada de extraordinário se passa. Só esta tragédia banal, diária, onde se faz o que se pode para se persistir. Sem esperanças de luz nem rasgos de indignação – apenas a frustração de termos falhado quando tínhamos tudo a nosso favor. Todos os dias sacrificamos a grande vida, seja lá o que isso for, ao altar da puta da vidinha.
Faltava um frame final no filme: os rostos daqueles que estavam na sala na última sessão deste sábado. Entre eles, um velhote circunspecto de bengala. Lá ia um sobrevivente declarado.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

HOMENS QUE ESCREVEM SÃO TESUDOS 1


“Au milieu de l'hiver, j'ai découvert en moi un invincible été.”

Albert Camus

"O pensar, assim de noite, não é muito bom para a saúde. A misteriosa solenidade que adquirem os pensamentos produz quase sempre - sobretudo em determinados tipos, que têm dentro de si uma certeza com a qual não podem descansar, a certeza de nada poder saber e, não sabendo, de em nada poderem acreditar - uma séria constipação. Constipação da alma, escusado será dizê-lo."
 
Luigi Pirandello

sábado, 25 de agosto de 2012

Escrever é maçada


“Os dias estéreis da determinação. Era essa a palavra certa, determinação: Arturo Bandini sentado em frente à máquina de escrever dois dias seguidos, ininterruptamente, determinado a vingar. Mas não resultou; sofreu o mais longo cerco da mais dura e implacável determinação de toda a sua vida, e não escreveu uma única linha, mas apenas uma palavra, repetida pela página inteira, de cima a baixo, uma palavra só: palmeira, palmeira, palmeira, uma batalha mortal entre a palmeira e eu, e a plameira ganhou: via-a lá fora, a balançar sob o ar azul, a ranger docemente sob o ar azul. Ao fim de dois dias de batalha, a palmeira levou a melhor e eu esgueirei-me pela janela e sentei-me debaixo dela. Passou algum tempo, um momento ou dois, e adormeci, com pequenas formigas castanhas a passaream-se alegremente por entre os pêlos das minhas pernas.”
John Fante, Pergunta ao Pó

F O M E


Fome de Knut Hamsun narra um período de fome que um homem passa em Kristiania (actual Oslo). Um homem sem emprego e relações, de estômago vazio e cabeça cheia de pensamentos alucinatórios, tenta desesperadamente escrever. É preciso que escreva para que possa comer algo, mas sem comer, escrever é algo quase impossível, uma experiência-limite.

A certo ponto, percebemos que este homem passa fome não porque não tenha opção, mas por escolha, ou melhor, por uma estranha compulsão interior que o obriga a respeitar os «sentimentos nobres», a vigiar constantemente o seu pensamento e a a imagem que oferece de si. A certo ponto, apaixona-se mas é incapaz de abandonar o «orgulho» e a «decência».

“Aquilo irritou-me, quase me chocou que ela me considerasse assim tão decente; enchi o peito de ar, deixei o coração inchar e peguei-lhe na mão. Mas ela retirou-a docemente e sentou-se um pouco mais afastada de mim. Com isso, a minha coragem desapareceu de novo, senti-me envergonhado e olhei na direcção da janela (…). Senti-me totalmente paralisado.

- Já vê! – disse ela, - já vê que tenho razão: a você é possível assustá-lo com um mero franzir de testa; é possível embaraçá-lo com uma simples e insignificante mudança de lugar… - Ela riu, trocista, com os olhos completamente fechados, como se também não suportasse ser observada.”

Paul Auster tem razão quando afirma que o herói de Fome sofre de uma doença de linguagem. O próprio o explicita quando se explica à rapariga: “na verdade, podia ter-se uma natureza sensível sem que, por isso, se fosse louco; havia os que viviam quase de nada e que morriam de uma simples palavra. E deixei-a perceber que eu tinha esse tipo de natureza.” Está doente de palavras como «honra», «honestidade», «altruísmo», «abnegação», etc.. É por esta razão que amachuca uma nota de dinheiro e a atira à cara de uma hospedeira. Uma nota que o poderia alimentar durante dias.

“Ah, ah! Pode chamar-se a isto «actuar, salvaguardando a honra»! Sem dizer nada, sem dirigir a palavra à gentalha, amachucar simplesmente uma nota de dinheiro das grandes, com toda a calma, e atirá-la às ventas do seu perseguidor. Podia dizer-se que isto é «comportar-se com dignidade» Assim se levam as bestas!...

Quando cheguei à esquina da Tomegatten com a Jernbanetorvet, os meus olhos começaram a ver a rua a cintilar, a cabeça vazia começou a zunir e resvalei contra a parede de um prédio. Não consegui avançar mais, pura e simplesmente, nem sequer consegui manter-me direito. Fiquei em pé, tal como tinha resvalado contra a parede, e senti que estava a perder os sentidos. A minha louca ira piorou ainda mais com este ataque de esgotamento, levantei o pé e bati no passeio. Também fiz outras tentativas para recuperar um pouco as forças, cerrei os dentes, franzi a testa, fiz girar os olhos desesperadamente e comecei a sentir o efeito. O meu pensamento tornou-se mais claro e compreendi que estava prestes a morrer. Pus as mãos à frente e apoiei-me contra a parede, e a rua continuava a dançar à minha volta. Comecei a soluçar de raiva e lutei contra a minha desgraça com o mais íntimo da minha alma, mantive corajosamente esta posição, para não cair de todo; recusava deixar-me sucumbir, queria morrer de pé.”

A fome auto-imposta será a sua maneira de verificar a validade dos sentimentos «bons». Faz lembrar Raskolnikov e Stirner. À maneira dos ascetas e mártires, ele escolhe a via da dor; o prazer e o deboche seriam um teste menos honroso. Tanto pior para ele. Abeira-se do colapso muitas vezes. Nenhum anjo lhe aparece para o salvar.

Resta-lhe reconhecer que, morto o referente transcendente, esses «sentimentos» são vazios, palavras ocas apenas, que traduzem absolutamente nada. Prazer e dor são completamente aleatórios. Na ponta do garfo dessa refeição nua, o Nada e nada mais. Não se pode mais louvar uma razão omnipresente e autofágica que martiriza a carne e faz do pensamento veneno. Estamos sozinhos aqui e agora, sem caminhos certos, e vamos ter de nos aguentar.

“Passou uma carroça rolando lentamente, e vi que levava batatas, mas na minha raiva e obstinação lembrei-me de dizer que não eram batatas, mas sim cabeças de couve, e jurei furiosamente a pés juntos que eram couves. Ouvi nitidamente o que dizia, mas persisti na mentira e continuei a jurar repetidamente, só para ter a desesperada satisfação de cometer perjúrio. Deixei-me embriagar por este pecado requintado, estiquei os dedos no ar e jurei, com lábios balbuciantes, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em como eram cabeças de couve.”

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer



"(...) de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.
Como posso, assim, viver a felicidade?
Procuro o que me pode consolar como o caçador persegue a caça, atirando sem hesitar sempre que algo se mexe na floresta. Quase sempre atinjo o vazio, mas, de tempos a tempos, não deixa de me tombar aos pés uma presa. Célere, corro a apoderar-me dela, pois sei quão fugaz é o consolo, sopro dum vento que mal sobe pela árvore.
Debruço-me.
Tenho-a! Mas tenho o quê, entre estes dedos?
Se sou solitário - uma mulher amada, um desditoso companheiro de viagem. Se sou poeta ou prisioneiro - um arco de palavras que com assombro reteso, uma súbita suspeita de liberdade. Se sou ameaçado pela morte ou pelo mar - um animal vivo e quente, coração que pulsa sarcástico; um recife de granito bem sólido.
Sendo tudo isso, é sempre escasso o que tenho!
As formas de consolo: se procuro umas, outras há que me perseguem sem que as convoque. Sussurram, odiosas. Enchem-me o quarto de murmúrios:
O prazer: - «Entrega-te sem restrições»!
O talento: - «Usa-me tão mal como a ti mesmo»!
A minha sede de gozo: - «Só os gulosos sabem viver»!
A solidão: - «Despreza os homens»!
Este desejo de morte: - «Fere, Mata»!

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer

segunda-feira, 23 de julho de 2012


Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
A ousadia de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguião selvagem e debochada dos factos nus,
o tactear indecente de temas delicados,
a desova das idéias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triangulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

wislawa szymborska, opinião sobre pornografia

"(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa."
 
Clarice Lispector, Felicidade Clandestina

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,



Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,


Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco


Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,


Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,


Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,


Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?


Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,


Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.


Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,


Sempre, sempre, sempre,


Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,


Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...






Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,


Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.


Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.


Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!


Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!






À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.


À direita o campo aberto, com a lua ao longe.


O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,


É agora uma coisa onde estou fechado,


Que só posso conduzir se nele estiver fechado,


Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.






À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.


A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.


Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.


Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima


Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.


Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha


No pavimento térreo,


Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,


E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.


Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?






Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?






Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,


Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,


Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,


E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,


Acelero...


Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,


À porta do casebre,


O meu coração vazio,


O meu coração insatisfeito,


O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.






Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,


Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,


Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,


Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...


Álvaro de Campos

domingo, 15 de julho de 2012

de qualquer dos modos vais acabar com o fígado podre e o coração partido


“Hesito em confessá-lo, com medo de proferir ainda alguns palavrões: parece-me bem que senti nessa altura, a necessidade de um amor. Obsceno, não é? Experimentava, no entanto, um sofrimento surdo, uma espécie de privação que me tornou mais disponível e me permitiu, meio forçado, meio curioso, tomar alguns compromissos. Pois que tinha necessidade de amar e ser amado, julguei-me apaixonado. Por outras palavras, fiz de parvo.

(…)

Tomei-me assim de uma falsa paixão por uma pateta encantadora, que tinha lido tão bem a literatura cor-de-rosa que falava do amor com a segurança e a convicção de um intelectual anunciando a sociedade sem classes. Tentei falar também do amor e acabei por eu próprio me persuadir. Até, pelo menos, ao momento em que ela se tornou minha amante e eu compreendi que a literatura cor-de-rosa, que ensinava a falar do amor, não ensinava a praticá-lo. Depois de ter amado um papagaio, tive de dormir com uma serpente. Procurei, pois, noutro sítio, o amor prometido pelos livros e que nunca encontrara na vida.

(…)

Fora do desejo, as mulheres aborreceram-me para além de tudo o que seria de esperar e, visivelmente, também eu as aborrecia. Nada de jogos, nada de teatro, eu estava, sem dúvida, dentro da verdade. Mas a verdade, caro amigo, é uma estopada.

Desesperado do amor e da castidade, lembrei-me, enfim, de que restava o deboche, que substitui muito bem o amor, faz calar os risos, restabelece o silêncio e, sobretudo, confere a imortalidade. Num certo grau de embriaguez lúcida, deitado, alta noite, entre duas raparigas, e vazio de qualquer desejo, a esperança já não é uma tortura, repare, o espírito reina sobre todos os tempos, a dor de viver está para sempre afastada.

(…)

O álcool e as mulheres forneceram-me, devo confessá-lo, o único alívio de que era digno. Confio-lhe este segredo, caro amigo, não receie utilizá-lo. Verá então que o verdadeiro deboche é libertador porque não cria nenhuma obrigação (…). Deixa-se, ao lá entrar, tanto o medo como a esperança (…) Servi-me, em todo o caso, sem medida desta libertação (…). Passarei isso por alto: o senhor sabe que até pessoas muito inteligentes tiram glória do facto de poderem esvaziar uma garrafa a mais que o vizinho. Eu teria podido, enfim, encontrar a paz e libertar-me nesta dissipação. Mas, mesmo aí, encontrei um obstáculo em mim mesmo. Foi o fígado, desta vez, e um cansaço tão horrível que ainda não me largou. Brincamos aos imortais e ao fim de algumas semanas já nem sequer sabemos se nos poderemos arrastar até ao dia seguinte.”

A cantiga do bandido explicada às criancinhas


“Nestas relações, aliás eu satisfazia ainda outra coisa, além da sensualidade: o meu amor do jogo. Eu amava nas mulheres as parceiras de um certo jogo, que tinha, pelo menos, o sabor da inocência. Veja bem, não posso suportar o tédio e só aprecio na vida as distracções (…).

Por conseguinte, eu ia no jogo. Sabia que elas gostavam que se não fosse muito depressa ao fim. Antes de tudo, era precisa conversa, ternura, como elas dizem (…). Mudava muitas vezes de papel, mas tratava-se sempre da mesma peça. Por exemplo, o número da atracção incompreensível, do «não sei quê», do «não há razões, eu não desejava ser atraído, estava, no entanto, cansado do amor, etc…» era sempre eficaz, posto que seja um dos mais velhos do repertório. Havia também o da felicidade misteriosa que nenhuma outra mulher jamais nos deu, que é talvez sem futuro, de certeza mesmo (…). Eu tinha aperfeiçoado, sobretudo, uma pequena tirada, sempre bem recebida, e que o senhor aplaudirá, tenho a certeza. O essencial desta tirada consistia na afirmação dolorosa e resignada, de que eu não era nada, não valia a pena prenderem-se a mim, a minha vida estava alhures, passava ao lado da felicidade de todos os dias, felicidade que talvez eu preferisse a tudo o resto, mas, enfim, era tarde demias. Sobre as razões deste atraso decisivo, eu guardava segredo, pois sabia que era melhor dormir com o mistério. Em certo sentido, aliás, acreditava no que dizia, vivia o meu papel. Não admira, pois, que as minhas parceiras se entusiasmassem também com o delas. As mais sensíveis das minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender e este esforço levava-as a melancólicos abandonos. As outras, satisfeitas por verem que eu respeitava as regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir, passavam sem esperar às realidades. Tinha então ganho duplamente, pois que, além do desejo que sentia por elas, satisfazia o amor que eu me dedicava, verificando de cada vez os meus belos poderes.

Tanto isso é verdade que, mesmo se acontecia que algumas me não dessem senão um prazer medíocre, eu tratava, contudo, de reatar com elas, de longe em longe, animado, sem dúvida, por este desejo singular que é favorecido pela ausência, seguida de uma cumplicidade de súbito reencontrada, mas também para verificar que os nossos laços se mantinham ainda e que só a mim competia estreitá-los. Por vezes, chegava mesmo ao ponto de lhes fazer jurar que não pertenceriam a nenhum outro homem, para aplacar de uma vez para sempre, as minhas inquietações sobre este ponto. O coração, todavia, não tomava parte alguma nesta inquietação, nem a imaginação tão-pouco. Uma certa espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. Mas este juramento que elas me faziam libertava-me, prendendo-as. Desde o momento que não pertenciam a ninguém, podia então decidir-me a romper com elas, o que, de outra maneira, me era quase sempre impossível. A verificação, no que lhes dizia respeito, estava feita de uma vez para sempre e o meu poder assegurado por muito tempo. Curioso, não? É, no entanto, assim, meu caro compatriota. Uns gritam: «Ama-me!» Outros: «Não me ames!». Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: «Não me ames e sê-me fiel!»

Somente, aí está, a verificação nunca é definitva, é preciso recomeçá-la com cada ser. À força de recomeçar, contraem-se hábitos. Bem depressa o discurso nos surge sem pensarmos nisso, segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo.”


Albert Camus, A Queda

terça-feira, 10 de julho de 2012

Ask the Dust


“Aí vai o Bandini pela rua fora; não é alto mas é robusto, tem orgulho nos seus músculos, cerra os punhos para admirar a rija alegria dos bíceps, é absurdamente destemido esse Bandini, nada receia além do que não conhece neste mundo de misteriosos prodígios. Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite grita que sim. Tenho vinte anos, cheguei à idade da razão, preparo-me para percorrer as ruas da cidade à procura de uma mulher. Terei a alma já manchada, será melhor voltar para trás, será que um anjo me protege, será que as preces da minha mãe me tranquilizam, será que as preces da minha mãe me aborrecem?

[…]

Então que hei-de fazer? Devo erguer a boca aos céus, gaguejar ou balbuciar em voz temerosa? Devo bater no peito nu como num tambor ressonante para atrair a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais razoável que me resguarde e continue o meu caminho? Haverá inquietação e desejo ardente; haverá solidão, mitigada apenas pelas lágrimas que hão-de correr para me adoçarem os lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá uma beleza semelhante ao amor de uma qualquer rapariga morta. Haverá riso, um riso contido, e uma serena espera nocturna e um vago receio da noite que trará consigo o ávido e injurioso beijo da morte. Depois será noite, o tempo dos doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre os meus sentidos pelos capitães que abandonei no ímpeto sonhador da minha juventude. Mas serei perdoado por isso e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante adejar das asas de Voltaire, por me ter detido a ouvir e a observar essa ave fascinante, por tudo isso serei perdoado quando regressar à minha terra natal junto ao mar.”

Junkie literária à míngua


Junho foi passado com a Ressurreição de Tolstoi: um livro demasiado beato que não aquece nem arrefece. Não há nada mais terrível que um coração despido de paixão e de livros, sobretudo para quem está habituado a doses elevadas de ambos. É como uma fome que desorienta e mói e tudo varre. Como uma morte lenta e estudada. Reconheço que sou viciada nas sensações de vertigem e que tenho sérios problemas em sentir-me viva quando não sinto um tambor rugir descompassado no peito. E que até posso abdicar das ideias regadas a risos excessivos, das doses pouco recomendáveis de whisky e das histórias de amor fodido; agora sem livros, sem os livros grandes, belos e cruéis sinto-me como um trapo amarfanhado a um canto insípido da vida menor e isso é intolerável e sufoca como um verão desperdiçado numa aldeia do tédio.

Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, mas nenhum desses livros parecia ter qualquer relação comigo, ou com as ruas, ou com as pessoas que me rodeavam (…). Para encontrar algum risco, alguma paixão, era necessário recuar aos escritores russos anteriores à Revolução. Havia excepções, mas eram tão raras que depressa se esgotavam, deixando-nos a olhar para estantes e mais estantes cheias de livros incrivelmente enfadonhos. Apesar de um legado de muitos séculos e de todas as suas vantagens, os autores modernos não eram, afinal, grande coisa.

Tirava das prateleiras livro atrás de livro. Porque é que ninguém dizia nada? Porque é que ninguém gritava?”

Charles Bukowski



“et se la pensée était autant une affaire de peau que de cerveau?”

Didier Anzieu, Le Moi-peau

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A MULHER





“Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
CARLOS EDMUNDO DE ORY
(…)
Quero uma mulher assim, de silêncios
venenosos, que me morda o tendão
do ombro e da língua, e abuse
de declarações de guerra e paz,
vá para o inferno e regresse
no meio de um mar de boatos
exibindo gloriosos arranhões,
e me arraste em jogos de malícia,
me esconda o coração e me deixe
doido dias inteiros atrás de pistas
e coordenadas.

Não quero uma mulher explicada,
prefiro o assombro. Antes aturar
mistérios, teimas, transes e jejuns,
mesmo às vezes a troça e o desprezo,
e que quando se sinta enfastiada
fuja sem aviso e se feche parindo
a escuridão.

Que me adore e se farte, me empurre
do alto das escadas, e se ria perdidamente
ou chore e me asfixie devagarinho
com os primeiros cabelos que lhe
nasçam brancos. Quero que até esse dia
em que se chegará tristemente
para pedir-me a mão logo depois
que o seu rosto se retire para sempre
de todos os espelhos.

No fim, nem me importa
que nunca venha a cruzar-se comigo,
que isto eventualmente ainda seja eu
a roubar acessórios em lojas
de senhora. Pelo menos não será
uma coisa que se explique nem alguém
que tenha a descortesia de dizer por aí
que chegámos a um entendimento.

Diogo Vaz Pinto

domingo, 1 de julho de 2012

Hurricane



Welcome to the inner workings of my mind
so dark and foul I can’t disguise
can’t disguise
nights like this I become afraid of the darkness in my heart
hurricane

terça-feira, 26 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

il faut croire pour danser


CONDE: Felicidade? Por favor, senhora. Não há felicidade. As coisas de que mais se fala são precisamente as coisas que não existem… Por exemplo, o amor. Essa também é uma delas.

ACTRIZ: Se calhar tem razão.

CONDE: Prazer… ebriedade… pronto, escusado será dizer… isso são coisas certas. Estou a fruir de alguma coisa… bom, sei que estou a fruir. Ou estou inebriado, belo. Também é certo. E quando acabou, acabou de vez.

(…)

CONDE: Certo. Portanto, como eu disse, a diferença não é lá muita. Se eu à noite for para o casino ou o clube, é tudo a mesma coisa.

ACTRIZ: E qual a relação entre isso e o amor?

CONDE: Quando se acredita nisso, há sempre alguém ao lado que gosta de nós.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Coração, caçador solitário

“Que diria a Pórtia se soubesse que sempre tinha havido alguém, um depois do outro? E todas as vezes era como se uma parte dela estoirasse em cem pedaços.

[…]

Pensou e repensou, sempre a bater nas coxas com os punhos fechados. Sentia a cara como se a tivesse dividida em bocados separados e a não pudesse manter direita. Era uma sensação mil vezes pior que a fome, e no entanto era com a fome que isto se parecia. “Eu quero… eu quero… eu quero…”, repetia, sem poder pensar noutra coisa: mas o que fosse esse querer não saberia dizê-lo.”



quarta-feira, 6 de junho de 2012

As Anotações de Malte Laurids Brigge



Um homem de 28 anos, dinamarquês, chega à grande cidade, Paris, num estado frágil. Vem para empreender uma grande aprendizagem. A cidade está cheia de hospitais e cheira a medo por todos os muros e recantos. Os ruídos não o deixam adormecer de noite mas há também o grande silêncio terrível. A grande transformação começa pelas ruas, pelo olhar que aprende a ver os rostos e os não-rostos.
“Mas aquela mulher, aquela mulher: estava completamente ensimesmada, de cabeça inclinada para a frente, sobre as mãos. Foi na esquina da rue Notre-Dame-des-Champs. Assim que a vi comecei a andar sem fazer ruído. Quando os pobres se põem a pensar não se deve incomodá-los. Talvez acabem por lembrar-se.
A rua estava vazia de mais, o seu vazio aborreceu-se e retirou-me o passo debaixo dos pés e pôs-se a bater com ele, aqui e acolá, como se fosse uma tamanca. A mulher assustou-se e saiu do seu ensimesmamento, demasiado depressa, com demasiada violência, de tal modo que o rosto lhe ficou nas duas mãos. Eu podia vê-lo nessa posição, ver a sua forma oca. Custou-me um esforço indescritível fixar o olhar apenas nas mãos e não o levantar para ver o que delas se tinha arrancado. Sentia o pavor de ver um rosto por dentro, mas tinha um medo ainda maior de uma cabeça nua e em carne viva, sem rosto.”
Malte tem medo. Sabe que a morte foi seriada mas não perdeu a sua dificuldade. Escreve as noites contra o medo. Esquece as suas recordações e aguarda pacientemente o seu regresso. Separa-se de tudo e de todos. Com as palavras de Baudelaire, reza a Deus. Tudo o que se perdeu na infância retorna, os perigos passados tornam-se novamente presentes.
"A existência do terrível em cada partícula de ar. Tu respira-lo com a sua transparência; mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas e geométricas entre os órgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é, à sua terrível realidade.”
Malte não tem para onde ir, o seu coração expulsa-o de si mesmo. A vida torna-se indistinta e incomunicável. Pressente, no entanto, uma bem-aventurança próxima,  nas Amantes, as poderosas Amante, como Gaspara Stampa e Mariana Alcoforado e nos seus amores que não precisam de qualquer correspondência, porque são chamamento e resposta; as imortais amantes que ultrapassam sempre o amado pela felicidade da sua entrega, porque sabem já que a união de dois seres nada mais pode trazer do que um acréscimo de solidão.
“O que sabiam eles sobre quem ele era? Ele era agora extremamente difícil de amar e sentia que só Alguém o poderia fazer. Mas esse ainda não queria.”