sexta-feira, 19 de outubro de 2012
a poesia acaba quando um poeta morre
A Poesia vai acabar
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
“Adquirir a sua alma na paciência”
Lisboa,
19 de Outubro de 2012
Estimado Poeta,
Não tenho outro modo de
lhe agradecer as cartas que escreveu há mais de um século. Embora endereçadas a
outro jovem aspirante a poeta, as suas palavras trouxeram-me uma alegria
preciosa. Os seus conselhos, sempre tão ternos e sábios, afiançam-me que
conheceu enormes fadigas e pesadas tristezas e que a certo ponto, decidiu não
desesperar e confiar nesse negrume que o abraçava. Tem razão quando afirma que
se deve fazer da solidão “uma casa à luz
do cair da tarde ou do amanhecer, por onde os ruídos dos outros passa à distância”.
Tudo o que é genuíno e grande começa nessa solidão desmedida.
A tristeza é o momento em
que qualquer coisa de novo e desconhecido penetra em nós, como uma tempestade
primaveril que entra pelos escaninhos da alma, sorrateira, aí se instalando com
toda a lentidão e silêncio enquanto prepara o seu parto, no centro do ser. “Tudo se resume a levar ao fim a gravidez e
depois dar à luz. Deixar medrar cada impressão, cada semente de uma emoção, dentro
de nós, no escuro, no inefável, no inconsciente, inacessível ao próprio
entendimento, e com profunda humildade e paciência aguardar a hora do parto de
uma nova claridade: apenas assim se vive artisticamente, no entendimento como
na criação (…) O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente,
para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados,
silenciosa e imensa, a eternidade. Todos os dias aprendo esta lição, aprendo-a
pelo sofrimento que aceito com gratidão: a paciência é tudo!”
A solidão será difícil de
suportar, mas o esforço será recompensado. Nas horas mais escuras, haverá a
tentação de a trocar uma qualquer convenção ou conveniência, mais vulgar e fácil,
menos dispendiosa e arriscada. Mas é preciso confiar e amar a pergunta que nos
nasceu, velar pacientemente pelo seu crescimento pois, como tão sabiamente nos
repete, a vida tem sempre razão.
Portanto, não nos agitemos
demasiado: renascer leva o seu tempo. A turbulência acabará, eventualmente, por
amainar, restando a sua face infinita, devolvendo-nos o olhar que um dia lançámos
para fora. Depois de atravessarmos a nossa solidão, seremos talvez capazes de
alcançar um amor mais humano, “o amor de
duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam”.
Quem poderá dizer o que
daqui sairá? Ninguém, este é um caminho que tacteamos, sozinhos e desamparados.
“O futuro é um eixo fixo (…) mas nós
deslocamo-nos no espaço infinito”. Cada um por si. Conforta-me, no entanto,
saber que andou pelas imediações e que achou tranquilidade e ternura para falar
disso. A minha grande solidão levou-me até si; leitora ávida, raramente sonho
com referências literárias, mas há cerca de um ano, numa dessas noites eternas
que mastigam o corpo e a alma, uma voz visitou-me enquanto dormia,
recomendando-me que tornasse a ler as Elegias
a Duíno. No dia seguinte, obedeci de imediato ao ditado onírico e a minha
alma foi convalescendo, consolada pelas suas palavras.
Eternamente sua,
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Uma espiã na casa do amor
«Vestida de vermelho e prata,
ela evocava os sons e imagens dos carros de bombeiros, quando rasgavam as ruas
de Nova York, inquietando o coração com o violento gongo da catástrofe; toda
vestida de vermelho e prata, o impetuoso vermelho e prata cortando caminho
através da carne. Na primeira vez que ele olhou para ela, sentiu: Tudo se vai
incendiar!
Do vermelho e prata e do longo
grito de alarme ao poeta que sobrevive em todo o ser humano, enquanto a criança
nele sobrevive; a esse poeta, ela atirou uma inesperada escada no meio da
cidade e ordenou: “Suba!”
(…)
Ela era compelida por uma febre
confessional que a forçava a levantar um canto do véu, e então amedrontava-se
quando alguém ouvia muito atentamente. Repetidas vezes, pegava numa esponja
gigantesca e apagava tudo o que havia dito pela negação absoluta, como se essa
confusão fosse em si um manto de protecção.»
Um livro mediano. Nada de especial: nem facadas no peito nem picos no pipi.
domingo, 14 de outubro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
Afirma Pereira
"Nesse momento, Pereira lembrou-se de uma frase que o seu tio, que era um literato falhado, lhe repetia sempre, e pronunciou-a. Disse: a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade."
"E quando o doutor Cardoso passou a porta e desapareceu na rua sentiu-se só, verdadeiramente só, e pensou que quando estamos verdadeiramente sós é o momento de nos medirmos com o nosso eu hegemónico que procura impor-se à corte das almas. Mas apesar deste pensamento não se sentiu apaziguado, pelo contrário, sentiu uma grande saudade, não saberia dizer de quê, mas era uma grande saudade de uma vida passada e de uma vida futura, afirma Pereira."
sábado, 6 de outubro de 2012
"Prive o homem comum da sua mentira vital e ter‑lhe‑á roubado a felicidade."
“Elias
Rukla lembrava-se que tivera uma grande decepção quando lera A Insustentável
Leveza do Ser de Milan Kundera. Não com o livro, que era muito bom, até mesmo
uma obra-prima, mas com o título. O título estava errado. O livro não trata da
insustentável leveza do ser, mas de algo distinto. Porque a insustentável
leveza do ser não constitui uma condição existencial da vida humana, mas uma
condição social para um determinado estrato do mundo ocidental durante a última
metade do século XX. A insustentável leveza do ser é algo que afecta as pessoas
pensantes e sedentas de conhecimento da Escola Secundária de Fagerborg na
capital norueguesa nas últimas duas décadas deste nosso século. E que lhes
usurpa a capacidade de dizer alguma coisa a outras pessoas. De falar. A conversa
tinha estancado. As pessoas do mesmo estrato social de Elias Rukla já não
conversavam. Só de um modo fugaz e superficial. Quase só se limitavam a
encolher os ombros entre elas. Talvez ante os demais, numa espécie de
cumplicidade irónica (…) Ah, quanto ansiava que alguém conseguisse sair desse
mutismo e dissesse algo, ainda
que fosse apenas para referir que a vida tinha mais coisas para oferecer. Na realidade,
o que procurava era que alguém fizesse uma alusão nesse sentido, mesmo que
fosse em forma de código, por exemplo, se alguém durante um desses rápidos
intercâmbios de comentários tivesse levantado de repente o dedo indicador em
direcção ao céu, assinalando desse modo que na nossa parte do mundo existe uma
longa tradição religiosa baseada no cristianismo, e que por isso se costuma
apontar lá para cima, com o indicador esticado para o céu, onde, segundo a tradição,
se encontram Deus e os seus anjos, e também os bem-aventurados, Elias Rukla tê-lo-ia
abraçado, independentemente do quão irónico esse indicador pudesse parecer,
tanto para o que teve esse impulso como para os demais (…). Ah, estava
verdadeiramente esfomeado, e sentia que o seu cérebro se encontrava
sobreaquecido, como se estivesse a incubar uma meningite espiritual que podia
brotar a qualquer momento, pelo que não se podia considerar inteiramente
responsável pelos seus actos, era como se esperasse um ataque, como se
encontrasse um vómito tremendo e libertador à sua frente, no futuro imediato,
mas que não chegava nunca. Procurava nos seus colegas algo que pudesse
expressar essa outra coisa, algo que
tornasse possível uma aproximação. Examinava de lanterna na mão cada palavra
que pronunciavam, disposto a interpretar tudo no melhor dos sentidos e a
socorrer imediatamente a pessoa em questão mal se pronunciassem as possíveis
palavras crípticas, a fim de mostrar a sua gratidão, e também para falar com
ela, muito provavelmente com um sussurro rouco na primeira investida, presumia.”
É exactamente por isto que fico
em casa num sábado à noite, acompanhada por gelado de menta e chocolate e um
livro. A comunicação parece ter-se tornado uma utopia e não tenho nem pudor nem dignidade para participar neste mutismo
palrador. E ainda bem.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Amor em tempos de austeridade
Os tempos estão para paixões
nómadas. Todas as noites um livro diferente na cama. Sem arroubos nem
consequências de maior. Mas quer-se sempre algo de maior, algo que permita
viver menos mal e mais poeticamente, nem que seja tão só um livro belo e
terrível a partilhar o desalinho do sono.
Cansada de mastigar
novidades estéreis, fui reler a minha história de amor predilecta: O Golpe de
Misericórdia de Marguerite Yourcenar.
A narrativa compacta
apresenta-se sob a forma de uma confissão, com todos os quid pro quos
implicados. Um mercenário ferido, que diz jamais se ter implicado numa causa
pessoal, faz face ao seu passado num esforço de honestidade pontuado por
lapsos, esquecimentos e mentiras.
Conta afinal da única guerra
pessoal que travou – o seu primeiro encontro com o amor, protegido pela guerra
civil de 1914 na imaginária localidade de Kratovicé. Ele é o vivo que restou e
não esqueceu, apesar da sua couraça de indiferença.
É nesse cenário bélico que duas eróticas ocidentais poderosas se defrontam em campo aberto, numa
atmosfera asfixiada – a erótica estóica do homem austero que deseja mas não
ousa ceder por medo e orgulho e a erótica socialista da mulher que se entrega
ao amor como a uma doença nervosa. Ela, Sofia, avança, oferece-se ao amor sem
ponderação nem pudor, com “a encantadora graça dum fruto que se propõe
igualmente à boca e à faca”. A sua promessa de sacrifício não é no entanto uma
garantia de submissão; ela deseja o homem não como fim do seu desejo, mas como
meio para se dar de corpo e alma. Eric pressente isso mesmo, e assustado por tamanha generosidade, resiste, aperta-se em si e insiste na inércia
e no desprezo; “tinha reconhecido nela, ao primeiro golpe de vista, uma
natureza inalterável com a qual se podia concluir um pacto exactamente tão
perigoso e tão seguro como um elemento; pode-se confiar no fogo, desde que se
saiba que a sua lei é morrer ou queimar.” Eis a dança mais antiga dos pares
amorosos: dar e recusar-se alternadamente até à apoteose.
Unidos por uma dor que não
faz concessões à piedade, ele testa o voluntarismo sacrificial da oferenda
feminina, ela mantém a sua promessa com desespero; assim se estabelece entre
ambos uma intimidade tácita de carrasco e vítima, com dias do caçador e dias da
caça. Nas palavras da autora: “Para além da anedota da rapariga que se oferece
e do rapaz que se recusa, o tema central de O Golpe de Misericórdia é, antes de
tudo, esta comunidade de espécie, esta solidariedade de destino entre três
seres submetidos às mesmas privações e aos mesmos perigos. Eric e Sofia,
sobretudo, parecem-se um com o outro por esta intransigência e pelo seu gosto
apaixonado de irem até ao extremo de si próprios.”
Sofia jamais considera
retirar a sua promessa de amor, escolhe activamente arder e acaba morta. Eric
escolhe renunciar e sai queimado. “O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma
parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que
Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado.
Pensei, primeiro, que, ao pedir-me que me incumbisse deste serviço, ela julgara
dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi,
depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com
justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.” “On est
toujours pris au piège avec ces femmes. ”
No prefácio à edição
portuguesa, Augustina Bessa-Luís classifica este livro como uma “espécie de
educação sentimental para veteranos”. Eu dava o dedo mindinho para o ter
escrito – a simplicidade aparente de cada diálogo, a tragédia de um cenário
depurado, a nobreza das personagens e a dose exacta de ambiguidade em cada
palavra. Como não o posso fazer, pego no dedo mindinho e vou à biblioteca
requisitar o livro que lamentavelmente está esgotado por cá. Sim, sou dessas
que dormem com amores emprestados.
domingo, 30 de setembro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Dia de Outono
Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.
Rainer Maria Rilke
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.
Rainer Maria Rilke
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
um hino à noite
“O que é que, de repente, pleno de pressentimentos, brota debaixo do coração e sorve a doce aragem da melancolia? Também em nós te comprazes, obscura Noite. O que é que tu guardas debaixo do teu manto, que me toca a alma com uma força invisível? Um bálsamo precioso goteja da tua mão, de um molho de papoilas. Elevas as pesadas asas do nosso ânimo. Sentimo-nos obscuramente, inexprimivelmente comovidos (…). Tão pobre e tão pueril me parece agora a luz – que júbilo e que benção, ao despedir-se o dia – Assim, só porque a Noite aparta de ti seus servidores, semeaste na lonjura do espaço as esferas luminosas, para que testemunhassem da tua omnipresença – do teu regresso – no tempo do teu afastamento. Mais celestes do que aquelas estrelas cintilantes nos parecem os olhos infinitos que a Noite em nós abre (…). Glória à rainha do mundo, à grande mensageira de mundos sagrados, a do amor extasiado – é ela que te envia até mim – doce amada – amável sol da noite – eis que estou desperto – porque sou teu e sou meu – revelaste-me a Noite como Vida – tornaste-me humano – devora de ardor espiritual o meu corpo para que, etéreo, eu possa misturar-me contigo mais intimamente, e seja então a nossa noite de bodas.”
Novalis, Hinos à Noite
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Epifanias domésticas
A
mão firmada sobre a laranja. A faca dividindo a laranja em duas metades. O espremedor
devolvendo o som do real acolhedor. A consciência de ter novamente o meu corpo
em casa, sólido, firme. Parada e segura em mim, a mão tremendo sobre a meia
laranja, nada mais que isso. A luz da manhã a pico estirada alegre por azulejos
e móveis enche-me os olhos de água. As
lágrimas rolam pelo rosto aturdido pelo calor e vão fundir-se no sumo laranja. Recordo brevemente a minha quase-morte, as noites terríveis e silenciosas, outrora tão
queridas. Uma descida longa, de início desejada com a arrogância de quem sonha
o mundo de coração cerrado, mais tarde temida com cada poro. A difícil
aprendizagem das camadas de sombra que compõem cada abismo que é um ser. Choro
de gratidão. Como uma Eurídice, refazendo com passos ainda inseguros o caminho
de volta para junto dos vivos. Sem Orfeu nem lira, acompanhada apenas por uma
voz na rádio cantando os subúrbios de um passado perfeito em que se acreditou
poder vencer sem jamais perder. Despejo o sumo no copo e enxugo as lágrimas com
as costas da mão. Sento-me à mesa e sorrio do mistério de estar viva e das formas insuspeitadas da comoção. Suspeito que estou quase safa.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Madame Bovary é quase quase uma mulher de trinta anos muito orgulhosa…
“Com efeito, uma rapariga tem
demasiadas ilusões, excessiva inexperiência, e o sexo é demasiado cúmplice do
seu amor, para um jovem poder sentir-se lisonjeado; enquanto uma mulher conhece
toda a extensão dos sacrifícios a fazer. Se uma é arrastada pela curiosidade,
por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma
cede, a outra escolhe. Esta escolha não é imensamente lisonjeira? Armada com
uma experiência quase sempre paga, por alto preço, com infelicidades, ao
dar-se, a mulher experimentada parece dar mais do que ela própria, enquanto a
jovem, ignorante e crédula, como não sabe nada, nada pode comparar, nada
apreciar; aceita o amor e estuda-o. Uma instrui-nos, aconselha-nos, numa idade
em que gostamos de ser guiados, em que a obediência é um prazer; a outra quer
aprender tudo e mostra-se ingénua naquilo em que a primeira é terna. Aquela só
permite um único triunfo; esta obriga a combates perpétuos. A primeira só tem
lágrimas e prazeres, a segunda só voluptuosidades e remorsos. Uma, demasiado
submissa, oferece a triste segurança da tranquilidade; a outra perde muito por
não pedir ao amor as suas mil metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra
mata uma família inteira por aquele a quem ama. Uma jovem só tem um atractivo a
julga ter dito tudo quando se despe; mas a mulher tem-nos em grande número e
oculta-os sob mil véus; em suma, afaga todas as vaidades, enquanto a noviça só
lisonjeia uma. São excitantes, aliás, as indecisões, os pavores, o medo, as
perturbações e as tempestades da mulher de trinta anos, que não se encontram
nunca no amor duma rapariga (…). Finalmente, além de todas as vantagens da sua
posição, a mulher de trinta anos pode tornar-se rapariga, representar todos os
papéis, ser púdica e embelezar-se até com uma infelicidade. Entre ambas
encontra-se a incomensurável diferença do previsto para o imprevisto, da força
para a fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz a tudo; a jovem, sob pena de
não o ser, não deve satisfazer a nada.”
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
domingo, 2 de setembro de 2012
Lisboa, 2 de Setembro
Oslo, 31 de Agosto. Não falta ali nada. Um homem de 34 anos perdido, ex-toxicodependente tenta regressar à vida. Recomeçar do zero é impossível, os outros e ele próprio não perdoam. Os outros que também estão no mesmo barco à deriva, e que não admitem que alguém esteja mais partido que eles. Todos fodidos, náufragos pouco solidários: importa manter a farsa e seguir andando. O homem é apenas a baixa mais evidente, a braços com um problema comum que excede a heroína. A droga nunca é o problema. É a solução. Existem outras: o trabalho, a televisão, o casamento, os filhos, blá-blá.
E qual é o problema do homem, afinal? O problema é ter nascido numa época descomplicada, obrigado ao sucesso e à felicidade. É ser demasiado inteligente, ver e dizer o que não pode ser visto nem dito. É ter desprezado a idiotia da felicidade para aprimorar um talento que não pode cumprir porque quando nos pomos a cismar mais do que os outros caímos no buraco e então, é o ver-se-te-avias para tornar a subir e regressar ao mundo dos vivos.
Falta ali tudo. Naquele olhar descrente de quem sonhou uma vida diferente, uma vida mais próxima do extraordinário, da beleza, e soçobra todos os dias perante a realidade chã, crua e pobre. As pessoas e as coisas opacas, incapazes de devolver qualquer sentido. “São coisas que nunca se mostram nos filmes: o sentimento de não saber porque é que estamos perdidos, apesar de termos vidas confortáveis ou de virmos de famílias privilegiadas.” “Nos meus filmes, tenho falado sempre da «dupla vergonha» de fracassar, ao não se conseguir fazer aquilo para que se tem talento no contexto de uma vida privilegiada num dos países mais ricos do mundo, e de não ter razões de queixa. Fracassar na Noruega é uma dupla vergonha: com o mundo como está tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?”
Impossível evitar a identificação narcísica automática. A caminho da praia, uma amiga confessa, de sorriso leve, que ao ler sobre o filme pensou “epá isto é a minha vida”. Com a mesma leveza, retribuo graciosamente “a tua e a de todos nós. Fomos todos ludibriados. Quero o meu dinheiro de volta!”. Ironizamos depois sobre a sorte da nossa catástrofe quotidiana não se passar na Noruega e lá vamos nós a banhos, desprendidas como quem acredita ainda. Fazemos como o protagonista do filme: sorrimos da nossa desgraça e da dos outros e fazemos de conta que não se passa nada de extraordinário.
E de facto, nada de extraordinário se passa. Só esta tragédia banal, diária, onde se faz o que se pode para se persistir. Sem esperanças de luz nem rasgos de indignação – apenas a frustração de termos falhado quando tínhamos tudo a nosso favor. Todos os dias sacrificamos a grande vida, seja lá o que isso for, ao altar da puta da vidinha.
Faltava um frame final no filme: os rostos daqueles que estavam na sala na última sessão deste sábado. Entre eles, um velhote circunspecto de bengala. Lá ia um sobrevivente declarado.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
"O pensar, assim de noite, não é muito bom para a saúde. A misteriosa solenidade que adquirem os pensamentos produz quase sempre - sobretudo em determinados tipos, que têm dentro de si uma certeza com a qual não podem descansar, a certeza de nada poder saber e, não sabendo, de em nada poderem acreditar - uma séria constipação. Constipação da alma, escusado será dizê-lo."
Luigi Pirandello
sábado, 25 de agosto de 2012
Escrever é maçada
“Os dias estéreis da
determinação. Era essa a palavra certa, determinação: Arturo Bandini sentado em
frente à máquina de escrever dois dias seguidos, ininterruptamente, determinado
a vingar. Mas não resultou; sofreu o mais longo cerco da mais dura e implacável
determinação de toda a sua vida, e não escreveu uma única linha, mas apenas uma
palavra, repetida pela página inteira, de cima a baixo, uma palavra só:
palmeira, palmeira, palmeira, uma batalha mortal entre a palmeira e eu, e a
plameira ganhou: via-a lá fora, a balançar sob o ar azul, a ranger docemente
sob o ar azul. Ao fim de dois dias de batalha, a palmeira levou a melhor e eu
esgueirei-me pela janela e sentei-me debaixo dela. Passou algum tempo, um
momento ou dois, e adormeci, com pequenas formigas castanhas a passaream-se
alegremente por entre os pêlos das minhas pernas.”
John Fante, Pergunta ao Pó
F O M E
Fome de
Knut Hamsun narra um período de fome que um homem passa em Kristiania (actual
Oslo). Um homem sem emprego e relações, de estômago vazio e cabeça cheia de
pensamentos alucinatórios, tenta desesperadamente escrever. É preciso que
escreva para que possa comer algo, mas sem comer, escrever é algo quase
impossível, uma experiência-limite.
A certo ponto, percebemos que
este homem passa fome não porque não tenha opção, mas por escolha, ou melhor,
por uma estranha compulsão interior que o obriga a respeitar os «sentimentos
nobres», a vigiar constantemente o seu pensamento e a a imagem que oferece de
si. A certo ponto, apaixona-se mas é incapaz de abandonar o «orgulho» e a
«decência».
“Aquilo
irritou-me, quase me chocou que ela me considerasse assim tão decente; enchi o
peito de ar, deixei o coração inchar e peguei-lhe na mão. Mas ela retirou-a
docemente e sentou-se um pouco mais afastada de mim. Com isso, a minha coragem
desapareceu de novo, senti-me envergonhado e olhei na direcção da janela (…).
Senti-me totalmente paralisado.
-
Já vê! – disse ela, - já vê que tenho razão: a você é possível assustá-lo com
um mero franzir de testa; é possível embaraçá-lo com uma simples e
insignificante mudança de lugar… - Ela riu, trocista, com os olhos
completamente fechados, como se também não suportasse ser observada.”
Paul Auster tem razão quando
afirma que o herói de Fome sofre de
uma doença de linguagem. O próprio o explicita quando se explica à rapariga: “na verdade, podia ter-se uma natureza
sensível sem que, por isso, se fosse louco; havia os que viviam quase de nada e
que morriam de uma simples palavra. E deixei-a perceber que eu tinha esse tipo
de natureza.” Está doente de palavras como «honra», «honestidade»,
«altruísmo», «abnegação», etc.. É por esta razão que amachuca uma nota de
dinheiro e a atira à cara de uma hospedeira. Uma nota que o poderia alimentar
durante dias.
“Ah,
ah! Pode chamar-se a isto «actuar, salvaguardando a honra»! Sem dizer nada, sem
dirigir a palavra à gentalha, amachucar simplesmente uma nota de dinheiro das
grandes, com toda a calma, e atirá-la às ventas do seu perseguidor. Podia
dizer-se que isto é «comportar-se com dignidade» Assim se levam as bestas!...
Quando
cheguei à esquina da Tomegatten com a Jernbanetorvet, os meus olhos começaram a
ver a rua a cintilar, a cabeça vazia começou a zunir e resvalei contra a parede
de um prédio. Não consegui avançar mais, pura e simplesmente, nem sequer
consegui manter-me direito. Fiquei em pé, tal como tinha resvalado contra a
parede, e senti que estava a perder os sentidos. A minha louca ira piorou ainda
mais com este ataque de esgotamento, levantei o pé e bati no passeio. Também
fiz outras tentativas para recuperar um pouco as forças, cerrei os dentes,
franzi a testa, fiz girar os olhos desesperadamente e comecei a sentir o
efeito. O meu pensamento tornou-se mais claro e compreendi que estava prestes a
morrer. Pus as mãos à frente e apoiei-me contra a parede, e a rua continuava a
dançar à minha volta. Comecei a soluçar de raiva e lutei contra a minha
desgraça com o mais íntimo da minha alma, mantive corajosamente esta posição,
para não cair de todo; recusava deixar-me sucumbir, queria morrer de pé.”
A fome auto-imposta será a
sua maneira de verificar a validade dos sentimentos «bons». Faz lembrar
Raskolnikov e Stirner. À maneira dos ascetas e mártires, ele escolhe a via da
dor; o prazer e o deboche seriam um teste menos honroso. Tanto pior para ele.
Abeira-se do colapso muitas vezes. Nenhum anjo lhe aparece para o salvar.
Resta-lhe reconhecer que,
morto o referente transcendente, esses «sentimentos» são vazios, palavras ocas
apenas, que traduzem absolutamente nada. Prazer e dor são completamente aleatórios.
Na ponta do garfo dessa refeição nua, o Nada e nada mais. Não se pode mais
louvar uma razão omnipresente e autofágica que martiriza a carne e faz do
pensamento veneno. Estamos sozinhos aqui e agora, sem caminhos certos, e vamos
ter de nos aguentar.
“Passou
uma carroça rolando lentamente, e vi que levava batatas, mas na minha raiva e
obstinação lembrei-me de dizer que não eram batatas, mas sim cabeças de couve,
e jurei furiosamente a pés juntos que eram couves. Ouvi nitidamente o que
dizia, mas persisti na mentira e continuei a jurar repetidamente, só para ter a
desesperada satisfação de cometer perjúrio. Deixei-me embriagar por este pecado
requintado, estiquei os dedos no ar e jurei, com lábios balbuciantes, em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em como eram cabeças de couve.”
quinta-feira, 26 de julho de 2012
A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer
"(...) de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.
Como posso, assim, viver a felicidade?
Procuro o que me pode consolar como o caçador persegue a caça, atirando sem hesitar sempre que algo se mexe na floresta. Quase sempre atinjo o vazio, mas, de tempos a tempos, não deixa de me tombar aos pés uma presa. Célere, corro a apoderar-me dela, pois sei quão fugaz é o consolo, sopro dum vento que mal sobe pela árvore.
Debruço-me.
Tenho-a! Mas tenho o quê, entre estes dedos?
Se sou solitário - uma mulher amada, um desditoso companheiro de viagem. Se sou poeta ou prisioneiro - um arco de palavras que com assombro reteso, uma súbita suspeita de liberdade. Se sou ameaçado pela morte ou pelo mar - um animal vivo e quente, coração que pulsa sarcástico; um recife de granito bem sólido.
Sendo tudo isso, é sempre escasso o que tenho!
As formas de consolo: se procuro umas, outras há que me perseguem sem que as convoque. Sussurram, odiosas. Enchem-me o quarto de murmúrios:
O prazer: - «Entrega-te sem restrições»!
O talento: - «Usa-me tão mal como a ti mesmo»!
A minha sede de gozo: - «Só os gulosos sabem viver»!
A solidão: - «Despreza os homens»!
Este desejo de morte: - «Fere, Mata»!
Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.
Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
A ousadia de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguião selvagem e debochada dos factos nus,
o tactear indecente de temas delicados,
a desova das idéias – é disso que eles gostam.
À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triangulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)
Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória (…)
É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”
wislawa szymborska, opinião sobre pornografia
"(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa."
Clarice Lispector, Felicidade Clandestina
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
Álvaro de Campos
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
Álvaro de Campos
segunda-feira, 16 de julho de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
de qualquer dos modos vais acabar com o fígado podre e o coração partido
“Hesito em confessá-lo,
com medo de proferir ainda alguns palavrões: parece-me bem que senti nessa
altura, a necessidade de um amor. Obsceno, não é? Experimentava, no entanto, um
sofrimento surdo, uma espécie de privação que me tornou mais disponível e me
permitiu, meio forçado, meio curioso, tomar alguns compromissos. Pois que tinha
necessidade de amar e ser amado, julguei-me apaixonado. Por outras palavras,
fiz de parvo.
(…)
Tomei-me assim de uma
falsa paixão por uma pateta encantadora, que tinha lido tão bem a literatura
cor-de-rosa que falava do amor com a segurança e a convicção de um intelectual
anunciando a sociedade sem classes. Tentei falar também do amor e acabei por eu
próprio me persuadir. Até, pelo menos, ao momento em que ela se tornou minha
amante e eu compreendi que a literatura cor-de-rosa, que ensinava a falar do
amor, não ensinava a praticá-lo. Depois de ter amado um papagaio, tive de
dormir com uma serpente. Procurei, pois, noutro sítio, o amor prometido pelos
livros e que nunca encontrara na vida.
(…)
Fora do desejo, as
mulheres aborreceram-me para além de tudo o que seria de esperar e,
visivelmente, também eu as aborrecia. Nada de jogos, nada de teatro, eu estava,
sem dúvida, dentro da verdade. Mas a verdade, caro amigo, é uma estopada.
Desesperado do amor e
da castidade, lembrei-me, enfim, de que restava o deboche, que substitui muito
bem o amor, faz calar os risos, restabelece o silêncio e, sobretudo, confere a
imortalidade. Num certo grau de embriaguez lúcida, deitado, alta noite, entre
duas raparigas, e vazio de qualquer desejo, a esperança já não é uma tortura,
repare, o espírito reina sobre todos os tempos, a dor de viver está para sempre
afastada.
(…)
O álcool e as mulheres
forneceram-me, devo confessá-lo, o único alívio de que era digno. Confio-lhe
este segredo, caro amigo, não
receie utilizá-lo. Verá então que o verdadeiro deboche é libertador porque não
cria nenhuma obrigação (…). Deixa-se, ao lá entrar, tanto o medo como a
esperança (…) Servi-me, em todo o caso, sem medida desta libertação (…).
Passarei isso por alto: o senhor sabe que até pessoas muito inteligentes tiram
glória do facto de poderem esvaziar uma garrafa a mais que o vizinho. Eu teria
podido, enfim, encontrar a paz e libertar-me nesta dissipação. Mas, mesmo aí,
encontrei um obstáculo em mim mesmo. Foi o fígado, desta vez, e um cansaço tão
horrível que ainda não me largou. Brincamos aos imortais e ao fim de algumas
semanas já nem sequer sabemos se nos poderemos arrastar até ao dia seguinte.”
A cantiga do bandido explicada às criancinhas
“Nestas relações, aliás
eu satisfazia ainda outra coisa, além da sensualidade: o meu amor do jogo. Eu
amava nas mulheres as parceiras de um certo jogo, que tinha, pelo menos, o
sabor da inocência. Veja bem, não posso suportar o tédio e só aprecio na vida
as distracções (…).
Por conseguinte, eu ia
no jogo. Sabia que elas gostavam que se não fosse muito depressa ao fim. Antes
de tudo, era precisa conversa, ternura, como elas dizem (…). Mudava muitas
vezes de papel, mas tratava-se sempre da mesma peça. Por exemplo, o número da
atracção incompreensível, do «não sei quê», do «não há razões, eu não desejava
ser atraído, estava, no entanto, cansado do amor, etc…» era sempre eficaz, posto
que seja um dos mais velhos do repertório. Havia também o da felicidade
misteriosa que nenhuma outra mulher jamais nos deu, que é talvez sem futuro, de
certeza mesmo (…). Eu tinha aperfeiçoado, sobretudo, uma pequena tirada, sempre
bem recebida, e que o senhor aplaudirá, tenho a certeza. O essencial desta
tirada consistia na afirmação dolorosa e resignada, de que eu não era nada, não
valia a pena prenderem-se a mim, a minha vida estava alhures, passava ao lado
da felicidade de todos os dias, felicidade que talvez eu preferisse a tudo o
resto, mas, enfim, era tarde demias. Sobre as razões deste atraso decisivo, eu
guardava segredo, pois sabia que era melhor dormir com o mistério. Em certo
sentido, aliás, acreditava no que dizia, vivia o meu papel. Não admira, pois,
que as minhas parceiras se entusiasmassem também com o delas. As mais sensíveis
das minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender e este esforço levava-as
a melancólicos abandonos. As outras, satisfeitas por verem que eu respeitava as
regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir, passavam sem
esperar às realidades. Tinha então ganho duplamente, pois que, além do desejo
que sentia por elas, satisfazia o amor que eu me dedicava, verificando de cada
vez os meus belos poderes.
Tanto isso é verdade
que, mesmo se acontecia que algumas me não dessem senão um prazer medíocre, eu
tratava, contudo, de reatar com elas, de longe em longe, animado, sem dúvida,
por este desejo singular que é favorecido pela ausência, seguida de uma cumplicidade
de súbito reencontrada, mas também para verificar que os nossos laços se
mantinham ainda e que só a mim competia estreitá-los. Por vezes, chegava mesmo
ao ponto de lhes fazer jurar que não pertenceriam a nenhum outro homem, para
aplacar de uma vez para sempre, as minhas inquietações sobre este ponto. O
coração, todavia, não tomava parte alguma nesta inquietação, nem a imaginação
tão-pouco. Uma certa espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em
mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher
que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. Mas este juramento
que elas me faziam libertava-me, prendendo-as. Desde o momento que não
pertenciam a ninguém, podia então decidir-me a romper com elas, o que, de outra
maneira, me era quase sempre impossível. A verificação, no que lhes dizia
respeito, estava feita de uma vez para sempre e o meu poder assegurado por
muito tempo. Curioso, não? É, no entanto, assim, meu caro compatriota. Uns
gritam: «Ama-me!» Outros: «Não me ames!». Mas uma certa raça, a pior e a mais
infeliz: «Não me ames e sê-me fiel!»
Somente, aí está, a
verificação nunca é definitva, é preciso recomeçá-la com cada ser. À força de
recomeçar, contraem-se hábitos. Bem depressa o discurso nos surge sem pensarmos
nisso, segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem
verdadeiramente desejar. Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não
possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo.”
Albert Camus, A Queda
Albert Camus, A Queda
terça-feira, 10 de julho de 2012
Ask the Dust
“Aí vai o Bandini pela rua fora; não é alto mas é robusto, tem orgulho nos seus músculos, cerra os punhos para admirar a rija alegria dos bíceps, é absurdamente destemido esse Bandini, nada receia além do que não conhece neste mundo de misteriosos prodígios. Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite grita que sim. Tenho vinte anos, cheguei à idade da razão, preparo-me para percorrer as ruas da cidade à procura de uma mulher. Terei a alma já manchada, será melhor voltar para trás, será que um anjo me protege, será que as preces da minha mãe me tranquilizam, será que as preces da minha mãe me aborrecem?
[…]
Então que hei-de fazer? Devo erguer a boca aos céus, gaguejar ou balbuciar em voz temerosa? Devo bater no peito nu como num tambor ressonante para atrair a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais razoável que me resguarde e continue o meu caminho? Haverá inquietação e desejo ardente; haverá solidão, mitigada apenas pelas lágrimas que hão-de correr para me adoçarem os lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá uma beleza semelhante ao amor de uma qualquer rapariga morta. Haverá riso, um riso contido, e uma serena espera nocturna e um vago receio da noite que trará consigo o ávido e injurioso beijo da morte. Depois será noite, o tempo dos doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre os meus sentidos pelos capitães que abandonei no ímpeto sonhador da minha juventude. Mas serei perdoado por isso e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante adejar das asas de Voltaire, por me ter detido a ouvir e a observar essa ave fascinante, por tudo isso serei perdoado quando regressar à minha terra natal junto ao mar.”
Junkie literária à míngua
Junho foi passado com a Ressurreição de Tolstoi: um livro demasiado beato que não aquece nem arrefece. Não há nada mais terrível que um coração despido de paixão e de livros, sobretudo para quem está habituado a doses elevadas de ambos. É como uma fome que desorienta e mói e tudo varre. Como uma morte lenta e estudada. Reconheço que sou viciada nas sensações de vertigem e que tenho sérios problemas em sentir-me viva quando não sinto um tambor rugir descompassado no peito. E que até posso abdicar das ideias regadas a risos excessivos, das doses pouco recomendáveis de whisky e das histórias de amor fodido; agora sem livros, sem os livros grandes, belos e cruéis sinto-me como um trapo amarfanhado a um canto insípido da vida menor e isso é intolerável e sufoca como um verão desperdiçado numa aldeia do tédio.
“Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, mas nenhum desses livros parecia ter qualquer relação comigo, ou com as ruas, ou com as pessoas que me rodeavam (…). Para encontrar algum risco, alguma paixão, era necessário recuar aos escritores russos anteriores à Revolução. Havia excepções, mas eram tão raras que depressa se esgotavam, deixando-nos a olhar para estantes e mais estantes cheias de livros incrivelmente enfadonhos. Apesar de um legado de muitos séculos e de todas as suas vantagens, os autores modernos não eram, afinal, grande coisa.
Tirava das prateleiras livro atrás de livro. Porque é que ninguém dizia nada? Porque é que ninguém gritava?”
Charles Bukowski
segunda-feira, 2 de julho de 2012
A MULHER
“Dá-me algo lento e fino
como
uma faca nas costas
E se
nada tens para dar-me
dá-me
tudo o que te falta!
CARLOS
EDMUNDO DE ORY
(…)
Quero uma mulher assim,
de silêncios
venenosos, que me morda
o tendão
do ombro e da língua, e
abuse
de declarações de
guerra e paz,
vá para o inferno e
regresse
no meio de um mar de
boatos
exibindo gloriosos
arranhões,
e me arraste em jogos
de malícia,
me esconda o coração e
me deixe
doido dias inteiros
atrás de pistas
e coordenadas.
Não quero uma mulher
explicada,
prefiro o assombro.
Antes aturar
mistérios, teimas,
transes e jejuns,
mesmo às vezes a troça
e o desprezo,
e que quando se sinta
enfastiada
fuja sem aviso e se
feche parindo
a escuridão.
Que me adore e se
farte, me empurre
do alto das escadas, e
se ria perdidamente
ou chore e me asfixie
devagarinho
com os primeiros
cabelos que lhe
nasçam brancos. Quero
que até esse dia
em que se chegará
tristemente
para pedir-me a mão
logo depois
que o seu rosto se
retire para sempre
de todos os espelhos.
No fim, nem me importa
que nunca venha a
cruzar-se comigo,
que isto eventualmente
ainda seja eu
a roubar acessórios em
lojas
de senhora. Pelo menos
não será
uma coisa que se
explique nem alguém
que tenha a descortesia
de dizer por aí
que chegámos a um
entendimento.
Diogo Vaz Pinto
domingo, 1 de julho de 2012
Hurricane
Welcome to the inner workings of my mind
so dark and foul I can’t disguise
can’t disguise
nights like this I become afraid of the darkness in my heart
hurricane
terça-feira, 26 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
il faut croire pour danser
CONDE: Felicidade? Por
favor, senhora. Não há felicidade. As coisas de que mais se fala são
precisamente as coisas que não existem… Por exemplo, o amor. Essa também é uma
delas.
ACTRIZ: Se calhar tem
razão.
CONDE: Prazer…
ebriedade… pronto, escusado será dizer… isso são coisas certas. Estou a fruir
de alguma coisa… bom, sei que estou a fruir. Ou estou inebriado, belo. Também é
certo. E quando acabou, acabou de vez.
(…)
CONDE: Certo. Portanto,
como eu disse, a diferença não é lá muita. Se eu à noite for para o casino ou o
clube, é tudo a mesma coisa.
ACTRIZ: E qual a
relação entre isso e o amor?
CONDE: Quando se acredita
nisso, há sempre alguém ao lado que gosta de nós.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Coração, caçador solitário
“Que diria a
Pórtia se soubesse que sempre tinha havido alguém, um depois do outro? E todas as
vezes era como se uma parte dela estoirasse em cem pedaços.
[…]
Pensou e repensou,
sempre a bater nas coxas com os punhos fechados. Sentia a cara como se a tivesse
dividida em bocados separados e a não pudesse manter direita. Era uma sensação mil
vezes pior que a fome, e no entanto era com a fome que isto se parecia. “Eu quero…
eu quero… eu quero…”, repetia, sem poder pensar noutra coisa: mas o que fosse esse
querer não saberia dizê-lo.”
quarta-feira, 6 de junho de 2012
As Anotações de Malte Laurids Brigge
Um homem de 28 anos, dinamarquês, chega à grande cidade, Paris, num
estado frágil. Vem para empreender uma grande aprendizagem. A cidade está cheia
de hospitais e cheira a medo por todos os muros e recantos. Os ruídos não o
deixam adormecer de noite mas há também o grande silêncio terrível. A grande
transformação começa pelas ruas, pelo olhar que aprende a ver os rostos e os
não-rostos.
“Mas aquela mulher, aquela mulher: estava completamente ensimesmada,
de cabeça inclinada para a frente, sobre as mãos. Foi na esquina da rue
Notre-Dame-des-Champs. Assim que a vi comecei a andar sem fazer ruído. Quando
os pobres se põem a pensar não se deve incomodá-los. Talvez acabem por
lembrar-se.
A rua estava vazia de mais, o seu vazio aborreceu-se e retirou-me o
passo debaixo dos pés e pôs-se a bater com ele, aqui e acolá, como se fosse uma
tamanca. A mulher assustou-se e saiu do seu ensimesmamento, demasiado depressa,
com demasiada violência, de tal modo que o rosto lhe ficou nas duas mãos. Eu
podia vê-lo nessa posição, ver a sua forma oca. Custou-me um esforço
indescritível fixar o olhar apenas nas mãos e não o levantar para ver o que
delas se tinha arrancado. Sentia o pavor de ver um rosto por dentro, mas tinha
um medo ainda maior de uma cabeça nua e em carne viva, sem rosto.”
Malte tem medo. Sabe que a morte foi seriada mas não perdeu a sua dificuldade.
Escreve as noites contra o medo. Esquece as suas recordações e aguarda
pacientemente o seu regresso. Separa-se de tudo e de todos. Com as palavras de
Baudelaire, reza a Deus. Tudo o que se perdeu na infância retorna, os perigos
passados tornam-se novamente presentes.
"A existência do terrível em cada partícula de ar. Tu respira-lo com a
sua transparência; mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas
e geométricas entre os órgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em
lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de
operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma
resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é,
à sua terrível realidade.”
Malte não tem para onde ir, o seu coração expulsa-o de si mesmo. A vida torna-se indistinta e incomunicável. Pressente, no entanto, uma bem-aventurança próxima, nas Amantes, as poderosas Amante, como
Gaspara Stampa e Mariana Alcoforado e nos seus amores que não precisam de
qualquer correspondência, porque são chamamento e resposta; as imortais amantes
que ultrapassam sempre o amado pela felicidade da sua entrega, porque sabem já
que a união de dois seres nada mais pode trazer do que um acréscimo de solidão.
“O que sabiam eles sobre quem ele era? Ele era agora extremamente difícil
de amar e sentia que só Alguém o poderia fazer. Mas esse ainda não queria.”
terça-feira, 5 de junho de 2012
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