segunda-feira, 14 de abril de 2014
Carta de uma desconhecida
sábado, 12 de abril de 2014
Who will be my valentine?
A Montanha Mágica foi a minha leitura mais lenta: de meados de Janeiro até hoje. Agora que o encanto terminou, sinto borboletas no estômago: que livro da estante será o meu par para a próxima dança?
A Montanha Mágica
"Adeus, Hans Castorp, filho ingénuo e traquinas da
vida! A tua história chegou ao fim. Terminámos a narrativa. Não foi uma
história nem longa nem curta, apenas hermética.
(...)
Boa viagem! Agora é viver ou morrer! As perspectivas não são
famosas: a dança macabra para a qual te arrastaram durará ainda alguns anos
terríveis e não queremos apostar alto na tua sobrevivência. A dizer a verdade,
deixamos, sem preocupações de maior, a questão em aberto. Certas aventuras da
carne e do espírito, que sublimaram a tua ingenuidade, permitiram-te vencer na
esfera do espírito aquilo a que provavelmente sucumbirás na esfera da carne. Momentos
houve em que da morte e da luxúria carnal viste germinar, no teu reino
premonitório, um sonho de amor. Será que deste festim universal da morte, deste
ardor perverso e febril, que incendeia o céu chuvoso e crepuscular, poderá
também um dia nascer o amor?”
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
à cause de Pound
Não resisto a partilhar este
excerto delicioso. É que se poucos livros me fizeram chorar, menos são os que
me fizeram rir.
“O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando era
cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com
mulher culta ou coisa que o valha.
(…) Claro que nem todas as soi-disant cultas são assim tão chatas. Tive
as cultas refinadas e originais também. Mas que mão de obra, meu pai! Uma delas
é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos. Mas principalmente
pelo gosto exótico na comida e no sexo. Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões
de ostras.
(…) Depois de Josete ter gozado umas dez vezes entre sabiás e musses e
álcoois dos mais finos que me custavam um caralhão de dinheiro, levantava-se
garbosa. Espártaco antes da derrocada final, naturalmente. Eu ia atrás meio
cego mas ainda sedento. Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó
de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedantescos. No primeiro
dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse:
meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de loucura quando
ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistoide, você
sabia?
Bobagens, Crassinho, o homem foi um génio.
Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do
Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma pústula, uma privada de estação em
Cururu Mirim. Senão, vejam:
“O eminente escabroso olho do cu cagando moscas.
Retumbando com imperialismo
Urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca,
……….. o preservativo cheio de baratas,
Tatuagens em volta do ânus
E um círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele.”
Josete adorava (…)
Pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha
reverência por esse autor admirável
Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear
idiotias, ainda mais em ingês. Estávamos no apartamento de Josete. Pensei: é
agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E
adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se
de bruços e ordenou lacónica:
Pegue aquela grande lupa lá minha mesinha.
Lupa?
Lupa, sim, Crassinho.
Então peguei.
Faz um favor, benzinho, abra o meu cu.
Como?
Oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite.
E o que eu faço com a lupa?
A lupa é pra você olhar ao redor dele.
Ao redor do seu cú, Josete?
Evidente, Crassinho.
Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito
esmero e extrema competência estavam três damas com seus lindos vestidos de
babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas.
Não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu
para quê?
Homenagem a Pound, Crassinho.
Mas isso deve ter doído um bocado!
The courageous violent slashing
themselves with knifes (que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se
com facas. Continuação do Canto XV.) coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound). Aí achei o cúmulo. “Jamais, meu amor,
machucaria essas lindas damas”. Josete começou a chorar.
Ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa
delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andaimo in the greta
scabrous arsehole (no grande escabroso olho do cu).
Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o
prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com
inglesas ou americanas (who knows?) e
babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha
certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir
algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, aou. entoação inglesa)
Aou Ezra, aou my beloved Ezra!
Hilda Hilst, Contos D'Escárnio / Textos Grotescos
sábado, 11 de janeiro de 2014
Da leitura como atropelamento
O Sermão sobre a Queda de Roma é um romance que mistura filosofia e literatura, luz e trevas. Escrito com um dos ritmos mais rápidos que vi em matéria escrita, captura o humano nas suas contradições mas não nos deixa tempo para parar nessa comoção.
"Marcel tem vergonha da sua lucidez e do seu cinismo e, na claridade da manhã, tem vergonha outra vez, vergonha do seu coração mole, do seu coração cheio de trevas, tem vergonha diante de André por ter sido um tão desvalido guerreiro, e tem vergonha da sua sorte desprezível, e vergonha ainda de nem sequer ser capaz de se regojizar com isso, olha para André com um respeito invejoso, e tem vergonha de o receber naquela aldeia miserável, todos os convidados da boda o fazem sentir vergonha (...), tem vergonha dos seus próprios parentes, da vitalidade obscena e transbordante de Jean-Baptiste, e de si mesmo, que traz no peito um coração mole e cheio de trevas. Vê a irmã dançar nos braços de André. As crianças correm por entre as mesas cambaias. Ange-Marie Ordioni dá ao filho a chupar um dedo que mergulhou no seu copo de rosé. Marcel ouve os risos e as notas desafinadas do acordeão, a voz tonitruante de Jean-Baptiste. Senta-se ao sol ao pé da mãe, que lhe pega na mão e abana tristemente a cabeça. Só ela parece não se alegrar ao ver a vida recomeçar. Como podia a vida recomeçar se ainda não começou?"
domingo, 5 de janeiro de 2014
Que fazer quando tudo ardeu?
No meu quarto há uma réplica da Ofélia morta de Millais.
Agrada-me adormecer sob o signo daquela que morreu de amor. Criada ou não pela
literatura, tive desde idade muito precoce uma propensão para amores fatais.
Desconfiava dos amores calmos e seguros e, como seria de prever, dediquei a
primeira década adulta a coleccionar paixões impossíveis e várias crises
nervosas. Consegui, apesar de tudo, chegar aos trinta anos com várias mortes
imaginárias mas nenhum óbito efectivo.
A morte real foi sempre interrompida pela leitora que há em
mim; insónia após insónia, narrativizava cada amor até me aperceber que o
amante em questão era demasiado medíocre para um desfecho tão sublime. Não
quero com isto desvalorizar os homens que amei ou julguei amar, eles foram os
amantes necessários. Lidos no seu conjunto, eles contam a história da formação
do meu desejo. Como peças de um puzzle ou fragmentos de uma epopeia menor.
Franchizado o desamor, comecei a interessar-me por outro tipo
de heroínas literárias: as que sobrevivem ao fim do amor. Neste campo, também
não é fácil encontrar uma personagem à altura do meu desejo. Se a literatura
parece exímia a ensinar os corações a despedaçarem-se, poucas são as pistas
para quem deseja um caminho alternativo.
Leitoras ou não, as mulheres sempre foram percebidas como um
perigo que não se sabia bem como controlar. Era preciso dar-lhes um destino,
uma solução, e o dispositivo literário soube apropriar-se da ideia de amor
romântico para arrumar o género feminino. De ora em diante, a mulher tinha uma
função muito clara: consagrada a Eros, devia dedicar a sua vida à procura e
prática do amor.
A questão é que a própria solução se revelou também
problemática, pois um pharmakon nunca
é inteiramente controlável. A primeira fenda no edifício romântico é a sua
profunda antítese com o casamento; contratualizado o amor, logo este devém
tédio ou neurastenia, se preferirmos o termo clínico em voga no século XIX.
Onde Eros falha, o dispositivo literário convoca Tanatos e as mulheres que
transgridem o espaço doméstico são punidas com a morte. É o caso de Madame
Bovary e Anna Karenina.
Entre Eros e Tanatos, que alternativas nos sugere a
literatura para lidar com este problema literário? Para além das narrativas de
ascetismo redentor ou voluptuosidade da carne, as respostas são raras. Estava a
ficar sem esperanças numa emancipação literária da mulher relativamente à ideia
de amor, quando encontrei uma assombração textual: Thérèse Desqueyroux.
As afinidades com Madame Bovary denotam uma intenção óbvia de
Mauriac em reescrever a história da aparição de um desejo feminino
incontrolável. Como Emma, também Thérèse sufoca numa vida menor na província,
casada com um homem simples e a maternidade não lhe traz qualquer alegria ou
paliativo. Mas o que interessa em Thérèse não são as afinidades que a unem a
Emma Bovary, mas o desacordo que as distingue.
Thérèse é uma leitora ávida e inteligente. Casou com um homem
simples e rude na esperança que ele a simplificasse mas não conseguiu
acomodar-se na ordem da família e salvar-se da sua própria inquietude. Perante
este falhanço, Thérèse encerra-se em si, num isolamento sem lenitivos nem
amantes (“não suspeitava de que um outro
homem lhe pudesse ser de algum socorro. Ao fim e ao cabo, Bernardo não era
assim tão mau. Ela execrava nos romances a pintura de seres extraordinários,
como nunca se encontram na vida”). Como a outra, sonha com uma vida mais
intensa; ao contrário da outra, não se deixa devorar pelos ideais românticos.
Opta antes por intoxicar-se com cigarros e envenenar o marido com arsénico.
Despedimo-nos
de Thérèse em Paris. O
marido liberta-a na grande urbe, libertando-se também da ameaça que esta mulher
sempre significou. Ela tem finalmente o tempo e a solidão que tanto desejou
para se fixar no seu desespero misterioso. Inicialmente, tem medo desta
liberdade desconhecida, é que também ela se sente ameaçada pelo seu poder cego.
Se o marido a pudesse perdoar, imagina-se a voltar com ele de bom grado para o
seu papel de mãe e esposa burguesa. Mas felizmente o desejo de uma vida maior
vence e na última vez que a vemos, Thérèse ri sozinha e pinta os lábios com
minúcia, antes de se perder pelas ruas da cidade. O que acontece depois é um
enigma. Como o desejo feminino.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Diário de 2013
Há pouco descia a rua do Alecrim e pensei que o que decide a singularidade de uma pessoa não é tanto a sua história como a conjunção desta com a história das suas leituras. Não existem dois leitores iguais na história do mundo. Ninguém leu ou lerá os mesmos livros que eu pela mesma sequência afectiva. Uma história que se constrói como o mais perfeito dos labirintos, composta por misteriosas empatias e tristes desencontros com os livros certos que não nos acertam no tempo certo.
O ano começou com Niels Lyhne, mudanças de casa e desemprego.
Janeiro, mês das saudades contentes.
6 de Janeiro: São quase
seis da manhã e estou na minha nova casa. Estou muito cansada com as mudanças,
nos últimos dias não tive praticamente tempo para pensar na minha felicidade.
Mas vim para a cama ler o Niels Lyhne e não pude deixar de
vir escrever um pouco. Este vai ser um ano importante, um ano que prometi
dedicar mais erotismo e leituras a uma exegese espiritual e ética (presente de
natal da Etty Hillesum).
13 de Janeiro: Tive
saudades dele. Masturbei-me mas já não o consigo recordar. Chorei depois, como
é habitual. Não um choro de mágoa nem de desespero. Foi mais um chorar que
reconhece a falta mas de uma forma contente, como quem aceita (…) O amor deixou
de ser uma fome. Sinto-me segura e completa numa falta que não é mais abstracta
mas nomeada e calma. A única tristeza advém da suspeita que vivo sozinha este
amor (…) Viver a saudade com carinho é o que há a fazer por ora.
16 de Janeiro: A vida está
caótica. Estou desempregada, a tese de doutoramento atrasada. A crise é afinal
real, não apenas uma patranha dos media. Não há emprego em lado nenhum.
17 de Janeiro: Hoje
almocei na faculdade e encontrei um colega de mestrado. Retive o momento em que
ele me disse que eu estava muito melhor, mais bonita e mais meiga. “Já não
pareces uma tipa fria”. Achei piada a esta ideia de que o tempo amargura certas
pessoas enquanto aquece outras. Talvez cada experiência nos seja dada como uma
peça de um puzzle para que possamos ir enfim completando e possuindo o nosso
desejo.
Em Fevereiro, depois de muitas peripécias, consigo um trabalho.
O primeiro do ano: servir pequenos-almoços num hotel. É bom entrar no eléctrico
de madrugada e apreciar de modo muito simples Lisboa a despertar. A banda
sonora do Django ajuda-me a ter forças.
Fevereiro, mês de liberdade e muito carnaval.
20 de Fevereiro: Estou
bem. Consigo ver novamente a beleza.
A beleza e a fé estão
aí, disponíveis para quem pede para ver, como São Tomé. Acredito que o meu
milagre virá e espero sem desesperar, porque mesmo quando algo menos bom
acontece, sempre se lhe segue algo de bom, como um relâmpago cósmico enviado
como lembrete contra a queda. Estou a recuperar a confiança em mim e nos
outros. De forma tímida. As feridas ainda sulcam o pensamento mas a dor esvaneceu-se.
São assim as cicatrizes de uma mulher que caminha ao encontro de si.E a escrita
regressa também. Estou bem e rio. Sou mulher e consegui sobreviver até à vida.
Em Março, consigo outro emprego, desta vez em produção
televisiva. Ao serviço do diabo: marketing. Março, mês de desenamoramentos.
23 de Março: Hoje, ao
acordar, recordei o rosto dele e, por momentos, o amor ausentou-se. Chegou a
hora de fazer do passado matéria e não pensamento. Embora às vezes me faltem
uns braços para onde fugir, os teus nunca foram abrigo para mim.
Abril é um mês difícil. Muita chuva e viadutos mil. Descubro
Irène Némirovski e tento ter calma.
19 de Abril: Não tenho
tido muito tempo para ler. Não me sinto útil no meu trabalho (…). O mistério de
quem aprende a andar de novo. Tenho medo de cair. Tento não pensar muito e usar
as pernas. E todos os dias há aquele viaduto que tenho de atravessar a tremer.
Salva-me o Tejo numa das linhas de comboio mais bonitas do mundo.
Maio. A feira do livro acalma a agitação e sou feliz no
Parque Eduardo VII. Encontro três amores passados: um oferece-me uma fartura, o
outro um livro e o terceiro, o maior, não sabe já sorrir-me. Song for Zula.
27 de Maio: As mãos das
pessoas a mexer nos livros são mãos esfomeadas.
29 de Maio: O segredo
dos casais felizes: eles oferecem livros a elas.
Junho. A feira do livro termina e já não corro. Mas não sou
feliz. Leio É Assim que a Perdes e O Jogo Sério e não encontro em mim
qualquer esperança, apenas um silêncio resignado e competente.
22 de Junho: Não me
sinto ligada a nada. Não entendo nada. Não sei nada. Vim até aqui e li tanto
para ficar nua.
Em Julho, leio muito, muito. De forma estéril: as letras não
me arrebatam.
10 de Julho: A morte ou
a paz?
Em Agosto e Setembro, há o Meco, bons amigos e muitos russos (uma receita
infalível para os corações mais grelados) e a boa nova: vou finalmente
trabalhar com livros.
Outubro, Novembro e Dezembro são meses que me pertencem por
inteiro. Mistérios de Knut Hamsun.
O ano termina com a leitura da consciência de Zeno. “A vida assemelha-se um pouco a uma
enfermidade: também procede por crises e por depressões. A diferença entre as
outras doenças é que a vida é sempre mortal. Tratar da vida seria pretender
tapar os orifícios do nosso organismo, considerando-os como feridas.
(…)
A saúde, para o homem,
constitui um bem quimérico. Só pode pertencer ao irracional, que não conhece
senão um progresso: o do seu próprio organismo. Quando a andorinha compreendeu
que a única possibilidade de viver residia na migração, reforçou-se o músculo
motor das suas asas, tornando-se-lhe a parte mais considerável do seu corpo. A toupeira
enterrou-se e todo o seu ser se adaptou às necessidades de uma vida
subterrânea. O cavalo fez-se maior, transformou a base. De certos animais
ignoramos as metamorfoses, mas existiram, e nunca lhes prejudicaram a saúde.”
E o começo da escalada
à Montanha Mágica. Uma odisseia
literária como convém a um inverno rigoroso. Para o novo ano levo apenas este livro
e um desejo: florir. Entretanto, vou à Holanda aprender como se faz.
Feliz Natal e um 2014
com novidades!
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Há tantos anos que não se via uma reentrée literária assim
Tenho sempre uma lista de livros que quero adquirir e há muito tempo que não me acontecia querer tantas novidades.
Algumas já tenho e li: Mistérios de Knut Hamsun (Cavalo de Ferro), Abismo (Antígona), O Livro do Desassossego (Tinta-da-China), Alfabetos (Quetzal), o número 2 da Granta portuguesa (Tinta-da-China), o segundo tomo da História da Minha Vida do Casanova (Divina Comédia).
Outras são as que quero muito, já seleccionadas com um grande esforço: Dicionário dos Lugares Imaginários (Tinta-da-China), Atlas do Corpo e da Imaginação (Caminho), A Irmã (D. Quixote), O Barril Mágico (Cavalo de Ferro), Deixa Lá/Más Novas (Sextante) e A Potência do Pensamento (Relógio d'Água) e A Minha Luta (Ahab).
Ou mos oferecem pelo Natal ou vou roubar.
Algumas já tenho e li: Mistérios de Knut Hamsun (Cavalo de Ferro), Abismo (Antígona), O Livro do Desassossego (Tinta-da-China), Alfabetos (Quetzal), o número 2 da Granta portuguesa (Tinta-da-China), o segundo tomo da História da Minha Vida do Casanova (Divina Comédia).
Outras são as que quero muito, já seleccionadas com um grande esforço: Dicionário dos Lugares Imaginários (Tinta-da-China), Atlas do Corpo e da Imaginação (Caminho), A Irmã (D. Quixote), O Barril Mágico (Cavalo de Ferro), Deixa Lá/Más Novas (Sextante) e A Potência do Pensamento (Relógio d'Água) e A Minha Luta (Ahab).
Ou mos oferecem pelo Natal ou vou roubar.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Só acredito numa revolução dos falhados
"And worse I may be yet. The worst is not so long as we can say «This is the worst».
King Lear, Shakespeare
Não conhecia Jean Meckert nem nunca tinha ouvido falar dele. Felizmente, a Antígona publicou recentemente um livro de contos do autor para colmatar a minha ignorância. Gostei dos três contos, particularmente do que dá título ao livro.
"Se fordes simpáticos, dir-vos-ei que, para conhecer o sentido do mundo, é preciso que ele vos tenha mostrado o cu. E ainda não haveis descido tão baixo para isso.
Pela minha parte, venho de lá e orgulho-me disso. Estou blindado, imunizado para sempre. Vomitei para a consumação dos séculos; agora já nada me mete medo. As náuseas são para os que descem, e não para os que sobem.
À força de ficar sozinho no me canto, dei não sei quantas vezes a volta à minha caixa craniana, no interior, caminhando no tecto.
(...)
Lá no fundo aprendem-se coisas. No interior, passa-se o contrário da vida vulgar: quanto mais se desce, mais o panorama se alarga. As ideias mais famosas situam-se no último círculo do inferno."
Um livro que se recomenda pela autenticidade desempenada e genica com que expõe a miséria e a raiva de todos os falhados e lixados do mundo.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
nunca li a ficção deste senhor mas adoro as suas reflexões ensaísticas e sobretudo a sua grande humildade
"Por vezes, pergunto-me de que lado estou, se a minha história é aquela contada em Guerra e Paz ou na Metamorfose de Kafka, ou quem sabe, no Auto-de-Fé de Canetti. Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo retorno. Talvez, por isso, os escritores que mais me ensinaram tenham sido os que deram voz imparcial aos matizes mais diversos da vida e às paixões mais antitéticas, à fé e ao nada (...). Desencanto e desilusão não negam, antes filtram como uma peneira as gelatinosas mentiras, a retórica sentimental, a pieguice do coração, com a qual de bom grado enganamos os outros e nos enganamos a nós próprios: esse é talvez, um traço comum aos livros que, desmascarando o vazio em que assenta a realidade e os ouropéis com os quais se pretende dissimulá-lo, ajudam a olhar sem medo esse vazio e também a apercebermo-nos do amor que existe não obstante essa voragem."
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
noites brancas e diabólicas
Comecemos por dois mistérios. O
lançamento do último livro de Knut Hamsun editado pela Cavalo de Ferro não
figurava nos destaques da reentré literária dos principais suplementos
culturais do país. Apanhou-me, portanto desprevenida quando fui à livraria
buscar as novidades que planeara ler. A sua capa negra com uma imagem de Munch tinha os olhos postos em
mim e não me restava senão devolver o olhar. São assim as peripécias de uma
leitora fútil que tende a julgar os livros pela capa.
A chamada misteriosa continuou
em casa. O livro estava impertinente por sair da estante para o meu regaço,
tendo-me obrigado a adiar outras leituras urgentes. E assim começaram as minhas
noites diabólicas com os Mistérios de
Knut Hamsun. Não vou explicar o uso deste adjectivo, mas garanto que é o mais
próximo desta experiência nocturna de leitura. Terminada a leitura diária, o
livro continuava a comunicar comigo, oferecendo-me sonhos perturbados e
nervosos. Sonhos que podiam ser tidos como pesadelos, não fosse a sua natureza
branca. Só depois de terminar a leitura do livro, li as habituais citações da
contracapa. “Mistérios é tão próximo e
tão inquietante quando o nosso sonho (ou pesadelo) da noite passada” (New
York Times). Que me lembre, nunca tal comunicação inconsciente me tinha
acontecido com um livro. Uma proximidade inquietante.
Knut Hamsun é tido por muitos, sobretudo
grandes escritores, como um dos maiores. A julgar pela capacidade de me
perturbar, parece-me um título merecido. De Mistérios,
disse Henry Miller: “está mais próximo de
mim do que qualquer outro livro que eu tenha lido”. Talvez Miller tenha
sentido a mesma empatia disruptiva que eu senti por Johan Nilsen Nagel, o
misterioso estrangeiro que sem nenhuma razão aparente se instala por um período
breve numa pequena cidade costeira da Noruega.
Nagel é um homem em luta, uma
alma que não alinha com nada, desconfiando de tudo e todos, sobretudo dos «bons
sentimentos» e dos grandes homens. «A
vida é uma luta contra os monstros que se escondem nos recantos do coração e do
cérebro». Nagel não é, como Hamsun disse da personagem, um homem-tipo.
Aliás, o que o exaspera é o congelamento dos homens em subjectividades típicas.
Nagel ri quando devia chorar, é honesto quando deve ser desonesto e vice-versa.
É um homem em desacordo e com os nervos em franja, como qualquer moderno que se
preze, movido pelo desejo de fazer algo diferente, algo que estilhace a
superfície polida da vida embalsamada nos valores confortáveis da burguesia.
A curta estadia do estranho vai
pertubar a paz podre da comunidade. Nagel, com uma enigmática capacidade
intuitiva, funcionará como um espelho negro onde os habitantes da cidade podem
ler o reflexo dos seus instintos e desejos reprimidos. Quanto ao elemento
estranho, esse está condenado à autodestruição. A sua mania de contrariar
desemboca na melancólica constatação de que tudo é hipocrisia e ele não é
melhor que ninguém. É o preço a pagar por um «bom» coração e uma cabeça
volátival, errante.
Sou, como Nagel, uma alma
atormentada. Não me acho melhor que os outros mas a maioria exaspera-me com as
suas mentiras e hipocrisias. Sou incapaz de reconhecer uma autoridade e não
consigo não desafiar. Desde pequena, se alguém me diz que não posso fazer ou
dizer algo, trato imediatamente de o fazer ou dizer. Tenho uma personalidade
leal mas não houve um amor que eu não traísse. Sinto um profundo desacordo com
a vida e a forma como se vive. Embora pessimista, tenho sempre viva a esperança
que a vida rompa a sua imobilidade e aflore sobre o gelo da indiferença,
exultante.
Tudo isto que foi dito fica
aquém do livro de Knut Hamsun. Acontece-me sempre com os livros maiores,
aparentados e diabolicamente bem escritos: falta-me o génio para falar do
génio.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
sábado, 2 de novembro de 2013
“Tenía la impresión de que su
cabeza tan pronto era una parada en el camino de otras cabezas, como una diana
a la que otros apuntaban, o incluso un aparato que en parte le escapaba,
teleguiado por extraños – sus verdaderos propietarios – que lo hacían funcionar
y pensar a su antojo. Fuera cual fuese la explicación, por singular y
abracadabrante que fuese, lo importante es que ya no era el dueño, y que apenas
si estaba «al corriente», o poco más. Ni siquiera sabía «dónde meterse en su
cabeza».”
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
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