segunda-feira, 29 de setembro de 2014
não consigo sossegar e a menina Else não ajuda
"Acho que não me posso apaixonar. O que, por acaso. até é curioso. Porque eu sou sensível. Mas também animosa e desagradável, graças a Deus."
"Um pouco de carinho quando se está bonita, um pouco de atenção quando se tem febre, e mandam-nos para a escola, e em casa aprende-se piano e francês, e no Verão vamos para o campo e quando se faz anos recebe-se presentes e à mesa falam sobre tudo e mais alguma coisa. Mas o que se passa dentro de mim e o que dentro de mim se revolve e tem medo, já se preocuparam com isso?"
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
Mulherzinhas
Constatei recentemente que me comporto com
os livros como uma mulherzinha. Um de cada vez, nada de promiscuidades.
A relação exclusiva intrigou-me. Nunca fiz
da fidelidade estandarte e confesso, sem qualquer orgulho ou pudor, que
atraiçoei várias ideias e amantes apenas pelo doloroso prazer de trair (quem
precisar de instruções neste prazer, procure-os n’ A Insustentável Leveza do Ser e preste redobrada atenção à
personagem Sabina).
Porquê então um só livro de cada vez à
cabeceira? Por que razão quando um livro me aborrece jamais o troco
temporariamente por outro? A este propósito recordo a leitura difícil d’A Educação Sentimental do Flaubert, uma
leitura carregada de tédio, como convinha ao tema, que suportei estoicamente.
No final, a teimosia foi recompensada e o livro tornou-se um dos meus
favoritos. A monogamia é assim: às vezes compensa, outras não.
Iniciei Anna
Karénina, ocupada por estes pensamentos. Embora desejasse consumar a
leitura para poder ter um veredicto estético, a beatice do Tolstoi aborrecia-me
profundamente. Além disso, noite após noite via gorada a minha expectativa de
encontro com a Karénina, incapaz de lhe sentir a carne, propositadamente
mantida à distância pelo pince-nez do
narrador. Estavam portanto reunidas as condições ideais para que a putaria
começasse.
E começaram assim que as reflexões agrárias
de Lévin me arrefeceram. Ansiosa, corri novamente para os braços de Salinger, contente
por encontrar em Franny e Zooey ar
puro e um velho problema conhecido: como viver bem com uma inteligência
cortante? Desta feita, ao contrário do que sucedeu com Hamlet e com toda uma
galeria de personagens desfeitos pelo pensamento, voltei com uma resposta, que
não o corriqueiro binómio anestesia/entretenimento.
Depois do breve affair com a família mais interessante do mundo, a família Glass,
regressei às famílias singularmente infelizes de Tolstoi. A comparação entre os
casais Anna-Vronski e Kiti-Lévin tornou-se evidente e conseguiu agarrar-me, sobretudo
na parte em que os homens de ambas as parelhas se sentem sufocados com as suas
ligações e as mulheres se exasperam pelo esfriamento. Embora adivinhasse que a
intenção do omnipresente narrador era glorificar um amor mais espiritual e
cristão face a um amor carnal, as suas brilhantes observações e a notável
profundidade das personagens mantiveram o meu desejo morno até ao final da
leitura.
Nabokov não podia estar mais certo quando
escreveu que “muitos têm sentimentos opostos em relação a Tolstoi. Adoram o
artista nele e aborrecem-se com o pregador; mas, de facto, é bastante difícil
separar o Tolstoi pregador do Tolstoi artista – é a mesma voz profunda e
vagarosa, o mesmo ombro robusto a levantar uma multidão de sonhos ou um monte
de ideias. O que queríamos era tirar-lhe o púlpito de debaixo dos pés e depois
trancá-lo numa gruta, numa ilha deserta, com litros de tinta e resmas de papel
– longe das coisas éticas e pedagógicas que lhe distraem o olhar do modo como o
negro caracol cai sobre o pescoço níveo de Anna.”
É o meu caso. Por essa ambivalência, é-me
muito difícil concordar com o mesmo Nabokov, quando este afirma que “Tolstoi é
o maior escritor russo de ficção em prosa” e exclui Dostoievski da lista. Já
disse e repito que para mim Dostoievski é o maior escritor do mundo (reservo-me
o direito de rever este julgamento assim que encontrar uma escrita superior).
Tendo lido Ressureição, Anna Karénina, O Jogador, Crime e Castigo
e Os Irmãos Karamázov não entendo
sequer as razões da comparação. Provavelmente, trata-se de um debate russo que
se internacionalizou, semelhante ao absurdo duelo português Saramago vs. Lobo
Antunes, que não tem ponta por onde se lhe pegue pois trata de dois autores tão
distintos como a água do azeite.
Também a comparação habitual com a Madame
Bovary me parece completamente despropositada, a não ser que se encaixe ambas
como novelas sobre o adultério, o que seria estupidamente redutor. Embora
muitos afirmem que a morte de Emma é um desfecho moral, eu nunca a senti assim.
Para mim a sua morte é uma consequência das leituras românticas, não um castigo
que o autor lhe inflige. Só assim se explica a tinta negra que Emma vomita na
sua última agonia.
domingo, 31 de agosto de 2014
domingo, 24 de agosto de 2014
Isaac Babel
Já me tinham recomendado os contos de Isaac Babel mais do que uma vez mas as vicissitudes da existência foram impedido a leitura até à semana passada.
A penetração no mundo de Babel foi lenta: o tom dos Contos de Odessa selecionados era caótico e a leitura não descolava. Por altura, dos contos do Exército da Cavalaria (também conhecidos por Cavalaria Vermelha), já o meu desejo bolinava mais estável, mas foi nos vários Contos Dispersos que a união se concretizou. Mais uma vez, talvez pela forte influência do narrador na primeira pessoa onde adivinho um pouco a personalidade pubescente do escritor. "História do meu primeiro pombal", "O despertar", "Os primeiros honorários" e Guy de Maupassant" agarraram-me com punho forte e decidido.
"Viver em Tiflis na primavera, ter vinte anos e não ser amado é uma coisa terrível.
(...)
Só me restava ir à procura do amor. E, naturalmente, encontrei-o. Por sorte ou por azar, a mulher que escolhi era uma prostituta (...).
Ó deuses da minha juventude! Cinco dos meus vinte anos tinham sido gastos a inventar histórias, milhares de histórias que me atafulhavam o cérebro. Jaziam no meu coração como sapos numa pedra. Movida pela força da solidão, uma dessas histórias tinha caído na terra. Pelos vistos, o destino tinha decidido que uma prostituta de Tiflis iria ser a minha primeira leitora (...).
Tudo isto aconteceu há muitos anos. Desde essa altura tenho recebido frequentemente dinheiro de editores, de homens ilustres e de judeus que negoceiam em livros. Por vitórias que foram derrotas, por derrotas que se converteram em vitórias, pela vida e pela morte, pagaram-me preços irrisórios, muito inferiores àqueles que tinha recebido na minha juventude da minha primeira «leitora». Mas não sinto raiva por isso. Não a sinto porque sei que não hei de morrer sem voltar a arrancar outra moeda de ouro, e essa será a última, das mãos do amor."
Katherine Anne Porter, aka Miranda
Desde o ano passado, altura em que a Antígona anunciou a publicação de "Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro", que aguardava com impaciência a chegada deste título às minhas mãos. A razão desta impaciência era apenas intuitivamente emocional, convocada pelo título poético, pois nada sabia desta autora.
Em Julho, fui de férias com o Cavalo Pálido e regressei a Lisboa rendida aos sortilégios da escrita de Porter. A qualidade dos três contos era igualmente excelente mas confesso que o que mais me cativou foi a personagem Miranda, eixo central de dois dos contos e afirmado alter ego da autora.
Em Agosto, tornei a partir de férias para o sobrelotado Algarve na companhia da Katherine Anne Porter, desta vez com a antologia "A Torre Inclinada e outros contos", da Relógio d'Água (já agora uma pequena anotação: "Judas em flor e outros contos" teria sido uma escolha de título mais feliz, na minha opinião). E mais uma vez, apesar da inegável qualidade dos vários contos, continuei a preferir os envoltos na respiração de Miranda. Não restam dúvidas que se trata de um alter ego de Katherine, pois doutro modo a sua autenticidade não se tatuaria na pele com uma tal violência poética.
Não me recordo quem disse (ou escreveu) que é possível amar mais personagens que certas pessoas. No caso, os livros de Katherine Anne Porter são do melhor que li este ano e Miranda tornou-se, com todos os seus desassombros, uma das pessoas que mais gosto.
«Miranda observava o irmão com um ar de admiração enquanto este se livrava da pele como se estivesse a tirar uma luva. A carne esfolada emergia, de um escarlate-escuro, lustroso, firme; entre o polegar e o indicador, Miranda sentiu os longos músculos finos com as tiras lisas e prateadas que os uniam às articulações. O irmão ergueu a barriga estranhamente inchada. "Olha", disse-lhe, numa voz baixa e maravilhada. "Ia ter bebés."
Com muito cuidado, ele rasgou a pele fina das costelas centrais até aos flancos, ao que um saco escarlate apareceu. Voltou a rasgar e abriu o saco, e aí estava uma ninhada de coelhos minúsculos, cada um envolvido num fino véu escarlate (...).
Miranda disse: "Oh, eu quero ver", num sussurro. Olhava e olhava - empolgada mas não assustada, pois estava habituada a ver animais mortos em caçadas -, cheia de pena, fascínio de uma espécie de encantamento chocado perante as criaturas maravilhosas e pequenas por si sós, que eram tão bonitas. Tocou numa delas com o maior dos cuidados: "Ah, há sangue a correr por cima deles", disse, e começou a tremer, sem saber porquê. Contudo, queria mais do que qualquer outra coisa ver e compreender. Tendo visto, sentiu de imediato que era como se sempre tivesse compreendido. A própria memória da sua ignorância anterior despareceu, ela sempre compreendera aquilo mesmo (...).
Miranda nunca o revelou, nem alguma vez teve vontade de contar a quem quer que fosse. Pensou em toda a questão preocupante com uma infelicidade confusa durante alguns dias. Depois o episódio foi-se afundando na sua mente, coberto por milhares de impressões acumuladas ao longo de quase vinte anos. Certo dia, ela estava a avançar com cuidado para não pisar poças e resíduos esmagados na rua de um mercado numa cidade desconhecida de um país desconhecido quando, sem aviso, nítido e claro com todas as cores, como se visse através de uma moldura uma cena em que não tivesse mexido nem feito alterações desde o momento em que acontecera, o episódio desse dia longínquo saltou de onde fora sepultado para se colocar em lugar de destaque na sua mente (...). Um vendedor índio tinha erguido à sua frente uma bandeja de doces açucarados tingidos, em formas de inúmeras criaturas pequenas: passarinhos, pintainhos, láparos, cordeiros, bacorinhos. Eram de cores alegres e cheiravam a baunilha, talvez...»
sábado, 23 de agosto de 2014
O AMOR É UMA FACA
SCRIPT
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE FILIPE FLORA REIS
LER DEVAGAR (LX FACTORY)
16 AGOSTO - 3 SETEMBRO
A série de fotografias de Filipe Flora Reis intitulada Script# convida-nos para uma sessão de BDSM. Chegamos munidos da habitual curiosidade voyeurista, como se o sexo dos outros pudesse conter um segredo desconhecido que o torna diferente e mais interessante que o nosso. E recordamos as palavras de Michel Foucault na sua magnífica História da Sexualidade: “Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la, em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo, em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer”. É precisamente neste tópico que o olhar fotográfico do autor nos surpreende.
Um olhar frio, clínico, aparentemente sem misericórdia. Filipe Flora Reis não nos dá Imagens estereotipadas de poses agressivas, corpos supliciados e látex, semelhantes às que qualquer leigo terá na sua mente quando pensa em rituais de bondage e dominação sexual. Ele coloca-nos na ombreira de um local que tanto pode ser cenário de um crime como de outra coisa. Um local que nos parece vedado, onde nem a visão alcança a clareza. Os plásticos estão cuidadosamente dispostos. Uma vela alumia a mesa onde os instrumentos se alinham com matemática rectidão, apenas para sublinhar a escuridão do redor. Raras vezes vemos os corpos envolvidos. Apenas um relance fugidio de carnes tensas de expectativa, contidas por cordas.
Aqui o nosso prazer de ver nunca se esclarece: estamos na ombreira daquilo com que é mais difícil estabelecer um acordo: o nosso próprio desejo. O essencial permanece invisível, intocável, fora de campo, numa relação emocional tensa com a frieza dos chicotes. Em Noite e Nevoeiro, Alain Resnais filmou o holocausto, anos depois do mesmo, conseguindo mostrar toda a desumanidade do acontecimento através dos carris da linha de comboio de Auschwitz, por exemplo. Filipe Reis faz o mesmo com esta cena BDSM, expondo o humano e a sua ânsia por um toque íntimo, sem mostrar os seus corpos. Saímos desta exposição com a nossa curiosidade satisfeita. O sexo dos outros é afinal igual ao nosso, todos almejando uma intimidade genuína por meios travessos e perversos, se quisermos recorrer aos adjectivos clínicos.
É que se quisermos aproximar-nos do nosso desejo, teremos de admitir que o que esperamos do outro é que ele nos penetre bem fundo, com a perícia cortante de uma faca, para além de todas as máscaras e artimanhas com que nos fomos velando. E que essa faca revele que o nosso segredo é o desejo de uma comunhão das carnes, muito próxima do canibalismo. Esta é, portanto, uma exposição para veteranos sentimentais. Saímos de lá mais sós. Mais próximos do nosso desejo.
domingo, 17 de agosto de 2014
sábado, 16 de agosto de 2014
Enamoramentos
«Sim, todos somos arremedos de
pessoas que quase nunca chegámos a conhecer, de gente que não se aproximou ou
passou ao largo na vida daqueles que amamos agora, ou que então se deteve mas
se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto ou só a poeirada dos
pés que vão fugindo, ou que morreu para aquele que amamos causando-lhe uma
ferida mortal que quase sempre acaba por fechar. Não podemos pretender ser os
primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível, os restos, as
sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco
nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é
essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do
conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda
assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos juntos de quem
resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou que nos coube em sorte num
jogo de cartas ou apanhámos nos desperdícios; inverosimilmente conseguimos
convencer-nos dos nossos infelizes namoros, e são muitos os que julgam ver a
mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o Verão já
agoniza… Então apagava a luz da mesinha de cabeceira e passados uns segundos as
árvores que o vento agitava tornavam-se-me um pouco visíveis e podia adormecer
observando, ou porventura adivinhando, o baloiçar das suas folhas. «Que sentido
tem isto», pensava eu. «O único sentido que isto tem é que qualquer vislumbre
nos vale nestas tolas e invencíveis circunstâncias, qualquer ponta por onde
pegar. Mais um dia a seu lado, mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora
demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem
muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em
que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber
qualquer notícia, esperamos até alta noite para as considerarmos
definitivamente desertas ou perdidas, não vá acontecer que à última hora toque
o telefone e ele nos sussurre uma tolice que nos faça sentir injustificada
euforia e que a vida é benigna e piedosa. Interpretamos cada inflexão da sua
voz e cada insignificante palavra, que porém dotamos de estúpido e prometedor
significado, e repetimo-la para nós. Apreciamos qualquer contacto, ainda que
tenha sido apenas o estritamente necessário para receber uma desculpa tosca ou
uma desfaçatez ou para ouvir uma mentira pouco ou nada elaborada. «Ao menos
pensou em mim a dado momento», dizemos para connosco agradecidos, ou «Lembra-se
de mim quando está aborrecido, ou se sofreu uma contrariedade com a pessoa que
lhe interessa, que é a Luísa, talvez eu esteja em segundo lugar e isso já é alguma
coisa» (…). Não nos dá cuidado rebaixar-nos diante de nós mesmos, no fim de
contas ninguém nos vai julgar nem há testemunhas. Quando a teia da aranha nos
apanha fantasiamos sem limites, e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer
migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o
facto de estar ainda no nosso horizonte e não ter desaparecido de todo, com o
de ainda não se ver ao longe a poeirada dos seus pés fugindo.»
(…)
A rectificação dos sentimentos é
lenta, desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil
sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e
fixo – e adquire-se também o de o desejar – e não se sabe renunciar a isso da
noite para o dia, ou durante meses e anos, tão longa pode ser a sua aderência.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Um livro precioso
Quase sem aviso, ela mergulhou nas trevas, de mão dada com
ele, num sono que não era sono, antes uma luz límpida e crepuscular num pequeno
bosque verde, um bosque perigoso e irado cheio de vozes inumanas e ocultas que
cantavam, esganiçadas, como o sibilar de flechas, e viu Adam trespassado por
uma revoada destas flechas cantantes que o atingiam no coração e passaram,
estridentes, a rasgarem o seu caminho através das folhas. Adam tombou para trás
diante dos olhos dela, mas logo se tornou a erguer, ileso e vivo; uma outra
revoada de flechas disparada pelo arco invisível tornou a atingi-lo, e ele
caiu,e, contudo, ei-lo logo diante dela, ileso, numa perpétua morte e ressurreição.
Ela lançou-se para a frente dele, cheia de fúria e de egoísmo interpôs-se entre
ele e a trajectória da flecha, gritando: Não, não – dir-se-ia uma criança
enganada numa brincadeira –, agora é a minha vez, porque é que tens de ser
sempre tu a morrer? e as flechas trespassaram-lhe o coração de lado a lado e
trespassaram também o corpo dele, e ele caiu morto, e ela sobreviveu, e o
bosque assobiava e cantava e bramia, cada ramo, cada folha, cada haste de erva
tinha a sua própria voz acusadora. Ela desatou a correr então, e Adam agarrou-a
no meio do quarto, em plena corrida, e disse-lhe: – Querida, devo ter
adormecido também. O que é que aconteceu para dares gritos tão horríveis?
Depois de ele a ajudar a instalar-se de novo na cama, ela
sentou-se com os joelhos flectidos sob o queixo, de cabeça apoiada nos braços
cruzados, e começou a procurar cuidadosamente as palavras, porque era
importante explicar as coisas com muita clareza. – Foi um sonho muito
esquisito, não sei porque é que acabou por me assustar assim. Havia qualquer
coisa relacionada com um voto de amor antiquado. Eram dois corações gravados na
casca de uma árvore, trespassados pela mesma flecha… sabes como é, Adam…
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
domingo, 27 de julho de 2014
Anna Karénina
(...)
Reviu todas as suas recordações de Moscovo. Todas elas eram boas, agradáveis. Recordou o baile, recordou Vronsky e o seu rosto apaixonado e submisso, recordou todas as suas relações com ele: não havia nada de vergonhoso. Mas ao mesmo tempo, precisamente nesse ponto das suas recordações, o sentimento de vergonha intensificou-se, como se aqui, ao recordar Vronski, alguma voz interior lhe dissesse: «Quente, muito quente, a escaldar.»
(...)
E o filho, tal como o marido, produziu em Anna um sentimento parecido com a decepção. Imaginava-o melhor do que ele era na verdade. Tinha de descer à realidade para apreciá-lo tal como era.
(...) «Nada disto é novo; mas porque é que eu não reparei antes? - disse Anna para si mesma."
"Estava frente a frente perante a vida, perante a possibilidade de que a sua mulher amasse outro além dele, e era isso que lhe parecia confuso e incompreensível, porque esta era a própria vida. Aleksei Aleksándrovitch sempre vivera e trabalhara na esfera das suas obrigações oficiais, que tratavam dos reflexos da vida. E sempre que se defrontava com a própria vida, desviava-se dela. Agora experimentava um sentimento semelhante ao de um homem que, caminhando tranquilamente por uma ponte sobre um abismo, visse de repente que essa ponte se abatia e que lá em baixo havia um sorvedouro. Esse sorvedouro era a própria vida, e a ponte era a vida artificial que Aleksei Aleksándrovitch tinha vivido. Pela primeira vez ocorreram-lhe perguntas sobre a possibilidade de a sua mulher se apaixonar por alguém, e isso deixou horrorizado.
(...)
Pela primeira vez imaginou vivamente a vida pessoal dela, os seus pensamentos, os seus desejos, e a ideia de que ela podia e devia ter a sua vida particular pareceu-lhe tão assustadora que se apressou a afastá-la. Esse era o sorvedouro para onde ele tinha horror de olhar. Colocar-se em pensamento e em sentimento no lugar de outro ser era um acto mental estranho a Aleksei Aleksándrovitch. Achava esse acto mental uma fantasia nociva e perigosa."
«É preciso ter cuidado quando os ditos homens sábios se aproximam a coxear.»
Nos últimos anos, houve um filme que me tocou particularmente: Oslo, 31
de Agosto, uma adaptação cinematográfica do livro Feu Follet de Pierre Drieu la Rochelle, já adaptado à sétima arte
por Louis Malle. O protagonista, um toxicodependente em reabilitação, tem
permissão para ausentar da clínica por 24 horas e aproveita esse tempo para
visitar velhos amigos e ir a uma entrevista de emprego. Por todo o lado
encontra apenas desesperança e vemos que ele não tem a mínima hipótese de se
safar do vazio existencial que o domina. A cena da entrevista de emprego é
particularmente esclarecedora. A certo ponto, Anders exaspera-se com o
entrevistador e, ao mesmo tempo que mostra a sua inteligência aguda, demonstra-nos
como esta é impossível sem uma anestesia qualquer.
Franny é mais uma
personagem a braços com o mesmo dilema que martiriza Anders e, antes dele, Hamlet:
que fazer quando o pensamento corrói toda a capacidade de acção, quando a
conhecimento impede qualquer possibilidade de comprometimento? A inteligência
superior de Franny resume-se a uma faca crítica que tudo mina e ela não sabe o
que fazer. Em tudo e todos, percepciona narcisismo, hipocrisia e mediocridade e
envergonha-se da sua perspicácia sentindo-a como uma deslealdade e culpando-se
por isso.
Quando lhes serviram as bebidas, dez ou quinze minutos antes,
Lane tinha provado a dele e depois recostara-se na cadeira olhando de fugida à
volta com uma sensação quase palpável de bem-estar por se encontrar (tinha a
certeza que ninguém poderia por isso em causa) no lugar adequado com uma
rapariga de aspecto impecavelmente adequado – uma rapariga que não só era
extraordinariamente bonita, como, mais ainda, não era demasiado categoricamente
camisola de caxemira e saia de flanela. Franny notara essa pequena exposição
momentânea e atribuíra-lhe o valor que tinha, nem mais nem menos. Mas por força
de um qualquer acordo antigo e permanente com a sua psique, resolveu sentir-se
culpada por tê-la visto, apreendido, e condenou-se a ouvir a conversa
subsequente de Lane com uma cara de particular interesse.
Comecei a ler Franny e Zooey em Fevereiro de 2012. Eu
própria atravessava então uma grande noite e a tão prezada modalidade da
leitura identificatória revelou-se intolerável. O colapso nervoso de Franny fazia
demasiada pele e, em certas alturas, precisa-se de janelas, não de espelhos. Também
Franny não tolera o espelho que o irmão lhe oferece, quando se entrincheira no
sofá da casa da família Glass, rezando sem parar: “Jesus Cristo Nosso Senhor,
tende piedade de nós”.
Fundamentalmente porque estou farto de acordar furioso todas as manhãs e adormecer furioso todas as noites. O que, em si mesmo não me preocupa demasiado. Pelo menos quando faço um juízo de valor sobre alguém faço-o directamente a partir do cólon, e sei que hei-de pagar brutalmente por qualquer avaliação que emita, mais tarde ou mais cedo, deste ou daquele modo. Não é que isso me preocupe muito. Mas há uma coisa, Deus meu, há uma coisa que faço ao moral das pessoas, uma coisa que não aguento ver durante muito mais tempo. Posso explicar-te exactamente o que é. Faço com que toda a gente tenha a impressão de que não deseja na verdade realizar um bom trabalho, mas conformar-se com a realização de um trabalho que seja considerado bom por todos aqueles que se conhece (...). Estou farto de ser o vilão de toda a gente (...). Sinto-me como aqueles filhos da mãe sinistros contra os quais advertia o amado Chuang-tzu de Seymour: «É preciso ter cuidado quando os ditos homens sábios se aproximam a coxear.»
A pergunta essencial acaba por ser formulada por Bessie Glass, mãe de ambos: Não sei
de que vos serve saber tanto e ser tão espertos se isso não vos traz felicidade. Uma questão que atravessa a nossa cultura, onde felicidade é sinónimo de
alienação e os mais lúcidos são os que saem mais moídos do confronto com a vida
e o mundo, não lhes restando muitas hipóteses para além do alistamento na horda dos
boémios, dos toxicodependentes, dos fracassados e deprimidos.
Através de Franny e Zooey, Salinger consegue encontrar uma
brecha neste beco aparentemente sem saída. O problema não é a inteligência, pelo contrário, sem inteligência ninguém pode atingir uma vida conscientemente feliz. A inteligência só se torna um entrave à infelicidade quando se converte numa lucidez cortante, por via de uma inocência indisposta a abdicar das suas expectativas numa pureza absoluta. Tal inocência
divorcia-se do mundo, porque este não lhe corresponde, converte tudo em detrito e faz da sua ferida
trincheira.
O que quero dizer é que não só desprezas o que representam,
como as desprezas a elas. É demasiado pessoal, Franny (…) Se vais declarar
guerra ao Sistema, dispara como uma rapariga simpática e inteligente, porque o
inimigo existe e não porque detestas o penteado ou a gravata de alguém.
Entregue a si, a inteligência torna-se num erro lógico,
potência de destruição sem qualquer reverso de criação. Só a empatia pode salvá-la
de si mesma: Como um coxo para outro, Zooey, sejamos delicados e bondosos uns
para os outros.
sábado, 5 de julho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
para j.d., com amor e sordidez
Sexta-feira e sábado são dias de uma
felicidade mansa e terna, pelo simples facto de ter um novo suplemento cultural
para ler. A breve visita ao quiosque alegra a rotina matinal e de jornal colado
ao peito, sigo mais acompanhada para o trabalho ou casa.
Como todas as pequenas euforias, julgava-me
única no seu gozo. Até que um dia viajei para Madrid, juntamente com um livro
de Juan José Millás, e conheci a mãe de uma amiga que ficou encantada por
hospedar uma portuguesa que lia o referido escritor. Falou um pouco da obra e
vida dele e disse-me que ele publicava uma crónica regular num jornal espanhol (à
quarta-feira se a memória não me engana) e que nesse dia acordava sempre muito
feliz. “Porque me lembro que é dia da crónica
do Millás”, completou com um sorriso largo de criança travessa.
Percebi então que a minha alegria semanal
faz parte de um fenómeno mais amplo e partilhado por muitos seres humanos, a
saber, a esperança de que a literatura venha de algum modo colmatar a pobreza
da realidade. Mas a verdade é que, à excepção das crónicas do Pedro Mexia,
encontro nestes suplementos cada vez menos artigos deliciosos de ler. Apesar
deste facto algo incómodo, na semana seguinte a expectativa encontra-se
novamente renovada e contente. Não há nada a fazer, sou uma tipa optimista e
persistente.
E
às vezes, acontecem milagres. A última iluminação veio de uma recensão crítica ao
livro recentemente publicado de J.D. Salinger, Nove Histórias. Da autoria de Gonçalo Mira, o parágrafo final, que
citarei adiante, atafulhado em punchlines,
diagnosticava aquilo que eu busco na próxima leitura, com uma precisão tal que
mais parecia uma doença compendiada pelo DSM. “Nove Histórias é um daqueles livros dos quais não se
sai como se entrou. Pode sair-se mais feliz ou mais triste, dependendo da forma
como se vive a leitura, mas nunca indiferente. É um daqueles livros de contos
que envergonham muitos bons romances. É um daqueles livros que obrigam um
leitor que gosta de sublinhar passagens e de guardar citações a ter um lápis
sempre à mão. É um daqueles livros a que se regressa depois de termos lido
vários livros “apenas” muito bons, em busca do conforto do deslumbramento.”
Para que conste, raramente compro
livros influenciada por estas críticas. E tinha um medo que me pelava do
Salinger. Comecei a ler o À espera no
centeio mas achei melhor não ir mais adiante (já disse que acredito em serial killer texts) e também interrompi prematuramente a leitura de Franny and Zooey, porque na altura
andava com os nervos em franja e o mimetismo com Franny parecia um prenúncio
terrível. No entanto, a míngua literária dos últimos tempos obrigava-me a
arriscar.
Li as nove histórias. E encontrei
nelas o génio e o deslumbramento que a crítica antecipara. Sempre em doses
comedidas, jamais exuberante. Salinger não é um atirador furtivo, as palavras
que usa para descrever uma situação ou personagem são eleitas com parcimónia,
como quem caminha por um campo minado. Nunca falha o alvo. É capaz de dar a uma
personagem carne e osso com uma única frase. Como por exemplo: “Com poucas ou nenhumas aptidões para ficar
só numa sala, Mary Jane levantou-se e foi à janela”.
Nestas histórias, ninguém está a
salvo. Dos nove contos, só um não envolve uma criança ou adolescente. A realidade
fustiga os pés de todos, crescidos ou não, com os seus cruéis alçapões. Os
diálogos balbuciantes dos adultos contrastam com a fluência verbal sofisticada
dos génios pubescentes que Salinger retrata com um invulgar desembaraço. Uma
delas pede a um soldado americano para escrever um conto exclusivamente para
si. Diz-lhe que é uma leitora voraz e que prefere contos sobre sordidez.
Os adultos conversam menos. Não
voltaram da guerra com as faculdades intactas e a sordidez deixou de ser uma
curiosidade excêntrica para se tornar mortalha diária. “Lembras-te do nosso ano de caloiras, quando eu pus aquele vestido
castanho e amarelo que tinha comprado em Boise e a Miriam Ball me disse que já
ninguém usava aquele tipo de vestidos em Nova Iorque, e eu chorei a noite
inteira? – Eloise abanava os braços de Mary Jane. – Eu era boa rapariga – rogou
ela -, não era?”
E pronto, é isto que se pede a um
livro. Que acerte com toda a calma e força nas zonas que os outros deixaram
intactas. Punchlines não tenho. A não
ser que dá vontade de matar para se escrever assim.
domingo, 22 de junho de 2014
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Um desvario
"Mas não é esse o caso e afinal o que se passa é que um longo processo de desvario sentimental me tornou incapaz de um amor verdadeiro e pleno."
"Não se apercebeu, nem um único momento se apercebeu, de que talvez o seu delírio não pudesse ter sido compartilhado. Fundir-se com um outro ser numa comunhão de sentimentos, também é amor, é óbvio, mas num certo grau de paixão o amor torna-se num egoísmo tão cego que já não tem sequer uma única fibra sensível ao mundo que o rodeia, mesmo que esse mundo seja o doutro ser, do ser amado, tão cego que uma dissonância perturbadora não é perceptível simplesmente porque não é captada ou não é sentida. A paixão amorosa é como a última, a a extrema solidão."
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Revolução
Troquei a turba do Carmo com os seus cravos nostálgicos pelo meu sofá vermelho, a companhia felina e um filme que enigmaticamente o meu computador começou a reproduzir, Rebel without a cause. Encontro-me sempre nestas noites de insónia branca, bolinando confortável pelo rumor manso da vida, rainha de uma solidão viva e pensante.
"E a liberdade? Que pergunta! Não vossa, a pergunta, mas minha. Que a minha liberdade sou eu, e custo-me a sustentar. Entretanto, chegam-me notícias de que é necessário sustentar a liberdade alheia. Mas que faz o alheio, que não faz pelo seu próprio sustento?" (Herberto Hélder).
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Corpo-a-corpo
Vai somatizar.
E somatiza:
A grande ruptura acontece nessa rua
desgarrada em que o corpo caminha como quem marcha. Sem qualquer aviso prévio,
a rugosidade de uma parede diz-lhe que está indefeso perante a morte e todos os
trabalhos que a precedem. E assim, de súbito, o corpo perde afectos e deveres,
rachado ao meio por um golpe de asa negra.
O seu primeiro impulso é procurar o nome da
rua. Mas o medo infiltrou-se no sangue sem piedade. E a cabeça sempre foi
frágil.
Há um crime imemorial que ainda não foi
lavado e o teu corpo é chamado a depor. Todos têm de prestar contas. É por isso
que todos os meses as mulheres sangram.
O corpo não possui mais um eixo ao abrigo da
suspeita. Todos os seus movimentos toscos para recuperar o equilíbrio são vãos.
A verticalidade tornou-se uma impossibilidade. A paisagem urbana surge
desfigurada. Os edifícios são de papel cartonado e nunca te tinhas apercebido
disso. Nos rostos que te cruzam não decifras mais qualquer vestígio da
comunidade humana. A humanidade é uma ideia putrefacta que o teu olfacto
ignorou nas décadas de aprendizagem. Venderam-te tantas ideias sem corpo e
agora tudo vacila. Pareces um navio em alto-mar, fustigado pela tempestade.
Estás sozinho. Metes as mãos nos bolsos em
busca de conforto – não esqueces jamais os hábitos que te impuseram aos
membros. Mas tens os órgãos estilhaçados e a carne traumatizada pelo pensamento
que te acidentou. Um vulto de plumas que assombra os bastidores da mente.
Insinua-se e foge. Deixa um rasto de pássaros embalsamados.
O sabor a ferrugem na boca fendida. Roldanas
de aço roendo os maxilares, numa pressão metálica que ameaça triturar o corpo a
partir do queixo. Anos a confiar neste pedaço de carne e agora ele
desconjunta-se e vai tudo abaixo.
Tudo abaixo. Os outros continuam de rosto
empoleirado nos corpos. Não estão ameaçados pela disjunção. Talvez chorar,
pedir ajuda… Oh, mas teriam que se usar as palavras e o horror alagou também a
linguagem. Cerra antes os dentes e contraria a saliva. Não se quer enlouquecer
e, no entanto, esta é a única certeza, o vazio que aparece de repente numa rua
qualquer, abre a boca numa careta carnavalesca para te pregar um susto e zás!
Foste engolido.
Estás sozinho, náufrago no real provisório.
Estado de alerta máximo. Medo do real ser evacuado e não se ter para onde ir.
Porque não temos já para onde ir. Nem sequer
se sabe o nome verdadeiro desta rua onde o real nos aconteceu. Sim, fugir. Mas
para onde? Casa é a palavra mais vã que resta. Tanta arquitectura para não
haver abrigo algum. O céu foi tomado de assalto pelos aviões e meteorologistas.
O mundo é uma fantasia em extinção e as aves não migram mais. Morrem de mágoa,
esfaceladas contra o asfalto.
Apanhas um táxi em desespero e agradeces
numa oração silenciosa a oferta de transporte que a civilização oferece. Embora
a casa também tenha sido contagiada. Navegas noite afora sobre o pensamento que
te come a calma. Esses olhos não encontram mais descanso. O teu corpo não
funciona. É um corpo-detrito, os nervos em franja, com uma consciência absurda
das próprias mãos – vê nelas uma brancura que impõe a vigília.
Estado de alerta máximo.
Mesmo assim, não estás pronto para desistir
da civilização. Por tão pouco, um mero ataque de nervos, dizes. Precisas só de
recuperar a fé no real. Por isso vais ao médico.
Senhor doutor, queira ter a bondade de me
dizer quantos comprimidos são necessários para matar o pensamento e recuperar o
corpo?
Ao doutor dói-lhe a cabeça. Há dias em que não acredita na
psicologia humana. Hoje é um deles. Está sem paciência e na sua frente tem um
paciente. Depois de ouvir as palavras do corpo, não sabe o que dizer. Sente
pela primeira vez a falta de um deus qualquer. Ao invés, opta por aconselhar
alguma medicação. Ansiolíticos. Anti-depressivos. E hipnóticos em SOS, para o caso
do real insistir nas suas visitas.
A mão escreve veloz uma receita, como quem acelera dali para
fora. Para fora do contexto doutor-paciente onde ambos se atrasam num compasso
sem esperança. Entrega a receita e num aperto de mão asséptico, diz
As melhoras.
Como quem diz,
Até amanhã e esta guerra não fui eu que a criei.
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