sábado, 10 de janeiro de 2015

que coisa são as nuvens

"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."

Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)

Lola Montès (1955)


«Ela está prematuramente gasta.»

QUANDO UM HOMEM CHORA


2014 terminou com dias solarengos no Algarve, aconchegados pelos meus cães e pela leitura do primeiro volume de A MINHA LUTA de Karl Ove Knausgard, A MORTE DO PAI. Aguardava com curiosidade esta leitura desde Setembro de 2013, quando a deliciosa Ahab anunciou a publicação da tradução dos seis tomos autobiográficos, uma vez que se trata de uma obra confessional, género que muito estimo.
O livro chegou, portanto, com uma empatia já previamente estabelecida e apanhou-me de férias, fumando reflexões várias sobre uma vida melhor e o valor da alegria e do fascínio, moedas ultimamente escassas no meu quotidiano e, consequentemente, nas minhas leituras. A sensação de que o futuro não existe, de que é apenas mais do mesmo, significa que todas as utopias são desprovidas de sentido. A literatura sempre esteve relacionada com a utopia, por isso, quando a utopia perde o sentido, acontece o mesmo com a literatura. O que eu tentava fazer, e talvez o que todos os escritores tentam fazer – que raio sei eu? –, é combater a ficção com a ficção. O que eu devia fazer era aceitar o que existia, aceitar as coisas como elas são, por outras palavras, celebrar o mundo em vez de procurar uma saída, porque assim teria sem dúvida uma vida melhor, mas não conseguia, não conseguia; algo se congelara em mim, uma convicção tinha-se enraizado em mim, e, embora fosse essencialista, ou seja, anacrónica e até romântica, eu não conseguia passar por cima dela, pelo simples motivo de que não fora apenas uma coisa pensada mas também sentida, naqueles súbitos estados de iluminação que acontecem na vida, em que durante alguns segundos se vislumbra um mundo diferente do que se vislumbrou momentos antes, onde o mundo parece avançar e mostrar-se por um breve espaço de tempo, antes de recuar e tudo voltar a ser como era…
Kanusgard constrói uma investigação existencial, uma indagação proustiana dos traços do tempo vivido, para entender como se chega a ser como se é: Como é que acabei aqui? Como é que as coisas aconteceram assim? (…) E cada dia que passa, aumenta o desejo pelo momento em que a vida atingirá o auge, pelo momento em que as comportas se abrirão e a vida seguirá, por fim, em frente. Ao mesmo tempo vejo que a repetição, a clausura, o inalterável são necessários, que me protegem. Nas poucas ocasiões em que os deixei, as velhas feridas regressaram. De repente sou tomado por todos os pensamentos imagináveis sobre o que foi dito, o que foi visto, o que foi pensado, atirado para aquele espaço incontrolável, estéril, muitas vezes degradante e verdadeiramente destrutivo onde vivi tantos anos. Nele a nostalgia é tão forte quanto a que existe aqui, mas a diferença é que esse sentimento tem um objectivo realizável, aqui não. Aqui tenho de encontrar outros objectivos e de me contentar com eles. Falo da arte de viver.
Como não simpatizar com este projecto? Em termos de fascínio, a ligação processava-se de modo menos automático. Influenciada pela imprensa, esperava talvez um striptease mais visceral mas Knausgard, como um bom nórdico, insistia nas excursões pelas ideias e a minha atenção divagava também. No entanto, a partir da página 140, percebi que havia ali entranhas várias e uma enorme coragem em expô-las e que não me havia apercebido disso até então pelo relato essencialmente masculino e racional. Foi só quando aceitei que visceralidade e lucidez podiam coabitar nas mesmas páginas, que encontrei a porta de entrada para o texto.
E assim fui acompanhando essa voz, apreendendo as suas nuances masculinas, as duras dores do seu crescimento, as primeiras bebedeiras, o primeiro amor. Numa manhã de Abril há rebentos nas árvores e uma vaga verde começa a cobrir a erva amarela dos campos. Florescem os narcisos, e também os malmequeres e as violetas. Em seguida, o ar quente surge como uma coluna por entre as árvores das colinas. Nas encostas soalheiras os rebentos abriram, e as cerejeiras estão em flor. Quando temos dezasseis anos, tudo isto causa uma certa impressão, tudo isto deixa a sua marca, pois é a primeira Primavera em que sabemos que é Primavera, em que todos os sentidos pressentem a sua chegada, e é também a última, pois todas as outras Primaveras empalidecem quando comparadas com a primeira. Se além disso estamos apaixonados, bem, então… então é apenas uma questão de aguentar. Aguentar toda a felicidade, toda a beleza, todas as promessas que há em todas as coisas. Ia a pé da escola para casa, reparei que a neve derretera sobre o asfalto, era como se ele tivesse sido esfaqueado no coração. Vi caixas de fruta sob um toldo de uma loja, um corvo a saltitar não muito longe dali, olhei para o céu e estava muito bonito. Atravessei a zona residencial, caiu um aguaceiro, fiquei com os olhos cheios de lágrimas.
E, aquando da descrição do autor da sua relação com a arte, lá estava eu enamorada por essa inquietação ávida que tanto conheço e que jamais tinha conseguido capturar pela palavra. Era o único critério que usava para avaliar a arte: a sensação que despertava em mim. A sensação de inesgotabilidade. A sensação de beleza. A sensação de presença. Tudo comprimido em momentos tão intensos que às vezes eram difíceis de aguentar. E bastante inexplicáveis (…). Liberdade mas não paz, porque, ainda que os quadros retratassem cenários idílicos, como as paisagens arcaicas de Claude, eu ficava sempre perturbado quando os abandonava, pois aquilo que possuíam, no íntimo do seu ser, era a inesgotabilidade, e isso despertava em mim uma espécie de avidez. Não consigo explicar melhor. Uma vontade de estar dentro da inesgotabilidade (…). No entanto, assim que voltava a concentrar-me na pintura, toda a minha racionalidade desaparecia com aquele embate de energia e de beleza. Sim, sim, sim, ouvia. É aí que está. É para aí que tenho de ir. Mas a que é que dissera sim? Para onde é que deveria ir?
E assim flui a luxúria entre quem se despe e quem olha. Mas nada parecido entre o affair de Actéon e Diana. Porque aqui, a verdade do outro não aniquila, é mais como uma casa bafienta e escura que se abre para a vida com uma sinceridade muito viva. Na minha opinião, é um livro bom mas não genial e muito do bruaá deve-se à exposição extrema e polémica que Knausgard faz dos seus familiares e outros. A grande operação de marketing do livro baseou-se nessa polémica, o que determina que grande parte do prazer voyeurista da leitura seja gasto nesses espantos. É no entanto um livro bom, cujos tomos seguintes lerei com certeza. Sobretudo porque confessa pequenas derrotas e breves iluminações, que tantos sentem e poucos revelam.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CORAZÓN DE ALGODÓN



«No te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del linguaje mismo del cariño y la confianza – y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero outra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso outro también es vos, lo sé, pero no es todo y demás no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mesmo. El poder poético es tuyo, lo sabes, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tempos en que esse poder era el antagonista frente a la vida, y está el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siqueira esse privilegio imperial, queridíssima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuleve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonês: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.» (Julio Cortázar).


Qué haré con el miedo?
Que faremos com o medo, querida Alejandra?

Penso em ti, penso em nós, quando me reclino no sofá, estrangulada pelas horas indomadas. Afasto a gata e encosto a mão ao meu sexo, sinto-o pulsar. E sei que ainda pertenço à vida.

Porque é que não partimos com os pássaros, ainda que em voos rasantes? Porque insistimos nas palavras que comandam a noite e mancham a esperança alva? Também no meu peito se fossilizou a desespero mas a literatura não pode servir apenas para perder a inocência, pode também ensinar-nos a suspender a descrença como Coleridge nos ensinou. Pretendamos que assim seja.

Assim, como Gilgamesh: esquece a morte e segue-me.

Ou assim: mi corazón abre la ventana, vida aqui estoy.
Olvidemos a morte e as suas estranhas mãos e pensemos nesse verão longínquo, em que confundimos o céu com o nosso amor fervente, súplice de marés e faróis.

Noche que te vas, buenas noches.

Não negues a mania de viver que te arrasta, Alejandra, ainda que escolhas apelidá-la de lúgubre. Lá fora está sol, não te vistas de cinzas. A última inocência não é o apeadeiro final, podemos ainda ingressar na «escola da ingenuidade» e usar a imaginação poética para nos salvarmos.

sábado, 29 de novembro de 2014

Céu estrelado em noite escura

Oferecem-me bilhete para o Mexefest e declino para ficar em casa enrolada na Poesía Completa de Alejandra Pizarnik. É resignação ou maturidade?

CIELO

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas

lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos

domingo, 23 de novembro de 2014

e a noite roda


Passei os últimas noites de chuva entretida com a leitura de e a noite roda de alexandra lucas coelho. Foi uma leitura light, sem deslumbramentos maiores, que compensou sobretudo pelo tom delicado, a evocação de lugares distantes e por esse grande amor à literatura como forma de viagem. A história de amor narrada apoia-se em várias referências bibliográficas e os encontros carnais dos amantes compõem as partes mais bem conseguidas do livro.

"Mesmo no inverno, a pele do teu corpo é morena. Continuas a cheirar a sabonete, macio e a cheirar a sabonete, com um sexo grande e macio e a cheirar a sabonete, mesmo quando tenho a cara entre as tuas pernas, e a cabeça do teu sexo pulsa para a frente. O teu esperma é leve, só ligeiramente acre. A tua cara aparece e desaparece. Nem sempre nos vemos, talvez nem sempre tenhamos nome. Às vezes és só um quadril com sexo, pelos de um louro escuro por cima. Ou uma boca no meu sexo, caracóis grisalhos entre os meus dedos. Uma boca, uma língua, dentes na minha boca, na minha língua, dentes contra dentes. Uma mão no meu pescoço, dobrando-me para trás, para a frente. Uma mão que me agarra pelo cabelo com a um bicho. Duas mãos que me puxam para um corpo por trás do meu. E não sei quem sou nem quem és. Depois volto-me na cama, abro os olhos, a tua cara está lá no alto, entre os meus tornozelos, afogueada. Encostas o tronco às minhas pernas, o teu sexo entra de um golpe, eu rodo e rodo com ele dentro, mas os nossos olhos estão fixos, cada vez mais desesperados, como se tudo o que o corpo faz para chegar perto nunca chegasse."

"Noite num mosteiro, antes de descer à costa. Tacteio com todas as minhas extremidades e a matéria conflui desde o seu núcleo. Não tens a pele dura dos circuncidados. A cabeça do teu sexo nasce só para isto, cega e sensível a cada vez. Sento-me nela, afundo, desapareço. Sou o cimo onde tu bates, e bates, até à dissolução. Pequena morte, sim, porque a morte há de ser o fora da história, ausência de bagagem e de cronologia. Noite branca."

Além disso, dois versos no seu interior, decidem a minha próxima viagem: Alejandra Pizarnik.

Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Hilda, meu amor



OBSCÉNICA - TEXTOS ERÓTICOS & GROTESCOS
LANÇAMENTO A 27 NOVEMBRO | PENSÃO AMOR | 19H

O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres. Uma delas, trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí é texto dela) e depois Lucrécio.

domingo, 16 de novembro de 2014

Crónicas do Fel de Amor


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:

         “No meio do caminho em nossa vida,
              eu me encontrei por uma selva escura
     porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
     esta selva selvagem, aspra e forte,
     que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
     mas, por tratar do bem que eu nela achei,
     direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
     tão grande era o meu sono no momento
     em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As dioptrias de Elisa


Seis horas e Filipe ia ter com Elisa a casa dela. Filipe apareceu de rompante na rua e foi logo ter com ela a casa. Elisa não estava à janela, estava dentro de casa e Filipe bateu à porta da casa dela. Elisa abriu. Filipe entrou. Elisa à porta apaixonou-se logo por Filipe, o rapaz belo, e deram um grande beijo na boca. Filipe era a primeira vez que tinha assim uma mulher nos seus braços. Deixaram-se os dois e Elisa disse - «Como é que você sabia que eu era uma mulher assim, que o nosso caso viria dar nisto?» Filipe calou-se e não disse nada. Ainda disse - «Eu supunha por si Elisa que você me havia de aceitar quando me viu na rua domingo quando ia para o jardim com o seu marido e os seus filhos.» E depois ainda lhe perguntou - «Porque é que você gosta de mim?» Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu -«Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.» - «Estou também apaixonado por si Elisa», disse Filipe. Elisa queria ter já a relação do coito, dos três coitos que haviam de ter até domingo às seis horas da manhã. Combinaram-se para a cama.
Elisa punha-se agora em combinação preta, sem calças por baixo. Queria a relação em combinação, a primeira relação, havia de ser pôr nua quando quisesse e fosse altura. Os olhos de Filipe perdiam-se de vista, dilatavam-se enormemente. Nunca tinha tido uma ocasião assim pois era a primeira vez que ia para a cama com uma mulher. Elisa puxava agora a baínha da combinação  preta para cima e mostrava-lhe a púbis. Filipe estava nu. Elisa já estava na cama. Chamou-o. Filipe deitou-se primeiro ao lado dela nu e depois subiu-lhe para cima. Em cima dela tirou-lhe a combinação. Estavam nus os dois.
Filipe introduziu-lhe o pénis. Elisa antes nua já tinha dado uma atenção ao pénis de Filipe muito grande. Nunca tinha visto um pénis tão grande a querer entrar em si na sua púbis. Elisa dizia-lhe agora - «Nunca vi um homem como você, o seu rabo pequeno e doce o seu sexo, estou perdida por si Filipe.» Filipe disse - «Você estua toda por mim, temos de ter a relação já.» Filipe introduziu-lhe outra vez o pénis feito, todo feito. Elisa queixou-se debaixo dele. Depois disse - «Ai, filho, querido, é tão bom.» Filipe já se masturbava já deitava a esperma toda fora dentro da vagina dela e cá fora. Tinha chegado ao momento. Filipe levantava-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa estava ainda nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tudo conspira

"Pois como tudo o que é pleno, o que torna toda a matéria ligada, e como no pleno todo o movimento faz algum efeito sobre os corpos distantes na medida da distância, de tal sorte que cada corpo é afectado não só pelos que o tocam, e se ressente de certa maneira de tudo o que lhes acontece, mas também por intermédio deles se ressente os que tocam os primeiros pelos quais é directamente tocado: segue-se que esta comunicação alcança seja a distância que seja. E, por conseguinte, todo o corpo se ressente de tudo o que se faz no universo, de tal modo que aquele, que vê tudo, poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte e até o que se fez ou se fará, observando no presente o que é remoto, tanto segundo os lugares; sympnoia panta, dizia Hipócrates. Mas uma alma não pode ler em si própria senão o que nela é distintamente representado, e não poderia desenvolver de uma vez só as suas dobras, porque estas vão até ao infinito."

Leibniz, Monadologia

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

não consigo sossegar e a menina Else não ajuda


"Acho que não me posso apaixonar. O que, por acaso. até é curioso. Porque eu sou sensível. Mas também animosa e desagradável, graças a Deus."

"Um pouco de carinho quando se está bonita, um pouco de atenção quando se tem febre, e mandam-nos para a escola, e em casa aprende-se piano e francês, e no Verão vamos para o campo e quando se faz anos recebe-se presentes e à mesa falam sobre tudo e mais alguma coisa. Mas o que se passa dentro de mim e o que dentro de mim se revolve e tem medo, já se preocuparam com isso?"

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

domingo, 7 de setembro de 2014

Mulherzinhas

Constatei recentemente que me comporto com os livros como uma mulherzinha. Um de cada vez, nada de promiscuidades.
A relação exclusiva intrigou-me. Nunca fiz da fidelidade estandarte e confesso, sem qualquer orgulho ou pudor, que atraiçoei várias ideias e amantes apenas pelo doloroso prazer de trair (quem precisar de instruções neste prazer, procure-os n’ A Insustentável Leveza do Ser e preste redobrada atenção à personagem Sabina).
Porquê então um só livro de cada vez à cabeceira? Por que razão quando um livro me aborrece jamais o troco temporariamente por outro? A este propósito recordo a leitura difícil d’A Educação Sentimental do Flaubert, uma leitura carregada de tédio, como convinha ao tema, que suportei estoicamente. No final, a teimosia foi recompensada e o livro tornou-se um dos meus favoritos. A monogamia é assim: às vezes compensa, outras não.
Iniciei Anna Karénina, ocupada por estes pensamentos. Embora desejasse consumar a leitura para poder ter um veredicto estético, a beatice do Tolstoi aborrecia-me profundamente. Além disso, noite após noite via gorada a minha expectativa de encontro com a Karénina, incapaz de lhe sentir a carne, propositadamente mantida à distância pelo pince-nez do narrador. Estavam portanto reunidas as condições ideais para que a putaria começasse.
E começaram assim que as reflexões agrárias de Lévin me arrefeceram. Ansiosa, corri novamente para os braços de Salinger, contente por encontrar em Franny e Zooey ar puro e um velho problema conhecido: como viver bem com uma inteligência cortante? Desta feita, ao contrário do que sucedeu com Hamlet e com toda uma galeria de personagens desfeitos pelo pensamento, voltei com uma resposta, que não o corriqueiro binómio anestesia/entretenimento.
Depois do breve affair com a família mais interessante do mundo, a família Glass, regressei às famílias singularmente infelizes de Tolstoi. A comparação entre os casais Anna-Vronski e Kiti-Lévin tornou-se evidente e conseguiu agarrar-me, sobretudo na parte em que os homens de ambas as parelhas se sentem sufocados com as suas ligações e as mulheres se exasperam pelo esfriamento. Embora adivinhasse que a intenção do omnipresente narrador era glorificar um amor mais espiritual e cristão face a um amor carnal, as suas brilhantes observações e a notável profundidade das personagens mantiveram o meu desejo morno até ao final da leitura.
Nabokov não podia estar mais certo quando escreveu que “muitos têm sentimentos opostos em relação a Tolstoi. Adoram o artista nele e aborrecem-se com o pregador; mas, de facto, é bastante difícil separar o Tolstoi pregador do Tolstoi artista – é a mesma voz profunda e vagarosa, o mesmo ombro robusto a levantar uma multidão de sonhos ou um monte de ideias. O que queríamos era tirar-lhe o púlpito de debaixo dos pés e depois trancá-lo numa gruta, numa ilha deserta, com litros de tinta e resmas de papel – longe das coisas éticas e pedagógicas que lhe distraem o olhar do modo como o negro caracol cai sobre o pescoço níveo de Anna.”
É o meu caso. Por essa ambivalência, é-me muito difícil concordar com o mesmo Nabokov, quando este afirma que “Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa” e exclui Dostoievski da lista. Já disse e repito que para mim Dostoievski é o maior escritor do mundo (reservo-me o direito de rever este julgamento assim que encontrar uma escrita superior). Tendo lido Ressureição, Anna Karénina, O Jogador, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov não entendo sequer as razões da comparação. Provavelmente, trata-se de um debate russo que se internacionalizou, semelhante ao absurdo duelo português Saramago vs. Lobo Antunes, que não tem ponta por onde se lhe pegue pois trata de dois autores tão distintos como a água do azeite.
Também a comparação habitual com a Madame Bovary me parece completamente despropositada, a não ser que se encaixe ambas como novelas sobre o adultério, o que seria estupidamente redutor. Embora muitos afirmem que a morte de Emma é um desfecho moral, eu nunca a senti assim. Para mim a sua morte é uma consequência das leituras românticas, não um castigo que o autor lhe inflige. Só assim se explica a tinta negra que Emma vomita na sua última agonia.

Em suma, as leituras são sempre idiossincráticas e cada um escolhe as que melhor lhe convêm. A mim o Tolstoi não me aquece verdadeiramente. Que atire a primeira pedra quem gosta de ir para a cama com moralistas.

domingo, 24 de agosto de 2014

Isaac Babel


Já me tinham recomendado os contos de Isaac Babel mais do que uma vez mas as vicissitudes da existência foram impedido a leitura até à semana passada.
A penetração no mundo de Babel foi lenta: o tom dos Contos de Odessa selecionados era caótico e a leitura não descolava. Por altura, dos contos do Exército da Cavalaria (também conhecidos por Cavalaria Vermelha), já o meu desejo bolinava mais estável, mas foi nos vários Contos Dispersos que a união se concretizou. Mais uma vez, talvez pela forte influência do narrador na primeira pessoa onde adivinho um pouco a personalidade pubescente do escritor. "História do meu primeiro pombal", "O despertar", "Os primeiros honorários" e Guy de Maupassant" agarraram-me com punho forte e decidido.

"Viver em Tiflis na primavera, ter vinte anos e não ser amado é uma coisa terrível. 
(...)
Só me restava ir à procura do amor. E, naturalmente, encontrei-o. Por sorte ou por azar, a mulher que escolhi era uma prostituta (...).
Ó deuses da minha juventude! Cinco dos meus vinte anos tinham sido gastos a inventar histórias, milhares de histórias que me atafulhavam o cérebro. Jaziam no meu coração como sapos numa pedra. Movida pela força da solidão, uma dessas histórias tinha caído na terra. Pelos vistos, o destino tinha decidido que uma prostituta de Tiflis iria ser a minha primeira leitora (...).
Tudo isto aconteceu há muitos anos. Desde essa altura tenho recebido frequentemente dinheiro de editores, de homens ilustres e de judeus que negoceiam em livros. Por vitórias que foram derrotas, por derrotas que se converteram em vitórias, pela vida e pela morte, pagaram-me preços irrisórios, muito inferiores àqueles que tinha recebido na minha juventude da minha primeira «leitora». Mas não sinto raiva por isso. Não a sinto porque sei que não hei de morrer sem voltar a arrancar outra moeda de ouro, e essa será a última, das mãos do amor."

Katherine Anne Porter, aka Miranda


Tenho uma nova heroína na minha lista de admirações: Katherine Anne Porter.
Desde o ano passado, altura em que a Antígona anunciou a publicação de "Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro", que aguardava com impaciência a chegada deste título às minhas mãos. A razão desta impaciência era apenas intuitivamente emocional, convocada pelo título poético, pois nada sabia desta autora.
Em Julho, fui de férias com o Cavalo Pálido e regressei a Lisboa rendida aos sortilégios da escrita de Porter. A qualidade dos três contos era igualmente excelente mas confesso que o que mais me cativou foi a personagem Miranda, eixo central de dois dos contos e afirmado alter ego da autora.
Em Agosto, tornei a partir de férias para o sobrelotado Algarve na companhia da Katherine Anne Porter, desta vez com a antologia "A Torre Inclinada e outros contos", da Relógio d'Água (já agora uma pequena anotação: "Judas em flor e outros contos" teria sido uma escolha de título mais feliz, na minha opinião). E mais uma vez, apesar da inegável qualidade dos vários contos, continuei a preferir os envoltos na respiração de Miranda. Não restam dúvidas que se trata de um alter ego de Katherine, pois doutro modo a sua autenticidade não se tatuaria na pele com uma tal violência poética.
Não me recordo quem disse (ou escreveu) que é possível amar mais personagens que certas pessoas. No caso, os livros de Katherine Anne Porter são do melhor que li este ano e Miranda tornou-se, com todos os seus desassombros, uma das pessoas que mais gosto.


«Miranda observava o irmão com um ar de admiração enquanto este se livrava da pele como se estivesse a tirar uma luva. A carne esfolada emergia, de um escarlate-escuro, lustroso, firme; entre o polegar e o indicador, Miranda sentiu os longos músculos finos com as tiras lisas e prateadas que os uniam às articulações. O irmão ergueu a barriga estranhamente inchada. "Olha", disse-lhe, numa voz baixa e maravilhada. "Ia ter bebés."
Com muito cuidado, ele rasgou a pele fina das costelas centrais até aos flancos, ao que um saco escarlate apareceu. Voltou a rasgar e abriu o saco, e aí estava uma ninhada de coelhos minúsculos, cada um envolvido num fino véu escarlate (...).
Miranda disse: "Oh, eu quero ver", num sussurro. Olhava e olhava - empolgada mas não assustada, pois estava habituada a ver animais mortos em caçadas -, cheia de pena, fascínio de uma espécie de encantamento chocado perante as criaturas maravilhosas e pequenas por si sós, que eram tão bonitas. Tocou numa delas com o maior dos cuidados: "Ah, há sangue a correr por cima deles", disse, e começou a tremer, sem saber porquê. Contudo, queria mais do que qualquer outra coisa ver e compreender. Tendo visto, sentiu de imediato que era como se sempre tivesse compreendido. A própria memória da sua ignorância anterior despareceu, ela sempre compreendera aquilo mesmo (...).
Miranda nunca o revelou, nem alguma vez teve vontade de contar a quem quer que fosse. Pensou em toda a questão preocupante com uma infelicidade confusa durante alguns dias. Depois o episódio foi-se afundando na sua mente, coberto por milhares de impressões acumuladas ao longo de quase vinte anos. Certo dia, ela estava a avançar com cuidado para não pisar poças e resíduos esmagados na rua de um mercado numa cidade desconhecida de um país desconhecido quando, sem aviso, nítido e claro com todas as cores, como se visse através de uma moldura uma cena em que não tivesse mexido nem feito alterações desde o momento em que acontecera, o episódio desse dia longínquo saltou de onde fora sepultado para se colocar em lugar de destaque na sua mente (...). Um vendedor índio tinha erguido à sua frente uma bandeja de doces açucarados tingidos, em formas de inúmeras criaturas pequenas: passarinhos, pintainhos, láparos, cordeiros, bacorinhos. Eram de cores alegres e cheiravam a baunilha, talvez...»

sábado, 23 de agosto de 2014

O AMOR É UMA FACA


SCRIPT
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE FILIPE FLORA REIS
LER DEVAGAR (LX FACTORY)
16 AGOSTO - 3 SETEMBRO

A série de fotografias de Filipe Flora Reis intitulada Script# convida-nos para uma sessão de BDSM. Chegamos munidos da habitual curiosidade voyeurista, como se o sexo dos outros pudesse conter um segredo desconhecido que o torna diferente e mais interessante que o nosso. E recordamos as palavras de Michel Foucault na sua magnífica História da Sexualidade: “Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la, em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo, em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer”. É precisamente neste tópico que o olhar fotográfico do autor nos surpreende. 
Um olhar frio, clínico, aparentemente sem misericórdia. Filipe Flora Reis não nos dá Imagens estereotipadas de poses agressivas, corpos supliciados e látex, semelhantes às que qualquer leigo terá na sua mente quando pensa em rituais de bondage e dominação sexual. Ele coloca-nos na ombreira de um local que tanto pode ser cenário de um crime como de outra coisa. Um local que nos parece vedado, onde nem a visão alcança a clareza. Os plásticos estão cuidadosamente dispostos. Uma vela alumia a mesa onde os instrumentos se alinham com matemática rectidão, apenas para sublinhar a escuridão do redor. Raras vezes vemos os corpos envolvidos. Apenas um relance fugidio de carnes tensas de expectativa, contidas por cordas. 
Aqui o nosso prazer de ver nunca se esclarece: estamos na ombreira daquilo com que é mais difícil estabelecer um acordo: o nosso próprio desejo. O essencial permanece invisível, intocável, fora de campo, numa relação emocional tensa com a frieza dos chicotes. Em Noite e Nevoeiro, Alain Resnais filmou o holocausto, anos depois do mesmo, conseguindo mostrar toda a desumanidade do acontecimento através dos carris da linha de comboio de Auschwitz, por exemplo. Filipe Reis faz o mesmo com esta cena BDSM, expondo o humano e a sua ânsia por um toque íntimo, sem mostrar os seus corpos. Saímos desta exposição com a nossa curiosidade satisfeita. O sexo dos outros é afinal igual ao nosso, todos almejando uma intimidade genuína por meios travessos e perversos, se quisermos recorrer aos adjectivos clínicos. 
É que se quisermos aproximar-nos do nosso desejo, teremos de admitir que o que esperamos do outro é que ele nos penetre bem fundo, com a perícia cortante de uma faca, para além de todas as máscaras e artimanhas com que nos fomos velando. E que essa faca revele que o nosso segredo é o desejo de uma comunhão das carnes, muito próxima do canibalismo. Esta é, portanto, uma exposição para veteranos sentimentais. Saímos de lá mais sós. Mais próximos do nosso desejo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Homens que escrevem são tesudos 3


"The world breaks everyone, and afterward, some are strong at the broken places."
Ernest Hemingway

sábado, 16 de agosto de 2014

Enamoramentos


«Sim, todos somos arremedos de pessoas que quase nunca chegámos a conhecer, de gente que não se aproximou ou passou ao largo na vida daqueles que amamos agora, ou que então se deteve mas se cansou passado um tempo e desapareceu sem deixar rasto ou só a poeirada dos pés que vão fugindo, ou que morreu para aquele que amamos causando-lhe uma ferida mortal que quase sempre acaba por fechar. Não podemos pretender ser os primeiros, ou os preferidos, somos apenas o que está disponível, os restos, as sobras, os sobreviventes, o que vai ficando, os saldos, e é com esse pouco nobre que se edificam os maiores amores e se fundam as melhores famílias, é essa a proveniência de nós todos, produto que somos da casualidade e do conformismo, dos descartes e das timidezes e dos fracassos alheios, e ainda assim daríamos às vezes fosse o que fosse para continuarmos juntos de quem resgatámos um dia de um sótão ou de um leilão, ou que nos coube em sorte num jogo de cartas ou apanhámos nos desperdícios; inverosimilmente conseguimos convencer-nos dos nossos infelizes namoros, e são muitos os que julgam ver a mão do destino no que não é mais do que uma briga de aldeia quando o Verão já agoniza… Então apagava a luz da mesinha de cabeceira e passados uns segundos as árvores que o vento agitava tornavam-se-me um pouco visíveis e podia adormecer observando, ou porventura adivinhando, o baloiçar das suas folhas. «Que sentido tem isto», pensava eu. «O único sentido que isto tem é que qualquer vislumbre nos vale nestas tolas e invencíveis circunstâncias, qualquer ponta por onde pegar. Mais um dia a seu lado, mais uma hora a seu lado, mesmo que essa hora demore séculos a surgir; a vaga promessa de tornar a vê-lo mesmo que passem muitas datas pelo meio, muitas datas de vazio. Apontamos na agenda aquelas em que nos telefonou ou em que o vimos, contamos as que se sucedem sem receber qualquer notícia, esperamos até alta noite para as considerarmos definitivamente desertas ou perdidas, não vá acontecer que à última hora toque o telefone e ele nos sussurre uma tolice que nos faça sentir injustificada euforia e que a vida é benigna e piedosa. Interpretamos cada inflexão da sua voz e cada insignificante palavra, que porém dotamos de estúpido e prometedor significado, e repetimo-la para nós. Apreciamos qualquer contacto, ainda que tenha sido apenas o estritamente necessário para receber uma desculpa tosca ou uma desfaçatez ou para ouvir uma mentira pouco ou nada elaborada. «Ao menos pensou em mim a dado momento», dizemos para connosco agradecidos, ou «Lembra-se de mim quando está aborrecido, ou se sofreu uma contrariedade com a pessoa que lhe interessa, que é a Luísa, talvez eu esteja em segundo lugar e isso já é alguma coisa» (…). Não nos dá cuidado rebaixar-nos diante de nós mesmos, no fim de contas ninguém nos vai julgar nem há testemunhas. Quando a teia da aranha nos apanha fantasiamos sem limites, e ao mesmo tempo consolamo-nos com qualquer migalha, com ouvi-lo, com cheirá-lo, com vislumbrá-lo, com pressenti-lo, com o facto de estar ainda no nosso horizonte e não ter desaparecido de todo, com o de ainda não se ver ao longe a poeirada dos seus pés fugindo.»

(…)


A rectificação dos sentimentos é lenta, desesperadamente gradual. Uma pessoa instala-se neles e torna-se muito difícil sair, adquire-se o hábito de pensar em alguém com um pensamento determinado e fixo – e adquire-se também o de o desejar – e não se sabe renunciar a isso da noite para o dia, ou durante meses e anos, tão longa pode ser a sua aderência.