A Woman Under The Influence (1974)
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Os desalojados do mundo
"Sem parar de sorrir e com irónica malevolência, virou-se para Stoner.
- Tu também não escapas, meu amigo. Nem penses. Quem és tu? Um simples filho da terra, como te queres convencer a ti próprio? Ah, não. Tu também fazes parte dos enfermos... tu és o sonhador, o louco num mundo ainda mais louco, o nosso Dom Quixote do Midwest sem o seu Sancho Pança, a fazer cabriolas sob o céu azul. És suficientemente esperto, pelo menos mais esperto do que o nosso amigo mútuo. Mas tens a mácula, a velha enfermidade. Achas que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa para descobrir. Pois bem, no mundo, aprenderias depressa. Também tu foste talhado para o fracasso, embora não lutasses contra o mundo; deixarias que ele te pisasse e deitasse fora, e ficarias ali caído a perguntar-te o que se passava, porque esperarias sempre que o mundo fosse algo que não era, algo que não queria ser. O gorgulho no algodão, a minhoca no pé de feijão, o caruncho no milho. Não os conseguirias encarar e não conseguirias lutar contra eles, porque és demasiado fraco e és demasiado forte. E não tens para onde ir no mundo."
sábado, 10 de janeiro de 2015
que coisa são as nuvens
"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
QUANDO UM HOMEM CHORA
2014
terminou com dias solarengos no Algarve, aconchegados pelos meus cães e pela
leitura do primeiro volume de A MINHA LUTA de Karl Ove Knausgard, A MORTE DO
PAI. Aguardava com curiosidade esta leitura desde Setembro de 2013, quando a
deliciosa Ahab anunciou a publicação da tradução dos seis tomos autobiográficos,
uma vez que se trata de uma obra confessional, género que muito estimo.
O
livro chegou, portanto, com uma empatia já previamente estabelecida e
apanhou-me de férias, fumando reflexões várias sobre uma vida melhor e o valor
da alegria e do fascínio, moedas ultimamente escassas no meu quotidiano e,
consequentemente, nas minhas leituras. A
sensação de que o futuro não existe, de que é apenas mais do mesmo, significa
que todas as utopias são desprovidas de sentido. A literatura sempre esteve
relacionada com a utopia, por isso, quando a utopia perde o sentido, acontece o
mesmo com a literatura. O que eu tentava fazer, e talvez o que todos os
escritores tentam fazer – que raio sei eu? –, é combater a ficção com a ficção.
O que eu devia fazer era aceitar o que existia, aceitar as coisas como elas
são, por outras palavras, celebrar o mundo em vez de procurar uma saída, porque
assim teria sem dúvida uma vida melhor, mas não conseguia, não conseguia; algo
se congelara em mim, uma convicção tinha-se enraizado em mim, e, embora fosse
essencialista, ou seja, anacrónica e até romântica, eu não conseguia passar por
cima dela, pelo simples motivo de que não fora apenas uma coisa pensada mas
também sentida, naqueles súbitos estados de iluminação que acontecem na vida,
em que durante alguns segundos se vislumbra um mundo diferente do que se
vislumbrou momentos antes, onde o mundo parece avançar e mostrar-se por um
breve espaço de tempo, antes de recuar e tudo voltar a ser como era…
Kanusgard
constrói uma investigação existencial, uma indagação proustiana dos traços do
tempo vivido, para entender como se chega a ser como se é: Como é que acabei aqui? Como é que as coisas aconteceram assim? (…) E
cada dia que passa, aumenta o desejo pelo momento em que a vida atingirá o
auge, pelo momento em que as comportas se abrirão e a vida seguirá, por fim, em
frente. Ao mesmo tempo vejo que a repetição, a clausura, o inalterável são
necessários, que me protegem. Nas poucas ocasiões em que os deixei, as velhas
feridas regressaram. De repente sou tomado por todos os pensamentos imagináveis
sobre o que foi dito, o que foi visto, o que foi pensado, atirado para aquele
espaço incontrolável, estéril, muitas vezes degradante e verdadeiramente
destrutivo onde vivi tantos anos. Nele a nostalgia é tão forte quanto a que
existe aqui, mas a diferença é que esse sentimento tem um objectivo realizável,
aqui não. Aqui tenho de encontrar outros objectivos e de me contentar com eles.
Falo da arte de viver.
Como
não simpatizar com este projecto? Em termos de fascínio, a ligação
processava-se de modo menos automático. Influenciada pela imprensa, esperava talvez
um striptease mais visceral mas
Knausgard, como um bom nórdico, insistia nas excursões pelas ideias e a minha
atenção divagava também. No entanto, a partir da página 140, percebi que havia
ali entranhas várias e uma enorme coragem em expô-las e que não me havia
apercebido disso até então pelo relato essencialmente masculino e racional. Foi
só quando aceitei que visceralidade e lucidez podiam coabitar nas mesmas
páginas, que encontrei a porta de entrada para o texto.
E
assim fui acompanhando essa voz, apreendendo as suas nuances masculinas, as duras dores do seu crescimento, as primeiras
bebedeiras, o primeiro amor. Numa manhã
de Abril há rebentos nas árvores e uma vaga verde começa a cobrir a erva
amarela dos campos. Florescem os narcisos, e também os malmequeres e as violetas.
Em seguida, o ar quente surge como uma coluna por entre as árvores das colinas.
Nas encostas soalheiras os rebentos abriram, e as cerejeiras estão em flor. Quando
temos dezasseis anos, tudo isto causa uma certa impressão, tudo isto deixa a
sua marca, pois é a primeira Primavera em que sabemos que é Primavera, em que
todos os sentidos pressentem a sua chegada, e é também a última, pois todas as
outras Primaveras empalidecem quando comparadas com a primeira. Se além disso
estamos apaixonados, bem, então… então é apenas uma questão de aguentar. Aguentar
toda a felicidade, toda a beleza, todas as promessas que há em todas as coisas.
Ia a pé da escola para casa, reparei que a neve derretera sobre o asfalto, era
como se ele tivesse sido esfaqueado no coração. Vi caixas de fruta sob um toldo
de uma loja, um corvo a saltitar não muito longe dali, olhei para o céu e
estava muito bonito. Atravessei a zona residencial, caiu um aguaceiro, fiquei
com os olhos cheios de lágrimas.
E,
aquando da descrição do autor da sua relação com a arte, lá estava eu enamorada
por essa inquietação ávida que tanto conheço e que jamais tinha conseguido
capturar pela palavra. Era o único
critério que usava para avaliar a arte: a sensação que despertava em mim. A
sensação de inesgotabilidade. A sensação de beleza. A sensação de presença. Tudo
comprimido em momentos tão intensos que às vezes eram difíceis de aguentar. E bastante
inexplicáveis (…). Liberdade mas não paz, porque, ainda que os quadros
retratassem cenários idílicos, como as paisagens arcaicas de Claude, eu ficava
sempre perturbado quando os abandonava, pois aquilo que possuíam, no íntimo do
seu ser, era a inesgotabilidade, e isso despertava em mim uma espécie de
avidez. Não consigo explicar melhor. Uma vontade de estar dentro da
inesgotabilidade (…). No entanto, assim que voltava a concentrar-me na pintura,
toda a minha racionalidade desaparecia com aquele embate de energia e de beleza.
Sim, sim, sim, ouvia. É aí que está. É
para aí que tenho de ir. Mas a que é que
dissera sim? Para onde é que deveria ir?”
E
assim flui a luxúria entre quem se despe e quem olha. Mas nada parecido entre o
affair de Actéon e Diana. Porque
aqui, a verdade do outro não aniquila, é mais como uma casa bafienta e escura
que se abre para a vida com uma sinceridade muito viva. Na minha opinião, é um
livro bom mas não genial e muito do bruaá deve-se à exposição extrema e
polémica que Knausgard faz dos seus familiares e outros. A grande operação de
marketing do livro baseou-se nessa polémica, o que determina que grande parte do
prazer voyeurista da leitura seja gasto nesses espantos. É no entanto um livro
bom, cujos tomos seguintes lerei com certeza. Sobretudo porque confessa
pequenas derrotas e breves iluminações, que tantos sentem e poucos revelam.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
CORAZÓN DE ALGODÓN
«No te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del linguaje mismo del cariño y la confianza – y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero outra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso outro también es vos, lo sé, pero no es todo y demás no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mesmo. El poder poético es tuyo, lo sabes, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tempos en que esse poder era el antagonista frente a la vida, y está el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siqueira esse privilegio imperial, queridíssima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuleve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonês: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.» (Julio Cortázar).
Qué haré con el miedo?
Que faremos com o medo, querida Alejandra?
Penso em ti, penso em nós, quando me reclino no sofá, estrangulada
pelas horas indomadas. Afasto a gata e encosto a mão ao meu sexo, sinto-o
pulsar. E sei que ainda pertenço à vida.
Porque é que não partimos com os pássaros, ainda que em voos rasantes?
Porque insistimos nas palavras que comandam a noite e mancham a esperança alva?
Também no meu peito se fossilizou a desespero mas a literatura não pode servir apenas
para perder a inocência, pode também ensinar-nos a suspender a descrença como
Coleridge nos ensinou. Pretendamos que assim seja.
Assim, como Gilgamesh: esquece a morte e segue-me.
Ou assim: mi corazón abre la
ventana, vida aqui estoy.
Olvidemos a morte e as suas estranhas mãos e pensemos nesse verão
longínquo, em que confundimos o céu com o nosso amor fervente, súplice de marés
e faróis.
Noche que te vas, buenas noches.
Não negues a mania de viver que te arrasta, Alejandra, ainda que escolhas
apelidá-la de lúgubre. Lá fora está sol, não te vistas de cinzas. A última
inocência não é o apeadeiro final, podemos ainda ingressar na «escola da
ingenuidade» e usar a imaginação poética para nos salvarmos.
sábado, 29 de novembro de 2014
Céu estrelado em noite escura
Oferecem-me bilhete para o Mexefest e declino para ficar em casa enrolada na Poesía Completa de Alejandra Pizarnik. É resignação ou maturidade?
CIELO
mirando el cielo
me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)
las nubes se mueven
pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando
un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor
pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos
sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos
CIELO
mirando el cielo
me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)
las nubes se mueven
pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando
un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor
pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos
sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos
domingo, 23 de novembro de 2014
e a noite roda
"Mesmo no inverno, a pele do teu corpo é morena. Continuas a cheirar a sabonete, macio e a cheirar a sabonete, com um sexo grande e macio e a cheirar a sabonete, mesmo quando tenho a cara entre as tuas pernas, e a cabeça do teu sexo pulsa para a frente. O teu esperma é leve, só ligeiramente acre. A tua cara aparece e desaparece. Nem sempre nos vemos, talvez nem sempre tenhamos nome. Às vezes és só um quadril com sexo, pelos de um louro escuro por cima. Ou uma boca no meu sexo, caracóis grisalhos entre os meus dedos. Uma boca, uma língua, dentes na minha boca, na minha língua, dentes contra dentes. Uma mão no meu pescoço, dobrando-me para trás, para a frente. Uma mão que me agarra pelo cabelo com a um bicho. Duas mãos que me puxam para um corpo por trás do meu. E não sei quem sou nem quem és. Depois volto-me na cama, abro os olhos, a tua cara está lá no alto, entre os meus tornozelos, afogueada. Encostas o tronco às minhas pernas, o teu sexo entra de um golpe, eu rodo e rodo com ele dentro, mas os nossos olhos estão fixos, cada vez mais desesperados, como se tudo o que o corpo faz para chegar perto nunca chegasse."
"Noite num mosteiro, antes de descer à costa. Tacteio com todas as minhas extremidades e a matéria conflui desde o seu núcleo. Não tens a pele dura dos circuncidados. A cabeça do teu sexo nasce só para isto, cega e sensível a cada vez. Sento-me nela, afundo, desapareço. Sou o cimo onde tu bates, e bates, até à dissolução. Pequena morte, sim, porque a morte há de ser o fora da história, ausência de bagagem e de cronologia. Noite branca."
Além disso, dois versos no seu interior, decidem a minha próxima viagem: Alejandra Pizarnik.
Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Hilda, meu amor
OBSCÉNICA - TEXTOS ERÓTICOS & GROTESCOS
LANÇAMENTO A 27 NOVEMBRO | PENSÃO AMOR | 19H
O
que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas,
simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com
mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas
citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas,
intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres. Uma delas,
trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual
à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e
encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí é
texto dela) e depois Lucrécio.
domingo, 16 de novembro de 2014
Crónicas do Fel de Amor
Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal
de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de
Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia
de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.
Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por
completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da
patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha
atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.
Olga, a personagem principal da novela Os
Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos
faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da
profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à
escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico,
recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei
passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas
minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.
Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora
soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro
sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um
horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas
ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho
de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para
onde estão a ir e porquê.”
Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia
nada.
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem
dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a
um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um
sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo
dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.”
Tanto a segunda como a terceira novela, A
Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as
personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os
únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu
o real são a mentira e o fingimento.
“Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo
mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem
procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me
perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a
fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se
viver bem, mesmo se não passar.»
Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com
convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar
que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então
penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha
odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo
regresso.”
Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os
tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas,
o espelho identificatório:
“No meio do caminho em nossa
vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era
perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e
forte,
que de temor renova à mente a
agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal
sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no
momento
em que a via veraz abandonei.”
Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
As dioptrias de Elisa
Seis horas e Filipe ia ter com Elisa a casa dela. Filipe apareceu de rompante na rua e foi logo ter com ela a casa. Elisa não estava à janela, estava dentro de casa e Filipe bateu à porta da casa dela. Elisa abriu. Filipe entrou. Elisa à porta apaixonou-se logo por Filipe, o rapaz belo, e deram um grande beijo na boca. Filipe era a primeira vez que tinha assim uma mulher nos seus braços. Deixaram-se os dois e Elisa disse - «Como é que você sabia que eu era uma mulher assim, que o nosso caso viria dar nisto?» Filipe calou-se e não disse nada. Ainda disse - «Eu supunha por si Elisa que você me havia de aceitar quando me viu na rua domingo quando ia para o jardim com o seu marido e os seus filhos.» E depois ainda lhe perguntou - «Porque é que você gosta de mim?» Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu -«Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.» - «Estou também apaixonado por si Elisa», disse Filipe. Elisa queria ter já a relação do coito, dos três coitos que haviam de ter até domingo às seis horas da manhã. Combinaram-se para a cama.
Elisa punha-se agora em combinação preta, sem calças por baixo. Queria a relação em combinação, a primeira relação, havia de ser pôr nua quando quisesse e fosse altura. Os olhos de Filipe perdiam-se de vista, dilatavam-se enormemente. Nunca tinha tido uma ocasião assim pois era a primeira vez que ia para a cama com uma mulher. Elisa puxava agora a baínha da combinação preta para cima e mostrava-lhe a púbis. Filipe estava nu. Elisa já estava na cama. Chamou-o. Filipe deitou-se primeiro ao lado dela nu e depois subiu-lhe para cima. Em cima dela tirou-lhe a combinação. Estavam nus os dois.
Filipe introduziu-lhe o pénis. Elisa antes nua já tinha dado uma atenção ao pénis de Filipe muito grande. Nunca tinha visto um pénis tão grande a querer entrar em si na sua púbis. Elisa dizia-lhe agora - «Nunca vi um homem como você, o seu rabo pequeno e doce o seu sexo, estou perdida por si Filipe.» Filipe disse - «Você estua toda por mim, temos de ter a relação já.» Filipe introduziu-lhe outra vez o pénis feito, todo feito. Elisa queixou-se debaixo dele. Depois disse - «Ai, filho, querido, é tão bom.» Filipe já se masturbava já deitava a esperma toda fora dentro da vagina dela e cá fora. Tinha chegado ao momento. Filipe levantava-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa estava ainda nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Tudo conspira
"Pois como tudo o que é
pleno, o que torna toda a matéria ligada, e como no pleno todo o movimento faz
algum efeito sobre os corpos distantes na medida da distância, de tal sorte que
cada corpo é afectado não só pelos que o tocam, e se ressente de certa maneira
de tudo o que lhes acontece, mas também por intermédio deles se ressente os que
tocam os primeiros pelos quais é directamente tocado: segue-se que esta
comunicação alcança seja a distância que seja. E, por conseguinte, todo o corpo
se ressente de tudo o que se faz no universo, de tal modo que aquele, que vê
tudo, poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte e até o que se fez ou
se fará, observando no presente o que é remoto, tanto segundo os lugares;
sympnoia panta, dizia Hipócrates. Mas uma alma
não pode ler em si própria senão o que nela é distintamente representado, e não
poderia desenvolver de uma vez só as suas dobras, porque estas vão até ao
infinito."
Leibniz, Monadologia
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
não consigo sossegar e a menina Else não ajuda
"Acho que não me posso apaixonar. O que, por acaso. até é curioso. Porque eu sou sensível. Mas também animosa e desagradável, graças a Deus."
"Um pouco de carinho quando se está bonita, um pouco de atenção quando se tem febre, e mandam-nos para a escola, e em casa aprende-se piano e francês, e no Verão vamos para o campo e quando se faz anos recebe-se presentes e à mesa falam sobre tudo e mais alguma coisa. Mas o que se passa dentro de mim e o que dentro de mim se revolve e tem medo, já se preocuparam com isso?"
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
Mulherzinhas
Constatei recentemente que me comporto com
os livros como uma mulherzinha. Um de cada vez, nada de promiscuidades.
A relação exclusiva intrigou-me. Nunca fiz
da fidelidade estandarte e confesso, sem qualquer orgulho ou pudor, que
atraiçoei várias ideias e amantes apenas pelo doloroso prazer de trair (quem
precisar de instruções neste prazer, procure-os n’ A Insustentável Leveza do Ser e preste redobrada atenção à
personagem Sabina).
Porquê então um só livro de cada vez à
cabeceira? Por que razão quando um livro me aborrece jamais o troco
temporariamente por outro? A este propósito recordo a leitura difícil d’A Educação Sentimental do Flaubert, uma
leitura carregada de tédio, como convinha ao tema, que suportei estoicamente.
No final, a teimosia foi recompensada e o livro tornou-se um dos meus
favoritos. A monogamia é assim: às vezes compensa, outras não.
Iniciei Anna
Karénina, ocupada por estes pensamentos. Embora desejasse consumar a
leitura para poder ter um veredicto estético, a beatice do Tolstoi aborrecia-me
profundamente. Além disso, noite após noite via gorada a minha expectativa de
encontro com a Karénina, incapaz de lhe sentir a carne, propositadamente
mantida à distância pelo pince-nez do
narrador. Estavam portanto reunidas as condições ideais para que a putaria
começasse.
E começaram assim que as reflexões agrárias
de Lévin me arrefeceram. Ansiosa, corri novamente para os braços de Salinger, contente
por encontrar em Franny e Zooey ar
puro e um velho problema conhecido: como viver bem com uma inteligência
cortante? Desta feita, ao contrário do que sucedeu com Hamlet e com toda uma
galeria de personagens desfeitos pelo pensamento, voltei com uma resposta, que
não o corriqueiro binómio anestesia/entretenimento.
Depois do breve affair com a família mais interessante do mundo, a família Glass,
regressei às famílias singularmente infelizes de Tolstoi. A comparação entre os
casais Anna-Vronski e Kiti-Lévin tornou-se evidente e conseguiu agarrar-me, sobretudo
na parte em que os homens de ambas as parelhas se sentem sufocados com as suas
ligações e as mulheres se exasperam pelo esfriamento. Embora adivinhasse que a
intenção do omnipresente narrador era glorificar um amor mais espiritual e
cristão face a um amor carnal, as suas brilhantes observações e a notável
profundidade das personagens mantiveram o meu desejo morno até ao final da
leitura.
Nabokov não podia estar mais certo quando
escreveu que “muitos têm sentimentos opostos em relação a Tolstoi. Adoram o
artista nele e aborrecem-se com o pregador; mas, de facto, é bastante difícil
separar o Tolstoi pregador do Tolstoi artista – é a mesma voz profunda e
vagarosa, o mesmo ombro robusto a levantar uma multidão de sonhos ou um monte
de ideias. O que queríamos era tirar-lhe o púlpito de debaixo dos pés e depois
trancá-lo numa gruta, numa ilha deserta, com litros de tinta e resmas de papel
– longe das coisas éticas e pedagógicas que lhe distraem o olhar do modo como o
negro caracol cai sobre o pescoço níveo de Anna.”
É o meu caso. Por essa ambivalência, é-me
muito difícil concordar com o mesmo Nabokov, quando este afirma que “Tolstoi é
o maior escritor russo de ficção em prosa” e exclui Dostoievski da lista. Já
disse e repito que para mim Dostoievski é o maior escritor do mundo (reservo-me
o direito de rever este julgamento assim que encontrar uma escrita superior).
Tendo lido Ressureição, Anna Karénina, O Jogador, Crime e Castigo
e Os Irmãos Karamázov não entendo
sequer as razões da comparação. Provavelmente, trata-se de um debate russo que
se internacionalizou, semelhante ao absurdo duelo português Saramago vs. Lobo
Antunes, que não tem ponta por onde se lhe pegue pois trata de dois autores tão
distintos como a água do azeite.
Também a comparação habitual com a Madame
Bovary me parece completamente despropositada, a não ser que se encaixe ambas
como novelas sobre o adultério, o que seria estupidamente redutor. Embora
muitos afirmem que a morte de Emma é um desfecho moral, eu nunca a senti assim.
Para mim a sua morte é uma consequência das leituras românticas, não um castigo
que o autor lhe inflige. Só assim se explica a tinta negra que Emma vomita na
sua última agonia.
domingo, 31 de agosto de 2014
domingo, 24 de agosto de 2014
Isaac Babel
Já me tinham recomendado os contos de Isaac Babel mais do que uma vez mas as vicissitudes da existência foram impedido a leitura até à semana passada.
A penetração no mundo de Babel foi lenta: o tom dos Contos de Odessa selecionados era caótico e a leitura não descolava. Por altura, dos contos do Exército da Cavalaria (também conhecidos por Cavalaria Vermelha), já o meu desejo bolinava mais estável, mas foi nos vários Contos Dispersos que a união se concretizou. Mais uma vez, talvez pela forte influência do narrador na primeira pessoa onde adivinho um pouco a personalidade pubescente do escritor. "História do meu primeiro pombal", "O despertar", "Os primeiros honorários" e Guy de Maupassant" agarraram-me com punho forte e decidido.
"Viver em Tiflis na primavera, ter vinte anos e não ser amado é uma coisa terrível.
(...)
Só me restava ir à procura do amor. E, naturalmente, encontrei-o. Por sorte ou por azar, a mulher que escolhi era uma prostituta (...).
Ó deuses da minha juventude! Cinco dos meus vinte anos tinham sido gastos a inventar histórias, milhares de histórias que me atafulhavam o cérebro. Jaziam no meu coração como sapos numa pedra. Movida pela força da solidão, uma dessas histórias tinha caído na terra. Pelos vistos, o destino tinha decidido que uma prostituta de Tiflis iria ser a minha primeira leitora (...).
Tudo isto aconteceu há muitos anos. Desde essa altura tenho recebido frequentemente dinheiro de editores, de homens ilustres e de judeus que negoceiam em livros. Por vitórias que foram derrotas, por derrotas que se converteram em vitórias, pela vida e pela morte, pagaram-me preços irrisórios, muito inferiores àqueles que tinha recebido na minha juventude da minha primeira «leitora». Mas não sinto raiva por isso. Não a sinto porque sei que não hei de morrer sem voltar a arrancar outra moeda de ouro, e essa será a última, das mãos do amor."
Katherine Anne Porter, aka Miranda
Desde o ano passado, altura em que a Antígona anunciou a publicação de "Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro", que aguardava com impaciência a chegada deste título às minhas mãos. A razão desta impaciência era apenas intuitivamente emocional, convocada pelo título poético, pois nada sabia desta autora.
Em Julho, fui de férias com o Cavalo Pálido e regressei a Lisboa rendida aos sortilégios da escrita de Porter. A qualidade dos três contos era igualmente excelente mas confesso que o que mais me cativou foi a personagem Miranda, eixo central de dois dos contos e afirmado alter ego da autora.
Em Agosto, tornei a partir de férias para o sobrelotado Algarve na companhia da Katherine Anne Porter, desta vez com a antologia "A Torre Inclinada e outros contos", da Relógio d'Água (já agora uma pequena anotação: "Judas em flor e outros contos" teria sido uma escolha de título mais feliz, na minha opinião). E mais uma vez, apesar da inegável qualidade dos vários contos, continuei a preferir os envoltos na respiração de Miranda. Não restam dúvidas que se trata de um alter ego de Katherine, pois doutro modo a sua autenticidade não se tatuaria na pele com uma tal violência poética.
Não me recordo quem disse (ou escreveu) que é possível amar mais personagens que certas pessoas. No caso, os livros de Katherine Anne Porter são do melhor que li este ano e Miranda tornou-se, com todos os seus desassombros, uma das pessoas que mais gosto.
«Miranda observava o irmão com um ar de admiração enquanto este se livrava da pele como se estivesse a tirar uma luva. A carne esfolada emergia, de um escarlate-escuro, lustroso, firme; entre o polegar e o indicador, Miranda sentiu os longos músculos finos com as tiras lisas e prateadas que os uniam às articulações. O irmão ergueu a barriga estranhamente inchada. "Olha", disse-lhe, numa voz baixa e maravilhada. "Ia ter bebés."
Com muito cuidado, ele rasgou a pele fina das costelas centrais até aos flancos, ao que um saco escarlate apareceu. Voltou a rasgar e abriu o saco, e aí estava uma ninhada de coelhos minúsculos, cada um envolvido num fino véu escarlate (...).
Miranda disse: "Oh, eu quero ver", num sussurro. Olhava e olhava - empolgada mas não assustada, pois estava habituada a ver animais mortos em caçadas -, cheia de pena, fascínio de uma espécie de encantamento chocado perante as criaturas maravilhosas e pequenas por si sós, que eram tão bonitas. Tocou numa delas com o maior dos cuidados: "Ah, há sangue a correr por cima deles", disse, e começou a tremer, sem saber porquê. Contudo, queria mais do que qualquer outra coisa ver e compreender. Tendo visto, sentiu de imediato que era como se sempre tivesse compreendido. A própria memória da sua ignorância anterior despareceu, ela sempre compreendera aquilo mesmo (...).
Miranda nunca o revelou, nem alguma vez teve vontade de contar a quem quer que fosse. Pensou em toda a questão preocupante com uma infelicidade confusa durante alguns dias. Depois o episódio foi-se afundando na sua mente, coberto por milhares de impressões acumuladas ao longo de quase vinte anos. Certo dia, ela estava a avançar com cuidado para não pisar poças e resíduos esmagados na rua de um mercado numa cidade desconhecida de um país desconhecido quando, sem aviso, nítido e claro com todas as cores, como se visse através de uma moldura uma cena em que não tivesse mexido nem feito alterações desde o momento em que acontecera, o episódio desse dia longínquo saltou de onde fora sepultado para se colocar em lugar de destaque na sua mente (...). Um vendedor índio tinha erguido à sua frente uma bandeja de doces açucarados tingidos, em formas de inúmeras criaturas pequenas: passarinhos, pintainhos, láparos, cordeiros, bacorinhos. Eram de cores alegres e cheiravam a baunilha, talvez...»
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