terça-feira, 7 de abril de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
O grande Meaulnes
"Procuro qualquer coisa mais misteriosa ainda. É a passagem de que se fala nos livros, o antigo caminho obstruído, de que o princípe, exausto de fadiga, não conseguiu encontrar a estrada. Descobre-se na hora mais ocasional da manhã, quando há muito nos esquecemos de que já vai nas onze horas, no meio-dia... E de súbito, ao afastarmos os ramos, por entre a folhagem profunda, com um gesto hesitante das mãos desigualmente afastadas à altura da cara, vemos como que uma longa avenida escura, cuja saída é um circulozinho de luz."
sábado, 28 de março de 2015
Uma grande coragem inútil
Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.
Em Berlim, em Lisboa, o mesmo
desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri
poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas.
“Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o
meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma
romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o
que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.
E tenho a certeza que a minha
mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim,
passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu
a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor.
Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas
recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.
Apesar de tudo isto, descubro de
vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada
admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal
Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros
publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras,
escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos
introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação
nascente.
Curiosamente também, dois desses
escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora
das Flores, de Jean Genet, e A
Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por
marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.
E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre
que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o
meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a
capitulação da cidade.
Nossa Senhora das Flores, Jean Genet
Em ambas as leituras, o furor
começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido,
nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal
Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel,
impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em
que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do
entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.
Senão vejamos: “Que palavra
assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que
aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e
fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar
sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores.
E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era
um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por
Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória
fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e
barcelonas”. E assim por aí adiante.
Já A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório,
cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério
que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu
costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela
lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom
deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente
ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos
do sublime. Um exemplo ao acaso:
Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente
tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.
É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o
seja.
Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres
fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos
bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada
a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos
meus ares.
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo
quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol.
Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir.
Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir
sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma
árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se.
Aliás, só há felicidade nos tristes.
Não podia estar mais de acordo. Há
muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são
simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores
flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse,
jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Os desalojados do mundo
"Sem parar de sorrir e com irónica malevolência, virou-se para Stoner.
- Tu também não escapas, meu amigo. Nem penses. Quem és tu? Um simples filho da terra, como te queres convencer a ti próprio? Ah, não. Tu também fazes parte dos enfermos... tu és o sonhador, o louco num mundo ainda mais louco, o nosso Dom Quixote do Midwest sem o seu Sancho Pança, a fazer cabriolas sob o céu azul. És suficientemente esperto, pelo menos mais esperto do que o nosso amigo mútuo. Mas tens a mácula, a velha enfermidade. Achas que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa para descobrir. Pois bem, no mundo, aprenderias depressa. Também tu foste talhado para o fracasso, embora não lutasses contra o mundo; deixarias que ele te pisasse e deitasse fora, e ficarias ali caído a perguntar-te o que se passava, porque esperarias sempre que o mundo fosse algo que não era, algo que não queria ser. O gorgulho no algodão, a minhoca no pé de feijão, o caruncho no milho. Não os conseguirias encarar e não conseguirias lutar contra eles, porque és demasiado fraco e és demasiado forte. E não tens para onde ir no mundo."
sábado, 10 de janeiro de 2015
que coisa são as nuvens
"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
QUANDO UM HOMEM CHORA
2014
terminou com dias solarengos no Algarve, aconchegados pelos meus cães e pela
leitura do primeiro volume de A MINHA LUTA de Karl Ove Knausgard, A MORTE DO
PAI. Aguardava com curiosidade esta leitura desde Setembro de 2013, quando a
deliciosa Ahab anunciou a publicação da tradução dos seis tomos autobiográficos,
uma vez que se trata de uma obra confessional, género que muito estimo.
O
livro chegou, portanto, com uma empatia já previamente estabelecida e
apanhou-me de férias, fumando reflexões várias sobre uma vida melhor e o valor
da alegria e do fascínio, moedas ultimamente escassas no meu quotidiano e,
consequentemente, nas minhas leituras. A
sensação de que o futuro não existe, de que é apenas mais do mesmo, significa
que todas as utopias são desprovidas de sentido. A literatura sempre esteve
relacionada com a utopia, por isso, quando a utopia perde o sentido, acontece o
mesmo com a literatura. O que eu tentava fazer, e talvez o que todos os
escritores tentam fazer – que raio sei eu? –, é combater a ficção com a ficção.
O que eu devia fazer era aceitar o que existia, aceitar as coisas como elas
são, por outras palavras, celebrar o mundo em vez de procurar uma saída, porque
assim teria sem dúvida uma vida melhor, mas não conseguia, não conseguia; algo
se congelara em mim, uma convicção tinha-se enraizado em mim, e, embora fosse
essencialista, ou seja, anacrónica e até romântica, eu não conseguia passar por
cima dela, pelo simples motivo de que não fora apenas uma coisa pensada mas
também sentida, naqueles súbitos estados de iluminação que acontecem na vida,
em que durante alguns segundos se vislumbra um mundo diferente do que se
vislumbrou momentos antes, onde o mundo parece avançar e mostrar-se por um
breve espaço de tempo, antes de recuar e tudo voltar a ser como era…
Kanusgard
constrói uma investigação existencial, uma indagação proustiana dos traços do
tempo vivido, para entender como se chega a ser como se é: Como é que acabei aqui? Como é que as coisas aconteceram assim? (…) E
cada dia que passa, aumenta o desejo pelo momento em que a vida atingirá o
auge, pelo momento em que as comportas se abrirão e a vida seguirá, por fim, em
frente. Ao mesmo tempo vejo que a repetição, a clausura, o inalterável são
necessários, que me protegem. Nas poucas ocasiões em que os deixei, as velhas
feridas regressaram. De repente sou tomado por todos os pensamentos imagináveis
sobre o que foi dito, o que foi visto, o que foi pensado, atirado para aquele
espaço incontrolável, estéril, muitas vezes degradante e verdadeiramente
destrutivo onde vivi tantos anos. Nele a nostalgia é tão forte quanto a que
existe aqui, mas a diferença é que esse sentimento tem um objectivo realizável,
aqui não. Aqui tenho de encontrar outros objectivos e de me contentar com eles.
Falo da arte de viver.
Como
não simpatizar com este projecto? Em termos de fascínio, a ligação
processava-se de modo menos automático. Influenciada pela imprensa, esperava talvez
um striptease mais visceral mas
Knausgard, como um bom nórdico, insistia nas excursões pelas ideias e a minha
atenção divagava também. No entanto, a partir da página 140, percebi que havia
ali entranhas várias e uma enorme coragem em expô-las e que não me havia
apercebido disso até então pelo relato essencialmente masculino e racional. Foi
só quando aceitei que visceralidade e lucidez podiam coabitar nas mesmas
páginas, que encontrei a porta de entrada para o texto.
E
assim fui acompanhando essa voz, apreendendo as suas nuances masculinas, as duras dores do seu crescimento, as primeiras
bebedeiras, o primeiro amor. Numa manhã
de Abril há rebentos nas árvores e uma vaga verde começa a cobrir a erva
amarela dos campos. Florescem os narcisos, e também os malmequeres e as violetas.
Em seguida, o ar quente surge como uma coluna por entre as árvores das colinas.
Nas encostas soalheiras os rebentos abriram, e as cerejeiras estão em flor. Quando
temos dezasseis anos, tudo isto causa uma certa impressão, tudo isto deixa a
sua marca, pois é a primeira Primavera em que sabemos que é Primavera, em que
todos os sentidos pressentem a sua chegada, e é também a última, pois todas as
outras Primaveras empalidecem quando comparadas com a primeira. Se além disso
estamos apaixonados, bem, então… então é apenas uma questão de aguentar. Aguentar
toda a felicidade, toda a beleza, todas as promessas que há em todas as coisas.
Ia a pé da escola para casa, reparei que a neve derretera sobre o asfalto, era
como se ele tivesse sido esfaqueado no coração. Vi caixas de fruta sob um toldo
de uma loja, um corvo a saltitar não muito longe dali, olhei para o céu e
estava muito bonito. Atravessei a zona residencial, caiu um aguaceiro, fiquei
com os olhos cheios de lágrimas.
E,
aquando da descrição do autor da sua relação com a arte, lá estava eu enamorada
por essa inquietação ávida que tanto conheço e que jamais tinha conseguido
capturar pela palavra. Era o único
critério que usava para avaliar a arte: a sensação que despertava em mim. A
sensação de inesgotabilidade. A sensação de beleza. A sensação de presença. Tudo
comprimido em momentos tão intensos que às vezes eram difíceis de aguentar. E bastante
inexplicáveis (…). Liberdade mas não paz, porque, ainda que os quadros
retratassem cenários idílicos, como as paisagens arcaicas de Claude, eu ficava
sempre perturbado quando os abandonava, pois aquilo que possuíam, no íntimo do
seu ser, era a inesgotabilidade, e isso despertava em mim uma espécie de
avidez. Não consigo explicar melhor. Uma vontade de estar dentro da
inesgotabilidade (…). No entanto, assim que voltava a concentrar-me na pintura,
toda a minha racionalidade desaparecia com aquele embate de energia e de beleza.
Sim, sim, sim, ouvia. É aí que está. É
para aí que tenho de ir. Mas a que é que
dissera sim? Para onde é que deveria ir?”
E
assim flui a luxúria entre quem se despe e quem olha. Mas nada parecido entre o
affair de Actéon e Diana. Porque
aqui, a verdade do outro não aniquila, é mais como uma casa bafienta e escura
que se abre para a vida com uma sinceridade muito viva. Na minha opinião, é um
livro bom mas não genial e muito do bruaá deve-se à exposição extrema e
polémica que Knausgard faz dos seus familiares e outros. A grande operação de
marketing do livro baseou-se nessa polémica, o que determina que grande parte do
prazer voyeurista da leitura seja gasto nesses espantos. É no entanto um livro
bom, cujos tomos seguintes lerei com certeza. Sobretudo porque confessa
pequenas derrotas e breves iluminações, que tantos sentem e poucos revelam.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
CORAZÓN DE ALGODÓN
«No te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del linguaje mismo del cariño y la confianza – y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero outra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso outro también es vos, lo sé, pero no es todo y demás no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mesmo. El poder poético es tuyo, lo sabes, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tempos en que esse poder era el antagonista frente a la vida, y está el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siqueira esse privilegio imperial, queridíssima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuleve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonês: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.» (Julio Cortázar).
Qué haré con el miedo?
Que faremos com o medo, querida Alejandra?
Penso em ti, penso em nós, quando me reclino no sofá, estrangulada
pelas horas indomadas. Afasto a gata e encosto a mão ao meu sexo, sinto-o
pulsar. E sei que ainda pertenço à vida.
Porque é que não partimos com os pássaros, ainda que em voos rasantes?
Porque insistimos nas palavras que comandam a noite e mancham a esperança alva?
Também no meu peito se fossilizou a desespero mas a literatura não pode servir apenas
para perder a inocência, pode também ensinar-nos a suspender a descrença como
Coleridge nos ensinou. Pretendamos que assim seja.
Assim, como Gilgamesh: esquece a morte e segue-me.
Ou assim: mi corazón abre la
ventana, vida aqui estoy.
Olvidemos a morte e as suas estranhas mãos e pensemos nesse verão
longínquo, em que confundimos o céu com o nosso amor fervente, súplice de marés
e faróis.
Noche que te vas, buenas noches.
Não negues a mania de viver que te arrasta, Alejandra, ainda que escolhas
apelidá-la de lúgubre. Lá fora está sol, não te vistas de cinzas. A última
inocência não é o apeadeiro final, podemos ainda ingressar na «escola da
ingenuidade» e usar a imaginação poética para nos salvarmos.
sábado, 29 de novembro de 2014
Céu estrelado em noite escura
Oferecem-me bilhete para o Mexefest e declino para ficar em casa enrolada na Poesía Completa de Alejandra Pizarnik. É resignação ou maturidade?
CIELO
mirando el cielo
me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)
las nubes se mueven
pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando
un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor
pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos
sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos
CIELO
mirando el cielo
me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)
las nubes se mueven
pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando
un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor
pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos
sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos
domingo, 23 de novembro de 2014
e a noite roda
"Mesmo no inverno, a pele do teu corpo é morena. Continuas a cheirar a sabonete, macio e a cheirar a sabonete, com um sexo grande e macio e a cheirar a sabonete, mesmo quando tenho a cara entre as tuas pernas, e a cabeça do teu sexo pulsa para a frente. O teu esperma é leve, só ligeiramente acre. A tua cara aparece e desaparece. Nem sempre nos vemos, talvez nem sempre tenhamos nome. Às vezes és só um quadril com sexo, pelos de um louro escuro por cima. Ou uma boca no meu sexo, caracóis grisalhos entre os meus dedos. Uma boca, uma língua, dentes na minha boca, na minha língua, dentes contra dentes. Uma mão no meu pescoço, dobrando-me para trás, para a frente. Uma mão que me agarra pelo cabelo com a um bicho. Duas mãos que me puxam para um corpo por trás do meu. E não sei quem sou nem quem és. Depois volto-me na cama, abro os olhos, a tua cara está lá no alto, entre os meus tornozelos, afogueada. Encostas o tronco às minhas pernas, o teu sexo entra de um golpe, eu rodo e rodo com ele dentro, mas os nossos olhos estão fixos, cada vez mais desesperados, como se tudo o que o corpo faz para chegar perto nunca chegasse."
"Noite num mosteiro, antes de descer à costa. Tacteio com todas as minhas extremidades e a matéria conflui desde o seu núcleo. Não tens a pele dura dos circuncidados. A cabeça do teu sexo nasce só para isto, cega e sensível a cada vez. Sento-me nela, afundo, desapareço. Sou o cimo onde tu bates, e bates, até à dissolução. Pequena morte, sim, porque a morte há de ser o fora da história, ausência de bagagem e de cronologia. Noite branca."
Além disso, dois versos no seu interior, decidem a minha próxima viagem: Alejandra Pizarnik.
Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Hilda, meu amor
OBSCÉNICA - TEXTOS ERÓTICOS & GROTESCOS
LANÇAMENTO A 27 NOVEMBRO | PENSÃO AMOR | 19H
O
que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas,
simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com
mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas
citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas,
intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres. Uma delas,
trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual
à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e
encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí é
texto dela) e depois Lucrécio.
domingo, 16 de novembro de 2014
Crónicas do Fel de Amor
Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal
de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de
Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia
de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.
Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por
completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da
patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha
atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.
Olga, a personagem principal da novela Os
Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos
faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da
profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à
escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico,
recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei
passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas
minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.
Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora
soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro
sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um
horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas
ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho
de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para
onde estão a ir e porquê.”
Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia
nada.
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem
dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a
um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um
sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo
dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.”
Tanto a segunda como a terceira novela, A
Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as
personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os
únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu
o real são a mentira e o fingimento.
“Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo
mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem
procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me
perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a
fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se
viver bem, mesmo se não passar.»
Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com
convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar
que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então
penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha
odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo
regresso.”
Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os
tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas,
o espelho identificatório:
“No meio do caminho em nossa
vida,
eu me encontrei por uma selva escura
porque a direita via era
perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
esta selva selvagem, aspra e
forte,
que de temor renova à mente a
agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
mas, por tratar do bem que eu nela achei,
direi mais cousas vistas de tal
sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
tão grande era o meu sono no
momento
em que a via veraz abandonei.”
Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
As dioptrias de Elisa
Seis horas e Filipe ia ter com Elisa a casa dela. Filipe apareceu de rompante na rua e foi logo ter com ela a casa. Elisa não estava à janela, estava dentro de casa e Filipe bateu à porta da casa dela. Elisa abriu. Filipe entrou. Elisa à porta apaixonou-se logo por Filipe, o rapaz belo, e deram um grande beijo na boca. Filipe era a primeira vez que tinha assim uma mulher nos seus braços. Deixaram-se os dois e Elisa disse - «Como é que você sabia que eu era uma mulher assim, que o nosso caso viria dar nisto?» Filipe calou-se e não disse nada. Ainda disse - «Eu supunha por si Elisa que você me havia de aceitar quando me viu na rua domingo quando ia para o jardim com o seu marido e os seus filhos.» E depois ainda lhe perguntou - «Porque é que você gosta de mim?» Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu -«Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.» - «Estou também apaixonado por si Elisa», disse Filipe. Elisa queria ter já a relação do coito, dos três coitos que haviam de ter até domingo às seis horas da manhã. Combinaram-se para a cama.
Elisa punha-se agora em combinação preta, sem calças por baixo. Queria a relação em combinação, a primeira relação, havia de ser pôr nua quando quisesse e fosse altura. Os olhos de Filipe perdiam-se de vista, dilatavam-se enormemente. Nunca tinha tido uma ocasião assim pois era a primeira vez que ia para a cama com uma mulher. Elisa puxava agora a baínha da combinação preta para cima e mostrava-lhe a púbis. Filipe estava nu. Elisa já estava na cama. Chamou-o. Filipe deitou-se primeiro ao lado dela nu e depois subiu-lhe para cima. Em cima dela tirou-lhe a combinação. Estavam nus os dois.
Filipe introduziu-lhe o pénis. Elisa antes nua já tinha dado uma atenção ao pénis de Filipe muito grande. Nunca tinha visto um pénis tão grande a querer entrar em si na sua púbis. Elisa dizia-lhe agora - «Nunca vi um homem como você, o seu rabo pequeno e doce o seu sexo, estou perdida por si Filipe.» Filipe disse - «Você estua toda por mim, temos de ter a relação já.» Filipe introduziu-lhe outra vez o pénis feito, todo feito. Elisa queixou-se debaixo dele. Depois disse - «Ai, filho, querido, é tão bom.» Filipe já se masturbava já deitava a esperma toda fora dentro da vagina dela e cá fora. Tinha chegado ao momento. Filipe levantava-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa estava ainda nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Tudo conspira
"Pois como tudo o que é
pleno, o que torna toda a matéria ligada, e como no pleno todo o movimento faz
algum efeito sobre os corpos distantes na medida da distância, de tal sorte que
cada corpo é afectado não só pelos que o tocam, e se ressente de certa maneira
de tudo o que lhes acontece, mas também por intermédio deles se ressente os que
tocam os primeiros pelos quais é directamente tocado: segue-se que esta
comunicação alcança seja a distância que seja. E, por conseguinte, todo o corpo
se ressente de tudo o que se faz no universo, de tal modo que aquele, que vê
tudo, poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte e até o que se fez ou
se fará, observando no presente o que é remoto, tanto segundo os lugares;
sympnoia panta, dizia Hipócrates. Mas uma alma
não pode ler em si própria senão o que nela é distintamente representado, e não
poderia desenvolver de uma vez só as suas dobras, porque estas vão até ao
infinito."
Leibniz, Monadologia
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
não consigo sossegar e a menina Else não ajuda
"Acho que não me posso apaixonar. O que, por acaso. até é curioso. Porque eu sou sensível. Mas também animosa e desagradável, graças a Deus."
"Um pouco de carinho quando se está bonita, um pouco de atenção quando se tem febre, e mandam-nos para a escola, e em casa aprende-se piano e francês, e no Verão vamos para o campo e quando se faz anos recebe-se presentes e à mesa falam sobre tudo e mais alguma coisa. Mas o que se passa dentro de mim e o que dentro de mim se revolve e tem medo, já se preocuparam com isso?"
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
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