domingo, 13 de setembro de 2015

Bruno Schulz


“Não sei de onde chegam à nossa infância certas imagens que vão ter uma significação decisiva para nós. Desempenham o papel dos fios postos nas soluções químicas, e à sua volta cristaliza-se o que é nosso sentido do mundo. Para mim, a imagens destas também pertence o filho levado pelo pai no espaço de uma noite enorme, e que conversa com a escuridão. O pai aperta-o contra si, rodeia-o com os braços, defende-o do elemento que fala, fala sem parar, mas para a criança os braços dele são transparentes, é atingida pela noite, e através das carícias do pai ouve sem tréguas a terrível persuasão. Responde à pergunta da noite esgotada e fatalista, tragicamente permissível, por inteiro devotada ao elemento sem fim de que não pode fugir.
Segundo me parece há temas que desde sempre nos estão destinados, que logo à entrada da vida nos esperam (…).
Essas imagens têm grande força, criam o capital sólido da alma que bem cedo nos é fornecido com pressentimentos e sensações de que só temos uma vaga consciência. Penso que o resto da vida é passado a interpretar estas intuições, a dominar todo um conteúdo seu que devemos conquistar, a filtrá-las ao longo de toda uma dimensão intelectual que podemos atingir. Estas imagens precoces indicam aos artistas os limites da sua criatividade; criatividade que mais não será do que o resultado de dados já existentes. Não descobrem nada de novo, só ensinam a compreender de vez e melhor o segredo que lhes foi oferecido. Aliás, a arte nunca chega a encontrar o sentido oculto de um tal segredo. Que vai permanecer obscuro. O nó à volta da alma não é frouxo, não é dos que cedem quando se puxa a ponta da corda. Pelo contrário, é cada vez mais apertado. E então manipulamos esse nó, acompanhamos as suas voltas, procuramos-lhe o fim, e com essas manipulações é que a arte nasce.
(…)
Qual é o sentido desta desilusão universal perante a realidade, não saberei dizê-lo. Só afirmo que não seria suportável se não soubesse, numa outra dimensão qualquer, indemnizar. De certo modo sentimos uma satisfação profunda quando a trama da realidade abranda, sentimo-nos interessados por essa bancarrota.
Falou-se da tendência destruidora do meu livro. Sob o ponto de vista de certos valores estabelecidos talvez seja verdade. A arte opera, porém, no sentido da profundidade anterior à moralidade; no ponto em que o seu valor só está in statu nascendi.
Como resposta espontânea da vida, a arte distribui tarefas à ética, e não o contrário. Se a arte só devesse confirmar o que já foi noutro lado estabelecido, seria inútil. Tem o papel de sonda mergulhada no inominável. O artista é um aparelho que grava percursos em profundidade, no ponto em que se opera a formação do valor.
(…)
A que género pertence As Lojas de Canela? Como classificá-lo? (…) Trata-se de uma autobiografia ou, melhor, de uma genealogia do espírito; genealogia kat’exochen porque descreve o nascimento da alma e segue-a até às profundezas onde ela se perde em devaneios mitológicos. Sempre senti que as raízes de um indivíduo, desde que seguidas até longe, se perdem numa qualquer floresta virgem e mítica. É esse o fundo definitivo para além do qual não podemos prosseguir.
(…)
De certo modo estas «histórias» são reais, representam a minha maneira de viver, o meu particular destino. E a dominante de tal destino é uma solidão profunda, um distanciamento das coisas da vida de todos os dias.
A solidão é o reagente que leva a realidade ao ponto de fermentação, à decantação das formas e das cores.”


Bruno Schulz

sábado, 5 de setembro de 2015

Europa Central. Agosto 2015


Esquece tudo. As pontes ao entardecer, o infinito dos carris, a recordação do Holocausto e toda a arte, se assim quiseres.
Toda a viagem é interior e as árvores são o facto mais poético.
Como tudo o que é essencial, elas habitavam já a infância, esse território mágico de imagens cadentes que se vão parindo durante toda uma vida. As que davam fruto, alinhavam-se em fileiras intermináveis, disputando taco a taco com o Verão. Nessas tardes, a alegria impunha-se em batalhas campais sem quaisquer contemplações femininas. Era «mata» ou morre – e nunca houve tanta fé numa mão como naquela que arremessava ridente as frutas-munições.
No entanto, era preciso salvaguardar a todo o momento a cabeça. Que vacilava inevitavelmente com as primeiras chuvas. Something is broken inside me. Os frutos invernais alagavam-se então em lágrimas cítricas, partilhadas com o cão Tonecas, fiel companheiro da tristeza.
Além disso, havia também a centenária figueira, testemunha de várias desventuras geracionais, e a bravia nogueira que, em noites ventosas, nos aterrorizava em duelo com os fios eléctricos, trovejando furiosa contra os céus. E as mil moitas que o vizinho Careca esculpia para se ausentar das agruras diárias e confundir com a vegetação. Uma delas, tinha um portal invisível e lá dentro o tempo escorria de outra forma, ao compasso de vários cigarros e ao abrigo de qualquer olhar humano. Ali, eu reinava, confiante nos tempos vindouros, fumando as conquistas por vir.
Mas as árvores não são todas iguais e há qualquer coisa de especial com as da Europa Central. Animadas por um rosto alado, todo o entardecer as encontra barricadas de quietude. As suas sombras abrigam todas as memórias pacificadas e vários animais microscópicos inéditos. Quando tentamos descrever o vento que as agita ou as sombras abençoadas que delas escorrem, somos chegados ao cabo da linguagem, à beira do abismo do encantamento.
Viajamos sobretudo para descobrir a nossa mitologia singular. Na plataforma de uma estação, um pai despede-se da filha com as palavras possíveis. Pede-lhe que lhe escreva nas horas mortas, contando como são as copas das árvores nesses países distantes. Parcamente desesperadas, as suas mãos magras percorrem os bolsos rotos em busca das migalhas restantes. Só a beleza pode suster a vida olvidada de todo o sentido. A menina não entende nada, é muito nova. Porém, anos mais tarde, volvidas muitas paixões breves e indolores, essa mesma menina, então mulher com a atenção amadurecida para os factos mais íntimos, estará noutra plataforma, noutra estação, quando lhe chega a certeza de que o verde é a cor mais enigmática.
Apesar disso, os comboios continuam a desfilar nos carris.

Esquece tudo. Menos os marinheiros, o fogo e as árvores. São esses os maiores mistérios.

sábado, 18 de julho de 2015

La double vie de Veronique (1991)

Das releituras sempre surpreendentes


“Há qualquer coisa de ausente e de intacto no barão Felix – um homem maldito da cintura para cima, que me lembra Mademoiselle Basquette, que era maldita da cintura para baixo, uma rapariga sem pernas, talhada como uma anomalia medieval. Tinha o hábito de se locomover através dos Pirinéus numa prancha de madeira com rodas. O que dela existia era belo, de uma beleza tradicional e vulgar, porque tinha o rosto dos que atingiram uma estupefacção racial, não pessoal. Quis dar-lhe um presente por causa do que lhe faltava, e ela disse-me: «Pérolas… ficam bem com qualquer coisa.» Imaginem… e a sua outra metade ainda estava no saco de habilidades de Deus! Não se pode dizer que aquilo que lhe faltava não lhe tivesse ensinado o valor do que tinha. Como quer que fosse – continuou o doutor enrolando as luvas –, um dia um marinheiro viu-a e apaixonou-se por ela. Ela subia e o Sol iluminava-lhe as costas; formava uma sela no seu pescoço curvado e tremulava ao longo do cabelo ondulado, sumptuosa e saqueada como a figura de proa de uma embarcação normanda que houvesse sido abandonada pelo corpo do navio. Por isso ele apoderou-se dela, prancha de madeira e tudo, e levou-a consigo e obteve o que pretendia. Quando ficou seriamente cansado dela, depositou-a na prancha, em jeito de galanteria, a algumas cinco milhas da cidade, de modo que ela teve de regressar fazendo rolar a prancha, chorando de um modo que causava medo, pois não estamos habituados a ver as lágrimas rolarem até aos pés! Ah! Sim, na verdade uma mulher pode ter uma tábua de pinho que lhe sobe até ao queixo e mesmo assim encontrar uma razão para chorar. É o que lhe digo, minha senhora, se alguém fizesse nascer um coração num prato, ele diria «Amor» e palpitaria como uma perna de rã cortada.”


Djuna Barnes, O Bosque da Noite

domingo, 21 de junho de 2015

A preparar-me para ir ali perder países


"Sem dúvida, no mundo administrado e organizado à escala planetária a aventura e a miséria da viagem parecem limitadas; os viajantes de Baudelaire, partidos em busca do inaudito e dispostos a naufragar na sua surtida, encontram já no desconhecido, apesar de todos os desastres imprevistos, o mesmo tédio que deixaram em casa. Seja como for, movermo-nos é melhor do que nada: olha-se da janela do comboio que se precipita na paisagem, oferece-se ao rosto um pouco da frescura que desce das árvores do caminho, misturando-se à gente, e alguma coisa corre e passa através do corpo, o ar insinua-se entre as roupas, o eu dilata-se e retrai-se como uma medusa, um pouco de tinta transborda do tinteiro para se diluir num mar cor de tinta."

o jogo do mundo


É sabido que sou uma pessoa insatisfeita. Acho sempre que a vida podia ser muito mais do que é e desgosta-me que a maior parte do tempo seja gasto na organização e logística da «vidinha», ao invés de andarmos todos a viver e a amar delirantemente. A este propósito, recordo e recomendo sempre um pequeno ensaio maravilhoso de Claudio Magris, «As Moedas da Vida».

Em Rayuela, de Júlio Cortázar, vim a encontrar uma representação mais caótica desse mesmo problema, Inevitavelmente, passámos um bom tempo juntos. Por aquelas páginas, que vibram como autênticas cordas bambas, caminha uma boémia conhecida e a mesma inquietação que tanto me mastiga em alguns dias.

(...) um homem respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si próprio se algo em tudo aquilo tinha algum sentido. Toda a desordem se justificava se tendia a sair de si mesma, podia ser que através da loucura se pudesse chegar a uma razão que não fosse essa razão da qual a falência é a loucura. «Ir da desordem à ordem», pensou Oliveira. «Sim, mas que ordem pode ser essa que não se parece com a mais nefanda, terrível e insanável das desordens? A ordem dos deuses chama-se ciclone ou leucemia, a ordem do poeta chama-se antimatéria, espaço duro, flores de lábios trémulos, realmente que grande sbornia que eu tenho em cima do pelo, tenho mesmo que me ir deitar.» E a Maga estava a chorar, Guy tinha desaparecido. Etienne discutia com Perico, e Gregorovius, Wong e Ronald olhavam para um disco que rodava lentamente. Oscar's Blues a trinta e três rotações e meia por minuto, nem mais nem menos, e nessas revoluções Oscar's Blues, claro que com o próprio Oscar ao piano, um tal de Oscar Peterson, pianista com algo de tigre e de veludo, pianista triste e gordo, um tipo sentado ao piano e a chuva a bater na clarabóia, enfim, literatura. (p. 17-18)

(...)

Teria sido muito fácil organizar um esquema coerente, uma ordem de pensamento e de vida, uma harmonia. Bastava a hipocrisia de sempre, elevar o passado a valor de experiência, tirar partido das rugas da cara, do ar vivido que existe nos sorrisos e nos silêncios de mais de quarenta anos. Depois, um facto azul, as frontes prateadas bem penteadas e a entrada nas exposições de pintura, na Sade e em Richmond, a reconciliação com o mundo. Um cepticismo discreto, um ar de estar de regresso, uma entrada cadenciada na maturidade, no casamento, no sermão paterno à hora do assado ou das notas negativas. Se to digo, é porque já vivi o suficiente. Eu, que viajei quando era rapaz. São todas iguais, ouve o que te digo. Falo por experiência própria, meu filho, tu ainda não sabes o que é a vida.
(...) Parado em frente de uma pizzaria na calle Corrientes, Oliveira fazia grandes perguntas a si mesmo: «Então quer dizer que se tem de ficar como o cubo da roda a meio da encruzilhada? Para que é que serve saber ou pensar saber que todos os caminhos são falsos se não o percorrermos com o propósito que já não seja o caminho em si? Não somos Buda, che; aqui não há árvores para nos sentarmos à sua sombra na posição de lótus. Aparece um polícia e passa-nos logo uma multa. (p. 48-49).


Para já, fico-me pelo «primeiro livro», Sob o facínio das palavras de Cortázar, tentei seguir de imediato para o «segundo livro», mas a leitura repetida de alguns capítulos quebrava o encanto. Achei melhor fazer uma pausa e esquecer o assombro que é todo este livro, em especial o capítulo 41. Jamais tinha sentido uma tão grande vertigem literária.

sábado, 23 de maio de 2015

Getting the blues

Lendo o Rayuela, com o sol derramado sobre a cama, chego à conclusão que os dias de praia são algo definitivamente sobrestimado. 

Em plena satisfação precária, em plena falsa trégua, estendi a mão e toquei no novelo de Paris, na sua matéria infinita enrolando-se sobre si mesma, no magma do ar e daquilo que se desenhava na janela, nuvens e águas-furtadas; nessas alturas não havia desordem, o mundo continuava a ser algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos a rodarem nas suas dobradiças, uma meada de ruas, árvores, nomes e meses. Não havia uma desordem que abrisse as portas ao resgate, havia somente sujidade e miséria, copos com restos de cerveja, meias a um canto, uma cama que cheirava a sexo e a cabelos, uma mulher que passava a sua mão fina e transparente pelas minhas coxas, retardando a carícia que me arrancaria por uns instantes dessa vigilância do grande vazio. Demasiadotarde, sempre, porque ainda que fizéssemos amor muitas vezes, a felicidade tinha que ser outra coisa, algo talvez mais triste do que essa paz e esse prazer, um ar como que de unicórnio ou de ilha, uma queda interminável na imobilidade. A Maga não sabia que os meus beijos eram como olhos que começavam a abrir-se para lá dela e que eu andava como que saído, concentrado noutra figura do mundo, piloto vertiginoso de uma proa negra qye cortava a água do tempo e a negava.

Jakob von Gunten


“Muitas vezes saio para a rua e tenho então a sensação de viver num conto de fadas selvagem. Tudo puxa e empurra, tudo trepida e palpita. Tudo grita, martels, vibra e zumbe. E tudo num espaço cercado (…). O que é nobre caminha lado com o que é baixo e mau, as pessoas vão, não se sabe para onde, e eis que regressam, e são já outras pessoas e não se sabe de onde vêm. Pensamos poder adivinhar a sua origem e dá-nos prazer o esforço de a decifrar. E o sol brilha sobre tudo. Ilumina o nariz a um, a outro a ponta do pé. As rendas das saias brilham numa confusão dos sentidos. No colo de velhas, distintas senhoras, cãezinhos vão de passeio em carros. Peitos aproximam-se em contramão, peitos de mulher apertados em vestidos e corpetes. E depois também muitos e estúpidos charutos em muitas pregas de bocas masculinas. E sonhamos com ruas nunca imaginadas, novas e invisíveis regiões que fervilham também de gente. Entre as seis e as oito da tarde o movimento humano tem o seu momento mais gracioso e concentrado. É quando sai a passeio a melhor sociedade. O que somos nós, na verdade, no meio deste rio, desta colorida corrente humana que nunca quer acabar? Por vezes, todos estes rostos em movimento ganham um brilho rubro, pintados pela cor do sol poente. E quando o céu está cinzento e chove? Então todas estas figuras, e eu com elas, caminham apressadamente sob a gaze opaca, como figuras de um sonho à procura de alguma coisa, mas sem nunca encontrar, parece, o que é belo e certo. Todos aqui procuram alguma coisa, todos anseiam por riquezas e fortunas fabulosas. Sempre com pressa. Não, sabem dominar-se em tudo, mas a pressa, a ânsia, o tormento e a inquietude brilham em lampejos nos olhos ávidos. E depois é tudo de novo banhado pelo sol quente do meio-dia. Tudo parece dormir, mesmo os carros, os cavalos, as rodas, os ruídos. E as pessoas olham sem consciência. Os prédios altos, aparentemente em queda, parecem sonhar. Raparigas passam apressadas, embrulhos são transportados. Gostaríamos de abraçar alguém. Quando volto para casa, encontro Kraus sentado à espera, que me recebe com sarcasmos. Digo-lhe que sempre temos de conhecer um pouco do mundo. «Conhecer o mundo?» diz ele, absorto em profundos pensamentos. E sorri com desprezo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

em breve


Os meus primeiros duzentos filmes foram vistos em estado de clandestinidade, ou por fazer gazeta à escola, ou por entrar na sala sem pagar (pela saída de emergência ou pelas janelas da casa de banho), ou ainda por aproveitar as saídas nocturnas dos meus pais, com a necessidade de me encontrar na cama no seu regresso a casa. Era, pois, com fortes dores de barriga que eu pagava este grande prazer, com a barriga num nó, a cabeça amedrontada, invadido por um sentimento de culpabilidade que só podia aumentar a emoção provocada pelo espectáculo.

Compreender-se-á que a obra de Alfred Hitchcock, toda ela dedicada ao medo, me tenha seduzido desde o início, e depois a de Jean Renoir, voltada para a compreensão: «O que é terrível nesta terra é que toda a gente tem os seus motivos» (A Regra do Jogo, 1939). A porta estava aberta, eu estava pronto a receber as ideias e as imagens de Jean Vigo, Jean Cocteau, Sacha Guitry, Orson Welles, Marcel Pagnol, Lubitsch, Charlie Chaplin, evidentemente, todos aqueles que, sem serem imorais, «duvidam da moral dos outros» (Hiroxima, Meu Amor, 1959).

françois truffaut

segunda-feira, 11 de maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS


Tenho tido inúmeras oportunidades para constatar que a minha memória é dotada de uma selectividade muito peculiar. Interessa-se sobretudo por guardar sensações e impressões, elidindo muitas factualidades. Quantas vezes quero contar uma história minha e só consigo traduzir apontamentos sensitivos. Este fenómeno manifesta-se sobretudo com os amantes e as leituras. Não sei dizer se a compulsão voraz de certas leituras influencia, mas a verdade é que às vezes sou incapaz de recordar o enredo de uma história que li há muitos anos, embora possa enumerar com toda a nitidez as sensações que tal livro me provocou no corpo.

Yukio Mishima é um dos autores que me surge envolto numa nebulosa de sensações. Li-o nos tempos da licenciatura, há uns 11 ou 10 anos, e recordo que a sua escrita me afectou de um modo algo delirante, como se as suas palavras me colocassem no umbral do Indizível. Volvidos vários anos, não consigo encontrar essas histórias dentro de mim. Já a sensação que o meu corpo experimentou ao lê-las surge-me de pedra e cal, qual estátua. A única maneira de a comunicar é dizer que se apresentava como um mistério solene de mãos em posição de oração, depois de um grande combate silencioso.

Com a colectânea de contos A MORTE EM PLENO VERÃO, recuperei parte desse tumulto interior. Falar de cada conto é tarefa quase inútil, os temas e os acontecimentos narrados servem apenas para aflorar esse grande mistério indizível que compõe as emoções humanas. Posso dizer que o conto A MORTE EM PLENO VERÃO se inspira em De Quincey (a epígrafe do conto pertence a Baudelaire mas a colusão poética do verão com a morte remonta de facto às confissões de De Quincey, que Baudelaire tão atentamente leu e reescreveu) para nos contar uma tragédia balnear e dissecar com toda a mestria as várias fases do luto.

- A culpa foi toda minha – disse ela. Aquelas eram as palavras que Masaru mais desejava ouvir.
(…)
Embora não o soubesse, estava desesperada com a pobreza das emoções humanas. Haverá algum bom senso em que choremos a morte de dez pessoas como choramos a morte de uma só?

Posso dizer que dizer que os remates de O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR e AS SETE PONTES são deliciosamente enigmáticos. E que TRÊS MILHÕES DE IENES insinua em nós uma pergunta quantitativa de difícil resposta: quanta sordidez é necessária para assegurar uma estabilidade inocente? Ou que o conto GARRAFA-TERMOS me recordou de algum modo a atmosfera de certos filmes do Wong-Kar Wai e também Marguerite Duras.

Apurando o ouvido para a conversa, Asaka tirou o casaco e colocou-o no regaço. Só o pescoço, com que ela agora não tinha de se preocupar como quando era gueixa, mostrava a negligência da mulher profissional que voltara a ser amadora. Trazia o cabelo puxado para cima e Kawase ficou admirado com a escuridão da sua pele.
- Não são muito simpáticas mas trabalham muito – disse Asaka em voz alta, olhando para as criadas. Kawase gostou de ver nos olhos vivos todo o entusiasmo que ela tinha pelo seu novo trabalho. Ela tinha sido sempre bela, pensou ele, mesmo quando a olhava como se estivesse a admirar um fogo distante.
(…)
O café tinha o cheiro peculiar americano, meio higiénico, a remédios, meio doce e pegajoso a corpos. Os clientes eram mulheres, na sua maioria de meia-idade ou mais velhas, com olhos orgulhosos e lábios pintados, atacando grandes bolos e sanduíches. Apesar do barulho e da azáfama da loja, havia qualquer coisa de solidão em cada mulher e nos seus apetites. Triste, só, como a actuação de tantas máquinas consumidoras.


Posso, sem dúvida, dizer que a perfeição formal de PATRIOTISMO é de uma beleza imbatível. Mas o mais essencial será que cada leitor se ofereça a esta leitura como um piano virgem e possa escutar em si a ressonância inesperada de cada harmonia sombria.

sábado, 4 de abril de 2015

O grande Meaulnes


"Procuro qualquer coisa mais misteriosa ainda. É a passagem de que se fala nos livros, o antigo caminho obstruído, de que o princípe, exausto de fadiga, não conseguiu encontrar a estrada. Descobre-se na hora mais ocasional da manhã, quando há muito nos esquecemos de que já vai nas onze horas, no meio-dia... E de súbito, ao afastarmos os ramos, por entre a folhagem profunda, com um gesto hesitante das mãos desigualmente afastadas à altura da cara, vemos como que uma longa avenida escura, cuja saída é um circulozinho de luz."


Finding Vivian Maier


sábado, 28 de março de 2015

Uma grande coragem inútil


Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.

Em Berlim, em Lisboa, o mesmo desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas. “Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.

E tenho a certeza que a minha mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim, passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor. Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.

Apesar de tudo isto, descubro de vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras, escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação nascente.

Curiosamente também, dois desses escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, e A Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.

E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a capitulação da cidade.
Nossa Senhora das Flores, Jean Genet

Em ambas as leituras, o furor começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido, nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel, impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.

Senão vejamos: “Que palavra assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores. E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e barcelonas”. E assim por aí adiante.

A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório, cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos do sublime. Um exemplo ao acaso:

Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.
É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o seja.
Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos meus ares.
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes.


Não podia estar mais de acordo. Há muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse, jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Dos efeitos perniciosos da insinceridade


A Woman Under The Influence (1974)

Os desalojados do mundo


"Sem parar de sorrir e com irónica malevolência, virou-se para Stoner.
- Tu também não escapas, meu amigo. Nem penses. Quem és tu? Um simples filho da terra, como te queres convencer a ti próprio? Ah, não. Tu também fazes parte dos enfermos... tu és o sonhador, o louco num mundo ainda mais louco, o nosso Dom Quixote do Midwest sem o seu Sancho Pança, a fazer cabriolas sob o céu azul. És suficientemente esperto, pelo menos mais esperto do que o nosso amigo mútuo. Mas tens a mácula, a velha enfermidade. Achas que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa para descobrir. Pois bem, no mundo, aprenderias depressa. Também tu foste talhado para o fracasso, embora não lutasses contra o mundo; deixarias que ele te pisasse e deitasse fora, e ficarias ali caído a perguntar-te o que se passava, porque esperarias sempre que o mundo fosse algo que não era, algo que não queria ser. O gorgulho no algodão, a minhoca no pé de feijão, o caruncho no milho. Não os conseguirias encarar e não conseguirias lutar contra eles, porque és demasiado fraco e és demasiado forte. E não tens para onde ir no mundo."

IDA


sábado, 10 de janeiro de 2015

que coisa são as nuvens

"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."

Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)

Lola Montès (1955)


«Ela está prematuramente gasta.»