quinta-feira, 26 de junho de 2014

para j.d., com amor e sordidez



Sexta-feira e sábado são dias de uma felicidade mansa e terna, pelo simples facto de ter um novo suplemento cultural para ler. A breve visita ao quiosque alegra a rotina matinal e de jornal colado ao peito, sigo mais acompanhada para o trabalho ou casa.
Como todas as pequenas euforias, julgava-me única no seu gozo. Até que um dia viajei para Madrid, juntamente com um livro de Juan José Millás, e conheci a mãe de uma amiga que ficou encantada por hospedar uma portuguesa que lia o referido escritor. Falou um pouco da obra e vida dele e disse-me que ele publicava uma crónica regular num jornal espanhol (à quarta-feira se a memória não me engana) e que nesse dia acordava sempre muito feliz. “Porque me lembro que é dia da crónica do Millás”, completou com um sorriso largo de criança travessa.
Percebi então que a minha alegria semanal faz parte de um fenómeno mais amplo e partilhado por muitos seres humanos, a saber, a esperança de que a literatura venha de algum modo colmatar a pobreza da realidade. Mas a verdade é que, à excepção das crónicas do Pedro Mexia, encontro nestes suplementos cada vez menos artigos deliciosos de ler. Apesar deste facto algo incómodo, na semana seguinte a expectativa encontra-se novamente renovada e contente. Não há nada a fazer, sou uma tipa optimista e persistente.
E às vezes, acontecem milagres. A última iluminação veio de uma recensão crítica ao livro recentemente publicado de J.D. Salinger, Nove Histórias. Da autoria de Gonçalo Mira, o parágrafo final, que citarei adiante, atafulhado em punchlines, diagnosticava aquilo que eu busco na próxima leitura, com uma precisão tal que mais parecia uma doença compendiada pelo DSM. Nove Histórias é um daqueles livros dos quais não se sai como se entrou. Pode sair-se mais feliz ou mais triste, dependendo da forma como se vive a leitura, mas nunca indiferente. É um daqueles livros de contos que envergonham muitos bons romances. É um daqueles livros que obrigam um leitor que gosta de sublinhar passagens e de guardar citações a ter um lápis sempre à mão. É um daqueles livros a que se regressa depois de termos lido vários livros “apenas” muito bons, em busca do conforto do deslumbramento.
Para que conste, raramente compro livros influenciada por estas críticas. E tinha um medo que me pelava do Salinger. Comecei a ler o À espera no centeio mas achei melhor não ir mais adiante (já disse que acredito em serial killer texts) e também interrompi prematuramente a leitura de Franny and Zooey, porque na altura andava com os nervos em franja e o mimetismo com Franny parecia um prenúncio terrível. No entanto, a míngua literária dos últimos tempos obrigava-me a arriscar.
Li as nove histórias. E encontrei nelas o génio e o deslumbramento que a crítica antecipara. Sempre em doses comedidas, jamais exuberante. Salinger não é um atirador furtivo, as palavras que usa para descrever uma situação ou personagem são eleitas com parcimónia, como quem caminha por um campo minado. Nunca falha o alvo. É capaz de dar a uma personagem carne e osso com uma única frase. Como por exemplo: “Com poucas ou nenhumas aptidões para ficar só numa sala, Mary Jane levantou-se e foi à janela”.
Nestas histórias, ninguém está a salvo. Dos nove contos, só um não envolve uma criança ou adolescente. A realidade fustiga os pés de todos, crescidos ou não, com os seus cruéis alçapões. Os diálogos balbuciantes dos adultos contrastam com a fluência verbal sofisticada dos génios pubescentes que Salinger retrata com um invulgar desembaraço. Uma delas pede a um soldado americano para escrever um conto exclusivamente para si. Diz-lhe que é uma leitora voraz e que prefere contos sobre sordidez.
Os adultos conversam menos. Não voltaram da guerra com as faculdades intactas e a sordidez deixou de ser uma curiosidade excêntrica para se tornar mortalha diária. “Lembras-te do nosso ano de caloiras, quando eu pus aquele vestido castanho e amarelo que tinha comprado em Boise e a Miriam Ball me disse que já ninguém usava aquele tipo de vestidos em Nova Iorque, e eu chorei a noite inteira? – Eloise abanava os braços de Mary Jane. – Eu era boa rapariga – rogou ela -, não era?”
E pronto, é isto que se pede a um livro. Que acerte com toda a calma e força nas zonas que os outros deixaram intactas. Punchlines não tenho. A não ser que dá vontade de matar para se escrever assim.

domingo, 22 de junho de 2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um desvario


"Mas não é esse o caso e afinal o que se passa é que um longo processo de desvario sentimental me tornou incapaz de um amor verdadeiro e pleno."

"Não se apercebeu, nem um único momento se apercebeu, de que talvez o seu delírio não pudesse ter sido compartilhado. Fundir-se com um outro ser numa comunhão de sentimentos, também é amor, é óbvio, mas num certo grau de paixão o amor torna-se num egoísmo tão cego que já não tem sequer uma única fibra sensível ao mundo que o rodeia, mesmo que esse mundo seja o doutro ser, do ser amado, tão cego que uma dissonância perturbadora não é perceptível simplesmente porque não é captada ou não é sentida. A paixão amorosa é como a última, a a extrema solidão."

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Revolução



Troquei a turba do Carmo com os seus cravos nostálgicos pelo meu sofá vermelho, a companhia felina e um filme que enigmaticamente o meu computador começou a reproduzir, Rebel without a cause. Encontro-me sempre nestas noites de insónia branca, bolinando confortável pelo rumor manso da vida, rainha de uma solidão viva e pensante.

"E a liberdade? Que pergunta! Não vossa, a pergunta, mas minha. Que a minha liberdade sou eu, e custo-me a sustentar. Entretanto, chegam-me notícias de que é necessário sustentar a liberdade alheia. Mas que faz o alheio, que não faz pelo seu próprio sustento?" (Herberto Hélder).

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Corpo-a-corpo

Vai somatizar.
E somatiza:
A grande ruptura acontece nessa rua desgarrada em que o corpo caminha como quem marcha. Sem qualquer aviso prévio, a rugosidade de uma parede diz-lhe que está indefeso perante a morte e todos os trabalhos que a precedem. E assim, de súbito, o corpo perde afectos e deveres, rachado ao meio por um golpe de asa negra.
O seu primeiro impulso é procurar o nome da rua. Mas o medo infiltrou-se no sangue sem piedade. E a cabeça sempre foi frágil.
Há um crime imemorial que ainda não foi lavado e o teu corpo é chamado a depor. Todos têm de prestar contas. É por isso que todos os meses as mulheres sangram.
O corpo não possui mais um eixo ao abrigo da suspeita. Todos os seus movimentos toscos para recuperar o equilíbrio são vãos. A verticalidade tornou-se uma impossibilidade. A paisagem urbana surge desfigurada. Os edifícios são de papel cartonado e nunca te tinhas apercebido disso. Nos rostos que te cruzam não decifras mais qualquer vestígio da comunidade humana. A humanidade é uma ideia putrefacta que o teu olfacto ignorou nas décadas de aprendizagem. Venderam-te tantas ideias sem corpo e agora tudo vacila. Pareces um navio em alto-mar, fustigado pela tempestade.
Estás sozinho. Metes as mãos nos bolsos em busca de conforto – não esqueces jamais os hábitos que te impuseram aos membros. Mas tens os órgãos estilhaçados e a carne traumatizada pelo pensamento que te acidentou. Um vulto de plumas que assombra os bastidores da mente. Insinua-se e foge. Deixa um rasto de pássaros embalsamados.
O sabor a ferrugem na boca fendida. Roldanas de aço roendo os maxilares, numa pressão metálica que ameaça triturar o corpo a partir do queixo. Anos a confiar neste pedaço de carne e agora ele desconjunta-se e vai tudo abaixo.
Tudo abaixo. Os outros continuam de rosto empoleirado nos corpos. Não estão ameaçados pela disjunção. Talvez chorar, pedir ajuda… Oh, mas teriam que se usar as palavras e o horror alagou também a linguagem. Cerra antes os dentes e contraria a saliva. Não se quer enlouquecer e, no entanto, esta é a única certeza, o vazio que aparece de repente numa rua qualquer, abre a boca numa careta carnavalesca para te pregar um susto e zás! Foste engolido.
Estás sozinho, náufrago no real provisório. Estado de alerta máximo. Medo do real ser evacuado e não se ter para onde ir.
Porque não temos já para onde ir. Nem sequer se sabe o nome verdadeiro desta rua onde o real nos aconteceu. Sim, fugir. Mas para onde? Casa é a palavra mais vã que resta. Tanta arquitectura para não haver abrigo algum. O céu foi tomado de assalto pelos aviões e meteorologistas. O mundo é uma fantasia em extinção e as aves não migram mais. Morrem de mágoa, esfaceladas contra o asfalto.
Apanhas um táxi em desespero e agradeces numa oração silenciosa a oferta de transporte que a civilização oferece. Embora a casa também tenha sido contagiada. Navegas noite afora sobre o pensamento que te come a calma. Esses olhos não encontram mais descanso. O teu corpo não funciona. É um corpo-detrito, os nervos em franja, com uma consciência absurda das próprias mãos – vê nelas uma brancura que impõe a vigília.
Estado de alerta máximo.
Mesmo assim, não estás pronto para desistir da civilização. Por tão pouco, um mero ataque de nervos, dizes. Precisas só de recuperar a fé no real. Por isso vais ao médico.
Senhor doutor, queira ter a bondade de me dizer quantos comprimidos são necessários para matar o pensamento e recuperar o corpo?
Ao doutor dói-lhe a cabeça. Há dias em que não acredita na psicologia humana. Hoje é um deles. Está sem paciência e na sua frente tem um paciente. Depois de ouvir as palavras do corpo, não sabe o que dizer. Sente pela primeira vez a falta de um deus qualquer. Ao invés, opta por aconselhar alguma medicação. Ansiolíticos. Anti-depressivos. E hipnóticos em SOS, para o caso do real insistir nas suas visitas.
A mão escreve veloz uma receita, como quem acelera dali para fora. Para fora do contexto doutor-paciente onde ambos se atrasam num compasso sem esperança. Entrega a receita e num aperto de mão asséptico, diz 
As melhoras.
Como quem diz,
Até amanhã e esta guerra não fui eu que a criei.

Carta de uma desconhecida


Acabei por escolher um livro do Zweig para uma breve valsa nocturna. Apesar da edição vergonhosamente descuidada, deixou na alma uma tensão, como se uma outra alma a tivesse acabado de atravessar, "como se de repente uma porta se abrisse brusca e invisivelmente e uma corrente de ar frio brotasse de um outro mundo e invadisse o seu espaço de tranquilidade".

sábado, 12 de abril de 2014

Who will be my valentine?

A Montanha Mágica foi a minha leitura mais lenta: de meados de Janeiro até hoje. Agora que o encanto terminou, sinto borboletas no estômago: que livro da estante será o meu par para a próxima dança?

A Montanha Mágica


"Adeus, Hans Castorp, filho ingénuo e traquinas da vida! A tua história chegou ao fim. Terminámos a narrativa. Não foi uma história nem longa nem curta, apenas hermética.
(...)


Boa viagem! Agora é viver ou morrer! As perspectivas não são famosas: a dança macabra para a qual te arrastaram durará ainda alguns anos terríveis e não queremos apostar alto na tua sobrevivência. A dizer a verdade, deixamos, sem preocupações de maior, a questão em aberto. Certas aventuras da carne e do espírito, que sublimaram a tua ingenuidade, permitiram-te vencer na esfera do espírito aquilo a que provavelmente sucumbirás na esfera da carne. Momentos houve em que da morte e da luxúria carnal viste germinar, no teu reino premonitório, um sonho de amor. Será que deste festim universal da morte, deste ardor perverso e febril, que incendeia o céu chuvoso e crepuscular, poderá também um dia nascer o amor?”

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

à cause de Pound

Não resisto a partilhar este excerto delicioso. É que se poucos livros me fizeram chorar, menos são os que me fizeram rir.

“O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando era cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha.
(…) Claro que nem todas as soi-disant cultas são assim tão chatas. Tive as cultas refinadas e originais também. Mas que mão de obra, meu pai! Uma delas é inesquecível. Josete. Inesquecível por vários motivos. Mas principalmente pelo gosto exótico na comida e no sexo. Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões de ostras.
(…) Depois de Josete ter gozado umas dez vezes entre sabiás e musses e álcoois dos mais finos que me custavam um caralhão de dinheiro, levantava-se garbosa. Espártaco antes da derrocada final, naturalmente. Eu ia atrás meio cego mas ainda sedento. Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedantescos. No primeiro dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse:  meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de loucura quando ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistoide, você sabia?
Bobagens, Crassinho, o homem foi um génio.
Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma pústula, uma privada de estação em Cururu Mirim. Senão, vejam:

“O eminente escabroso olho do cu cagando moscas.
Retumbando com imperialismo
Urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca,
……….. o preservativo cheio de baratas,
Tatuagens em volta do ânus
E um círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele.”

Josete adorava (…)
Pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável
Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear idiotias, ainda mais em ingês. Estávamos no apartamento de Josete. Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se de bruços e ordenou lacónica:
Pegue aquela grande lupa lá minha mesinha.
Lupa?
Lupa, sim, Crassinho.
Então peguei.
Faz um favor, benzinho, abra o meu cu.
Como?
Oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite.
E o que eu faço com a lupa?
A lupa é pra você olhar ao redor dele.
Ao redor do seu cú, Josete?
Evidente, Crassinho.
Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito esmero e extrema competência estavam três damas com seus lindos vestidos de babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas.
Não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu para quê?
Homenagem a Pound, Crassinho.
Mas isso deve ter doído um bocado!
The courageous violent slashing themselves with knifes (que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se com facas. Continuação do Canto XV.) coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound). Aí achei o cúmulo. “Jamais, meu amor, machucaria essas lindas damas”. Josete começou a chorar.
Ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andaimo in the greta scabrous arsehole (no grande escabroso olho do cu).
Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, aou. entoação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra!

Hilda Hilst, Contos D'Escárnio / Textos Grotescos


sábado, 11 de janeiro de 2014

Da leitura como atropelamento


O Sermão sobre a Queda de Roma é um  romance que mistura filosofia e literatura, luz e trevas. Escrito com um dos ritmos mais rápidos que vi em matéria escrita, captura o humano nas suas contradições mas não nos deixa tempo para parar nessa comoção.

"Marcel tem vergonha da sua lucidez e do seu cinismo e, na claridade da manhã, tem vergonha outra vez, vergonha do seu coração mole, do seu coração cheio de trevas, tem vergonha diante de André por ter sido um tão desvalido guerreiro, e tem vergonha da sua sorte desprezível, e vergonha ainda de nem sequer ser capaz de se regojizar com isso, olha para André com um respeito invejoso, e tem vergonha de o receber naquela aldeia miserável, todos os convidados da boda o fazem sentir vergonha (...), tem vergonha dos seus próprios parentes, da vitalidade obscena e transbordante de Jean-Baptiste, e de si mesmo, que traz no peito um coração mole e cheio de trevas. Vê a irmã dançar nos braços de André. As crianças correm por entre as mesas cambaias. Ange-Marie Ordioni dá ao filho a chupar um dedo que mergulhou no seu copo de rosé. Marcel ouve os risos e as notas desafinadas do acordeão, a voz tonitruante de Jean-Baptiste. Senta-se ao sol ao pé da mãe, que lhe pega na mão e abana tristemente a cabeça. Só ela parece não se alegrar ao ver a vida recomeçar. Como podia a vida recomeçar se ainda não começou?"

domingo, 5 de janeiro de 2014

Amsterdam: Gelukkig nieuwjaar









Que fazer quando tudo ardeu?


No meu quarto há uma réplica da Ofélia morta de Millais. Agrada-me adormecer sob o signo daquela que morreu de amor. Criada ou não pela literatura, tive desde idade muito precoce uma propensão para amores fatais. Desconfiava dos amores calmos e seguros e, como seria de prever, dediquei a primeira década adulta a coleccionar paixões impossíveis e várias crises nervosas. Consegui, apesar de tudo, chegar aos trinta anos com várias mortes imaginárias mas nenhum óbito efectivo.

A morte real foi sempre interrompida pela leitora que há em mim; insónia após insónia, narrativizava cada amor até me aperceber que o amante em questão era demasiado medíocre para um desfecho tão sublime. Não quero com isto desvalorizar os homens que amei ou julguei amar, eles foram os amantes necessários. Lidos no seu conjunto, eles contam a história da formação do meu desejo. Como peças de um puzzle ou fragmentos de uma epopeia menor.

Franchizado o desamor, comecei a interessar-me por outro tipo de heroínas literárias: as que sobrevivem ao fim do amor. Neste campo, também não é fácil encontrar uma personagem à altura do meu desejo. Se a literatura parece exímia a ensinar os corações a despedaçarem-se, poucas são as pistas para quem deseja um caminho alternativo.

Leitoras ou não, as mulheres sempre foram percebidas como um perigo que não se sabia bem como controlar. Era preciso dar-lhes um destino, uma solução, e o dispositivo literário soube apropriar-se da ideia de amor romântico para arrumar o género feminino. De ora em diante, a mulher tinha uma função muito clara: consagrada a Eros, devia dedicar a sua vida à procura e prática do amor.

A questão é que a própria solução se revelou também problemática, pois um pharmakon nunca é inteiramente controlável. A primeira fenda no edifício romântico é a sua profunda antítese com o casamento; contratualizado o amor, logo este devém tédio ou neurastenia, se preferirmos o termo clínico em voga no século XIX. Onde Eros falha, o dispositivo literário convoca Tanatos e as mulheres que transgridem o espaço doméstico são punidas com a morte. É o caso de Madame Bovary e Anna Karenina.

Entre Eros e Tanatos, que alternativas nos sugere a literatura para lidar com este problema literário? Para além das narrativas de ascetismo redentor ou voluptuosidade da carne, as respostas são raras. Estava a ficar sem esperanças numa emancipação literária da mulher relativamente à ideia de amor, quando encontrei uma assombração textual: Thérèse Desqueyroux.

As afinidades com Madame Bovary denotam uma intenção óbvia de Mauriac em reescrever a história da aparição de um desejo feminino incontrolável. Como Emma, também Thérèse sufoca numa vida menor na província, casada com um homem simples e a maternidade não lhe traz qualquer alegria ou paliativo. Mas o que interessa em Thérèse não são as afinidades que a unem a Emma Bovary, mas o desacordo que as distingue.

Thérèse é uma leitora ávida e inteligente. Casou com um homem simples e rude na esperança que ele a simplificasse mas não conseguiu acomodar-se na ordem da família e salvar-se da sua própria inquietude. Perante este falhanço, Thérèse encerra-se em si, num isolamento sem lenitivos nem amantes (“não suspeitava de que um outro homem lhe pudesse ser de algum socorro. Ao fim e ao cabo, Bernardo não era assim tão mau. Ela execrava nos romances a pintura de seres extraordinários, como nunca se encontram na vida”). Como a outra, sonha com uma vida mais intensa; ao contrário da outra, não se deixa devorar pelos ideais românticos. Opta antes por intoxicar-se com cigarros e envenenar o marido com arsénico.

Despedimo-nos de Thérèse em Paris. O marido liberta-a na grande urbe, libertando-se também da ameaça que esta mulher sempre significou. Ela tem finalmente o tempo e a solidão que tanto desejou para se fixar no seu desespero misterioso. Inicialmente, tem medo desta liberdade desconhecida, é que também ela se sente ameaçada pelo seu poder cego. Se o marido a pudesse perdoar, imagina-se a voltar com ele de bom grado para o seu papel de mãe e esposa burguesa. Mas felizmente o desejo de uma vida maior vence e na última vez que a vemos, Thérèse ri sozinha e pinta os lábios com minúcia, antes de se perder pelas ruas da cidade. O que acontece depois é um enigma. Como o desejo feminino.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Diário de 2013


Há pouco descia a rua do Alecrim e pensei que o que decide a singularidade de uma pessoa não é tanto a sua história como a conjunção desta com a história das suas leituras. Não existem dois leitores iguais na história do mundo. Ninguém leu ou lerá os mesmos livros que eu pela mesma sequência afectiva. Uma história que se constrói como o mais perfeito dos labirintos, composta por misteriosas empatias e tristes desencontros com os livros certos que não nos acertam no tempo certo.

O ano começou com Niels Lyhne, mudanças de casa e desemprego. Janeiro, mês das saudades contentes.

6 de Janeiro: São quase seis da manhã e estou na minha nova casa. Estou muito cansada com as mudanças, nos últimos dias não tive praticamente tempo para pensar na minha felicidade. Mas vim para a cama ler o Niels Lyhne e não pude deixar de vir escrever um pouco. Este vai ser um ano importante, um ano que prometi dedicar mais erotismo e leituras a uma exegese espiritual e ética (presente de natal da Etty Hillesum).

13 de Janeiro: Tive saudades dele. Masturbei-me mas já não o consigo recordar. Chorei depois, como é habitual. Não um choro de mágoa nem de desespero. Foi mais um chorar que reconhece a falta mas de uma forma contente, como quem aceita (…) O amor deixou de ser uma fome. Sinto-me segura e completa numa falta que não é mais abstracta mas nomeada e calma. A única tristeza advém da suspeita que vivo sozinha este amor (…) Viver a saudade com carinho é o que há a fazer por ora.

16 de Janeiro: A vida está caótica. Estou desempregada, a tese de doutoramento atrasada. A crise é afinal real, não apenas uma patranha dos media. Não há emprego em lado nenhum.

17 de Janeiro: Hoje almocei na faculdade e encontrei um colega de mestrado. Retive o momento em que ele me disse que eu estava muito melhor, mais bonita e mais meiga. “Já não pareces uma tipa fria”. Achei piada a esta ideia de que o tempo amargura certas pessoas enquanto aquece outras. Talvez cada experiência nos seja dada como uma peça de um puzzle para que possamos ir enfim completando e possuindo o nosso desejo.

Em Fevereiro, depois de muitas peripécias, consigo um trabalho. O primeiro do ano: servir pequenos-almoços num hotel. É bom entrar no eléctrico de madrugada e apreciar de modo muito simples Lisboa a despertar. A banda sonora do Django ajuda-me a ter forças.

Fevereiro, mês de liberdade e muito carnaval.

20 de Fevereiro: Estou bem. Consigo ver novamente a beleza.
A beleza e a fé estão aí, disponíveis para quem pede para ver, como São Tomé. Acredito que o meu milagre virá e espero sem desesperar, porque mesmo quando algo menos bom acontece, sempre se lhe segue algo de bom, como um relâmpago cósmico enviado como lembrete contra a queda. Estou a recuperar a confiança em mim e nos outros. De forma tímida. As feridas ainda sulcam o pensamento mas a dor esvaneceu-se. São assim as cicatrizes de uma mulher que caminha ao encontro de si.E a escrita regressa também. Estou bem e rio. Sou mulher e consegui sobreviver até à vida.

Em Março, consigo outro emprego, desta vez em produção televisiva. Ao serviço do diabo: marketing. Março, mês de desenamoramentos.

23 de Março: Hoje, ao acordar, recordei o rosto dele e, por momentos, o amor ausentou-se. Chegou a hora de fazer do passado matéria e não pensamento. Embora às vezes me faltem uns braços para onde fugir, os teus nunca foram abrigo para mim.

Abril é um mês difícil. Muita chuva e viadutos mil. Descubro Irène Némirovski e tento ter calma.

19 de Abril: Não tenho tido muito tempo para ler. Não me sinto útil no meu trabalho (…). O mistério de quem aprende a andar de novo. Tenho medo de cair. Tento não pensar muito e usar as pernas. E todos os dias há aquele viaduto que tenho de atravessar a tremer. Salva-me o Tejo numa das linhas de comboio mais bonitas do mundo.

Maio. A feira do livro acalma a agitação e sou feliz no Parque Eduardo VII. Encontro três amores passados: um oferece-me uma fartura, o outro um livro e o terceiro, o maior, não sabe já sorrir-me. Song for Zula.
27 de Maio: As mãos das pessoas a mexer nos livros são mãos esfomeadas.
29 de Maio: O segredo dos casais felizes: eles oferecem livros a elas.

Junho. A feira do livro termina e já não corro. Mas não sou feliz. Leio É Assim que a Perdes e O Jogo Sério e não encontro em mim qualquer esperança, apenas um silêncio resignado e competente.

22 de Junho: Não me sinto ligada a nada. Não entendo nada. Não sei nada. Vim até aqui e li tanto para ficar nua.

Em Julho, leio muito, muito. De forma estéril: as letras não me arrebatam.

10 de Julho: A morte ou a paz?

Em Agosto e Setembro, há o Meco, bons amigos e muitos russos (uma receita infalível para os corações mais grelados) e a boa nova: vou finalmente trabalhar com livros.

Outubro, Novembro e Dezembro são meses que me pertencem por inteiro. Mistérios de Knut Hamsun.

O ano termina com a leitura da consciência de Zeno. “A vida assemelha-se um pouco a uma enfermidade: também procede por crises e por depressões. A diferença entre as outras doenças é que a vida é sempre mortal. Tratar da vida seria pretender tapar os orifícios do nosso organismo, considerando-os como feridas.
(…)
A saúde, para o homem, constitui um bem quimérico. Só pode pertencer ao irracional, que não conhece senão um progresso: o do seu próprio organismo. Quando a andorinha compreendeu que a única possibilidade de viver residia na migração, reforçou-se o músculo motor das suas asas, tornando-se-lhe a parte mais considerável do seu corpo. A toupeira enterrou-se e todo o seu ser se adaptou às necessidades de uma vida subterrânea. O cavalo fez-se maior, transformou a base. De certos animais ignoramos as metamorfoses, mas existiram, e nunca lhes prejudicaram a saúde.”

E o começo da escalada à Montanha Mágica. Uma odisseia literária como convém a um inverno rigoroso. Para o novo ano levo apenas este livro e um desejo: florir. Entretanto, vou à Holanda aprender como se faz.


Feliz Natal e um 2014 com novidades!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Há tantos anos que não se via uma reentrée literária assim

Tenho sempre uma lista de livros que quero adquirir e há muito tempo que não me acontecia querer tantas novidades.

Algumas já tenho e li: Mistérios de Knut Hamsun (Cavalo de Ferro), Abismo (Antígona), O Livro do Desassossego (Tinta-da-China), Alfabetos (Quetzal), o número 2 da Granta portuguesa (Tinta-da-China), o segundo tomo da História da Minha Vida do Casanova (Divina Comédia).

Outras são as que quero muito, já seleccionadas com um grande esforço: Dicionário dos Lugares Imaginários (Tinta-da-China), Atlas do Corpo e da Imaginação (Caminho), A Irmã (D. Quixote), O Barril Mágico (Cavalo de Ferro), Deixa Lá/Más Novas (Sextante) e A Potência do Pensamento (Relógio d'Água) e A Minha Luta (Ahab).

Ou mos oferecem pelo Natal ou vou roubar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Só acredito numa revolução dos falhados


"And worse I may be yet. The worst is not so long as we can say «This is the worst».
King Lear, Shakespeare

Não conhecia Jean Meckert nem nunca tinha ouvido falar dele. Felizmente, a Antígona publicou recentemente um livro de contos do autor para colmatar a minha ignorância. Gostei dos três contos, particularmente do que dá título ao livro.

"Se fordes simpáticos, dir-vos-ei que, para conhecer o sentido do mundo, é preciso que ele vos tenha mostrado o cu. E ainda não haveis descido tão baixo para isso.
Pela minha parte, venho de lá e orgulho-me disso. Estou blindado, imunizado para sempre. Vomitei para a consumação dos séculos; agora já nada me mete medo. As náuseas são para os que descem, e não para os que sobem.
À força de ficar sozinho no me canto, dei não sei quantas vezes a volta à minha caixa craniana, no interior, caminhando no tecto.
(...)
Lá no fundo aprendem-se coisas. No interior, passa-se o contrário da vida vulgar: quanto mais se desce, mais o panorama se alarga. As ideias mais famosas situam-se no último círculo do inferno."

Um livro que se recomenda pela autenticidade desempenada e genica com que expõe a miséria e a raiva de todos os falhados e lixados do mundo. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

nunca li a ficção deste senhor mas adoro as suas reflexões ensaísticas e sobretudo a sua grande humildade


"Por vezes, pergunto-me de que lado estou, se a minha história é aquela contada em Guerra e Paz ou na Metamorfose de Kafka, ou quem sabe, no Auto-de-Fé de Canetti. Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo retorno. Talvez, por isso, os escritores que mais me ensinaram tenham sido os que deram voz imparcial aos matizes mais diversos da vida e às paixões mais antitéticas, à fé e ao nada (...). Desencanto e desilusão não negam, antes filtram como uma peneira as gelatinosas mentiras, a retórica sentimental, a pieguice do coração, com a qual de bom grado enganamos os outros e nos enganamos a nós próprios: esse é talvez, um traço comum aos livros que, desmascarando o vazio em que assenta a realidade e os ouropéis com os quais se pretende dissimulá-lo, ajudam a olhar sem medo esse vazio e também a apercebermo-nos do amor que existe não obstante essa voragem."

Passagem de ano com bicicletas, neve e Van Gogh.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

noites brancas e diabólicas


Comecemos por dois mistérios. O lançamento do último livro de Knut Hamsun editado pela Cavalo de Ferro não figurava nos destaques da reentré literária dos principais suplementos culturais do país. Apanhou-me, portanto desprevenida quando fui à livraria buscar as novidades que planeara ler. A sua capa negra com uma imagem de Munch tinha os olhos postos em mim e não me restava senão devolver o olhar. São assim as peripécias de uma leitora fútil que tende a julgar os livros pela capa.

A chamada misteriosa continuou em casa. O livro estava impertinente por sair da estante para o meu regaço, tendo-me obrigado a adiar outras leituras urgentes. E assim começaram as minhas noites diabólicas com os Mistérios de Knut Hamsun. Não vou explicar o uso deste adjectivo, mas garanto que é o mais próximo desta experiência nocturna de leitura. Terminada a leitura diária, o livro continuava a comunicar comigo, oferecendo-me sonhos perturbados e nervosos. Sonhos que podiam ser tidos como pesadelos, não fosse a sua natureza branca. Só depois de terminar a leitura do livro, li as habituais citações da contracapa. “Mistérios é tão próximo e tão inquietante quando o nosso sonho (ou pesadelo) da noite passada” (New York Times). Que me lembre, nunca tal comunicação inconsciente me tinha acontecido com um livro. Uma proximidade inquietante.

Knut Hamsun é tido por muitos, sobretudo grandes escritores, como um dos maiores. A julgar pela capacidade de me perturbar, parece-me um título merecido. De Mistérios, disse Henry Miller: “está mais próximo de mim do que qualquer outro livro que eu tenha lido”. Talvez Miller tenha sentido a mesma empatia disruptiva que eu senti por Johan Nilsen Nagel, o misterioso estrangeiro que sem nenhuma razão aparente se instala por um período breve numa pequena cidade costeira da Noruega.

Nagel é um homem em luta, uma alma que não alinha com nada, desconfiando de tudo e todos, sobretudo dos «bons sentimentos» e dos grandes homens. «A vida é uma luta contra os monstros que se escondem nos recantos do coração e do cérebro». Nagel não é, como Hamsun disse da personagem, um homem-tipo. Aliás, o que o exaspera é o congelamento dos homens em subjectividades típicas. Nagel ri quando devia chorar, é honesto quando deve ser desonesto e vice-versa. É um homem em desacordo e com os nervos em franja, como qualquer moderno que se preze, movido pelo desejo de fazer algo diferente, algo que estilhace a superfície polida da vida embalsamada nos valores confortáveis da burguesia.

A curta estadia do estranho vai pertubar a paz podre da comunidade. Nagel, com uma enigmática capacidade intuitiva, funcionará como um espelho negro onde os habitantes da cidade podem ler o reflexo dos seus instintos e desejos reprimidos. Quanto ao elemento estranho, esse está condenado à autodestruição. A sua mania de contrariar desemboca na melancólica constatação de que tudo é hipocrisia e ele não é melhor que ninguém. É o preço a pagar por um «bom» coração e uma cabeça volátival, errante.

Sou, como Nagel, uma alma atormentada. Não me acho melhor que os outros mas a maioria exaspera-me com as suas mentiras e hipocrisias. Sou incapaz de reconhecer uma autoridade e não consigo não desafiar. Desde pequena, se alguém me diz que não posso fazer ou dizer algo, trato imediatamente de o fazer ou dizer. Tenho uma personalidade leal mas não houve um amor que eu não traísse. Sinto um profundo desacordo com a vida e a forma como se vive. Embora pessimista, tenho sempre viva a esperança que a vida rompa a sua imobilidade e aflore sobre o gelo da indiferença, exultante.


Tudo isto que foi dito fica aquém do livro de Knut Hamsun. Acontece-me sempre com os livros maiores, aparentados e diabolicamente bem escritos: falta-me o génio para falar do génio.

terça-feira, 5 de novembro de 2013


Terminei ontem de ler. E assim que li a última página voltei imediatamente à primeira. Não vou decifrar todos os mistérios deste livro diabólico mas quero atravessar de novo, com todo o vagar, os seus enigmas.

sábado, 2 de novembro de 2013

Para dançar



“Tenía la impresión de que su cabeza tan pronto era una parada en el camino de otras cabezas, como una diana a la que otros apuntaban, o incluso un aparato que en parte le escapaba, teleguiado por extraños – sus verdaderos propietarios – que lo hacían funcionar y pensar a su antojo. Fuera cual fuese la explicación, por singular y abracadabrante que fuese, lo importante es que ya no era el dueño, y que apenas si estaba «al corriente», o poco más. Ni siquiera sabía «dónde meterse en su cabeza».”

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Leitura recomendada


"Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis por que me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que me façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque."

Epifanias de uma alma pequena


Acredito na existência da alma. Acredito porque já senti a minha a querer partir-me o peito algumas vezes. É uma alma curiosa e inquieta e não aceita confinar-se a nada, recusa convenções e devoções e nem sempre obedece aos meus desígnios.

As vantagens e as despesas de uma alma deste tipo são conhecidas. O bem e o mal coincidem no mesmo ponto, a imaginação empática. Gosta-se demasiado de visitar e imaginar toda e qualquer alteridade, pois o que interessa é abarcar a vida nas suas múltiplas manifestações e contradições.

Uma vez ofereceram-me um workshop de Reiki. Acontecia a um sábado e, apesar da generosidade da oferta, o corpo clamava por praia. Após uma longa hesitação, acabei por me levantar bem cedo e ir ao workshop, de algum modo convencida que se não abdicasse de um dia de Verão, a minha alma estaria condenada a um materialismo opressivo. Aguentei a manhã e a tarde no workshop, contrariando ora a minha vontade de fugir, ora o riso convulsivo.

No entanto, o reiki acabou por me oferecer duas epifanias. A primeira aconteceu durante o workshop. Todas as mulheres que frequentavam o mesmo, à excepção de mim, tinham alguma doença complicada. Uma deles ficou indignada, quando um dos mestres lhe deu a ler o significado espiritual da síndrome de Crohn: parece que só acontece aos lambe-cus. E foi então que a certo momento, eu vi, eu soube: as quatro mulheres que ali estavam, tinham trocado o sol e os pés descalços sobre a areia, porque estavam perdidas e precisavam desesperadamente de um sentido para a vida. Eu inclusive.

A segunda aconteceu no dia seguinte ao workshop. Depois de iniciada ao reiki, há que meditar uma hora durante 30 dias. Nunca consegui meditar mas como as mãos aqueciam realmente, decidi tentar. Pus o CD com os sininhos e comecei os exercícios sentada na cadeira. Quinze minutos depois estava deitada na cama a aldrabar todos os exercícios e fui forçada a ser sincera comigo. Admiti que não conseguia meditar, que o reiki fazia muito bem a muita gente mas a mim só me tirava os pés do chão para a cama e que durante o tempo que ali estivera, não conseguira esvaziar a mente pelo constante lamento de estar a desperdiçar tempo que podia gastar a ler. Senti-me muito mais leve depois disto e aproveitei a vela para alumiar a leitura dessa noite e meditar nos pensamentos e acções das personagens que então me ocupavam.

Este sábado fui para a Malveira da Serra. Perto do Cabo da Roca, acontecia uma “festa esotérica”, segundo uns amigos. Como não me apeteciam as calçadas lisboetas, fui. Numa “casa encantada” discutia-se a espiritualidade e o futuro da humanidade, noutras divisões faziam-se massagens e leituras de tarot, mas os caminhos húmidos da serra distraíam-me. Gosto dos caminhos misteriosos da serra, da humidade que os protege, do silêncio dos meus passos.

Houve depois uma aula conjunta de chi kuan, que comecei a fazer mas rapidamente me aborreci, pois que me apetecia fumar e aproveitar uma cadeira perfeita para olhar o mar. Gosto de estar deitada sem fazer nada, fumando o tempo. Gosto de deitar os meus olhos no mar.

Despertei desta contemplação, sentindo uma presença a meu lado. Uma galinha, de olho verde-inquieto aproximara-se, decidida a estabelecer conexão comigo. Olhou-me nos olhos, meneando a cabeça como um ponto de interrogação até se fartar e partir. Fiquei depois observando as peripécias das três galinhas que ali viviam, encantada com os seus movimentos oscilantes e as excitações que as moviam. Concluí que as galinhas, apesar de estúpidas, nunca se entendiam e que é impossível não nos divertirmos com os seus voos arcaicos.

A caminho de Lisboa, encontramos uma tasca na aldeia de Juso. Escolhi certeiramente o sítio pelo toldo e pelo nome. Lá dentro, tive a oportunidade de conversar com alguns sorrisos enrugados, descobrir que também existe bom medronho no centro e provar tordos pela primeira vez. Gosto de tascas perdidas no tempo e no espaço e a minha intuição não costuma falhar quando se trata de encontrar uma. Lá dentro, encontro sempre uma pureza que nunca consegui traduzir em palavras. Uma deficiência que felizmente consegui suplementar com a leitura das aventuras do Augie March: primeiro tem de se testar aquilo de humano com que se consegue conviver. E se o mais elevado estiver naquela taberna vazia e abafada, com as moscas, o rádio quente a zumbir entre jogadas e a cerveja de Sox Park, o que poderá fazer-se senão aceitar a mistura e dizer que a imperfeição é sempre a condição do que encontramos? Do mesmo modo, os meus olhos arranhados verão sempre a grande beleza arranhada. E deuses podem aparecer em qualquer lugar”.

Regressada a Lisboa, a noite alongou-se até desembocar na madrugada suja do Tejo. Gosto das manhãs fantasmáticas que descolam do rio com uma imponência demorada. Gosto dos fantasmas que se abeiram do rio, das mãos sujas que mendigam cigarros e dos olhares vítreos dos peixes que se extraviam da água para um balde triste. Gosto dos barcos que assombram o horizonte e dos cacilheiros que cortam a paz morta das águas. E do céu de Lisboa que nem William Turner conseguiria reproduzir.

Regressei a casa de eléctrico, já a manhã ia alta e embriagada. Com um casal de franceses, descobri que as pessoas que lêem muito ficam com papos nos olhos quando envelhecem. Como se as letras inchassem debaixo de olhos que não souberam olhar o mundo sem o ler. Ao despedir-me deles, riam muito, contentes por saber que Madame Bovary sobrevivia afinal alegre em Lisboa.


Deitei-me por fim com mais uma epifania: tenho uma alma pequena com uma vontade imensa de andar por aí, simultaneamente meditabunda e alegre. Misteriosos são os caminhos de uma alma que se sente atraída por tudo o que vive e se agita, quer se trate de galináceos, águas ou tascas perdidas no espaço e tempo. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Cosac & Naify


Estou apaixonada por uma editora.

Este ano pude passar algumas noites com 2 livros da colecção Prosa do Mundo da Cosac & Naify: Niels Lyhne e Thérèse Desqueyroux. Foram noites de euforia. Primeiro, o aspecto sensorial do livro: livros de capa dura, com sobrecapas lindas, papel macio, que apetece deitar no colo. Depois, cada edição tem apresenta textos introdutórios de outro autor (no caso de Niels Lyhne, o brilhante ensaio «As Moedas da Vida» de Claudio Magris; em Thérèse D., o belo prefácio de Carlos Drummond de Andrade, tradutor do romance).  Como apêndice, o livro de Mauriac acrescenta também a conferência «O Romancista e seus personagens», proferida pelo autor em 1932. E para terminar tão faustosa refeição, um bombom final: sugestões de leitura.

A Cosac & Naify é uma editora brasileira com pouca ou nenhuma representação em Portugal. A minha amiga carioca diz-me que são livros de luxo. E então pus-me a pensar no mercado editorial português e nas raras vezes em que um livro me delicia pela sua faceta de objecto e pela edição cuidada. Chego à conclusão que não temos nenhuma editora de luxo, apesar de algumas esporádicas edições. E parece-me óbvio que com as recentes inovações do mercado editoral e a profusão de ebooks, este sector terá de evoluir também por aí, à semelhança do vinil.

Embora reconheça as vantagens de uma biblioteca leve num Kindle, acredito que jamais deixaremos de ser uma cultura do livro: este será sempre um objecto erótico para os seus amantes dedicados.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Qual romance você está lendo?

Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão.
E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura --ficção literária.
Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria que concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada.
Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista "Science" (migre.me/gkK9J), "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" (ler ficção literária melhora a teoria da mente), de David C. Kidd e Emanuele Castano.
Uma explicação. Na expressão "teoria da mente", "teoria" significa "visão" (esse é o sentido originário da palavra). Em psicologia, a "teoria da mente" é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos.
A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais. Obviamente, enxergar o que os outros sentem e pensam é uma condição para ter uma vida social ativa e interessante.
Existem vários testes para medir nossa "teoria da mente" --os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA, testes de interpretação da mente do outro pelo seu olhar ou pela sua expressão facial. Em geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a inquietante indiferença ao destino dos outros da qual dão prova psicopatas e sociopatas.
Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada.
Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. Mais duas observações.
1) A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada (hoje não tenho tempo, mas "já li muito na adolescência"): o que importa não é se você leu, mas se está lendo.
2) A pesquisa constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens.
"Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos cujas vidas interiores devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso."
"Contrariamente à ficção literária, a ficção popular (...) tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente."
Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e repleto de significações secundárias (Roland Barthes).
Na hora de fechar esta coluna, na terça-feira, encontro a mesma pesquisa comentada na seleção do "New York Times" oferecida semanalmente pela Folha. A jornalista do "Times" pensou que a leitura literária, ajudando-nos a enxergar e entender os outros, facilitaria nossas entrevistas de emprego ou nossos encontros românticos.
Quanto a mim, imaginei que, na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato, não esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo? E espero que o candidato mencione um livro que conheço, para verificar se está falando a verdade.
Contardo Calligaris
Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas na versão impressa de "Ilustrada".

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

a lei do horror e da beleza


“Uma pessoa pode nunca associar duas ideias de modo que mostrem o seu horror, o horror de cada uma delas, e desse modo nunca o conhecer durante toda a vida. Mas também pode viver instalada nele se tiver a má sorte de associar continuamente as ideias certas. Por exemplo, aquela rapariga que vende flores diante da sua casa. Não há nada de terrível nela, por si só não pode infundir terror. Pelo contrário. É até muito atraente. E simpática e amável. Fez festas ao meu cão. Comprei-lhe estes cravos (...). Mas aquela rapariga pode infundir horror. A ideia daquela rapariga associada a outra ideia pode infundir horror. Não acredita? Ainda não sabemos qual é a ideia que falta, a ideia adequada a que isso aconteça. O seu par espantoso. Mas é certo que existe. Há-de haver. É questão de aparecer. Também pode ser que nunca apareça. Poderia ser, sabe-se lá, o meu cão. A rapariga e o meu cão. A rapariga com a sua longa cabeleira castanha e as suas botas altas e as suas compridas pernas compactas e o meu cão sem a pata esquerda (...). Que o cão ande comigo é normal. É necessário. É estranho, se quisermos. Quer dizer, os dois juntos. Mas não há horror nisso. Se o cão andasse com ela seria mais contencioso. Seria talvez horroroso. O cão não tem pata. Se andasse com ela, certamente não a teria perdido numa rixa estúpida depois de um jogo de futebol. Isso é um acaso. Ossos do ofício de um cão de um homem coxo. Mas com ela talvez a tivesse perdido por outra razão. O cão não tem pata. Com mais motivo. Com mais gravidade. Não por acaso. É difícil imaginar aquela rapariga metida numa luta. Talvez a tivesse perdido por causa dela. Para que este cão tivesse perdido a pata pertencendo àquela rapariga, teria talvez de ter sido ela a amputar-lha. Como poderia perder a pata um cão bem protegido, cuidado e querido por uma rapariga tão atraente e simpática que vende flores? Essa ideia é horrível. É horrível a imagem daquela rapariga a cortar a pata ao meu cão com as suas próprias mãos; vendo-o com os próprios olhos; assistindo a tudo.”

Um livro inócuo


Os Irmãos Karamázov


Os livros de Dostoiévski funcionam como um espelho onde leio as minhas perturbações interiores e saio mais esclarecida.
Como já disse várias vezes, depois de ter lido Crime e Castigo tornou-se muito complicado encontrar um livro bom capaz de me satisfazer.  Depois de errar por outros livros, decidi que talvez Os Irmãos Karamázov conseguissem destronar o sortilégio de Raskólnikov.
Reflectindo a mesma preocupação essencial do Crime e Castigo, este romance abdica da ideia de uma redenção final. O conflito trazido pelo nihilismo torna-se aqui mais cru e irreconciliável. Desta feita, nem a religião e o amor salvam as personagens das suas paixões furiosas.
Para mim, Os Irmãos Karamázov lê-se como um policial existencialista magistral. Os primeiros dois tomos colocam-nos em suspense, avisando-nos de um crime que será cometido. Ou foi já cometido? Não tendo conseguido destronar O Crime e Castigo, este livro ajudou de algum modo a clarificar o móbil do crime, isto é, o problema do nihilismo tal como o entendia o escritor russo. Em ambos os romances, as vítimas são usurários, pessoas que aumentam os seus capitais à custa da sua desonestidade para com terceiros.
A afecção principal que dominava Raskólnikov era o orgulho ferido. A fúria de Dimitri Karamázov e a indiferença cultivada de Ivan Karamázov são irmãs desse orgulho maculado por uma injustiça social mascarada sob a ideologia do progresso moderno. Os arrebatamentos maníacos destas personagens testemunham uma época de transição em que as premissas mundo antigo chocam com a modernidade que se estabelece. «Honra», «consciência», «dever» tornam-se meras palavras aristocratas que os modernos deixam de compreender, porque não podem conciliar-se com os objectivos mercantilistas.

Aqui todos acabam destroçados, acossados por febres nervosas e raiva. A vida moderna exige a falência de todos os valores para que nenhum totalitarismo se possa opor a um mercado livre. Acontece que os valores tradicionais, apesar de limitarem a potencialidade individual, asseguravam a comunidade. O sistema capitalista requer a premissa de que tudo é permitido, tendo como efeito colateral uma certa institucionalização do crime que torna todos criminosos, tanto os que alinham como os que desalinham. Num mundo que perdeu o valor da promessa, «a palavra de honra», ninguém se salva. Quem se continua a guiar por tais valores, é tomado por louco ou idiota, vociferando palavras que já ninguém entende.

Gertrud