domingo, 27 de março de 2016
Ítaca
Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poseídon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se a emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poseídon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.
Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.
Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.
E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.
Konstandinos Kavafis
A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga.
«Então, subitamente, o
ronco cavo, prolongado, duma sirene irrompeu através da janela aberta e inundou
o quarto quase às escuras – era um grito de dor, uma dor exigente, negra, sem
limites; um grito negro de pez e glabro como o dorso de uma baleia e carregado
com as paixões de todas as marés, com a memória de todas as viagens, as
alegrias, as humilhações: o mar estava a gritar. Com toda a loucura e
cintilação da noite, a sirene ressoava, transportando ao largo, do centro morto
do mar, toda a sua sede do néctar negro que inundava aquele quartinho.
Tsukazaki voltou-se com
uma rápida torção dos ombros e olhou lá para fora, para a água.
Nesse mesmo instante
tudo quanto ficara acumulado no peito de Noboru desde o seu primeiro dia de
vida se libertou e consumou. Até ao ressoar da sirene tudo tinha sido um esboço
apenas, uma tentativa. Preparados os mais finos materiais, tudo estava pronto,
convergindo para o momento da revelação. Mas um elemento faltava: o poder que
transfigurasse os fragmentos esparsos da realidade num palácio radioso. Então,
com a sirene, as partes juntaram-se. Formando um só todo, havia a lua e um
vento de febre, a carne excitada de um homem e duma mulher, suor, perfume, as
cicatrizes duma vida de mar, a confusa lembrança de portos de todo o mundo, um
buraco na parede que não permitia respirar, o coração de ferro dum rapazinho –
mas estas cartas tiradas de um baralho cigano estavam espalhadas, não mostravam
nada. A ordem universal, que o grito da sirene finalmente estabelecera,
revelava um círculo invencível de vida – as cartas emparelhavam-se: Noboru e
mãe – mãe e homem – homem e mar – mar e Noboru…
Estava perturbado,
molhado, com êxtase. Tinha a certeza de ter visto desenrolar-se um novelo,
cujos fios traçavam uma figura sagrada. E isto tinha que ser protegido: tudo
quanto sabia é que era o seu criador de treze anos.
– Se isto alguma vez
for destruído, será o fim do mundo – murmurava, quase a sonhar. Acho que faria tudo para o impedir, por mais
terrível que seja!»
Mirror
I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only thruthful –
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
Sylvia Plath
Que Deus nos dê a todos nós, a nós os bebedores, uma morte tão suave e tão bela!
“Andreas já se tinha esquecido há muito tempo do seu
apelido. Agora que estava a rever os seus documentos caducados, lembrou-se que
se chamava Kartak: Andreas Kartak. Era como se depois de muitos anos de tivesse
descoberto a si próprio.
Ainda assim, sentia-se de certo modo irritado com o
destino, por este não lhe ter enviado de novo, como da última vez, um homem
gordo de bigode e com feições infantis, que lhe possibilitaria ganhar mais
dinheiro. Pois não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos
milagres, quando estes acontecem de uma forma sucessiva. Sim! A natureza do
Homem é tal, que se este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido
ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu
prometer. São assim os Homens – e podia esperar-se outra coisa de Andreas? O
resto do dia, passou-o portanto em várias tabernas. Resignou-se com o facto de
o tempo dos milagres que vivera pertencer ao passado, definitivamente ao
passado, e de ter regressado aos seus velhos tempos. Decidido a viver a vida de
uma lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam – os abstémios nunca
saberão o que isso é! –, Andreas dirigiu-se novamente às margens do Sena, para
debaixo das pontes.”
sábado, 27 de fevereiro de 2016
morfolofalando
adeus pêlo lento. adeus Micas de luas exactas.
adeus estilhaço do teu olhar no meu gosto.
adeus o que ouço incendiado e beijo às avessas e inútil.
adeus aquele ruído do sexo nos lençóis do retrato.
adeus o que em mim sabe sacramamentado na boca.
adeus o que dói no talento frágil do sangue
ou é sobretudo perder-te cem por cento na cama.
adeus estilhaço do teu olhar no meu gosto.
adeus o que ouço incendiado e beijo às avessas e inútil.
adeus aquele ruído do sexo nos lençóis do retrato.
adeus o que em mim sabe sacramamentado na boca.
adeus o que dói no talento frágil do sangue
ou é sobretudo perder-te cem por cento na cama.
merdaputice de nutrição revolucionariamentemerda.
ah (meus caros) adeus na retrete.
(mínimo e sujo) pouco de futuro
por entre o mau cheiro das nutridas granadas.
ah (meus caros) adeus na retrete.
(mínimo e sujo) pouco de futuro
por entre o mau cheiro das nutridas granadas.
adeus antes do cansaço de parecer só macho
ou fêmea ou pederasta ou português.
adeus dona Verónica à janela morrendo um
astro entre o pudorinado das pernas.
dona Verónica o que é que importa? para quê
as travessas quando as criadas já não amanhecem?
as horas cercadas? a estranha madeira dos gestos?
aquele gajo que me mandou para a puta que o pariu?
a altura do acaso nos pulsos ou aquela canção que já não presta?
para quê dona Verónica? para quê?
ou fêmea ou pederasta ou português.
adeus dona Verónica à janela morrendo um
astro entre o pudorinado das pernas.
dona Verónica o que é que importa? para quê
as travessas quando as criadas já não amanhecem?
as horas cercadas? a estranha madeira dos gestos?
aquele gajo que me mandou para a puta que o pariu?
a altura do acaso nos pulsos ou aquela canção que já não presta?
para quê dona Verónica? para quê?
claro que só sei o não do que tanto acontece:
telegrama de espanto
rasto de cornos
loucura de nata.
dona Verónica não vale a pena (garanto)
a lua se pôr de prata.
telegrama de espanto
rasto de cornos
loucura de nata.
dona Verónica não vale a pena (garanto)
a lua se pôr de prata.
para que serve essa bandeira metade camisa metade salsa?
não será melhor encher por fora todos os sacos?
ahhhhh (meus amigos) trago comigo a desfraldada
mágoa dum animal secreto: ânsia tesa no sexo.
escondo-me dos guardas e da fomerda dos outros.
são uns sacanas todos
pedem-me o passaporte que mijado já não serve.
não será melhor encher por fora todos os sacos?
ahhhhh (meus amigos) trago comigo a desfraldada
mágoa dum animal secreto: ânsia tesa no sexo.
escondo-me dos guardas e da fomerda dos outros.
são uns sacanas todos
pedem-me o passaporte que mijado já não serve.
adeus amigos. vou ser parecido a mim próprio
com fulaninhas de leitamas e os pés em flash-back.
com toucinho e mostarda e bem sentado à mesa.
enrascado nas calças (é certo) mas de paladar correcto
para reclamar o prato que já não faz falta.
e se me sai a lotaria vou p'rá cama com
os repolhos da criada e compro mamas na praça.
assim mesmo (raios me partam) semelhante
de maçada e caspa com licença e bagaço.
com fulaninhas de leitamas e os pés em flash-back.
com toucinho e mostarda e bem sentado à mesa.
enrascado nas calças (é certo) mas de paladar correcto
para reclamar o prato que já não faz falta.
e se me sai a lotaria vou p'rá cama com
os repolhos da criada e compro mamas na praça.
assim mesmo (raios me partam) semelhante
de maçada e caspa com licença e bagaço.
mas (concerteza) nojento e parecido
de baba e paisagem nesta chatice com céu e gravata
em tudo que não me importa.
sem dúvida que trago o bilhete
com a alma descascada na paragem do autocarro.
de baba e paisagem nesta chatice com céu e gravata
em tudo que não me importa.
sem dúvida que trago o bilhete
com a alma descascada na paragem do autocarro.
e estou-me nas tintas: libertarde e caspa.
ou espermaneço rasca no tesão duma maneira
que certamente já não se pode.
ou espermaneço rasca no tesão duma maneira
que certamente já não se pode.
adeus Ferreira e a tua sociedade plutocaca
com meninos sacanas e donzelas de fina lata.
mas contigo Fagundes é um tanto diferente:
eras pela revolução pela limpeza pela luta
e fazias estátuas de alegria e
mapas de pura aragem sobre as mesas das tascas.
é claro que ouço: os militares marcham
a escada sobe e a rua passa.
adeus Juca prémio de ti mesmo no
calendário da tua presença. foste para mim o espaço dum
espelho exactamente atrás da porta. sabias?
e um estupor também.
adeus Juca pela clara indecência
com que te puseste na minha memória.
sei que estás vivo no céu do teu auto-retrato
com gajas boas e as cricas e as fufas
e as garotas inventadas de dias e buracos.
e trazes o teu fantasma cornudo de lume
na ocasião em que fornicas. adeus amigo.
com meninos sacanas e donzelas de fina lata.
mas contigo Fagundes é um tanto diferente:
eras pela revolução pela limpeza pela luta
e fazias estátuas de alegria e
mapas de pura aragem sobre as mesas das tascas.
é claro que ouço: os militares marcham
a escada sobe e a rua passa.
adeus Juca prémio de ti mesmo no
calendário da tua presença. foste para mim o espaço dum
espelho exactamente atrás da porta. sabias?
e um estupor também.
adeus Juca pela clara indecência
com que te puseste na minha memória.
sei que estás vivo no céu do teu auto-retrato
com gajas boas e as cricas e as fufas
e as garotas inventadas de dias e buracos.
e trazes o teu fantasma cornudo de lume
na ocasião em que fornicas. adeus amigo.
poooooooooooooooooorrrrrrraaaa: tudo p'ró penico.
nada de adjectivos nem gramamamática
em nenhuma ocasião.
nada de adjectivos nem gramamamática
em nenhuma ocasião.
adeus velhos amigos cozinhados de audácias
e caras enfeitadas com segredos de pissas.
não vou partir nem ficar. nem cus nem tomates.
nada de ilusões. não há muito para desentender:
vamos ao médico ou não temos pressa.
e caras enfeitadas com segredos de pissas.
não vou partir nem ficar. nem cus nem tomates.
nada de ilusões. não há muito para desentender:
vamos ao médico ou não temos pressa.
mas talvez não se passe de novo do povo ou do insecto
no fato
com a verdade pouca na máquina de lavar roupa.
talvez com cagaço e azeite e ocidental e direito.
ou mamas com grão mesmo frias e da véspera.
será que o essencial fica emprestado ou no céu do quarto
ou então no assombro de perfil com água errada na gaveta?
ou mesmo que haja outra lâmpada no estilo do gosto
o mais importante (acredita) vai dos dedos até à garganta.
depois deito-me usado na cama:
cachorro coitado do rabo até à cabeça
com esta puta da vida que nunca me basta.
no fato
com a verdade pouca na máquina de lavar roupa.
talvez com cagaço e azeite e ocidental e direito.
ou mamas com grão mesmo frias e da véspera.
será que o essencial fica emprestado ou no céu do quarto
ou então no assombro de perfil com água errada na gaveta?
ou mesmo que haja outra lâmpada no estilo do gosto
o mais importante (acredita) vai dos dedos até à garganta.
depois deito-me usado na cama:
cachorro coitado do rabo até à cabeça
com esta puta da vida que nunca me basta.
António Aragão
PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC.
PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC.
Vós, os mesquinhos e os tacanhos de espírito
Nunca tinha lido nada de Flannery O’Connor. Durante
seis anos, olhei de tempos a tempos a lombada de UM BOM HOMEM É DIFÍCL DE
ENCONTRAR, concordante e de sorriso irónico, mas só recentemente me atrevi a
tirá-lo da estante e a lê-lo.
Não posso dizer que tenha sido uma leitura feliz – os
dez contos parecem retirados de um velho testamento sulista, como um catálogo
de pecados capitais e outros menos capitais mas nem por isso menos fatais. A
teimosia, a soberba, a luxúria, a avareza, a cobiça, o egoísmo e o racismo
repetem-se nas várias histórias e também as personagens se assemelham de uma
para outra. As proprietárias das fazendas tendem a ser mulheres sozinhas, de
espírito tacanho e contraído, rodeadas por uma empregada ou amiga quadrilheira
e por uma filha embirrenta e antipática. Na maioria das vezes, a desgraça chega
anunciada por um visitante estranho que se apresenta como pessoa simples e
afável (oh, que um deus qualquer nos mantenha a salvo dos simples e da «gente
sã do campo»).
Os afectos produtivos ocupam pouco espaço e todos
parecem infectados por ideias fixas, quais mulas arreigadas nas suas crenças e
preconceitos. Não simpatizamos com ninguém em particular e pressentimos a
desgraça – as situações descambam nos contos de O’Connor e de que maneira! -,
vertiginosa e inclemente que se aproxima. Ainda assim, imploramos alguma
misericórdia mas é tarde demais: «já nada é como costumava ser, o mundo está
quase podre». No meio de tantas desgraças, somos de quando em brindados com
frases assombrosas: «Sou tão bom como tu em qualquer dia da semana» ou «Teria
sido uma boa mulher se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da
vida dela.»
Todos os contos são geniais – Flannery O’Connor é
mestra na sugestão de atmosferas e psiques – mas a minha predilecção vai para
dois deles, O Preto Artificial e A Gente Sã do Campo. Em ambos, o castigo
abate-se sobre a soberba das personagens. O
Preto Artificial é único conto com um final mais luminoso, com a
sobranceria do avô e do neto a serem derrotados pela misericórdia.
Olhavam
para o preto artificial como se se confrontassem com um mistério profundo, um
monumento à vitória de outrem que os reunia na sua derrota comum. Ambos podiam
sentir o efeito do mistério dissolvendo os seus antagonismos como um acto de
misericórdia. Mr. Head nunca soubera antes o que era o sentimento de
misericórdia porque sempre fora demasiado bom para precisar dela, mas
reconheceu-a imediatamente. Olhou para Nelson e compreendeu que devia dizer uma
coisa qualquer que demonstrasse que a sua sabedoria não desaparecera, e no
olhar que recebeu do rapaz identificou uma necessidade imensa dessa garantia.
Os olhos de Nelson pareciam implorar-lhe que explicasse de uma vez por todas o
mistério da existência.
Mr.
Head abriu a boca para fazer uma declaração solene e ouviu a sua própria voz a
dizer: «Não têm cá pretos que cheguem, precisam de criar um preto artificial.»
Depois
de um segundo o rapaz acenou afirmativamente com um estranho tremor na boca e
disse: «Vamos para casa senão ainda nos perdemos outra vez.»
Em suma, Fannery
hits you hard!
Rimbaud, meu amor
Os anos passam. Mais de duas décadas a ler-te e,
embora me continue a acercar das tuas palavras com o mesmo sentimento de
solenidade profana, parece-me que a cada novo encontro adivinho um pouco mais
do teu mistério.
UMA CERVEJA NO INFERNO
Outrora,
se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se
abriam, em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma
noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a.
Armei-me
contra a justiça.
Fugi.
Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, foste vós a guarda do meu tesoiro!
Consegui
destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da
besta feroz. Estranguladas!
E chamei os carrascos para morder,
na agonia, a coronha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia,
mergulhar em sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estiracei-me na lama. Sequei
ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera trouxe-me a terrível
risada do idiota.
Ora, ultimamente, prestes a lançar à
cara do planeta o derradeiro estalo, lembrei-me de ir buscar a chave do festim
(talvez me regressasse o antigo apetite?).
Caridade – é a chave. Uma inspiração
destas prova que sonhei!
«Permanecerás hiena, etc…», ruge o
demónio que me coroava de tão amáveis papoilas. «Morre feliz ao lado dos teus
apetites, com todo o teu egoísmo, com todos os melhores pecados capitais.»
Ah! tomei tanto disso… – Mas, meu
caro Satã, não carregueis tanto o sobrolho! e enquanto esperais ainda uma que
outra miséria vinda atrasada por motivo de obras, vós, que apreciais no
escritor a mais selecta ausência de faculdades descritivas ou pedagógicas, aqui
tendes para já, especialmente arrancadas, estas odiosas folhas do meu canhenho
diário de danado.
Susan Sontag
«Pelo contrário, para mim teria sido um esforço
enorme não pensar no assunto. A coisa mais fácil do mundo é pensar no que está
acontecendo com a gente. Você está lá, no hospital, pensando que vai morrer, e
não pensar sobre isso teria exigido de mim um desprendimento enorme (…). Olha,
o que eu quero é estar presente por inteiro na minha vida – ser quem você é de
verdade, contemporânea de si mesma na sua vida, dando plena atenção ao mundo,
que inclui você.
(…)
Uma
vez me disseram que você costumava ler um livro por dia.
Eu leio em excesso e de maneira muito descuidada.
Adoro ler, do mesmo modo que os outros gostam de ver televisão, e de certa
forma, eu adormeço assim. Se estou deprimida, abro um livro e me sinto melhor.
Como
escreveu Emily Dickinson: “Flores e livros, confortos da tristeza”.
Exacto. Ler é a minha diversão, a minha distracção,
meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo,
enrosco-me a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo.
(…)
O livro que me fez querer ser escritora foi Martin Eden, de Jack London – e tem um
suicídio no fim! (…) Comecei a ler quando tinha três anos. O primeiro romance
que me comoveu foi Os Miseráveis –
chorei, solucei, lamentei. Quando você é uma criança leitora, acaba lendo os
livros que estão pela casa. Lá pelos treze anos, li Mann, Joyce, Eliot, Kafka,
Gide – basicamente os europeus.
(…)
Tive sorte o bastante por ter um filho e ser casada
quando ainda era muito jovem. Já fiz isso, agora não preciso fazer mais. Mas
isso não é um exemplo. Escolhi não me casar mais, já tive um filho – então não
vou sentir falta dessa grandiosa experiência que é ser mãe – e decidi ter uma
vida autónoma, que é cheia de inseguranças, aborrecimentos, ansiedade,
frustrações e envolve longos períodos de castidade. Achei que era isso que eu
queria… mas isso não é um modelo, é apenas a minha própria solução, e só a
justifico para mim mesma por causa dos meus projectos de vida.
(…)
Existe hoje uma pobreza de espírito tão
desencorajadora em relação à alta arte moderna que não sinto vontade nenhuma de
entrar na briga escrevendo um ensaio. No final dos anos sessenta tive a
sensação de que a batalha estava vencida, mas foi uma vitória passageira.
Quando ouço alguém me dizer que não gosta de Dostoiévski porque ele é caótico
demais, digo “Espere aí!” Você poderia me dizer que o motivo disso é o facto de
as pessoas estarem cansadas e precisarem descansar um pouco. Mas eu me
pergunto: Por que elas deveriam descansar? [rindo]
Conversas no Cais de Sodré
- O Herberto Hélder salvou-me a vida.
- Mas literalmente?
- Literalmente, sem dúvida.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Graça Pina Morais (1929-1992)
Descobri uma grande escritora portuguesa, lastimosamente
olvidada: Graça Pina Morais.
Li A Origem e
pasmei perante a sua mestria na composição da densidade psicológica das
personagens que habitam a Casa. Arquétipos de uma ruralidade ainda viva, todas
tão humanas e propensas à fatalidade, todas tão amáveis apesar das suas
fragilidades. A atmosfera e as personagens recordaram-me um pouco o realismo
mágico de García Márquez. Mas só um pouco, pois ainda que apresentada de uma
forma fantástica, o que prevalece nestas páginas é uma viagem ao centro da alma
humana, naturalmente rica em sombras e declives.
Os comentários narrativos revelam uma inteligência
emocional superior, embora por vezes mais descuidada do estilo, e o modo
clarividente como Graça Pina Morais analisa e desmonta a dualidade do artista,
na figura de João, só pode indicar que esta escritora viveu esplendorosamente
toda a vida do espírito artístico.
Uma
das características da Casa era a sua profusão de divisões inúteis. Tinha, pelo
menos, umas quatro salas de estar, onde, aliás, ninguém estava: aquela era uma
dessas. Compunham o mobiliário uma velha mobília de verga e uma cadeira de
balanço, que constituía o encanto de todas as crianças que haviam crescido na
Casa. Numa das paredes estava pendurado um grande espelho, com uma ingénua
pintura num dos cantos, que representava uma série de patos nadando num lago
azul berrante.
Quando
Catarina entrou, João mirava-se no espelho, facto que lhe acontecia com
frequência sempre que deparava com uma superfície espelhada, não porque se
achasse particularmente bonito, mas porque gostava de se avaliar. Catarina
parou e João lançou-lhe um olhar irritado, por ter sido surpreendido em
intimidade consigo mesmo. Não disse uma palavra. Através da porta encostada,
ouviam-se as vozes das tias de João, que chegavam até eles em surdina, vindas
da sala de jantar.
–
Estavas a ver os patos ou estavas a admirar-te? – perguntou Catinha.
–
Estava a admirar-me, sem admiração, é claro! – respondeu ele, quase colérico.
–
Não te aflijas, rapaz, és bonito.
–
Não sou!
–
És – gritou convicta Catarina, que
continuou, depois, numa voz baixa e misteriosa: – Torna a virar-te para o
espelho, João.
–
Que idiotice; para quê?
–
Vais ver. Mas primeiro juras uma coisa: só te voltas para mim quando eu der
ordem. Juras?
–
Juro – prometeu João, curioso. E virou-se
para a superfície brilhante. Não havia mais nada além dos patos.
De
repente, João abafou um grito de espanto. No espelho surgiu Catarina, despida;
a rapariga segurava com os dois braços afastados as bandas do roupão aberto.
Tinha os olhos baixos, quase fechados, a cabeça inclinada num movimento tímido
e gracioso. O corpo de Catarina possuía a perfeição e a pureza da adolescência
e havia nele uma espécie de espiritualidade comovente, que chegava a angustiar,
por se sentir quanto era transitória. Apesar de despida, com a cara incendiada,
a boca timidamente contraída, desprendia-se dela uma grande frescura, uma
imensa pureza.
(…)
Deitado,
João, à força de esperar o sono com impaciência, acabou por sentir-se muito
doente. Todas as ideias se baralhavam na sua cabeça. Pensava vagamente em casar
com Catarina, mas Catarina era só uma mulher, e para o cérebro excitado do
rapaz, uma mulher era pouco. Queria todas as mulheres do mundo. Milhares de
expressões de amor, de abandono, em rostos desconhecidos, corriam na sua
imaginação, e todas tinham o juvenil corpo despido de Catarina. Caras sombrias,
alegres, raivosas, rodeadas de cabeleiras fulvas e negras, encimavam o pescoço
gracioso e inclinado sobre o ombro nu de Catarina, e assim, num crescendo de
excitação raivosa e doentia, João acabou por possuir-se a si mesmo.
Ficou
exausto, deitado de costas e coberto de suor. Não tinha a sensação de ser ele,
nem sequer a consciência do próprio corpo, sentia-se transformado num monstro
viscoso e sombrio, condenado à mais intransponível das solidões. Adormeceu mergulhado
numa cinzenta e desolada tristeza.
Teve
um sonho pavoroso. O mundo despovoara-se e não havia o mais pequeno vislumbre
de vida sobre a Terra; João, desesperado e sozinho no grande universo, amava-se
a si mesmo.
the pleasures of the damned *poems, 1951-1993
dark
night poem
they say that
nothing is wasted:
either that
or
it all is.
liberated woman and liberated man
look there.
the one you considered killing yourself
for.
you saw her the other day
getting out of her car
in the Safeway parking lot.
she was wearing a torn green
dress and old dirty
boots
her face raw with living.
she saw you
so you walked over
and spoke and then
listened.
her hair did not glisten
her eyes and her conversation were
dull.
where was she?
where had she gone?
the one you were going to kill yourself
for?
the conversation finished
she walked into the store
and you looked at her automobile
and even that
which used to drive up and park
in front of your door
with such verve and in a spirit of
adventure
now looked
like a junkyard
joke.
you decided not to shop at
Safeway
you’ll drive 6 blocks
east and buy what you need
at Ralphs.
getting into your car
you are quite pleased that
you didn’t
kill yourself;
everything is delightful and
the air is clear.
your hands on the wheel,
you grin as you check for traffic in
the rearview mirror.
my man, you think,
you’ve saved yourself
for somebody else, but
who?
a slim young creature walks by
in a miniskirt and sandals
showing a marvelous leg.
she’s going in to shop at Safeway
too.
you turn off the engine and
follow her in.
advice
for some young man in the year 2064 A.D.
let me speak as a friend
although the centuries hang
between us and neither you nor I
can see the moon.
be careful less the onion blind the eye
or the snake sting
or the beetle possess the house
or the lover your wife
or the government your child
or the wine your will
or the doctor your heart
or the butcher your belly
or the cat your chair
or the lawyer your ignorance of the law
or the law dressed as a uniformed man and killing you.
dismiss perfection as an ache of the
greedy
but do not give in to the mass modesty of
easy imperfection.
and remember
the belly of the whale is laden with
great men.
Charles Bukowski
domingo, 17 de janeiro de 2016
Oblomovite
Parece que a minha alma continua a receber apenas os grandes
abalos russos. OBLOMOV foi a primeira odisseia literária deste inverno e a sua
leitura foi plena de delícias e recompensas.
Como qualquer grande livro, apresenta várias camadas e as
personagens são dotadas de uma densidade psicológica que só os grandes mestres
conseguem traduzir em palavras. Tentando afunilar a coisa, podemos dizer que
OBLOMOV caminha pelas mesmas paisagens que NIELS LYHNE e A EDUCAÇÃO
SENTIMENTAL, dois livros que me são muito caros. Oblomov cativa-me desde os
primeiros capítulos, com a sua figura obesa horizontalmente disposta, tudo
rejeitando, da mundaneidade ao trabalho, passando pela literatura. Como ele não
deixa de ter razão nos seus argumentos (tudo é maçada!), sigo a leitura,
curiosa sobre o destino dessa vida que se deseja apenas poética, imune às
agressões e preocupações miúdas. A questão é que sem a vidinha também não há
vida e tudo sai hipotecado. Il faut avoir
du courage!
“Ela receava cair numa apatia como a de Oblomov. Mas por
mais que tentasse afastar da sua alma esses instantes de periódicos
entorpecimentos, de sono da alma, de vez em quando assediava-a primeiro um
sonho de felicidade, rodeava-a uma noite azul e envolvia-a um devaneio, depois
seguia-se outra vez a paragem meditabunda, como que um repouso da vida, e em
seguida… o receio, o temor, a aflição, como que uma tristeza surda, e soavam na
sua cabeça inquieta questões vagas, brumosas.
Olga escutava-as com atenção, atormentava-se, mas sem
conseguir nada; não podia compreender o que a sua alma pedia e procurava de
tempos a tempos, mas compreendia apenas que pedia e procurava qualquer coisa,
como se – horrível é dizê-lo – tivesse saudades, como se não lhe bastasse uma
vida feliz, como se estivesse cansada dela e exigisse novas experiências
inauditas, espreitando para mais longe no futuro…
«O que vem a ser isto? – pensava com horror. – Que mais é
necessário e possível desejar? Para onde ir? Para lado nenhum! Não há mais
caminho… Será possível que não, será possível que tenhas completado o círculo
da vida? Será possível que aqui esteja tudo… tudo…» - dizia a sua alma e
deixava qualquer coisa por dizer… e Olga olhava à sua volta com inquietação,
não teria alguém descoberto, não tivesse alguém escutado esre murmúrio da alma…
Interrogava com os olhos o céu, o mar, a floresta… não havia resposta em parte
nenhuma: havia apenas a lonjura, a profundeza e a escuridão.
(…)
Ele riu-se.
– Não tenhas medo – disse (…). Não, a tua tristeza, a tua
aflição, se é apenas aquilo que eu penso, é antes um sinal de força… As buscas
de uma mente activa e agitada, irrompem por vezes para lá dos limites da vida,
não encontram naturalmente resposta, e surge a tristeza… o descontentamento
temporário com a vida… Isso é uma tristeza da alma que interroga a vida sobre o
seu mistério… Pode ser isso que se passa contigo… Se assim for, não é nenhuma
tolice.
(…)
– Estou a transbordar de felicidade, desejo tanto viver… e
de repente surge uma espécie de amargura…
– Ah! Isso é o que temos de pagar pelo fogo de Prometeu! Não
basta suportar, é preciso também amar essa tristeza e respeitar as dúvidas e as
questões: elas estão a transbordar de excessos, da exuberância da vida, e
surgem mais no auge da felicidade, quando não há desejos vulgares; não surgem
no meio da vida corriqueira: onde imperam a dor e a necessidade, as pessoas não
têm tempo para isso; as multidões caminham pela vida e conhecem esse nevoeiro
da dúvida, a angústia das questões… Mas para quem se encontrou com elas na
devida altura, não constituem um tormento, antes são visitantes bem-vindas.
– Mas não há maneira de as vencer: elas causam a melancolia
e a indiferença… por quase tudo… –
acrescentou ela com hesitação.
– Não por muito tempo. Depois refrescam a vida – disse ele. – Conduzem ao abismo do qual não
se consegue nenhuma resposta, e fazem-nos olhar de novo a vida com mais amor…
Desafiam forças já experientes para a luta, como que para as não deixar
adormecer…
(…)
– E se elas nunca nos deixarem: se a tristeza nos inquietar
cada vez mais?... – perguntou ela.
– Ora bem, que se há-de fazer? Aceitamo-lo como um novo
elemento da vida… Mas não, isso não acontece, não pode acontecer connosco! Isso
não é a tua melancolia, isso é o mal geral da humanidade.”
just a good book
Este aniversário, uns amigos ofereceram-me um bilhete para o
concerto da Patti Smith no Coliseu. Delirei com o presente e com o concerto.
Frente àquela figura andrógina, senti-me perante um xamã, que ora conduzia a
multidão ao êxtase, ora a tranquilizava.
O concerto causou-me uma impressão tão poética que decidi
que era hora de terminar a leitura de Just
Kids, tantas vezes começada e logo abandonada. Desta vez persisti e,
terminada a leitura, o que tenho a dizer contraria a opinião da maioria das
pessoas que leram o livro e com quem falei.
O início da narrativa é muito bom : “Quando era muito nova,
a minha mãe levava-me a passear ao longo da margem do rio Prairie, no parque
Humboldt (…). O rio estreitava antes de desaguar numa ampla lagoa e foi na
superfície desta que vi um milagre singular. Um longo pescoço encurvado
alçou-se de um traje de plumas brancas. Chapinhou na água luzidia, agitando as
suas grandes asas, e levantou voo rumo ao céu.
Cisne, disse-me a
minha mãe, ao dar-se conta da minha excitação.
Mas essa palavra, só por si, dificilmente atestava aquela magnificência
ou transmitia a emoção que ele me produzira. A visão dele gerara um ímpeto para
o qual eu não dispunha de palavras, um desejo de falar do cisne, de dizer algo
acerca da brancura dele, da natureza explosiva do seu movimento, e do lento
batimento das suas asas.”
O nível mantém-se ao longo da parte que conta a infância da
autora. Várias vezes, Patti afirma-se como uma bookish person: “O meu amor pela oração encontrou aos poucos um
rival no meu amor pelo livro (…). Fiquei completamente enamorada pelo livro. O
que queria era lê-los a todos, e as coisas sobre as quais lia causavam-me novas
ânsias”. Comigo também se passou de forma semelhante, embora o início do meu
amor pelos livros tenha coincidido com um profundo e feroz ateísmo, que só há
poucos anos começou a soçobrar.
No que diz respeito ao eixo principal do livro, a juventude
partilhada com Robert Mappelthorpe, a qualidade torna-se mais oscilatória.
Embora a história cative pela enorme lealdade dos dois artistas em gestação e
haja também o inegável interesse do testemunho de alguém que viveu tão por
dentro a cena artística de Nova Iorque em finais dos anos 60 e início dos 70, senti
muitas vezes que algumas partes enumeravam apenas o que Robert e Patti iam
fazendo e como iam sobrevivendo à fome e à descrença. Ou seja, senti que lhe
faltava angústia e que isso acontecia de modo propositado. Pode-se argumentar
que a beleza do livro reside precisamente nessa visão cândida que Patti parece
nunca perder e que, de facto, pressenti nela no concerto do Coliseu. Também eu
prezo muito a inocência (embora esta tenha mil artimanhas, como diria o
Herberto Hélder) mas literariamente falando, isso não me basta.
O que não impede que eu continue a gostar da Patti. Lerei
com certeza o M Train. Talvez aí se
desnudem as angústias que aqui senti subtraídas.
domingo, 8 de novembro de 2015
albertine sarrazin
Querida Albertine,
Como não te amar na tua insubmissão, na tua
liberdade livre ainda que manca?
Sigo-te no teu voo para lá de todos cárceres da alma e dos que nos querem sobrecarregar com o peso do seu amor. Ah, «acreditaste que me podias transplantar sentimentos, coser-me um pedaço do teu coração…». Aterras nove metros abaixo, no duro solo da liberdade. Partes o astrágalo e estás à mercê da bondade dos outros, tu que achas que tudo te é devido mas gostas de ser tu a servir-te.
«Quando a carcaça se liberta, o espírito, que até
então era a única escapatória, torna-se, pelo contrário, escravo dos mecanismos.
A humildade que fingíamos torna-se real.» A liberdade é árdua, pequena, tão cheia
de artimanhas e prisões agridoces. Mas tu és dura na queda, recusas
obstinadamente qualquer amarra ou gratidão. Só que desta vez a queda
desdobra-se em duas e encontras o mais doce dos embates: o Amor.
Acabar esta garrafa e este maço, o resto não importa. Recuperei a esperança.
(…)
Enrosco-me em torno da chama
estática que o álcool acendeu em mim, deixo o meu pé pendurado ao lado da roda,
e agarro-me, com os dois braços, aos ombros de Julien.
É o início de um novo século.
É
o início de um novo século: nem mais. A tua traquinice namora com as palavras,
acerta-lhes no âmago. «Eu tinha-me evadido na altura da Páscoa, e nada ressuscitava,
nada morria nem vivia.» A crueldade, tão essencial à tua sobrevivência,
encontra a ternura. Tens ciúmes do sono do teu homem, do homem que te fez
mulher, de corpo e coração.
Ele intimida-me como uma coisa
sagrada ou proibida. É ele, Anne, é o teu amor, mas ao mesmo tempo um desses
tipos que todas as manhãs saem da prisão ou que passam diante da porta do bar. Será
assim tão natural, tão necessário amar precisamente este» O que é, de onde
veio, essa coisa que passa e crepita do seu corpo para o meu?
Mas
tu não te conformas, não foste feita para esse papel de mulherzinha que espera.
Por isso, assim que podes andar, regressas à rua, à vida. Lá vais tu a andar,
cambaleante, pelas ruas de Paris, à caça de clientes, e eu fico a admirar-te a
ligeireza dos passos. Miúda, gosto do teu pensamento independente, do modo como
retribuis a indiferença a que alguns te votam. «Não por desprezo, mas porque
não sei forçar os ouvidos e os corações.»
Esta noite eu estava
particularmente quezilenta. Recusei comer nas toalhas de papel do restaurante,
disse que os lençóis estavam sujos e a água da torneira morna… Deitados, à distância
de dez centímetros um do outro, evitávamo-nos. Jean foge das minhas palavras e
eu das suas mãos. Ele gosta de mim e isso aborrece-me, pois só gosto da cama
dele. Mas quanto mais implico, mais ele se cala, mais ele se desdobra em
paciência e gentileza… E eu sinto-me envergonhada. Para arranjar coragem,
escorropicho a garrafa que, desde que venho aqui, continua esquecida em cima do
cosy obsessivamente limpo e arrumado, e decido ser simpática. De olhos
fechados, aceito Jean, reconheço a sua ternura e o seu saber, imagino a
felicidade que ele me deveria proporcionar e ao lado da qual passo, com uma
expressão compungida no rosto. Ai, Julien, Julien…
(…)
Sejamos putas e digamos: «Querido…»
O tipo aperta-me contra o seu peito magro e, com todo o seu sistema piloso
eriçado e o nariz fremente, diz que me ama, que não sou uma rameira como as
outras, que aquilo não é trabalho para mim e que ele fará tudo para me tirar
daquela vida.
(…)
Ontem Jean, hoje este gajo! Que
chatos que eles são com aqueles “amo-te”, como estão longe do amor!
Vai,
Albertine, anda! Cicatrizada, de andar manco, curada de tudo, excepto do amor…
História de um amor
«Mas nada disto consegue dar conta do laço invisível
pelo qual desde o início nos sentimos unidos. Podíamos até ser profundamente
diferentes, que eu não sentia menos que qualquer coisa de fundamental nos era
comum, uma espécie de ferida originária – há pouco eu falava de “experiência
fundadora”: a experiência da insegurança. A natureza desta não era a mesma em
ti e em mim. Pouco importa: para ti e para mim ela significava que não tínhamos
no mundo um lugar assegurado. Teríamos apenas aquele que construíssemos.
(…)
Desde a tua primeira infância que viveste na
insegurança (…). Estavas condenada a ser forte porque todo o teu universo era
precário. Sempre te senti a força e, ao mesmo tempo, a fragilidade subjacente. Eu
gostava da tua fragilidade superada, admirava a tua força frágil. Éramos ambos
filhos da precariedade e do conflito. Éramos feitos para nos protegermos
mutuamente contra uma coisa e outra. Tínhamos necessidade de criar juntos, um
pelo outro, o lugar no mundo que nos foi originariamente negado. Mas era
necessário, para isso, que o nosso amor fosse também um pacto para a vida.
(…)
Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada
um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um
ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la
juntos.»
«É a angústia, sabe? Esta fodida angústia que arrasta isto tudo…»
«Ao abrir a porta da gerência, envidraçada com vidro
japonês, Erdosain quis retroceder; compreendeu que estava perdido, mas já era
tarde demais.» Assim começa Os Sete
Loucos de Roberto Arlt, um autor que me vinha recomendado pelo Cortázar,
desde a minha última viagem pelas livrarias madrilenas.
Não é uma leitura divertida, muito pelo contrário.
Apesar da verve quase folhetinesca, a narrativa jamais abandona a sua curva
descendente, transbordando de angústia por todos os escaninhos: «A esta
atmosfera de sonho e inquietude que o fazia atravessar os dias como um
sonâmbulo, Erdosain chamara “a zona da angústia”.»
Os
acontecimentos complicavam-se… e ele, entretanto, quem era no meio daquelas
engrenagens que o iam cercando, adiantando-se cada vez mais na sua vida,
submergindo-o num lodaçal que o exasperava? Além disso, havia aquilo… a
incapacidade de pensar, de pensar através de um raciocínio de linhas nítidas,
como são as jogadas de xadrez e uma incoerência mental que o enfastiava contra
todos.
(…)
Tinha
agora a sensação de que a sua alma se tinha apartado para sempre de todo o
afecto terrestre. E a sua angústia era a de um homem que traz na sua
consciência uma jaula sinistra onde, entre espinhas de peixe, bocejam, tingidos
de sangue, elásticos tigres, afilando o olho para preparar o grande salto.
O livro está pejado de boutades geniais - como por exemplo, «Aquilo a que chamamos
loucura é a falta de hábito do pensamento dos outros» -, impossível citar
todas. Mas o magma essencial localiza-se nas muitas vidas humilhadas e ofendidas
na sua aspiração mais vital. Todas as personagens falam de como esta vida não é
o que devia ser e de como podia e devia ser muito mais: «Porque razão a
felicidade humana ocupa tão pouco espaço?»
-
Deve ser triste.
-
Sim, é muito triste ver os outros felizes e ver que não compreendem que alguém
será um desgraçado toda a vida. Lembro-me de, à hora da sesta, entrar no meu
quarto e, em vez de tratar da roupa, pensar: Serei criada toda a vida? Já não
me cansava o trabalho, mas sim os meus pensamentos. Nunca reparou como são
obstinados, os pensamentos tristes?
(…)
-
Você teria coragem de se matar?
-
Não é o que você diz. Já não há coragem nem cobardia. Vem do fundo de mim a
sensação de que o suicídio é como ir arrancar um dente. Quando penso assim,
tudo em mim descansa. É certo que eu tinha pensado noutras viagens e noutras
paragens, noutra vida. Há algo em mim que deseja tudo o que é bonito e
delicado. Muitas vezes pensei que sim… suponhamos esses quinze mil pesos que
vou levantar amanhã… podia ir para as Filipinas… para o Equador… para recomeçar
a minha vida, casar-me com uma donzela milionária e delicada… estaríamos
deitados à hora da sesta em espreguiçadeiras debaixo de coqueiros, e os negros
oferecer-nos-iam laranjas descascadas. E eu olharia tristemente para o mar…
Sabe, esta certeza que diz que para onde quer que vá olharei tristemente para o
mar… esta certeza de que nunca mais serei feliz… no início enlouqueceu-me… e
agora resignei-me…
«Já não há coragem nem cobardia.» Apenas uma angústia estranhamente familiar. No final, nem crime nem castigo. Nenhuma redenção,
apenas simulacros. Ontem fui assistir a uma «homenagem» ao Vítor Silva
Tavares, que dizia que uma obra de arte para ser obra de arte tem de ter sobretudo
inferno. Pois aqui, sobeja.
sábado, 24 de outubro de 2015
mais um Bildungsroman
De repente ele notou – e era como
se fosse pela primeira vez – quanto o céu ficava longe.
Foi como um sobressalto. Exactamente
por cima dele reluzia entre as nuvens uma nesga de azul, indizivelmente
profunda.
(…)
– O infinito! – Törless conhecia o
termo das aulas de matemática. Jamais imaginara algo de especial a esse
respeito. O termo voltava sempre: algo que alguém um dia inventara e desde
então fora possível fazer cálculos com ele, tão precisamente como com qualquer
coisa sólida. Era exactamente o que valia no cálculo; e Törless jamais fizera
alguma tentativa de entendê-lo para além disso.
Agora, porém, varava-o como um raio
a compreensão de que essa palavra continha algo terrivelmente inquietante.
Parecia-lhe um conceito domesticado, com que fizera diariamente pequenas artes,
mas que de repente se libertara. Algo que ultrapassava o entendimento, algo
selvagem, aniquilador, adormecido pelo trabalho de algum inventor e que de
repente despertara e se tornara novamente terrível. Ali, naquele céu, isso
achava-se agora por cima dele, vivo e ameaçador, zombando sinistramente dele.
(…)
Törless ficou dominado pelo anseio
louco de ver duplamente todas as coisas, pessoas e factos. Como se se
prendesse, de um lado, à palavra inocente e esclarecedora fornecida por um
inventor qualquer; e do outro lado, fossem muito estranhas, ameaçando
libertar-se a qualquer momento.
(…)
A matemática deve estar certa; mas
o que há com a minha cabeça e tudo o resto? Os outros não sentem isso? Como é
que essas coisas acontecem dentro deles? Não acontece nada?
Os
chamados romances de formação encontram sempre um eco interior em mim. Às vezes,
penso que tive uma adolescência demasiado saudável, sob o signo do riso e do
haxixe. As angústias existenciais que então me faltaram, sobram hoje. E são
poucos os adultos disponíveis para pensar o sentido da vida, ou das palavras, tão somente. Marchar, marchar sempre! Talvez por isso, fosse o narrador um pouquinho menos interventivo e «sábio», e acho que
teria gostado mais deste romance.
e no princípio era a imagem
“Esta
reflexão está inteiramente habitada pela preocupação do espectador em que hoje
nos tornámos, reféns assustados que, com demasiada frequência, consentem nas
produções espectaculares que têm como único efeito o aniquilamento do
espectador. Se o espectador nascente for o próprio homem, a morte do espectador
será a morte da humanidade. É a barbárie que ameaça um mundo sem espectador.”
sympathy for the devil
O outono anuncia-se sempre como o tempo que inaugura as maiores aventuras
literárias. Este ano, comecei pela leitura de Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgákov. E de imediato
fui cativada pelos 3 primeiros capítulos, magistrais na sua escrita e na sua estranheza.
Sim, é preciso assinalar a primeira
coisa estranha dessa horrível noite de Maio. Não apenas junto ao quiosque, mas
em toda a alameda paralela à Rua Málaia Bronnaia, não se via uma única pessoa. A
uma hora em que parecia que já não chegavam as forças nem para respirar, quando
o Sol depois de ter abrasado Moscovo, se escondera no nevoeiro seco algures
para lá da Sadovaia, não havia ninguém debaixo das tílias, ninguém sentado nos
bancos. A alameda estava deserta.
A
primeira impressão foi que me encontrava perante mais uma obra, que à
semelhança de uma certa literatura russa do século XIX, está abismada com a
morte de Deus e as suas implicações. Mas é impossível definir o livro por esse
prisma e sobretudo inútil tentar encapsulá-lo num tema ou estilo. Como afirma Samuel Thomas, «o romance pulsa de maliciosa energia e invenção. Por vezes, uma dura sátira da vida soviética, uma alegoria religiosa da dimensão do Fausto, de Goethe, e uma indomável fantasia burlesca, é uma obra de riso e terror, de liberdade e servidão - um romance que explode as verdades oficiais com a força de um carnaval descontrolado».
Há por ali de tudo, e o humor mais afiado coabita com a tristeza mais séria. O livro cativa sobretudo pelos vários registos polifónicos, com a narrativa a alternar entre dois tempos, a Jerusalém antiga e a Moscovo dos anos 30, combinando múltiplos géneros e técnicas narrativas, como o romance histórico, o suspense, e os tópicos fantásticos, para criar um conjunto de personagens, todas delirantes - o séquito do Diaboe o gato Behemot, Margarita, o Mestre, o atormentado Pôncio Pilatos e o seu fiel cão, entre outros. É uma narrativa louca, carnavalesca, que permite a junção do amor mais romântico a uma forte crítica mordaz aos costumes e, em particular, à sociedade literária moscovita da época.
Há por ali de tudo, e o humor mais afiado coabita com a tristeza mais séria. O livro cativa sobretudo pelos vários registos polifónicos, com a narrativa a alternar entre dois tempos, a Jerusalém antiga e a Moscovo dos anos 30, combinando múltiplos géneros e técnicas narrativas, como o romance histórico, o suspense, e os tópicos fantásticos, para criar um conjunto de personagens, todas delirantes - o séquito do Diaboe o gato Behemot, Margarita, o Mestre, o atormentado Pôncio Pilatos e o seu fiel cão, entre outros. É uma narrativa louca, carnavalesca, que permite a junção do amor mais romântico a uma forte crítica mordaz aos costumes e, em particular, à sociedade literária moscovita da época.
Ela trazia nas mãos umas flores
amarelas abomináveis, inquietantes. Só o Diabo sabe como se chamam, mas não sei
porquê, são as primeiras flores que aparecem em Moscovo. E aquelas flores
sobressaíam muito nitidamente contra o seu casaco preto primaveril. Trazia flores
amarelas! É uma cor funesta. (…) E o que me impressionou foi, não tanto a sua
beleza, mas a invulgar solidão dos seus olhos, uma solidão nunca vista! (…) O
amor surgiu à nossa frente, como um assassino que surge do nada num beco, e
atacou-nos aos dois simultaneamente! Como um raio, como um punhal finlandês!
(…)
- Bah! Mas esta é a casa dos escritores!
Sabes, Behemot, tenho ouvido dizer muitas coisas boas e lisonjeiras acerca
desta casa! Presta bem atenção a esta casa, meu amigo. É agradável pensar que
debaixo daquele tecto se oculta e amadurece uma infinidade de talentos.
- Como ananases numa estufa – disse
Behemot e, para melhor admirar a casa cor de creme com colunas, subiu para o
muro de betão que sustentava o gradeamento de ferro fundido.
- Absolutamente exacto – concordou Koroviev
com o seu companheiro inseparável. – E um delicioso pavor sobe-nos ao coração
quando pensamos que naquela casa amadurece presentemente o futuro autor de um
Dom Quixote, ou de um Fausto, ou diabos me levem, das futuras Almas Mortas!
Hem?
- É assustador pensar nisso –
confirmou Behemot.
A
certo ponto, já a leitura vai avançada, as narrativas historicamente distantes
começam a revelar as suas secretas passagens e suspeita-se que Bulgákov não faz
mais do que transfigurar a sua biografia nesta obra descomunal. Parece-nos que
os pavores estranhos do Mestre nos falam de uma censura mais dura e que a
cobardia é de facto o mais terrível dos defeitos, como constata Pôncio Pilatos.
Parece-nos que o voo de Margarita montada numa vassoura, primeiro sobre a
cidade de Moscovo e depois sobre o infinito do espaço, nos fala de uma
liberdade e ousadia capazes de redimirem, ainda que apenas literariamente, uma
vida profundamente humilhada e ofendida. E em geral, Margarita Nikolaevna, permitir-me-ei a audácia de lhe aconselhar a nunca ter medo de nada. Isso seria uma insensatez.
No
final, depois de várias peripécias, o escritor, o Mestre, e a sua amada são
recompensados com o repouso eterno, e há uma passagem em especial que faz jus à
epígrafe do Fausto de Goethe: - Mas há uma coisa com que tens de
resignar-te – objectou Woland, e um sorriso irónico desenhou-se-lhe na boca. –
Mal tu surgiste no telhado, cometeste logo um absurdo, e eu digo-te onde é que
está esse absurdo: está no teu tom. Dizes as palavras como se não reconhecesses
a existência das sombras e do mal. Não quererás ter a bondade de pensar nesta
questão: de que serviria o teu bem se não existisse o mal, e que aspecto teria
a terra se dela desaparecessem as sombras? Pois as sombras são produzidas pelos
objectos e pelas pessoas. Aqui está a sombra da minha espada. Mas há também as
sombras das árvores e de todos os seres vivos. Não quererás tu despir todo o
globo terrestre, varrendo da sua superfície todas as árvores e tudo o que é
vivo, por causa da tua fantasia de te deleitares com a luz pura? És um tolo.
E
novamente, vida e literatura coincidem. Que eu saiba também aceitar as minhas
sombras. Pois, afinal, o que importa é não ter medo. E «chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo!»
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