domingo, 19 de junho de 2016
espelho meu, espelho meu...
«Ardentemente cobiçados, não ultrapassando o tamanho de um prato, os espelhos são durante muito tempo o símbolo do luxo aristocrático, o instrumento das aparências. Servindo de traço de união entre natura e cultura, educam o olho e dão apoio às lições de boas maneiras. Do ver-se ao espelho decorrem não só o gosto pelo adorno e a atenção aos sinais da representação e da hierarquia social, como também uma nova geografia do corpo, que revela imagens desconhecidas – de costas, de perfil – e estimula o sentimento de pudor e de autoconsciência. Durante a Revolução Francesa, uma grande dama, quando a vêm deter a casa, não pensa em levar consigo para a prisão senão dois objectos: "Instintivamente, peguei num pequeno espelho com uma moldura de cartão e num par de sapatos novos." Na indigência do cárcere, a sua imagem é o único bem que ela possui, e esta derradeira coqueteria representa também o ser senhora de si própria.»
sábado, 18 de junho de 2016
A papoila e o monge
VIDA MONÁSTICA
(...)
Os que se assemelham a nada
assemelham-se
a Deus
assemelham-se
a Deus
(...)
Deus apaga
o nosso rasto
como se apagasse uma vela
o nosso rasto
como se apagasse uma vela
(...)
Primeiro dia de Primavera:
que distante me parece
o inverno
que distante me parece
o inverno
(...)
A noite escuta com a mesma indiferença
a toada solitária do monge
e a canção rouca das prostitutas
a toada solitária do monge
e a canção rouca das prostitutas
(...)
Debruçado na tarde
escuto o silvo sombrio da
solidão
escuto o silvo sombrio da
solidão
(...)
Deus está vazio
de todas
as suas obras
de todas
as suas obras
(...)
Toda a noite o gelo tombou
com o ruído
dos sonhos quebrados
com o ruído
dos sonhos quebrados
(...)
Perguntas quanto tempo deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre
a papoila na encosta
é vermelha sempre
(...)
O verão
ensina a mesma prece
à papoila e ao monge
ensina a mesma prece
à papoila e ao monge
(...)
José Tolentino Mendonça
Alguém pergunta o que é o amor. Diremos:
«A mãe, vestida de azul, estava
terrivelmente angustiada. Esperava um
sinal do jardim e o caminho não estava livre. Ninguém poderia entrar enquanto o
seu marido estivesse em casa. Ah, este maridos, este homem de quarenta e um
anos e já calvo! Que mau pensamento o teria posto tão pálido nessa tarde,
deixando-o pregado na cadeira, imóvel, inflexível e com o olhar fixo no jornal?
Ela não tinha um minuto de
descanso, eram onze horas. As crianças já estavam na cama há muito tempo, mas o
marido não se ia embora. O que aconteceria se o sinal soasse, se a porta se
abrisse graças àquela chavinha e os dois homens se encontrassem, face a face,
olhos nos olhos? Não ousava prosseguir o seu pensamento.
Franca pôs-se no canto mais
escuro da sala, torceu as mãos e finalmente disse:
– São onze horas. Se tens de ir
ao clube, é melhor ires já.
Ele levantou-se de imediato,
lívido, e abandonou a sala, e depois a casa.
No jardim, parou e ouviu um
apito, um breve sinal. Depois, passos na gravilha, uma chave na fechadura e
duas sombras projectam-se nas cortinas da sala.
Conhecia bem o sinal, os passos e
as duas sombras na cortina. Não era nada de novo.
Seguiu para o clube. Estava aberto,
havia luz nas janelas, mas não entrou. Durante dois quartos de hora andou para
cima e para baixo pelas ruas e depois, em frente ao jardim, durante dois
intermináveis quartos de hora. «Esperemos mais um quarto de hora», pensou e
prolongou-os de mais dois. Depois entrou no jardim, subiu as escadas e tocou à
porta.
Veio a criada e abriu, pôs a
cabeça de fora e disse:
– A senhora já está… – Subitamente calou-se, ao ver com quem estava
a falar.
– … já está deitada. Está bem. Quer
dizer à senhora que o seu marido chegou a casa?
A rapariga partiu. Bateu à porta
do quarto da senhora e transmitiu a ordem através da porta fechada:
– Venho dizer que o senhor
chegou.
A senhora pergunta de dentro:
– O que diz, o senhor chegou? Da
parte de quem o diz?
– Da parte do senhor, está em
casa.
Ouve-se então um lamento desesperado
dentro do quarto, uma conversa apressada, em voz baixa, uma porta que se aberta
e que se fecha. Depois tudo fica tranquilo.
O senhor entra, a senhora vai ao
seu encontro, com a morte no coração.
– O clube estava fechado – diz ele rapidamente, com compaixão e
piedade. – Mandei a criada para não te
meter medo.
Ela cai numa cadeira, aliviada. O
seu bom coração extravasa e pergunta ao marido como está de saúde:
– Estás muito pálido.
Aconteceu-te alguma coisa? O teu rosto está muito alterado.
– Não, estou a sorrir. A partir
de hoje, será a minha maneira de sorrir. Quero que esta careta seja o meu
sorriso.
Ela ouve estas breves, roucas
palavras e não o compreende. O que pretende ele dizer?
Mas, subitamente, ele abraça-a
com uma força terrível e murmura-lhe ao ouvido:
– E se lhe puséssemos os cornos,
a ele, que já saiu.. se lhe puséssemos os cornos?
Ela dá um grito e chama a criada.
Ele deixa-a com um sorriso calmo e seco, abrindo muito a boca e batendo com as
mãos nos joelhos.
De manhã, o coração da senhora
prevalece de novo e diz ao marido:
– Ontem à noite, tiveste um
comportamento estranho. Já passou, mas ainda estás pálido.
– Sim – responde ele, – é cansativo ter graça na
minha idade! Nunca mais o farei.»
«Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.»
«Até agora pude fazer-lhe compreender tudo... talvez apenas porque até esse momento eu me compreendi a mim mesmo... e, como médico, consegui sempre fazer um diagnóstico do meu próprio estado. Mas, a partir desse momento, fui assaltado como que pela febre... perdi completamente o domínio de mim próprio... ou antes, eu bem sabia que tudo quanto fazia era insensato, mas não podia ter mão em mim... Não me compreendia... não tinha senão uma idea fixa: atingir o meu fim... De resto, ouça: talvez, apesar de tudo, eu lhe consiga fazer compreender... O senhor sabe o que é o amok?
– Amok?... Creio recordar-me... é uma espécie de embriaguez... entre os malaios.
– É mais do que embriaguez... é a loucura, uma espécie de raiva humana, literalemente falando... uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcóolica não se pode comparar. Eu próprio, durante a minha permanência ali, estudei alguns casos – quando se trata dos outros, a gente é sempre perspicaz e positiva – mas sem nunca poder descobrir o medonho segredo da sua origem... A causa é, sem dúvida, o clima, esta atmosfera densa e asfixiante que oprime os nervos, como uma trovoada, até que eles acabam por descarregar...»
terça-feira, 14 de junho de 2016
domingo, 24 de abril de 2016
Livros do caralho
Tudo
depende da dosagem, já dizia o Deleuze.
Ora,
a mim só me interessam as doses mais fortes. Acontece-me sempre assim e já
aceitei esta minha triste condição. Na literatura, no amor, na embriaguez – tudo
ou nada. Só me agradam bebidas fortes, whisky e aguardentes, homens corajosos e
poéticos (naturalmente que estou solteira há muitos anos), paixões-abismo e
livros que são como adagas fundas, labaredas cortantes ou sismos vulcânicos. Em
suma, tenho um pobre coração que se alimenta apenas de machadadas. Que os
deuses tenham piedade de mim.
Mas,
oh, quão feliz eu sou, quando encontro a dose certa! Nessas ocasiões, cada vez
mais raras (once you get locked into a
serious drug collection, the tendency is to push it as far as you can), toda
a minha insatisfação profunda desaparece e o meu corpo ascende aos céus, numa
alegria rodopiante e desumana. Então, tenho a certeza, sou mais luminosa que os
demais e raros são os que me alcançam no meu contentamento tão puro. Está
escrito por todo o grande texto da cultura – só os que pernoitam nas
profundezas subterrâneas do inferno podem conhecer o êxtase mais elevado –, e
assim parece ser.
O
meu último êxtase deu-se com um livrinho quase esquecido, Confusão de Sentimentos, de Stefan Zweig. Oito histórias curtas que
me ofertaram oito noites plenas de solidão aconchegada. Porque, apesar da
retórica hegemónica, a solidão é um capital poderoso e faz muita falta. Quanto
ao conteúdo do livro, não me pretendo alongar muito pois, como dizia o Camões, melhor
é experimentá-lo que julgá-lo. Direi apenas que todas as histórias são
sublimes, que todas falam de uma determinada confusão de sentimentos, do
mistério singular que compõe as emoções, e que o Zweig, contemporâneo de Freud,
é um dos melhores dissecadores da alma humana que tive o prazer de ler.
Todos
os contos são excelentes, nenhum se distingue como menor, mas houve um em
particular que me comoveu noite adentro. Chama-se Coração Destroçado e descreve de forma magistral, passo a passo,
como um coração se parte e se aparta da comunidade humana, para se tornar
apenas um órgão fisiológico.
Aos poucos,
recuando passo a passo, a dor foi-o abandonando: a mão infernal deixara de lhe
revolver o corpo martirizado como uma garra em brasa. Mas mantinha-se um
não-sei-quê surdo, que não podia chamar-se propriamente dor, algo indefinido,
estranho, que lhe pesava e parecia escavar uma galeria dentro de si. O velho
jazia, de olhos fechados, toda a sua atenção concentrada naquilo que assim
suavemente o moía e consumia: parecia-lhe que aquela força estranha e
desconhecida cavava qualquer coisa dentro de si, primeiro com um instrumento
aguçado e, agora, com outro menos pontiagudo; tinha a impressão que algo se
desagregava e desligava, fibra a fibra, no interior do corpo fechado. Já não o
dilacerava com a mesma selvajaria. Já não lhe causava dor. No entanto, sentia
qualquer coisa a arder, a corromper-se silenciosamente dentro de si; qualquer
coisa começava a extinguir-se. Tudo o que vivera, tudo o que amara se apagava
na lenta combustão daquela chama, esvaindo-se em fumo negro antes de cair,
exausto e carbonizado, nas cinzas mornas da indiferença. Alguma coisa se estava
a passar, sentia-o surdamente, alguma coisa se estava a passar enquanto
permanecia assim deitado e passava em revista, ansioso, a sua existência. Qualquer
coisa estava a chegar ao fim. O quê? Espreitava e voltava a espreitar para
dentro de si próprio.
E, pouco a
pouco, começou a destruição do seu coração.
E
agora, regresso à vidinha, com as mãos vazias e a alma rota. Até à próxima
dose.
Little Girl Blue
esqueçam lá a matilde campilho
Uma
vez quiseram-me louca, a arder
e
eu ardi com a discrição de
um
fogo posto
porque
a cura vai na mesma direcção
que
a nossa febre
Ateei-me
como um relâmpago inesperado
à
luz do dia
Eu
parecia uma basílica em chamas
de
altar por estrear, a arder sozinha
Sempre
me recusei a arder como os outros
Ardam-se
mais à esquerda ou mais à direita
mais
a vento de sul ou de norte,
mas
labaredem-se, sejam fogos que ardem!
Porque
pior que a desdita loucura
é
toda a gente andar em brasa
mas
ninguém chegar a incêndio
E
no fim são todos cinza
*
As
deusas tinham todas ficado em casa
por
decência
não
mergulharam neste lodo onde
circulam
os patos e desmaiam as cicatrizes
das
árvores.
Não
mergulharam na ferocidade de me
ter
aqui sentada
em
absoluta explosão de mim
em
absoluta e violenta sintonia
dos
átomos, dos pardais,
da
tua lembrança, disparada em flecha.
Falei-lhes
do abandono.
Falei-lhes
de incontrolável.
Podia
espetar o lápis no peito e falar só
com
os olhos
porque
sou a intenção
sou
o acolhimento em útero de todas as
mulheres
sentadas frias
e
flores.
Quero
o que é absolutamente sujo
porque
dói.
Sou
mais plena quando desaparecem
as
últimas gotas limpas e o sol ataca em
uníssono
mundo.
Prefiro
o que é absolutamente puro
porque
mata
devagarinho,
incontrolavelmente,
como
um final suspenso na boca à tardinha,
sem
deus nem medo.
Falei-lhes
da saudade muda e da
destruição
dominical,
que
sou uma vida inteira em melancolia
de
um só pé
em
desassossegada observação de patos.
As
deusas não vieram e neste jardim não
há
alma sentada que não me estremeça um
dente.
Falei-lhes
de entrar pelo amor adentro com
a
vertigem dos afogados e radiosa loucura.
Falei-lhes
dos meus dedos que inscrevem o
esconso
e da minha cabeça inconcreta.
Disse-lhes:
não
contrario a vontade do que está morto
mas
a minha imaginação dói-me tanto
na
boca que me refaz amantes,
incendeia-me
poemas.
A
minha imaginação vive sozinha, sovada,
entre
este laguinho lamacento e os subúrbios
do
Alto Minho.
Toda
esta minha indecência não me deixa
a
condição de ser deusa.
Esta
minha galopante indecência é a
maravilha
que me curva as costas e
a
tranquilidade de estarmos sós,
perdidos
na consagração da verdade efémera.
E
tudo é outro nome que não este.
*
Quanto
mundo há nesta sala toda disposta
em
grandes pinturas além-dedos
das
minhas tardes noites, indubitáveis
terríficas.
Quanto
tremor neste lado e no outro
e
naquela parede e na outra
e
naquela porta acolá e ainda mais um
empurrão
no móvel para abafar tudo isto
como
quem deseja, impossível,
o
incógnito lado de lá.
Do
lado de cá, despeja-se uma garrafa
transformada
depois em pensamentos
rasgados
no lado de dentro
e
numa flor nascida ali, junto à parede
cansada,
cheirada em detergente seco.
Uma
gata que pula além-chão atira-me
às
consequências de um riso inato.
Há
coisas inatas por lados demais
e
são essas as que puxam as grandes
rodas
e as desviam dos buracos.
Eu
tenho medo.
Anda
tudo a desviar-se dos buracos
quando
estamos, em tudo, dentro deles.
Que
sabemos nós desta tarde?
Que
sabemos nós, dos pés fora da cama,
a
calçarem-se sempre em par, coitados,
sempre
comandados, sem vontade?
O
que nos comanda a nós que obrigamos
os
nossos pés a existirem?
Como
esta caneca cheia.
Abro
a porta às gatas ciente dos meus
pés,
mas só um vai lá fora.
E
depois há o momento em que regressa,
com
as suas patinhas comandadas e sem
vontade,
as
suas orelhinhas comandadas,
o
seu miar comandado,
a
cabecinha comandada,
o
seu amor comandado
numa
casa comandada.
E
eu lanço-me a esta laranja e descasco-a
comandada,
inata, voraz de nona sinfonia,
de
solidão, de sexo, de paradoxos,
rebentada
em mim.
E
quando me deito sou centopeia de
mil
almas que se vão juntando,
perdidas.
domingo, 27 de março de 2016
Ítaca
Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poseídon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se a emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poseídon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.
Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.
Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.
E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.
Konstandinos Kavafis
A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga.
«Então, subitamente, o
ronco cavo, prolongado, duma sirene irrompeu através da janela aberta e inundou
o quarto quase às escuras – era um grito de dor, uma dor exigente, negra, sem
limites; um grito negro de pez e glabro como o dorso de uma baleia e carregado
com as paixões de todas as marés, com a memória de todas as viagens, as
alegrias, as humilhações: o mar estava a gritar. Com toda a loucura e
cintilação da noite, a sirene ressoava, transportando ao largo, do centro morto
do mar, toda a sua sede do néctar negro que inundava aquele quartinho.
Tsukazaki voltou-se com
uma rápida torção dos ombros e olhou lá para fora, para a água.
Nesse mesmo instante
tudo quanto ficara acumulado no peito de Noboru desde o seu primeiro dia de
vida se libertou e consumou. Até ao ressoar da sirene tudo tinha sido um esboço
apenas, uma tentativa. Preparados os mais finos materiais, tudo estava pronto,
convergindo para o momento da revelação. Mas um elemento faltava: o poder que
transfigurasse os fragmentos esparsos da realidade num palácio radioso. Então,
com a sirene, as partes juntaram-se. Formando um só todo, havia a lua e um
vento de febre, a carne excitada de um homem e duma mulher, suor, perfume, as
cicatrizes duma vida de mar, a confusa lembrança de portos de todo o mundo, um
buraco na parede que não permitia respirar, o coração de ferro dum rapazinho –
mas estas cartas tiradas de um baralho cigano estavam espalhadas, não mostravam
nada. A ordem universal, que o grito da sirene finalmente estabelecera,
revelava um círculo invencível de vida – as cartas emparelhavam-se: Noboru e
mãe – mãe e homem – homem e mar – mar e Noboru…
Estava perturbado,
molhado, com êxtase. Tinha a certeza de ter visto desenrolar-se um novelo,
cujos fios traçavam uma figura sagrada. E isto tinha que ser protegido: tudo
quanto sabia é que era o seu criador de treze anos.
– Se isto alguma vez
for destruído, será o fim do mundo – murmurava, quase a sonhar. Acho que faria tudo para o impedir, por mais
terrível que seja!»
Mirror
I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only thruthful –
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
Sylvia Plath
Que Deus nos dê a todos nós, a nós os bebedores, uma morte tão suave e tão bela!
“Andreas já se tinha esquecido há muito tempo do seu
apelido. Agora que estava a rever os seus documentos caducados, lembrou-se que
se chamava Kartak: Andreas Kartak. Era como se depois de muitos anos de tivesse
descoberto a si próprio.
Ainda assim, sentia-se de certo modo irritado com o
destino, por este não lhe ter enviado de novo, como da última vez, um homem
gordo de bigode e com feições infantis, que lhe possibilitaria ganhar mais
dinheiro. Pois não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos
milagres, quando estes acontecem de uma forma sucessiva. Sim! A natureza do
Homem é tal, que se este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido
ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu
prometer. São assim os Homens – e podia esperar-se outra coisa de Andreas? O
resto do dia, passou-o portanto em várias tabernas. Resignou-se com o facto de
o tempo dos milagres que vivera pertencer ao passado, definitivamente ao
passado, e de ter regressado aos seus velhos tempos. Decidido a viver a vida de
uma lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam – os abstémios nunca
saberão o que isso é! –, Andreas dirigiu-se novamente às margens do Sena, para
debaixo das pontes.”
sábado, 27 de fevereiro de 2016
morfolofalando
adeus pêlo lento. adeus Micas de luas exactas.
adeus estilhaço do teu olhar no meu gosto.
adeus o que ouço incendiado e beijo às avessas e inútil.
adeus aquele ruído do sexo nos lençóis do retrato.
adeus o que em mim sabe sacramamentado na boca.
adeus o que dói no talento frágil do sangue
ou é sobretudo perder-te cem por cento na cama.
adeus estilhaço do teu olhar no meu gosto.
adeus o que ouço incendiado e beijo às avessas e inútil.
adeus aquele ruído do sexo nos lençóis do retrato.
adeus o que em mim sabe sacramamentado na boca.
adeus o que dói no talento frágil do sangue
ou é sobretudo perder-te cem por cento na cama.
merdaputice de nutrição revolucionariamentemerda.
ah (meus caros) adeus na retrete.
(mínimo e sujo) pouco de futuro
por entre o mau cheiro das nutridas granadas.
ah (meus caros) adeus na retrete.
(mínimo e sujo) pouco de futuro
por entre o mau cheiro das nutridas granadas.
adeus antes do cansaço de parecer só macho
ou fêmea ou pederasta ou português.
adeus dona Verónica à janela morrendo um
astro entre o pudorinado das pernas.
dona Verónica o que é que importa? para quê
as travessas quando as criadas já não amanhecem?
as horas cercadas? a estranha madeira dos gestos?
aquele gajo que me mandou para a puta que o pariu?
a altura do acaso nos pulsos ou aquela canção que já não presta?
para quê dona Verónica? para quê?
ou fêmea ou pederasta ou português.
adeus dona Verónica à janela morrendo um
astro entre o pudorinado das pernas.
dona Verónica o que é que importa? para quê
as travessas quando as criadas já não amanhecem?
as horas cercadas? a estranha madeira dos gestos?
aquele gajo que me mandou para a puta que o pariu?
a altura do acaso nos pulsos ou aquela canção que já não presta?
para quê dona Verónica? para quê?
claro que só sei o não do que tanto acontece:
telegrama de espanto
rasto de cornos
loucura de nata.
dona Verónica não vale a pena (garanto)
a lua se pôr de prata.
telegrama de espanto
rasto de cornos
loucura de nata.
dona Verónica não vale a pena (garanto)
a lua se pôr de prata.
para que serve essa bandeira metade camisa metade salsa?
não será melhor encher por fora todos os sacos?
ahhhhh (meus amigos) trago comigo a desfraldada
mágoa dum animal secreto: ânsia tesa no sexo.
escondo-me dos guardas e da fomerda dos outros.
são uns sacanas todos
pedem-me o passaporte que mijado já não serve.
não será melhor encher por fora todos os sacos?
ahhhhh (meus amigos) trago comigo a desfraldada
mágoa dum animal secreto: ânsia tesa no sexo.
escondo-me dos guardas e da fomerda dos outros.
são uns sacanas todos
pedem-me o passaporte que mijado já não serve.
adeus amigos. vou ser parecido a mim próprio
com fulaninhas de leitamas e os pés em flash-back.
com toucinho e mostarda e bem sentado à mesa.
enrascado nas calças (é certo) mas de paladar correcto
para reclamar o prato que já não faz falta.
e se me sai a lotaria vou p'rá cama com
os repolhos da criada e compro mamas na praça.
assim mesmo (raios me partam) semelhante
de maçada e caspa com licença e bagaço.
com fulaninhas de leitamas e os pés em flash-back.
com toucinho e mostarda e bem sentado à mesa.
enrascado nas calças (é certo) mas de paladar correcto
para reclamar o prato que já não faz falta.
e se me sai a lotaria vou p'rá cama com
os repolhos da criada e compro mamas na praça.
assim mesmo (raios me partam) semelhante
de maçada e caspa com licença e bagaço.
mas (concerteza) nojento e parecido
de baba e paisagem nesta chatice com céu e gravata
em tudo que não me importa.
sem dúvida que trago o bilhete
com a alma descascada na paragem do autocarro.
de baba e paisagem nesta chatice com céu e gravata
em tudo que não me importa.
sem dúvida que trago o bilhete
com a alma descascada na paragem do autocarro.
e estou-me nas tintas: libertarde e caspa.
ou espermaneço rasca no tesão duma maneira
que certamente já não se pode.
ou espermaneço rasca no tesão duma maneira
que certamente já não se pode.
adeus Ferreira e a tua sociedade plutocaca
com meninos sacanas e donzelas de fina lata.
mas contigo Fagundes é um tanto diferente:
eras pela revolução pela limpeza pela luta
e fazias estátuas de alegria e
mapas de pura aragem sobre as mesas das tascas.
é claro que ouço: os militares marcham
a escada sobe e a rua passa.
adeus Juca prémio de ti mesmo no
calendário da tua presença. foste para mim o espaço dum
espelho exactamente atrás da porta. sabias?
e um estupor também.
adeus Juca pela clara indecência
com que te puseste na minha memória.
sei que estás vivo no céu do teu auto-retrato
com gajas boas e as cricas e as fufas
e as garotas inventadas de dias e buracos.
e trazes o teu fantasma cornudo de lume
na ocasião em que fornicas. adeus amigo.
com meninos sacanas e donzelas de fina lata.
mas contigo Fagundes é um tanto diferente:
eras pela revolução pela limpeza pela luta
e fazias estátuas de alegria e
mapas de pura aragem sobre as mesas das tascas.
é claro que ouço: os militares marcham
a escada sobe e a rua passa.
adeus Juca prémio de ti mesmo no
calendário da tua presença. foste para mim o espaço dum
espelho exactamente atrás da porta. sabias?
e um estupor também.
adeus Juca pela clara indecência
com que te puseste na minha memória.
sei que estás vivo no céu do teu auto-retrato
com gajas boas e as cricas e as fufas
e as garotas inventadas de dias e buracos.
e trazes o teu fantasma cornudo de lume
na ocasião em que fornicas. adeus amigo.
poooooooooooooooooorrrrrrraaaa: tudo p'ró penico.
nada de adjectivos nem gramamamática
em nenhuma ocasião.
nada de adjectivos nem gramamamática
em nenhuma ocasião.
adeus velhos amigos cozinhados de audácias
e caras enfeitadas com segredos de pissas.
não vou partir nem ficar. nem cus nem tomates.
nada de ilusões. não há muito para desentender:
vamos ao médico ou não temos pressa.
e caras enfeitadas com segredos de pissas.
não vou partir nem ficar. nem cus nem tomates.
nada de ilusões. não há muito para desentender:
vamos ao médico ou não temos pressa.
mas talvez não se passe de novo do povo ou do insecto
no fato
com a verdade pouca na máquina de lavar roupa.
talvez com cagaço e azeite e ocidental e direito.
ou mamas com grão mesmo frias e da véspera.
será que o essencial fica emprestado ou no céu do quarto
ou então no assombro de perfil com água errada na gaveta?
ou mesmo que haja outra lâmpada no estilo do gosto
o mais importante (acredita) vai dos dedos até à garganta.
depois deito-me usado na cama:
cachorro coitado do rabo até à cabeça
com esta puta da vida que nunca me basta.
no fato
com a verdade pouca na máquina de lavar roupa.
talvez com cagaço e azeite e ocidental e direito.
ou mamas com grão mesmo frias e da véspera.
será que o essencial fica emprestado ou no céu do quarto
ou então no assombro de perfil com água errada na gaveta?
ou mesmo que haja outra lâmpada no estilo do gosto
o mais importante (acredita) vai dos dedos até à garganta.
depois deito-me usado na cama:
cachorro coitado do rabo até à cabeça
com esta puta da vida que nunca me basta.
António Aragão
PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC.
PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC.
Vós, os mesquinhos e os tacanhos de espírito
Nunca tinha lido nada de Flannery O’Connor. Durante
seis anos, olhei de tempos a tempos a lombada de UM BOM HOMEM É DIFÍCL DE
ENCONTRAR, concordante e de sorriso irónico, mas só recentemente me atrevi a
tirá-lo da estante e a lê-lo.
Não posso dizer que tenha sido uma leitura feliz – os
dez contos parecem retirados de um velho testamento sulista, como um catálogo
de pecados capitais e outros menos capitais mas nem por isso menos fatais. A
teimosia, a soberba, a luxúria, a avareza, a cobiça, o egoísmo e o racismo
repetem-se nas várias histórias e também as personagens se assemelham de uma
para outra. As proprietárias das fazendas tendem a ser mulheres sozinhas, de
espírito tacanho e contraído, rodeadas por uma empregada ou amiga quadrilheira
e por uma filha embirrenta e antipática. Na maioria das vezes, a desgraça chega
anunciada por um visitante estranho que se apresenta como pessoa simples e
afável (oh, que um deus qualquer nos mantenha a salvo dos simples e da «gente
sã do campo»).
Os afectos produtivos ocupam pouco espaço e todos
parecem infectados por ideias fixas, quais mulas arreigadas nas suas crenças e
preconceitos. Não simpatizamos com ninguém em particular e pressentimos a
desgraça – as situações descambam nos contos de O’Connor e de que maneira! -,
vertiginosa e inclemente que se aproxima. Ainda assim, imploramos alguma
misericórdia mas é tarde demais: «já nada é como costumava ser, o mundo está
quase podre». No meio de tantas desgraças, somos de quando em brindados com
frases assombrosas: «Sou tão bom como tu em qualquer dia da semana» ou «Teria
sido uma boa mulher se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da
vida dela.»
Todos os contos são geniais – Flannery O’Connor é
mestra na sugestão de atmosferas e psiques – mas a minha predilecção vai para
dois deles, O Preto Artificial e A Gente Sã do Campo. Em ambos, o castigo
abate-se sobre a soberba das personagens. O
Preto Artificial é único conto com um final mais luminoso, com a
sobranceria do avô e do neto a serem derrotados pela misericórdia.
Olhavam
para o preto artificial como se se confrontassem com um mistério profundo, um
monumento à vitória de outrem que os reunia na sua derrota comum. Ambos podiam
sentir o efeito do mistério dissolvendo os seus antagonismos como um acto de
misericórdia. Mr. Head nunca soubera antes o que era o sentimento de
misericórdia porque sempre fora demasiado bom para precisar dela, mas
reconheceu-a imediatamente. Olhou para Nelson e compreendeu que devia dizer uma
coisa qualquer que demonstrasse que a sua sabedoria não desaparecera, e no
olhar que recebeu do rapaz identificou uma necessidade imensa dessa garantia.
Os olhos de Nelson pareciam implorar-lhe que explicasse de uma vez por todas o
mistério da existência.
Mr.
Head abriu a boca para fazer uma declaração solene e ouviu a sua própria voz a
dizer: «Não têm cá pretos que cheguem, precisam de criar um preto artificial.»
Depois
de um segundo o rapaz acenou afirmativamente com um estranho tremor na boca e
disse: «Vamos para casa senão ainda nos perdemos outra vez.»
Em suma, Fannery
hits you hard!
Rimbaud, meu amor
Os anos passam. Mais de duas décadas a ler-te e,
embora me continue a acercar das tuas palavras com o mesmo sentimento de
solenidade profana, parece-me que a cada novo encontro adivinho um pouco mais
do teu mistério.
UMA CERVEJA NO INFERNO
Outrora,
se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se
abriam, em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma
noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a.
Armei-me
contra a justiça.
Fugi.
Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, foste vós a guarda do meu tesoiro!
Consegui
destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da
besta feroz. Estranguladas!
E chamei os carrascos para morder,
na agonia, a coronha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia,
mergulhar em sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estiracei-me na lama. Sequei
ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera trouxe-me a terrível
risada do idiota.
Ora, ultimamente, prestes a lançar à
cara do planeta o derradeiro estalo, lembrei-me de ir buscar a chave do festim
(talvez me regressasse o antigo apetite?).
Caridade – é a chave. Uma inspiração
destas prova que sonhei!
«Permanecerás hiena, etc…», ruge o
demónio que me coroava de tão amáveis papoilas. «Morre feliz ao lado dos teus
apetites, com todo o teu egoísmo, com todos os melhores pecados capitais.»
Ah! tomei tanto disso… – Mas, meu
caro Satã, não carregueis tanto o sobrolho! e enquanto esperais ainda uma que
outra miséria vinda atrasada por motivo de obras, vós, que apreciais no
escritor a mais selecta ausência de faculdades descritivas ou pedagógicas, aqui
tendes para já, especialmente arrancadas, estas odiosas folhas do meu canhenho
diário de danado.
Susan Sontag
«Pelo contrário, para mim teria sido um esforço
enorme não pensar no assunto. A coisa mais fácil do mundo é pensar no que está
acontecendo com a gente. Você está lá, no hospital, pensando que vai morrer, e
não pensar sobre isso teria exigido de mim um desprendimento enorme (…). Olha,
o que eu quero é estar presente por inteiro na minha vida – ser quem você é de
verdade, contemporânea de si mesma na sua vida, dando plena atenção ao mundo,
que inclui você.
(…)
Uma
vez me disseram que você costumava ler um livro por dia.
Eu leio em excesso e de maneira muito descuidada.
Adoro ler, do mesmo modo que os outros gostam de ver televisão, e de certa
forma, eu adormeço assim. Se estou deprimida, abro um livro e me sinto melhor.
Como
escreveu Emily Dickinson: “Flores e livros, confortos da tristeza”.
Exacto. Ler é a minha diversão, a minha distracção,
meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo,
enrosco-me a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo.
(…)
O livro que me fez querer ser escritora foi Martin Eden, de Jack London – e tem um
suicídio no fim! (…) Comecei a ler quando tinha três anos. O primeiro romance
que me comoveu foi Os Miseráveis –
chorei, solucei, lamentei. Quando você é uma criança leitora, acaba lendo os
livros que estão pela casa. Lá pelos treze anos, li Mann, Joyce, Eliot, Kafka,
Gide – basicamente os europeus.
(…)
Tive sorte o bastante por ter um filho e ser casada
quando ainda era muito jovem. Já fiz isso, agora não preciso fazer mais. Mas
isso não é um exemplo. Escolhi não me casar mais, já tive um filho – então não
vou sentir falta dessa grandiosa experiência que é ser mãe – e decidi ter uma
vida autónoma, que é cheia de inseguranças, aborrecimentos, ansiedade,
frustrações e envolve longos períodos de castidade. Achei que era isso que eu
queria… mas isso não é um modelo, é apenas a minha própria solução, e só a
justifico para mim mesma por causa dos meus projectos de vida.
(…)
Existe hoje uma pobreza de espírito tão
desencorajadora em relação à alta arte moderna que não sinto vontade nenhuma de
entrar na briga escrevendo um ensaio. No final dos anos sessenta tive a
sensação de que a batalha estava vencida, mas foi uma vitória passageira.
Quando ouço alguém me dizer que não gosta de Dostoiévski porque ele é caótico
demais, digo “Espere aí!” Você poderia me dizer que o motivo disso é o facto de
as pessoas estarem cansadas e precisarem descansar um pouco. Mas eu me
pergunto: Por que elas deveriam descansar? [rindo]
Conversas no Cais de Sodré
- O Herberto Hélder salvou-me a vida.
- Mas literalmente?
- Literalmente, sem dúvida.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Graça Pina Morais (1929-1992)
Descobri uma grande escritora portuguesa, lastimosamente
olvidada: Graça Pina Morais.
Li A Origem e
pasmei perante a sua mestria na composição da densidade psicológica das
personagens que habitam a Casa. Arquétipos de uma ruralidade ainda viva, todas
tão humanas e propensas à fatalidade, todas tão amáveis apesar das suas
fragilidades. A atmosfera e as personagens recordaram-me um pouco o realismo
mágico de García Márquez. Mas só um pouco, pois ainda que apresentada de uma
forma fantástica, o que prevalece nestas páginas é uma viagem ao centro da alma
humana, naturalmente rica em sombras e declives.
Os comentários narrativos revelam uma inteligência
emocional superior, embora por vezes mais descuidada do estilo, e o modo
clarividente como Graça Pina Morais analisa e desmonta a dualidade do artista,
na figura de João, só pode indicar que esta escritora viveu esplendorosamente
toda a vida do espírito artístico.
Uma
das características da Casa era a sua profusão de divisões inúteis. Tinha, pelo
menos, umas quatro salas de estar, onde, aliás, ninguém estava: aquela era uma
dessas. Compunham o mobiliário uma velha mobília de verga e uma cadeira de
balanço, que constituía o encanto de todas as crianças que haviam crescido na
Casa. Numa das paredes estava pendurado um grande espelho, com uma ingénua
pintura num dos cantos, que representava uma série de patos nadando num lago
azul berrante.
Quando
Catarina entrou, João mirava-se no espelho, facto que lhe acontecia com
frequência sempre que deparava com uma superfície espelhada, não porque se
achasse particularmente bonito, mas porque gostava de se avaliar. Catarina
parou e João lançou-lhe um olhar irritado, por ter sido surpreendido em
intimidade consigo mesmo. Não disse uma palavra. Através da porta encostada,
ouviam-se as vozes das tias de João, que chegavam até eles em surdina, vindas
da sala de jantar.
–
Estavas a ver os patos ou estavas a admirar-te? – perguntou Catinha.
–
Estava a admirar-me, sem admiração, é claro! – respondeu ele, quase colérico.
–
Não te aflijas, rapaz, és bonito.
–
Não sou!
–
És – gritou convicta Catarina, que
continuou, depois, numa voz baixa e misteriosa: – Torna a virar-te para o
espelho, João.
–
Que idiotice; para quê?
–
Vais ver. Mas primeiro juras uma coisa: só te voltas para mim quando eu der
ordem. Juras?
–
Juro – prometeu João, curioso. E virou-se
para a superfície brilhante. Não havia mais nada além dos patos.
De
repente, João abafou um grito de espanto. No espelho surgiu Catarina, despida;
a rapariga segurava com os dois braços afastados as bandas do roupão aberto.
Tinha os olhos baixos, quase fechados, a cabeça inclinada num movimento tímido
e gracioso. O corpo de Catarina possuía a perfeição e a pureza da adolescência
e havia nele uma espécie de espiritualidade comovente, que chegava a angustiar,
por se sentir quanto era transitória. Apesar de despida, com a cara incendiada,
a boca timidamente contraída, desprendia-se dela uma grande frescura, uma
imensa pureza.
(…)
Deitado,
João, à força de esperar o sono com impaciência, acabou por sentir-se muito
doente. Todas as ideias se baralhavam na sua cabeça. Pensava vagamente em casar
com Catarina, mas Catarina era só uma mulher, e para o cérebro excitado do
rapaz, uma mulher era pouco. Queria todas as mulheres do mundo. Milhares de
expressões de amor, de abandono, em rostos desconhecidos, corriam na sua
imaginação, e todas tinham o juvenil corpo despido de Catarina. Caras sombrias,
alegres, raivosas, rodeadas de cabeleiras fulvas e negras, encimavam o pescoço
gracioso e inclinado sobre o ombro nu de Catarina, e assim, num crescendo de
excitação raivosa e doentia, João acabou por possuir-se a si mesmo.
Ficou
exausto, deitado de costas e coberto de suor. Não tinha a sensação de ser ele,
nem sequer a consciência do próprio corpo, sentia-se transformado num monstro
viscoso e sombrio, condenado à mais intransponível das solidões. Adormeceu mergulhado
numa cinzenta e desolada tristeza.
Teve
um sonho pavoroso. O mundo despovoara-se e não havia o mais pequeno vislumbre
de vida sobre a Terra; João, desesperado e sozinho no grande universo, amava-se
a si mesmo.
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