sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Charlar de literatura



Cortázar fala sobretudo sobre a sua literatura. E dá a ilusão de que o estamos a ouvir in loco.

A parte maldita


"Você é homem, Endre, um homem excelente e verdadeiro, e sente-se obrigado a raciocinar de maneira coerente, como sabiamente determinam as leis, os costumes ou a razão. Mas nós, mulheres, não podemos ser sempre tão sábias e coerentes... agora, já compreendo que isso não é connosco."

Uma leitura agradável para uma noite chuvosa. Apesar disso, é um Sándor Márai menor.

sábado, 26 de setembro de 2015

O companheiro de viagem


O que haveria no interior das casas que impedia as pessoas de sair correndo para as ruas, a chorar, como se despertasse a consciência de que não valia a pena viver? O que perpetuava nelas a vida e permitia que sobrevivessem às noites geladas, solitárias e tristes, quando a neve congelava sobre a janela, a escuridão era a mesma dos túmulos, a cama lembrava um caixão, enquanto ficavam deitadas, insones, rangendo os dentes, porque uma mosca que dormia seu sono invernal despencara do tecto sobre o nariz? O que animava a espera sem sentido pela manhã? O que haveria amanhã – santa missa, casamento ou morte – em cujo nome seria digno passar às golfadas a noite gélida, longa e amarga, quando o relógio da torre mal batia as horas?


Esta novela foi a minha introdução ao escritor húngaro Gyula Krúdy. Não me cativou por aí além. Talvez a tradução brasileira não fosse o melhor umbral. Para tirar teimas, adquiri  Sunflower.

Cada um de alturas diferentes


Aquele tempo em que pensava estar apaixonado
e calmamente o disse
não era muito diferente do tempo
em que estava verdadeiramente apaixonado
e dormia pouco e falava em voz alta
para a parede
e descobria o génio escondido
das minhas mãos.
E aquele tempo em que me sentia menos apaixonado,
menos que alguém,
era, para ser honesto, não muito diferente
também.
Cada um era ridículo à sua maneira
e simultaneamente terno,
por vezes, até o falso é terno.
Fico estupefacto ao pensar
nos vários beijos de que éramos capazes.
Cada um despenhou-se de alturas
diferentes, e isso é simplesmente a lei.
E o grande barulho
da grande queda parecia perfeitamente branco
passados alguns anos.
Isso é o que me deixa mais estupefacto.
Stephen Dunn

domingo, 13 de setembro de 2015

Uma prosa fosforescente


Para além das árvores, regressei à rotina acompanhada por mais um mistério: o escritor polaco Bruno Schulz.
Já tinha lido As Lojas de Canela mas decidi levar o livro comigo para me aninhar nas longas viagens de comboio. E ainda bem que o fiz. Ai, que prazer tornar a ler Agosto, o primeiro conto do livro e a melhor descrição de um verão abrasador da infância que li, em Agosto, no meio da Polónia.
Como falar de Schulz? Aliás, como traduzir por palavras qualquer mistério, qualquer encantamento que nos cativa? Tarefa nada fácil. Tentemos, no entanto, uma breve aproximação.
A primeira coisa que me ocorre dizer é que Schulz escreve de uma maneira muito particular e incomparável. Claro que podia pôr-me aqui a pensar e detectar linhagens mas, ainda assim, prefiro ater-me ao caso isolado que a sua literatura constitui. Comparam-no muitas vezes a Kafka e não consigo entender porquê. É verdade que ambos eram judeus, de algum modo ocupados por metamorfoses e a sombra do pater famílias (em Schulz, é o pai que sofre mil metamorfoses). No entanto, as dissonâncias são mais essenciais que tais meras coincidências: enquanto Kafka concentrava os seus esforços na descrição do absurdo da realidade através de uma prosa fria e depurada, como um punhal, Schulz voava para bem longe, montado numa prosa féerica e sensual, rumo à porosidade do sonho e do encantamento.
Em Cracóvia, comprei a edição inglesa que, para além de As Lojas de Canela, inclui ainda um conto, O Cometa, que não figura na edição portuguesa (belíssimo devaneio apocalíptico!) e outro tomo de contos, Sanatorium under the sign of the hourglass (ou Sanatório do Gato-Pingado) e alguns contos esparsos. Assim, pude adentrar-me ainda mais dentro desse imaginário exuberante e perturbador e verificar como Schulz foi construindo para si uma mitologia singular em torno de vários tópicos, personagens e geografias recorrentes, nomeadamente as estações do ano (existirá um mistério mais acessível que o seu eterno retorno?), os pássaros, o Livro, o Labirinto, o sono, as mulheres dominadoras como a longilínea Adela, as extravagâncias do Pai, a Praça do Mercado e a casa enorme com múltiplos quartos esquecidos pelo Tempo, etc..
Tanto a família, como a cidade, oscilam permanentemente entre dois estados, o sono onírico e a crescente voracidade do Real. Estão ora sob o signo do tédio, ora sob a ameaça do encantamento poético. E assim, se começa a perceber a função de toda esta potente maquinaria imagética. E tal vislumbre remete-nos sempre para a triste biografia de Schulz, que acabou os seus dias enclausurado num gueto em Drohobycz, a sua cidade natal, até ser assassinado pelas costas por um oficial nazi. Anos antes, por carta, Schluz, confessava: “também não sei viver sem nenhum encanto, sem um pouco de tempero, de condimento que exalte a vida”.
Há sempre um tempo, em que os encantos rareiam. Aqueles foram sem dúvida tempos muito sombrios. E uma alma à míngua só podia confiar na sua imaginação para sobreviver. Now at last one can understand the great and sad machinery of spring. (…) Where would writers find their ideas, how would they muster the courage for invention, had they not been aware of these reserves, this frozen capital, these funds salted away in the underworld?
A escrita de Schulz é isso mesmo, uma lição de sobrevivência pela digestão dos encantamentos mais elementares. Reactivando os mais potentes arquétipos inconscientes, Schulz sugere-nos, com algumas pinceladas mestras, uma paisagem primeva, muito próxima da memória do corpo e da Infância. A sua prosa fosforescente, qual fogo-fátuo ou o verão mais mortal, ilumina por breves instantes um substrato mais mágico, sempre à superfície do quotidiano, cujo magma permanentemente tenta eclodir e repetidamente falha. There are things that cannot ever occur with any precision. They are too big and too magnificent to be contained in mere facts. They are merely trying to occur, they are checking whether the ground of reality can carry them. And they quickly withdraw, fearing to lose their integrity in the frailty of realization. And if they break into their capital, lose a thing or two in these attempts at incarnation, then soon, jealously, they retrieve their possessions, call them in, reintegrate: as a result, white spots appear in our biography – scented stigmata, the faded silvery imprints of the bare feet of angels, scattered footmarks on our nights and days – while the fullness of life waxes, incessantly supplements itself, and towers over us in wonder after wonder.
 É assim o trabalho do mito, sempre enigmático e esquivo. Ou como diria Schulz, “A matéria não é para brincadeiras, enche-se sempre de um trágico sério.” Como tal, o seu resultado é sempre dúplice, e da mesma fonte jorram imagens simultaneamente solares e sombrias, permeadas tanto pela magia mais encantatória, como pela solidão mais profunda. “Um imenso girassol içado até à ponta de um formidável pé com elefantíase, aguardava o fim dos dias nesse luto amarelo, vergado pela carga da sua monstruosa corpulência. Porém, as ingénuas campainhas de subúrbio e as simples flores do percal nada podiam contra tudo isto e limitavam-se a estar muito hirtas nas suas camisas cor-de-rosa, insensíveis ao grande drama do girassol”.
Gostei muito de todos os contos. Se tivesse de eleger os predilectos, talvez escolhesse Agosto, A Visitação, The Book, Spring, Sanatorium under the signo f the hourglass e a carta, longamente citada por Aníbal Fernandes, na introdução à edição portuguesa. Mas é a totalidade da sua obra que me fascina. Mais do que um escritor, Schulz era sobretudo um sonhador: “He proclaimed a Republic of Dreams, a sovereign realm of poetry”. Não admira, portanto, que tenha sido morto pelas costas.

Nos escritos que nos deixou, existem tantas memórias de verões agonizantes, que deixam na alma uma nostalgia perene pela criatividade imolada. Como eu terei deste verão que agora se despenha pelas calçadas de Lisboa. Felizmente, existem também inúmeros delírios poéticos, capazes de acender uma alma no meio da mais escura negritude.

Bruno Schulz


“Não sei de onde chegam à nossa infância certas imagens que vão ter uma significação decisiva para nós. Desempenham o papel dos fios postos nas soluções químicas, e à sua volta cristaliza-se o que é nosso sentido do mundo. Para mim, a imagens destas também pertence o filho levado pelo pai no espaço de uma noite enorme, e que conversa com a escuridão. O pai aperta-o contra si, rodeia-o com os braços, defende-o do elemento que fala, fala sem parar, mas para a criança os braços dele são transparentes, é atingida pela noite, e através das carícias do pai ouve sem tréguas a terrível persuasão. Responde à pergunta da noite esgotada e fatalista, tragicamente permissível, por inteiro devotada ao elemento sem fim de que não pode fugir.
Segundo me parece há temas que desde sempre nos estão destinados, que logo à entrada da vida nos esperam (…).
Essas imagens têm grande força, criam o capital sólido da alma que bem cedo nos é fornecido com pressentimentos e sensações de que só temos uma vaga consciência. Penso que o resto da vida é passado a interpretar estas intuições, a dominar todo um conteúdo seu que devemos conquistar, a filtrá-las ao longo de toda uma dimensão intelectual que podemos atingir. Estas imagens precoces indicam aos artistas os limites da sua criatividade; criatividade que mais não será do que o resultado de dados já existentes. Não descobrem nada de novo, só ensinam a compreender de vez e melhor o segredo que lhes foi oferecido. Aliás, a arte nunca chega a encontrar o sentido oculto de um tal segredo. Que vai permanecer obscuro. O nó à volta da alma não é frouxo, não é dos que cedem quando se puxa a ponta da corda. Pelo contrário, é cada vez mais apertado. E então manipulamos esse nó, acompanhamos as suas voltas, procuramos-lhe o fim, e com essas manipulações é que a arte nasce.
(…)
Qual é o sentido desta desilusão universal perante a realidade, não saberei dizê-lo. Só afirmo que não seria suportável se não soubesse, numa outra dimensão qualquer, indemnizar. De certo modo sentimos uma satisfação profunda quando a trama da realidade abranda, sentimo-nos interessados por essa bancarrota.
Falou-se da tendência destruidora do meu livro. Sob o ponto de vista de certos valores estabelecidos talvez seja verdade. A arte opera, porém, no sentido da profundidade anterior à moralidade; no ponto em que o seu valor só está in statu nascendi.
Como resposta espontânea da vida, a arte distribui tarefas à ética, e não o contrário. Se a arte só devesse confirmar o que já foi noutro lado estabelecido, seria inútil. Tem o papel de sonda mergulhada no inominável. O artista é um aparelho que grava percursos em profundidade, no ponto em que se opera a formação do valor.
(…)
A que género pertence As Lojas de Canela? Como classificá-lo? (…) Trata-se de uma autobiografia ou, melhor, de uma genealogia do espírito; genealogia kat’exochen porque descreve o nascimento da alma e segue-a até às profundezas onde ela se perde em devaneios mitológicos. Sempre senti que as raízes de um indivíduo, desde que seguidas até longe, se perdem numa qualquer floresta virgem e mítica. É esse o fundo definitivo para além do qual não podemos prosseguir.
(…)
De certo modo estas «histórias» são reais, representam a minha maneira de viver, o meu particular destino. E a dominante de tal destino é uma solidão profunda, um distanciamento das coisas da vida de todos os dias.
A solidão é o reagente que leva a realidade ao ponto de fermentação, à decantação das formas e das cores.”


Bruno Schulz

sábado, 5 de setembro de 2015

Europa Central. Agosto 2015


Esquece tudo. As pontes ao entardecer, o infinito dos carris, a recordação do Holocausto e toda a arte, se assim quiseres.
Toda a viagem é interior e as árvores são o facto mais poético.
Como tudo o que é essencial, elas habitavam já a infância, esse território mágico de imagens cadentes que se vão parindo durante toda uma vida. As que davam fruto, alinhavam-se em fileiras intermináveis, disputando taco a taco com o Verão. Nessas tardes, a alegria impunha-se em batalhas campais sem quaisquer contemplações femininas. Era «mata» ou morre – e nunca houve tanta fé numa mão como naquela que arremessava ridente as frutas-munições.
No entanto, era preciso salvaguardar a todo o momento a cabeça. Que vacilava inevitavelmente com as primeiras chuvas. Something is broken inside me. Os frutos invernais alagavam-se então em lágrimas cítricas, partilhadas com o cão Tonecas, fiel companheiro da tristeza.
Além disso, havia também a centenária figueira, testemunha de várias desventuras geracionais, e a bravia nogueira que, em noites ventosas, nos aterrorizava em duelo com os fios eléctricos, trovejando furiosa contra os céus. E as mil moitas que o vizinho Careca esculpia para se ausentar das agruras diárias e confundir com a vegetação. Uma delas, tinha um portal invisível e lá dentro o tempo escorria de outra forma, ao compasso de vários cigarros e ao abrigo de qualquer olhar humano. Ali, eu reinava, confiante nos tempos vindouros, fumando as conquistas por vir.
Mas as árvores não são todas iguais e há qualquer coisa de especial com as da Europa Central. Animadas por um rosto alado, todo o entardecer as encontra barricadas de quietude. As suas sombras abrigam todas as memórias pacificadas e vários animais microscópicos inéditos. Quando tentamos descrever o vento que as agita ou as sombras abençoadas que delas escorrem, somos chegados ao cabo da linguagem, à beira do abismo do encantamento.
Viajamos sobretudo para descobrir a nossa mitologia singular. Na plataforma de uma estação, um pai despede-se da filha com as palavras possíveis. Pede-lhe que lhe escreva nas horas mortas, contando como são as copas das árvores nesses países distantes. Parcamente desesperadas, as suas mãos magras percorrem os bolsos rotos em busca das migalhas restantes. Só a beleza pode suster a vida olvidada de todo o sentido. A menina não entende nada, é muito nova. Porém, anos mais tarde, volvidas muitas paixões breves e indolores, essa mesma menina, então mulher com a atenção amadurecida para os factos mais íntimos, estará noutra plataforma, noutra estação, quando lhe chega a certeza de que o verde é a cor mais enigmática.
Apesar disso, os comboios continuam a desfilar nos carris.

Esquece tudo. Menos os marinheiros, o fogo e as árvores. São esses os maiores mistérios.

sábado, 18 de julho de 2015

La double vie de Veronique (1991)

Das releituras sempre surpreendentes


“Há qualquer coisa de ausente e de intacto no barão Felix – um homem maldito da cintura para cima, que me lembra Mademoiselle Basquette, que era maldita da cintura para baixo, uma rapariga sem pernas, talhada como uma anomalia medieval. Tinha o hábito de se locomover através dos Pirinéus numa prancha de madeira com rodas. O que dela existia era belo, de uma beleza tradicional e vulgar, porque tinha o rosto dos que atingiram uma estupefacção racial, não pessoal. Quis dar-lhe um presente por causa do que lhe faltava, e ela disse-me: «Pérolas… ficam bem com qualquer coisa.» Imaginem… e a sua outra metade ainda estava no saco de habilidades de Deus! Não se pode dizer que aquilo que lhe faltava não lhe tivesse ensinado o valor do que tinha. Como quer que fosse – continuou o doutor enrolando as luvas –, um dia um marinheiro viu-a e apaixonou-se por ela. Ela subia e o Sol iluminava-lhe as costas; formava uma sela no seu pescoço curvado e tremulava ao longo do cabelo ondulado, sumptuosa e saqueada como a figura de proa de uma embarcação normanda que houvesse sido abandonada pelo corpo do navio. Por isso ele apoderou-se dela, prancha de madeira e tudo, e levou-a consigo e obteve o que pretendia. Quando ficou seriamente cansado dela, depositou-a na prancha, em jeito de galanteria, a algumas cinco milhas da cidade, de modo que ela teve de regressar fazendo rolar a prancha, chorando de um modo que causava medo, pois não estamos habituados a ver as lágrimas rolarem até aos pés! Ah! Sim, na verdade uma mulher pode ter uma tábua de pinho que lhe sobe até ao queixo e mesmo assim encontrar uma razão para chorar. É o que lhe digo, minha senhora, se alguém fizesse nascer um coração num prato, ele diria «Amor» e palpitaria como uma perna de rã cortada.”


Djuna Barnes, O Bosque da Noite

domingo, 21 de junho de 2015

A preparar-me para ir ali perder países


"Sem dúvida, no mundo administrado e organizado à escala planetária a aventura e a miséria da viagem parecem limitadas; os viajantes de Baudelaire, partidos em busca do inaudito e dispostos a naufragar na sua surtida, encontram já no desconhecido, apesar de todos os desastres imprevistos, o mesmo tédio que deixaram em casa. Seja como for, movermo-nos é melhor do que nada: olha-se da janela do comboio que se precipita na paisagem, oferece-se ao rosto um pouco da frescura que desce das árvores do caminho, misturando-se à gente, e alguma coisa corre e passa através do corpo, o ar insinua-se entre as roupas, o eu dilata-se e retrai-se como uma medusa, um pouco de tinta transborda do tinteiro para se diluir num mar cor de tinta."

o jogo do mundo


É sabido que sou uma pessoa insatisfeita. Acho sempre que a vida podia ser muito mais do que é e desgosta-me que a maior parte do tempo seja gasto na organização e logística da «vidinha», ao invés de andarmos todos a viver e a amar delirantemente. A este propósito, recordo e recomendo sempre um pequeno ensaio maravilhoso de Claudio Magris, «As Moedas da Vida».

Em Rayuela, de Júlio Cortázar, vim a encontrar uma representação mais caótica desse mesmo problema, Inevitavelmente, passámos um bom tempo juntos. Por aquelas páginas, que vibram como autênticas cordas bambas, caminha uma boémia conhecida e a mesma inquietação que tanto me mastiga em alguns dias.

(...) um homem respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si próprio se algo em tudo aquilo tinha algum sentido. Toda a desordem se justificava se tendia a sair de si mesma, podia ser que através da loucura se pudesse chegar a uma razão que não fosse essa razão da qual a falência é a loucura. «Ir da desordem à ordem», pensou Oliveira. «Sim, mas que ordem pode ser essa que não se parece com a mais nefanda, terrível e insanável das desordens? A ordem dos deuses chama-se ciclone ou leucemia, a ordem do poeta chama-se antimatéria, espaço duro, flores de lábios trémulos, realmente que grande sbornia que eu tenho em cima do pelo, tenho mesmo que me ir deitar.» E a Maga estava a chorar, Guy tinha desaparecido. Etienne discutia com Perico, e Gregorovius, Wong e Ronald olhavam para um disco que rodava lentamente. Oscar's Blues a trinta e três rotações e meia por minuto, nem mais nem menos, e nessas revoluções Oscar's Blues, claro que com o próprio Oscar ao piano, um tal de Oscar Peterson, pianista com algo de tigre e de veludo, pianista triste e gordo, um tipo sentado ao piano e a chuva a bater na clarabóia, enfim, literatura. (p. 17-18)

(...)

Teria sido muito fácil organizar um esquema coerente, uma ordem de pensamento e de vida, uma harmonia. Bastava a hipocrisia de sempre, elevar o passado a valor de experiência, tirar partido das rugas da cara, do ar vivido que existe nos sorrisos e nos silêncios de mais de quarenta anos. Depois, um facto azul, as frontes prateadas bem penteadas e a entrada nas exposições de pintura, na Sade e em Richmond, a reconciliação com o mundo. Um cepticismo discreto, um ar de estar de regresso, uma entrada cadenciada na maturidade, no casamento, no sermão paterno à hora do assado ou das notas negativas. Se to digo, é porque já vivi o suficiente. Eu, que viajei quando era rapaz. São todas iguais, ouve o que te digo. Falo por experiência própria, meu filho, tu ainda não sabes o que é a vida.
(...) Parado em frente de uma pizzaria na calle Corrientes, Oliveira fazia grandes perguntas a si mesmo: «Então quer dizer que se tem de ficar como o cubo da roda a meio da encruzilhada? Para que é que serve saber ou pensar saber que todos os caminhos são falsos se não o percorrermos com o propósito que já não seja o caminho em si? Não somos Buda, che; aqui não há árvores para nos sentarmos à sua sombra na posição de lótus. Aparece um polícia e passa-nos logo uma multa. (p. 48-49).


Para já, fico-me pelo «primeiro livro», Sob o facínio das palavras de Cortázar, tentei seguir de imediato para o «segundo livro», mas a leitura repetida de alguns capítulos quebrava o encanto. Achei melhor fazer uma pausa e esquecer o assombro que é todo este livro, em especial o capítulo 41. Jamais tinha sentido uma tão grande vertigem literária.

sábado, 23 de maio de 2015

Getting the blues

Lendo o Rayuela, com o sol derramado sobre a cama, chego à conclusão que os dias de praia são algo definitivamente sobrestimado. 

Em plena satisfação precária, em plena falsa trégua, estendi a mão e toquei no novelo de Paris, na sua matéria infinita enrolando-se sobre si mesma, no magma do ar e daquilo que se desenhava na janela, nuvens e águas-furtadas; nessas alturas não havia desordem, o mundo continuava a ser algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos a rodarem nas suas dobradiças, uma meada de ruas, árvores, nomes e meses. Não havia uma desordem que abrisse as portas ao resgate, havia somente sujidade e miséria, copos com restos de cerveja, meias a um canto, uma cama que cheirava a sexo e a cabelos, uma mulher que passava a sua mão fina e transparente pelas minhas coxas, retardando a carícia que me arrancaria por uns instantes dessa vigilância do grande vazio. Demasiadotarde, sempre, porque ainda que fizéssemos amor muitas vezes, a felicidade tinha que ser outra coisa, algo talvez mais triste do que essa paz e esse prazer, um ar como que de unicórnio ou de ilha, uma queda interminável na imobilidade. A Maga não sabia que os meus beijos eram como olhos que começavam a abrir-se para lá dela e que eu andava como que saído, concentrado noutra figura do mundo, piloto vertiginoso de uma proa negra qye cortava a água do tempo e a negava.

Jakob von Gunten


“Muitas vezes saio para a rua e tenho então a sensação de viver num conto de fadas selvagem. Tudo puxa e empurra, tudo trepida e palpita. Tudo grita, martels, vibra e zumbe. E tudo num espaço cercado (…). O que é nobre caminha lado com o que é baixo e mau, as pessoas vão, não se sabe para onde, e eis que regressam, e são já outras pessoas e não se sabe de onde vêm. Pensamos poder adivinhar a sua origem e dá-nos prazer o esforço de a decifrar. E o sol brilha sobre tudo. Ilumina o nariz a um, a outro a ponta do pé. As rendas das saias brilham numa confusão dos sentidos. No colo de velhas, distintas senhoras, cãezinhos vão de passeio em carros. Peitos aproximam-se em contramão, peitos de mulher apertados em vestidos e corpetes. E depois também muitos e estúpidos charutos em muitas pregas de bocas masculinas. E sonhamos com ruas nunca imaginadas, novas e invisíveis regiões que fervilham também de gente. Entre as seis e as oito da tarde o movimento humano tem o seu momento mais gracioso e concentrado. É quando sai a passeio a melhor sociedade. O que somos nós, na verdade, no meio deste rio, desta colorida corrente humana que nunca quer acabar? Por vezes, todos estes rostos em movimento ganham um brilho rubro, pintados pela cor do sol poente. E quando o céu está cinzento e chove? Então todas estas figuras, e eu com elas, caminham apressadamente sob a gaze opaca, como figuras de um sonho à procura de alguma coisa, mas sem nunca encontrar, parece, o que é belo e certo. Todos aqui procuram alguma coisa, todos anseiam por riquezas e fortunas fabulosas. Sempre com pressa. Não, sabem dominar-se em tudo, mas a pressa, a ânsia, o tormento e a inquietude brilham em lampejos nos olhos ávidos. E depois é tudo de novo banhado pelo sol quente do meio-dia. Tudo parece dormir, mesmo os carros, os cavalos, as rodas, os ruídos. E as pessoas olham sem consciência. Os prédios altos, aparentemente em queda, parecem sonhar. Raparigas passam apressadas, embrulhos são transportados. Gostaríamos de abraçar alguém. Quando volto para casa, encontro Kraus sentado à espera, que me recebe com sarcasmos. Digo-lhe que sempre temos de conhecer um pouco do mundo. «Conhecer o mundo?» diz ele, absorto em profundos pensamentos. E sorri com desprezo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

em breve


Os meus primeiros duzentos filmes foram vistos em estado de clandestinidade, ou por fazer gazeta à escola, ou por entrar na sala sem pagar (pela saída de emergência ou pelas janelas da casa de banho), ou ainda por aproveitar as saídas nocturnas dos meus pais, com a necessidade de me encontrar na cama no seu regresso a casa. Era, pois, com fortes dores de barriga que eu pagava este grande prazer, com a barriga num nó, a cabeça amedrontada, invadido por um sentimento de culpabilidade que só podia aumentar a emoção provocada pelo espectáculo.

Compreender-se-á que a obra de Alfred Hitchcock, toda ela dedicada ao medo, me tenha seduzido desde o início, e depois a de Jean Renoir, voltada para a compreensão: «O que é terrível nesta terra é que toda a gente tem os seus motivos» (A Regra do Jogo, 1939). A porta estava aberta, eu estava pronto a receber as ideias e as imagens de Jean Vigo, Jean Cocteau, Sacha Guitry, Orson Welles, Marcel Pagnol, Lubitsch, Charlie Chaplin, evidentemente, todos aqueles que, sem serem imorais, «duvidam da moral dos outros» (Hiroxima, Meu Amor, 1959).

françois truffaut

segunda-feira, 11 de maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS


Tenho tido inúmeras oportunidades para constatar que a minha memória é dotada de uma selectividade muito peculiar. Interessa-se sobretudo por guardar sensações e impressões, elidindo muitas factualidades. Quantas vezes quero contar uma história minha e só consigo traduzir apontamentos sensitivos. Este fenómeno manifesta-se sobretudo com os amantes e as leituras. Não sei dizer se a compulsão voraz de certas leituras influencia, mas a verdade é que às vezes sou incapaz de recordar o enredo de uma história que li há muitos anos, embora possa enumerar com toda a nitidez as sensações que tal livro me provocou no corpo.

Yukio Mishima é um dos autores que me surge envolto numa nebulosa de sensações. Li-o nos tempos da licenciatura, há uns 11 ou 10 anos, e recordo que a sua escrita me afectou de um modo algo delirante, como se as suas palavras me colocassem no umbral do Indizível. Volvidos vários anos, não consigo encontrar essas histórias dentro de mim. Já a sensação que o meu corpo experimentou ao lê-las surge-me de pedra e cal, qual estátua. A única maneira de a comunicar é dizer que se apresentava como um mistério solene de mãos em posição de oração, depois de um grande combate silencioso.

Com a colectânea de contos A MORTE EM PLENO VERÃO, recuperei parte desse tumulto interior. Falar de cada conto é tarefa quase inútil, os temas e os acontecimentos narrados servem apenas para aflorar esse grande mistério indizível que compõe as emoções humanas. Posso dizer que o conto A MORTE EM PLENO VERÃO se inspira em De Quincey (a epígrafe do conto pertence a Baudelaire mas a colusão poética do verão com a morte remonta de facto às confissões de De Quincey, que Baudelaire tão atentamente leu e reescreveu) para nos contar uma tragédia balnear e dissecar com toda a mestria as várias fases do luto.

- A culpa foi toda minha – disse ela. Aquelas eram as palavras que Masaru mais desejava ouvir.
(…)
Embora não o soubesse, estava desesperada com a pobreza das emoções humanas. Haverá algum bom senso em que choremos a morte de dez pessoas como choramos a morte de uma só?

Posso dizer que dizer que os remates de O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR e AS SETE PONTES são deliciosamente enigmáticos. E que TRÊS MILHÕES DE IENES insinua em nós uma pergunta quantitativa de difícil resposta: quanta sordidez é necessária para assegurar uma estabilidade inocente? Ou que o conto GARRAFA-TERMOS me recordou de algum modo a atmosfera de certos filmes do Wong-Kar Wai e também Marguerite Duras.

Apurando o ouvido para a conversa, Asaka tirou o casaco e colocou-o no regaço. Só o pescoço, com que ela agora não tinha de se preocupar como quando era gueixa, mostrava a negligência da mulher profissional que voltara a ser amadora. Trazia o cabelo puxado para cima e Kawase ficou admirado com a escuridão da sua pele.
- Não são muito simpáticas mas trabalham muito – disse Asaka em voz alta, olhando para as criadas. Kawase gostou de ver nos olhos vivos todo o entusiasmo que ela tinha pelo seu novo trabalho. Ela tinha sido sempre bela, pensou ele, mesmo quando a olhava como se estivesse a admirar um fogo distante.
(…)
O café tinha o cheiro peculiar americano, meio higiénico, a remédios, meio doce e pegajoso a corpos. Os clientes eram mulheres, na sua maioria de meia-idade ou mais velhas, com olhos orgulhosos e lábios pintados, atacando grandes bolos e sanduíches. Apesar do barulho e da azáfama da loja, havia qualquer coisa de solidão em cada mulher e nos seus apetites. Triste, só, como a actuação de tantas máquinas consumidoras.


Posso, sem dúvida, dizer que a perfeição formal de PATRIOTISMO é de uma beleza imbatível. Mas o mais essencial será que cada leitor se ofereça a esta leitura como um piano virgem e possa escutar em si a ressonância inesperada de cada harmonia sombria.

sábado, 4 de abril de 2015

O grande Meaulnes


"Procuro qualquer coisa mais misteriosa ainda. É a passagem de que se fala nos livros, o antigo caminho obstruído, de que o princípe, exausto de fadiga, não conseguiu encontrar a estrada. Descobre-se na hora mais ocasional da manhã, quando há muito nos esquecemos de que já vai nas onze horas, no meio-dia... E de súbito, ao afastarmos os ramos, por entre a folhagem profunda, com um gesto hesitante das mãos desigualmente afastadas à altura da cara, vemos como que uma longa avenida escura, cuja saída é um circulozinho de luz."


Finding Vivian Maier


sábado, 28 de março de 2015

Uma grande coragem inútil


Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.

Em Berlim, em Lisboa, o mesmo desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas. “Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.

E tenho a certeza que a minha mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim, passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor. Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.

Apesar de tudo isto, descubro de vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras, escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação nascente.

Curiosamente também, dois desses escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, e A Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.

E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a capitulação da cidade.
Nossa Senhora das Flores, Jean Genet

Em ambas as leituras, o furor começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido, nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel, impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.

Senão vejamos: “Que palavra assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores. E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e barcelonas”. E assim por aí adiante.

A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório, cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos do sublime. Um exemplo ao acaso:

Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.
É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o seja.
Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos meus ares.
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes.


Não podia estar mais de acordo. Há muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse, jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Dos efeitos perniciosos da insinceridade


A Woman Under The Influence (1974)

Os desalojados do mundo


"Sem parar de sorrir e com irónica malevolência, virou-se para Stoner.
- Tu também não escapas, meu amigo. Nem penses. Quem és tu? Um simples filho da terra, como te queres convencer a ti próprio? Ah, não. Tu também fazes parte dos enfermos... tu és o sonhador, o louco num mundo ainda mais louco, o nosso Dom Quixote do Midwest sem o seu Sancho Pança, a fazer cabriolas sob o céu azul. És suficientemente esperto, pelo menos mais esperto do que o nosso amigo mútuo. Mas tens a mácula, a velha enfermidade. Achas que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa para descobrir. Pois bem, no mundo, aprenderias depressa. Também tu foste talhado para o fracasso, embora não lutasses contra o mundo; deixarias que ele te pisasse e deitasse fora, e ficarias ali caído a perguntar-te o que se passava, porque esperarias sempre que o mundo fosse algo que não era, algo que não queria ser. O gorgulho no algodão, a minhoca no pé de feijão, o caruncho no milho. Não os conseguirias encarar e não conseguirias lutar contra eles, porque és demasiado fraco e és demasiado forte. E não tens para onde ir no mundo."

IDA


sábado, 10 de janeiro de 2015

que coisa são as nuvens

"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."

Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)

Lola Montès (1955)


«Ela está prematuramente gasta.»

QUANDO UM HOMEM CHORA


2014 terminou com dias solarengos no Algarve, aconchegados pelos meus cães e pela leitura do primeiro volume de A MINHA LUTA de Karl Ove Knausgard, A MORTE DO PAI. Aguardava com curiosidade esta leitura desde Setembro de 2013, quando a deliciosa Ahab anunciou a publicação da tradução dos seis tomos autobiográficos, uma vez que se trata de uma obra confessional, género que muito estimo.
O livro chegou, portanto, com uma empatia já previamente estabelecida e apanhou-me de férias, fumando reflexões várias sobre uma vida melhor e o valor da alegria e do fascínio, moedas ultimamente escassas no meu quotidiano e, consequentemente, nas minhas leituras. A sensação de que o futuro não existe, de que é apenas mais do mesmo, significa que todas as utopias são desprovidas de sentido. A literatura sempre esteve relacionada com a utopia, por isso, quando a utopia perde o sentido, acontece o mesmo com a literatura. O que eu tentava fazer, e talvez o que todos os escritores tentam fazer – que raio sei eu? –, é combater a ficção com a ficção. O que eu devia fazer era aceitar o que existia, aceitar as coisas como elas são, por outras palavras, celebrar o mundo em vez de procurar uma saída, porque assim teria sem dúvida uma vida melhor, mas não conseguia, não conseguia; algo se congelara em mim, uma convicção tinha-se enraizado em mim, e, embora fosse essencialista, ou seja, anacrónica e até romântica, eu não conseguia passar por cima dela, pelo simples motivo de que não fora apenas uma coisa pensada mas também sentida, naqueles súbitos estados de iluminação que acontecem na vida, em que durante alguns segundos se vislumbra um mundo diferente do que se vislumbrou momentos antes, onde o mundo parece avançar e mostrar-se por um breve espaço de tempo, antes de recuar e tudo voltar a ser como era…
Kanusgard constrói uma investigação existencial, uma indagação proustiana dos traços do tempo vivido, para entender como se chega a ser como se é: Como é que acabei aqui? Como é que as coisas aconteceram assim? (…) E cada dia que passa, aumenta o desejo pelo momento em que a vida atingirá o auge, pelo momento em que as comportas se abrirão e a vida seguirá, por fim, em frente. Ao mesmo tempo vejo que a repetição, a clausura, o inalterável são necessários, que me protegem. Nas poucas ocasiões em que os deixei, as velhas feridas regressaram. De repente sou tomado por todos os pensamentos imagináveis sobre o que foi dito, o que foi visto, o que foi pensado, atirado para aquele espaço incontrolável, estéril, muitas vezes degradante e verdadeiramente destrutivo onde vivi tantos anos. Nele a nostalgia é tão forte quanto a que existe aqui, mas a diferença é que esse sentimento tem um objectivo realizável, aqui não. Aqui tenho de encontrar outros objectivos e de me contentar com eles. Falo da arte de viver.
Como não simpatizar com este projecto? Em termos de fascínio, a ligação processava-se de modo menos automático. Influenciada pela imprensa, esperava talvez um striptease mais visceral mas Knausgard, como um bom nórdico, insistia nas excursões pelas ideias e a minha atenção divagava também. No entanto, a partir da página 140, percebi que havia ali entranhas várias e uma enorme coragem em expô-las e que não me havia apercebido disso até então pelo relato essencialmente masculino e racional. Foi só quando aceitei que visceralidade e lucidez podiam coabitar nas mesmas páginas, que encontrei a porta de entrada para o texto.
E assim fui acompanhando essa voz, apreendendo as suas nuances masculinas, as duras dores do seu crescimento, as primeiras bebedeiras, o primeiro amor. Numa manhã de Abril há rebentos nas árvores e uma vaga verde começa a cobrir a erva amarela dos campos. Florescem os narcisos, e também os malmequeres e as violetas. Em seguida, o ar quente surge como uma coluna por entre as árvores das colinas. Nas encostas soalheiras os rebentos abriram, e as cerejeiras estão em flor. Quando temos dezasseis anos, tudo isto causa uma certa impressão, tudo isto deixa a sua marca, pois é a primeira Primavera em que sabemos que é Primavera, em que todos os sentidos pressentem a sua chegada, e é também a última, pois todas as outras Primaveras empalidecem quando comparadas com a primeira. Se além disso estamos apaixonados, bem, então… então é apenas uma questão de aguentar. Aguentar toda a felicidade, toda a beleza, todas as promessas que há em todas as coisas. Ia a pé da escola para casa, reparei que a neve derretera sobre o asfalto, era como se ele tivesse sido esfaqueado no coração. Vi caixas de fruta sob um toldo de uma loja, um corvo a saltitar não muito longe dali, olhei para o céu e estava muito bonito. Atravessei a zona residencial, caiu um aguaceiro, fiquei com os olhos cheios de lágrimas.
E, aquando da descrição do autor da sua relação com a arte, lá estava eu enamorada por essa inquietação ávida que tanto conheço e que jamais tinha conseguido capturar pela palavra. Era o único critério que usava para avaliar a arte: a sensação que despertava em mim. A sensação de inesgotabilidade. A sensação de beleza. A sensação de presença. Tudo comprimido em momentos tão intensos que às vezes eram difíceis de aguentar. E bastante inexplicáveis (…). Liberdade mas não paz, porque, ainda que os quadros retratassem cenários idílicos, como as paisagens arcaicas de Claude, eu ficava sempre perturbado quando os abandonava, pois aquilo que possuíam, no íntimo do seu ser, era a inesgotabilidade, e isso despertava em mim uma espécie de avidez. Não consigo explicar melhor. Uma vontade de estar dentro da inesgotabilidade (…). No entanto, assim que voltava a concentrar-me na pintura, toda a minha racionalidade desaparecia com aquele embate de energia e de beleza. Sim, sim, sim, ouvia. É aí que está. É para aí que tenho de ir. Mas a que é que dissera sim? Para onde é que deveria ir?
E assim flui a luxúria entre quem se despe e quem olha. Mas nada parecido entre o affair de Actéon e Diana. Porque aqui, a verdade do outro não aniquila, é mais como uma casa bafienta e escura que se abre para a vida com uma sinceridade muito viva. Na minha opinião, é um livro bom mas não genial e muito do bruaá deve-se à exposição extrema e polémica que Knausgard faz dos seus familiares e outros. A grande operação de marketing do livro baseou-se nessa polémica, o que determina que grande parte do prazer voyeurista da leitura seja gasto nesses espantos. É no entanto um livro bom, cujos tomos seguintes lerei com certeza. Sobretudo porque confessa pequenas derrotas e breves iluminações, que tantos sentem e poucos revelam.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CORAZÓN DE ALGODÓN



«No te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del linguaje mismo del cariño y la confianza – y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero outra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso outro también es vos, lo sé, pero no es todo y demás no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mesmo. El poder poético es tuyo, lo sabes, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tempos en que esse poder era el antagonista frente a la vida, y está el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siqueira esse privilegio imperial, queridíssima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuleve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonês: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.» (Julio Cortázar).


Qué haré con el miedo?
Que faremos com o medo, querida Alejandra?

Penso em ti, penso em nós, quando me reclino no sofá, estrangulada pelas horas indomadas. Afasto a gata e encosto a mão ao meu sexo, sinto-o pulsar. E sei que ainda pertenço à vida.

Porque é que não partimos com os pássaros, ainda que em voos rasantes? Porque insistimos nas palavras que comandam a noite e mancham a esperança alva? Também no meu peito se fossilizou a desespero mas a literatura não pode servir apenas para perder a inocência, pode também ensinar-nos a suspender a descrença como Coleridge nos ensinou. Pretendamos que assim seja.

Assim, como Gilgamesh: esquece a morte e segue-me.

Ou assim: mi corazón abre la ventana, vida aqui estoy.
Olvidemos a morte e as suas estranhas mãos e pensemos nesse verão longínquo, em que confundimos o céu com o nosso amor fervente, súplice de marés e faróis.

Noche que te vas, buenas noches.

Não negues a mania de viver que te arrasta, Alejandra, ainda que escolhas apelidá-la de lúgubre. Lá fora está sol, não te vistas de cinzas. A última inocência não é o apeadeiro final, podemos ainda ingressar na «escola da ingenuidade» e usar a imaginação poética para nos salvarmos.

sábado, 29 de novembro de 2014

Céu estrelado em noite escura

Oferecem-me bilhete para o Mexefest e declino para ficar em casa enrolada na Poesía Completa de Alejandra Pizarnik. É resignação ou maturidade?

CIELO

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
immutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos
los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas

lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigia bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa llena de dualismos

domingo, 23 de novembro de 2014

e a noite roda


Passei os últimas noites de chuva entretida com a leitura de e a noite roda de alexandra lucas coelho. Foi uma leitura light, sem deslumbramentos maiores, que compensou sobretudo pelo tom delicado, a evocação de lugares distantes e por esse grande amor à literatura como forma de viagem. A história de amor narrada apoia-se em várias referências bibliográficas e os encontros carnais dos amantes compõem as partes mais bem conseguidas do livro.

"Mesmo no inverno, a pele do teu corpo é morena. Continuas a cheirar a sabonete, macio e a cheirar a sabonete, com um sexo grande e macio e a cheirar a sabonete, mesmo quando tenho a cara entre as tuas pernas, e a cabeça do teu sexo pulsa para a frente. O teu esperma é leve, só ligeiramente acre. A tua cara aparece e desaparece. Nem sempre nos vemos, talvez nem sempre tenhamos nome. Às vezes és só um quadril com sexo, pelos de um louro escuro por cima. Ou uma boca no meu sexo, caracóis grisalhos entre os meus dedos. Uma boca, uma língua, dentes na minha boca, na minha língua, dentes contra dentes. Uma mão no meu pescoço, dobrando-me para trás, para a frente. Uma mão que me agarra pelo cabelo com a um bicho. Duas mãos que me puxam para um corpo por trás do meu. E não sei quem sou nem quem és. Depois volto-me na cama, abro os olhos, a tua cara está lá no alto, entre os meus tornozelos, afogueada. Encostas o tronco às minhas pernas, o teu sexo entra de um golpe, eu rodo e rodo com ele dentro, mas os nossos olhos estão fixos, cada vez mais desesperados, como se tudo o que o corpo faz para chegar perto nunca chegasse."

"Noite num mosteiro, antes de descer à costa. Tacteio com todas as minhas extremidades e a matéria conflui desde o seu núcleo. Não tens a pele dura dos circuncidados. A cabeça do teu sexo nasce só para isto, cega e sensível a cada vez. Sento-me nela, afundo, desapareço. Sou o cimo onde tu bates, e bates, até à dissolução. Pequena morte, sim, porque a morte há de ser o fora da história, ausência de bagagem e de cronologia. Noite branca."

Além disso, dois versos no seu interior, decidem a minha próxima viagem: Alejandra Pizarnik.

Alguma vez, talvez, encontraremos refúgio na realidade verdadeira.
Entretanto posso dizer até que ponto sou contra?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Hilda, meu amor



OBSCÉNICA - TEXTOS ERÓTICOS & GROTESCOS
LANÇAMENTO A 27 NOVEMBRO | PENSÃO AMOR | 19H

O que eu podia fazer com as mulheres além de foder? Quando eram cultas, simplesmente me enojavam. Não sei se alguns de vocês já foderam com mulher culta ou coisa que o valha. Olhares misteriosos, pequenas citações a cada instante, afagos desprezíveis de mãozinhas sabidas, intempestivos discursos sobre a transitoriedade dos prazeres. Uma delas, trintona, Flora, advogada que tinha um rabo brancão e a pele lisa igual à baga de jaca, citava Lucrécio enquanto me afagava os culhões e encostava nas bochechas translúcidas a minha caceta: ó Crasso (até aí é texto dela) e depois Lucrécio.

domingo, 16 de novembro de 2014

Crónicas do Fel de Amor


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:

         “No meio do caminho em nossa vida,
              eu me encontrei por uma selva escura
     porque a direita via era perdida.
Ah, só dizer o que era é cousa dura
     esta selva selvagem, aspra e forte,
     que de temor renova à mente a agrura!
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
     mas, por tratar do bem que eu nela achei,
     direi mais cousas vistas de tal sorte.
Nem saberei dizer como é que entrei,
     tão grande era o meu sono no momento
     em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As dioptrias de Elisa


Seis horas e Filipe ia ter com Elisa a casa dela. Filipe apareceu de rompante na rua e foi logo ter com ela a casa. Elisa não estava à janela, estava dentro de casa e Filipe bateu à porta da casa dela. Elisa abriu. Filipe entrou. Elisa à porta apaixonou-se logo por Filipe, o rapaz belo, e deram um grande beijo na boca. Filipe era a primeira vez que tinha assim uma mulher nos seus braços. Deixaram-se os dois e Elisa disse - «Como é que você sabia que eu era uma mulher assim, que o nosso caso viria dar nisto?» Filipe calou-se e não disse nada. Ainda disse - «Eu supunha por si Elisa que você me havia de aceitar quando me viu na rua domingo quando ia para o jardim com o seu marido e os seus filhos.» E depois ainda lhe perguntou - «Porque é que você gosta de mim?» Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu -«Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.» - «Estou também apaixonado por si Elisa», disse Filipe. Elisa queria ter já a relação do coito, dos três coitos que haviam de ter até domingo às seis horas da manhã. Combinaram-se para a cama.
Elisa punha-se agora em combinação preta, sem calças por baixo. Queria a relação em combinação, a primeira relação, havia de ser pôr nua quando quisesse e fosse altura. Os olhos de Filipe perdiam-se de vista, dilatavam-se enormemente. Nunca tinha tido uma ocasião assim pois era a primeira vez que ia para a cama com uma mulher. Elisa puxava agora a baínha da combinação  preta para cima e mostrava-lhe a púbis. Filipe estava nu. Elisa já estava na cama. Chamou-o. Filipe deitou-se primeiro ao lado dela nu e depois subiu-lhe para cima. Em cima dela tirou-lhe a combinação. Estavam nus os dois.
Filipe introduziu-lhe o pénis. Elisa antes nua já tinha dado uma atenção ao pénis de Filipe muito grande. Nunca tinha visto um pénis tão grande a querer entrar em si na sua púbis. Elisa dizia-lhe agora - «Nunca vi um homem como você, o seu rabo pequeno e doce o seu sexo, estou perdida por si Filipe.» Filipe disse - «Você estua toda por mim, temos de ter a relação já.» Filipe introduziu-lhe outra vez o pénis feito, todo feito. Elisa queixou-se debaixo dele. Depois disse - «Ai, filho, querido, é tão bom.» Filipe já se masturbava já deitava a esperma toda fora dentro da vagina dela e cá fora. Tinha chegado ao momento. Filipe levantava-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa estava ainda nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Tudo conspira

"Pois como tudo o que é pleno, o que torna toda a matéria ligada, e como no pleno todo o movimento faz algum efeito sobre os corpos distantes na medida da distância, de tal sorte que cada corpo é afectado não só pelos que o tocam, e se ressente de certa maneira de tudo o que lhes acontece, mas também por intermédio deles se ressente os que tocam os primeiros pelos quais é directamente tocado: segue-se que esta comunicação alcança seja a distância que seja. E, por conseguinte, todo o corpo se ressente de tudo o que se faz no universo, de tal modo que aquele, que vê tudo, poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte e até o que se fez ou se fará, observando no presente o que é remoto, tanto segundo os lugares; sympnoia panta, dizia Hipócrates. Mas uma alma não pode ler em si própria senão o que nela é distintamente representado, e não poderia desenvolver de uma vez só as suas dobras, porque estas vão até ao infinito."

Leibniz, Monadologia