quarta-feira, 26 de abril de 2017
Rubén Darío
Yo persigo una forma que no encuentra mi estilo,
botón de pensamiento que busca ser la rosa;
se anuncia con un beso que en mis labios se posa
el abrazo imposible de la Venus de Milo.
Adornan verdes palmas el blanco peristilo;
los astros me han predicho la visión de la Diosa;
y en mi alma reposa la luz como reposa
el ave de la luna sobre un lago tranquilo.
Y no hallo sino la palabra que huye,
la iniciación melódica que de la flauta fluye
y la barca del sueño que en el espacio boga;
y bajo la ventana de mi Bella-Durmiente,
el sollozo continuo del chorro de la fuente
y el cuello del gran cisne blanco que me interroga.
César Vallejo
Altura y pelos
¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!
¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!
¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que tan sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que tan sólo he nacido solamente!
¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!
¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!
¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que tan sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que tan sólo he nacido solamente!
domingo, 26 de março de 2017
Bibliofilia e listas
No outro dia estava a ler a lista dos 100 livros favoritos do David Bowie e, em jeito de brincadeira, comecei a esboçar uma lista dos meus livros preferidos. Partilho aqui o resultado. Alguns não entram na minha definição de livros do caralho mas encontraram-me no momento certo, mudaram alguma coisa cá dentro, prestaram uma companhia generosa e preciosa ou acrescentaram joie de vivre.
A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
O Jogador, Fiodor Dostoievski
As Flores do Mal, Charles Baudelaire
Obra completa, Friedrich Nietzsche
Outono transfigurado, Georg Trakl
Iluminações, Arthur Rimbaud
Canto de mim mesmo, Walt Whitman
Poesia, Álvaro de Campos
Palavras e sangue, Giovanni Papini
Os Maias, Eça de Queiroz
Aparição, Vergílio Ferreira
História da Sexualidade, Michel Foucault
História da loucura, Michel Foucault
A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud
A apresentação do eu na vida de todos os
dias, Erving Goffmann
A Câmara Clara, Roland Barthes
Fragmentos de um discurso amoroso, Roland
Barthes
Memorial do Convento, José Saramago
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José
Saramago
Cem anos de solidão, Gabriel García Marquéz
A náusea, Jean Paul Sartre
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
Orlando, Virginia Woolf
Crime e Castigo, Fiodor Dostoievski
Madame Bovary, Gustave Flaubert
Lillias Fraser, Hélia Correia
Niels Lyhne, Jens Peter Jacobsen
As anotações de Malte Lauris Brigge, Rainer
Maria Rilke
Os passos em volta, Herberto Hélder
Psicanálise do Fogo, Gaston Bachelard
Em carne viva, David Grossman
As Horas, Michael Cunningham
L’image-mouvement, Gilles Deleuze
O Amante, Marguerite Duras
Corpo presente, Anne Enright
As partículas elementares, Michel
Houllebecq
História das drogas, Antonio Escohotado
Drogas, embriaguez e outros temas, Ernst
Jünger
O único e a sua propriedade, Max Stirner
Contos, Tchékhov
Uma visão do mar, Dylan Thomas
Fear and loathing in Las Vegas, Hunter
Thompson
A moeda viva, Pierre Klossowki
Laços de Família, Clarice Lispector
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres,
Clarice Lispector
Tonio Kroger, Thomas Mann
Contos, Katherine Mansfield
A mulher certa, Sandór Marai
Coração, caçador solitário, Carson
McCullers
Gente feliz com lágrimas, João de Melo
O cinema ou o homem imaginário, Edgar Morin
Lolita, Vladimir Nabokov
A morte sem nome, Santiago Nazarian
Anna Karenina, Lev Tolstoi
Os cães e os lobos, Irene Némirovsky
Contos, Dorothy Parker
Balada da praia dos cães, José Cardoso
Pires
Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, Katherine
Anne Porter
Suspiria de Profundis, Thomas de Quincey
Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke
Crack Wars, Avital Ronnell
O amor e o Ocidente, Dennis de Rougemont
Franny e Zooey, J.D. Sallinger
A ronda, Arthur Schnitzler
Lojas de canela, Bruno Schulz
Morte na Pérsia, Annemarie Schwarzenbach
O Estranhamento do Mundo, Peter Sloterdijk
O Doutor Glas, Hjalmar Söderberg
Early diaries, Susan Sontag
O apogeu de Miss Jean Brodie, Muriel Spark
Na tua face, Vergílio Ferreira
O físico prodigioso, Jorge de Sena
Trinta anos, Ingeborg Bachmann
O bosque da noite, Djuna Barnes
Uma noite entre os cavalos, Djuna Barnes
A parte maldita, Georges Bataille
O erotismo, Georges Bataille
História do olho, Georges Bataille
Campo de Sangue, Dulce Maria Cardoso
O meu corpo e eu, René Crevel
Mulheres, Charles Bukowski
The psychic life of power, Judith Butler
As aventuras de Augie March, Saul Bellow
Eros and Magic in the Renaissance, Ioan P.
Couliano
A educação sentimental, Gustave Flaubert
Pan, Knut Hamsun
Photomaton & vox, Herberto Hélder
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakhov
O Estrangeiro, Albert Camus
Obscénica, Hilda Hilst
Crónicas do mal de amor, Elena Ferrante
Oblomov, Ivan Gontcharov
Rayuela, Julio Cortázar
Histórias de amor, Robert Walser
A realidade é real?, Paul Watzlawick
Golpe de misericórdia, Marguerite Yourcenar
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf4
Confusão de Sentimentos, Stefan Zweig
Travessuras da Menina Má, Maria Vargas
Llosa
Vozes de Chernobyl, Svetlana Alexievich
O espectador obediente
TÉCNICAS DO OBSERVADOR oferece uma perspectiva única sobre a construção histórica da visão e as origens da cultura visual moderna. Partindo da análise de vários dispositivos ópticos do século XIX, Jonathan Crary demonstra como a formatação da visão é indissociável de uma operação de normativização do sujeito observador em termos de produção laboral e consumo visual.
Uma reflexão inovadora e interdisciplinar que se tornou uma obra indispensável para entender o modo como a modernidade visual se impõe até à contemporaneidade, finalmente em tradução portuguesa.
O túnel
Desde que me li n’A NAÚSEA de Sartre, não resisto aos apelos
existencialistas. Assim, mais cedo ou mais tarde, era esperado que viesse a
encontrar O TÚNEL, de Ernesto Sabato, etiquetado de romance existencialista. Aqui
a solidão e o desespero metafísico desembocam num crime passional, fazendo
desta história uma das mais esclarecidas dissecações do ciúme, esse sentimento
tão contraditório e envenenado.
Maria começou a vir ao atelier.
A cena dos fósforos, com pequenas variações, reproduzira-se duas ou três vezes
e eu vivia obcecado pela ideia de que o seu amor era, no melhor dos casos, amor
de mãe ou de irmã. De modo que a união física era para mim coo que a garantia
do verdadeiro amor.
(…) Longe de me tranquilizar, o amor físico perturbou-me ainda mais,
trouxe novas e torturantes dúvidas, dolorosas cenas de incompreensão, cruéis
experiências com Maria. As horas que passámos no atelier são horas que nunca esquecerei. Os meus
sentimentos, durante todo este período, oscilaram entre o amor mais puro e o
ódio mais desenfreado, ante as contradições e as inexplicáveis atitudes de Maria;
de súbito assaltava-me a dúvida de que era tudo fingido. Por momentos parecia
uma adolescente púdica e de repente parecia-me que era uma mulher qualquer, e
então um grande cortejo de dúvidas desfilava pela minha mente: de onde? como? quem?
quando?
Em tais ocasiões, não podia evitar a ideia de que Maria representava a
mais subtil e atroz das comédias e de que eu era, nas suas mãos, como um garoto
ingénuo a quem se engana com contos fáceis para que coma e durma. Às vezes era
acometido por um pudor frenético, corria a vestir-me e saía logo para a rua,
para tomar ar fresco e ruminar as minhas dúvidas e apreensões. Noutros dias,
pelo contrário, a minha reacção era positiva e brutal: deitava-me sobre ela,
agarrava-lhe os braços como com tenazes, torcia-as e cravava o meu olhar nos
seus olhos, tentando forçá-la a garantias de amor, de verdadeiro amor.
(…)
Já antes de dizer esta frase estava um pouco arrependido; debaixo
daquele que lha queria dizer e experimentar uma perversa satisfação, um ser
mais puro e mais terno dispunha-se a tomar a iniciativa enquanto a crueldade da
frase fizesse o seu efeito e, de certo modo, silenciosamente; eu já tinha
tomado o partido de Maria antes de pronunciar essas palavras estúpidas e
inúteis (que podia alcançar, com efeito, com elas?). (…) Quantas vezes esta
maldita divisão da minha consciência foi culpada de actos atrozes! Enquanto uma
parte me leva a tomar uma atitude bonita, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia
e a falsa generosidade; enquanto uma me leva a insultar um ser humano, a outra
condói-se dele e acusa-me a mim mesmo do que denuncio nos outros; enquanto uma
me faz ver a beleza no mundo, a outra assinala-me a sua fealdade e o ridículo
de todo o sentimento de felicidade.
As pequenas mortes
A minha introdução à obra de D.H. Lawrence aconteceu pela
antologia AMOR NO FENO E OUTROS CONTOS. Embora não me tenha arrebatado por aí
além, gostei particularmente dos contos AMOR NO FENO, FOI PRECISO UM CAVALO DE
BALOIÇO e O HOMEM QUE MORREU.
FOI PRECISO UM CAVALO DE BALOIÇO será o mais triste de
todos, pelo final trágico devido à compulsão do consumismo que devora toda a
interioridade e possibilidade de satisfação. Nos outros dois contos há uma
redenção final pelo amor («Ela baixou-se para ele e agarrou-se-lhe ao pescoço,
apertando-a ao seio num frenesim de dor. A amarga desilusão da vida, a vergonha
e a degradação contínua dos últimos quatro anos tinham-na empurrado para a
solidão e endurecido até grande parte do seu ser ficar empedernida e estéril. Agora,
abrandava de novo e despontava nela a promessa de uma Primavera linda. Estivera
a caminho de vir a tornar-se numa velha feia.») sobretudo n’ O HOMEM QUE
MORREU, fantasia de uma outra vida de Jesus Cristo, erguida em corpo após a ressurreição:
Depois, lenta, lentamente, na
escuridão perfeita do homem em si, ele sentiu que algo começava a despontar. A madrugada,
um sol novo. Um sol novo subindo em si, na perfeita escuridão interior do seu
ser. Esperou, contendo a respiração, trémulo, numa esperança temerosa… «Agora
já não sou eu. Sou algo de novo…»
E, enquanto se erguia sentiu,
com um bafo frio de desapontamento, a cinta da mulher viva abrandar e descair
dele, o calor e a incandescência a descair dele, deixando-o nu. Ela enroscou-se,
exausta, aos pés da deusa, escondendo o rosto.
Curvou-se e pousou a mão,
docemente, no ombro claro e morno dela; e o choque do desejo lancinou-o, choque
após choque e pensou se não seria esta uma outra morte: mas cheia de magnificência.
Agora, toda a sua consciência estava
posta na mulher, enroscada, escondida. Baixou-se ao lado dela e acariciou-a
terna, cegamente, murmurando coisas inarticuladas. E a sua morte e a sua paixão
pelo sacrifício eram, agora, nadas para ele – conhecia apenas a plenitude
enroscada daquela mulher, a branda pedra branca da vida… «Sobre esta pedra
construí a minha vida.» A pedra de pregas profundas, a pedra penetrável da
mulher viva! A mulher, escondendo o rosto. Ele, curvado sobre ela, poderoso e
novo como a madrugada.
Chegou-se todo a ela e sentiu a
labareda da virilidade e a força erguerem-se-lhe nos rins, magnificientes.
«Ergui-me!»
Magnificente, flamejando
indomitável na profundeza dos seus rins, despertava o seu sol próprio, que
dardejava o seu fogo pelos membros dele, de tal modo que o rosto cintilava
inconscientemente.
Desatou a fita da túnica de
linho e deixou-a tombra e viu o brilho branco dos peitos branco-e-ouro dela. E tocou-os
e sentiu a vida fundir-se em si. «Pai!», disse ele. «Porque escondeste isto de
mim?» E tocou-a com a pungência do espanto e a maravilhosa transcendência
penetrante do desejo. «Oh!», disse ele, «isto está para além da oração.» Era o
calor profundo, entremeado, o calor vivo e penetrável, a mulher, o coração da
rosa! A minha mansão é a intrincada rosa quente, o meu júbilo é esta flor!
Ela levantou os olhos para ele,
de repente, com o rosto como uma luz desperta, ávido, terno, os olhos como
muitas flores húmidas. E ele apertou-a ao peito com uma paixão de ternura e
desejo devorador e o último pensamento: «É chegada a minha hora e sou tomado de
surpresa…»
E então conheceu-a e os dois
foram um só.»
De qualquer dos modos, é uma leitura recomendada. O
sensualismo de D.H. Lawrence agradam muito, bem como alguns comentários mais
inteligentes, como este por exemplo: «O
homem ergueu-se obedientemente. Todo ele era descontracção, parasitismo,
insolência. Geoffrey tinha-lhe nojo, apetecia exterminá-lo. Era exactamente o
pior inimigo do hipersensível: insolência sem sensibilidade, à cata da
sensibilidade dos outros.»
domingo, 5 de março de 2017
A grande viagem ao coração da melancolia
Todos
ignoramos de que vivemos, como poderíamos, então, deixar fugir alguma coisa e
sentir remorsos por isso? Era já tarde depois do cair da noite quando, chegada
a Istambul, transpus, exausta, o arco antigo da porta da cidade; o pavimento
ressoava, as pequenas lâmpadas de azeite iluminavam a ruela do bazar e cheguei,
por fim, diante das águas cintilantes do Bósforo, cujo fluxo incessante corria
no silêncio da noite (…). A viagem não exige que tomemos decisões e não põe a
nossa consciência diante de uma alternativa que nos torna culpados e arrependidos,
humildes ou obstinados – até duvidarmos por completo da justiça e pensarmos que
esta vida não é para nós senão um dédalo, uma prova fatal. Partir é a
libertação – ó única libertação que nos restou! – e para tanto não é necessário
mais do que uma coragem sem falha, renovada dia após dia…
(…)
Na manhã
seguinte, um jovem oficial que dirigia os trabalhos de desobstrução
acompanhou-nos aos terraços de Maku, sobrepujados precisamente pela falésia
mais alta, onde fora gravada uma inscrição comemorando a vitória de Nadir Shah,
que outrora arrebatara a aldeia aos bandidos (…). O que recordo perfeitamente é
o véu ligeiramente turvo do orvalho e desse dia em que, esgotada pelo calor de
uma ascensão penosa, estava a tremer de frio no jardim do emir, quando uma
jovem camponesa aproximou dos meus lábios um jarro de água. Porque somos assim:
deliciamo-nos à vista das pérolas, do azul do mar, de uma hora de paz apesar da
fúria dos incêndios, ignoramos os campos de ruínas, para aprendermos todos a
mesma oração: Senhor, ajuda-nos a suportar esta vida…
(…)
«A nossa
vida parece-se com uma viagem…», e mais do que uma aventura e uma excursão em
regiões inabituais, a viagem parece-me ser um símbolo da nossa existência:
instalados numa cidade, cidadãos de um país, pertencendo a uma classe ou a um
meio social, membros de uma família, ligados aos deveres de uma profissão, aos
hábitos de uma «vida quotidiana» tecida de todos estes elementos, sentimo-nos,
muitas vezes, demasiado seguros de nós; consideramos que a nossa casa foi
construída para a eternidade, somos tentados a crer numa estabilidade que, para
uns, torna problemático o envelhecer e, para outros, dá a qualquer mudança
exterior as aparências de uma catástrofe. Esquecemos que se trata de um
processo em curso, que a terra está em movimento perpétuo e que estamos
implicados no fluxo e no refluxo dos oceanos, nos tremores de terra e em tudo o
que se passa muito longe do imediato que nos rodeia, visível e tangível:
mendigos ou reis, actores todos da mesma grande comédia. Esquecemo-lo, para por
assim dizer preservarmos a paz da nossa alma, construída ela própria sobre
areias movediças. Esquecemo-lo, para não cedermos ao medo.»
(…)
Não
haverá, algures, um caminho que se abre, uma garganta que conduza a outros
países? Será sempre assim, o mesmo céu, de manhã e à noite, o mesmo ciclo, a
mesma prece, e nunca uma resposta?
(…)
Foi por
isso que quis um dia desprender-me – de que destino ao certo, não o sabia – e julgava
somente compreender que uma infelicidade me ferira, como pode acontecer a
qualquer de nós, e tinha necessidade de me manter afastada, em silêncio. Como é
que os outros vivem, perguntava-me eu, como suportam este país e o dia de
amanhã, como o suportam? Mas quando desce uma vez mais a magia do crepúsculo,
quando o dia sem sombra decresce, e as corças se mostram nas encostas do
inverno já nimbadas de bruma, quando volto a ter uma hora tão cheia de
inocência, sinto-me então inclinada a baixar os olhos e a arrepender-me e a não
ceder nunca mais à tentação – e disponho-me plenamente a reconhecer que estamos
enraizados dentro de limites estreitos e que não podemos fazer mais do que um
pedaço mínimo de caminho.
sábado, 4 de março de 2017
Der Himmel über Berlin
CANÇÃO DA INFÂNCIA
Quando uma criança era uma criança
Ela andava com seus braços balançando,
queria o córrego pra ser um rio,
o rio pra ser uma torrente,
e uma poça pra ser o mar.
Quando uma criança era uma criança,
não sabia que era uma criança,
tudo era tão cheio de espírito,
e todas as almas eram uma só.
Quando a criança era uma criança
não tinha opinião a respeito de nada,
não tinha hábitos
e sentava-se sempre de pernas cruzadas,
descansando de uma corrida
e tinha o cabelo lambido
e não fazia poses na hora da fotografia.
Quando a criança era uma criança
era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
A vida debaixo do sol não é só um sonho?
Aquilo que eu vejo e escuto e cheiro
não é só uma ilusão de um mundo de antes do mundo?
Considerando-se o mal e as pessoas.
A maldade realmente existe?
Como pode aquilo que sou, quem eu sou,
não ter existido antes que eu viesse a ser,
e que algum dia, eu, quem eu sou,
não serei mais quem eu sou?
Quando uma criança era uma criança,
Mastigava espinafre, ervilhas, bolinhos de arroz,
e couve-flor cozida,
e comia tudo isto não somente porque precisava comer.
Quando uma criança era uma criança,
Uma vez acordou numa cama estranha,
e agora faz isso de novo e de novo.
Muitas pessoas, então, pareciam lindas
e agora só algumas parecem, com alguma sorte.
Visualizava uma clara imagem do Paraíso,
e agora no máximo consegue só imaginá-lo,
não podia conceber o vazio absoluto,
que hoje estremece no seu pensamento.
Quando uma criança era uma criança,
brincava com entusiasmo,
e agora tem tanta excitação como tinha,
porém só quando pensa em trabalho.
Quando uma criança era uma criança,
Era suficiente comer uma maçã, uma laranja, pão,
E agora é a mesma coisa.
Quando uma criança era criança,
amoras enchiam sua mão como somente as amoras conseguem,
e também fazem agora,
Avelãs frescas machucavam sua língua,
parecido com o que fazem agora,
tinha, em cada cume de montanha,
a busca por uma montanha ainda mais alta,e em cada cidade,
a busca por uma cidade ainda maior,
e ainda é assim,
alcançava cerejas nos galhos mais altos das árvores
como, com algum orgulho, ainda consegue fazer hoje,
tinha uma timidez na frente de estranhos,
como ainda tem.
Esperava a primeira neve,
Como ainda espera até agora.
Quando a criança era criança,
Arremessou um bastão como se fosse uma lança contra uma árvore,
E ela ainda está lá, chacoalhando, até hoje.
Peter Handke
O nosso habitual sentimento de imperfeição
COMO PODE A VIDA TER LUGAR, OU
PERSISTIR, NUM ESTADO DE CRISE PERMANENTE?
O arquitecto Aldo Rossi não tem
dúvidas. O bloco de pedra mata um transeunte. Para ele, o princípio da
conservação da energia acaba em tragédia. A História e a teoria têm de lidar
com a incerteza acerca das circunstâncias, de crises passadas e presentes. Essa
situação pode levar à dúvida, mas também pode originar acção. Rossi enfrentou
conflitos semelhantes, muitas vezes irreconciliáveis, devido a escolhas
pessoais. Apesar da melancolia, havia também o entusiasmo para avançar. Cada projecto
«deve ser de algum modo conclusivo, mesmo que seja apenas para poder ser
repetido com leves variações ou deslocações, ou assimilado por novos projectos,
novos lugares e novas técnicas: outras formas de vislumbrarmos sempre um pouco
de vida». Daí que seja possível chegar a uma conclusão. No final, a melancolia
é uma questõ de carácter. A arquitectura também.
Uma belíssima reflexão sobre a influência da melancolia na
arquitectura e pensamento crítico de Aldo Rossi.
O mundo de ontem
Tudo começa quando o Grande Xá da Pérsia é tomado por uma
grande inquietação, perde o interesse nas suas mulheres e decide viajar até ao Ocidente, esperançado no alento que as artes eróticas do Ocidente lhe poderão proporcionar. Viena no final do século XIX – que outro local pode personificar melhor o final de uma visão do mundo, de uma Europa e de uma época? A milésima segunda noite é a noite do logro e da decepção com os devaneios das mil e uma noites.
–
Porque lamentas por nós, Pantominos? – perguntou o Xá.
–
Por muitas razões – respondeu o eunuco – mas principalmente porque os homens
estão sujeitos ao princípio da mudança. Trata-se de um princípio falacioso,
porque, na verdade, não há mudança nenhuma.
–
Estás a querer dizer que devo viajar para algum sítio só para sentir essa
mudança?
–
Sim, Senhor – disse Pantominos – para se convencer de que afinal não há mudança
nenhuma.
–
E isso só por si iria curar-me?
–
Não o iria convencer – disse o eunuco – mas iria proporcionar-lhe as
experiências necessárias para chegar a essa mesma convicção.
–
Como chegas a essas conclusões, Pantominos?
–
Porque fui castrado, Senhor! – retorquiu o eunuco e curvou-se de novo.
sábado, 28 de janeiro de 2017
O mes amis, il n'y a pas d'ami!
Não consigo atinar com o Thomas Bernhard. Há uns
tempos, um leitor estimado, recomendou-me com o entusiasmo O SOBRINHO DE
WITTGENSTEIN. No fim de semana passado, essa recomendação regressou-me à
memória e lá trouxe um exemplar emprestado da biblioteca.
Lê-se bem e rápido. No entanto, o estilo repetitivo de
Bernhard não me cativa. Embora perceba musicalidade da coisa na língua
original, acaba por me recordar também os nossos velhos do Restelo. O
permanente tom ressentido do autor também não me convida, embora perceba e
comungue da sua indignação e raiva.
E é isso, mais um livro com o qual não empatizei e
cujos louvores não entendo. Falha minha, muito provavelmente, pois um leitor
arrisca-se sempre a falhar o encontro com um determinado livro se as circunstâncias
não forem favoráveis. Admiro a coragem com que Bernhard detracta tudo e todos,
expondo também as suas vilezas, como a de ter abandonado o seu melhor e mais
verdadeiro amigo na fase final da sua vida. Contudo, não consigo deixar de
sentir que a sua exposição não vai tão fundo quanto poderia ir e mais do que um
livro sobre o seu amigo, temos um livro sobre próprio Bernhard.
Eu podia contar agora histórias do Paul,
pois não há só centenas, mas milhares, em que ele é a figura central e que são
famosas na chamada alta sociedade
vienense, que era a sua e que, como se sabe, vive de tais histórias jocosas e
de nada mais, mas não é essa a minha intenção. Ele era uma pessoa que vivia em
grande agitação, permanentemente nervoso, sempre incapaz de autodomínio. Era um
cismador, alguém que a propósito de tudo fazia filosofia e um acusador
incessante. Como era um observador incrivelmente adestrado e nessa sua
observação, que ele aperfeiçoou com o tempo, tornando-a uma arte, era de uma
completa irreverência, tinha continuamente razões para acusar. Não havia nada
que não desse motivo a qualquer acusação. As pessoas que chegavam à sua
presença não ficavam em paz mais que uns brevíssimos momentos, porque logo
despertavam uma suspeita e eram
culpadas de um crime ou pelo menos de
qualquer simples delito, sendo depois
flageladas com aquelas palavras que são também as minhas quando me revolto ou
defendo, quando me decido a lutar contra a insolência do mundo, para não ficar
por baixo e não ser por ele destruído. No Verão tínhamos o nosso lugar cativo
na esplanada do Sacher e na maior parte do tempo vivíamos apenas das nossas
acusações. Ficávamos horas e horas sentados na esplanada do Sacher e
acusávamos. Com uma chávena de café na nossa frente, acusávamos o mundo da
forma mais radical.
E, por falar em mistérios,
Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreadoNa Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Ângelo de Lima (1872-1921)
«24 pássaros contra todas as ausências»
Descobri o Daniel Faria na semana passada, graças a um
espectáculo de Pablo Fidalgo no Teatro D. Maria II na semana passada. Ao ver
algumas das obras plásticas do poeta, gentilmente emprestadas pelo Mosteiro de
Singeverga (como por exemplo os 24 pássaros contra todas as ausências),
pressenti que assomava ali um daqueles mistérios cujo convite tanto procuro. No
dia seguinte, fui à biblioteca para conhecer mais da sua poesia. Para quem anda
tão desatento como eu, aqui fica um artigo interessante: https://www.publico.pt/noticias/jornal/daniel-faria-o-rapaz-raro-159820
Homens que
são como lugares mal situados
Homens que
são como casas saqueadas
Que são como
sítios fora dos mapas
Como pedras
fora do chão
Como crianças
órfãs
Homens sem
fuso horário
Homens
agitados sem bússola onde repousem
Homens que
são como fronteiras invadidas
Que são como
caminhos barricados
Homens que
querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados
por todos os destinos
Desempregados
das suas vidas
Homens que
são como a negação das estratégias
Que são como
esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados
abrindo-se com facas
Homens que
são como danos irreparáveis
Homens que
são sobreviventes vivos
Homens que
são como sítios desviados
Do lugar
Cada um afoga-se à sua maneira
Com o aproximar do final do ano, os suplementos culturais
dedicam-se a eleger os livros do ano. Tornou-se um hábito aguardar estas listas
com expectativa e posteriormente anotar os títulos que me tinham escapado ou
aos quais a solidão necessária tinha faltado. Porém, nos últimos três anos,
tais listas não me têm trazido a satisfação tão almejada. E pergunto-me se
estará a produção editorial mais empobrecida, ou o empobrecimento será da
crítica, ou pior ainda, de mim mesma, cada vez mais sóbria, menos propensa a
arrebatamentos.
Embora não tenha concentrado as minhas leituras em
publicações de 2016, ouso a leviana afirmação: O CASO DO CAMARADA TULAEV foi
dos melhores livros do ano. E a E-Primatur é um dos projectos editoriais mais
recentes que acompanho com muitas ganas, sobretudo pela elegância com que têm
demonstrado que não é preciso fuçar juntamente com sete cães para encontrar um
osso. Resta ainda, para nossa graça e contentamento, muita literatura,
negligenciada pelo cânone e pelos merceeiros de serviço. Sim, literatura dessa,
grande ou alta, como preferirdes apelidá-la.
Diz o vulgo que as ninfomaníacas são tomadas pela compulsão
sexual justamente porque não conseguem atingir o orgasmo. Pois assim sucede
comigo no que diz respeito às leituras: leio, leio e raras vezes me satisfaço. Torno
a ler, leio mais, sofregamente. E nada. Que pessoa esquisita me tornei! Ter-se-á
a minha mente couraçado, secado definitivamente o solo fértil das primeiras
leituras, em que tudo penetra com a força de dez marteladas, em que é possível
sentir a vastidão do universo na própria pele? Mas, ah, as surpresas ainda
sobrevêm e eis que um livro – sobre purgas estalinistas, vá-se lá acreditar –
me agarra, os pés descolam do chão e lá vou eu, inteira em mãos e retina, rumo
a essa distante e tão amada literatura! É assim, os cometas nascem à noite,
justamente como reza o primeiro capítulo do livro, e há um fogo que se acende e
não queremos mais apartarmo-nos da beleza. Jamais!
Kostia ponderava a compra de um par de sapatos havia semanas quando uma
súbita fantasia, que até a ele o surpreendeu, deitou por terra todos os
cálculos que fizera. Se passasse sem cigarros, cinema e, dia sim, dia não, sem
a refeição do meio-dia, economizaria em seis semanas os cento e quarenta rublos
necessários para a aquisição de um bom par de botins que a simpática vendedora
de uma loja de artigos em segunda mão lhe prometera reservar «por baixo do
pano». Entretanto, ia caminhando alegremente sobre solas de cartão renovadas
todas as noites. Felizmente, o tempo continuava bom. Quando já tinha setenta
rublos, Kostia deu-se o prazer de ir ver os seus futuros sapatos, escondidos na
obscuridade de uma estante (…).
– Esteja tranquilo – disse-lhe a pequena vendedora –, os seus botins
ainda cá estão, não se preocupe…
(…) Depois do momento em que aqueles olhos profundos – da cor
verde-azulada de alguns bibelôs chineses expostos na vitrina do balcão – o
fixaram, o olhar de Kostia passeou-se pelas jóias, pelos corta-papéis, pelos
relógios, pelas caixas de rapé, pelas outras antigualhas, até se deter por
acaso num pequeno retrato de mulher com uma moldura de ébano, tão pequeno que
lhe poderia caber na palma de uma mão…
– Quanto custa isto? – perguntou Kostia num tom surpreendido.
– Setenta rublos; é caro, sabe? – responderam os lábios encantados.
Largando um brocado vermelho e dourado que se encontrava sobre o
balcão, mãos igualmente encantadas foram buscar a miniatura. Kostia agarrou
nela, perturbado por segurar entre os seus dedos grossos e sujos aquela imagem,
aquela imagem viva, aquela imagem mais extraordinária que viva, aquela
minúscula janela negra que enquadrava uma cabeça loira coroada por um diadema,
um belo rosto oval cujos olhos eram plenos de uma atenção, de uma doçura, de
uma força, de um mistério sem fundo…
– Eu levo-o – disse ele surdamente e para sua própria surpresa.
Assim começa a história, e que começo! Enquanto ascendo não
consigo qualificar o que me rapta e no meu enlevo balbucio apenas: tão russo!
tão próximo da minha alma! Tanta pobreza e injustiça suportada, tanta
sobriedade acumulada, que só o desvario pode conciliar por momentos uma
consciência fustigada para além do humanamente suportável. Seis semanas a
poupar para um par de sapatos, como não sonhar com uma vida mais livre e
espontânea, mais bela? A vida não nasceu para ser poupada, ela tende, à mínima
guinada, para o dispêndio, para a combustão. Por isso as ervas daninhas insistem
sobre os passeios calcetados, o pó se deposita sobre as nossas estantes, os
vermes devoram os nossos ossos e o tempo elide as letras impressas. A natureza,
o caos, tudo o que vive e secretamente se transmuta, está constantemente à
espreita, à espera da sua oportunidade para respirar e insuflar o universo da
eterna novidade.
O resto é enredo, engenhosamente articulado. Toda a intriga
é despoletada pelo assassinato do camarada Tulaev. O leitor sabe desde o início
quem o matou, razão pela qual ainda se indigna mais com os inquéritos absurdos
em torno desse crime. No entanto, de todo esse absurdo é possível extrair
várias aproximações racionais ao entendimento da máquina estalinista e os modos
que esta achou para devir numa espécie de carnificina automática, capaz de
ceifar tudo e todos, qual Saturno devorando os próprios filhos. Ninguém está
salvo – os que ontem acusaram e executaram, encontram-se no dia seguinte
matematicamente desviados para o lado das vítimas.
– Não sei mais nada, tenho ordens precisas. É tudo, cidadão.
Rublev foi-se embora, estranhamente leve, levado por ideias semelhantes
a um voo de aves agitadas. É isto, a armadilha – a fera apanhada na armadilha,
és tu a fera apanhada, velho revolucionário, és tu… E estamos todos aqui na
armadilha… Não nos teremos enganado completamente algures? Patifes, patifes! Um
corredor vazio, mal iluminado, a grande escadaria de mármore, a porta giratória
dupla, a rua, o frio seco, o automóvel negro do mensageiro. Perto deste último,
que fumava enquanto estava à espera, um outro homem, de voz baixa e pastosa:
– Camarada Rublev, é-lhe solicitado que nos acompanhe para uma breve
conversa…
(…)
As pequenas ruas de dois tons, com o branco da neve e o azul da noite,
iam desfilando nos vidros. «Mais devagar», ordenou Rublev, e o motorista
obedeceu. Rublev abriu a janela para poder ver melhor uma nesga de rua, não
importava qual, o passeio cintilava, coberto de neve virgem. Uma velha casa
senhorial do século passado, com um frontão suportado por colunas, parecia
dormir há cem anos, atrás da sua vedação gradeada. Os troncos prateados das
bétulas luziam tenuemente no jardim. Era tudo – para sempre, num perfeito silêncio,
numa pureza de sonho. Cidade debaixo do mar, adeus. O motorista acelerou. –
Somos nós que estamos debaixo do mar. Não faz diferença, fomos fortes.
Victor Serge leva-nos numa viagem às profundezas dessa
máquina, permitindo-nos inspecionar as várias roldanas e, o mais genial na
minha opinião, mostrar-nos como todo esse terror foi perpetrado com a
colaboração de homens bem intencionados, extremamente fiéis ao partido e, como
tal, dispostos a aceitar toda a humilhação e pobreza para não desonrar o
partido. O mecanismo totalitário deriva obviamente de Estaline mas, a certo
ponto da narrativa, percebemos que este se tornou automático e nem o próprio chefe
poderiam parar esta gigante máquina de ceifar vidas. Sucede sempre isso, quando
um projecto para melhorar a humanidade se torna tão programático que perde de
vista o valor dessa mesma humanidade. O CASO DO CAMARADA TULAEV é exímio na descrição
dessa humanidade metafisicamente abismada, socorrida por uma escrita que se
inclina constantemente para o sublime, alçada por uma tristeza absolutamente
lírica e ridente.
A noite da iguana
«Todos nós nos enroscamos em alguma coisa ou em alguém. Quando é com alguém é uma sorte. Uma sorte rara.»
Tenessee Wiliams, A Noite da Iguana
Sensibilidade e Bom Senso
Os dois filmes são de Ira Sachs e é com grande sensibilidade e delicadeza que nos convidam a pensar a velhice e a adolescência, bem como o modo como a difícil equação entre o capital e os afectos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Feminismo punk
Escrevo da terra das feias, para as feias,
as velhas, as machonas, as frígidas, as malfodidas, as infodíveis, as
histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado das gajas boas. E começo
por aqui para que as coisas sejam claras: não peço desculpa de nada, não me
venho lamentar. Não troco o meu lugar com ninguém, porque ser Virginie
Despentes parece-me uma tarefa mais interessante de cumprir do que qualquer
outra.
Acho óptimo que haja também mulheres que
gostam de seduzir, que sabem seduzir, outras arranjar marido, mulheres que
cheiram a sexo e outras a bolo do lanche das crianças que saem da escola. E óptimo
que haja umas muito meigas, outras esfuziantes na sua feminilidade, que haja
mulheres jovens, muito belas, outras vaidosas e flamantes. A sério que fico
muito contente por todas aquelas a quem as coisas tal como são convêm. Acontece,
porém, que não me integro nesse grupo (…). É na minha qualidade de proletária
do feminismo que falo, que falei ontem e que recomeço hoje (…). Sou o tipo de
mulher com quem não se casa, com quem não se tem um filho, falo da minha
posição de mulher que é sempre demasiado em tudo o que é, demasiado agressiva,
demasiado ruidosa, demasiado grosseira, demasiado brutal, demasiado hirsuta,
sempre demasiado viril, dizem-me. Porém, são as minhas qualidades viris que
fazem de mim qualquer coisa diferente de um caso social entre os outros. Tudo de
que gosto da minha vida, tudo o que me salvou, devo-o à minha virilidade.
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