sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Novo objecto de desejo: Maura Lopes Cançado
Estou de novo aqui, e isto é — Por que não dizer? Dói. Será por isto que venho?
Estou no Hospício, deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos; trémulo, exangue — e sempre outro.
Hospício são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro — como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde — paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensuráveis: Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é deus.
Acho-me na Seção Tiüemont Fontes, Hospital Gustavo Riedel, Centro Psiquiátrico Nacional, Engenho de Dentro, Rio. Vim sozinha. O que me trouxe foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo. (Ou de —————— Era tão grave. Proteção? Mas aqui, onde não me parecem querer bem e sofri tanto?) ("Não me querer bem" talvez seja minha maneira única de ser amada.) Havia lá fora grande incompreensão. Sobretudo pareceu-me estar sozinha. Isto faria rir a muitas pessoas: eu trabalhava no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, onde me cercavam de grande atenção e muito carinho. Reynaldo Jardim é o diretor e me queria bem deveras. Ó, o zelo de todos. O zelo de Reynaldo. Naturalmente, penso, por eu haver antes estado aqui, saindo para trabalhar lá. A curiosidade em torno de mim: " — Esta é Maura Lopes Cançado, a que escreveu No quadrado de Joanna? — O conto é realmente bom, mas pensar que a personagem dele é louca catatônica passou a aborrecer-me (como as pessoas são estúpidas, ainda se pretendem ser gentis). Minha posição me marginalizava. As coisas simples não se ajustavam a nada em que eu pudesse tocar, sentir. Era a impressão.
Quanto tempo trabalhei no jornal? Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Assis Brasil, e tantos outros, meus protetores. Quase todos os bons intelectuais da nova geração. E de rir. Protetores no bom sentido, como diriam. Mas que bom sentido, se me fizerem sofrer tanto? Por que, como chegar a eles, sem desespero? — E que ignoram o quanto me custa uma palavra simples, como fui sozinha desde a infância. E de amá-los — demais e inútil — passei a odiá-los: por não me compreenderem. Não saberão jamais o quanto podem fazer sofrer uma criatura tímida e necessitada como eu: porque sinto vergonha. Gullar pareceu cansado de mim. Ainda vendo-o imoto e inacessível não consegui desprezá-lo. Minha necessidade de afirmação deixava-me agressiva, movia-me pela redação do jornal o dia todo sem sorrir. Minha timidez. Enquanto meu ser se enrijecia, voltava-me para mim mesma à espera de um milagre que me projetasse, os outros me olhando atónitos (é ainda mais do que No quadrado de Joanna, é ainda mais). Nada acontecia a não ser eu, me repetindo dia a dia. Minha ignorância.
Destruí tudo agredindo Reynaldo Jardim. Foi uma briga feia. Briguei sozinha. Ele não ousaria ferir-me, pois tem sua própria maneira de demonstrar amor. Consegui escandalizar Carlos Heitor Cony, que já foi quase padre, é facilmente escandalizável. Além de julgar estar ferindo Reynaldo, ao falar coisas inverossímeis e degradantes a meu respeito. Algo em que pensar: se tem alguma afetividade por mim deve ter sofrido. Como me destruí.
Falei de mim tantas vilezas (já fiz isto com mamãe. Estou muito cansada). Telefonei antes de vir a dona Dalmatie, enfermeira minha amiga. Levou-me a doutor J., pedi-lhe que me aceitasse no hospital:
- Por favor, doutor J., não sei que fazer lá fora. Estou destruída. Aceite-me no hospital. Briguei no jornal. Ele (surpreendente) pareceu compreender. Dona Dalmatie não estava de acordo:
- Tenho um sítio sossegado. Passe uns dias lá. Quanto ao emprego, daremos um jeito. Você tem péssima memória, hein, Maura? Não me conformo em vê-la de novo aqui.
- Tenho boa memória, sei o que me espera. Mas vim disposta a ficar. A senhora não pode entender. Lembra-se de que me disse outro dia que não saí daqui recuperada? Está tudo difícil.
Fomos as duas ao IP (Instituto de Psiquiatria), onde se fazem internações. Ela, de lá, foi para casa. Voltei sozinha para este hospital. Doutor J. já não estava mais. Mandaram-me para a Seção Cunha Lopes (não pertence a doutor J.) A guarda que me recebeu (monstro antediluviano), Cajé, me fez imediatamente trocar o vestido pelo uniforme do hospital. Enquanto trocava de roupa, recebia dela as intimidações:
- Não banque a sabida nem valentona. Pensa que por ser bonita vale mais do que as outras? Saiba lidar conosco (guardas), que se dará bem. Queixas ao médico não adiantam. Vocês são doentes mesmo. Compreendeu?" Claro que compreendi, Cajé. Estou aprendendo há três anos.
Depois do jantar deram-me um quarto e dormi sozinha até o dia seguinte. Estava exausta. De manhã chovia. Puseram-me no pátio junto com as outras, percebi que nenhuma funcionária se dirigia a mim. Ah, não: dona Aída se dirigiu, dando-me um empurrão, à hora do café: " — Entre na fila. Que está esperando? Quer que te demos café na boca?". Entrei na tal fila, ainda muito cansada para revidar a agressão (das outras vezes em que estive aqui esta fila não existia).
Depois do café fui para o pátio. Ou, fui mandada para o pátio. Ainda chovia muito. Parecia-me um sonho: àquelas mulheres encolhidas de frio, descalças, fantásticas. Eu nem sequer pensava. Via, como se nada em mim fosse mais que os olhos, recomeçando num pesadelo (voltei, meu deus, voltei). Durante o almoço veio chamar-me uma guarda:
— O Diretor quer falar-lhe". Devia ficar estupefata (por motivos óbvios), mas nem ao menos fiquei surpresa. Se ameaçassem tirar-me os olhos, não encontrariam em mim qualquer reação. E as coisas pareciam caminhar inexoráveis.
in Hospício é Deus
Intimations of Immortality
|
THERE was a time when meadow, grove, and stream, | |
| The earth, and every common sight, | |
| To me did seem | |
| Apparell'd in celestial light, | |
| The glory and the freshness of a dream. | |
| It is not now as it hath been of yore;— | |
| Turn wheresoe'er I may, | |
| By night or day, | |
| The things which I have seen I now can see no more. | |
| The rainbow comes and goes, | |
| And lovely is the rose; | |
| The moon doth with delight | |
| Look round her when the heavens are bare; | |
| Waters on a starry night | |
| Are beautiful and fair; | |
| The sunshine is a glorious birth; | |
| But yet I know, where'er I go, | |
| That there hath pass'd away a glory from the earth. | |
| Now, while the birds thus sing a joyous song, | |
| And while the young lambs bound | |
| As to the tabor's sound, | |
| To me alone there came a thought of grief: | |
| A timely utterance gave that thought relief, | |
| And I again am strong: | |
| The cataracts blow their trumpets from the steep; | |
| No more shall grief of mine the season wrong; | |
| I hear the echoes through the mountains throng, | |
| The winds come to me from the fields of sleep, | |
| And all the earth is gay; | |
| Land and sea | |
| Give themselves up to jollity, | |
| And with the heart of May | |
| Doth every beast keep holiday;— | |
| Thou Child of Joy, | |
| Shout round me, let me hear thy shouts, thou happy | |
| Shepherd-boy! | |
| Ye blessèd creatures, I have heard the call | |
| Ye to each other make; I see | |
| The heavens laugh with you in your jubilee; | |
| My heart is at your festival, | |
| My head hath its coronal, | |
| The fulness of your bliss, I feel—I feel it all. | |
| O evil day! if I were sullen | |
| While Earth herself is adorning, | |
| This sweet May-morning, | |
| And the children are culling | |
| On every side, | |
| In a thousand valleys far and wide, | |
| Fresh flowers; while the sun shines warm, | |
| And the babe leaps up on his mother's arm:— | |
| I hear, I hear, with joy I hear! | |
| —But there's a tree, of many, one, | |
| A single field which I have look'd upon, | |
| Both of them speak of something that is gone: | |
| The pansy at my feet | |
| Doth the same tale repeat: | |
| Whither is fled the visionary gleam? | |
| Where is it now, the glory and the dream? | |
| Our birth is but a sleep and a forgetting: | |
| The Soul that rises with us, our life's Star, | |
| Hath had elsewhere its setting, | |
| And cometh from afar: | |
| Not in entire forgetfulness, | |
| And not in utter nakedness, | |
| But trailing clouds of glory do we come | |
| From God, who is our home: | |
| Heaven lies about us in our infancy! | |
| Shades of the prison-house begin to close | |
| Upon the growing Boy, | |
| But he beholds the light, and whence it flows, | |
| He sees it in his joy; | |
| The Youth, who daily farther from the east | |
| Must travel, still is Nature's priest, | |
| And by the vision splendid | |
| Is on his way attended; | |
| At length the Man perceives it die away, | |
| And fade into the light of common day. | |
| Earth fills her lap with pleasures of her own; | |
| Yearnings she hath in her own natural kind, | |
| And, even with something of a mother's mind, | |
| And no unworthy aim, | |
| The homely nurse doth all she can | |
| To make her foster-child, her Inmate Man, | |
| Forget the glories he hath known, | |
| And that imperial palace whence he came. | |
| Behold the Child among his new-born blisses, | |
| A six years' darling of a pigmy size! | |
| See, where 'mid work of his own hand he lies, | |
| Fretted by sallies of his mother's kisses, | |
| With light upon him from his father's eyes! | |
| See, at his feet, some little plan or chart, | |
| Some fragment from his dream of human life, | |
| Shaped by himself with newly-learnèd art; | |
| A wedding or a festival, | |
| A mourning or a funeral; | |
| And this hath now his heart, | |
| And unto this he frames his song: | |
| Then will he fit his tongue | |
| To dialogues of business, love, or strife; | |
| But it will not be long | |
| Ere this be thrown aside, | |
| And with new joy and pride | |
| The little actor cons another part; | |
| Filling from time to time his 'humorous stage' | |
| With all the Persons, down to palsied Age, | |
| That Life brings with her in her equipage; | |
| As if his whole vocation | |
| Were endless imitation. | |
| Thou, whose exterior semblance doth belie | |
| Thy soul's immensity; | |
| Thou best philosopher, who yet dost keep | |
| Thy heritage, thou eye among the blind, | |
| That, deaf and silent, read'st the eternal deep, | |
| Haunted for ever by the eternal mind,— | |
| Mighty prophet! Seer blest! | |
| On whom those truths do rest, | |
| Which we are toiling all our lives to find, | |
| In darkness lost, the darkness of the grave; | |
| Thou, over whom thy Immortality | |
| Broods like the Day, a master o'er a slave, | |
| A presence which is not to be put by; | |
| To whom the grave | |
| Is but a lonely bed without the sense or sight | |
| Of day or the warm light, | |
| A place of thought where we in waiting lie; | |
| Thou little Child, yet glorious in the might | |
| Of heaven-born freedom on thy being's height, | |
| Why with such earnest pains dost thou provoke | |
| The years to bring the inevitable yoke, | |
| Thus blindly with thy blessedness at strife? | |
| Full soon thy soul shall have her earthly freight, | |
| And custom lie upon thee with a weight, | |
| Heavy as frost, and deep almost as life! | |
| O joy! that in our embers | |
| Is something that doth live, | |
| That nature yet remembers | |
| What was so fugitive! | |
| The thought of our past years in me doth breed | |
| Perpetual benediction: not indeed | |
| For that which is most worthy to be blest— | |
| Delight and liberty, the simple creed | |
| Of childhood, whether busy or at rest, | |
| With new-fledged hope still fluttering in his breast:— | |
| Not for these I raise | |
| The song of thanks and praise; | |
| But for those obstinate questionings | |
| Of sense and outward things, | |
| Fallings from us, vanishings; | |
| Blank misgivings of a Creature | |
| Moving about in worlds not realized, | |
| High instincts before which our mortal Nature | |
| Did tremble like a guilty thing surprised: | |
| But for those first affections, | |
| Those shadowy recollections, | |
| Which, be they what they may, | |
| Are yet the fountain-light of all our day, | |
| Are yet a master-light of all our seeing; | |
| Uphold us, cherish, and have power to make | |
| Our noisy years seem moments in the being | |
| Of the eternal Silence: truths that wake, | |
| To perish never: | |
| Which neither listlessness, nor mad endeavour, | |
| Nor Man nor Boy, | |
| Nor all that is at enmity with joy, | |
| Can utterly abolish or destroy! | |
| Hence in a season of calm weather | |
| Though inland far we be, | |
| Our souls have sight of that immortal sea | |
| Which brought us hither, | |
| Can in a moment travel thither, | |
| And see the children sport upon the shore, | |
| And hear the mighty waters rolling evermore. | |
| Then sing, ye birds, sing, sing a joyous song! | |
| And let the young lambs bound | |
| As to the tabor's sound! | |
| We in thought will join your throng, | |
| Ye that pipe and ye that play, | |
| Ye that through your hearts to-day | |
| Feel the gladness of the May! | |
| What though the radiance which was once so bright | |
| Be now for ever taken from my sight, | |
| Though nothing can bring back the hour | |
| Of splendour in the grass, of glory in the flower; | |
| We will grieve not, rather find | |
| Strength in what remains behind; | |
| In the primal sympathy | |
| Which having been must ever be; | |
| In the soothing thoughts that spring | |
| Out of human suffering; | |
| In the faith that looks through death, | |
| In years that bring the philosophic mind. | |
| And O ye Fountains, Meadows, Hills, and Groves, | |
| Forebode not any severing of our loves! | |
| Yet in my heart of hearts I feel your might; | |
| I only have relinquish'd one delight | |
| To live beneath your more habitual sway. | |
| I love the brooks which down their channels fret, | |
| Even more than when I tripp'd lightly as they; | |
| The innocent brightness of a new-born Day | |
| Is lovely yet; | |
| The clouds that gather round the setting sun | |
| Do take a sober colouring from an eye | |
| That hath kept watch o'er man's mortality; | |
| Another race hath been, and other palms are won. | |
| Thanks to the human heart by which we live, | |
| Thanks to its tenderness, its joys, and fears, | |
| To me the meanest flower that blows can give | |
| Thoughts that do often lie too deep for tears. William Wordsworth |
A parte maldita
"Você é homem, Endre, um homem excelente e verdadeiro, e sente-se obrigado a raciocinar de maneira coerente, como sabiamente determinam as leis, os costumes ou a razão. Mas nós, mulheres, não podemos ser sempre tão sábias e coerentes... agora, já compreendo que isso não é connosco."
Uma leitura agradável para uma noite chuvosa. Apesar disso, é um Sándor Márai menor.
sábado, 26 de setembro de 2015
O companheiro de viagem
O
que haveria no interior das casas que impedia as pessoas de sair correndo para
as ruas, a chorar, como se despertasse a consciência de que não valia a pena
viver? O que perpetuava nelas a vida e permitia que sobrevivessem às noites
geladas, solitárias e tristes, quando a neve congelava sobre a janela, a
escuridão era a mesma dos túmulos, a cama lembrava um caixão, enquanto ficavam
deitadas, insones, rangendo os dentes, porque uma mosca que dormia seu sono
invernal despencara do tecto sobre o nariz? O que animava a espera sem sentido
pela manhã? O que haveria amanhã – santa missa, casamento ou morte – em cujo
nome seria digno passar às golfadas a noite gélida, longa e amarga, quando o
relógio da torre mal batia as horas?
Esta
novela foi a minha introdução ao escritor húngaro Gyula Krúdy. Não me cativou
por aí além. Talvez a tradução brasileira não fosse o melhor umbral. Para tirar teimas,
adquiri Sunflower.
Cada um de alturas diferentes
Aquele tempo em que pensava estar apaixonado
e calmamente o disse
não era muito diferente do tempo
em que estava verdadeiramente apaixonado
e dormia pouco e falava em voz alta
para a parede
e descobria o génio escondido
das minhas mãos.
E aquele tempo em que me sentia menos apaixonado,
menos que alguém,
era, para ser honesto, não muito diferente
também.
Cada um era ridículo à sua maneira
e simultaneamente terno,
por vezes, até o falso é terno.
Fico estupefacto ao pensar
nos vários beijos de que éramos capazes.
Cada um despenhou-se de alturas
diferentes, e isso é simplesmente a lei.
E o grande barulho
da grande queda parecia perfeitamente branco
passados alguns anos.
Isso é o que me deixa mais estupefacto.
e calmamente o disse
não era muito diferente do tempo
em que estava verdadeiramente apaixonado
e dormia pouco e falava em voz alta
para a parede
e descobria o génio escondido
das minhas mãos.
E aquele tempo em que me sentia menos apaixonado,
menos que alguém,
era, para ser honesto, não muito diferente
também.
Cada um era ridículo à sua maneira
e simultaneamente terno,
por vezes, até o falso é terno.
Fico estupefacto ao pensar
nos vários beijos de que éramos capazes.
Cada um despenhou-se de alturas
diferentes, e isso é simplesmente a lei.
E o grande barulho
da grande queda parecia perfeitamente branco
passados alguns anos.
Isso é o que me deixa mais estupefacto.
Stephen Dunn
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
domingo, 13 de setembro de 2015
Uma prosa fosforescente
Para
além das árvores, regressei à rotina acompanhada por mais um mistério: o
escritor polaco Bruno Schulz.
Já
tinha lido As Lojas de Canela mas
decidi levar o livro comigo para me aninhar nas longas viagens de comboio. E
ainda bem que o fiz. Ai, que prazer tornar a ler Agosto, o primeiro conto do livro e a melhor descrição de um verão
abrasador da infância que li, em Agosto, no meio da Polónia.
Como
falar de Schulz? Aliás, como traduzir por palavras qualquer mistério, qualquer
encantamento que nos cativa? Tarefa nada fácil. Tentemos, no entanto, uma breve
aproximação.
A
primeira coisa que me ocorre dizer é que Schulz escreve de uma maneira muito
particular e incomparável. Claro que podia pôr-me aqui a pensar e detectar
linhagens mas, ainda assim, prefiro ater-me ao caso isolado que a sua
literatura constitui. Comparam-no muitas vezes a Kafka e não consigo entender
porquê. É verdade que ambos eram judeus, de algum modo ocupados por
metamorfoses e a sombra do pater famílias
(em Schulz, é o pai que sofre mil metamorfoses). No entanto, as dissonâncias
são mais essenciais que tais meras coincidências: enquanto Kafka concentrava os
seus esforços na descrição do absurdo da realidade através de uma prosa fria e
depurada, como um punhal, Schulz voava para bem longe, montado numa prosa
féerica e sensual, rumo à porosidade do sonho e do encantamento.
Em
Cracóvia, comprei a edição inglesa que, para além de As Lojas de Canela, inclui ainda um conto, O Cometa, que não figura na edição portuguesa (belíssimo devaneio
apocalíptico!) e outro tomo de contos, Sanatorium
under the sign of the hourglass (ou Sanatório
do Gato-Pingado) e alguns contos esparsos. Assim, pude adentrar-me ainda
mais dentro desse imaginário exuberante e perturbador e verificar como Schulz
foi construindo para si uma mitologia singular em torno de vários tópicos,
personagens e geografias recorrentes, nomeadamente as estações do ano (existirá
um mistério mais acessível que o seu eterno retorno?), os pássaros, o Livro, o
Labirinto, o sono, as mulheres dominadoras como a longilínea Adela, as
extravagâncias do Pai, a Praça do Mercado e a casa enorme com múltiplos quartos
esquecidos pelo Tempo, etc..
Tanto
a família, como a cidade, oscilam permanentemente entre dois estados, o sono
onírico e a crescente voracidade do Real. Estão ora sob o signo do tédio, ora
sob a ameaça do encantamento poético. E assim, se começa a perceber a função de
toda esta potente maquinaria imagética. E tal vislumbre remete-nos sempre para
a triste biografia de Schulz, que acabou os seus dias enclausurado num gueto em
Drohobycz, a sua cidade natal, até ser assassinado pelas costas por um oficial
nazi. Anos antes, por carta, Schluz, confessava: “também não sei viver sem nenhum encanto, sem um pouco de tempero, de
condimento que exalte a vida”.
Há
sempre um tempo, em que os encantos rareiam. Aqueles foram sem dúvida tempos
muito sombrios. E uma alma à míngua só podia confiar na sua imaginação para
sobreviver. “Now at last one can understand the great and
sad machinery of spring. (…) Where would writers find their ideas, how would
they muster the courage for invention, had they not been aware of these
reserves, this frozen capital, these funds salted away in the underworld?”
A
escrita de Schulz é isso mesmo, uma lição de sobrevivência pela digestão dos
encantamentos mais elementares. Reactivando os mais potentes arquétipos inconscientes,
Schulz sugere-nos, com algumas pinceladas mestras, uma paisagem primeva, muito
próxima da memória do corpo e da Infância. A sua prosa fosforescente, qual
fogo-fátuo ou o verão mais mortal, ilumina por breves instantes um substrato
mais mágico, sempre à superfície do quotidiano, cujo magma permanentemente
tenta eclodir e repetidamente falha. “There are things that cannot ever
occur with any precision. They are too big and too magnificent to be contained
in mere facts. They are merely trying to occur, they are checking whether the
ground of reality can carry them. And they quickly withdraw, fearing to lose
their integrity in the frailty of realization. And if they break into their
capital, lose a thing or two in these attempts at incarnation, then soon,
jealously, they retrieve their possessions, call them in, reintegrate: as a
result, white spots appear in our biography – scented stigmata, the faded
silvery imprints of the bare feet of angels, scattered footmarks on our nights
and days – while the fullness of life waxes, incessantly supplements itself,
and towers over us in wonder after wonder.”
É
assim o trabalho do mito, sempre enigmático e esquivo. Ou como diria Schulz, “A matéria não é para brincadeiras, enche-se
sempre de um trágico sério.” Como tal, o seu resultado é sempre dúplice, e
da mesma fonte jorram imagens simultaneamente solares e sombrias, permeadas tanto
pela magia mais encantatória, como pela solidão mais profunda. “Um imenso girassol içado até à ponta de um
formidável pé com elefantíase, aguardava o fim dos dias nesse luto amarelo,
vergado pela carga da sua monstruosa corpulência. Porém, as ingénuas campainhas
de subúrbio e as simples flores do percal nada podiam contra tudo isto e
limitavam-se a estar muito hirtas nas suas camisas cor-de-rosa, insensíveis ao
grande drama do girassol”.
Gostei
muito de todos os contos. Se tivesse de eleger os predilectos, talvez
escolhesse Agosto, A Visitação, The Book, Spring, Sanatorium under the signo f the hourglass
e a carta, longamente citada por Aníbal Fernandes, na introdução à edição
portuguesa. Mas é a totalidade da sua obra que me fascina. Mais do que um
escritor, Schulz era sobretudo um sonhador: “He proclaimed a Republic of Dreams, a sovereign realm of poetry”. Não
admira, portanto, que tenha sido morto pelas costas.
Nos
escritos que nos deixou, existem tantas memórias de verões agonizantes, que
deixam na alma uma nostalgia perene pela criatividade imolada. Como eu terei
deste verão que agora se despenha pelas calçadas de Lisboa. Felizmente, existem
também inúmeros delírios poéticos, capazes de acender uma alma no meio da mais
escura negritude.
Bruno Schulz
“Não
sei de onde chegam à nossa infância certas imagens que vão ter uma significação
decisiva para nós. Desempenham o papel dos fios postos nas soluções químicas, e
à sua volta cristaliza-se o que é nosso sentido do mundo. Para mim, a imagens
destas também pertence o filho levado pelo pai no espaço de uma noite enorme, e
que conversa com a escuridão. O pai aperta-o contra si, rodeia-o com os braços,
defende-o do elemento que fala, fala sem parar, mas para a criança os braços
dele são transparentes, é atingida pela noite, e através das carícias do pai
ouve sem tréguas a terrível persuasão. Responde à pergunta da noite esgotada e
fatalista, tragicamente permissível, por inteiro devotada ao elemento sem fim
de que não pode fugir.
Segundo
me parece há temas que desde sempre nos estão destinados, que logo à entrada da
vida nos esperam (…).
Essas
imagens têm grande força, criam o capital sólido da alma que bem cedo nos é
fornecido com pressentimentos e sensações de que só temos uma vaga consciência.
Penso que o resto da vida é passado a interpretar estas intuições, a dominar
todo um conteúdo seu que devemos conquistar, a filtrá-las ao longo de toda uma
dimensão intelectual que podemos atingir. Estas imagens precoces indicam aos
artistas os limites da sua criatividade; criatividade que mais não será do que
o resultado de dados já existentes. Não descobrem nada de novo, só ensinam a
compreender de vez e melhor o segredo que lhes foi oferecido. Aliás, a arte
nunca chega a encontrar o sentido oculto de um tal segredo. Que vai permanecer
obscuro. O nó à volta da alma não é frouxo, não é dos que cedem quando se puxa
a ponta da corda. Pelo contrário, é cada vez mais apertado. E então manipulamos
esse nó, acompanhamos as suas voltas, procuramos-lhe o fim, e com essas
manipulações é que a arte nasce.
(…)
Qual
é o sentido desta desilusão universal perante a realidade, não saberei dizê-lo.
Só afirmo que não seria suportável se não soubesse, numa outra dimensão
qualquer, indemnizar. De certo modo sentimos uma satisfação profunda quando a
trama da realidade abranda, sentimo-nos interessados por essa bancarrota.
Falou-se
da tendência destruidora do meu livro. Sob o ponto de vista de certos valores
estabelecidos talvez seja verdade. A arte opera, porém, no sentido da
profundidade anterior à moralidade; no ponto em que o seu valor só está in statu nascendi.
Como
resposta espontânea da vida, a arte distribui tarefas à ética, e não o
contrário. Se a arte só devesse confirmar o que já foi noutro lado
estabelecido, seria inútil. Tem o papel de sonda mergulhada no inominável. O
artista é um aparelho que grava percursos em profundidade, no ponto em que se
opera a formação do valor.
(…)
A
que género pertence As Lojas de Canela?
Como classificá-lo? (…) Trata-se de uma autobiografia ou, melhor, de uma
genealogia do espírito; genealogia kat’exochen
porque descreve o nascimento da alma e segue-a até às profundezas onde ela se
perde em devaneios mitológicos. Sempre senti que as raízes de um indivíduo,
desde que seguidas até longe, se perdem numa qualquer floresta virgem e mítica.
É esse o fundo definitivo para além do qual não podemos prosseguir.
(…)
De
certo modo estas «histórias» são reais, representam a minha maneira de viver, o
meu particular destino. E a dominante de tal destino é uma solidão profunda, um
distanciamento das coisas da vida de todos os dias.
A
solidão é o reagente que leva a realidade ao ponto de fermentação, à decantação
das formas e das cores.”
Bruno
Schulz
sábado, 5 de setembro de 2015
Europa Central. Agosto 2015
Esquece
tudo. As pontes ao entardecer, o infinito dos carris, a recordação do
Holocausto e toda a arte, se assim quiseres.
Toda
a viagem é interior e as árvores são o facto mais poético.
Como
tudo o que é essencial, elas habitavam já a infância, esse território mágico de
imagens cadentes que se vão parindo durante toda uma vida. As que davam fruto,
alinhavam-se em fileiras intermináveis, disputando taco a taco com o Verão. Nessas
tardes, a alegria impunha-se em batalhas campais sem quaisquer contemplações
femininas. Era «mata» ou morre – e nunca houve tanta fé numa mão como naquela
que arremessava ridente as frutas-munições.
No
entanto, era preciso salvaguardar a todo o momento a cabeça. Que vacilava
inevitavelmente com as primeiras chuvas. Something
is broken inside me. Os frutos invernais alagavam-se então em lágrimas
cítricas, partilhadas com o cão Tonecas, fiel companheiro da tristeza.
Além
disso, havia também a centenária figueira, testemunha de várias desventuras
geracionais, e a bravia nogueira que, em noites ventosas, nos aterrorizava em
duelo com os fios eléctricos, trovejando furiosa contra os céus. E as mil
moitas que o vizinho Careca esculpia para se ausentar das agruras diárias e
confundir com a vegetação. Uma delas, tinha um portal invisível e lá dentro o
tempo escorria de outra forma, ao compasso de vários cigarros e ao abrigo de
qualquer olhar humano. Ali, eu reinava, confiante nos tempos vindouros, fumando
as conquistas por vir.
Mas
as árvores não são todas iguais e há qualquer coisa de especial com as da
Europa Central. Animadas por um rosto alado, todo o entardecer as encontra
barricadas de quietude. As suas sombras abrigam todas as memórias pacificadas e
vários animais microscópicos inéditos. Quando tentamos descrever o vento que as
agita ou as sombras abençoadas que delas escorrem, somos chegados ao cabo da
linguagem, à beira do abismo do encantamento.
Viajamos
sobretudo para descobrir a nossa mitologia singular. Na plataforma de uma
estação, um pai despede-se da filha com as palavras possíveis. Pede-lhe que lhe
escreva nas horas mortas, contando como são as copas das árvores nesses países
distantes. Parcamente desesperadas, as suas mãos magras percorrem os bolsos
rotos em busca das migalhas restantes. Só a beleza pode suster a vida olvidada
de todo o sentido. A menina não entende nada, é muito nova. Porém, anos mais
tarde, volvidas muitas paixões breves e indolores, essa mesma menina, então
mulher com a atenção amadurecida para os factos mais íntimos, estará noutra
plataforma, noutra estação, quando lhe chega a certeza de que o verde é a cor
mais enigmática.
Apesar
disso, os comboios continuam a desfilar nos carris.
Esquece
tudo. Menos os marinheiros, o fogo e as árvores. São esses os maiores
mistérios.
sábado, 18 de julho de 2015
Das releituras sempre surpreendentes
“Há
qualquer coisa de ausente e de intacto no barão Felix – um homem maldito da
cintura para cima, que me lembra Mademoiselle Basquette, que era maldita da
cintura para baixo, uma rapariga sem pernas, talhada como uma anomalia
medieval. Tinha o hábito de se locomover através dos Pirinéus numa prancha de
madeira com rodas. O que dela existia era belo, de uma beleza tradicional e
vulgar, porque tinha o rosto dos que atingiram uma estupefacção racial, não
pessoal. Quis dar-lhe um presente por causa do que lhe faltava, e ela disse-me:
«Pérolas… ficam bem com qualquer coisa.» Imaginem… e a sua outra metade ainda
estava no saco de habilidades de Deus! Não se pode dizer que aquilo que lhe
faltava não lhe tivesse ensinado o valor do que tinha. Como quer que fosse –
continuou o doutor enrolando as luvas –, um dia um marinheiro viu-a e apaixonou-se
por ela. Ela subia e o Sol iluminava-lhe as costas; formava uma sela no seu
pescoço curvado e tremulava ao longo do cabelo ondulado, sumptuosa e saqueada
como a figura de proa de uma embarcação normanda que houvesse sido abandonada
pelo corpo do navio. Por isso ele apoderou-se dela, prancha de madeira e tudo,
e levou-a consigo e obteve o que pretendia. Quando ficou seriamente cansado
dela, depositou-a na prancha, em jeito de galanteria, a algumas cinco milhas da
cidade, de modo que ela teve de regressar fazendo rolar a prancha, chorando de
um modo que causava medo, pois não estamos habituados a ver as lágrimas rolarem
até aos pés! Ah! Sim, na verdade uma mulher pode ter uma tábua de pinho que lhe
sobe até ao queixo e mesmo assim encontrar uma razão para chorar. É o que lhe
digo, minha senhora, se alguém fizesse nascer um coração num prato, ele diria
«Amor» e palpitaria como uma perna de rã cortada.”
Djuna
Barnes, O Bosque da Noite
domingo, 21 de junho de 2015
A preparar-me para ir ali perder países
"Sem dúvida, no mundo administrado e organizado à escala planetária a aventura e a miséria da viagem parecem limitadas; os viajantes de Baudelaire, partidos em busca do inaudito e dispostos a naufragar na sua surtida, encontram já no desconhecido, apesar de todos os desastres imprevistos, o mesmo tédio que deixaram em casa. Seja como for, movermo-nos é melhor do que nada: olha-se da janela do comboio que se precipita na paisagem, oferece-se ao rosto um pouco da frescura que desce das árvores do caminho, misturando-se à gente, e alguma coisa corre e passa através do corpo, o ar insinua-se entre as roupas, o eu dilata-se e retrai-se como uma medusa, um pouco de tinta transborda do tinteiro para se diluir num mar cor de tinta."
o jogo do mundo
É sabido que sou uma pessoa insatisfeita. Acho sempre que a vida podia ser muito mais do que é e desgosta-me que a maior parte do tempo seja gasto na organização e logística da «vidinha», ao invés de andarmos todos a viver e a amar delirantemente. A este propósito, recordo e recomendo sempre um pequeno ensaio maravilhoso de Claudio Magris, «As Moedas da Vida».
Em Rayuela, de Júlio Cortázar, vim a encontrar uma representação mais caótica desse mesmo problema, Inevitavelmente, passámos um bom tempo juntos. Por aquelas páginas, que vibram como autênticas cordas bambas, caminha uma boémia conhecida e a mesma inquietação que tanto me mastiga em alguns dias.
(...) um homem respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si próprio se algo em tudo aquilo tinha algum sentido. Toda a desordem se justificava se tendia a sair de si mesma, podia ser que através da loucura se pudesse chegar a uma razão que não fosse essa razão da qual a falência é a loucura. «Ir da desordem à ordem», pensou Oliveira. «Sim, mas que ordem pode ser essa que não se parece com a mais nefanda, terrível e insanável das desordens? A ordem dos deuses chama-se ciclone ou leucemia, a ordem do poeta chama-se antimatéria, espaço duro, flores de lábios trémulos, realmente que grande sbornia que eu tenho em cima do pelo, tenho mesmo que me ir deitar.» E a Maga estava a chorar, Guy tinha desaparecido. Etienne discutia com Perico, e Gregorovius, Wong e Ronald olhavam para um disco que rodava lentamente. Oscar's Blues a trinta e três rotações e meia por minuto, nem mais nem menos, e nessas revoluções Oscar's Blues, claro que com o próprio Oscar ao piano, um tal de Oscar Peterson, pianista com algo de tigre e de veludo, pianista triste e gordo, um tipo sentado ao piano e a chuva a bater na clarabóia, enfim, literatura. (p. 17-18)
(...)
Teria sido muito fácil organizar um esquema coerente, uma ordem de pensamento e de vida, uma harmonia. Bastava a hipocrisia de sempre, elevar o passado a valor de experiência, tirar partido das rugas da cara, do ar vivido que existe nos sorrisos e nos silêncios de mais de quarenta anos. Depois, um facto azul, as frontes prateadas bem penteadas e a entrada nas exposições de pintura, na Sade e em Richmond, a reconciliação com o mundo. Um cepticismo discreto, um ar de estar de regresso, uma entrada cadenciada na maturidade, no casamento, no sermão paterno à hora do assado ou das notas negativas. Se to digo, é porque já vivi o suficiente. Eu, que viajei quando era rapaz. São todas iguais, ouve o que te digo. Falo por experiência própria, meu filho, tu ainda não sabes o que é a vida.
(...) Parado em frente de uma pizzaria na calle Corrientes, Oliveira fazia grandes perguntas a si mesmo: «Então quer dizer que se tem de ficar como o cubo da roda a meio da encruzilhada? Para que é que serve saber ou pensar saber que todos os caminhos são falsos se não o percorrermos com o propósito que já não seja o caminho em si? Não somos Buda, che; aqui não há árvores para nos sentarmos à sua sombra na posição de lótus. Aparece um polícia e passa-nos logo uma multa. (p. 48-49).
Para já, fico-me pelo «primeiro livro», Sob o facínio das palavras de Cortázar, tentei seguir de imediato para o «segundo livro», mas a leitura repetida de alguns capítulos quebrava o encanto. Achei melhor fazer uma pausa e esquecer o assombro que é todo este livro, em especial o capítulo 41. Jamais tinha sentido uma tão grande vertigem literária.
sábado, 23 de maio de 2015
Getting the blues
Lendo o Rayuela, com o sol derramado sobre a cama, chego à conclusão que os dias de praia são algo definitivamente sobrestimado.
Em plena satisfação precária, em plena falsa trégua, estendi a mão e toquei no novelo de Paris, na sua matéria infinita enrolando-se sobre si mesma, no magma do ar e daquilo que se desenhava na janela, nuvens e águas-furtadas; nessas alturas não havia desordem, o mundo continuava a ser algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos a rodarem nas suas dobradiças, uma meada de ruas, árvores, nomes e meses. Não havia uma desordem que abrisse as portas ao resgate, havia somente sujidade e miséria, copos com restos de cerveja, meias a um canto, uma cama que cheirava a sexo e a cabelos, uma mulher que passava a sua mão fina e transparente pelas minhas coxas, retardando a carícia que me arrancaria por uns instantes dessa vigilância do grande vazio. Demasiadotarde, sempre, porque ainda que fizéssemos amor muitas vezes, a felicidade tinha que ser outra coisa, algo talvez mais triste do que essa paz e esse prazer, um ar como que de unicórnio ou de ilha, uma queda interminável na imobilidade. A Maga não sabia que os meus beijos eram como olhos que começavam a abrir-se para lá dela e que eu andava como que saído, concentrado noutra figura do mundo, piloto vertiginoso de uma proa negra qye cortava a água do tempo e a negava.
Jakob von Gunten
“Muitas vezes saio para a rua e tenho então a sensação de
viver num conto de fadas selvagem. Tudo puxa e empurra, tudo trepida e palpita.
Tudo grita, martels, vibra e zumbe. E tudo num espaço cercado (…). O que é nobre
caminha lado com o que é baixo e mau, as pessoas vão, não se sabe para onde, e
eis que regressam, e são já outras pessoas e não se sabe de onde vêm. Pensamos
poder adivinhar a sua origem e dá-nos prazer o esforço de a decifrar. E o sol
brilha sobre tudo. Ilumina o nariz a um, a outro a ponta do pé. As rendas das
saias brilham numa confusão dos sentidos. No colo de velhas, distintas
senhoras, cãezinhos vão de passeio em carros. Peitos aproximam-se em contramão,
peitos de mulher apertados em vestidos e corpetes. E depois também muitos e
estúpidos charutos em muitas pregas de bocas masculinas. E sonhamos com ruas
nunca imaginadas, novas e invisíveis regiões que fervilham também de gente. Entre
as seis e as oito da tarde o movimento humano tem o seu momento mais gracioso e
concentrado. É quando sai a passeio a melhor sociedade. O que somos nós, na
verdade, no meio deste rio, desta colorida corrente humana que nunca quer
acabar? Por vezes, todos estes rostos em movimento ganham um brilho rubro,
pintados pela cor do sol poente. E quando o céu está cinzento e chove? Então todas
estas figuras, e eu com elas, caminham apressadamente sob a gaze opaca, como
figuras de um sonho à procura de alguma coisa, mas sem nunca encontrar, parece,
o que é belo e certo. Todos aqui procuram alguma coisa, todos anseiam por
riquezas e fortunas fabulosas. Sempre com pressa. Não, sabem dominar-se em
tudo, mas a pressa, a ânsia, o tormento e a inquietude brilham em lampejos nos
olhos ávidos. E depois é tudo de novo banhado pelo sol quente do meio-dia. Tudo
parece dormir, mesmo os carros, os cavalos, as rodas, os ruídos. E as pessoas
olham sem consciência. Os prédios altos, aparentemente em queda, parecem
sonhar. Raparigas passam apressadas, embrulhos são transportados. Gostaríamos de
abraçar alguém. Quando volto para casa, encontro Kraus sentado à espera, que me
recebe com sarcasmos. Digo-lhe que sempre temos de conhecer um pouco do mundo.
«Conhecer o mundo?» diz ele, absorto em profundos pensamentos. E sorri com
desprezo.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
em breve
Os meus primeiros duzentos filmes foram vistos em estado de clandestinidade, ou por fazer gazeta à escola, ou por entrar na sala sem pagar (pela saída de emergência ou pelas janelas da casa de banho), ou ainda por aproveitar as saídas nocturnas dos meus pais, com a necessidade de me encontrar na cama no seu regresso a casa. Era, pois, com fortes dores de barriga que eu pagava este grande prazer, com a barriga num nó, a cabeça amedrontada, invadido por um sentimento de culpabilidade que só podia aumentar a emoção provocada pelo espectáculo.
Compreender-se-á que a obra de Alfred Hitchcock, toda ela dedicada ao medo, me tenha seduzido desde o início, e depois a de Jean Renoir, voltada para a compreensão: «O que é terrível nesta terra é que toda a gente tem os seus motivos» (A Regra do Jogo, 1939). A porta estava aberta, eu estava pronto a receber as ideias e as imagens de Jean Vigo, Jean Cocteau, Sacha Guitry, Orson Welles, Marcel Pagnol, Lubitsch, Charlie Chaplin, evidentemente, todos aqueles que, sem serem imorais, «duvidam da moral dos outros» (Hiroxima, Meu Amor, 1959).
françois
truffaut
segunda-feira, 11 de maio de 2015
segunda-feira, 4 de maio de 2015
LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS
Tenho tido inúmeras oportunidades para constatar que a minha
memória é dotada de uma selectividade muito peculiar. Interessa-se sobretudo
por guardar sensações e impressões, elidindo muitas factualidades. Quantas
vezes quero contar uma história minha e só consigo traduzir apontamentos
sensitivos. Este fenómeno manifesta-se sobretudo com os amantes e as leituras.
Não sei dizer se a compulsão voraz de certas leituras influencia, mas a verdade
é que às vezes sou incapaz de recordar o enredo de uma história que li há
muitos anos, embora possa enumerar com toda a nitidez as sensações que tal
livro me provocou no corpo.
Yukio Mishima é um dos autores que me surge envolto numa
nebulosa de sensações. Li-o nos tempos da licenciatura, há uns 11 ou 10 anos, e
recordo que a sua escrita me afectou de um modo algo delirante, como se as suas
palavras me colocassem no umbral do Indizível. Volvidos vários anos, não
consigo encontrar essas histórias dentro de mim. Já a sensação que o meu corpo
experimentou ao lê-las surge-me de pedra e cal, qual estátua. A única maneira
de a comunicar é dizer que se apresentava como um mistério solene de mãos em
posição de oração, depois de um grande combate silencioso.
Com a colectânea de contos A MORTE EM PLENO VERÃO, recuperei
parte desse tumulto interior. Falar de cada conto é tarefa quase inútil, os
temas e os acontecimentos narrados servem apenas para aflorar esse grande
mistério indizível que compõe as emoções humanas. Posso dizer que o conto A
MORTE EM PLENO VERÃO se inspira em De Quincey (a epígrafe do conto pertence a
Baudelaire mas a colusão poética do verão com a morte remonta de facto às
confissões de De Quincey, que Baudelaire tão atentamente leu e reescreveu) para
nos contar uma tragédia balnear e dissecar com toda a mestria as várias fases
do luto.
- A culpa foi toda minha – disse ela. Aquelas eram as palavras que
Masaru mais desejava ouvir.
(…)
Embora não o soubesse, estava desesperada com a pobreza das emoções
humanas. Haverá algum bom senso em que choremos a morte de dez pessoas como
choramos a morte de uma só?
Posso dizer que dizer que os remates de O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR e AS SETE PONTES são deliciosamente enigmáticos. E que TRÊS MILHÕES DE IENES insinua em nós uma
pergunta quantitativa de difícil resposta: quanta sordidez é necessária para
assegurar uma estabilidade inocente? Ou que o conto GARRAFA-TERMOS me recordou
de algum modo a atmosfera de certos filmes do Wong-Kar Wai e também Marguerite Duras.
Apurando o ouvido para a conversa, Asaka tirou o casaco e colocou-o no
regaço. Só o pescoço, com que ela agora não tinha de se preocupar como quando
era gueixa, mostrava a negligência da mulher profissional que voltara a ser
amadora. Trazia o cabelo puxado para cima e Kawase ficou admirado com a
escuridão da sua pele.
- Não são muito simpáticas mas trabalham muito – disse Asaka em voz
alta, olhando para as criadas. Kawase gostou de ver nos olhos vivos todo o
entusiasmo que ela tinha pelo seu novo trabalho. Ela tinha sido sempre bela,
pensou ele, mesmo quando a olhava como se estivesse a admirar um fogo distante.
(…)
O café tinha o cheiro peculiar americano, meio higiénico, a remédios,
meio doce e pegajoso a corpos. Os clientes eram mulheres, na sua maioria de
meia-idade ou mais velhas, com olhos orgulhosos e lábios pintados, atacando
grandes bolos e sanduíches. Apesar do barulho e da azáfama da loja, havia
qualquer coisa de solidão em cada mulher e nos seus apetites. Triste, só, como
a actuação de tantas máquinas consumidoras.
Posso, sem dúvida, dizer que a perfeição formal de
PATRIOTISMO é de uma beleza imbatível. Mas o mais essencial será que cada
leitor se ofereça a esta leitura como um piano virgem e possa escutar em si a
ressonância inesperada de cada harmonia sombria.
terça-feira, 7 de abril de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
O grande Meaulnes
"Procuro qualquer coisa mais misteriosa ainda. É a passagem de que se fala nos livros, o antigo caminho obstruído, de que o princípe, exausto de fadiga, não conseguiu encontrar a estrada. Descobre-se na hora mais ocasional da manhã, quando há muito nos esquecemos de que já vai nas onze horas, no meio-dia... E de súbito, ao afastarmos os ramos, por entre a folhagem profunda, com um gesto hesitante das mãos desigualmente afastadas à altura da cara, vemos como que uma longa avenida escura, cuja saída é um circulozinho de luz."
sábado, 28 de março de 2015
Uma grande coragem inútil
Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.
Em Berlim, em Lisboa, o mesmo
desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri
poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas.
“Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o
meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma
romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o
que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.
E tenho a certeza que a minha
mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim,
passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu
a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor.
Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas
recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.
Apesar de tudo isto, descubro de
vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada
admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal
Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros
publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras,
escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos
introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação
nascente.
Curiosamente também, dois desses
escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora
das Flores, de Jean Genet, e A
Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por
marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.
E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre
que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o
meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a
capitulação da cidade.
Nossa Senhora das Flores, Jean Genet
Em ambas as leituras, o furor
começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido,
nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal
Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel,
impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em
que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do
entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.
Senão vejamos: “Que palavra
assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que
aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e
fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar
sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores.
E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era
um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por
Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória
fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e
barcelonas”. E assim por aí adiante.
Já A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório,
cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério
que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu
costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela
lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom
deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente
ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos
do sublime. Um exemplo ao acaso:
Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente
tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.
É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o
seja.
Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres
fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos
bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada
a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos
meus ares.
Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo
quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol.
Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir.
Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir
sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma
árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se.
Aliás, só há felicidade nos tristes.
Não podia estar mais de acordo. Há
muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são
simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores
flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse,
jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Os desalojados do mundo
"Sem parar de sorrir e com irónica malevolência, virou-se para Stoner.
- Tu também não escapas, meu amigo. Nem penses. Quem és tu? Um simples filho da terra, como te queres convencer a ti próprio? Ah, não. Tu também fazes parte dos enfermos... tu és o sonhador, o louco num mundo ainda mais louco, o nosso Dom Quixote do Midwest sem o seu Sancho Pança, a fazer cabriolas sob o céu azul. És suficientemente esperto, pelo menos mais esperto do que o nosso amigo mútuo. Mas tens a mácula, a velha enfermidade. Achas que há qualquer coisa aqui, qualquer coisa para descobrir. Pois bem, no mundo, aprenderias depressa. Também tu foste talhado para o fracasso, embora não lutasses contra o mundo; deixarias que ele te pisasse e deitasse fora, e ficarias ali caído a perguntar-te o que se passava, porque esperarias sempre que o mundo fosse algo que não era, algo que não queria ser. O gorgulho no algodão, a minhoca no pé de feijão, o caruncho no milho. Não os conseguirias encarar e não conseguirias lutar contra eles, porque és demasiado fraco e és demasiado forte. E não tens para onde ir no mundo."
sábado, 10 de janeiro de 2015
que coisa são as nuvens
"Para aceder à alegria, porém, a vida tem de ganhar porosidade. Mesmo que o seu preço inclua a dor. Frequentemente, um sofrimento deve escavar primeiro em nós a profundidade que depois a alegria irá encher."
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
Crónica de José Tolentino Mendonça (Expresso - Revista 3-Jan-2015)
QUANDO UM HOMEM CHORA
2014
terminou com dias solarengos no Algarve, aconchegados pelos meus cães e pela
leitura do primeiro volume de A MINHA LUTA de Karl Ove Knausgard, A MORTE DO
PAI. Aguardava com curiosidade esta leitura desde Setembro de 2013, quando a
deliciosa Ahab anunciou a publicação da tradução dos seis tomos autobiográficos,
uma vez que se trata de uma obra confessional, género que muito estimo.
O
livro chegou, portanto, com uma empatia já previamente estabelecida e
apanhou-me de férias, fumando reflexões várias sobre uma vida melhor e o valor
da alegria e do fascínio, moedas ultimamente escassas no meu quotidiano e,
consequentemente, nas minhas leituras. A
sensação de que o futuro não existe, de que é apenas mais do mesmo, significa
que todas as utopias são desprovidas de sentido. A literatura sempre esteve
relacionada com a utopia, por isso, quando a utopia perde o sentido, acontece o
mesmo com a literatura. O que eu tentava fazer, e talvez o que todos os
escritores tentam fazer – que raio sei eu? –, é combater a ficção com a ficção.
O que eu devia fazer era aceitar o que existia, aceitar as coisas como elas
são, por outras palavras, celebrar o mundo em vez de procurar uma saída, porque
assim teria sem dúvida uma vida melhor, mas não conseguia, não conseguia; algo
se congelara em mim, uma convicção tinha-se enraizado em mim, e, embora fosse
essencialista, ou seja, anacrónica e até romântica, eu não conseguia passar por
cima dela, pelo simples motivo de que não fora apenas uma coisa pensada mas
também sentida, naqueles súbitos estados de iluminação que acontecem na vida,
em que durante alguns segundos se vislumbra um mundo diferente do que se
vislumbrou momentos antes, onde o mundo parece avançar e mostrar-se por um
breve espaço de tempo, antes de recuar e tudo voltar a ser como era…
Kanusgard
constrói uma investigação existencial, uma indagação proustiana dos traços do
tempo vivido, para entender como se chega a ser como se é: Como é que acabei aqui? Como é que as coisas aconteceram assim? (…) E
cada dia que passa, aumenta o desejo pelo momento em que a vida atingirá o
auge, pelo momento em que as comportas se abrirão e a vida seguirá, por fim, em
frente. Ao mesmo tempo vejo que a repetição, a clausura, o inalterável são
necessários, que me protegem. Nas poucas ocasiões em que os deixei, as velhas
feridas regressaram. De repente sou tomado por todos os pensamentos imagináveis
sobre o que foi dito, o que foi visto, o que foi pensado, atirado para aquele
espaço incontrolável, estéril, muitas vezes degradante e verdadeiramente
destrutivo onde vivi tantos anos. Nele a nostalgia é tão forte quanto a que
existe aqui, mas a diferença é que esse sentimento tem um objectivo realizável,
aqui não. Aqui tenho de encontrar outros objectivos e de me contentar com eles.
Falo da arte de viver.
Como
não simpatizar com este projecto? Em termos de fascínio, a ligação
processava-se de modo menos automático. Influenciada pela imprensa, esperava talvez
um striptease mais visceral mas
Knausgard, como um bom nórdico, insistia nas excursões pelas ideias e a minha
atenção divagava também. No entanto, a partir da página 140, percebi que havia
ali entranhas várias e uma enorme coragem em expô-las e que não me havia
apercebido disso até então pelo relato essencialmente masculino e racional. Foi
só quando aceitei que visceralidade e lucidez podiam coabitar nas mesmas
páginas, que encontrei a porta de entrada para o texto.
E
assim fui acompanhando essa voz, apreendendo as suas nuances masculinas, as duras dores do seu crescimento, as primeiras
bebedeiras, o primeiro amor. Numa manhã
de Abril há rebentos nas árvores e uma vaga verde começa a cobrir a erva
amarela dos campos. Florescem os narcisos, e também os malmequeres e as violetas.
Em seguida, o ar quente surge como uma coluna por entre as árvores das colinas.
Nas encostas soalheiras os rebentos abriram, e as cerejeiras estão em flor. Quando
temos dezasseis anos, tudo isto causa uma certa impressão, tudo isto deixa a
sua marca, pois é a primeira Primavera em que sabemos que é Primavera, em que
todos os sentidos pressentem a sua chegada, e é também a última, pois todas as
outras Primaveras empalidecem quando comparadas com a primeira. Se além disso
estamos apaixonados, bem, então… então é apenas uma questão de aguentar. Aguentar
toda a felicidade, toda a beleza, todas as promessas que há em todas as coisas.
Ia a pé da escola para casa, reparei que a neve derretera sobre o asfalto, era
como se ele tivesse sido esfaqueado no coração. Vi caixas de fruta sob um toldo
de uma loja, um corvo a saltitar não muito longe dali, olhei para o céu e
estava muito bonito. Atravessei a zona residencial, caiu um aguaceiro, fiquei
com os olhos cheios de lágrimas.
E,
aquando da descrição do autor da sua relação com a arte, lá estava eu enamorada
por essa inquietação ávida que tanto conheço e que jamais tinha conseguido
capturar pela palavra. Era o único
critério que usava para avaliar a arte: a sensação que despertava em mim. A
sensação de inesgotabilidade. A sensação de beleza. A sensação de presença. Tudo
comprimido em momentos tão intensos que às vezes eram difíceis de aguentar. E bastante
inexplicáveis (…). Liberdade mas não paz, porque, ainda que os quadros
retratassem cenários idílicos, como as paisagens arcaicas de Claude, eu ficava
sempre perturbado quando os abandonava, pois aquilo que possuíam, no íntimo do
seu ser, era a inesgotabilidade, e isso despertava em mim uma espécie de
avidez. Não consigo explicar melhor. Uma vontade de estar dentro da
inesgotabilidade (…). No entanto, assim que voltava a concentrar-me na pintura,
toda a minha racionalidade desaparecia com aquele embate de energia e de beleza.
Sim, sim, sim, ouvia. É aí que está. É
para aí que tenho de ir. Mas a que é que
dissera sim? Para onde é que deveria ir?”
E
assim flui a luxúria entre quem se despe e quem olha. Mas nada parecido entre o
affair de Actéon e Diana. Porque
aqui, a verdade do outro não aniquila, é mais como uma casa bafienta e escura
que se abre para a vida com uma sinceridade muito viva. Na minha opinião, é um
livro bom mas não genial e muito do bruaá deve-se à exposição extrema e
polémica que Knausgard faz dos seus familiares e outros. A grande operação de
marketing do livro baseou-se nessa polémica, o que determina que grande parte do
prazer voyeurista da leitura seja gasto nesses espantos. É no entanto um livro
bom, cujos tomos seguintes lerei com certeza. Sobretudo porque confessa
pequenas derrotas e breves iluminações, que tantos sentem e poucos revelam.
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