domingo, 24 de abril de 2016

esqueçam lá a matilde campilho



Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza

*

As deusas tinham todas ficado em casa
por decência
não mergulharam neste lodo onde
circulam os patos e desmaiam as cicatrizes
das árvores.
Não mergulharam na ferocidade de me
ter aqui sentada
em absoluta explosão de mim
em absoluta e violenta sintonia
dos átomos, dos pardais,
da tua lembrança, disparada em flecha.

Falei-lhes do abandono.
Falei-lhes de incontrolável.
Podia espetar o lápis no peito e falar só
com os olhos
porque sou a intenção
sou o acolhimento em útero de todas as
mulheres sentadas frias
e flores.

Quero o que é absolutamente sujo
porque dói.
Sou mais plena quando desaparecem
as últimas gotas limpas e o sol ataca em
uníssono mundo.
Prefiro o que é absolutamente puro
porque mata
devagarinho, incontrolavelmente,
como um final suspenso na boca à tardinha,
sem deus nem medo.

Falei-lhes da saudade muda e da
destruição dominical,
que sou uma vida inteira em melancolia
de um só pé
em desassossegada observação de patos.

As deusas não vieram e neste jardim não
há alma sentada que não me estremeça um
dente.
Falei-lhes de entrar pelo amor adentro com
a vertigem dos afogados e radiosa loucura.
Falei-lhes dos meus dedos que inscrevem o
esconso e da minha cabeça inconcreta.

Disse-lhes:
não contrario a vontade do que está morto
mas a minha imaginação dói-me tanto
na boca que me refaz amantes,
incendeia-me poemas.
A minha imaginação vive sozinha, sovada,
entre este laguinho lamacento e os subúrbios
do Alto Minho.

Toda esta minha indecência não me deixa
a condição de ser deusa.
Esta minha galopante indecência é a
maravilha que me curva as costas e
a tranquilidade de estarmos sós,
perdidos na consagração da verdade efémera.

E tudo é outro nome que não este.

*

Quanto mundo há nesta sala toda disposta
em grandes pinturas além-dedos
das minhas tardes noites, indubitáveis
terríficas.
Quanto tremor neste lado e no outro
e naquela parede e na outra
e naquela porta acolá e ainda mais um
empurrão no móvel para abafar tudo isto
como quem deseja, impossível,
o incógnito lado de lá.

Do lado de cá, despeja-se uma garrafa
transformada depois em pensamentos
rasgados no lado de dentro
e numa flor nascida ali, junto à parede
cansada, cheirada em detergente seco.

Uma gata que pula além-chão atira-me
às consequências de um riso inato.
Há coisas inatas por lados demais
e são essas as que puxam as grandes
rodas e as desviam dos buracos.
Eu tenho medo.
Anda tudo a desviar-se dos buracos
quando estamos, em tudo, dentro deles.

Que sabemos nós desta tarde?
Que sabemos nós, dos pés fora da cama,
a calçarem-se sempre em par, coitados,
sempre comandados, sem vontade?
O que nos comanda a nós que obrigamos
os nossos pés a existirem?
Como esta caneca cheia.

Abro a porta às gatas ciente dos meus
pés, mas só um vai lá fora.
E depois há o momento em que regressa,
com as suas patinhas comandadas e sem
vontade,
as suas orelhinhas comandadas,
o seu miar comandado,
a cabecinha comandada,
o seu amor comandado
numa casa comandada.

E eu lanço-me a esta laranja e descasco-a
comandada, inata, voraz de nona sinfonia,
de solidão, de sexo, de paradoxos,
rebentada em mim.
E quando me deito sou centopeia de
mil almas que se vão juntando,
perdidas.

Bons serões


Truman (2015)


Fitzcarraldo (1982)

domingo, 27 de março de 2016

Ítaca



Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poseídon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se a emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poseídon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.

Konstandinos Kavafis

A glória, como vós sabeis, é uma coisa amarga.



«Então, subitamente, o ronco cavo, prolongado, duma sirene irrompeu através da janela aberta e inundou o quarto quase às escuras – era um grito de dor, uma dor exigente, negra, sem limites; um grito negro de pez e glabro como o dorso de uma baleia e carregado com as paixões de todas as marés, com a memória de todas as viagens, as alegrias, as humilhações: o mar estava a gritar. Com toda a loucura e cintilação da noite, a sirene ressoava, transportando ao largo, do centro morto do mar, toda a sua sede do néctar negro que inundava aquele quartinho.
Tsukazaki voltou-se com uma rápida torção dos ombros e olhou lá para fora, para a água.
Nesse mesmo instante tudo quanto ficara acumulado no peito de Noboru desde o seu primeiro dia de vida se libertou e consumou. Até ao ressoar da sirene tudo tinha sido um esboço apenas, uma tentativa. Preparados os mais finos materiais, tudo estava pronto, convergindo para o momento da revelação. Mas um elemento faltava: o poder que transfigurasse os fragmentos esparsos da realidade num palácio radioso. Então, com a sirene, as partes juntaram-se. Formando um só todo, havia a lua e um vento de febre, a carne excitada de um homem e duma mulher, suor, perfume, as cicatrizes duma vida de mar, a confusa lembrança de portos de todo o mundo, um buraco na parede que não permitia respirar, o coração de ferro dum rapazinho – mas estas cartas tiradas de um baralho cigano estavam espalhadas, não mostravam nada. A ordem universal, que o grito da sirene finalmente estabelecera, revelava um círculo invencível de vida – as cartas emparelhavam-se: Noboru e mãe – mãe e homem – homem e mar – mar e Noboru…
Estava perturbado, molhado, com êxtase. Tinha a certeza de ter visto desenrolar-se um novelo, cujos fios traçavam uma figura sagrada. E isto tinha que ser protegido: tudo quanto sabia é que era o seu criador de treze anos.

– Se isto alguma vez for destruído, será o fim do mundo – murmurava, quase a sonhar. Acho que faria tudo para o impedir, por mais terrível que seja!»

Mirror



I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only thruthful 
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Sylvia Plath

Que Deus nos dê a todos nós, a nós os bebedores, uma morte tão suave e tão bela!



“Andreas já se tinha esquecido há muito tempo do seu apelido. Agora que estava a rever os seus documentos caducados, lembrou-se que se chamava Kartak: Andreas Kartak. Era como se depois de muitos anos de tivesse descoberto a si próprio.

Ainda assim, sentia-se de certo modo irritado com o destino, por este não lhe ter enviado de novo, como da última vez, um homem gordo de bigode e com feições infantis, que lhe possibilitaria ganhar mais dinheiro. Pois não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem de uma forma sucessiva. Sim! A natureza do Homem é tal, que se este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer. São assim os Homens – e podia esperar-se outra coisa de Andreas? O resto do dia, passou-o portanto em várias tabernas. Resignou-se com o facto de o tempo dos milagres que vivera pertencer ao passado, definitivamente ao passado, e de ter regressado aos seus velhos tempos. Decidido a viver a vida de uma lenta decadência, a que os bebedores sempre se prestam – os abstémios nunca saberão o que isso é! –, Andreas dirigiu-se novamente às margens do Sena, para debaixo das pontes.”

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Vó (1924-2016)


morfolofalando


adeus pêlo lento. adeus Micas de luas exactas.
adeus estilhaço do teu olhar no meu gosto.
adeus o que ouço incendiado e beijo às avessas e inútil.
adeus aquele ruído do sexo nos lençóis do retrato.
adeus o que em mim sabe sacramamentado na boca.
adeus o que dói no talento frágil do sangue
ou é sobretudo perder-te cem por cento na cama.
merdaputice de nutrição revolucionariamentemerda.
ah (meus caros) adeus na retrete.
(mínimo e sujo) pouco de futuro
por entre o mau cheiro das nutridas granadas.
adeus antes do cansaço de parecer só macho
ou fêmea ou pederasta ou português.
adeus dona Verónica à janela morrendo um
astro entre o pudorinado das pernas.
dona Verónica o que é que importa? para quê
as travessas quando as criadas já não amanhecem?
as horas cercadas? a estranha madeira dos gestos?
aquele gajo que me mandou para a puta que o pariu?
a altura do acaso nos pulsos ou aquela canção que já não presta?
para quê dona Verónica? para quê?
claro que só sei o não do que tanto acontece:
telegrama de espanto
rasto de cornos
loucura de nata.
dona Verónica não vale a pena (garanto)
a lua se pôr de prata.
para que serve essa bandeira metade camisa metade salsa?
não será melhor encher por fora todos os sacos?
ahhhhh (meus amigos) trago comigo a desfraldada
mágoa dum animal secreto: ânsia tesa no sexo.
escondo-me dos guardas e da fomerda dos outros.
são uns sacanas todos
pedem-me o passaporte que mijado já não serve.
adeus amigos. vou ser parecido a mim próprio
com fulaninhas de leitamas e os pés em flash-back.
com toucinho e mostarda e bem sentado à mesa.
enrascado nas calças (é certo) mas de paladar correcto
para reclamar o prato que já não faz falta.
e se me sai a lotaria vou p'rá cama com
os repolhos da criada e compro mamas na praça.
assim mesmo (raios me partam) semelhante
de maçada e caspa com licença e bagaço.
mas (concerteza) nojento e parecido
de baba e paisagem nesta chatice com céu e gravata
em tudo que não me importa.
sem dúvida que trago o bilhete
com a alma descascada na paragem do autocarro.
e estou-me nas tintas: libertarde e caspa.
ou espermaneço rasca no tesão duma maneira
que certamente já não se pode.
adeus Ferreira e a tua sociedade plutocaca
com meninos sacanas e donzelas de fina lata.
mas contigo Fagundes é um tanto diferente:
eras pela revolução pela limpeza pela luta
e fazias estátuas de alegria e
mapas de pura aragem sobre as mesas das tascas.
é claro que ouço: os militares marcham
a escada sobe e a rua passa.
adeus Juca prémio de ti mesmo no
calendário da tua presença. foste para mim o espaço dum
espelho exactamente atrás da porta. sabias?
e um estupor também.
adeus Juca pela clara indecência
com que te puseste na minha memória.
sei que estás vivo no céu do teu auto-retrato
com gajas boas e as cricas e as fufas
e as garotas inventadas de dias e buracos.
e trazes o teu fantasma cornudo de lume
na ocasião em que fornicas. adeus amigo.
poooooooooooooooooorrrrrrraaaa: tudo p'ró penico.
nada de adjectivos nem gramamamática
em nenhuma ocasião.
adeus velhos amigos cozinhados de audácias
e caras enfeitadas com segredos de pissas.
não vou partir nem ficar. nem cus nem tomates.
nada de ilusões. não há muito para desentender:
vamos ao médico ou não temos pressa.
mas talvez não se passe de novo do povo ou do insecto
no fato
com a verdade pouca na máquina de lavar roupa.
talvez com cagaço e azeite e ocidental e direito.
ou mamas com grão mesmo frias e da véspera.
será que o essencial fica emprestado ou no céu do quarto
ou então no assombro de perfil com água errada na gaveta?
ou mesmo que haja outra lâmpada no estilo do gosto
o mais importante (acredita) vai dos dedos até à garganta.
depois deito-me usado na cama:
cachorro coitado do rabo até à cabeça
com esta puta da vida que nunca me basta.

António Aragão
PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC.

Vós, os mesquinhos e os tacanhos de espírito


Nunca tinha lido nada de Flannery O’Connor. Durante seis anos, olhei de tempos a tempos a lombada de UM BOM HOMEM É DIFÍCL DE ENCONTRAR, concordante e de sorriso irónico, mas só recentemente me atrevi a tirá-lo da estante e a lê-lo.

Não posso dizer que tenha sido uma leitura feliz – os dez contos parecem retirados de um velho testamento sulista, como um catálogo de pecados capitais e outros menos capitais mas nem por isso menos fatais. A teimosia, a soberba, a luxúria, a avareza, a cobiça, o egoísmo e o racismo repetem-se nas várias histórias e também as personagens se assemelham de uma para outra. As proprietárias das fazendas tendem a ser mulheres sozinhas, de espírito tacanho e contraído, rodeadas por uma empregada ou amiga quadrilheira e por uma filha embirrenta e antipática. Na maioria das vezes, a desgraça chega anunciada por um visitante estranho que se apresenta como pessoa simples e afável (oh, que um deus qualquer nos mantenha a salvo dos simples e da «gente sã do campo»).

Os afectos produtivos ocupam pouco espaço e todos parecem infectados por ideias fixas, quais mulas arreigadas nas suas crenças e preconceitos. Não simpatizamos com ninguém em particular e pressentimos a desgraça – as situações descambam nos contos de O’Connor e de que maneira! -, vertiginosa e inclemente que se aproxima. Ainda assim, imploramos alguma misericórdia mas é tarde demais: «já nada é como costumava ser, o mundo está quase podre». No meio de tantas desgraças, somos de quando em brindados com frases assombrosas: «Sou tão bom como tu em qualquer dia da semana» ou «Teria sido uma boa mulher se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela.»

Todos os contos são geniais – Flannery O’Connor é mestra na sugestão de atmosferas e psiques – mas a minha predilecção vai para dois deles, O Preto Artificial e A Gente Sã do Campo. Em ambos, o castigo abate-se sobre a soberba das personagens. O Preto Artificial é único conto com um final mais luminoso, com a sobranceria do avô e do neto a serem derrotados pela misericórdia.

Olhavam para o preto artificial como se se confrontassem com um mistério profundo, um monumento à vitória de outrem que os reunia na sua derrota comum. Ambos podiam sentir o efeito do mistério dissolvendo os seus antagonismos como um acto de misericórdia. Mr. Head nunca soubera antes o que era o sentimento de misericórdia porque sempre fora demasiado bom para precisar dela, mas reconheceu-a imediatamente. Olhou para Nelson e compreendeu que devia dizer uma coisa qualquer que demonstrasse que a sua sabedoria não desaparecera, e no olhar que recebeu do rapaz identificou uma necessidade imensa dessa garantia. Os olhos de Nelson pareciam implorar-lhe que explicasse de uma vez por todas o mistério da existência.
Mr. Head abriu a boca para fazer uma declaração solene e ouviu a sua própria voz a dizer: «Não têm cá pretos que cheguem, precisam de criar um preto artificial.»
Depois de um segundo o rapaz acenou afirmativamente com um estranho tremor na boca e disse: «Vamos para casa senão ainda nos perdemos outra vez.»


Em suma, Fannery hits you hard!

Rimbaud, meu amor


Os anos passam. Mais de duas décadas a ler-te e, embora me continue a acercar das tuas palavras com o mesmo sentimento de solenidade profana, parece-me que a cada novo encontro adivinho um pouco mais do teu mistério.

UMA CERVEJA NO INFERNO

Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E vi que era amarga. – E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, foste vós a guarda do meu tesoiro!
Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!
            E chamei os carrascos para morder, na agonia, a coronha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
            E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.
            Ora, ultimamente, prestes a lançar à cara do planeta o derradeiro estalo, lembrei-me de ir buscar a chave do festim (talvez me regressasse o antigo apetite?).
            Caridade – é a chave. Uma inspiração destas prova que sonhei!
            «Permanecerás hiena, etc…», ruge o demónio que me coroava de tão amáveis papoilas. «Morre feliz ao lado dos teus apetites, com todo o teu egoísmo, com todos os melhores pecados capitais.»

            Ah! tomei tanto disso… – Mas, meu caro Satã, não carregueis tanto o sobrolho! e enquanto esperais ainda uma que outra miséria vinda atrasada por motivo de obras, vós, que apreciais no escritor a mais selecta ausência de faculdades descritivas ou pedagógicas, aqui tendes para já, especialmente arrancadas, estas odiosas folhas do meu canhenho diário de danado.

Susan Sontag


«Pelo contrário, para mim teria sido um esforço enorme não pensar no assunto. A coisa mais fácil do mundo é pensar no que está acontecendo com a gente. Você está lá, no hospital, pensando que vai morrer, e não pensar sobre isso teria exigido de mim um desprendimento enorme (…). Olha, o que eu quero é estar presente por inteiro na minha vida – ser quem você é de verdade, contemporânea de si mesma na sua vida, dando plena atenção ao mundo, que inclui você.
(…)
Uma vez me disseram que você costumava ler um livro por dia.
Eu leio em excesso e de maneira muito descuidada. Adoro ler, do mesmo modo que os outros gostam de ver televisão, e de certa forma, eu adormeço assim. Se estou deprimida, abro um livro e me sinto melhor.
Como escreveu Emily Dickinson: “Flores e livros, confortos da tristeza”.
Exacto. Ler é a minha diversão, a minha distracção, meu consolo, meu pequeno suicídio. Quando não consigo suportar o mundo, enrosco-me a um livro, e é como se uma nave espacial me afastasse de tudo.
(…)
O livro que me fez querer ser escritora foi Martin Eden, de Jack London – e tem um suicídio no fim! (…) Comecei a ler quando tinha três anos. O primeiro romance que me comoveu foi Os Miseráveis – chorei, solucei, lamentei. Quando você é uma criança leitora, acaba lendo os livros que estão pela casa. Lá pelos treze anos, li Mann, Joyce, Eliot, Kafka, Gide – basicamente os europeus.
(…)
Tive sorte o bastante por ter um filho e ser casada quando ainda era muito jovem. Já fiz isso, agora não preciso fazer mais. Mas isso não é um exemplo. Escolhi não me casar mais, já tive um filho – então não vou sentir falta dessa grandiosa experiência que é ser mãe – e decidi ter uma vida autónoma, que é cheia de inseguranças, aborrecimentos, ansiedade, frustrações e envolve longos períodos de castidade. Achei que era isso que eu queria… mas isso não é um modelo, é apenas a minha própria solução, e só a justifico para mim mesma por causa dos meus projectos de vida.
(…)

Existe hoje uma pobreza de espírito tão desencorajadora em relação à alta arte moderna que não sinto vontade nenhuma de entrar na briga escrevendo um ensaio. No final dos anos sessenta tive a sensação de que a batalha estava vencida, mas foi uma vitória passageira. Quando ouço alguém me dizer que não gosta de Dostoiévski porque ele é caótico demais, digo “Espere aí!” Você poderia me dizer que o motivo disso é o facto de as pessoas estarem cansadas e precisarem descansar um pouco. Mas eu me pergunto: Por que elas deveriam descansar? [rindo]

Conversas no Cais de Sodré

- O Herberto Hélder salvou-me a vida.
- Mas literalmente?
- Literalmente, sem dúvida.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Graça Pina Morais (1929-1992)



Descobri uma grande escritora portuguesa, lastimosamente olvidada: Graça Pina Morais.

Li A Origem e pasmei perante a sua mestria na composição da densidade psicológica das personagens que habitam a Casa. Arquétipos de uma ruralidade ainda viva, todas tão humanas e propensas à fatalidade, todas tão amáveis apesar das suas fragilidades. A atmosfera e as personagens recordaram-me um pouco o realismo mágico de García Márquez. Mas só um pouco, pois ainda que apresentada de uma forma fantástica, o que prevalece nestas páginas é uma viagem ao centro da alma humana, naturalmente rica em sombras e declives.

Os comentários narrativos revelam uma inteligência emocional superior, embora por vezes mais descuidada do estilo, e o modo clarividente como Graça Pina Morais analisa e desmonta a dualidade do artista, na figura de João, só pode indicar que esta escritora viveu esplendorosamente toda a vida do espírito artístico.

Uma das características da Casa era a sua profusão de divisões inúteis. Tinha, pelo menos, umas quatro salas de estar, onde, aliás, ninguém estava: aquela era uma dessas. Compunham o mobiliário uma velha mobília de verga e uma cadeira de balanço, que constituía o encanto de todas as crianças que haviam crescido na Casa. Numa das paredes estava pendurado um grande espelho, com uma ingénua pintura num dos cantos, que representava uma série de patos nadando num lago azul berrante.

Quando Catarina entrou, João mirava-se no espelho, facto que lhe acontecia com frequência sempre que deparava com uma superfície espelhada, não porque se achasse particularmente bonito, mas porque gostava de se avaliar. Catarina parou e João lançou-lhe um olhar irritado, por ter sido surpreendido em intimidade consigo mesmo. Não disse uma palavra. Através da porta encostada, ouviam-se as vozes das tias de João, que chegavam até eles em surdina, vindas da sala de jantar.

– Estavas a ver os patos ou estavas a admirar-te? – perguntou Catinha.
– Estava a admirar-me, sem admiração, é claro! – respondeu ele, quase colérico.
– Não te aflijas, rapaz, és bonito.
– Não sou!
– És  – gritou convicta Catarina, que continuou, depois, numa voz baixa e misteriosa: – Torna a virar-te para o espelho, João.
– Que idiotice; para quê?
– Vais ver. Mas primeiro juras uma coisa: só te voltas para mim quando eu der ordem. Juras?
– Juro  – prometeu João, curioso. E virou-se para a superfície brilhante. Não havia mais nada além dos patos.

De repente, João abafou um grito de espanto. No espelho surgiu Catarina, despida; a rapariga segurava com os dois braços afastados as bandas do roupão aberto. Tinha os olhos baixos, quase fechados, a cabeça inclinada num movimento tímido e gracioso. O corpo de Catarina possuía a perfeição e a pureza da adolescência e havia nele uma espécie de espiritualidade comovente, que chegava a angustiar, por se sentir quanto era transitória. Apesar de despida, com a cara incendiada, a boca timidamente contraída, desprendia-se dela uma grande frescura, uma imensa pureza.

(…)

Deitado, João, à força de esperar o sono com impaciência, acabou por sentir-se muito doente. Todas as ideias se baralhavam na sua cabeça. Pensava vagamente em casar com Catarina, mas Catarina era só uma mulher, e para o cérebro excitado do rapaz, uma mulher era pouco. Queria todas as mulheres do mundo. Milhares de expressões de amor, de abandono, em rostos desconhecidos, corriam na sua imaginação, e todas tinham o juvenil corpo despido de Catarina. Caras sombrias, alegres, raivosas, rodeadas de cabeleiras fulvas e negras, encimavam o pescoço gracioso e inclinado sobre o ombro nu de Catarina, e assim, num crescendo de excitação raivosa e doentia, João acabou por possuir-se a si mesmo.

Ficou exausto, deitado de costas e coberto de suor. Não tinha a sensação de ser ele, nem sequer a consciência do próprio corpo, sentia-se transformado num monstro viscoso e sombrio, condenado à mais intransponível das solidões. Adormeceu mergulhado numa cinzenta e desolada tristeza.

Teve um sonho pavoroso. O mundo despovoara-se e não havia o mais pequeno vislumbre de vida sobre a Terra; João, desesperado e sozinho no grande universo, amava-se a si mesmo.

the pleasures of the damned *poems, 1951-1993



dark night poem

they say that
nothing is wasted:
either that
or
it all is.


liberated woman and liberated man

look there.
the one you considered killing yourself
for.
you saw her the other day
getting out of her car
in the Safeway parking lot.
she was wearing a torn green
dress and old dirty
boots
her face raw with living.
she saw you
so you walked over
and spoke and then
listened.
her hair did not glisten
her eyes and her conversation were
dull.
where was she?
where had she gone?
the one you were going to kill yourself
for?

the conversation finished
she walked into the store
and you looked at her automobile
and even that
which used to drive up and park
in front of your door
with such verve and in a spirit of
adventure
now looked
like a junkyard
joke.

you decided not to shop at
Safeway
you’ll drive 6 blocks
east and buy what you need
at Ralphs.

getting into your car
you are quite pleased that
you didn’t
kill yourself;
everything is delightful and
the air is clear.
your hands on the wheel,
you grin as you check for traffic in
the rearview mirror.

my man, you think,
you’ve saved yourself
for somebody else, but
who?

a slim young creature walks by
in a miniskirt and sandals
showing a marvelous leg.
she’s going in to shop at Safeway
too.

you turn off the engine and
follow her in.


advice for some young man in the year 2064 A.D.

let me speak as a friend
although the centuries hang
between us and neither you nor I
can see the moon.

be careful less the onion blind the eye
or the snake sting
or the beetle possess the house
or the lover your wife
or the government your child
or the wine your will
or the doctor your heart
or the butcher your belly
or the cat your chair
or the lawyer your ignorance of the law
or the law dressed as a uniformed man and killing you.

dismiss perfection as an ache of the
greedy
but do not give in to the mass modesty of
easy imperfection.
and remember
the belly of the whale is laden with

great men.


Charles Bukowski

domingo, 17 de janeiro de 2016

Oblomovite


Parece que a minha alma continua a receber apenas os grandes abalos russos. OBLOMOV foi a primeira odisseia literária deste inverno e a sua leitura foi plena de delícias e recompensas.

Como qualquer grande livro, apresenta várias camadas e as personagens são dotadas de uma densidade psicológica que só os grandes mestres conseguem traduzir em palavras. Tentando afunilar a coisa, podemos dizer que OBLOMOV caminha pelas mesmas paisagens que NIELS LYHNE e A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL, dois livros que me são muito caros. Oblomov cativa-me desde os primeiros capítulos, com a sua figura obesa horizontalmente disposta, tudo rejeitando, da mundaneidade ao trabalho, passando pela literatura. Como ele não deixa de ter razão nos seus argumentos (tudo é maçada!), sigo a leitura, curiosa sobre o destino dessa vida que se deseja apenas poética, imune às agressões e preocupações miúdas. A questão é que sem a vidinha também não há vida e tudo sai hipotecado. Il faut avoir du courage!

“Ela receava cair numa apatia como a de Oblomov. Mas por mais que tentasse afastar da sua alma esses instantes de periódicos entorpecimentos, de sono da alma, de vez em quando assediava-a primeiro um sonho de felicidade, rodeava-a uma noite azul e envolvia-a um devaneio, depois seguia-se outra vez a paragem meditabunda, como que um repouso da vida, e em seguida… o receio, o temor, a aflição, como que uma tristeza surda, e soavam na sua cabeça inquieta questões vagas, brumosas.
Olga escutava-as com atenção, atormentava-se, mas sem conseguir nada; não podia compreender o que a sua alma pedia e procurava de tempos a tempos, mas compreendia apenas que pedia e procurava qualquer coisa, como se – horrível é dizê-lo – tivesse saudades, como se não lhe bastasse uma vida feliz, como se estivesse cansada dela e exigisse novas experiências inauditas, espreitando para mais longe no futuro…
«O que vem a ser isto? – pensava com horror. – Que mais é necessário e possível desejar? Para onde ir? Para lado nenhum! Não há mais caminho… Será possível que não, será possível que tenhas completado o círculo da vida? Será possível que aqui esteja tudo… tudo…» - dizia a sua alma e deixava qualquer coisa por dizer… e Olga olhava à sua volta com inquietação, não teria alguém descoberto, não tivesse alguém escutado esre murmúrio da alma… Interrogava com os olhos o céu, o mar, a floresta… não havia resposta em parte nenhuma: havia apenas a lonjura, a profundeza e a escuridão.
(…)
Ele riu-se.
– Não tenhas medo – disse (…). Não, a tua tristeza, a tua aflição, se é apenas aquilo que eu penso, é antes um sinal de força… As buscas de uma mente activa e agitada, irrompem por vezes para lá dos limites da vida, não encontram naturalmente resposta, e surge a tristeza… o descontentamento temporário com a vida… Isso é uma tristeza da alma que interroga a vida sobre o seu mistério… Pode ser isso que se passa contigo… Se assim for, não é nenhuma tolice.
(…)
– Estou a transbordar de felicidade, desejo tanto viver… e de repente surge uma espécie de amargura…
– Ah! Isso é o que temos de pagar pelo fogo de Prometeu! Não basta suportar, é preciso também amar essa tristeza e respeitar as dúvidas e as questões: elas estão a transbordar de excessos, da exuberância da vida, e surgem mais no auge da felicidade, quando não há desejos vulgares; não surgem no meio da vida corriqueira: onde imperam a dor e a necessidade, as pessoas não têm tempo para isso; as multidões caminham pela vida e conhecem esse nevoeiro da dúvida, a angústia das questões… Mas para quem se encontrou com elas na devida altura, não constituem um tormento, antes são visitantes bem-vindas.
– Mas não há maneira de as vencer: elas causam a melancolia e a indiferença… por quase tudo…  – acrescentou ela com hesitação.
– Não por muito tempo. Depois refrescam a vida  – disse ele. – Conduzem ao abismo do qual não se consegue nenhuma resposta, e fazem-nos olhar de novo a vida com mais amor… Desafiam forças já experientes para a luta, como que para as não deixar adormecer…
(…)
– E se elas nunca nos deixarem: se a tristeza nos inquietar cada vez mais?... – perguntou ela.
– Ora bem, que se há-de fazer? Aceitamo-lo como um novo elemento da vida… Mas não, isso não acontece, não pode acontecer connosco! Isso não é a tua melancolia, isso é o mal geral da humanidade.”

just a good book




Este aniversário, uns amigos ofereceram-me um bilhete para o concerto da Patti Smith no Coliseu. Delirei com o presente e com o concerto. Frente àquela figura andrógina, senti-me perante um xamã, que ora conduzia a multidão ao êxtase, ora a tranquilizava.

O concerto causou-me uma impressão tão poética que decidi que era hora de terminar a leitura de Just Kids, tantas vezes começada e logo abandonada. Desta vez persisti e, terminada a leitura, o que tenho a dizer contraria a opinião da maioria das pessoas que leram o livro e com quem falei.

O início da narrativa é muito bom : “Quando era muito nova, a minha mãe levava-me a passear ao longo da margem do rio Prairie, no parque Humboldt (…). O rio estreitava antes de desaguar numa ampla lagoa e foi na superfície desta que vi um milagre singular. Um longo pescoço encurvado alçou-se de um traje de plumas brancas. Chapinhou na água luzidia, agitando as suas grandes asas, e levantou voo rumo ao céu.
Cisne, disse-me a minha mãe, ao dar-se conta da minha excitação.
Mas essa palavra, só por si, dificilmente atestava aquela magnificência ou transmitia a emoção que ele me produzira. A visão dele gerara um ímpeto para o qual eu não dispunha de palavras, um desejo de falar do cisne, de dizer algo acerca da brancura dele, da natureza explosiva do seu movimento, e do lento batimento das suas asas.”

O nível mantém-se ao longo da parte que conta a infância da autora. Várias vezes, Patti afirma-se como uma bookish person: “O meu amor pela oração encontrou aos poucos um rival no meu amor pelo livro (…). Fiquei completamente enamorada pelo livro. O que queria era lê-los a todos, e as coisas sobre as quais lia causavam-me novas ânsias”. Comigo também se passou de forma semelhante, embora o início do meu amor pelos livros tenha coincidido com um profundo e feroz ateísmo, que só há poucos anos começou a soçobrar.

No que diz respeito ao eixo principal do livro, a juventude partilhada com Robert Mappelthorpe, a qualidade torna-se mais oscilatória. Embora a história cative pela enorme lealdade dos dois artistas em gestação e haja também o inegável interesse do testemunho de alguém que viveu tão por dentro a cena artística de Nova Iorque em finais dos anos 60 e início dos 70, senti muitas vezes que algumas partes enumeravam apenas o que Robert e Patti iam fazendo e como iam sobrevivendo à fome e à descrença. Ou seja, senti que lhe faltava angústia e que isso acontecia de modo propositado. Pode-se argumentar que a beleza do livro reside precisamente nessa visão cândida que Patti parece nunca perder e que, de facto, pressenti nela no concerto do Coliseu. Também eu prezo muito a inocência (embora esta tenha mil artimanhas, como diria o Herberto Hélder) mas literariamente falando, isso não me basta.


O que não impede que eu continue a gostar da Patti. Lerei com certeza o M Train. Talvez aí se desnudem as angústias que aqui senti subtraídas.

domingo, 8 de novembro de 2015

albertine sarrazin



Querida Albertine,

Como não te amar na tua insubmissão, na tua liberdade livre ainda que manca?

Sigo-te no teu voo para lá de todos cárceres da alma e dos que nos querem sobrecarregar com o peso do seu amor. Ah, «acreditaste que me podias transplantar sentimentos, coser-me um pedaço do teu coração…». Aterras nove metros abaixo, no duro solo da liberdade. Partes o astrágalo e estás à mercê da bondade dos outros, tu que achas que tudo te é devido mas gostas de ser tu a servir-te.
«Quando a carcaça se liberta, o espírito, que até então era a única escapatória, torna-se, pelo contrário, escravo dos mecanismos. A humildade que fingíamos torna-se real.» A liberdade é árdua, pequena, tão cheia de artimanhas e prisões agridoces. Mas tu és dura na queda, recusas obstinadamente qualquer amarra ou gratidão. Só que desta vez a queda desdobra-se em duas e encontras o mais doce dos embates: o Amor.

Acabar esta garrafa e este maço, o resto não importa. Recuperei a esperança.
(…)
Enrosco-me em torno da chama estática que o álcool acendeu em mim, deixo o meu pé pendurado ao lado da roda, e agarro-me, com os dois braços, aos ombros de Julien.
É o início de um novo século.

É o início de um novo século: nem mais. A tua traquinice namora com as palavras, acerta-lhes no âmago. «Eu tinha-me evadido na altura da Páscoa, e nada ressuscitava, nada morria nem vivia.» A crueldade, tão essencial à tua sobrevivência, encontra a ternura. Tens ciúmes do sono do teu homem, do homem que te fez mulher, de corpo e coração.

Ele intimida-me como uma coisa sagrada ou proibida. É ele, Anne, é o teu amor, mas ao mesmo tempo um desses tipos que todas as manhãs saem da prisão ou que passam diante da porta do bar. Será assim tão natural, tão necessário amar precisamente este» O que é, de onde veio, essa coisa que passa e crepita do seu corpo para o meu?

Mas tu não te conformas, não foste feita para esse papel de mulherzinha que espera. Por isso, assim que podes andar, regressas à rua, à vida. Lá vais tu a andar, cambaleante, pelas ruas de Paris, à caça de clientes, e eu fico a admirar-te a ligeireza dos passos. Miúda, gosto do teu pensamento independente, do modo como retribuis a indiferença a que alguns te votam. «Não por desprezo, mas porque não sei forçar os ouvidos e os corações.»

Esta noite eu estava particularmente quezilenta. Recusei comer nas toalhas de papel do restaurante, disse que os lençóis estavam sujos e a água da torneira morna… Deitados, à distância de dez centímetros um do outro, evitávamo-nos. Jean foge das minhas palavras e eu das suas mãos. Ele gosta de mim e isso aborrece-me, pois só gosto da cama dele. Mas quanto mais implico, mais ele se cala, mais ele se desdobra em paciência e gentileza… E eu sinto-me envergonhada. Para arranjar coragem, escorropicho a garrafa que, desde que venho aqui, continua esquecida em cima do cosy obsessivamente limpo e arrumado, e decido ser simpática. De olhos fechados, aceito Jean, reconheço a sua ternura e o seu saber, imagino a felicidade que ele me deveria proporcionar e ao lado da qual passo, com uma expressão compungida no rosto. Ai, Julien, Julien…

(…)

Sejamos putas e digamos: «Querido…» O tipo aperta-me contra o seu peito magro e, com todo o seu sistema piloso eriçado e o nariz fremente, diz que me ama, que não sou uma rameira como as outras, que aquilo não é trabalho para mim e que ele fará tudo para me tirar daquela vida.
(…)
Ontem Jean, hoje este gajo! Que chatos que eles são com aqueles “amo-te”, como estão longe do amor!

Vai, Albertine, anda! Cicatrizada, de andar manco, curada de tudo, excepto do amor…


História de um amor


«Mas nada disto consegue dar conta do laço invisível pelo qual desde o início nos sentimos unidos. Podíamos até ser profundamente diferentes, que eu não sentia menos que qualquer coisa de fundamental nos era comum, uma espécie de ferida originária – há pouco eu falava de “experiência fundadora”: a experiência da insegurança. A natureza desta não era a mesma em ti e em mim. Pouco importa: para ti e para mim ela significava que não tínhamos no mundo um lugar assegurado. Teríamos apenas aquele que construíssemos.

(…)

Desde a tua primeira infância que viveste na insegurança (…). Estavas condenada a ser forte porque todo o teu universo era precário. Sempre te senti a força e, ao mesmo tempo, a fragilidade subjacente. Eu gostava da tua fragilidade superada, admirava a tua força frágil. Éramos ambos filhos da precariedade e do conflito. Éramos feitos para nos protegermos mutuamente contra uma coisa e outra. Tínhamos necessidade de criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que nos foi originariamente negado. Mas era necessário, para isso, que o nosso amor fosse também um pacto para a vida.

(…)


Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la juntos.»


«É a angústia, sabe? Esta fodida angústia que arrasta isto tudo…»


«Ao abrir a porta da gerência, envidraçada com vidro japonês, Erdosain quis retroceder; compreendeu que estava perdido, mas já era tarde demais.» Assim começa Os Sete Loucos de Roberto Arlt, um autor que me vinha recomendado pelo Cortázar, desde a minha última viagem pelas livrarias madrilenas.

Não é uma leitura divertida, muito pelo contrário. Apesar da verve quase folhetinesca, a narrativa jamais abandona a sua curva descendente, transbordando de angústia por todos os escaninhos: «A esta atmosfera de sonho e inquietude que o fazia atravessar os dias como um sonâmbulo, Erdosain chamara “a zona da angústia”.»

Os acontecimentos complicavam-se… e ele, entretanto, quem era no meio daquelas engrenagens que o iam cercando, adiantando-se cada vez mais na sua vida, submergindo-o num lodaçal que o exasperava? Além disso, havia aquilo… a incapacidade de pensar, de pensar através de um raciocínio de linhas nítidas, como são as jogadas de xadrez e uma incoerência mental que o enfastiava contra todos.
(…)
Tinha agora a sensação de que a sua alma se tinha apartado para sempre de todo o afecto terrestre. E a sua angústia era a de um homem que traz na sua consciência uma jaula sinistra onde, entre espinhas de peixe, bocejam, tingidos de sangue, elásticos tigres, afilando o olho para preparar o grande salto.

O livro está pejado de boutades geniais - como por exemplo, «Aquilo a que chamamos loucura é a falta de hábito do pensamento dos outros» -, impossível citar todas. Mas o magma essencial localiza-se nas muitas vidas humilhadas e ofendidas na sua aspiração mais vital. Todas as personagens falam de como esta vida não é o que devia ser e de como podia e devia ser muito mais: «Porque razão a felicidade humana ocupa tão pouco espaço?»

- Deve ser triste.
- Sim, é muito triste ver os outros felizes e ver que não compreendem que alguém será um desgraçado toda a vida. Lembro-me de, à hora da sesta, entrar no meu quarto e, em vez de tratar da roupa, pensar: Serei criada toda a vida? Já não me cansava o trabalho, mas sim os meus pensamentos. Nunca reparou como são obstinados, os pensamentos tristes?
(…)
- Você teria coragem de se matar?
- Não é o que você diz. Já não há coragem nem cobardia. Vem do fundo de mim a sensação de que o suicídio é como ir arrancar um dente. Quando penso assim, tudo em mim descansa. É certo que eu tinha pensado noutras viagens e noutras paragens, noutra vida. Há algo em mim que deseja tudo o que é bonito e delicado. Muitas vezes pensei que sim… suponhamos esses quinze mil pesos que vou levantar amanhã… podia ir para as Filipinas… para o Equador… para recomeçar a minha vida, casar-me com uma donzela milionária e delicada… estaríamos deitados à hora da sesta em espreguiçadeiras debaixo de coqueiros, e os negros oferecer-nos-iam laranjas descascadas. E eu olharia tristemente para o mar… Sabe, esta certeza que diz que para onde quer que vá olharei tristemente para o mar… esta certeza de que nunca mais serei feliz… no início enlouqueceu-me… e agora resignei-me…

«Já não há coragem nem cobardia.» Apenas uma angústia estranhamente familiar. No final, nem crime nem castigo. Nenhuma redenção, apenas simulacros. Ontem fui assistir a uma «homenagem» ao Vítor Silva Tavares, que dizia que uma obra de arte para ser obra de arte tem de ter sobretudo inferno. Pois aqui, sobeja.