sábado, 27 de agosto de 2016
domingo, 21 de agosto de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
espelho meu, espelho meu...
«Ardentemente cobiçados, não ultrapassando o tamanho de um prato, os espelhos são durante muito tempo o símbolo do luxo aristocrático, o instrumento das aparências. Servindo de traço de união entre natura e cultura, educam o olho e dão apoio às lições de boas maneiras. Do ver-se ao espelho decorrem não só o gosto pelo adorno e a atenção aos sinais da representação e da hierarquia social, como também uma nova geografia do corpo, que revela imagens desconhecidas – de costas, de perfil – e estimula o sentimento de pudor e de autoconsciência. Durante a Revolução Francesa, uma grande dama, quando a vêm deter a casa, não pensa em levar consigo para a prisão senão dois objectos: "Instintivamente, peguei num pequeno espelho com uma moldura de cartão e num par de sapatos novos." Na indigência do cárcere, a sua imagem é o único bem que ela possui, e esta derradeira coqueteria representa também o ser senhora de si própria.»
sábado, 18 de junho de 2016
A papoila e o monge
VIDA MONÁSTICA
(...)
Os que se assemelham a nada
assemelham-se
a Deus
assemelham-se
a Deus
(...)
Deus apaga
o nosso rasto
como se apagasse uma vela
o nosso rasto
como se apagasse uma vela
(...)
Primeiro dia de Primavera:
que distante me parece
o inverno
que distante me parece
o inverno
(...)
A noite escuta com a mesma indiferença
a toada solitária do monge
e a canção rouca das prostitutas
a toada solitária do monge
e a canção rouca das prostitutas
(...)
Debruçado na tarde
escuto o silvo sombrio da
solidão
escuto o silvo sombrio da
solidão
(...)
Deus está vazio
de todas
as suas obras
de todas
as suas obras
(...)
Toda a noite o gelo tombou
com o ruído
dos sonhos quebrados
com o ruído
dos sonhos quebrados
(...)
Perguntas quanto tempo deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre
a papoila na encosta
é vermelha sempre
(...)
O verão
ensina a mesma prece
à papoila e ao monge
ensina a mesma prece
à papoila e ao monge
(...)
José Tolentino Mendonça
Alguém pergunta o que é o amor. Diremos:
«A mãe, vestida de azul, estava
terrivelmente angustiada. Esperava um
sinal do jardim e o caminho não estava livre. Ninguém poderia entrar enquanto o
seu marido estivesse em casa. Ah, este maridos, este homem de quarenta e um
anos e já calvo! Que mau pensamento o teria posto tão pálido nessa tarde,
deixando-o pregado na cadeira, imóvel, inflexível e com o olhar fixo no jornal?
Ela não tinha um minuto de
descanso, eram onze horas. As crianças já estavam na cama há muito tempo, mas o
marido não se ia embora. O que aconteceria se o sinal soasse, se a porta se
abrisse graças àquela chavinha e os dois homens se encontrassem, face a face,
olhos nos olhos? Não ousava prosseguir o seu pensamento.
Franca pôs-se no canto mais
escuro da sala, torceu as mãos e finalmente disse:
– São onze horas. Se tens de ir
ao clube, é melhor ires já.
Ele levantou-se de imediato,
lívido, e abandonou a sala, e depois a casa.
No jardim, parou e ouviu um
apito, um breve sinal. Depois, passos na gravilha, uma chave na fechadura e
duas sombras projectam-se nas cortinas da sala.
Conhecia bem o sinal, os passos e
as duas sombras na cortina. Não era nada de novo.
Seguiu para o clube. Estava aberto,
havia luz nas janelas, mas não entrou. Durante dois quartos de hora andou para
cima e para baixo pelas ruas e depois, em frente ao jardim, durante dois
intermináveis quartos de hora. «Esperemos mais um quarto de hora», pensou e
prolongou-os de mais dois. Depois entrou no jardim, subiu as escadas e tocou à
porta.
Veio a criada e abriu, pôs a
cabeça de fora e disse:
– A senhora já está… – Subitamente calou-se, ao ver com quem estava
a falar.
– … já está deitada. Está bem. Quer
dizer à senhora que o seu marido chegou a casa?
A rapariga partiu. Bateu à porta
do quarto da senhora e transmitiu a ordem através da porta fechada:
– Venho dizer que o senhor
chegou.
A senhora pergunta de dentro:
– O que diz, o senhor chegou? Da
parte de quem o diz?
– Da parte do senhor, está em
casa.
Ouve-se então um lamento desesperado
dentro do quarto, uma conversa apressada, em voz baixa, uma porta que se aberta
e que se fecha. Depois tudo fica tranquilo.
O senhor entra, a senhora vai ao
seu encontro, com a morte no coração.
– O clube estava fechado – diz ele rapidamente, com compaixão e
piedade. – Mandei a criada para não te
meter medo.
Ela cai numa cadeira, aliviada. O
seu bom coração extravasa e pergunta ao marido como está de saúde:
– Estás muito pálido.
Aconteceu-te alguma coisa? O teu rosto está muito alterado.
– Não, estou a sorrir. A partir
de hoje, será a minha maneira de sorrir. Quero que esta careta seja o meu
sorriso.
Ela ouve estas breves, roucas
palavras e não o compreende. O que pretende ele dizer?
Mas, subitamente, ele abraça-a
com uma força terrível e murmura-lhe ao ouvido:
– E se lhe puséssemos os cornos,
a ele, que já saiu.. se lhe puséssemos os cornos?
Ela dá um grito e chama a criada.
Ele deixa-a com um sorriso calmo e seco, abrindo muito a boca e batendo com as
mãos nos joelhos.
De manhã, o coração da senhora
prevalece de novo e diz ao marido:
– Ontem à noite, tiveste um
comportamento estranho. Já passou, mas ainda estás pálido.
– Sim – responde ele, – é cansativo ter graça na
minha idade! Nunca mais o farei.»
«Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.»
«Até agora pude fazer-lhe compreender tudo... talvez apenas porque até esse momento eu me compreendi a mim mesmo... e, como médico, consegui sempre fazer um diagnóstico do meu próprio estado. Mas, a partir desse momento, fui assaltado como que pela febre... perdi completamente o domínio de mim próprio... ou antes, eu bem sabia que tudo quanto fazia era insensato, mas não podia ter mão em mim... Não me compreendia... não tinha senão uma idea fixa: atingir o meu fim... De resto, ouça: talvez, apesar de tudo, eu lhe consiga fazer compreender... O senhor sabe o que é o amok?
– Amok?... Creio recordar-me... é uma espécie de embriaguez... entre os malaios.
– É mais do que embriaguez... é a loucura, uma espécie de raiva humana, literalemente falando... uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcóolica não se pode comparar. Eu próprio, durante a minha permanência ali, estudei alguns casos – quando se trata dos outros, a gente é sempre perspicaz e positiva – mas sem nunca poder descobrir o medonho segredo da sua origem... A causa é, sem dúvida, o clima, esta atmosfera densa e asfixiante que oprime os nervos, como uma trovoada, até que eles acabam por descarregar...»
terça-feira, 14 de junho de 2016
domingo, 24 de abril de 2016
Livros do caralho
Tudo
depende da dosagem, já dizia o Deleuze.
Ora,
a mim só me interessam as doses mais fortes. Acontece-me sempre assim e já
aceitei esta minha triste condição. Na literatura, no amor, na embriaguez – tudo
ou nada. Só me agradam bebidas fortes, whisky e aguardentes, homens corajosos e
poéticos (naturalmente que estou solteira há muitos anos), paixões-abismo e
livros que são como adagas fundas, labaredas cortantes ou sismos vulcânicos. Em
suma, tenho um pobre coração que se alimenta apenas de machadadas. Que os
deuses tenham piedade de mim.
Mas,
oh, quão feliz eu sou, quando encontro a dose certa! Nessas ocasiões, cada vez
mais raras (once you get locked into a
serious drug collection, the tendency is to push it as far as you can), toda
a minha insatisfação profunda desaparece e o meu corpo ascende aos céus, numa
alegria rodopiante e desumana. Então, tenho a certeza, sou mais luminosa que os
demais e raros são os que me alcançam no meu contentamento tão puro. Está
escrito por todo o grande texto da cultura – só os que pernoitam nas
profundezas subterrâneas do inferno podem conhecer o êxtase mais elevado –, e
assim parece ser.
O
meu último êxtase deu-se com um livrinho quase esquecido, Confusão de Sentimentos, de Stefan Zweig. Oito histórias curtas que
me ofertaram oito noites plenas de solidão aconchegada. Porque, apesar da
retórica hegemónica, a solidão é um capital poderoso e faz muita falta. Quanto
ao conteúdo do livro, não me pretendo alongar muito pois, como dizia o Camões, melhor
é experimentá-lo que julgá-lo. Direi apenas que todas as histórias são
sublimes, que todas falam de uma determinada confusão de sentimentos, do
mistério singular que compõe as emoções, e que o Zweig, contemporâneo de Freud,
é um dos melhores dissecadores da alma humana que tive o prazer de ler.
Todos
os contos são excelentes, nenhum se distingue como menor, mas houve um em
particular que me comoveu noite adentro. Chama-se Coração Destroçado e descreve de forma magistral, passo a passo,
como um coração se parte e se aparta da comunidade humana, para se tornar
apenas um órgão fisiológico.
Aos poucos,
recuando passo a passo, a dor foi-o abandonando: a mão infernal deixara de lhe
revolver o corpo martirizado como uma garra em brasa. Mas mantinha-se um
não-sei-quê surdo, que não podia chamar-se propriamente dor, algo indefinido,
estranho, que lhe pesava e parecia escavar uma galeria dentro de si. O velho
jazia, de olhos fechados, toda a sua atenção concentrada naquilo que assim
suavemente o moía e consumia: parecia-lhe que aquela força estranha e
desconhecida cavava qualquer coisa dentro de si, primeiro com um instrumento
aguçado e, agora, com outro menos pontiagudo; tinha a impressão que algo se
desagregava e desligava, fibra a fibra, no interior do corpo fechado. Já não o
dilacerava com a mesma selvajaria. Já não lhe causava dor. No entanto, sentia
qualquer coisa a arder, a corromper-se silenciosamente dentro de si; qualquer
coisa começava a extinguir-se. Tudo o que vivera, tudo o que amara se apagava
na lenta combustão daquela chama, esvaindo-se em fumo negro antes de cair,
exausto e carbonizado, nas cinzas mornas da indiferença. Alguma coisa se estava
a passar, sentia-o surdamente, alguma coisa se estava a passar enquanto
permanecia assim deitado e passava em revista, ansioso, a sua existência. Qualquer
coisa estava a chegar ao fim. O quê? Espreitava e voltava a espreitar para
dentro de si próprio.
E, pouco a
pouco, começou a destruição do seu coração.
E
agora, regresso à vidinha, com as mãos vazias e a alma rota. Até à próxima
dose.
Little Girl Blue
esqueçam lá a matilde campilho
Uma
vez quiseram-me louca, a arder
e
eu ardi com a discrição de
um
fogo posto
porque
a cura vai na mesma direcção
que
a nossa febre
Ateei-me
como um relâmpago inesperado
à
luz do dia
Eu
parecia uma basílica em chamas
de
altar por estrear, a arder sozinha
Sempre
me recusei a arder como os outros
Ardam-se
mais à esquerda ou mais à direita
mais
a vento de sul ou de norte,
mas
labaredem-se, sejam fogos que ardem!
Porque
pior que a desdita loucura
é
toda a gente andar em brasa
mas
ninguém chegar a incêndio
E
no fim são todos cinza
*
As
deusas tinham todas ficado em casa
por
decência
não
mergulharam neste lodo onde
circulam
os patos e desmaiam as cicatrizes
das
árvores.
Não
mergulharam na ferocidade de me
ter
aqui sentada
em
absoluta explosão de mim
em
absoluta e violenta sintonia
dos
átomos, dos pardais,
da
tua lembrança, disparada em flecha.
Falei-lhes
do abandono.
Falei-lhes
de incontrolável.
Podia
espetar o lápis no peito e falar só
com
os olhos
porque
sou a intenção
sou
o acolhimento em útero de todas as
mulheres
sentadas frias
e
flores.
Quero
o que é absolutamente sujo
porque
dói.
Sou
mais plena quando desaparecem
as
últimas gotas limpas e o sol ataca em
uníssono
mundo.
Prefiro
o que é absolutamente puro
porque
mata
devagarinho,
incontrolavelmente,
como
um final suspenso na boca à tardinha,
sem
deus nem medo.
Falei-lhes
da saudade muda e da
destruição
dominical,
que
sou uma vida inteira em melancolia
de
um só pé
em
desassossegada observação de patos.
As
deusas não vieram e neste jardim não
há
alma sentada que não me estremeça um
dente.
Falei-lhes
de entrar pelo amor adentro com
a
vertigem dos afogados e radiosa loucura.
Falei-lhes
dos meus dedos que inscrevem o
esconso
e da minha cabeça inconcreta.
Disse-lhes:
não
contrario a vontade do que está morto
mas
a minha imaginação dói-me tanto
na
boca que me refaz amantes,
incendeia-me
poemas.
A
minha imaginação vive sozinha, sovada,
entre
este laguinho lamacento e os subúrbios
do
Alto Minho.
Toda
esta minha indecência não me deixa
a
condição de ser deusa.
Esta
minha galopante indecência é a
maravilha
que me curva as costas e
a
tranquilidade de estarmos sós,
perdidos
na consagração da verdade efémera.
E
tudo é outro nome que não este.
*
Quanto
mundo há nesta sala toda disposta
em
grandes pinturas além-dedos
das
minhas tardes noites, indubitáveis
terríficas.
Quanto
tremor neste lado e no outro
e
naquela parede e na outra
e
naquela porta acolá e ainda mais um
empurrão
no móvel para abafar tudo isto
como
quem deseja, impossível,
o
incógnito lado de lá.
Do
lado de cá, despeja-se uma garrafa
transformada
depois em pensamentos
rasgados
no lado de dentro
e
numa flor nascida ali, junto à parede
cansada,
cheirada em detergente seco.
Uma
gata que pula além-chão atira-me
às
consequências de um riso inato.
Há
coisas inatas por lados demais
e
são essas as que puxam as grandes
rodas
e as desviam dos buracos.
Eu
tenho medo.
Anda
tudo a desviar-se dos buracos
quando
estamos, em tudo, dentro deles.
Que
sabemos nós desta tarde?
Que
sabemos nós, dos pés fora da cama,
a
calçarem-se sempre em par, coitados,
sempre
comandados, sem vontade?
O
que nos comanda a nós que obrigamos
os
nossos pés a existirem?
Como
esta caneca cheia.
Abro
a porta às gatas ciente dos meus
pés,
mas só um vai lá fora.
E
depois há o momento em que regressa,
com
as suas patinhas comandadas e sem
vontade,
as
suas orelhinhas comandadas,
o
seu miar comandado,
a
cabecinha comandada,
o
seu amor comandado
numa
casa comandada.
E
eu lanço-me a esta laranja e descasco-a
comandada,
inata, voraz de nona sinfonia,
de
solidão, de sexo, de paradoxos,
rebentada
em mim.
E
quando me deito sou centopeia de
mil
almas que se vão juntando,
perdidas.
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