sábado, 14 de julho de 2018
floresta vermelha fora
El lenguaje de Hänsel
Perdida en la espesura
del lenguaje,
dejaste caer guijarros mínimos,
signos de salvación,
para que los recogiese el advertido.
Pero, incomibles,
se los traga la tierra.
Y sigues penetrando
en la floresta silenciosa
aunque la veas cerrarse
tras tuas pasos.
Ida Vitale
quinta-feira, 31 de maio de 2018
O que é do mar se os rios se recusam?
Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância
absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem
ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram
o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura
do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem
os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta
rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo:
o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.
(…) Nem a vida é
mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não
são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana – força surda a crescer na dor da
perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora
em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir
armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz – mas preservando toda a sua
liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve
livros?
(…) mas onde está hoje a
floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos
rígidos moldes da sociedade?
Sou obrigado a responder:
em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no
interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir
ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me
esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as
palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói
prisões expressa-se sempre pior do quem se bate pela liberdade. E no dia em que
só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode
fender o silêncio vivo.
É este o meu único
consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a
lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me
inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma
filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.
quarta-feira, 30 de maio de 2018
quinta-feira, 24 de maio de 2018
under your spell
“Digo
isto aqui e agora para poupar o leitor a uma desilusão. Não sou um homem moral
(embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou
nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das
circunstâncias e dos meus próprios actos; mas sou observador. Como uma vez
disse o meu querido Akutagawa Ryunosuke, eu não tenho princípios; só tenho
nervos. Aquilo que se segue, por conseguinte, tem mais que ver com o olhar do que com as convicções,
incluindo as respeitantes ao modo de organizar uma narrativa (…). Porque esta é
a cidade do olhar; as nossas outras faculdades limitam-se a tocar um débil
segundo violino. (…)
No
Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus
inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um
gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, num céu
cinzento-pérola. Abrimos as janelas num gesto largo, e o quarto fica
instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em
parte de oxigénio húmido, em parte de cafés e preces. Por muitos e por mais
variados comprimidos que tenhamos para tomar esta manhã, sentimos que ainda não
está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais
que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento
que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança,
ou pelo menos um futuro. (Disse Francis Bacon que a esperança é um bom pequeno-almoço
mas uma fraca ceia.)
(…)
Para os
casos mais benignos de qualquer dos males, uma estadia aqui constitui a melhor
das terapias, e o turismo em Veneza é isso mesmo. Dorme-se bem nesta cidade,
porque os nossos pés se esfalfam a esmagar a agitação da psique ou, o que vem a
dar no mesmo, uma consciência pesada.
(…)
E prometi
a mim próprio que se alguma vez viesse a deixar o meu império, se alguma vez
esta enguia fugisse do Báltico, a primeira coisa que faria seria vir a Veneza,
alugar um quarto no rés do chão de um palazzo,
para que as ondas levantadas pela passagem dos barcos me salpicassem a janela,
escrever duas ou três elegias apagando cigarros nas lajes húmidas do chão,
tossir e beber e, quando o dinheiro escasseasse, em vez de apanhar um comboio,
comprar uma pequena Browning e
estoirar ali mesmo os miolos, incapaz de morrer em Veneza de causas naturais.
(…)
Eu diria,
porém, que a ideia de converter Veneza num museu é tao absurda como a ânsia de
a revitalizar com sangue novo. Para começar, aquilo a que se chama sangue novo
não passa nunca, no fundo, de velha urina. E, em segundo lugar, esta cidade não
se presta a ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior
obra-prima que a nossa espécie criou.
(…)
Julgo,
porém, que se poderá falar de fidelidade quando alguém volta ao lugar do seu
amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido. Como qualquer
virtude, de facto, a fidelidade só tem valor se for instintiva ou
idiossincrática, e não racional (…). O amor é um sentimento desinteressado, uma
rua de sentido único.
Da zoofilia
Tenho a consciência que tenho alguns preconceitos estúpidos. O maior deles será ter sempre recusado ler banda desenhada. Tal recusa não se justifica pelo demérito da BD - tenho a certeza que existirão obras excelentes - mas por uma incapacidade minha em ler simultaneamente textos e imagens. Creio que prefiro apenas texto, para manter uma certa liberdade anárquica das minhas imagens mentais.
Outro preconceito será considerar o Luís Sepúlveda um autor para adolescentes. Mas, ao ouvir duas pessoas falar n' O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR num curto espaço de tempo, trouxe um exemplar da biblioteca: eich, durou uma tarde e a cabeça manteve-se entre as orelhas.
A Porta
– Então,
por vingança, juntei-me ao barbeiro. Não lhe contaram? Também me teria juntado
ao diabo, se me persuadisse de que algum homem poderia amar-me, mas devo ter
alguma doença, porque esse não só me deixou, como me roubou, e eu nem era feia.
É-me indiferente. Eu não morri.
Calou-se por uns instantes,
cheirando uma folha de menta que esmigalhava entre os dedos.
– A gente não morre facilmente,
aprenda isso, e mais tarde, aquilo a que se resistiu torna-nos tão inteligentes
que desejamos ainda assim, voltar a ser estúpidos, completamente estúpidos.
«e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro»
Um livro
muito interessante, sobretudo para descobrir outros textos, como por exemplo O
Sonho do Aposento Vermelho de Cao Xuequin, A Tragicomédia de Calixto e Melibea,
O Livro da Flor de Ibn Dawud, O Colar da Pomba de Ibn Hazm, a heroína Cynthia
de Propércio e por aí adiante.
sexta-feira, 11 de maio de 2018
A alma humana é porca como um ânus
A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!
Álvaro de Campos
segunda-feira, 7 de maio de 2018
O coração
No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»
Stephen Crane
La locura que viene de las ninfas
«De
pronto, se abre nuestros ojos el amplio abanico de la posesión griega. Los
griegos llamaban a quien está poseído kátochos,
palabra descriptiva que corresponde al uso moderno de “poseído”. Pero,
exactamente como para el léxico óptico, donde reconocemos una multiplicidad de
términos y una fineza de diferenciaciones que se han perdido en nuestras
lenguas, así para la posesión nos encontramos frente a una ramificación de la
terminología que se funda en un conocimiento del fenómeno mucho más articulado
y lúcido que el nuestro. Si queremos entender algo del secreto de las ninfas,
tendremos que analizar toda clase de testimonios para que se vuelva claro al
menos en qué se distinguía el rapto por parte de las ninfas de las otras formas
de la posesión.
[…]
La mente
era un lugar abierto, sujeto a invasiones, incursiones, súbitas o provocadas. Incursio, recordemos, es término técnico
de la posesión. Cada una de esas invasiones era señal de una metamorfosis. Y cada
metamorfosis era una adquisición de conocimiento. Por supuesto no de un
conocimiento que queda disponible como un algoritmo. Sino un conocimiento que
es un páthos, como Aristóteles
definió a la experiencia mistérica.
[…]
De hecho,
cuando los seres divinos desaparecieron – al menos ante los ojos de quien ya no
sabía advertir su presencia – junto con ellos se desvaneció el cortejo de los
seres intermedios: ángeles, demonios, ninfas. Para muchos fue un alivio. La vida
se mostraba menos peligrosa y más previsible. Y la palabra nymphólēptos cayó en desuso. En cuanto a las ninfas, volvieron a
habitar en algún nicho solitario en la historia del arte. Planteo entonces una
hipótesis: quizá el escándalo que Lolita
suscitó en algunos cuando apareció – y al parecer continúa suscitando – se debía
sobre todo al hecho de que Nabokov obligaba a la mente, con los medios
traicioneros y matemáticos del arte, a despertarse a la evidencia, a la
existencia de esos seres – las ninfas – que pueden también presentarse bajo la
forma de una chiquilla estadounidense con calcetines blancos. Más que el sexo,
el escándalo era la literatura misma.»
Be my knife
DAME
Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra
No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice
Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!
Carlos Edmundo de Ory
Josefina ou O Povo dos Ratos
«A nossa
cantora chama-se Josefina. Quem não a ouviu não sabe o que é o poder da canção.
A todos, sem excepção, arrebata o seu canto, o que será de louvar mais ainda se
tivermos em conta que no geral a nossa espécie não gosta de música. […]
Já pensei muitas vezes sobre o
que de facto significa esta música. Nós não somos nada musicais; como é
possível então que compreendamos o canto da Josefina ou, visto que a Josefina
acha que não a compreendemos. A resposta mais fácil seria que a beleza deste
canto é tão grande que até o mais embotado dos sentidos é incapaz de lhe
resistir, mas esta resposta não satisfaz. Se assim fosse, então o seu canto
teria de, instintivamente e sempre, dar a impressão de ser qualquer coisa fora
do normal, a impressão de que há qualquer coisa a sair daquela garganta que
nunca antes ouvimos e que não temos sequer capacidade para ouvir, qualquer
coisa cuja audição só a Josefina e mais ninguém nos pode dar a ouvir. Mas é
precisamente isso que na minha opinião não acontece, não o sinto e também não
observei nada de parecido nos outros. Entre nós, no nosso círculo de confiança,
confessamos uns aos outros abertamente que o canto da Josefina enquanto canto
não representa nada fora do normal.
Será aliás sequer um canto? […]
Não será se calhar apenas um assobio? E é claro que todos reconhecemos um
assobio, é a grande habilidade artística do nosso povo, ou talvez até já nem
seja uma habilidade antes uma forma de expressão característica da nossa vida. Todos
nós assobiamos, mas, naturalmente, ninguém pretende fazer passar isto por arte,
assobiamos sem prestar atenção, sim, sem repararmos e existem até muitos de nós
que nem sequer sabem que o assobio é uma das nossas particularidades. Se fosse
então verdade que a Josefina não canta mas apenas assobia e se calhar até, como
pelo menos julgo, que não ultrapassa as fronteiras do comum assobio – talvez a
sua força não seja sequer suficiente para chegar ao nível deste assobio comum,
ao contrário de um cavador que é capaz de assobiar sem esforço durante um dia
inteiro de trabalho – se tudo isto fosse verdade, então refutava-se o pretenso
título de artista da Josefina, mas ficaria ainda por decifrar o enigma da
enorme impressão que provoca.
Mas acontece que ela não produz
apenas um assobio. Se nos colocarmos a uma grande distância dela e nos pusermos
à escuta, ou ainda melhor, se nos sujeitarmos à seguinte experiência que seria,
estando a Josefina a cantar em conjunto com outras vozes, tentar identificar a
sua voz, então ouviríamos invariavelmente um mero assobio, que poderá no máximo
destacar-se pela sua delicadeza e fragilidade. Mas se estivermos à sua frente,
então já não se trata de um simples assobio; para se compreender melhor a sua
arte é preciso não só ouvi-la mas também vê-la. Mesmo que fosse apenas o nosso
assobio de todos os dias, existe antes de mais a pecularidade de se tratar de
alguém que se colocou com solenidade de pé para fazer precisamente aquilo que
normalmente faz. Abrir uma noz, toda a gente o sabe fazer, não é nenhuma arte,
por isso ninguém arriscaria convidar público e diante dele, para o entreter,
pôr-se a abrir nozes. Se mesmo assim essa pessoa o fizer e conseguir atingir o
seu objectivo, então não poderá falar-se apenas de abrir nozes. Ou fala-se de
abrir nozes mas verifica-se que esta foi uma arte que nos passou despercebida porque
a dominávamos completamente e que este novo abridor de nozes nos mostrou pela
primeira vez a verdadeira essência do acto, chegando mesmo a ser mais útil para
o efeito pretendido que ele fosse menos eficiente a abrir nozes do que a
maioria de nós.»
sábado, 21 de abril de 2018
Veneza, ainda
“Então,
ao passar pelas ilhas da laguna que se vão perdendo na distância, é-se tomado
por uma sensação curiosa – uma sensação de alívio, e também de tristeza, mas
profundamente impregnada de perplexidade. Veneza, à semelhança de muitas
amantes belas ou muitos vinhos densos e fortes, nunca se abre totalmente
connosco. Tem um passado enigmático, um presente contraditório e um futuro
toldado por incertezas. Deixamo-la saciados mas confusos, como um jovem que,
afastando-se feliz de um abraço, se apercebe subitamente de que o pensamento da
rapariga estava noutro lado e reflecte por momentos no que raio terá visto
nela.
[…]
No
entanto, o fascínio de Veneza não depende da arte nem da arquitectura. A cidade
tem algo de curiosamente sensual, quando não é mesmo sexual. «Veneza
envolve-nos», disse um francês do século xix, «com um encanto tão terno como o de uma
mulher. Outras cidades têm admiradores. Só Veneza tem amantes.» […]
Penso que
isto se deve em parte à estrutura orgânica. Veneza é um todo maravilhosamente
compacto e funcional: é perfeita, pequena, completa, firmada mesmo no centro de
uma laguna em forma de foice como um velho monstro dourado dentro de um charco.
[…]
Em parte
é também uma questão de luz. Os pintores venezianos primavam pelo domínio do chiaroscuro, e Veneza sempre foi uma
cidade translúcida, um lugar de ocasos arrebatadores e manhãs iridiscentes, por
muito monocromáticos que possam parecer os seus longos invernos. […]
Por outro
lado, é uma questão de textura. Veneza é um lugar de materiais voluptuosos, e
nos edifícios proliferam embutidos de mármore e pórfiro, mármore cippolino,
verde antico, jaspe, mármore grego, granito e alabastros polidos. […] Até mesmo
as águas de Veneza de vez em quando parecem seda furta-cores. […]
A
atracção de Veneza é, ainda, uma questão de movimento. Veneza perdeu aquele
encanto sedoso e onírico, mas continua a ter uma movimentação sedativa e
sedutora. Ainda é uma cidade matizada, trémula e cintilante, onde a luz do sol
brilha com suavidade por baixo das pontes e as sombras avançam lentamente ao
longo dos passeios. O movimento de beleza nada tem de rude ou de brutal. A
gôndola é um veículo de locomoção belíssima, os barquinhos dos canais
deslocam-se com um staccato delicado […].
E, em
última análise, a glória daquele lugar está no facto grandioso de Veneza em si
mesma: o esplendor e a estranheza da sua história, a ampla e melancólica laguna
que a rodeia, o intricado esplendor marinho que faz dela, ainda hoje, uma
cidade única. Quando deixarmos finalmente aquelas águas e arrumarmos o nosso
chapéu de palha, o antigo deslumbramento de Veneza perdurará na nossa cabeça; e
o cheiro a lama, incenso, peixe, antiguidade, imundície e veludo ficar-se-á
pelas narinas; e o suave marulhar dos canais secundários continuará a ecoar nos
nossos ouvidos; e aonde quer que se vá na nossa vida, sentir-se-á sempre atrás
de nós uma presença rosada, acastelada e cintilante, as cúpulas, os cordames
dos barcos e as torres inclinadas da Sereníssima.
É isto o
romantismo! É isto o vinho luxurioso e escuro de Veneza! Não admira que o
marido de George Eliot tenha caído no Grande Canal.”
quinta-feira, 12 de abril de 2018
poça de água
Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após
a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.
Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens reflectidas
ou talvez mais além.
Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à
superfície.
Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.
não teremos pois a leviandade de contestar
“Está na ordem do universo que um
espírito único, por todo o lado espalhado, um sentido em tudo presente, de
todas as partes vindo para se apossar das coisas, sinta estes efeitos e paixões
que em todas as coisas nos é dado observar.
[…]
É por esta razão que os deuses nos
falam através de imagens ou de sonhos, que nós, por falta de hábito, por
ignorância e pela obtusa debilidade das nossas faculdades, chamamos de enigmas,
quando são estas as [verdadeiras] palavras por excelência e os próprios confins
das coisas que se podem figurar.
[…]
Certos espíritos habitam os
corpos humanos, outros os corpos de outros animais, plantas, pedras, minerais;
em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência – nem o
espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de
espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito
flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e,
por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua
composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou
corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e
actualizações.
[…]
Eis como por vezes somos mais
atingidos e mais cruelmente feridos por coisas cujos golpes não sentimos do que
por aquelas que no-los fazem sentir […]. Não teremos pois a leviandade de
contestar à partida as teses de certos platónicos e de todos os pitagóricos,
que concebem o indivíduo como uma colecção de seres dotados de vida própria:
morrera um deles, mesmo sendo de todos o principal, que os outros lhe
sobreviveriam ainda por muito tempo.”
Veneza
Passados 15 anos, regressei a
Veneza. Desta vez, causou-me uma impressão muito profunda que se prolongou
oniricamente, e até ousei um passeio de gôndola. Talvez que aos 20 anos eu
fosse demasiado insensível aos encantos de Veneza. Ou talvez seja uma daquelas
cidades que, como o amor, se aprecia melhor na maturidade. Não faço a menor
ideia. Enquanto não encontro esclarecimento, vou deambulando pela imensa
literatura de viagens dedicada à Sereníssima, ou seja, ainda que de maneira
estética, prolongo aí a minha estadia.
A cidade
muda totalmente de noite. Uma das mais animadas que conheço durante o dia,
quando o Sol se põe tudo desaparece ou se fecha, e à medida que as horas
avançam Veneza vai ficando cada vez mais deserta e mais possuída pelos sons
individuais. O ruído dos passos cruza-se com o bater da água e a aparência de
cenário de qualquer recanto acentua-se, pois nenhum cenário o parece tanto como
quando não tem acção e está vazio. Mas o que na verdade faz mudar Veneza é a
própria escuridão (…). A água é o elemento fundamental da cidade, o que de dia
devolve e potencia a luz e a cor (vermelho-sanguíneo, amarelo, branco) das
casas e dos palácios. De noite, pelo contrário, quase nada devolve. Absorve.
(…)
Do seu
extremo ocidental ao seu extremo oriental (a maior distância possível), Veneza
percorre-se em não mais que uma hora, a andar bem e sem se ofegar. Mas quase
ninguém pode percorrê-la assim, não tanto porque seja difícil e até impossível
encontrar uma linha mais ou menos recta sem vacilar cem vezes no trajecto, como
por culpa do que – com pedantismo – poderíamos chamar a sua inacabável fragmentação ideal.
Veneza
produz simultaneamente duas sensações na aparência contraditórias: por um lado,
é a cidade mais homogénea – ou, se se prefere, harmoniosa – de todas as que
conheci. Por homogénea ou por harmoniosa entendo principalmente o seguinte: que
qualquer ponto da cidade, qualquer espaço luminoso e aberto ou recanto
escondido e brumoso que, com água ou sem ela, entre a cada instante no campo
visual do espectador é inequívoco,
isto é, não pode pertencer a nenhuma outra cidade, não pode confundir-se com
outra paisagem urbana, não suscita reminiscências (…).
Por outro
lado (e aqui está o contraditório), poucas cidades parecem mais extensas e
fragmentadas, com distâncias mais intrasponíveis ou lugares que provoquem uma
maior sensação de isolamento.”
Do inconsciente óptico
“Diz-se que o melhor design é
invisível, o neutro. Mas é ilusão, claro. Seria paradoxal uma disciplina tão
dedicada à identidade não ter também a sua. Esta construção de identidade é o
design que o design não vê: um processo contínuo, contraditório, obsessivo,
instruído, mas inconsciente.”
Especialista por excelência no fabrico de identidades, o design é uma disciplina fundamental do nosso quotidiano. No entanto, a reflexão sobre a sua própria identidade não é abundante. Nos doze ensaios que compõem este livro, Mário Moura convoca a crítica do design para analisar os seus impensados e a cultura contemporânea, à semelhança da melhor tradição da crítica literária e da crítica de arte. Com várias incursões pela literatura, política, história, geografia e pelo cinema, o autor desmonta o património discursivo do design e demosnta como este é formado e reformado por conceitos de raça, classe, género, autoria e periferia, entre outros.
sexta-feira, 16 de março de 2018
Антон Павлович Чехов
Acontecem-me coisas únicas a ler
Tchékhov, mestre que nunca me deixa desamparada. Certos contos gravam-se na
minha memória como se eu própria tivesse feito parte do enredo. E não deixa de
ser curioso e inédito que, detestando eu qualquer tipo de moralismos, me deixe
arrebatar de tal modo por estas histórias que acabo inevitavelmente por tomar
partido, afunilando toda a complexidade daquele pedaço
particular da realidade que o conto recorta. Neste segundo volume aconteceu-me
sobretudo com três contos. Com a Anna ao
pescoço, a minha compaixão pela rapariguinha boazinha que sacrifica a sua
vida ao casamento transformou-se subitamente em triunfo agridoce: foda-se tudo,
egoístas de merda! Já com o conto Anjinho,
o caminho foi inverso: abespinha-me aquela mulherzinha, sempre a precisar de um
amor para ter mundo e, subitamente, eis-me de olhos marejados, entendendo os
mecanismos da sua alma e torcendo para que ela tenha aquilo que tanto deseja.
No magistral Enfermaria n. 6, alinho
com Ivan Dmítritch, assanham-me as visitas daquele médico insonso, a sua
sensatez e o seu estoicismo de pacotilha:
- Não, não sou filósofo, mas é isto que cada
qual tem de defender, porque é sensato.
- Não, o que eu quero saber é por
que razão o senhor se considera competente no assunto da consciencialização, do
desprezo pelo sofrimento e assim por diante! Será que alguma vez sofreu? Faz
ideia do que é o sofrimento? Oiça: açoitavam-no quando era criança?
- Não, os meus pais tinham
repugnância pelos castigos corporais.
- Pois a mim, o meu pai açoitava-me
cruelmente. O meu pai era um funcionário bruto, hemorroidal, com nariz comprido
e pescoço amarelo. Mas, falemos antes de si. Em toda a sua vida, ninguém lhe
tocou com um dedo, ninguém o o aterrorizou nem brutalizou; é saudável como um
touro. Cresceu sob a protecção do pai e estudou por conta dele, e depois, logo
a seguir, arranjou uma sinecura. Vive há mais de vinte anos numa casa gratuita,
com aquecimento, iluminação, criadagem, tem o direito de trabalhar como e
quando lhe apetece, e mesmo de não fazer nada. Pela sua natureza, é um homem
preguiçoso, mole, por isso tentou organizar a sua vida de modo a que nada o
incomodasse e o fizesse mexer. Entregou tudo ao seu auxiliar-médico e a outros
canalhas, e deixou-se ficar sentado no quentinho, sossegado, acumulando
dinheiro e lendo livrinhos, deliciando-se com reflexões sobre todo o género de
disparates sublimes e (Ivan Dmítritch olhou para o nariz vermelho do doutor)
bebendo sempre o seu copinho. Numa palavra, não viveu a vida, não a conhece,
absolutamente, e tem uma noção da realidade apenas teórica […] Um jovem
pede-lhe um conselho: o que fazer, como viver;
antes de lhe responder, uma pessoa pensaria um bocado, mas o senhor já
tem a resposta pronta: aspira à consciencialização e ao verdadeiro bem. Mas o que
é esse fantástico «verdadeiro bem»? A resposta, obviamente, não existe. Mantêm-nos
aqui atrás das grades, deixam-nos apodrecer, torturam-nos, mas isso é
maravilhoso e sensato, porque entre esta enfermaria e um gabinete quentinho e
acolhedor não há diferença nenhuma. É uma filosofia muito cómoda: não precisa
fazer nada, a consciência está limpa e pode sentir-se filósofo… Não, meu
senhor, isso não é filosofia nem pensamento, nem largueza de vistas, é antes
preguiça, faquirismo, uma modorra idiota… Sim! – voltou a zangar-se Ivan
Dmítritch. – Despreza o sofrimento, mas se, digamos, lhe entalassem o dedo na
porta, berraria a plenos pulmões!
No entanto, quando o médico se
entala por fim, lá se foi o meu desprezo, estou inteiramente do lado dele, a
berrar. Talvez Tchekhóv me provoque tanta adesão e oscilação de humores porque
também eu sou um idiota, porque sofro,
estou insastisfeito e me espanto com a infâmia humana.
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